A Morte Das Areias do Saara

130 Os Filhotes do Submundo


Notas iniciais
olá! bem vindos a um novo cap! to sinceramente mto feliz com esse capítulo! espero que gostem tanto quanto eu! imagem do dia! uma cidade provavelmente no delta do Nilo pois parece ter sido construída numa espécie de pântano. tem uma construção principal maior branca que pode ser um templo ou o palácio de alguém, sei lá. Tem algumas casinhas ao redor, algumas árvores como tamareiras, e, perto dágua, dezenas quadrados, como pequenas piscinas, com água de várias cores dentro. Eles são usados para a coloração de tecidos. no horizonte, montanhas e o deserto.

Thoth, depressa! Anunciem aos deuses do Ocidente e seus espíritos: Ele vem de fato, este Unas, um Espírito Imperecível, enfeitado como Anúbis no pescoço, que governa a Montanha Ocidental, para que possa contar os corações e ter poder sobre os seios! Quem ele quer que viva, ele vive. Quem ele quiser que morra, ele morre.

~ Fragmento de “Texto da Pirâmide do Faraó Unas”

Anúbis e Anput estavam num cômodo escondido no fundo do corredor atrás do Salão do Julgamento, usando magia para impedir que alguém ouvisse ou tentasse entrar ali. Afinal, o submundo era um lugar movimentado demais para fazer tranquilamente o que acontecia ali dentro sem ser interrompido ou cair numa situação constrangedora. Toda magia ou forma de ser mais discreto era bem vinda.

A magia nas paredes impedia os suspiros, gemidos e ofegos de escaparem. Certamente não era o lugar mais belo e glamouroso que Anúbis e Anput já fizeram amor. Não tinham brilho das estrelas sob suas cabeças, nem belas praias ou oásis, apenas um sofá, tal como da primeira vez. Mas talvez, a troca por lugares mais próximos de seus afazeres e de onde inicialmente estavam, fosse uma consequência do aumento nas frequências do ato desde que Akhenaton morreu. Afinal, tinham um bebê para fazer.

Os dedos de Anput se agarravam aos cabelos de Anúbis, impedindo que ele tirasse os lábios de seu pescoço. Mesmo sendo os momentos finais, com o mais importante já para trás, com ambos já sem muito para dar, era como se quisessem aproveitar cada segundo e quisessem mais. O que era verdade. Mas não significava que daria tempo, afinal, logo iriam atrás de Anúbis para que ele voltasse a julgar os mortos.

— Será que… dá tempo… para… mais uma? — questionou Anput.

— Acho que… não… — respondeu Anúbis, com o tom de voz claramente decepcionado.

Anput estava com a respiração curta quando soltou os cabelos de Anúbis. Ele, por sua vez, deixou as mãos na cintura dela quando ergueu um pouco a cabeça para que pudesse olhá-la nos olhos. Exaustos, descabelados, os dois trocaram um olhar carinhoso por uns segundos que não escondia a decepção por terem responsabilidades a cumprir.

— Amanhã de novo? — perguntou Anput.

Antes de responder, Anúbis tomou-lhe os lábios num doce e sedento beijo, o qual ela prontamente correspondeu. O beijo, contudo, não durou muito, mas logo após o beijo, eles ficaram com os rostos bem perto um do outro, com as testas se tocando e os rostos avermelhados.

— Amanhã de novo. — confirmou Anúbis, com um mero sussurro, como se contasse um segredo — Acha que agora vai dar certo?

— Pare de perguntar, que aí que não vai mesmo. — sussurrou Anput com uma pequena risada — Só deixe o bebê acontecer.

— Estou tentando. — admitiu Anúbis, acabando por fazer Anput rir mais uma vez.

— Você está tentando muito mal. — brincou Anput.

Nesse ponto, alguns anos já haviam se passado desde que Akhenaton morreu. O povo voltando para as crenças antigas deixava a todos os deuses mais confortáveis para sonhar com o futuro e criar algo novo. As coisas mudaram tanto que até Nerfetiti já havia aproveitado para visitar Karnak alguns dias depois de ter deixado Amarna para trás e Tutancâmon ter assumido oficialmente o posto de faraó.

