A Morte Das Areias do Saara
71 O destino do ladrão
Notas iniciais

Ele tirou a areia da barcaça real e a jogou na água, e ela abriu uma brecha no rio, uma brecha de um schoenus de largura e um schoenus de comprimento; no meio da brecha estava a caixa de ferro, e ao lado da caixa estava enrolada a grande cobra que nenhum homem pode matar, e ao redor da caixa, de todos os lados até a beira das paredes de água, havia cobras e escorpiões e todos tipos de coisas rastejantes.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Anúbis encarou Thoth por alguns segundos enquanto deixava aquela informação descer amargamente pela sua garganta. Estava inclusive com dificuldade de acreditar no que seus ouvidos tinham registrado. Não conseguia acreditar que Thoth tinha criado um livro tão perigoso assim e ainda deixado solto dentre os humanos. Não parecia algo do feitio dele pois parecia uma decisão muito idiota.
— Porquê você fez algo assim? — quis saber Anúbis.
— Não é muito do feitio dele, não é? — disse Min soltando um suspiro.
Thoth deixou um suspiro escapar também pelos lábios enquanto passava, exasperado, a mão direita pelos cabelos loiros. Sabia que estava em uma situação complicada. Não podia nem imaginar o que o pai iria dizer.
— Eu sei… eu sei que foi uma ideia idiota. — disse Thoth — Mas eu não pude evitar! Vocês tem noção da quantidade de conhecimento naquele papiro? Eu tinha que registrar! Tinha que pesquisar mais! Eu não pude me controlar.
— E agora olha a situação que estamos. — disse Anúbis — Um humano está com muitas informações que não deveria saber bem em suas mãos. Como se todo o problema com Khufu já não fosse o suficiente…
— Uma péssima hora realmente. — admitiu Thoth.
— Não vou ser eu que vou falar esse seu problema pros outros. — disse Anúbis cruzando os braços e Thoth confirmou com a cabeça com uma expressão fechada não gostando muito do que viria pela frente.
— Não consegue sentir algum cheiro por aqui. De algum mortal que possa ter roubado meu livro? — perguntou Thoth.
— Eu não conheço todos os vivos pelo cheiro mas… — disse Anúbis.
Anúbis parou então por alguns segundos para tentar sentir quais cheiros interessantes poderia achar por ali. Era meio estranho às vezes como os outros deuses começavam a tratar ele como se fosse um cachorro pra sair por aí sentindo o cheiro dos outros para procurar algo ou alguém, mas não podia negar a utilidade desse lado dele que vinha de sua parte chacal. E, de fato, sentiu um cheiro lá que se destacou entre os demais.
— Mais de uma pessoa passou por aqui mas… — disse Anúbis — Quão relevante e quão grande é a coincidência de Minkhaf ter passado por aqui?
— Um dos filhos de Khufu? — perguntou Thoth — Tem certeza?
— Sim… — disse Anúbis — Não faz tanto tempo assim que eu , Anput e Hórus vimos todos os filhos de Khufu quando ele foi nos mostrar os planos de sua tumba.
— Temos nosso principal suspeito então. — disse Thoth.
— Podemos só ir atrás dele e pegar de volta, não? — perguntou Min.
— Só isso não é suficiente. — disse Thoth — Ele foi longe demais! Tem que aprender uma lição! Não podemos ser levianos demais com os humanos senão eles ficam afrontosos demais!
Sem muitas dificuldades, os três foram para o Salão do Julgamento novamente e viram que as coisas haviam mudado levemente desde quando Anúbis saiu de lá. O tema da discussão continuava o mesmo, mas agora Rá havia se juntado à discussão. O deus do sol ouvia as opiniões dos outros de braços cruzados e, ao notar que Rá estava ali, Thoth já ficou mais preocupado do que antes.
— Vamos amaldiçoar toda a linhagem dele! — pedia Khnum.
— Algo assim seria exagerado demais. — opinava Ísis — As consequências seriam eternas. Sem falar que dificilmente Khufu terá novos filhos e amaldiçoar a linhagem dos atuais filhos dele não é bem o que queremos.
