Notas iniciais
bem vindos a mais um cap! o/ esse saindo um pouco antes do esperado. na imagem de hoje, o interior de um templo qualquer meio soterrado. PS: quando esse Nyah acabar e ir pro novo, ele não vai ter mais as notas finais e iniciais. o q nos deixa sem o espacinho para notas e referências e já falaram q se eu colocar no texto, vão deletar a história. então.. é...quando chegarmos nesse ponto. recomendo irem para o Spirit.

Você satisfaz meu coração a cada momento.

Eu te dei toda a vida e domínio de mim, toda a estabilidade de mim,

toda saúde de mim, e toda alegria de mim.

Eu lhes dei todas as terras planas e todas as terras montanhosas para que você possa desfrutá-las.

Eu ordenei a você há muito tempo. Eu estive prevendo isso por muitos anos.

Eu planejei fazer a ação útil.

~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”

Para uma mãe perder o filho, não importava se a mãe era a faraó, a dor ainda era insuportável. Hatshepsut sentia-se vazia, mas se esforçava para focar-se no trabalho. Afinal, o Egito inteiro dependia dela.

Toda manhã, Hatshepsut respirava fundo para encarar o dia que vinha pela frente e, eventualmente, achava que merecia uma boa massagem com os mais diversos óleos para acalmar-se. A massagem era boa para mais coisas do que apenas os nervos, as dores nas juntas pareciam melhores após a sessão, mas algumas horas depois, as dores estavam de volta, a cada dia mais fortes, o que causava crescente preocupação na faraó.

Um dia, quando já haviam se passado cinco dias desde do sepultamento de Neferure, Hatshepsut e Anúbis estavam jogando um jogo de Senet que quase parecia como os velhos tempos, se não fosse a expressão apática da faraó. O foco dela estava tão longe, que Anúbis notou com surpresa, e tristeza, que ele estava ganhando.

— Esse jogo claramente não está te distraindo tanto quanto esperava. — disse Anúbis.

— Não estou pensando só em Neferure. — defendeu-se Hatshepsut.

— Não disse que estava. — rebateu Anúbis dando de ombros.

— Mas realmente me tranquilizaria mais se me falasse mais detalhes de como está Neferure. — pediu Hatshepsut.

— O caminho de cada alma é segredo. — respondeu Anúbis — E já disse que ela chegou bem até o Salão do Julgamento.

— Porquê? — perguntou Hatshepsut cruzando os braços.

— Informação perigosa, apesar de não parecer. — alertou Hathor.

— O que as pessoas fariam se soubessem que os amados estão no Aaru, um lugar perfeito? — perguntou Anúbis retoricamente — O que as pessoas fariam se soubessem que os amados foram destruídos por Ammit?

— Não vou me matar se for o primeiro caso, nem ficarei com raiva de você atrás de vingança se foi o segundo. — insistiu Hatshepsut.

— Você é uma mãe de luto. — alertou Hathor — Melhor não.

— Finja que não me conhece… — sugeriu Anúbis — Você conhece bem a Neferure, é a mãe dela, acho que consegue analisar bem se ela foi para o Aaru ou não.

— Ela é… era… uma boa garota… — disse Hatshepsut cabisbaixa.

Uns segundos tristes de silêncio se seguiram e foram cortados pelo suspiro da faraó quando ela sentiu os olhos encherem de lágrimas. Delicadamente, ela limpou os olhos, inspirou e expirou profundamente olhando para o teto.

— Como se não bastasse isso, minhas juntas estão doendo tanto… — disse a faraó parando um segundo para fungar o nariz — Achava antes que era só a idade chegando mas… agora já não tenho tanta certeza.

— Tem que falar para o médico que o tratamento não está funcionando. — lembrou Hathor — Ao menos eu não acho que teve melhora as massagens com óleos. Muito pelo contrário.

— Dói muito? — perguntou Anúbis preocupado.

