A Morte Das Areias do Saara
163 Trovões no Deserto
Notas iniciais

A brisa do mar carregava nos braços do vento pequenos grãos de areia e o cheiro de uma bela praia. Poderia muito bem ser um cenário paradisíaco de férias, mas ao invés disso, era o cenário de uma batalha divina. Hathor e Ísis jaziam no chão, engolidas pelo sono proferido por Hipnos. Não muito longe, Anúbis estava desacordado, mas um pequeno movimento de seu mindinho indicava que o desmaio talvez não fosse tão profundo ou quem sabe estivesse com momentos contados. Seu estado físico também não era dos melhores. Seja lá o que tinha acontecido quando Set estava fora, Anúbis colecionava ferimentos do acontecimento. Seus membros estavam enegrecidos e descascando, um sinal de queimadura grave causada por eletricidade.
Ainda naquela bela praia, Tifão e Set se encararam, cada um esperando o que o outro ia fazer e cada um se perguntando o que si mesmo ia fazer. Set se viu numa situação que ele mesmo considerou surpreendente. Parecia até que ele era a última linha de defesa do Egito, situação curiosa. Claro que já havia aprontado e continuava aprontando as mais diversas coisas com os outros deuses, mas não era como se estivesse a fim de deixar Tifão entrar no Egito.
Já passava na cabeça dele quem poderia estar ainda de pé para ajudá-lo sem que tivesse que sair dali para chamar alguém que já não estava ali. Via Anúbis largado no chão, longe, mas ele parecia tão desacordado quanto esquecido. Lembrou-se de Hapi, a quem não via desde quando primeiro identificou a aproximação de Tifão e enviou para chamar os demais. Será que o garoto tinha se acovardado e nem ido enfrentar o gigante? Traumas do confronto a séculos pássaro que ceifou a vida de Hapi e trouxe a seca pro Egito?
Naqueles milésimos de segundos, um plano já se formava na cabeça de Set. E se Hórus tiver morrido? Se Set saísse como vitorioso e salvador do Egito naquele confronto, talvez conseguisse moral o suficiente para conseguir uma importância muito maior que poderia ser usada muito utilmente dependendo do nível dela. Um sorriso escapou pelos lábios de Set ao notar isso. Contudo, esse plano incluía derrotar Tifão, quem ele já havia notado que não era um adversário fácil sob nenhuma ótima.
— Pode ver que os outros dos seus já caíram. — disse Tifão — Acha mesmo que pode me derrotar?
— Você teve que apelar para ajuda de Hipnos pra lidar com Ísis e Hathor e está aí, se vangloriando como se tivesse feito tudo sozinho. — respondeu Set.
— Não sei do que está falando. — falou Tifão, se fazendo de trouxa.
— Não ache que eu não vi. — enfatizou Set, segurando uma risada pela tentativa tola de Tifão de disfarçar a participação de Hipnos — O que estão tramando?
Independente dos planos que nasciam em sua cabeça, não era como se Set tivesse muita escolha. Deixaria todos os questionamentos de porque Hipnos estava fazendo ali para depois. Contudo, bem que poderia achar um jeito de acordar Hathor e Ísis. Set olhou para o raio mestre de Zeus estalando na mão de Tifão e ao menos uma conclusão importante tirou daquele precioso segundo, tinha que tirar aquilo da mão do adversário.
Tifão foi o primeiro a avançar. Já se sentindo brincando com crianças, ele avançou balançando o raio mestre com um golpe devastador. Cada passo pesado dele tremia a terra, fazendo os mortais se perguntarem quando os terremotos do dia finalmente cessariam e quando os deuses teriam dó e piedade deles.
Um raio mortal cortou o ar, destruindo parte da praia e criando uma cratera cuja superfície de areia, com o extremo calor, se transformou em vidro. Set saltou para longe, mal escapando do impacto enquanto crescia de novo seu avatar gigante, para diminuir a diferença de tamanho para o inimigo. Tifão rugiu de raiva, dispersando a quantidade absurda de poeira que subiu abanando com os braços poderosos. Mas essa mesma areia, sob controle de Set, se aglomerou ao redor do rosto de Tifão, obstruindo sua visão, enquanto Set preparava sua espada envolvida em chamas.
— Acha que pode me vencer com truques de areia? — reclamou em alto e bom som um irritado Tifão.
