A Morte Das Areias do Saara
127 O Luto do Faraó
Notas iniciais
Todas as vacas empinam seus pés; tudo o que voa e pousa, eles vivem quando você se levanta para eles. As barcaças navegam rio acima e rio abaixo também, pois todos os caminhos estão abertos na sua subida.
~ Fragmento de “Hino a Aten”
A escuridão da noite lentamente engolia o Egito conforme o sol ia se pondo no horizonte, contornado por paredões de pedra e dunas, indo cada vez mais para o interior do Saara. No palácio real em Amarna, com olheiras e os olhos inchados, Nefertiti tentava lutar contra o luto de perder grande parte de suas filhas.
Era como se a rainha já não tivesse lágrimas para derramar, de tantas que já foram usadas. Sentada em seu quarto, ela fitou o belo busto feito de calcário reproduzindo a si mesma, um presente de seu amado faraó, que estava na sacada daquele mesmo quarto como a própria imagem da depressão. Com tantas mortes na família no mesmo ano, Akhenaton estava mal.
Apesar da dor do luto corroendo o próprio peito, a rainha ergueu-se e foi até Akhenaton. Os presentes dados pelas civilizações vizinhas, consequências de casamentos, nascimento de Tutankhaten e bajulações, eram ignorados pelo faraó. Nada brilhava em seus olhos se não fosse o vinho com o quão ele se embebedava naquele dia. E mesmo neste, o brilho era opaco e sem alegria. Akhenaton preferia bem mais ter as filhas, a mãe e a irmã ali com ele, mas tudo que ele tinha era a solidão do pôr do sol.
— Meu amor… — disse Nefertiti abraçando o faraó por trás — Compartilho do luto que assola seu coração, mas não acha que já bebeu demais por hoje?
— Não. — respondeu o faraó, fazendo Nefertiti suspirar longamente.
— Tudo bem, tudo bem… — disse Nefertiti tentando puxar de dentro de si alguma migalha de paciência — Venha ficar comigo na cama então. Podemos pedir algumas frutas bem doces… ou pode tomar um banho para relaxar.
— Não. — respondeu novamente o faraó tomando o último gole da ânfora de vinho em suas mãos, a quão tinha bebido sozinho — Quero ficar sozinho… aproveitar a brisa.
— Tudo bem… — disse Nefertiti depois de alguns segundos de silêncio — Mas sabe que estou aqui por você caso precise, certo?
Akhenaton afirmou com a cabeça e, apesar do coração de Nefertiti doer e sentir desesperadamente que também precisava de apoio, ela aceitou aquela resposta do faraó e foi embora, deixando-o sozinho na sacada, tal como ele queria.
Para o faraó, Nefertiti, Tutankhaten, sua esposa estrangeira e algumas das filhas ainda estavam vivas, mas isso não tornava a dor inexistente, e nem fazia com que Akhenaton conseguisse ouvir os apelos sussurrantes de Aten por vingança.
— Sabe que isso foi a maldição dos deuses. — lembrou Aten — Temos que dar o troco. Nos vingarmos por sua família.
— Vingança não vai trazer elas de volta… — resmungou Akhenaton, com a voz lenta e embargada, segundos antes de tacar a ânfora de vinho no jardim logo abaixo, fazendo com que ela se quebrasse em vários pedaços — Você nem soube responder o que vai acontecer com as almas delas!
— Então é isso… — disse Aten — Ao invés de mostrar quem manda, vai ficar se embebedando dia sim, dia não?
— Não sei se notou, mas seis, SEIS parentes próximos morreram! Minhas filhas! Minha irmã! Minha mãe! Uma depois da outra! — reclamou Akhenaton — Será que posso tirar uns dias para ficar de luto?!
Aten nada falou, apenas suspirou diante a cena do faraó completamente derrotado daquele jeito. No horizonte, o sol, o símbolo de Aten, ou até ele próprio, finalmente terminou de se pôr. O último brilho de sua luz deixou o Egito de forma tão serena e tranquila, que não combinava com os sentimentos do faraó.
Foi como se o pôr do sol servisse como um sinal silencioso. Akhenaton desviava o olhar do jardim e começava a se agachar para pegar uma nova ânfora de vinho aos seus pés, no segundo seguinte Set e Anúbis surgiam na varanda. Sem dar qualquer milésimo de segundo para Akhenaton ou Aten reagirem, os dois pularam para cima do faraó. Set agarrou-lhe o pescoço, Anúbis fez com que Akhenaton fosse rapidamente envolto firmemente em faixas de linho, como uma múmia viva. Areia, controlada e criada por Set, rodopiou ao redor dos três e então eles não estavam mais no palácio real, sem dar tempo para o faraó entender o que acontecia.