— Por mais que devamos deixar os humanos livres para tomarem as próprias decisões e determinarem o rumo da história deles, — dizia Rá — Não podemos deixar coisas assim sem a devida atenção.
— Thoth… — disse Osíris notando que eles haviam chegado — adoraríamos ouvir sua opinião. Creio que Anúbis já tenha explicado o problema do momento...
— Porquê Min está aqui? — questionou Khnum notando o deus ali também.
— Sim sim. — disse Thoth já começando a ver o lucro em Rá estar ali — Recebi a explicação do problema. Khufu fechando os templos de todos por todo o território do Egito. Mas… se me permitem… acho que temos um problema mais urgente no momento.
— Mais urgente? — questionou Hórus já fechando a expressão.
— Algo de enorme perigo caiu nas mãos dos mortais! — exclamou Thoth.
— O quê seria essa coisa? — perguntou Rá.
— Um de meus livros. — disse Thoth — Minha maior obra! Possui registrado todo o conhecimento do mundo!
— Todo o quê?! — exclamou Tefnut sem conseguir acreditar nos ouvidos.
— Como consegue ser tão idiota a ponto de fazer um livro desses e deixar solto entre os humanos? — questionou Set escondendo o sorriso dentro de si e atuando com o mesmo nível de revolta visto nos outros deuses.
— Eu mandei parar de fazer esse livro e destruí-lo! — ralhou Hórus.
— Isso seria uma enorme perda de conhecimento! — defendeu-se Thoth — Eu achei que tinha protegido ele bem o suficiente mas… de alguma forma acharam o lugar onde ele estava.
— Quem? — perguntou Osíris.
— Achamos que pode ter sido Minkhaf. — disse Anúbis.
— Logo o filho de Khufu… — esnobou Shu deixando uma breve risada escapar enquanto se divertia com a ironia da situação.
— Minkhaf encontrou minha caixa mágica, abriu-a e roubou meu livro — disse Thoth se aproximando da Rá com olhar suplicante e se ajoelhando diante do pai deixando a mão sobre o coração — ele matou os guardas que a cercavam, e a cobra que nenhum homem pode matar que estava impotente diante dele. Vingue-me, ó Ra, de Minkhaf, filho do rei do Egito.
Rá parou para pensar e todos os outros deuses ficaram olhando para ele se perguntando o que ele iria dizer. Ninguém queria interromper a linha de raciocínio do deus do sol enquanto este olhada para o seu primogênito de joelhos diante de si.
— Minkhaf… ele é casado certo? Tem um filho pequeno imagino… — disse Rá.
— Sim. — confirmou Hórus — Ahura e Merab.
— Pegue ele, sua esposa e seu filho, e faça com eles como quiser. — anunciou Rá — Claro, podemos simplesmente pegar o papiro de volta, mas dê a eles a chance de repararem o erro cometido. Um feito como esses não deve ser bem recebido no julgamento final, certo?
Só precisou de uma palavra para todos os olhos se voltarem para Anúbis. Se ele dissesse que não ficou levemente incomodado com tantos olhos focados nele ao mesmo tempo, isso teria sido uma mentira. Estava acostumado a falar com aqueles deuses poderosos, eram sua família afinal de contas, por mais que Rá sempre estivesse distante de todos quase sempre, mas ainda gerava um pequeno e mísero desconforto.
— Roubar algo por si só já é ruim. — explicou Anúbis — Algo de Thoth então? Pior ainda. Ammit é um destino certeiro. Dependendo do resto da vida e do arrependimento, e claro, do que fizer com o papiro, pode até ser que seja revertido. Mas acho difícil…
— Mas ainda assim, temos que lhes dar essa chance… — disse Osíris afirmando com a cabeça para Rá que devolveu o gesto para o bisneto.
Thoth afirmou brevemente com a cabeça enquanto Rá estendia sua mão com três dedos levantados diante de si. No topo de cada dedo, estava uma pequena bola de luz que mal passava do tamanho de uma bolinha de gude mas que brilhava com tanta intensidade que até mesmo os olhos dos deuses doíam um pouco ao encará-las. Com um movimento simplório, Rá abaixou os três dedos e as pequenas bolinhas foram flutuando até Thoth entrando então em seu peito.