Tebas havia voltado a ser capital, facilitando a locomoção da Rainha para Karnak, e Amarna foi esquecida, deixada para a areia engolir e para qualquer um usar suas paredes como matéria prima para outra coisa. Se é que alguém teria coragem de fazer isso, já que espalhou-se pelo Egito que o terreno era maldito.

No dia que visitou Karnak, Nefertiti ajoelhou-se tal como o enteado havia feito semanas antes. Ela deixou o doce aroma dos incensos preencher-lhe o coração e pediu:

— Por favor, sei que os enfurecemos… — dizia Nefertiti — Mas Akhenaton já se foi e agora novos tempos começam. Por favor, poupem meus filhos de vossas iras. E nisso incluo Tutancâmon por mais que não seja sangue do meu sangue. Não deixe que eles paguem por minhas ações e de meu falecido marido.

— Sei que o foco de Karnak é Amon-Rá, mas eu entendo os apelos de uma mãe pelos seus filhos… — disse Ísis, surgindo repentinamente atrás de Nefertiti.

Assustada, Nefertiti se virou mas, ao ver a deusa, se curvou tanto que sua testa tocou o chão frio. Tremia de medo e um pouco de frio também. A rainha havia postergado essa visita justamente com medo de seus resultados. Esse medo era o motivo da leve tremedeira.

— Não iremos mais fazer nada de novo contra você ou seus filhos. — prometeu Ísis — Ao menos não se realmente não fizerem mais nada.

— Não iremos. — prometeu Nefertiti — Já falei com meus filhos e não tenho intenções também. Se me permite a sinceridade, estou cansada.

— Aceito e acredito em sua sinceridade. — disse Ísis — O que está feito, contudo, está feito. Não é hora de criar novos problemas, de toda forma.

Foi tal visita de Nefertiti que motivou Anúbis e Anput a começarem a tentar ter um bebê. Parecia uma certeza que o problema criado por Akhenaton havia de fato acabado. Mas essa visita já havia ficado para trás. Alguns anos haviam se passado desde a visita de Nefertiti quando Anúbis e Anput se amavam na sala repleta de mágica no fundo do corredor atrás do Salão do Julgamento. Ao mesmo tempo, Tutancâmon, já tendo deixado os 7 anos que tinha quando subiu ao poder e agora já com 11 anos, pedia aos deuses para que protegessem sua mãe, que não lhe parecia bem.

Independente dos pedidos de Nefertiti e Tutancâmon, algumas semanas depois, a Rainha morreu. Para Tutancâmon e suas irmãs, era uma dor tremenda, para os deuses, uma gota final de alívio. Contudo, não foi sem luto nem sem empatia que viram Tutancâmon, andando com muita dificuldade, apoiando-se em sua bengala e acompanhado das irmãs mais velhas, com o casamento já marcado para com uma delas, liderando a procissão fúnebre da mãe. O jovem faraó tentava provar-se constantemente, já que também era constantemente subestimado devido a sua deficiência e parentesco com Akhenaton.

Alguns poucos deuses resolveram ir acompanhar a procissão de Nefertiti, uma delas foi Anput. Apesar de Nefertiti e Akhenaton, principalmente Akhenaton, não serem muito populares entre os deuses, eles não podiam negar que Nefertiti era uma mulher forte e inteligente, principalmente quando teve que cuidar do império por um tempo, já que Tutancâmon era muito novo no começo.

Anúbis, por outro lado, por mais que gostasse de acompanhar as procissões fúnebres no geral, havia ficado no submundo. Os julgamentos não estavam acontecendo naquele momento, mas ele queria um momento para relaxar e se acalmar. Por isso, estava concentrado fazendo algumas mumificações.

Ele estava lá, sozinho na sua sala de mumificações, pensando em como toda a complicação com Aten e Akhenaton, logo seguida das tentativas de ter um bebê, havia feito ele esquecer que estava meio solitário. Não imaginava que Hatshepsut fosse fazer tanta falta assim mesmo anos depois de sua morte. Era fácil deixar o pensamento voar naquela escuridão e silêncio que era a sala de mumificações, então ele forçou-se a se concentrar apenas no corpo à sua frente.