Com o corpo firmemente preso por faixas de linho, e o álcool afetando o equilíbrio, Akhenaton caiu na areia no meio da imensidão do deserto do Saara. Nada havia ali, além de um círculo de deuses ao seu redor, Set pressionando seu pescoço firmemente, empurrando-o contra a areia, e Anúbis ao lado impedindo que as faixas de linho ficarem frouxas e se soltassem com as tentativas de Akhenaton de se soltar.
Akhenaton e Aten gritaram, tentando se soltar. O avatar de Aten tentava ser invocado, ao redor do corpo de Akhenaton, mas duas coisas impediam, a primeira eram as faixas de linho comprimindo tudo, outra era a magia dos deuses que formavam um círculo ao redor do faraó.
Thoth e a deusa cobra, Wadjet, invocavam, em unisom, feitiços que dificultavam bastante a tentativa de Aten invocar seu avatar. Mas, ao mesmo tempo, Tefnut, Neith, Sobek e Khnum, juntos, depois de ficarem todo o pôr do sol juntando magia e se preparando para aquilo, invocaram uma forte chuva, uma tempestade, no meio do Saara, naquela pequena área, molhando todos os presentes e, mais importante, Akhenaton e Aten, cuja água ainda ficava rodeando criando uma prisão aquática em adição a prisão de faixas de linho.
Pequenas explosões escapavam do corpo de Akhenaton e das tentativas infrutíferas de Aten invocar seu avatar. Tais explosões, no entanto, faziam pouco dano até mesmo para Set, que estava tão perto dos dois. O faraó estava com dificuldade de respirar, dada a força com que Set lhe apertava o pescoço, mas a maior dor vinha do feitiço proferido por Ísis e Heka.
— Belo trabalho em dupla. Podemos repetir qualquer dia. — disse Set sorrindo de um jeito nada simpático e olhando para Anúbis mesmo em meio aos gritos de Akhenaton e tanto acontecendo ao mesmo tempo — Lindo momento entre pai e filho.
— Vai à merda. — resmungou Anúbis sem desviar o foco intenso nas faixas prendendo Akhenaton.
— Foco, por favor! — pediu Tefnut em voz alta.
— Estou bem focado. — disse Set aos risos.
As pequenas explosões de Aten eram inúteis, mas cessaram completamente quando a imagem do avatar do deus, que tentava sair do faraó, começou a falhar como se estivesse sendo puxada. Aten gritou e uma luz intensa explodiu do corpo de Akhenaton quando Aten foi puxado de lá pelo feitiço poderoso de Ísis e Heka.
Puxado subitamente para um lado, Aten rolou pela areia acabando por sair do raio do círculo de deuses. O mesmo aconteceu com Akhenaton, mas por uma distância bem menor, na direção contrária e como efeito de Set ter o jogado de qualquer jeito. De um lado, de uma forma razoavelmente mais simpática, Akhenaton foi recebido por Anput, Hapi e Qebehsenuef, que prontamente desfizeram parcialmente as faixas de linho que envolviam o faraó como uma múmia quase completa.
— Vocês… — começou a dizer Akhenaton, meio ofegante, mas logo foi interrompido quando Hapi usou as faixas de linho para o amordaçar.
— Desculpa por isso… — disse Hapi arrumando as amarras na boca de Akhenaton — A gente não gosta de você, mas não queremos mais brigar com você, por mais irritante que você também seja. Só queremos brigar com seu deus. Tudo bem? Desculpa. Então… por favor, fica aqui quietinho. Isso é só pra ter certeza de que ficará aqui quieto.
— Não se preocupe. — disse Anput enquanto arrumava as amarras nos pulsos do faraó — É só uma precaução. Nosso assunto hoje é com Aten.
— Para sorte sua. — acrescentou Qebehsenuef concentrado ao amarrar os calcanhares — Então recomendo não tentar nada. Você está em grande desvantagem.
— E também… — continuou Anput a dizer quando Akhenaton, mudo, ofegante e atônito, olhou para ela se recuperando da dor, mas ainda bem confuso — Não faremos mais nada de novo contra especificamente você. Bem… ao menos em vida.