— Acho. — respondeu Set avançando com determinação e uma rajada de areia densa na direção do braço de Tifão.
Com a espada a postos e a areia que se movia rápida e ameaçadora, pronta para ao menos servir de lixa, Set avançou na direção do braço de Tifão que segurava o raio mestre. Contudo, mesmo com a visão de Tifão obstruída, com o pouco que o poderoso gigante conseguiu ver e sentir, Tifão conseguiu realizar um contra-ataque suficientemente bom. O raio mestre explodiu, criando uma bola de energia que cresceu rapidamente e empurrou Set para longe.
A bola de energia, com raios quentes como brasa, transformou parte da areia que tentava decepar o braço de Tifão junto com Set em vidro. Esse vidro afiado, na forma de flechas e navalhas, conseguiram fazer pequenos cortes no corpo e braço de Tifão, se juntando aos ferimentos que o gigante, apesar de tudo, já estava acumulando desde que havia deixado Micenas para trás. Nada muito relevante, mas o suficiente para fazer o gigante resmungar de dor quando foi cortado e os cortes foram atingidos por uma mistura de mais areia e também da eletricidade que ele mesmo produziu.
Set caiu na areia, acumulando queimaduras em seu corpo e cortes causados pelos cacos de vidro, mas não se deixou ficar caído por muito tempo. Logo foi pra cima de Tifão novamente, aproveitando que os raios do raio-mestre pareceu ter deixado Tifão um pouco atordoado também, como se nem o raio-mestre gostasse de estar na mão de Tifão. Querendo prolongar esse estado de atordoamento de Tifão, Set envolveu o gigantesco adversário num poderoso redemoinho de areia. A areia entrava nos olhos de Tifão, raspava sua pele ansiosa para chegar até a carne do gigante, se é que ele tinha algo assim, obstruía sua visão e entrava em sua boca.
No entanto, Tifão não era um inimigo fácil de deter. Em um movimento de pura força bruta, o gigante sacudiu o braço, formado de várias cobras, que segurava o raio-mestre, liberando uma onda de energia elétrica que partiu o redemoinho ao meio por alguns poucos instantes e tentou alcançar Set, pronto para fritá-lo. Set usou sua agilidade para desviar, mas o impacto o lançou alguns metros para trás. Ele se arrastou pela areia, já sentindo o calor e a eletricidade do raio queimarem seus sentidos.
Tifão aproveitou a brecha, girando o raio-mestre como se fosse um martelo colossal, tentando esmagar Set de uma vez. O deus egípcio desviou por pouco, rolando para o lado e invocando uma tempestade de areia em sua própria defesa. O choque do raio com a areia fez o ambiente explodir em uma nuvem ofuscante, e até bela, de partículas e faíscas, dificultando a visão para ambos. Mas tempestades de areia eram a especialidade de Set.
O mais rápido que pôde, sem querer perder um segundo, Set avançou contra o braço de Tifão aproveitando o estado em que o monstro estava. Apesar de Tifão dificilmente ter alguma ideia de o que acontecia ao seu redor devido ao tanto de areia que lhe atacava e envolvia, o raio-mestre pulsava, eletrocutando e queimando o que havia ao seu alcance. Mas Set insistiu. Sua pele queimava e sentia a eletricidade percorrer pelo seu corpo numa sensação extremamente incômoda que dificultava-lhe o controle dos membros, mas insistiu ainda assim, avançando com força até conseguir abrir um corte no braço de Tifão.
Tifão gritou. No meio da dor, deu dois passos para trás e quase perdeu o equilíbrio. O corte em seu braço serpentino foi certeiro. Cabeças de cobra caíam nas águas do mediterrâneo, gritando e sibilando seus últimos suspiros de vida. Sangue divino manchava as águas da praia e a areia, mas o raio-mestre permanecia na mão de Tifão.
O raio mestre explodiu de novo, empurrando novamente Set para longe e ferindo levemente até seu portador. O avatar gigante de Set dessa vez se apagou, e ele caiu na areia em sua forma normal. Mas Set não ia desistir, ele se ergueu mais uma vez, apertando mais Tifão no redemoinho de areia que controlava. O deus egípcio então olhou para as cobras que sobravam, constituindo a mão de Tifão, mais um ou dois ataques acabaria com todas elas. Queria que fosse apenas um. Faria esse último valer. Respirou fundo, pronto para invocar seu avatar mais uma vez, mas no último segundo antes de avançar na direção de Tifão, uma mão segurou o braço de Set com firmeza.