Com cuidado, ele enfiava uma longa e bem fina haste com a ponta encurvada, como um gancho, na narina do morto para remover o cérebro num processo extremamente delicado. Pelo processo precisar de sua concentração, era algo ótimo para tentar não deixar a mente ir para pensamentos não muito bons. Afinal, o foco dele ali era relaxar, por mais que ninguém entendesse como ele podia achar a mumificação, que a maioria achava nojento, um processo relaxante.

Sua atenção foi desviada momentaneamente quando sentiu alguém entrando no Salão do Julgamento, logo ali perto mas longe de sua visão. Não se importou tanto, afinal, sabia que Osíris receberia uma visita naquele dia. Assim, Anúbis continuou trabalhando ignorando que logo perto dali, havia uma visita. Alguns minutos se passaram com Anúbis focado na sua mumificação e a visita falando com Osíris, até que ele notou que a visita havia deixado o Salão do Julgamento para trás e agora estava no portal de entrada na sala de mumificações, junto com Osíris.

— Então é aqui que a magia acontece… — comentou a visita, Hades — Posso entrar?

— Não chamaria bem de magia. — comentou Anúbis, já que ele raramente usava qualquer magia, era tudo bem natural — Mas pode.

Osíris e Hades entraram no salão e Hades percorreu o olhar por tudo ali, para as múmias quase prontas, os corpos esperando serem os próximos, os corpos e órgãos secando no natrão e para o corpo com o quão Anúbis trabalhava.

— O que é isso? — perguntou Hades olhando para uma vasilha sangrenta perto do corpo com um conteúdo gosmento dentro.

— Cérebro. — respondeu Anúbis, que já esperava reações de nojo do outro, como sempre faziam.

— Fascinante… — disse Hades dando alguns passos para ver melhor o rosto do morto — Deste homem? Usou magia para o retirar?

— Não. — respondeu Anúbis, nada acostumado a acharem a mumificação qualquer outra coisa que não fosse nojenta, ainda mais na parte do cérebro — Eu uso essa haste com um gancho enfiada pelo nariz.

— E sem fazer nenhum dano ao rosto do morto, pelo o que parece. — comentou Hades olhando o morto quase como um admirador.

— Isso. — confirmou Anúbis que aproveitou o foco de Hades no morto para olhar Osíris com um olhar de interrogação, mas o deus só deu de ombros — Alguns dos embalsamadores acabam danificando o rosto mas o ideal é deixar o mais preservado possível.

— Posso perguntar porquê retirar o cérebro? — perguntou Hades, dessa vez olhando para Anúbis.

— O corpo tem que ficar preservado pelo máximo de tempo possível. — respondeu Anúbis — O cérebro é principalmente água. Ele fica podre muito fácil. Isso não é bom.

— Claro. — disse Hades — Afinal se querem preservar o corpo, não podem deixar que nada fique podre assim tão fácil e acabe se espalhando.

— Sim… — concordou Anúbis — Por isso também tiro os outros órgãos e cada um recebe um tratamento próprio também. Alguns são mumificados separadamente. Mas o órgão mais importante é o coração, ele tem que ser preservado.

— E tem bem mais fácil acesso do que um cérebro. — acrescentou Hades.

— O mais importante é que ele é usado no julgamento. — respondeu Anúbis — Por isso deve ser preservado.

— Ah sim… — comentou Hades, analisando o corpo com visível curiosidade.

Estranhando a presença e comportamento de Hades, Anúbis olhou para Osíris pedindo, silenciosamente com o olhar, alguma explicação. Por um segundo, Osíris apenas sorriu, como se tivesse notado algo que Anúbis não havia, mas logo respondeu a indagação silenciosamente expressa no rosto de Anúbis.

— Vim pedir que vá novamente no submundo de Hades em meu lugar. — explicou Osíris — Na verdade, dessa vez talvez esteja indo mais requisitado como Anúbis de fato ao invés de como meu representante.

— Certo… — disse Anúbis lentamente — O que exatamente eu estaria indo fazer lá dessa vez?

