A Morte Das Areias do Saara

137 O Que Acontece no Palácio


Notas iniciais
desculpa a demora! me perdoeem por favor. muita coisa aqui pra mim. tá complicado. enfim, aproveitem mais um cap.

Ele é como a luz. Ele é como Rá.

Ele não deixa seu lugar no Duat. Ele é como isto: Quando este deus o chama de Atem, ele volta

suas costas e engolir sua imagem. Ele vive em sua sombra seu cadáver e cabeça

Seu próprio corpo está sobre “Aquele que tira as portas”. O que ela faz é comandar os vivos

~ Fragmento de “O livro do Amduat”

A noite mal havia começado no dia do sepultamento de Tutancâmon. O povo ia para suas casas aproveitar as últimas horas de descanso antes do começo de mais um dia, os deuses, alheios à necessidade de dormir, cuidavam de seus afazeres ou simplesmente aproveitavam algum tempo livre que tivesse surgido. No palácio, os bons de vida, que não tinham que se preocupar em acordar cedo para cuidar da plantação, caçar ou pescar no dia seguinte, participavam de uma festa tanto como despedida de Tutancâmon, como em pré-boas vindas para Ay como faraó.

Ao lado dos muros externos do palácio, sentadas com as costas grudadas no muro, estavam Kebechet e Macária, aproveitando o que sabiam ser as últimas horas de brincadeiras que teriam no dia. Como última brincadeira do dia, elas queriam uma pequena aventura que mataria também algumas curiosidades delas.

— Tem certeza? — perguntou Macária.

— Tenho sim. Vai ser rapidinho. — respondeu Kebechet.

As duas, dada as diferentes origens e criações, as duas meninas tinham línguas maternas diferentes. Contudo, o tanto que brincavam juntas desde pequenas, fez com que tivessem aprendido parcialmente o idioma uma da outra. Com isso, toda conversa delas era uma mistura maluca de egípcio e micênico usados aleatoriamente até mesmo na mesma frase. Para alguém de fora, era sem dúvida confuso, mas elas se entendiam muito bem.

Kebechet e Macária se deram as mãos, fecharam os olhos e se concentraram e logo abriram os olhos de novo. As duas se olharam com curiosidade e esperança estampadas no olhar.

— Funcionou? — perguntou Macária.

— Vamos ver… — motivou Kebechet sem soltar a mão da amiga, levantando-se logo em seguida e puxando a amiga junto.

De mãozinhas firmemente entrelaçadas, as duas andaram até uma das entradas dos muros do palácio, onde um par de guardas estava impedindo qualquer estranho de entrar. Elas pararam na frente dos guardas, que em nenhum momento olharam para elas. Nem quando Kebechet acenou para eles, nem quando as duas garotas lentamente avançavam para o território do palácio passando entre os dois guardas.

— Funcionou! A magia funcionou! — exclamou Macária surpresa enquanto ainda andavam seguindo os sons da festa — Eles não tão vendo. Nem ouvindo né?

— Eu disse que a gente tinha aprendido direitinho. — disse Kebechet — Thoth me deu até um pratão de melancia de parabéns no dia.

— Mas eu não sei ainda segurar por muito tempo… — resmungou Macária olhando para o chão, meio tristonha — Quando eu me distraio ela desfaz…

— Por isso que a gente tá de mãos dadas. Uma protege a outra. — disse Kebechet olhando para a amiga com um grande sorriso.

— Tá! — respondeu Macária sorrindo de volta.

— Agora vamos ver como é o palácio… — disse Kebechet.

Sempre de mãos dadas, as duas meninas atravessaram o palácio burlando facilmente a segurança dele, mesmo com a pouca idade e habilidade de magia que tinham. Elas passaram pelos jardins, por serviçais e por guardas enquanto seguiam a música da festa.

Já perto de onde a festa acontecia, elas pararam repentinamente ao ver uma moça sair assustada da festança. A moça não parecia bem, ela parecia estar passando mal e parecia bem cansada também.

