A Morte Das Areias do Saara
90 O Protetor dos Órfãos
Notas iniciais

Quando nos beijamos, e seus lábios quentes entreabertos,
Eu voo até as nuvens sem cerveja!
Que paraíso ganho, que realização, que reviravolta celestial!
Oh, levante um para Menkat, Nossa Senhora do Licor,
Mas mantenha sua boca firme na garota!
~ Fragmento de “Cairo Ostracon 25218”
A falta de comida em um lugar geralmente faz com que alguns tentem a sorte em outro lugar. Com o nível da água do Nilo preocupantemente baixo e com o já pouco estoque de comida diminuindo a cada dia, um homem chamado Kanebti decidiu que era hora de deixar seu sonho de viver em Tebas para trás e voltar para a cidade onde nascera e onde ainda tinha familiares, os únicos ainda vivos.
Num dia, quando ainda faltava uma hora para o sol nascer, Kanebti juntou todas as poucas coisas que não haviam sido vendidas para comprar comida, toda comida e bebida que conseguia carregar no seu burro e acordou a pequena filha de míseros 4 anos.
A pequena Merit, com os olhos pesados pelo sono, era sem dúvida a coisa mais preciosa que o homem possuía. Kanebti tinha certeza que faria de tudo por aquela criança cujos olhos cheios do brilho da infância tanto lembravam-lhe da mãe da garota, que havia morrido no parto.
— Eu tô cum sono papai… quelo domi mais pouquinho… — pediu a pequenina esfregando a mão direita em um de seus olhos enquanto a esquerda permanecia agarrada à sua boneca de pano.
— Desculpe Merit… — disse ele pensando em como o nome tinha sido tão bem escolhido, significava “amada” — Mas temos que ir. Vamos ir visitar a vovó.
Apesar dos resmungos da criança, Kanebti pegou a pequenina no colo, vestiu-a para uma longa viagem e levou-a até onde estava o dromedário que, ironicamente, Kanebti havia comprado de um estrangeiro de além do Mar Vermelho cerca de 1 ano e meio atrás, quando o Egito era outro. Tinha parecido um ótimo negócio na época e, depois da seca, o homem considerou pesadamente a decisão de usá-lo como jantar.
Ele botou a pequeninha, agora acordada, montada na corcova única do animal e checou se o dromedário estava bem amarrado ao burro que carregava todo o resto de suas coisas. Com uma última olhada para a casa e a rua onde morava, Kanebti soltou um suspiro triste. Sentia o sonho de ser um mercador bem sucedido numa das capitais escapar pelos seus dedos. Mas sabia que viver era mais importante do que qualquer sonho. Assim, sabia que não tinha outra opção a não ser voltar para a casa da mãe, em Siwa, tão dentro do deserto que o vilarejo dependia de um oásis pois tanto o mar como o Nilo estavam simplesmente longe demais. Mas, para chegar lá, ele tinha que cruzar vários quilômetros de deserto.
E assim Kanebti e Merit começaram a longe jornada cruzando o deserto do Saara. A última vez que Kanebti fizera isso foi a quase 10 anos atrás e no sentido oposto. Não só o desespero, mas a saudade da mãe eram fortes motivadores para o homem.
No começo, foi fácil seguir as pedras e marcas no meio do deserto delimitando a rota. Uma vez encontrou até com uma caravana berber que os recebeu de braços abertos. Trocaram mercadorias e fizeram uma pequena festa com o cair da noite na qual o aperitivo era a carne de um dos burros da caravana. A pequena Merit inclusive ficou rapidamente amiga de um menino da caravana que era um ano mais velho. Havia sido uma noite confortável, feliz e tranquila.
Mas, antes de chegarem sequer na metade do caminho, uma das piores coisas que poderiam acontecer, aconteceu. Kanebti se perdeu. No começo, ele não deixou-se desesperar mas, conforme os dias foram passando e não conseguia ver Siwa chegando no horizonte, ele percebeu que estava mais perdido do que imaginava.
— Papai… tá tudo bem? — perguntava Merit notando que o pai parecia preocupado e não muito bem.
— Sim… não se preocupe. — disse Kanebti sorrindo e escondendo o fato de que desde que percebeu que estavam perdidos, havia começado a comer só metade da comida que havia guardado para si mesmo enquanto ainda dava porções inteiras para Merit.
E então as coisas começaram a piorar mais rápido quando a água ameaçou acabar. Kanebti sabia que o deserto tinha oásis e poços feitos por vários faraós para que os viajantes pudessem ter água, mas fazia vários dias que ele não via nenhuma das opções.