— Não MUITO mas… certamente tem incomodado cada vez mais. — disse Hatshepsut — No mais me sinto bem cansada e passar o dia inteiro andando é insuportável quando chega a noite.

— Hmm… — resmungo Anúbis pensativo, mas Hatshepsut, com o olhar baixo para o jogo de Senet entre eles na mesa, não notou o olhar.

— Talvez seja melhor descansar ao invés de se forçar a ficar acordada para tentar se distrair, o que claramente não está funcionando. — sugeriu Hathor.

— Acho melhor eu ir descansar por hoje. — disse Hatshepsut seguindo a sugestão da deusa, afinal estava de fato cansada, de todas as formas possíveis.

Hatshepsut lentamente começou a se levantar, apoiando-se um pouco mais que o normal na mesa de madeira entre os dois, mas sem de fato demonstrar qualquer maior dificuldade ou dor fora do normal, apenas parecia precisar de uma forcinha extra. Anúbis tentou ajudá-la, mas ela recusou a ajuda com a cabeça e um sorriso cansado.

A faraó não tinha nem completado 50 anos ainda, era cedo demais para dificuldades de locomoção decorrentes da velhice. Ali havia algo mais, e era exatamente essa preocupação de Anúbis, pois sabia que certamente era algo mais.

— Desculpa por não ocupar tanto seu tempo livre hoje. Realmente acho que o que devo precisar por hoje é uma boa noite de sono. — disse a faraó — Espero que encontre alguém para lhe fazer companhia.

— Não se preocupe comigo. — respondeu Anúbis.

— Amanhã tentarei estar melhor, caso você tenha um tempo livre. — sugeriu Hatshepsut e Anúbis afirmou com a cabeça — Me avisa se tiver um tempinho?

— Darei meu melhor para ter um tempo. — disse o deus fazendo a faraó rir.

— Boa noite para você então. — disse Hatshepsut, apesar de o sol ainda estar se pondo.

— Boa noite. — respondeu Anúbis tentando esconder a preocupação no olhar enquanto a rainha dava as costas e ia para o próprio quarto.

No segundo seguinte, Anúbis desapareceu e foi preocupado para o Salão do Julgamento. Não estava lá para julgar as almas, como era comum, mas estava atrás de Ísis. Infelizmente, percorreu o olhar por todo o salão, e não encontrou a deusa que constantemente aproveitava as pausas nos julgamentos para ficar com Osíris.

Naquele dia, Osíris estava com Hórus listando e explicando uma longa lista de afazeres para um amargurado Set, que não tinha escolha a não ser obedecer Osíris.

— Onde está Lady Ísis? — perguntou Anúbis se aproximando dos três e fingindo não ver o pai.

— Resolvendo várias questões, preces e afazeres pelo Egito. — respondeu Osíris levemente surpreso por quão direto e um pouco agitado, mas não desesperado, Anúbis parecia — Anda cada vez mais ocupada.

— Thoth? Heka? — questionou Anúbis.

— Heka está provavelmente em Sewenett. — respondeu Hórus.

Anúbis não precisava de mais nada. Nem se deus uns segundos para estranhar o porquê Heka estaria em Sewenett, foi direto para a cidade atualmente chamada de Assuã. Sewenett, bem ao sul do Império, era o limite do que se entendia na época como o Egito tradicional, a partir dali, era a Núbia, que no momento pertencia ao Egito também. Assim, obviamente, a cidade que recebeu Anúbis emoldurada pelos momentos finais do pôr do sol, era marcada também por guarnições e postos do exército egípcio. O exército, dedicadamente, protegia aquela fronteira tanto por terra, como pelas águas do Nilo.

Mas, existia um outro lado da cidade. As pedreiras ali localizadas aqui eram famosas por sua pedra, e especialmente pela rocha granítica chamada sienito. As pedreiras de Sewenett forneceram matéria prima para várias estátuas colossais, obeliscos e templos por todo o Egito, incluindo as pirâmides. Também era ali que estava o obelisco eternamente inacabado de Hatshepsut. Uma pedreira tão usada que o tempo não conseguiria apagar os vestígios dos pedreiros que ali trabalharam. Além do mais, foi nas pedreiras que Anúbis encontrou o deus.