— Acho que aquela é a rainha… — revelou Kebechet — Anque… Anquemão… não… Anquenana… Anque-alguma-coisa.

— A Anquese-alguma-coisa tá bem? — perguntou Macária enquanto Anquesenamon começava a andar, sempre encostada na parede do palácio, indo para longe de toda a muvuca — Tá dodói? Ela parece dodói.

— Vamos seguir ela. — sugeriu Kebechet.

As duas meninas, aproveitando que estavam escondidas magicamente, seguiram a rainha sempre de mãos dadas. Elas seguiram a rainha enquanto ela ia para os fundos do palácio, em busca de um lugar deserto, longe do olhar de curiosos enquanto andava cada vez mais rápido.

Apesar de estarem invisíveis, as duas meninas, por simples extinto, ainda se esconderam atrás de uma tamareira solitária quando a rainha parou de andar repentinamente e vomitou no chão pousando a mão sobre a barriga.

— Eca… — resmungou Macária quando o vômito da rainha caiu na areia.

— Acho que ela tá dodói mesmo… — sussurrou Kebechet no ouvido de Macária colocando a mãozinha do lado da boca para proteger o sussurro de vazar.

— Papai diz que os mortais ficam doentes e aí morrem… — disse Macária também colocando a mãozinha do lado da boca ao falar com a amiga — Será que ela vai morrer?

— Espero que não… — admitiu Kebechet.

Anquesenamon se ajoelhou segundos antes de vomitar uma segunda vez. As duas meninas se encolheram de nojo, colocando a mão na frente dos olhos mas abrindo uma pequena fresta entre os dedos para poderem olhar, preocupadas, para a rainha. A rainha, que não parecia tão preocupada quanto as meninas, apenas respirou fundo depois do segundo vômito enquanto carinhosamente acariciava a barriga.

Sentindo que não havia um terceiro vômito vindo, Anquesenamon olhou preocupada ao redor, em busca de alguma testemunha de seus vômitos e, aliviada por não encontrar nenhuma, pegou um punhado de areia ali perto e enterrou o próprio vômito. A areia faria o resto para acabar com seus vestígios. Ela então ergueu-se e foi apressadamente até um dos espelhos d’água do palácio.

— Vem, vamos seguir ela. — motivou Kebechet, tirando a mão do rosto e logo puxando a amiga.

A rainha se ajoelhou ao lado do espelho d’água, pegou um punhado dessa água nas mãos e, tomando cuidado extra para a água não cair de volta no espelho d’água, lavou o rosto e a boca. Tomando então uns segundos para si, para se arrumar e parecer que nada tinha acontecido, Anquesenamon se ergueu, bateu no vestido para tirar a areia que nele pudesse ter grudado, e com as meninas seguindo cada passo seu, voltou para a festa.

Enquanto Anquesenamon apenas suspirou ao chegar no portal de entrada da festa, criando coragem para encarar o que restava de festança, as duas meninas ficaram com os olhos brilhando. Os dançarinos, os músicos e as comidas atraíam o olhar das garotas e as deixavam maravilhadas. Sem pensar duas vezes, esquecendo qualquer interesse na rainha, sempre de mãos dadas, Kebechet e Macária saíram correndo, driblando as pessoas no meio do caminho, e foram direto para onde as pessoas dançavam.

Kebechet ria e Macária sorria alegremente quando as duas deram ambas as mãos e começaram a girar, pular e dançar junto com os outros convidados da festa, embora totalmente fora de ritmo. Tomando cuidado de ficar ao menos com uma das mãos entrelaçadas, as duas meninas às vezes também tentavam imitar os dançarinos e caíam na gargalhada quando não conseguiam ou inventavam um novo passo que parecia uma versão besta do original.

— Olha! Ali tem comida! — apontou Macária puxando levemente Kebechet.

— Que melão bonito! — exclamou Kebechet quando pousou os olhos sobre a fruta.

— Quanta fruta estranha! — disse Macária rindo.