Era uma pergunta válida. Afinal, já tinha ido duas vezes ao submundo micênico e aquela era a terceira vez que Hades ia no submundo egípcio. Toda vez tinha algo para resolver, seja as conversas que sempre tinha com os outros líderes do submundo, seja algo para ajudar Hades a organizar o submundo que estava cada vez mais tomando para si.

— Queria sua opinião quanto a uma criatura. — explicou Hades — Ela talvez servirá como guarda para os portões do submundo para evitar que os mortos saiam

— Pode ser. — respondeu Anúbis — Mas… posso ao menos terminar algumas coisas com esse corpo? Não a mumificação até o final. Só não queria que uma etapa fique pela metade.

— Claro. — disse Osíris — Está tudo bem assim, Hades?

— Só se me permitir assistir. — respondeu Hades — Prometo que ficarei quieto.

— Tá… — respondeu Anúbis meio inseguro, totalmente desacostumado com uma platéia.

Com um breve aceno de cabeça, Osíris saiu do recinto. Hades, cumprindo sua palavra, realmente ficou quieto após isso. Então Anúbis decidiu fingir que Hades era um poste de aparência bem estranha e continuou o processo. Em silêncio, Hades se comportou como um aluno vendo o professor trabalhar e Anúbis tentou ignorar o estranhamento ao notar exatamente isso.

Quando Anúbis atingiu um ponto da mumificação que achou bem plausível de parar, ele assim o fez. Limpou as mãos e então ergueu os olhos para Hades.

— Por hoje até aqui está bom. — disse Anúbis — Vamos ver esse seu guardião.

— Está mais para candidato a guardião. — corrigiu Hades.

Deixar o submundo egípcio e ir para o micênico era extremamente fácil para os dois deuses. A cada vez que ia até lá, Anúbis via as coisas progredirem lentamente. Lembrava de como tudo começou com uma visita que terminou com a descoberta de que os micênicos não tinham definição para azul, e agora o submundo começava a parecer mais vivo, mas sem perder a morbidez de um submundo.

O palácio de Hades, que antes era só o começo de uma construção da primeira vez, agora estava pronto. Não parecia apenas uma casa qualquer com uma decoração meio escura demais e questionável, como da outra vez, agora sim era um palácio. Na frente dele também havia um jardim incrível, cheio de flores e frutos dos mais diversos e coloridos. Algo que, quem quer que visse, imediatamente iria associar com Perséfone.

No rio Estige, que começou toda a conversa sobre a cor azul, agora havia um barco com um homem em cima o manejando, como se treinasse controlar a pequena embarcação. Ao ver Hades e Anúbis chegando em uma das margens do rio, o homem acenou para os dois. Anúbis havia o conhecido na visita anterior, era Caronte, por isso acenou de volta.

— Onde está o tal candidato a guardião? — perguntou Anúbis.

— Você vai ver… — disse Hades com um pesado suspiro.

Os dois andaram até o palácio de Hades, cruzando as margens de um campo com árvores secas retorcidas e, atrás de uma dessas, Anúbis jurou ter visto a alma de alguém se escondendo dos dois. Hades notou o olhar de Anúbis, e acabou respondendo a pergunta não dita:

— Estou fazendo um teste. — disse Hades — Pensei em criar um lugar para as almas que não querem ser julgadas. Ou talvez para aquelas almas que não fizeram nem muito mal, nem muito bem. O meio termo.

— Almas que não querem ser julgadas? — questionou Anúbis — Isso não seria injusto?

— Por isso que estou fazendo um teste. — explicou Hades — Mas tenho já um lugar para aqueles que foram bons e os que foram maus.

Eles entraram no grande, colorido e belo jardim e, a alguns passos da mansão de Hades, Anúbis começou a ouvir o estranho som de garras arranhando a madeira desesperadamente. Parecia que algo queria se libertar da mansão de Hades. Anúbis teve uma pista de como imaginar como seria esse “algo” quando ele começou a latir desesperadamente perante a demora de Hades em abrir a porta. Hades abriu a porta e Anúbis não ficou muito surpreso ao ver um cachorro negro surgindo, desesperadamente alegre, para receber Hades com o rabo abanando extremamente rápido. A surpresa, no entanto, foi o fato de o cachorro ser meio transparente e ter três cabeças.