Um dia longo de trabalho havia chegado ao fim para os trabalhadores que, exaustos e cheios de poeira, ansiavam por uma boa noite de sono sem imaginar que estavam sendo observados por um deus. Numa rocha mais alta do que todas as demais, Heka, o deus da magia e da medicina, um dos deuses mais antigos, se erguia do chão com uma garrafa de vinho na mão. Aparentemente estivera sentado vendo os mortais trabalharem.

— Ah, Anúbis! — exclamou o deus ao ver o outro — Imaginei que logo viria atrás de mim…

— Você… porquê estava vendo eles trabalharem? — perguntou Anúbis deixando a curiosidade escolher aquela pergunta, de resposta provavelmente rápida, antes de perguntar o que realmente queria.

— Acho louvável e interessante todo o esforço empregado pelos mortais para fazer obras incríveis, grandes e belas. — explicou o deus — O esforço, muitas vezes, começa aqui. Ao refletir sobre isso acabei criando certo interesse, uma forma de matar o tempo, de acompanhar onde alguns dos trabalhos que saem daqui vão parar. Hórus tentou me acompanhar uma vez mas… verdade seja dita, achou extremamente entediante e logo foi embora. Mas não é por isso que veio atrás de mim, pelo o que posso imaginar.

— Eles sabem? Os médicos reais… — perguntou Anúbis.

— “Eles sabem” o quê? — perguntou Heka suspirando pesadamente — O que assola a faraó ou a cura do mal dela?

— Há de fato uma cura? — perguntou Anúbis dividido entre a esperança e a descrença — Ela só tem pouco mais de 3 anos. Nem chega a 4!

— Deve ser inquietante para você ver os dias se passando… — disse Heka com uma expressão de dó.

— Heka! Tem uma cura? — questionou Anúbis — Eles conhecem ela? É isso que vai matar ela, não é? O que é?

— Os mortais não conhecem a doença ainda… — disse Heka olhando com dó para o jovem deus.

Quando imagina-se a vida numa época antiga onde até uma infecção simples podia ser fatal, é fácil esquecer de doenças muito mais assustadoras e pensar “Ah, se fosse no século 21”. Os médicos egípcios eram capazes de receitar comer pão com bolor para um paciente com um corte infectado, sem saber que o bolor do pão era um fungo que seria chamado de Penicillium, a base da penicilina, o primeiro antibiótico do mundo. Mas eles tinham um terror em comum, mas ainda sem nome, com médicos que possuíam vacinas e anestesia em seu arsenal.

Os médicos mortais da época podiam não saber o que causava as dores da faraó, mas Heka sabia bem o que era apesar de não saber a melhor forma de nomear a doença. Algo desconhecido não possui nome. Mas um dia, o que a faraó possuía seria descoberto e receberia um nome. Um nome pequeno, mas que seria carregado de muito peso e pavor. Um nome que conseguia carregar para os ouvidos de qualquer ouvinte o peso das centenas de milhares de batalhas perdidas.

Hatshepsut tinha câncer.

— Eles também não sabem uma cura… — completou Heka — Talvez trazer conforto pra ela e certeza que têm umas ideias de como tentar tratar mas…

— Nada vai funcionar… — completou Anúbis já imaginando que esse era o final da fala.

— Exato. — confirmou Heka.

O coração de Anúbis despencou. Sabia que as chances de uma cura não eram tão boas assim. Depois de tantos anos vendo centenas de pessoas morrer, tinha mais ou menos uma noção de que tipos de males a medicina da época conseguia curar. E assim, Anúbis soltou um pesado suspiro e praticamente se jogou ao sentar na pedra suja de uma leve camada de areia enquanto confirmava que era mesmo só uma questão de tempo.