As duas então correram direto para a grande mesa, onde a maior parte da comida estava concentrada. Compelidas pela comida, as amigas acabaram soltando as mãos ao atacarem com alegria, e curiosidade por parte de Macária, os pratos com uvas, tâmaras, bolo, pão, peixe, figo, melão, sicômoro, romã, bagas e doum. Os dedinhos pequenos pegavam cada fruta, cara e geralmente acessível apenas aos ricos, com delicadeza e logo comiam.

— Cuidado com a semente da uva… — disse Kebechet, com uma fatia de melão na mão, repetindo o que havia ouvido em casa.

— Eu sei… — garantiu Macária com uma uva na mão mas focada com curiosidade nas estranhas frutas mais desérticas — Mamãe me ensinou.

As meninas estavam extremamente concentradas se deliciando com a comida, quando as conversas do salão diminuíram drasticamente com a entrada de duas pessoas. Kebechet e Macária não entenderam o motivo da tensão que se espalhou quando Horemheb e Paramessu entraram no salão, exaustos e sujos pela viagem até ali.

— Horemheb! Seja bem vindo! — disse Ay com falsa receptividade — Deixou o fronte de batalha até bem rápido.

— Claro! Sepultou o faraó bem rápido também! — acusou Horemheb — Última vez que chequei, uma mumificação Real demorava meses.

— Não sou o embalsamador… — disse Ay dando de ombros e, repentinamente, puxando Anquesenamon, que estava ali perto, e passando os braços pelos ombros dela, como um casal.

A pobre Anquesenamon travou no lugar, como uma estátua, e era possível ver o desgosto, desespero e nojo escapando de seu rosto apesar da tentativa dela de se manter imparcial. A rainha se encolhia ao lado de Ay, como se tentasse disfarçadamente fazer ele parar de tocar nela.

— Banquei todo o custo do sepultamento, sabe o que diz a tradição. — lembrou Ay.

— Infelizmente… — respondeu Horemheb, olhando para Anquesenamon, já entendendo qual seria o plano de Ay — Me pergunto, no entanto, se em toda a história do Egito já houve um faraó subindo ao trono tão… tão… velho. Caindo assim aos pedaços.

Ay fechou a cara, encarando Horemheb intensamente. As pessoas, ao redor, acompanhavam tudo com extrema tensão e curiosidade pelas cenas que viriam, praticamente só faltava uma pipoca, se tivessem já a inventado.

— Não estou velho e caindo aos pedaços. — resmungou Ay.

— Aposto que Tutancâmon está com uma aparência melhor que você. — completou Horemheb, ousadamente, dando de ombros — Você serviu como um dos conselheiros do menino, e para o pai dele, o herege, seu sobrinho. Ligado por sangue à linhagem amaldiçoada pelos próprios deuses.

— É mesmo… — diziam os sussurros das pessoas ao redor.

— Isso não vai dar certo… — disse uma segunda pessoa.

— E Ay se quer ainda pode gerar qualquer herdeiro? — perguntou outra pessoa aos sussurros — Senão, logo estaremos nessa mesma situação de novo.

— Quando eu for faraó… você vai-- começou Ay, falando entredentes, mas Horemheb logo o interrompeu.

— Vai o quê? — perguntou Horemheb — Você pode ter os sacerdotes, mas eu tenho o exército e todos saberão quem conspirou contra mim caso faça alguma coisa. Assim, quero ver impedir as invasões com rezas e oferendas.

— Kebechet, você entendeu? — perguntou Macária, com os olhos grudados na cena, para Kebechet, que negou com a cabeça.

— Não entendi muito… — respondeu Kebechet.

— Ora, quem são vocês? — disse uma mulher notando a presença de Kebechet e Macária, que sem querer desativaram a magia que as escondia — Nunca as vi por aqui, são filhas de quem?

— Já é hora de criança estar dormindo… — disse uma segunda mulher gentilmente.

Kebechet e Macária se entreolham assustadas ante a realização de que, tão concentradas na comida e na cena entre Horemheb e Ay, haviam desfeito a magia. Kebechet pegou um cacho de uva e as duas saíram correndo imediatamente na direção oposta das mulheres.