Foi só um segundo, um segundo precioso que fez Set parar por puro instinto e olhar para o dono daquela mão. Nem teve tempo de ter reação alguma quando viu que o dono era Hipnos, que não parecia muito feliz em estar ali. Como em câmera lenta, Set viu a boca de Hipnos se abrir, começando a formar a perigosa palavra.
— Durm..
A palavra, contudo, nunca se completou, pois repentinamente Anúbis surgiu logo ao lado, tampou a boca do deus do sono com faixas de linho embebidas de névoa negra. Com raiva, a mão brilhando em dourado com a concentração de força que juntava, mas também enegrecida pelos choques que já havia levado naquele dia, Anúbis socou a boca de Hipnos.
Cansado, mas com raiva de ter que salvar justamente Set, Anúbis descontou o que sentia contra a boca de Hipnos. Dentes saíram do lugar, tal como a mandíbula, e Hipnos caiu no chão enquanto sentia o próprio sangue sujar as faixas de linho, que decompunham sua boca sem dó, apertando com força e querendo deixá-la o mais inútil e silenciosa possível.
Set e Anúbis se entreolharam por um segundo. Surpresa estava no olhar do primeiro, e ódio no olhar do segundo.
— Cala a boca. — reclamou Anúbis, virando as costas para Set e se arrastando até Hipnos, para prendê-lo mais ainda nas amarras das faixas de linho.
— Mas eu não disse nada. — respondeu Set.
— Sua cara já disse o suficiente pro meu gosto. — replicou Anúbis.
— Não deixe esse idiota ir embora. — disse Set.
— Eu sei. — respondeu Anúbis, com um suspiro exausto.
Hipnos se debatia e tentava fugir, mas as faixas de linho de Anúbis se apertavam ainda mais enquanto putrefazer onde tocasse no corpo de Hipnos. Com raiva impulsionada pelos ferimentos causados pelo raio-mestre de Zeus, Anúbis apertava principalmente as faixas que se amarravam à boca de Hipnos. Pele cinzenta e queimada hora caía, hora se curava e se juntava, pelos braços e pernas de Anúbis, mas ignorou a dor pois estava com raiva por muitas coisas. O ataque, a folga dos micênicos, a interação com Set, Hipnos… era a raiva que segurava agora sua vontade de simplesmente cair de cansaço em algum lugar.
De repente, um raio explodiu à direita de Anúbis, abrindo uma cratera na areia e lançando ele, Set e Hipnos para trás. Tifão, rugindo de fúria, girava o raio-mestre como uma maça flamejante, seus olhos incandescentes refletindo puro ódio e talvez até o calor do centro da Terra. Hipnos aproveitou o impacto para se debater mais violentamente, tentando se soltar, mas Anúbis rapidamente invocou mais linho, que o prendeu como uma teia sufocante. Entretanto, isso lhe custou tempo, e outro raio quase o atingiu, forçando-o a rolar para longe, enquanto Set dava mais sorte ao desviar. Anúbis se segurou nas faixas de linho, e puxou Hipnos junto com ele quando o raio lhe jogou para longe.
Os ouvidos de Anúbis estalaram, sua visão estava embaçada. O raio perto demais não tinha caído bem. O que não era surpreendente, já não estava na melhor condição mesmo antes dele. Anúbis respirou fundo, e se deu um segundo para se recuperar enquanto Set já tentava controlar Tifão novamente envolvendo-o no já bem conhecido redemoinho de areia.
— Não deixe ele escapar! — gritou Set.
— Eu sei! — reclamou Anúbis olhando para Hipnos e certificando-se que a boca do deus ainda estava bem presa — Faça Tifão parar de atrapalhar então, que fica mais fácil!
— E para deixar claro, eu não precisava de ajuda, ok? Eu estava... só... esperando o momento certo para agir! — defendeu-se Set.
— Nem você acredita nisso! — exclamou Anúbis, se erguendo lentamente para recomeçar a completar a múmia na qual transformava Hipnos — E eu não te ajudei… eu ajudei a defender o Egito! E eu falei pra calar a boca!
— Nem você acredita nisso. — disse Set, segurando uma risada sarcástica.