Heka imitou o suspiro de Anúbis e não conseguiu evitar pousar lentamente a mão sobre os cabelos negros do jovem deus como uma forma de consolo. Claro que Heka podia curar magicamente o câncer que tomava conta dos ossos da faraó, afinal era um deus poderoso, mas deveria ter um limite para o tanto que os deuses influenciam no mundo dos mortais, se não tudo viraria uma bagunça.

Sem mais nada dizer, Heka foi embora, deixando Anúbis sozinho na pedreira olhando para a marcação onde estava o obelisco inacabado da amiga. A noite acabou com qualquer fonte de luz que não viesse de uma fogueira ou tocha acessa, e ali Anúbis permaneceu até Anput aparecer e sentar-se ao seu lado.

— Hey… — disse Anput delicadamente sentando-se ao lado dele.

— Heka te falou, foi? — perguntou ele.

— Foi… — respondeu ela soltando um suspiro pesado olhando para ele e notando surpresa uma pequena lágrima rolando a bochecha — Está chorando?

— Não… — resmungou ele limpando apressado qualquer traço de choro.

— Impressão minha… — disse Anput embora soubesse que não era.

— Hathor já deve saber… — disse Anúbis — Ela está fundida com Sekhmet afinal de contas, e está com Hatshepsut também.

— Provavelmente. — disse Anput — Afinal Sekhmet também é uma deusa da cura.

— Eu sou idiota. — disse ele.

— Não é não! Porque diz isso? — questionou ela preocupada.

— Porque eu sabia que a resposta de Heka provavelmente ia ser essa. — respondeu ele — Sinto cada ano passando e via ela mostrando sinais de que algo não estava totalmente bem. E ainda assim, fiquei me enganando. Mentindo pra mim mesmo de que os médicos reais teriam alguma cura.

— Quanto tempo mais? — questionou Anput deitando a cabeça no ombro dele.

— 3 anos e meio na melhor das hipóteses. — respondeu Anúbis.

Guiada por uma saudade e um luto precoce, Anput deixou as lágrimas que segurava pelo marido rolarem pelo rosto. Juntos, eles passaram boa parte da noite ali como se torcessem para a doce e gélida brisa noturna carregar para bem longe os problemas e as preocupações. Mas, quando tiveram que voltar para o submundo e continuar os julgamentos, obviamente, nada havia mudado.

Nos dias e semanas que se passaram, Anúbis e Anput tentaram sempre achar tempo livre para ficar com Hatshepsut fazendo qualquer coisa que fosse, por mais doloroso que fosse ver ela piorando a cada dia que passava. Mas a faraó era esperta. A mudança nos padrões de visita não lhe passou despercebido. Então, um dia, enquanto todos estavam conversando e se divertindo num cômodo e a faraó estava sentada com as pernas sobre um elegante divã com um copo de vinho na mão, ela interrompeu as conversas animadas com a curiosidade que já lhe preenchia a mente.

— Estou morrendo, não estou? — perguntou ela — Por isso estão visitando tanto.

— Não pergunte o que não está pronta para a resposta. — alertou Hathor.

Senenmut ficou pálido e surpreso ao ouvir a pergunta e olhou para Anúbis e Anput atrás da resposta da pergunta. Contudo, ambos simplesmente desviaram o olhar e permaneceram em silêncio, o que infelizmente era resposta o suficiente.

— N-Não pode ser… São e-essas dores? — gaguejou Senenmut — Os médicos estão tentando… Teremos que pedir para eles tentarem mais?

— Tutmósis III vai ficar verdadeiramente feliz se ouvir falar disso. — disse Hatshepsut encarando o vinho em seu copo — Já está ficando por eu começar a deixar, a cada ano que se passa, mais coisa para ele fazer.

— Como pode estar tão tranquila? — perguntou Senenmut.

— Já tinha minhas suspeitas. — justificou Hatshepsut tentando se fazer de forte, mas a verdade era que Senenmut viu as lágrimas se acumulando nos olhos da faraó.