As duas mulheres olharam confusas para as crianças, que, com o silêncio do salão decorrente da discussão entre Horemheb e Ay, acabaram atraindo atenção para si mesmas. Sem tempo de parar num cantinho para refazer a magia que as escondia dos olhos dos mortais, elas saíram correndo, deixando o salão e a festa para trás ignorando também o “Hey!” que algum guarda soltou quando elas entraram no jardim.

As duas meninas engatinham para se esconderem atrás de uma área circular formada por vários arbustos de crisântemo, criando um esconderijo perfeito no meio já que só uma criança pequena conseguiria passar no pequeno espaço entre um arbusto e outro. Enquanto isso, o guarda, que decidiu seguir as meninas, logo perdeu o interesse, julgando que deveriam ser filhas de algum nobre que estava na festa, embora não estivesse tão convencido disso.

Kebechet, protegendo o cacho de uva roubado na mão direita, olhou para Macária e, silenciosamente, colocou o dedo indicador esquerdo na frente dos lábios, lembrando a amiga de fazer silêncio quando ouviram passos se aproximando.

Macária afirmou com a cabeça, mas as duas meninas logo travaram de medo, com as mãozinhas apertadas cada vez mais forte, quando os donos dos passos começaram a mexer nos arbustos das delicadas flores bem próximo a onde elas estavam. As flores foram se mexendo, os galhos finos foram puxados para o lado e eventualmente, um dos donos dos passos surgiu. Era simplesmente Perséfone, com um gentil sorriso no rosto.

— Hoje foi dia de uma pequena aventura no palácio? — perguntou Perséfone.

— MAMÃE! — exclamou Macária imediatamente engatinhando pelo pequeno buraco baixo entre um arbusto e o outro, para ir ao encontro da mãe.

Kebechet engatinhou para fora do esconderijo logo atrás de Macária e, enquanto Macária corria para os braços de Perséfone, Kebechet percebeu que logo ao lado da deusa micênica, estava Anput.

— Porque eu acho que eu sei de quem foi a ideia? — perguntou Anput.

— Não foi minha! — defendeu-se imediatamente Kebechet, indo até Anput com um biquinho no rosto e a cabeça meio abaixada.

— Ah, não? — perguntou Anput pegando a menina no colo.

— Foi um trabalho em equipe. — explicou Kebechet.

— Foi! Equipe! — confirmou Macária, acabando por fazer Perséfone rir.

— Pobres mortais, vão ficar agora se perguntando de onde surgiram duas crianças e como elas sumiram. — disse Perséfone, apertando a menina no colo com um abraço que a fez rir.

— Eles já lidaram com pior. — disse Anput, rindo também.

— De toda forma, está na hora de voltar para casa, Macária. — disse Perséfone passando os dedos carinhosamente pelo cabelo negro de Macária — Já está tarde.

— Só mais um pouquinho… — pediu Macária.

— É, só mais um pouquinho. — disse Kebechet, se juntando ao pedido.

— Já está escuro. — lembrou Anput — Sei que sabem se cuidar bem para os perigos mortais, mas a noite não é para crianças ficarem brincando soltas por aí. Mesmo as imortais.

— Exatamente. — concordou Perséfone, deixando ambas as meninas com biquinhos tristonhos — Amanhã podem brincar mais.

— Pode ser com o Cérbero amanhã, tia Perséfone? — pediu Kebechet.

— Vou ver com Hades, tudo bem? — prometeu Perséfone, piscando um olho para Kebechet.

— Tá… — respondeu Kebechet.

— Vamos então? — perguntou Perséfone, olhando para Macária.

— Pera! — exclamou Kebechet.

Kebechet olhou para o cacho de uvas em sua mão e delicadamente, e um pouco de dificuldade, arrancou um pedaço dele com uma breve ajuda de Anput, mantendo ainda meia dúzia de uvas ainda presas nos delicados galhinhos. Ela então estendeu o sub-cacho para Macária, que pegou com um pequeno sorriso.