Para um candidato a guardião, era esperado que ele ao menos fosse grande ou aterrorizante, mas isso certamente não era o caso. Mesmo de pé, ao receber Hades, as patas do estranho cachorro só chegavam até a cintura de seu dono e, ainda assim, era difícil não se perder nos olhos carinhosos e meigos, típicos de um cachorro filhote.

Hades fez carinho na cabeça do cachorro, satisfazendo sua necessidade de carinho imediato, mas o cachorro logo rolou no chão pedindo uma dose extra de carinho na barriga. Certamente estava muito longe de ser um guardião de qualquer coisa que fosse.

— Aí você já está pedindo demais. — resmungou Hades olhando para o cachorro — Sabe que é só Perséfone que faz isso com você.

— Que cruel… — comentou Anúbis se agachando ele mesmo para coçar a barriga do cachorro e, provando que estava longe de ser um guardião, o cachorro não fez nada ao ver um estranho querendo lhe fazer carinho, apenas recebeu de bom grado o carinho — Até porque vocês são bons meninos né?

O cachorro botou todas as três línguas para fora e começou a mexer a pata como se dissesse “sim, eu sou um bom menino”. Diante da tamanha demonstração de doçura e carinho, Hades respirou fundo e contou mentalmente até 10. Até que, o cachorro, já cansado de carinho, repentinamente se levantou, correu para dentro da mansão e voltou com um galho na boca de uma das cabeças e uma maçã na cabeça do meio enquanto a última cabeça latia sem parar.

Hades suspirou profundamente mais uma vez, pegou a maçã e o galho e jogou ambos bem longe, quase nos limites do jardim. O cachorro saiu correndo desesperadamente, quase tropeçando em algumas plantas baixas, atrás de ambos. Ao alcançar algum, as cabeças começaram a brigar entre si para serem a primeira a pegar o objeto, o que fez a busca demorar mais.

— Qual é o nome deles? — perguntou Anúbis se levantando e escondendo uma risada.

— Cérbero. — respondeu Hades — Dei logo só um nome, apesar de ter três cabeças. Obviamente já viu os vários problemas que o fazem ser apenas um “candidato” a guardião.

— Imagino que não seja sua intenção afogar almas tentando escapar com baba. — disse Anúbis e Hades o encarou por um segundo.

— Não vou nem responder isso. — resmungou Hades — Sinceramente, já pensei em arrumar outro guardião, mas Perséfone se afeiçoou ao bicho. Acha que ele vai crescer mais, pelo menos?

— Provavelmente sim. — respondeu Anúbis — Ele parece um filhote e é bem grande para um filhote. E também as patas são bem grandes, um tanto desproporcionais para o corpo, isso costuma ser sinal de que um cachorro normal vai crescer mais. Mas, enfatizo que é quanto a um “cachorro normal” e isso está bem longe de ser um. Onde arranjou?

— É um dos filhos de Tifão e Equidna. — respondeu Hades enquanto Cérbero voltava com a maçã e o galho e Hades tinha que jogá-los novamente — Infelizmente, apesar dos pais, ele é extremamente carinhoso e bobão. Imaginei que por você ser um cachorro, soubesse o que fazer.

— Eu não sou um cachorro. — resmungou Anúbis encarando Hades seriamente — Sou um chacal.

— Dá no mesmo… — resmungou Hades, fazendo um gesto de pouco caso com a mão.

— Não é! — rebateu Anúbis — Chacais são mais parecidos com lobos, pra começo de conversa, mas costumam ser mais solitários que os lobos.

— Tanto faz… — resmungou Hades — Então, sabe?

— Você poderia tentar treina-lo. — respondeu Anúbis suspirando pesadamente odiando ter que admitir que sim, sabia.

— Estou aceitando dicas. — comentou Hades.

— Um sistema de recompensas por algo bem feito costuma funcionar com cachorros. — sugeriu Anúbis — E é importante também mostrar quem é que manda mas sendo paciente e carinhoso.