— Um pequeno empréstimo de meu poder. — explicou Rá — Use-o sabiamente.
Thoth abaixou levemente a cabeça e afirmou com a cabeça em respeito.
— Usarei. — disse Thoth.
— Por mais que sejam motivos diferentes, podemos usar isso como parte da punição de Khufu. — sugeriu Rá — Se não abrir os templos de novo, verá a família ao seu redor perecer até que eventualmente ele terá que vir ser julgado. Mas claro, antes temos que nos certificar de que Minkhaf é mesmo o ladrão de seu livro, Thoth.
— Me certificarei disso. — garantiu Thoth.
— Independente de se Minkhaf é o culpado ou não, temos que lidar com a situação de Khufu. — disse Rá — Precisaremos de Sekhmet.
— Sekhmet? — perguntou Ísis sem entender.
— Sim. — afirmou Rá — Que jogue uma doença no primogênito de Khufu. Uma a longo prazo. Para que possa lidar com Minkhaf enquanto isso.
— O primogênito? Quer matar Kawab? — perguntou Anúbis preocupado já que Kawab era seu oficial.
— Sem Kawab, quando Khufu morrer o trono provavelmente vai para Djedefre. — ponderou Néftis.
— Será? — perguntou Hórus — Tendo outra pessoa a menos no meio do caminho, Kafre pode ficar bem… animado… e colocar um assassinato na lista. Não duvidaria nada. Ele tem olhar de sempre estar tramando algo.
— Kawab seria um sucessor melhor apesar de tudo… — disse Ísis — Djedefre adora o pai e Kafre não parece muito… recomendado…
— Khufu não é muito melhor. Megalomaníaco por mais amigável que possa ser com os inferiores à ele… quando não eram demais ao menos. E agora acho que podemos adicionar egocêntrico na lista. Somos uma nação bélica apesar de tudo. — disse Hórus — Não acho que Kawab tenha a firmeza necessária para aumentar as fronteiras do Egito ou mantê-las por mais que acredite em sua capacidade para o resto.
— Quando Sekhmet estiver presente, consideraremos o destino de Kawab. — disse Rá calmamente — Por hora, vá atrás de Minkhaf, Thoth.
Thoth afirmou com a cabeça e num piscar de olhos se transformou num pássaro que saiu voando para longe sob o olhar dos outros deuses. Com a saída do deus e tudo mais que tinha acontecido, os deuses começaram a fofocar e discutir de forma mais calma entre si. Parecia que a reunião havia terminado e cada um conversava em seus próprios grupinhos enquanto esperavam novos desenrolares para a situação.
— Irei atrás de Sekhmet. — anunciou Ísis olhando brevemente para o marido que afirmou com a cabeça mas a deusa não partiu naquele momento pois viu Anúbis se aproximando.
— Não acham que pode ser uma má ideia deixar o Egito provavelmente nas mãos de Djedefre e talvez de Khafre? — perguntou Anúbis para Osíris e Ísis.
— Acho. — disse Osíris — Não que tenha opções tão grandiosas e perfeitas assim dentre os filhos de Khufu. Os mais novos não estão preparados, os mais velhos… bem… Kawab pode não ser firme o suficiente, Djedefre provavelmente vai tentar seguir os passos do pai mas não será tão competente quanto… isso de Khafre não o matar e acabar sendo um tirano. Se for Minkhaf o que pegou o papiro de Thoth, nem preciso dizer…
— Se as mulheres pudessem ser plenamente faraó… — soltou Ísis com um suspiro — Certeza que dentre as filhas mais velhas dele, sairia uma ótima faraó.
— Hunf… era só o que me faltava. — disse Shu ouvindo a conversa e soltando uma leve risada — Uma mulher faraó? Já tivemos alguns fiascos enquanto elas seguravam o trono para o marido longe na guerra ou o filho pequeno demais.