— Bigada… — disse Macária.

— Agora podemos ir? — perguntou Perséfone, olhando dessa vez para Macária e Kebechet, que afirmaram tristemente com a cabeça.

Macária e Kebechet acenaram um adeus uma para a outra até Perséfone sumir completamente com Macária no colo. Em seguida, foi a vez de Anput e Kebechet irem embora de volta para o submundo. Chegando lá, os deuses estavam concentrados no final de um julgamento. Anput cobriu apressadamente os olhos de Kebechet ao mero sinal de Ammit chegando à fase final de sua refeição e aos sons finais do grito de uma alma.

— Mamãe? — perguntou Kebechet meio perdida, não era a primeira vez que a mãe fazia isso, mas ela ainda não entendia o porquê.

— Só um momento, meu amor. — pediu Anput.

Vendo a chegada das duas, como aquele julgamento estava praticamente finalizado e tudo o que faltava era Ammit terminar seu banquete e limpar os beiços, Anúbis apressadamente foi até as duas e tomou Kebechet no colo. Ele estava disposto a distrair ela do que Ammit fazia, e assim, ao pegá-la no colo, encheu-a de beijos na bochecha e no pescoço, fazendo a menina rir, pois ela tinha cócegas nos mesmos lugares que a mãe.

— P-Para! — pediu Kebechet, mal conseguindo parar de rir.

Anúbis de fato parou, tomando cuidado de deixá-la de costas para Ammit.

— Brincou bastante com a Macária, Keb? — perguntou ele.

— Sim! — garantiu Kebechet, com um grande sorriso.

— As duas invadiram o palácio. — confessou Anput.

— As duas… o quê? — perguntou Anúbis meio surpreso, olhando para Kebechet, que começava a dar uma pequena risadinha que admitia sua culpa — Puxou a mãe mesmo…

— Ei! — reclamou Anput — Eu nunca invadi um palácio assim nessa idade!

— Foi de lá que pegou essas uvas? — perguntou Anúbis olhando para a mão da menina.

— Foi. — respondeu Kebechet — Eu dei um pouco para a Macária, mas ela disse que lá na casa dela já tinha uva. Queria dar alguma frutinha que não tem na casa dela.

— Acho que lá não tem tâmara. — disse Anúbis.

— Eu não sei se ela gosta de tâmara… — admitiu Kebechet.

— Ela não deve ter comido ainda. — sugeriu Anput — Leve um pouco amanhã para ela experimentar, se forem brincar.

— Amanhã a tia Perséfone vai ver se eu posso ir brincar com o Cérbero. — explicou Kebechet, olhando para Anúbis.

— Que legal. — respondeu Anúbis — Brinque bastante com ele. Ele gosta.

— Você leva ela? — perguntou Anput e Anúbis logo afirmou com a cabeça.

— Claro. — respondeu ele.

— Eu posso dar água pro pessoal lá fora na fila? — perguntou Kebechet.

— Não quer descansar? — perguntou Anput — Amanhã bem cedinho você já tem aula com Thoth…

— Não tô cansada! — insistiu Kebechet — Quero ajudar!

— Pode ser. — disse Anúbis, sabendo que não era ela lutando contra o sono, afinal, a cada mês que passava as horas de sono iam diminuindo e logo ela não precisaria mais dormir, sentia falta dela tão graciosa dormindo e babando… e dando menos trabalho.

Para não correr o risco de Kebechet ver Ammit, ele levou-a para fora do Salão do Julgamento ainda no colo e seguido por Anput. Já do lado de fora, sob o olhar de curiosidade, atenção e medo das almas, ele colocou Kebechet no chão. Carinhosamente, Anput acariciou a cabeça da filha, que logo abriu um sorriso.

— Vou ajudar! — declarou Kebechet.

— Não saia de perto da mamãe, tá? — pediu Anúbis.

— Tá! — prometeu Kebechet, fazendo um copo aparecer em suas mãos e logo depois saindo correndo, ignorando o pedido recém feito pelo pai.