— Carinhoso…? — perguntou Hades incrédulo enquanto Cérbero voltava mais uma vez com a maçã e o galho e seu dono os jogava longe.

— É. — respondeu Anúbis dando de ombros — Você tem que mostrar que é o líder da matilha mas não vá sendo ignorante e violento também. Aproveite enquanto ele é filhote também.

Hades ficou alguns segundos encarando Anúbis enquanto processava suas palavras. Parecia ter que considerar se Anúbis estava implicando ou brincando de alguma forma ao sugerir que Hades fosse carinhoso. Contudo, o deus micênico logo descartou essa possibilidade e suspirou mais uma vez. Claramente ele não seria paciente para treinar o animal.

— Vou ver se Perséfone faz essa parte de ser carinhosa. — disse Hades.

— Cuidado para ele não achar que ela é a líder da matilha e não você. — disse Anúbis — Afinal quer que ele obedeça a você, certo?

— Incondicionalmente. — respondeu Hades — Aliás, onde está Anput?

— Procissão Fúnebre da Nefertiti. — respondeu Anúbis — E Perséfone?

— Com a mãe. — disse Hades entredentes, claramente irritado com isso — Ela passa metade do ano com a mãe ao invés de aqui.

— Metade é muita coisa… — disse Anúbis surpreso — Por que isso?

— Longa história. — disse Hades — Mas basicamente a mãe dela me odeia, principalmente depois que eu sequestrei Perséfone. Perséfone não g-

— Pera.. — disse Anúbis chocado interrompendo Hades completamente — Você fez… O QUÊ?!

— Sequestrei Perséfone… — admitiu Hades.

— Vocês micênicos são estranhos demais… Isso é normal? Ela está casada com você de livre e espontânea vontade ou… ? Ela é refém aqui? — perguntou Anúbis preocupado e curioso com a situação.

— O sequestro foi ideia do meu irmão! — defendeu-se Hades jogando mais uma vez a maçã e o galho, ambos já bem babados.

— E você claramente continuou com o plano. — disse Anúbis, julgando bastante o outro e deixando isso óbvio no tom de voz.

— No começo ela me odiava. — disse Hades continuando a tentar se justificar — Até que eu mandei fazer esse jardim.

— Pela cara, te odiava não sem razão. — disse Anúbis, apesar de ainda tentar processar a parte do sequestro da história do casal.

— Mas eu dei um jardim para ela! Agora ela gosta de mim! Pode perguntar pra ela! — defendeu-se Hades — E eu só fico com ela! Não sou que nem o meu irmão, Zeus que inclusive faz bem mais do que só tentar fazer sexo com qualquer mulher que vê pela frente.

— Quanto mais fala dele, menos quero conhecer. — admitiu Anúbis, já vendo que esse assunto do sequestro não ia progredir muito — Mas quanto ao jardim, ele é lindo, apesar de que eu acho incrível ter nascido. O solo aqui não parece necessariamente fértil.

— De fato foi bem complicado. — disse Hades — Tem algumas consequências nisso… melhor não comer nada que brota do jardim. Na verdade, não recomendo comer ou beber nada aqui no geral. Descobri que quem consome comida ou bebida nesse submundo está condenado a estar eternamente ligado a ele ou a passar a eternidade aqui.

— Certamente essa informação acaba com qualquer apetite. — disse Anúbis.

— Mas, quanto à Procissão Fúnebre de Nefertiti. — disse Hades — Porque não está lá com sua esposa?

— Apesar de gostar de ver as procissões fúnebres no geral, dessa vez eu estava querendo algo mais tranquilo. — admitiu Anúbis — Alguns outros deuses gostam de acompanhar também quando é alguém relevante e foi isso que aconteceu com a de Nefertiti. Então achei melhor só ficar no submundo fazendo algumas múmias.

— Realmente parece mais tranquilo. — concordou Hades — Mais alguma dica de como treinar Cérbero?

— Comece com coisas simples. — sugeriu Anúbis — Como fazer ele sentar ou andar ao seu lado. O que ele mais gosta de comer?