O arquiteto foi rapidamente até a faraó, sentou-se na beiradinha do divã e colocou o rosto dela delicadamente entre suas mãos. O gesto foi tudo que Hatshepsut precisava para começar a chorar. A imagem partiu o coração do pobre Senenmut, que prontamente abraçou a faraó torcendo para o abraço conseguir lhe passar um pouco de força, e quem sabe uns anos de vida.

— São essas dores que ela sente no corpo, não é? — perguntou Senenmut sem soltar a faraó, mas olhando com o canto do olho para os deuses.

— É. — respondeu Anúbis.

— Podemos pedir para os médicos reais tentarem mais. — sugeriu Senenmut — Pesquisarem novos tratamentos. Tentarem de tudo. Deve ter uma cura!

— Não neste século… talvez não nesse milênio também… a doença ainda não é conhecida. — respondeu Anput, o que fez Hatshepsut chorar ainda mais.

— Isso não significa que temos que deixar de tentar. — motivou o arquiteto.

— Eu não quero morrer… — disse Hatshepsut com a voz embargada pelo choro.

Por alguns minutos, todos esperaram que Hatshepsut se recuperasse um pouco mais do choro. Senenmut pegou o esquecido copo de vinho das mãos dela, que já estava ameaçando cair no caro divã, e colocou delicadamente no chão. As mãos, normalmente firmes, do arquiteto tremiam e não demorou muito para ele começar a chorar também. O casal se abraçou e a tristeza deles era difícil de se ver.

Anput e Anúbis se entreolharam com os corações também sofrendo a dor da perda iminente de uma boa amiga. Não sabiam como deveriam se comportar naquele momento, mas felizmente a faraó ergueu o rosto levemente da proteção do ombro do amado exibindo os olhos vermelhos, inchados pelo choro. Hatshepsut ergueu a mão e chamou os dois amigos para ficarem perto dela no divã. Os deuses imitaram Senenmut e tentaram encontrar algum pequeno pedaço para sentarem ali quando Hatshepsut gesticulou que queria eles sentados ali também, não só de pé ao redor.

— Quantos anos mais eu tenho? Posso saber? — perguntou Hatshepsut com a cabeça apoiada no peitoral do amado.

Todos olharam para Anúbis enquanto ele avaliava se era uma informação que ela poderia ter dessa vez. Eventualmente, depois de alguns segundos, ele respirou profundamente e revelou a informação que tanto lhe inquietava saber.

— 3 anos, na melhor das hipóteses. — respondeu ele.

Hatshepsut deu sinais de que recomeçaria a chorar, Senenmut de fato desatou a chorar. Podia também estar sentindo os pesos da idade, mas era evidente que Hatshepsut estava muito pior de saúde do que ele. Não sabia quantos anos a mais viveria, mas também não sabia se queria saber.

A faraó respirou fundo apesar da enorme vontade de ficar chorando o resto do mês, ela precisava de forças para perguntar mais uma coisa.

— Neferure. — disse Hatshepsut — Me contará o que aconteceu com ela quando faltar menos de 1 ano? Exatamente no dia que se transformar em menos de um ano.

— Conto. — prometeu Anúbis fazendo Anput olhar chocada para ele.

— Me avisará também quando o meu dia chegar? Por favor. — pediu a faraó.

— Pede promessas demais. — falou Hathor.

— Aviso. — prometeu Anúbis novamente.

— Obrigada. — disse Hatshepsut fungando e recomeçando a chorar.

Desse dia, se seguiram meses difíceis. As dores de Hatshepsut só aumentavam e sem dúvida Tutmósis III parecia cada vez mais feliz em tomar os deveres da tia. Andar se tornava cada vez mais doloroso, então cada vez menos Hatshepsut deixava seu quarto. Mas não iria dar ao sobrinho o gosto da vitória. O que podia resolver sem ir muito longe do quarto, ela resolvia. Mandava trazer os papiros até ela e arriscava ir ao menos sair da cama até uma cadeira em seu quarto. Iria ser a faraó até o fim.