Anput saiu correndo o mais elegantemente possível atrás da filha, e Anúbis voltou para o Salão do Julgamento, mas não sem antes parar alguns segundos na porta de entrada para admirar Kebechet e Anput de longe.

— Kebechet invadiu o palácio? — foi a primeira coisa que Hórus perguntou quando Anúbis voltou para o Salão do Julgamento.

— Assim parece… — respondeu ele.

— Ela deve ter visto Horemheb chegando com Paramessu. — disse Hórus — Quero ver no que essa situação toda vai dar.

— E vai dar em algo? — perguntou Osíris, de seu trono, se juntando a conversa — Ay tem o clero do seu lado e foi ele que pagou pelo sepultamento de Tutancâmon. Já são duas condições para ele virar faraó enquanto tudo que Horemheb tem é o exército.

— Que também é uma condição. — lembrou Hórus.

— De fato. — concordou Osíris — Sei que prefere Horemheb.

— Precisamos de um exército forte. — justificou Hórus.

— Tenho que concordar… — murmurou Anúbis.

— E um faraó forte… — completou Ísis, se juntando também à conversa.

— Calma, não estou dizendo que discordo de você. — defendeu-se Osíris — Infelizmente, é fato que Ay está com vantagens, especialmente se ele se casar com Anquesenamon.

— Não duvidaria nada se ele carregasse ela para a cama hoje mesmo… — murmurou Hórus, claramente sentindo pena e empatia pela pobre rainha — Se ela ao menos tivesse metade do fogo de Hatshepsut…

— Ao menos da inteligência ela mostrou ter… — disse Anúbis, dando de ombros — Pediu um marido para Suppiluliuma. Talvez teria conseguido algum filho dele para ser o novo faraó, se não fosse o fato de a mumificação de Tutancâmon ter sido tão apressada.

— A resposta da rainha ainda está indo para os hititas… — disse Thoth, acabando por deixar seus papiros de lado para se juntar à conversa também — Será que vão mandar um príncipe ainda assim? Com certeza será tarde demais.

— Hm… Talvez ela pense em fazer um golpe, caso consiga o príncipe hitita? — sugeriu Ìsis — Ela está grávida… pode enganar todos quanto a de quem é o filho, mas sabemos de quem é…

— A última tentativa desesperada de um herdeiro… — disse Osíris.

— E a última tentativa de Anquesenamon é o filho de Suppiluliuma. — disse Isis suspirando lentamente.

Essa última esperança da rainha deixaria o império Hitita com a chegada da resposta de Anquesenamon dias depois. Zannanza não era o filho mais velho do imperador Hitita, mas era solteiro e de confiança, tudo o que os hititas precisavam para colocá-lo como faraó.

Suppiluliuma olhou para o filho, pronto para deixar o lar que conhecia em direção à Tebas, e lhe deu tapinhas no ombro antes de segurá-lo pelos ombros com o olhar cheio de orgulho, mas também medo do futuro. Os olhos de Suppiluliuma percorreram o rosto de Zannanza, uma versão mais jovem do seu próprio, mas com detalhes do rosto da mãe.

— Vá em paz, meu filho. — disse Suppiluliuma — Avise-nos quando chegar.

— Claro, pai. — respondeu Zannanza.

— E vê se faz um herdeiro logo. — brincou Suppiluliuma soltando uma risada poderosa, enquanto o filho só revirou os olhos, mas com um sorriso no rosto.

Com tudo pronto, Zannanza subiu em seu cavalo, olhou para o pai uma última vez, e junto com sua pequena comitiva, partiu do Império Hitita, rumo às terras dos vizinhos egípcios. Seria uma viagem de vários dias e com poucas mordomias, mas sabia que a situação exigia pressa, então o jovem príncipe iria aguentar firme.

Foi com muita alegria e alívio que Zannanza chegou diante do palácio real egípcio em Tebas depois de longos dias de viagem acompanhando o Nilo.