— … Bolo de mel, pão com mel e carne crua. — admitiu Hades.

— Use um pequeno pedaço de um desses como recompensa para quando ele obedecer uma ordem. — sugeriu Anúbis.

Anúbis gastou alguns minutos ali, no submundo micênico, demonstrando como Hades poderia treinar Cérbero, mas a extrema preguiça e má-vontade de Hades dava a entender que ele provavelmente iria terceirizar o serviço de toda forma. Por isso, logo Anúbis voltou para o próprio submundo, para que não acabasse para ele e também torcendo bastante para Cérbero não acabar sendo demitido do cargo que estava tentando ter.

Ao chegar no Salão do Julgamento, notou como as coisas estavam sendo preparadas para em breve recomeçarem os julgamentos. Com certeza a Procissão Fúnebre de Nefertiti havia terminado. Era certo que dentro de algumas horas ou dias, a alma da rainha iria chegar ali para ser julgada, já que ela havia de fato deixado Aten de lado.

— Agora que Nefertiti morreu, não deve faltar muito para Aten desaparecer, certo? — Anúbis ouviu Hórus perguntando para Thoth.

— Ela com certeza era a fiel mais relevante ainda viva mas… ela pareceu ter negado ele quando Tutancâmon subiu ao trono. Como ele não desapareceu ainda, é possível que ainda existam fiéis escondidos entre o povo, mesmo que poucos. Da última vez que Khnum foi checar a situação de Aten, ele contou que Aten estava já bem transparente e adormecido.

— Então ele já está quase sumindo. — concluiu Hórus.

— Exato. — confirmou Thoth.

— Anúbis… — disse Seshat se aproximando de Anúbis ao ver que ele havia voltado — Anput está te procurando.

— Eu estava no submundo de Hades… — explicou Anúbis — Onde ela está?

— Disse que iria esperá-lo na praia do Mar Vermelho onde foram assim que ganhou férias depois de morrer. — explicou Seshat.

— Certo…. — disse Anúbis estranhando um pouco a escolha de Anput, será que queria tentar mais uma vez antes de ele ter que voltar para os julgamentos — Era urgente?

— Sim. Urgente! — enfatizou Seshat — Não sei o que era, mas ela deu a entender que todo o resto que você tiver que fazer, vai ter que esperar. Não importa o que seja!

— C-Certo… — respondeu ele meio preocupado, Anput não falaria isso levianamente, e isso incluia que ela não falaria isso só para fazer um sexo rapidinho.

Ele olhou pelos outros deuses no Salão do Julgamento e, notando que ainda estava faltando deuses para começar o julgamento e que Osíris, principalmente, ainda estava despreocupadamente conversando com Ísis, ainda parecia ter um tempo confortável. Sabendo bem de qual praia Seshat falava, Anúbis prontamente deixou o Salão do Julgamento para trás e foi para a tal praia.

Ao chegar na praia, na ponta da Península do Sinai, banhada pelo belo e cintilante Mar Vermelho, a primeira coisa que Anúbis viu foi o mar, sem nenhum sinal de Anput. Contudo, ela logo surgiu atrás dele e tapou-lhe os olhos, impedindo-o de ver qualquer coisa que fosse.

— Ahm.. Anput? — falou Anúbis estranhando as ações dela — Está tudo bem?

— Mais do que tudo bem. — respondeu ela atrás de si — Só… Não olhe ainda.

— Certo… — respondeu ele ainda bem perdido e confuso, mas seguindo o que ela falava.

— Vou tirar as mãos dos seus olhos, mas não abra-os ainda. — disse ela seriamente — Não abra! Promete?

— Prometo… — respondeu ele.

Lentamente, ela tirou as mãos dos olhos dele e Anúbis cumpriu sua promessa, continuou de olhos fechados. Anúbis ouviu os passos receosos que ela dava na areia até ficar em sua frente. Conferindo que ele de fato estava de olhos fechados, ela acenou com a mão na frente de seu rosto e depois respirou profundamente.

— Certo… Então, quando eu falar, você vai abrir os olhos MAS… vai fazer isso focando para ver a camada do Duat. — explicou ela — Entendeu?