— Já disse pra calar a boca e controlar Tifão. — disse Anúbis, entredentes.
Enquanto Anúbis transformava Hipnos numa múmia feita às pressas, Tifão rugiu. Raios explodiam do raio-mestre em todas as direções, atingindo a areia, o mar, Ísis e Hathor dormindo, Anúbis, Hipnos e Set. Era como se o gigante passasse todo o ódio que tinha para o raio-mestre, forçando-o a lhe obedecer. Os deuses tiveram que se defender como dava. Set se preocupou apenas consigo mesmo, desviando dos raios já com alguma dificuldade causada pelos golpes anteriores que sofreu. Para Anúbis sobrou tentar desviar dos raios, enquanto tentava impedir que eles libertassem Hipnos e também matassem Hathor e Ísis. Obviamente, era muita coisa para uma pessoa só.
Anúbis agarrou Hipnos, já enrolado o suficiente para parecer uma múmia feita às pressas, e sumiu dali apenas para reaparecer ao lado de Hathor e Ísis. Exausto com aquele outro uso de magia quando seu estado já não era dos melhores, Anúbis caiu de joelhos, sentindo sua mente ameaçar desmaiar. Os raios ainda atingiam tudo aleatoriamente. Anúbis jogou Hipnos no chão e sua própria pele queimada pelos raios de mais cedo da batalha caíram no chão junto com Hipnos.
Foi nesse segundo que os joelhos de Anúbis tocaram o chão, que um dos raios desgovernados atingiu Set. O deus voou para longe e o redemoinho de areia, que de certa forma controlava Tifão, se desfez. Tifão rugiu e não perdeu um segundo sequer, tendo a vista desimpedida e duas opções de alvo, uma sendo Set, que lutava para não desmaiar, e o resto dos deuses agrupados no mesmo ponto, preparou o mais poderoso golpe que podia.
Logo ficou claro para Anúbis que o alvo foco de Tifão era ele. Afinal, poderia potencialmente acabar com quatro deuses de uma vez só. Anúbis sentia seus olhos pesando, sua consciência lutando para ainda continuar ali. O golpe que havia levado e o fez desmaiar antes de Set se juntar novamente ao combate havia sido muito forte. Sua pele se despedaçando mais do que se curava era prova disso. Se viu desesperadamente tentando segurar todos ali, torcendo para conseguir fazer uma fuga desesperada.
O poderoso relâmpago deixou o raio-mestre e cortou pelo céu, Anúbis juntou a força que tinha para tentar tirar todos dali. Entretanto, antes que conseguisse fazer isso, um clarão tão forte e branco que doía os olhos surgiu e engoliu o relâmpago que Tifão lançou.
— Eu fiz direitinho né? — perguntou uma voz atrás de Anúbis.
Anúbis se virou, e para a própria surpresa e alívio, viu Rá acompanhado de Hórus, Tawaret e Hapi. Quem havia falado, era Rá, que estava irreconhecível em comparação a como um dia foi. As pelancas se acumulavam no rosto e no corpo do poderoso deus, agora tomado pela velhice. O olhar, contudo, parecia um misto de olhar de criança com o de um frágil idoso, cuja mente já havia deixado seu auge para trás.
— Fez direitinho sim. — respondeu Hórus, tão machucado quanto Anúbis, inclusive com um braço faltando que havia sido queimado por Tifão.
— Demoraram! — reclamou Anúbis.
— Foi mal… — disse Hapi, timidamente enquanto Hórus já notava o mal humor do primo e a situação complicada do momento — Foi difícil deixar ele lúcido o suficiente para ajudar.
— Ele não está mais em condições de lutar… — disse Tawaret, calmamente — Estava torcendo para Ísis e Hathor conseguirem… Afinal, o que aconteceu aqui?
— Depois tentamos entender o que aconteceu. Consegue acertar aquele cara grandão ali? — perguntou Hórus, indicando Tifão com o dedo ao falar com Rá — Com tudo que você conseguir atacar.
— É parte do jogo? — perguntou Rá.
— Sim. É a parte mais importante do jogo. — respondeu Hórus.
— Jogo? — perguntou Anúbis, confuso.
— Foi como conseguimos fazer ele entender o que é pra fazer. — explicou Tawaret.
— Qualquer coisa tenta ao menos tirar o raio-mestre da mão dele. — sugeriu Anúbis.