Mas os médicos reais tentavam de tudo para curar a doença da faraó e trazer-lhe conforto em meio às crescentes e constantes dores nas juntas e nas pernas principalmente. Era fácil investir muito dinheiro em tratamentos quando se era a pessoa mais rica e poderosa de um dos Impérios mais ricos e poderosos do momento.

No decorrer dos tratamentos, perdidos para a posterioridade, coincidentemente ou não, algum fez a faraó perder os cabelos. A maioria dos egípcios, homens ou mulheres, raspavam as cabeças e os com condições usavam perucas. Mas certamente doeu em sua auto-estima perder os cabelos, porém, ao menos podia recorrer a perucas caras.

As visitas de Anúbis e Anput à Hatshepsut também continuaram, e ela era grata por isso. Mas cada vez mais era difícil encontrar a faraó acordada. Felizmente, no dia em que Anúbis foi cumprir a primeira de suas promessas, Hatshepsut estava acordada. Ele surgiu no quarto dela e nenhum dos ocupantes, Hatshepsut, Senenmut e uma serviçal, se assustaram. Já eram frequentes demais as visitas, ao ponto de ele simplesmente surgir do nada ter virado rotina.

— Olá. — disse Hatshepsut fracamente, deitada na cama, mas com um sorriso no rosto.

— Podem me dar uns momentos para falar a sós com a faraó? — perguntou Anúbis.

Imediatamente Senenmut e a serviçal foram embora, a segunda nem ousando olhar para ele e antes de sair abaixando a cabeça humildemente para a faraó e para o deus. Sentindo que ali vinha uma conversa importante e provavelmente o cumprimento de uma das promessas, Hatshepsut esforçou-se para sentar na cama. A dor da faraó era óbvia, por isso Anúbis prontamente ajudou-a.

— Estou deplorável, não estou? — perguntou ela.

— Os tratamentos não diminuem a dor? — perguntou ele.

— Um pouco. Recentemente não tanto. — explicou ela — Então? Essa sua cara séria, ter pedido para falarmos a sós… veio falar de Neferure?

— Sim. Imagino que já deva saber mas… bem, Neferure foi para o Aaru. — revelou Anúbis e Hatshepsut suspirou aliviada.

— Imaginava sim. — respondeu ela — Mas imaginar é diferente de ter a total certeza com a confirmação de alguém bem informado. Uma mãe se preocupa, sabe?

Anúbis controlou a vontade de responder “não, na verdade não sei”, mas não era hora para isso. Então ficou simplesmente fitando o rosto cansado da amiga que parecia aliviada em saber que a filha estava bem. Uma lágrima de felicidade até rolou pelo rosto da faraó, mas ela prontamente limpou quaisquer lágrimas que quisessem seguir a primeira.

— Mas isso também significa que, a partir de hoje, me resta exatamente um ano. — disse ela e Anúbis afirmou com a cabeça — Não é de todo ruim, a dor está certamente insuportável e não para mesmo se eu ficar quieta.

— Você certamente é forte. — disse o deus — Olhando para você, não parece que a dor é tão insuportável quanto diz.

— Ah, mas certamente é. — respondeu ela — Dormir está sendo cada vez mais difícil. Felizmente meus médicos sabem jeitos de me ajudar nessa parte ou simplesmente sou derrotada pelo cansaço. Fiquei até agora, durante todos esses vários anos de reinado, preocupada com a possibilidade de Tutmósis III fazer algo contra minha vida, mas no final das contas, ele só precisaria esperar eu morrer. Certamente ele foi bem paciente.

— Você já governou por 15 anos… — disse Anúbis — Chegará aos 16 sem dúvidas.

— Governando da cama. — zombou Hatshepsut.

— Bem, sua trajetória foi bem única. — disse Anúbis dando de ombros — Se contar os anos que você governou em nome do seu sobrinho e por trás do seu irmão… coisa que acho que nenhum faraó teve que fazer, pode-se dizer que reinou por pouco mais de 20 anos, não?