— Se tudo der certo aqui te levamos de volta para o palácio. — prometeu Qebehsenuef com um sorriso verdadeiramente simpático — Sério.
— E se der errado… — disse Hapi suspirando — Bem… vamos pensar positivo né? Mas você vai ficar bem de toda forma.
Do outro lado, os deuses eram muito menos simpáticos com Aten. Foi a espada de Hórus, fincando o deus no ombro contra a areia que parou Aten de continuar a rolar mais alguns poucos centímetros pela areia. Aten gritou, sangue prateado jorrou lentamente pelo ferimento, sujando a areia molhada pela chuva criada pelos deuses. Ofegantes, Ísis, Heka, Thoth e Wadjet quase caíram de joelhos diante do esforço da magia que executaram, mas se mantiveram firmes, apesar de terem deixado a magia cair por tempo o suficiente para Aten conseguir soltar uma de suas explosões.
Hórus voou para longe no último segundo, mas, alguns metros além, Hathor, em forma de Sekhmet, se escondia atrás de um escudo. Em sua outra mão, uma longa, afiada e fina lança. A explosão até chamuscou suas partes do corpo mais expostas, mas ela não se escondeu. Ao invés disso, lançou, com seu braço forte, a longa lança contra Aten, perfurando-o nas costas, mas sem atravessá-lo.
Aten cambaleou por uns segundos, quase caiu de joelhos, mas se segurou o suficiente para olhar irritado para Sekhmet.
— Então é isso? — perguntou ele — Sujaram minha imagem para, num momento de fraqueza, atacarem?
— Bom saber que está entendendo o que acontece aqui. — disse Sekhmet com um sorriso cheio de dentes — Até esperamos a noite cair, já que provavelmente parte de seus poderes vêm do sol.
— Espero que não estejam confiando tudo nessa luta. — disse Aten — Se não, a decepção será grande no final.
— Não se preocupe. — disse Hórus, voando no céu como um falcão, a uma distância segura — Nos preparamos bem.
— Vocês não vão ganhar. — disse Aten, respirando fundo — Seus poderes estão diluídos em muitos.
— Fica falando isso toda hora mas nem estamos todos aqui e olha como você já está. — lembrou Ísis.
— Dessa vez não fomos pegos de surpresa. — lembrou Hórus.
Desafiando o corpo molhado e a chuva que caía, Aten explodiu mais uma vez e desapareceu. Os deuses se protegeram, mas a lança de Sekhmet que havia se fincado no corpo de Aten, saiu voando com a explosão. Como uma hábil guerreira, ela prontamente pegou-a no ar, pronta para coloca-la em uso mais uma vez. Contudo, Aten reapareceu no ar, perto de Hórus, invocou seu enorme avatar ao redor de si mesmo, e agarrou o falcão no ar.
A realidade se dobrou ao redor da mão de Aten, que gritou de dor e acabou por abrir a mão. Hórus se libertou e invocou o próprio avatar numa velocidade invejável. Na pele de Aten, fogo começava a aparecer e irradiar até mesmo de seu olhar, mas Hórus não se deixou intimidar e prontamente deu um soco no adversário com toda a sua força.
O forte soco atingiu Aten no rosto e o nocauteou em direção ao chão, mas as chamas, que aumentaram no corpo de Aten no último segundo, queimaram a mão de Hórus. Foi nesse momento, quando Aten tocou o chão, que Khnum se aproximou de Anúbis e Set.
— Como planejamos. — disse Khnum.
— Já estou adiantado. — respondeu Set imediatamente criando um redemoinho de areia ao redor de Aten.
Se misturando ao redemoinho de areia, uma nuvem negra surgiu, controlada por Anúbis. A areia diminuía o foco, a névoa negra. Sentindo-se ameaçado, Aten tentou aumentar o poder de suas chamas e queimar tudo por perto enquanto segurava gritos de dor ao sentir o corpo ser corroído pela névoa negra. Contudo, para aumentar ainda mais a dificuldade do deus, Khnum controlou a mesma água que havia rodeado Aten e Akhenaton antes, para rodear o deus novamente.
Areia e névoa se juntavam rodando ao redor de Aten com a água numa camada mais externa, prendendo-o numa cúpula totalmente preenchida pela mistura dos três. A areia raspava em seu corpo arranhando-o bem onde tudo já doía graças a névoa que putrefazia. Não havia fogo que conseguiria ficar muito tempo acesso ali.