— Uma coisa de cada vez. — disse Hórus, sem tirar os olhos de Tifão — Ele está se confundindo se pedir mais de uma coisa ou coisas muito complicadas.
— Com tudo no cara grandão… — disse Hapi para Rá, enquanto Tawaret já agachava para ver como estavam Ísis e Hathor.
— Com tudo… — repetiu Rá, estendendo as mãos aos céus.
Tal como Rá, Tifão se preparou. O gigante não estava mais com calma e se sentindo já o vitorioso dali. A facilidade que Rá tinha parado seu ataque foi muito grande. Assim, a apreensão tomou conta do coração de Tifão enquanto ele preparava mais um choque, o mais poderoso que conseguia, mais uma vez. Mas Rá não precisa pedir para algo como o raio-mestre para colaborar com ele. O sol e o poder eram todos seus, mesmo que ele tivesse cada vez menos noção de quem era.
Assim, um feixe de luz explodiu do sol, como um laser com o diâmetro de um pneu de trator. Ele atingiu Tifão como um soco ardente, queimando, incinerando e desintegrando tudo por onde tocou e empurrando Tifão para trás. Tifão caiu na água e tingiu-a com seu sangue. Com partes inteiras da frente de seu corpo faltando e tanta dor que mal conseguia gritar, até porque mal tinha sobrado boca com a qual gritar, Tifão diminuiu de tamanho e a água do Mediterrâneo o engoliu como uma muralha ao redor dele, escondendo sua figura cada vez menor. Com o pouco de força que sobrou, ele fugiu para as profundezas e para o Norte com o raio-mestre.
— Isso deve resolver as coisas por agora… — disse Hórus — Hapi, misture-se com a água e o siga. Mas de longe! E tome cuidado.
— Tá. — disse Hapi, correndo para o mar para seguir as ordens do pai.
— Acertei? — perguntou Rá, com os olhinhos brilhando como uma criança.
— Acertou sim. — respondeu Hórus.
— O-O que aconteceu? — perguntou Ísis, acordando e soltando um grande bocejo.
— Ah, que bom, consegui acordá-la! — comemorou Tawaret, ajoelhada ao lado de Ísis depois de lhe sacudir várias vezes — Conseguem acordar Hathor, né? Vou voltar com o Senhor Rá. Não acho seguro deixá-lo assim andando, brincando com seus poderes.
— Estávamos dormindo? — perguntou Ísis, confusa — Como?
— Eu que pergunto o que aconteceu… — disse Hórus olhando para Hathor dormindo, Set desacordado e Hipnos, irreconhecido, se debatendo dentro das bandagens de linho — Saio para ver porque Hapi está demorando com Rá e quando volto, a situação é essa?
— Esse é Hipnos… — respondeu Anúbis, apontando para Hipnos com a cabeça enquanto Tawaret ia embora com Rá e Hórus tentava gentilmente acordar Hathor — Eu estava entre desmaiado e acordado, só pegando fragmentos do que acontecia, mas vi ele colocando Lady Ísis e Hathor para dormir. Tentou fazer o mesmo com Set.
— Isso explica bastante… — disse Ísis, suspirando decepcionada por ter caído no sono.
— Vamos aproveitar essa chance e o interrogar então. — disse Hórus e, no instante seguinte, Hathor acordada com um pulo de susto — Está tudo bem.. Tifão foi embora.
— Com o raio-mestre? — perguntou Hathor.
— Com o raio-mestre. — confirmou Hórus, sorrindo levemente para a amada, quem estava feliz de ver inteira e não morta como quando lutaram contra Aten.
— Tínhamos quase conseguido prender ele! — reclamou Ísis — Usamos um feitiço novo que Hathor criou… parecia que era o suficiente mas, de repente, apaguei. Ou melhor, caí no sono.
— Vamos levar Hipnos para o Salão do Julgamento. — disse Hórus.
Sem dar mais do que uma olhada de alguns segundos na direção de Set, que lentamente se sentava, os deuses foram para o Salão do Julgamento carregando Hipnos com eles. O deus já pouco se debatia, tendo claramente desistido de desfazer as amarras que Anúbis havia criado.