— Mas também tivemos sucessos. — defendeu Ísis — Você fala como se todo faraó homem tivesse sido incrível. Fiascos vem de todos os lados e do de vocês está cheio.
Anúbis viu por alguns segundos a briguinha entre os dois sem muito interesse. Olhando ao redor, viu que os outros deuses estavam com a atenção dispersa também. Hórus e Rá conversavam em vozes baixas provavelmente sobre o livro de Thoth, Tefnut conversava com Néftis e tanto Set como Khnum já haviam ido embora.
Como sabia que ainda tinha muita dor de cabeça para surgir daquela situação, Anúbis achou que merecia ao menos alguns minutos para respirar longe dali. Entendia toda a preocupação dos deuses com o fechamento dos templos, mas era provavelmente o menos impactado dali pois não tinha templos. Isso é, desconsiderando o fato de que as tumbas das pessoas eram como seus templos e a construção da enorme e chamativa tumba de Khufu estaria continuando como sempre. “O Horizonte de Khufu”, o nome que a enorme pirâmide havia recebido e seria um nome digno se as ideias que queriam fazer nela dessem certo afinal. Mas, levando em conta a altura, se ela ficasse de pé já seria um feito enorme.
Pensando sobre aquela situação toda, Anúbis voltou para onde algum pouco tempo antes havia encontrado com Anput, Sodpet e Seshat. Com a noite já tendo caído sobre todo o Egito, as três deusas acenderam uma fogueira na praia mas não pararam seu pequeno momento amigável de relaxamento. Ao ver ele chegando, Sodpet foi logo o chamando com a mão para se juntar ao grupo.
— Conseguiu achar Thoth? — perguntou Seshat, a filha dele.
— Sim. — respondeu Anúbis ao sentar-se junto com elas entre Anput e Sodpet — E ele tinha outro problema para adicionar.
— Khufu fechar todos os templos já não era ruim o suficiente? — perguntou retoricamente Anput — O que mais está acontecendo? Nunca nos contam as coisas mais tensas que acontecem.
— É… — resmungou Sodpet — Isso que a gente ganha por não ser tão importante assim. Eu sou só uma estrela. Seshat ao menos é mais importante… deusa dos escritos, protetora dos livros e do conhecimento. Se não fosse Thoth já englobando boa parte disso, provavelmente estaria no grupinho dos importantes também. Mesma coisa com você Anput, sem ofensa Anúbis, mas se não fosse você ela também estaria no grupinho dos importantes.
— Também não é assim, Sodpet. — disse Anput soltando um suspiro — Claro, o que eu e Seshat representamos é bem perto de uma pequena parte do que Anúbis e Thoth representam. Mas a diferença de poder parece que só cresce a cada século, mesmo que só um pouquinho.
Anúbis pode não ter mostrado, mas ficou um pouco constrangido com aquela conversa toda. Na verdade, se sentia até levemente desconfortável ali. Um sentimento que estava assolando-o muitas vezes quando olhava para os deuses que Anput chamava de amigos. Não se sentia bem encaixando ali. Se sentia um intruso. Mas também não conseguia olhar para o tal grupinho dos deuses importantes e pensar neles como amigos apesar de se dar bem com alguns. A amizade que Anput pareceu ter construído com os demais era diferente. Não era como também se Seshat, Sodpet ou até Qebui e Nefertem lhe negassem a amizade, mas, por algum motivo, Anúbis não se sentia incluído.
— Você acabou sem falar o que Thoth tem de problema. — disse Anput.
E assim Anúbis explicou como um papiro mágico extremamente perigoso havia ido parar na mão dos humanos e, provavelmente, nas do filho de Khufu. Não foi nem um pouco difícil para as três deusas notaram logo como o problema era mesmo sério.
— Thoth não resistiria mesmo escrever algo do tipo… — suspirou Seshat — Sabia que estava com algum projeto grande mas, ele nunca quis me dizer o que era.
— O que ele vai fazer? — perguntou Anput.
— Só nos resta esperar para ver. — disse Anúbis dando de ombros — Mas acho difícil Minkhaf, sua esposa e filho saírem vivos dessa situação.
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