— Entendi…

— Certo… Certo… — disse Anput claramente nervosa, repetindo a si mesma — P-Pode abrir…

Quando abriu os olhos, por estar focado na camada do Duat, a primeira coisa que Anúbis viu foi o brilho da alma de Anput envolvendo-a. Uma luz forte, calorosa, aventureira, protetora, e cor de turquesa. Notou também que Anput parecia ansiosa, mordia o lábio e prestava atenção em cada micro-expressão de Anúbis. No rosto de Anúbis havia apenas confusão, até o segundo que ele desceu mais o olhar.

Lá, no meio do brilho da alma de Anput, havia outro brilho de alma. Uma luz pequena, pura e moldável que brilhava na altura do ventre dela. Na hora a expressão de confusão do rosto de Anúbis sumiu e ele ficou boquiaberto, completamente chocado, enquanto sentia que os olhos estavam começando a encher de lágrima.

— V-Você está grávida? — perguntou ele.

— S-Sim. — afirmou ela mexendo também a cabeça, sentindo as lágrimas chegarem a si também.

— V-Você está grávida. — repetiu ele logo dando uma fungada.

— Sim. — disse ela novamente, começando a rir.

— Você está grávida! — exclamou ele mais uma vez segurando o rosto dela gentilmente, puxando-o para perto do seu, sentindo as lágrimas dela rolarem pelos seus dedos.

— Sim! — respondeu ela rindo, tocando no rosto dele também e também sentindo as lágrimas.

Os dois começaram a rir, mesmo em meio às lágrimas e logo as risadas foram atrapalhadas por beijos. Beijos alegres, com gosto de alegria e das lágrimas que ainda rolavam foram trocados incansavelmente, até que os braços dela envolveram o pescoço dele e ele envolveu os dele na cintura dela. Em tanta alegria, ele levantou-a um pouco, tirando-a do chão e fazendo com que ela tivesse que parar os beijos para recomeçar a rir

— Eu te amo. — disse Anúbis olhando profundamente nos olhos, agora vermelhos, dela.

— Eu também te amo. — respondeu Anput também olhando nos olhos, agora vermelhos, dele.

Anúbis colocou-a no chão de novo e então ajoelhou-se na frente da esposa, ficando assim na altura de sua barriga. Não havia nenhum traço da gravidez visível ainda além do pequeno brilho da alma, mas mesmo assim, Anúbis abraçou-a na altura da barriga, colocando a bochecha contra onde seu bebê estava protegido, crescendo.

— Eu te amo também. — disse ele.

— E eu também te amo. — disse ela rindo, limpando as lágrimas com uma mão e acariciando os cabelos de Anúbis com a outra.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** Os egípcios eram fodas em anatomia. São deles o registro mais antigo de textos envolvendo tratamentos para lesões físicas. Incluindo, principalmente, lesões na cabeça e até quanto a partes específicas do crânio ligando as fraturas cranianas com efeitos destas como paralisia-parcial e perda da fala. E O Q IMPORTA É Q VEM BABY AÍ! WAAAAAAAAAAAH! Aos que só conhecem Crônica dos Kane... sim kkk seguindo a mitologia o Anúbis é papai kk **** REFERÊNCIAS **** Texto pirâmide de Unas - https://www.pyramidtextsonline.com/translation.html Remoção Egípcia do Cérebro - https://www.youtube.com/watch?v=HHg62jLmasQ Chacais - https://en.wikipedia.org/wiki/Jackal Cérbero - https://www.quora.com/What-did-Hades-feed-Cerberus Cérbero 2 - https://riordan.fandom.com/wiki/Cerberus#Personality Conto Perséfone e Hades - https://riordan.fandom.com/wiki/Persephone#Kidnapped_by_Hades O Jardim de Perséfone - https://riordan.fandom.com/wiki/Persephone%27s_Garden Anput - https://ancientegyptonline.co.uk/anput/ Anubis - https://web.archive.org/web/20140108181614/http://www.thekeep.org/~kunoichi/kunoichi/themestream/anubis.html