Seu amor pela pequena Kanebti fazia o homem evitar cada vez mais as porções de água e comida que havia separado para si para que pudesse deixar para a menina comer. O burro já havia sido transformado em jantar, as poucas coisas que possuíam foram reduzidas à menos ainda já que não tinham o burro para carregar nada e o dromedário já carregava os dois. E afinal de contas, um animal também era uma boca para alimentar.
Em certo ponto, até o dromedário já dava sinais de que não estava mais tão vigoroso como no começo da viagem e Kanebti sentia os próprios lábios rachando, o corpo cansado e fraco, a cabeça latejando e uma tontura horrível. Como Merit estava sentada na sua frente, ele torcia para que ela não visse o quão ruim era sua situação.
Merit estava cansada, afinal a viagem era longa e por algum motivo que ela não entendia, ainda não havia acabado. Contudo, estava saudável. Afinal o pai estava dando as porções dele de água e comida para a menina. Mais esperta do que o pai imaginava, Merit notava que o pai não parecia tão bem. Em sua cabeça inocente e ingênua, talvez se parasse de perguntar a cada 5 minutos se estava chegando, ajudaria a situação do pai. Então a garotinha ficou lá, quietinha, só esperando a hora em que pudesse ver sua avó no horizonte e não intermináveis dunas de areia.
— Tudo bem papai… — disse a garota, agarrada à sua boneca, eventualmente pensando que talvez poderia dar um pouco de motivação ao pai — Tá chegando na vovó. Aí… Aí…. vamo bincar o dia todinho e nadar.
Kanebti queria sorrir e também chorar, mas percebeu que não tinha forças para nenhum dos dois e havia perdido já tanto líquido que não sobrava nada para fazer lágrimas. Sentia o corpo de Merti, perto do seu, suado graças ao calor do sol, queria abraçá-la para sentir-se mais perto do mundo dos vivos, mas notar que nem uma gota de suor saía de seu próprio corpo mesmo com o sol escaldante foi aterrador.
Felizmente, o corpo de Kanebti estava bem encaixado no do dromedário que andava lentamente. Assim o homem não precisava fazer muito esforço para nada. Isso foi muito útil principalmente no momento que Kanebti desmaiou sem nem perceber. Só foi se dar conta disso quando sua consciência foi voltando aos poucos e, lentamente, notou que o sol estava se pondo.
Foi nessa hora que Kanebti percebeu o óbvio. Ele não tinha mais chances de vida. O caminho deles ainda era um deserto interminável e ele tinha certeza que choraria que nem um bebê se ainda tivesse lágrimas para derramar. Logo, ele decidiu que só tinha uma coisa que ele poderia fazer. Não tinha mais forças para falar, mas torcia para os deuses ouvirem sua prece mental.
— Ó Anúbis… — pensou Kanebti — Protetor dos órfãos e deus da morte. Perdoe-me primeiramente por essa prece toda fora dos padrões e tão desesperada. Sinto que a minha hora de partir desse mundo está próxima. Não peço então por nada para mim. Sei que meu corpo deve acabar ficando esquecido no deserto… só peço para que cuide de minha filha que tem apenas 4 anos e que ficará sozinha sem mim. A avó dela está a esperando em Siwa. Por favor… cuide de Merit e diga-lhe que a amo.
Enquanto isso, no submundo, Anúbis havia acabado de ensinar pra Anput todo o processo de mumificação e, depois de um beijo rápido, acompanhou Osíris apressado para continuar o julgamento das almas jovens demais. Anúbis odiava julgar as almas das crianças. Era triste ver as idades tão baixas que tinham quando a morte decidiu que era hora de elas irem encontrá-lo. E não ajudava em nada a maioria delas chegarem confusas e chorando pela mãe ou o pai.
Exausto e nem um pouco ansioso para continuar os julgamentos mas sabendo que tinha mesmo assim, Anúbis se preparou para voltar a cuidar das almas. Algumas eram tão jovens que qualquer julgamento era impossível. Era apenas questão de deixar aqueles pequeninos seres, jovens demais até pra saber falar ou andar, passarem direto para o Aaru. Alguns ele ainda acompanhava segurando a mão ou até pegando no colo ao levar para dentro do Aaru e então lá dentro para um lugar onde seriam acolhidas em segurança. Era fato que era emocionalmente desgastante para todos os presentes julgar aquelas almas.
— Néftis disse que só tem mais três crianças na fila…- disse Seshat — Ao menos até agora. Pode ter alguma ainda na fila dos adultos.
— Duamutef está checando a fila dos adultos? — perguntou Anúbis.
— Até onde sei, sim. — respondeu Seshat — Mas ele não falou nada ainda de crianças por lá.
— Só mais três…. — disse Anúbis processando aquela informação em sua mente.