No Salão do Julgamento, diante de todos os deuses ali presentes, Anúbis jogou Hipnos no chão. Anúbis estava exausto, queria deitar e descansar, mas a única felicidade que poderia juntar no momento é que ao menos não teve que carregar mais do que ele e Hipnos até o submundo. Os outros haviam ido por conta própria.
Quando Anúbis chegou no Salão, Osíris foi um dos que se aproximou, curioso com o que aquilo significava. Outros deuses se aproximaram curiosos também, como Thoth, Anput e Kebechet, mas todos eles abriram caminho para Osíris se aproximar. Os deuses micênicos ainda estavam ali, acuados e ansiosos por novidades, eles também se aproximaram, mas deram ainda assim uma distância respeitosa para Osíris. Assim, Osíris foi o único que chegou bem perto de Hipnos, tão amarrado que apenas parecia uma múmia qualquer.
— O que… ou quem… é isso? — perguntou Osíris.
— Hipnos… — respondeu Anúbis — Estava se envolvendo na luta contra Tifão.
— Do lado de Tifão? — perguntou Osíris, erguendo a sobrancelha em surpresa.
— COMO É? — exclamou Apolo agudamente.
— Tem algo aí… — disse Ártemis.
— Pra começo de conversa, como vocês tem coragem de arrastar Hipnos para cá desse jeito? — questionou Apolo — Até Zeus tem medo dele… embora não ache que vai dizer isso em alto e bom tom.
— O que é pior? — perguntou Anúbis calmamente — Amarrar ele assim ou ter dado um soco na cara dele?
— Você deu um soco na cara dele? — perguntou Anput, preocupada e surpresa.
— Você deu um soco na cara dele? — perguntou também Ares, achando graça daquilo.
— Mais especificamente na boca. — explicou Anúbis, dando de ombros — Já tinha visto o que ele falar alguma coisa podia fazer. Não tinha ouvido o que ele falou da primeira vez, apenas visto de longe a cena quando ele colocou Ísis e Hathor para dormir… então cheguei a conclusão de que não queria ver acontecer uma segunda vez para ouvir o que quer que fosse.
— Então deu um soco na boca dele…? — disse Thoth, incrédulo — Essa foi sua solução?
— Não é como se eu tivesse tido muito tempo pra pensar e estivesse em condições muito boas também! — defendeu-se Anúbis.
— Eu sinceramente achei genial. — disse Anput, rindo um pouco apesar da surpresa e acabando por compartilhar um sorriso com Anúbis.
— Espero que tenha sido um soco forte suficiente para a gente conseguir desfazer as amarras com tranquilidade. — disse Hórus.
— Na hora acho que quebrou uns dentes e deslocou a mandíbula… ao menos foi o que eu senti. — disse Anúbis, massageando a mão que havia dado o soco — Mas a essa altura, ele pode ter se curado. A putrefação nas faixas está meio fraca mesmo que concentrada na boca…
— Deixe-o bem amordaçado então. — sugeriu Hathor — Só abra as faixas o suficiente para ele conseguir abrir os olhos. Mais nada. Nem um músculo.
Anúbis se agachou na frente de Hipnos, os joelhos reclamando e pedindo por um descanso, e arrumou as faixas de linho para exibir apenas os olhos do deus. Hipnos se debateu, resmungou palavras que não se completaram sob sua boca amordaçada e, quando a luz chegou em seus olhos, encarou Anúbis com raiva, que lhe devolveu um olhar de igual raiva, mas misturada de cansaço pelo longo dia.
Um suspiro escapou pelos lábios de Anúbis quando ele se afastou de Hipnos e ficou logo ao lado dele. Os demais deuses encararam Hipnos, que nada podia fazer além de percorrer os olhos por todos os presentes e piscar.
— Vamos fazer o seguinte, iremos te perguntar algumas coisas… — disse Ísis num micênico perfeito, não dando para Hipnos a chance de não entender se falasse em outro idioma — Se a resposta for “sim”, você vai piscar uma vez. Se for “não”, piscará duas vezes. Entendeu?
Hipnos só continuou encarando eles, não piscou nem uma vez sequer. Hórus suspirou e revirou o olhar, sentindo a paciência escapar pelos dedos. Assim, Hórus se colocou na frente de Ísis e se agachou na frente de Hipnos.
— Seguinte, estamos nesse mundo há muito mais tempo do que você… — disse Hórus seriamente — Recomendo você responder as coisas por bem.