— É. — respondeu ela rindo — Certamente nenhum outro faraó teve todo o trabalho que o faraó tem, mas sem ter o título ainda e tendo que assinar tudo sob o nome de outra pessoa por uma mera falta de um pênis. Mas felizmente consegui governar sob meu próprio nome no final.

— E vez muitas e construções belas. — lembrou Anúbis — Levou o Egito até Punt novamente. Trouxe paz para as fronteiras e para o Egito. Aumentou o comércio tanto que agora muitos têm artigos importados, não só você, e o povo tem a barriga cheia. Governar da cama pode não ser sua coisa favorita, mas não há como negar que teve um governo invejável.

— Obrigada por me animar. — disse Hatshepsut apertando a mão de Anúbis.

As visitas, no geral, seguiam esse tom mais leve, um pouco triste as vezes, mas com constantes tentativas de deixá-las felizes. Afinal era o que todos achavam que a faraó merecia. Entretanto, a partir desse dia, Hatshepsut piorou rápido demais. Os dias também pareceram passar rápido demais. Até que então, chegou o dia em que Anúbis e Anput foram visitar e suas expressões eram sérias.

— Olá.. — disse Senenmut, um tanto cansado, antes de notar as expressões dos dois deuses — Ela está meio lenta agora por causa dos remédios pra dor e… oh…

— É… — disse Anúbis notando que Senenmut parece ter notado que aquela não era uma visita como as outras.

— Chegou a hora né? — perguntou Senenmut começando a tremer.

— É.. hoje..? — perguntou Hatshepsut da cama, lentamente, com os olhos entreabertos.

Senenmut largou tudo o que estava fazendo ou pensando, e foi imediatamente para o lado da amada e segurou-lhe a mão fraca e frágil enquanto sentia os olhos enchendo de lágrimas.

— Temi esse dia chegar. — disse ele.

— Esse dia… chega para todos. — disse Hatshepsut lentamente lutando contra o cansaço para dizer cada palavra — Tome cuidado… por favor… para que façam meu … sepultamento tal como… pedi. Tutmósis III… certamente… irá atrapalhar.

— Não deixarei. — prometeu Senenmut.

— Ainda temos boa parte do dia. — avisou Anúbis enquanto ele e Anput se aproximavam da cama de Hatshepsut.

— Ainda vou… ver vocês lá… embaixo, certo? — perguntou Hatshepsut olhando para os amigos, que afirmaram com a cabeça.

— Só não se perder no caminho. — alertou Anput.

— Estudei direitinho o Livro dos Mortos. — respondeu a faraó com um sorriso fraco.

Uma forte fungada de Senenmut atraiu o olhar de Hatshepsut para ele. Ela ergueu a mão tentando tocar-lhe o rosto, mas precisou da ajuda da mão dele para terminar o trajeto.

— Está tudo bem, meu amor. — disse ela — Não aguento mais essa dor constante. É melhor assim.

— Não é justo. — disse Senenmut — Deveria ter um reinado logo como Pepi II!

— Ele não reinou por… pouco mais de… 90 anos? Já subi ao trono… velha demais… para isso. — perguntou ela rindo fracamente mas com as lágrimas enchendo o olhar — Eu te amo… Senenmut…

— Eu também te amo, Hatshepsut. — respondeu Senenmut com a vista embaçada e a voz ficando imediatamente embargada pelo choro.

— Desculpa… por ter sido… egoísta… o suficiente para não… querer casar com você… por medo de… te passarem o trono. — disse Hatshepsut.

— Besteira. — respondeu Senenmut chorando acariciando o rosto dela gentilmente — Marido é só um título e você merece cada pedaço do trono.

— Espero te encontrar… lá embaixo também… bem depois. — disse ela.

— Eu também. — respondeu Senenmut.