Ele tentou pensar em todas as crianças que já tinham sido devidamente mumificadas, quer por ele ou por algum de seus embalsamadores, e ainda não haviam sido julgadas. Não era algo fácil de se fazer. Afinal, não só sua cabeça estava cheia das mais diversas preocupações, como dezenas de preces chegavam a cada minuto com pessoas pedindo por julgamentos justos daqueles que tinham partido.
Já tinha pegado o jeito de separar seus próprios pensamentos do fluxo interminável de preces, mas em momentos como aquele, era mais difícil. Todavia, apesar da dificuldade, ficou preocupado quando percebeu que o número de crianças que faltava era maior do que três. Como existiam chances de as almas não terem chegado ainda ou de terem se perdido, ele achou melhor checar a informação.
— Quando julgarmos essas três que faltam… — pedia Anúbis olhando para Osíris — … Podemos parar por um tempo antes de ir pra fila dos adultos? Queria checar com Duamutef a conta e ajudar Anput nas mumificações um pouco.
— Claro. — respondeu Osíris expirando cansado — Irei aproveitar e checar como está a situação de Rá e a busca por Apófis. Só tente voltar antes de Néftis ficar abarrotada demais de crianças para acalmar.
Anúbis afirmou com a cabeça e logo os deuses foram chamando a próxima alma para entrar. Foi nos meros segundos que Anúbis notava, com um alívio do tamanho de uma formiga, que a garota de 6 anos que entrou não era um bebê de colo como a criança anterior, que uma das várias preces que chegavam até Anúbis chamou sua atenção. Afinal, não era um pedido para que cuidasse de alguém morto, era um pedido para que cuidasse de alguém ainda vivo.
— Ó Anúbis… — dizia a voz masculina na mente de Anúbis — Protetor dos órfãos e deus da morte. Perdoe-me primeiramente por essa prece toda fora dos padrões e tão desesperada. Sinto que a minha hora de partir desse mundo está próxima. Não peço então por nada para mim. Sei que meu corpo deve acabar ficando esquecido no deserto… só peço para que cuide de minha filha que tem apenas 4 anos e que ficará sozinha sem mim. A avó dela está a esperando em Siwa. Por favor… cuide de Merit e diga-lhe que a amo.
Anúbis ficou tão focado no pedido daquela alma triste e cansada, que quase se esqueceu da menina que entrava para ser julgada. Por hora, tentou não pensar tanto no pedido e focar nos 3 julgamentos que restavam por enquanto. Mas isso não foi fácil.
No julgamento inteiro ficou pensando em como queria ir até onde o homem moribundo estava e ajudar a filha dele. Uma criança a menos para julgar podia ser uma diferença ínfima no meio do caos que estava acontecendo no Egito, mas era uma diferença que ele queria fazer. Consequentemente, ele começou a ficar ansioso para que os três julgamentos passassem enquanto agradecia silenciosamente pela passagem do tempo do submundo e do mundo dos mortais ser diferente. Todo o tempo necessário para julgar as 3 crianças não passaria de alguns segundos para o homem que havia provavelmente feito seu último pedido.
Depois da garota de 6 anos entrou um bebê de 1 ano e meio e então um menino travesso com um sorriso que faltava dois dentes. Assim que o menino entrou correndo sozinho no Aaru, os deuses já foram relaxando o corpo para começar um merecido descanso ou troca de funções por alguns minutos.
— Vai checar Duamutef? — perguntou Seshat — Posso ir com v-
— Pode ir no meu lugar, por favor? — perguntou Anúbis interrompendo a deusa apressadamente — Percebi que tenho outra coisa para fazer.
Anúbis deixou o Salão do Julgamento imediatamente para trás e no segundo seguinte aparecia no meio do deserto de frente para o dromedário de Kanebti. O sol forte fez Anúbis fechar os olhos por um segundo. Os meses no submundo o deixara totalmente desacostumado com a luz do sol. No entanto, ao menos era bom ver Rá brilhando no céu novamente por mais que ele ainda não estivesse completamente estável ainda.
Kanebti podia não conhecer o rosto dos deuses, mas o arrepio que percorreu o pelo de seus braços e o alívio que encheu seu coração foram a prova de que seu pedido final tinha sido atendido.
Quanto a Merti, a garota analisou Anúbis lentamente e o deus viu que os olhos negros curiosos da menina pareciam pedras preciosas sobre o branco de seus olhos. Era claro que ela não havia sofrido nem metade do que o pai tinha naquela viagem.
— Papai… quem é aquele moço? — repetiu Merti.