— Sua alteza, o príncipe Zannanza, do Império Hitita, filho de Suppiluliuma está aqui respondendo ao convite. — proferiu em egípcio um dos guardas que acompanhavam Zannanza para um dos guardas na entrada do palácio.

— Irei confirmar com vossa Majestade, o faraó Ay. — disse um dos guardas, entrando no palácio.

— Faraó? — questionou Zannanza em meros sussurros em hitita, olhando para o guarda hitta ao seu lado — Mas já?

— Estou com um mal pressentimento sobre isso, vossa alteza. — sussurrou o guarda hitita de volta.

— Eu também. — concordou o príncipe.

Nervoso sobre seu cavalo, o príncipe aguardou pela volta do guarda egípcio apertando firmemente as rédeas de sua montaria. O guarda egípcio, depois de alguns minutos, voltou acompanhado de outro guarda.

— Venha comigo. — disse o primeiro guarda deixando o segundo em seu lugar — O faraó irá recebê-lo. Sigam-me.

O guarda guiou o caminho da pequena comitiva do príncipe hitita até o mesmo cômodo que, alguns dias antes, a rainha havia discutido com o mensageiro hitita. Uma mesa simples e duas cadeiras estavam ali, recebendo a luz do sol que vinha pela porta principal, como se soubessem que apenas duas pessoas poderiam se sentar naquela discussão, já que os guardas provavelmente ficariam sentados.

O príncipe e seus guardas entraram na sala visivelmente tensos, especialmente sob o olhar do guarda. Ainda assim, a pequena comitiva entrou e acompanhou com o olhar quando uma serviçal colocou vários copos de vinho na mesa do centro do cômodo, se curvou levemente para o príncipe, indicou uma das cadeiras, motivando-o a ficar à vontade, e partiu.

Veneno não era um conceito muito conhecido ainda, mas embriaguez era famosa o suficiente. Assim, Zannanza se sentou, mas não havia nem tocado nas taças quando Ay chegou. Zannanza tentou esconder sua decepção por ter sido o novo faraó que chegou, e não a rainha.

— Seja muito bem vindo ao Egito, Zannanza. — disse Ay.

— Obrigado por me receber. — disse Zannanza, mantendo-se cauteloso.

— Não esperava me ver? — perguntou Ay.

— Não imaginei que tivessem encontrado um herdeiro para Tutancâmon tão rápido assim. — justificou-se Zannanza, embora Ay soubesse que isso era ao menos parcialmente mentira.

— Não podemos deixar o trono do Egito vazio por tanto tempo. — disse Ay, olhando para o vinho e para o príncipe Hitita — Não gosta de vinho? Pedi que trouxessem nossa melhor seleção.

— Não gosto muito de beber depois de uma longa viagem. — disse o príncipe.

— Ah sim, tem razão. A viagem foi longa e deve estar cansado. — disse Ay — Gostaria de passar a noite? Será muito bem vindo.

— Pensarei sobre, obrigado. — disse o príncipe — Contudo, não acho que poderei.

— Bobagem… — disse Ay enquanto dois guardas egípcios entravam lenta e silenciosamente no cômodo e ficavam ao lado das portas, completando assim, três guardas — O que veio fazer aqui, afinal? E logo com a rainha?

— Não vim falar com a rainha… — mentiu o príncipe, não deixando de notar, com o canto do olho, os dois guardas entrando, seus próprios três acompanhantes também notaram — Vim tratar de assuntos com vossa majestade…

— Mesmo? — perguntou Ay, numa surpresa fingida enquanto mais um guarda egípcio entrava na sala e os guardas hititas já colocavam a mão nas próprias espadas — Achei que tivesse vindo responder o pedido por um marido de Anquesenamon para então ficar com o trono do Egito…

— Não sei do que está falando. — disse o príncipe hitita, se erguendo prontamente de sua cadeira, tentando tirar um pouco da desvantagem de estar sentado — Não vou aceitar tais acusações.

— Hmm… — disse Ay também se erguendo lentamente parecendo pensar na situação — Vou perguntar para ela então.