Mesmo com a faraó deitada, Senenmut a beijou. Não queria forçá-la a aguentar ainda mais dor tentando ergue-la um pouco, mesmo que soubesse que mesmo parada a dor nos ossos ainda estava lá. Havia poucas pessoas ainda vivas que Hatshepsut fez questão de chamar para que pudesse dizer algumas últimas palavras. Já estava se perguntando se encontraria Neferure e se seu pai, que fora um faraó tão bélico mas que de fato tinha ajudado a reerguer o Egito depois de quase cair de vez para os hicsos, estaria no Aaru também.

Quando o sol estava se preparando para se pôr, Hathor deixou o corpo de Hatshepsut e ficou, ao lado de Anúbis, Anput e Senenmut, acompanhando a faraó ao redor de sua cama. Foi preciso muito esforço de Senenmut, sentado ao lado da amada, para não surtar e se curvar para Hathor. Não era hora para isso e, estranhamente, sentia que a deusa não iria reclamar por ele ignorar a aparição dela naquele momento.

Vendo a deusa fora de si, Hatshepsut abriu um fraco sorriso enquanto uma lágrima rolava pelo seu rosto.

— Isso significa… que meu tempo está acabando? — perguntou a faraó.

— Sim. — respondeu Hathor.

— Também… a verei… no julgamento? — perguntou ela.

— Estarei lá. — garantiu Hathor.

Um pequeno e fraco sorriso apareceu no rosto da faraó e então seu olhar rumou para o choroso Senenmut, pois sentia que, afinal de contas, era apenas ele que ela não sabia quando nem se iria ver novamente. Ela o fitou longamente, mesmo com as lágrimas atrapalhando o olhar e mesmo sendo tão difícil ficar acordada. Após sabe-se lá quanto tempo apenas fitando-se, Senenmut sussurrou:

— Eu te amo.

Sem forças para responder, uma lágrima rolou pelo rosto de Hatshepsut e Senenmut delicadamente limpou-a. A dor insuportável que a faraó sentia em cada osso do corpo não importando o que os médicos reais faziam começava a desaparecer. Os três deuses presentes sentiam os próprios olhos encherem de lágrimas. Anúbis, sentindo a necessidade de uma força extra, segurou a mão de Anput firmemente enquanto sentia cada fio de vida se partir em Hatshepsut.

O último fio de vida, fino, frágil, lutou bravamente para continuar em meio ao silêncio choroso do cômodo, mas eventualmente ele se partiu. O brilho deixou o olhar de Hatshepsut. Aos meros 49 anos de idade, Hatshepsut deixou o mundo mortal.

Notas finais
*************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Ai gente doeu… mas sabe o que dói mais? Saber que rolou mesmo. É… Aos 49 anos de idade Hatshepsut morreu por causa de um câncer nos ossos. Ela provavelmente também tinha diabete mas aí já achei que tava sofrido o suficiente. Ela foi provavelmente sepultada com o papai dela no Vale dos Reis. “Provavelmente” pq… erm… rolou umas confusões aí com as múmias reais e com a dela. Enfim… próximos caps… A múmia dela, sem um fio de cabelo (o que não é muito comum), pode ser encontrada no Museu da Civilização Egípcia, no Cairo, junto com uma boa parentada que inclui Tutmosis I, II e III. Não faz tanto tempo assim que identificaram a múmia dela. Sua múmia foi descoberta em 1903, mas foi considerada sem importância e guardada até que o Discovery Channel financiou um teste de DNA de 5 milhões dólares em 2007, que aí identificou a nossa querida Hat. O link pra ver a múmia dela tá ali nas referências mas né… só abra se estiver afim de ver uma múmia. Ainda temos algumas ceninhas nessa época no prox cap. **** REFERÊNCIAS **** Múmia da Hat ( SÓ ABRAM SE ESTIVEREM A FIM DE VER UMA MÚMIA!) - https://nmec.gov.eg/mummies-hall/Hatshepsut Tradução Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut - https://mjn.host.cs.st-andrews.ac.uk/egyptian/texts/corpus/pdf/HatshepsutPunt.pdf Hatshepsut - https://en.wikipedia.org/wiki/Hatshepsut#Building_projects