Kanebti não tinha forças para responder mas, o alívio de ver o deus ali foi tudo que ele precisava para soltar o fio final que o prendia ali. Anúbis sentiu quando a vida desprendeu-se de Kanebti, livre e aliviada. Estava provavelmente teimando e lutando contra a morte a tempo o suficiente, pois Anúbis imediatamente sentiu que o homem já estava à três dias sem beber uma gota d’água. O corpo poderia ter caído, mas estava tão bem acomodado no animal à essa altura, que nada mudou.
Calmamente, Anúbis se aproximou do dromedário interrompendo-lhe o caminho. Confuso, o animal foi diminuindo a velocidade. Especialmente quando Anúbis estendeu a mão como se quisesse fazer carinho em seu focinho. O dromedário, muito bem educado e sedento por um carinho, foi de encontro com a mão do deus agradecidamente.
— Você deve estar cansado também… — disse Anúbis para o animal enquanto Merti o encarava curiosa — Em breve tirarei vocês daqui e levarei para um lugar com água e comida.
— Pai… quem é esse moço? — perguntava Merti novamente acabando por atrair a atenção de Anúbis para si.
— Oi…. Desculpa te assustar... — disse Anúbis calmamente deixando o dromedário de lado e indo até a garota — Meu nome é Anúbis. Seu pai pediu pra eu te ajudar.
— Que nem o deus? Pai… isso é verdade? — perguntou Merit tentando se virar para o pai, o que, feito do alto de um dromedário, não é muito fácil.
A garota, mesmo só conseguindo se virar parcialmente, logo começou a sacudir o pai ao ver que ele não respondia. Isso deixou Anúbis preocupado, pois certamente não seria uma bela cena para a garota ver o pai, do nada, cair no chão morto. Felizmente, um pouco de magia imperceptível era o suficiente para esse desastre não acontecer e manter o homem fixo no animal.
— O papai num tá bem, moço. — falava a menina com as lágrimas começando a se acumular em seus olhos enquanto apertava a boneca mais forte — Ele quer vê a vovó logo.
— Vem cá… — disse Anúbis estendendo os braços para ela — Vou te ajudar a descer para a gente cuidar do seu pai.
Inocentemente, a menina passou a mão nos olhos lacrimejantes e deu uma profunda fungada antes de estender os braços para o deus. Anúbis pegou-a no colo sem coloca-la no chão. Foi aí que ela finalmente conseguiu ver melhor o rosto do pai que estava parcialmente escondido pelo pano que ambos usavam na cabeça para proteger dos raios fortes do sol. Ver a falta de vida no rosto do pai assustou a garota, mas ela não era velha o suficiente para entender o que ela estava presenciando.
— O papai... vai ficar legal.. moço? — perguntou a menina recomeçando lentamente a chorar e soluçando no meio da frase.
Provavelmente não tem jeito certo ou ideal de falar pra uma menina de 4 anos que não, seu pai não vai ficar bem e que ele já estava morto. A complicação da situação foi o que fez Anúbis suspirar pesadamente.
— Merti… — disse o deus torcendo pra ela não estranhar o fato de ele já saber o nome dela — Olha pra mim.
A menina demorou um tempo, pois insistia em tentar entender com o olhar o que acontecia com o pai. Entretanto, ela eventualmente olhou para Anúbis e ele pode ver melhor como uma lágrima já começava a escorrer pela bochecha fofa e caramelada da menina.
— Você vai ficar bem. — quis enfatizar Anúbis apesar de ela não parecer preocupada com a própria segurança — Eu vou cuidar de você e te levar pra sua avó.
— O… p-papai vai... t-também? Ele… vai… f-ficar… bem? — choramingou a garota deixando as lágrimas correrem soltas.
— Não Merti… — disse Anúbis calmamente — Seu pai se foi, ele morreu. Consegue entender isso?
— Que nem a mamãe? — perguntou ela.
— Sim…. — disse ele gentil e pacientemente — Que nem sua mãe.
— Ele... n-não... vai … voltar? — perguntou ela com as lágrimas aumentando de ritmo.
— Não. — respondeu Anúbis.
Imediatamente a menina começou a chorar bem alto. Um choro sofrido e doloroso que doía até na alma de qualquer um que escutasse. As lágrimas escorriam pelo rosto dela e o catarro aparecia na ponta de sua narina enquanto ela se entregava à suas emoções.
Anúbis não iria tentar parar o choro dela. Ela provavelmente precisava daquilo, daquelas lágrimas e daquele tempo. Tudo que ele fez, no entanto, foi botar a mão livre atrás da cabeça dela de força a gentilmente convida-la para um abraço de consolo. Ela aceitou o convite abraçando-o pelo pescoço e ficou lá escondendo as lágrimas no pescoço do deus.
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