Com Ay se erguendo e indo na direção da porta de saída, Zannanza entrou imediatamente em desespero. Ele tentou disfarçar esse desespero e falou:

— Espere! — exclamou Zannanza.

Contudo, do lado de fora do cômodo, um guarda repentinamente surgiu e atirou com seu arco e flecha contra Zannanza, que havia acabado de levantar da cadeira estrategicamente localizada. O príncipe caiu, segurando o peito ferido, em cima da cadeira da qual havia se levantado. O caos começou acompanhado de gritaria, Ay correu para fora do cômodo ao mesmo tempo que mais guardas egípcios entravam e uma dupla de guardas, ainda do lado de fora, fechou a porta, selando todos ali dentro.

Gritos e o bater de espadas podiam ser ouvidos mesmo do lado de fora, onde Ay começava a avaliar qual era a distância considerada segura para ele ficar da porta.

— O que está aprontando? — perguntou Anquesenamon, chegando ao ser atraída por gritos e fofocas dos serviçais, que indicavam que algo acontecia ali.

— Nada que seja do seu interesse. — respondeu o faraó.

Anquesenamon ouvia os gritos, ficando cada vez mais pálida em resposta a eles, e imediatamente correu em direção à porta, tentando salvar o príncipe hitita.

— Não se meta! — ordenou Ay, segurando-a fortemente, impedindo-a de continuar, enquanto os dois únicos guardas do lado de fora se colocaram na frente da porta, embora com tristeza no olhar e meio cabisbaixos.

— O que está fazendo!? — perguntou Anquesenamon, com medo de perguntar diretamente se era algum príncipe hitita ali dentro — Porque esses gritos no palácio e logo ali? O que até aprontando, Ay?

— Só fique quieta! — pediu Ay novamente.

Do lado de dentro, Zannanza estava muito mais desesperado que Ay. Ainda vivo, ele via o sangue escapando da ferida em seu peito e seus guardas, com muita bravura, tentando protegê-lo. Os egípcios estavam em vantagem numérica mas, mesmo ferido, Zannanza quebrou a madeira da flecha, deixando o resto dela alojada em seu peito, se ergueu e pegou sua própria espada.

Seu grito, clamando por força do deus Zababa, o deus hitita da guerra, explodiu pelo salão quando sua espada começou a cortar o ar. A mera força do grito já deixou-o tonto. Seu peito doía enormemente, mas tentava ignorar até o gosto de sangue que sentia na boca.

Zannanza conseguiu causar alguns ferimentos num guarda egípcio, mas esse mesmo guarda dilacerou o ombro de um dos guardas hititas, fazendo o braço direito pender, inútil. A última coisa que Zannanza sentiu, foi o metal frio de uma espada contra seu pescoço e então tudo acabou.

Para Zannanza tudo acabava ali, mas para o Egito, os problemas estavam apenas começando.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** IMPORTANTE: Não existem provas de que Anquesenamon tenha dado luz a qualquer filho (não natimorto) de Tutancâmon ou mesmo Ay, mas, quem leu Crônica dos Kane sabe que nós precisamos da linha sanguínea do Tutancâmon continuando kkk. Respondendo aos pedidos de Anquesenamon, Suppiluliuma enviou um dos filhos, provavelmente Zannanza. Zannanza nunca voltou ao Império Hitita. De alguma forma misteriosa, ele morreu no Egito. ps: Veneno ainda estava sendo inventado kkk **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 Jardins no Antigo Egito - https://en.wikipedia.org/wiki/Gardens_of_ancient_Egypt#History Carta de Anquesenamon para os hititas - https://ancientegyptonline.co.uk/suppiluliuma-letter/#:~:text=The%20Egyptian%20queen%20answered%20my,and%20I%20have%20no%20son. Kebechet - https://www.worldhistory.org/Qebhet/ Anquesenamon e Zannanza - https://www.thecollector.com/ankhesenamun-and-zannanza/ Mitologia Hitita - https://en.wikipedia.org/wiki/Hittite_mythology_and_religion