— Se colocar em situações assim não me parece muito do feitio de Hipnos… — disse Ártemis, se aproximando apenas um pouco do centro da comoção toda — Não me surpreenderia se a mãe dele estiver envolvida e, se for o caso, ela é uma ameaça grande o suficiente para fazer qualquer boca… ou olhos, nesse caso… ficarem quietos.
Apesar de Hipnos se recusar a dar qualquer sinal de entendimento, o olhar que passou pelo rosto dele foi suficiente para os que prestaram atenção. Foi o olhar de quem tinha acabado de ouvir Ártemis confirmar a situação em que estava.
— Nyx… — sussurrou Hathor.
— Isso está ficando maior do que eu estava esperando. — disse Osíris enquanto Set aparecia, se juntando ao interrogatório de Hipnos, mas ficando longe, em seu canto.
— Mas o que Nyx pode estar querendo fazendo TIfão atacar o Monte Olimpo? — perguntou Ares.
— A resposta para essa eu não sei ainda. — admitiu Ártemis mas, naquele mesmo momento, apesar de tudo, Hipnos piscou duas vezes.
— “Não”? — repetiu Hathor — Nyx não fez Tifão atacar o Monte Olimpo?
— Claro que fez! A gente tava lá apanhando! — exclamou Ares, mas Afrodite colocou a mão gentilmente no braço do deus, tentando acalmá-lo.
— Não… não é isso… — disse Afrodite calmamente — Foi outra pessoa que mandou Tifão? Quem?
Diante de mais uma pergunta que não sabia se queria responder, Hipnos desviou o olhar. Ao notar isso, com irritação, Hórus deu um pequeno tapa na bochecha de Hipnos. Não visando machucá-lo, mas sim atrair a atenção do deus amordaçado. Com olhos cansados, Hipnos encarou Hórus de volta. Hórus estava sério, mas não havia muito interesse no olhar de Hipnos. Parecia apenas o olhar de alguém que tinha acabado de sair da cama.
— Recomendo responder, ou vou usar a Pena da Verdade que, caso não conheça, vai te transformar em pó se mentir ou hesitar demais. — disse Hórus.
— Ele não consegue passar um nome só piscando… — lembrou Thoth.
— Não é como se pudéssemos tirar a mordaça dele também. — defendeu-se Hórus, erguendo-se novamente e olhando para Thoth — Ele vai botar todos pra dormir.
— Tem alguma magia perigosa que ele pode fazer com uma mão? — perguntou Anput, olhando para os micênicos ali enquanto Hipnos começava a fechar os olhos sem ninguém notar.
— Tem? — perguntou Ares, olhando para os demais.
— Eu não sei. — disse Artemis.
— É perigoso arriscar. — opinou Hathor — Esperamos por Hapi?
— Talvez seja melhor. — disse Hórus, preocupado com o filho.
— Gente… — disse Anúbis repentinamente, apontando para Hipnos — Impressão minha ou ele está dormindo?
A conversa foi interrompida e todos os deuses olharam para Hipnos. De fato, Hipnos, mesmo ainda amordaçado e desconfortavelmente de joelhos, estava tranquilamente dormindo, ressonando tranquilamente. Ares começou a rir, Afrodite foi mais discreta, se conteve em resmungar:
— É muito a cara dele.
— Primeira vez que vejo alguém dormindo num interrogatório… — disse Ísis — Já que vamos esperar Hapi, vou ver como está Rá. Não baixei a guarda com o dorminhoco.
— Não é melhor alguém ir checar Hapi? — perguntou Anúbis, sentando-se no chão, cansado — Sem Sobek.. se Hapi morrer, não vai ter cheia no Nilo. A situação já está ruim o suficiente sem a gente acrescentar isso à lista.
Notando o cansaço do pai, Kebechet foi até ele enquanto a discussão sobre a situação continuava entre os outros deuses. Ela sentou-se ao lado de Anúbis, que sorriu com a aproximação da filha, e então Kebechet fez surgir em sua mão uma elegante taça de ouro cheia de água cristalina, que logo ofereceu ao pai, como um leve segundo para respirar.
De bom grado, Anúbis pegou a taça e deixou a água levemente gelada descer por sua garganta enquanto Anput se aproximava e sentava-se na frente dele, querendo se juntar ao momento em família, mesmo que Hipnos dormisse logo ao lado.
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