Aten até tentou usar sua força para criar uma poderosa e enorme fogueira, mas do pouco que ele conseguia criar, Sekhmet se esforçava em puxar as chamas para longe dele. Tais chamas, ao entrar em contato com a água de Khnum, se apagavam, indefesas.
— Que lindo momento pai e filho. — disse Set.
— Quer parar de fingir que se importa comigo? — perguntou Anúbis — Vou acabar vomitando.
— Concordo. — disse Sekhmet — Temos coisas mais importantes para lidar agora ao invés de você ficar aí, tentando irritar o garoto.
— Acho que seria benéfico para todos se todos colocarem um pouco mais de ódio nos ataques. — justificou-se Set — E ele deve ser o mais fácil de irritar para mim, no momento.
— Não se preocupe. — respondeu Anúbis — Já estou suficientemente empenhado em nos livrarmos de Aten.
— Set, deixe de ser irritante por uns segundos ao menos, por favor. — pediu Isis se aproximando junto com Thoth e Heka.
Juntos, Isis, Thoth e Heka começaram a murmurar feitiços. Não podiam deixar que Aten resolvesse fugir para muito longe dali. Wadjet bem podia ajudar, mas acharam melhor revezar para ao menos um deles estar se preparando para algum próximo eventual feitiço que poderia se tornar necessário.
— Irmã… — resmungou Set deixando um pesado suspiro escapar junto com um sorriso zombeteiro no rosto — Nada como um ataque cheio de ódio e sem controle do nível de poder usado.
— Aparentemente, ao contrário de você, já estamos irritados com Aten. — disse Anúbis, já que Ísis estava concentrada dizendo o feitiço, impedindo-a assim de responder o irmão.
— Estou irritado com o desgraçado. — defendeu-se Set — Mas podemos destroçar ele bem mais brutalmente com um pouco de ódio.
— O que ele fez com as crianças para construir Amarna… sem falar de fechar nossos templos e tudo mais. — disse Hórus, parando ao lado dos deuses ainda em seu avatar — Já foi irritante o suficiente. De hoje ele não passa.
— Concordo. — disse Anúbis, concentradíssimo em sua parte do combate — E tenho planos pra quando nos livrarmos dele. E não quero esperar muito mais.
Aten gritava, e, numa pequena explosão, tentou fugir da cúpula que o prendia, mas a magia de Ísis, Thoth e Heka o impedia disso. Numa medida desesperada, Aten desfez seu avatar e, enrolado em posição fetal, concentrou toda sua força dentro de si. A cúpula que o envolvia diminuiu de tamanho e assim permaneceu quando, logo depois, Aten explodiu.
— Ele está tentando escapar! — gritou Hórus.
A explosão não conseguiu ultrapassar os limites da cúpula, mas Aten conseguiu parcialmente escapar. Não conseguiu ir para longe, como ele queria, mas sim para logo ao lado da cúpula, do lado de fora. Aten caiu na areia encharcada de joelhos e olhou, por um segundo, para Akhenaton que amarrado e meio bêbado, nem ousava fazer nada.
— Prenda-o de novo! — pediu Set.
Set nem precisava pedir, Khnum e Anúbis já estavam fazendo isso. Os três deuses movimentavam sua magia em direção a Aten, Sobek até já estava invocando sua própria água para ajudar, e Ísis, Thoth e Heka também focavam o feitiço no novo local de Aten. Mas, numa segunda parte de seu plano, Aten explodiu. Não como uma explosão, como nas outras vezes, mas como uma explosão da mais pura e clara luz do sol que desnorteou e cegou os deuses.
A luz não parava, Aten usava toda a força escondida dentro de si para manter aquela luz cegante que só não afetou o faraó, pois este notou o que iria acontecer e fechou os olhos segundos antes. Sentindo-se confiante o suficiente para resgatar Akhenaton e fugir para Amarna, postergando aquele combate para um dia que eles não fossem pegos de surpresa, Aten começou a andar em direção ao faraó.
Manter a luz incandescente roubava suas forças até para correr. Assim, um passo frouxo que quase atolou na areia encharcada foi tudo o que o deus do disco solar conseguiu dar em direção ao faraó herege antes de ser atingido pelas costas na altura cintura, logo acima da perna que usou para dar seu primeiro passo, por uma lança invocada e lançada por Hórus. Aten caiu no chão de joelhos, espalhando areia molhada para todo lado e por todo o corpo.
Aten ousou olhar para trás, tanto para tirar a lança de si, como para ver quem tinha lançado. O deus ficou surpreso ao ver Hórus de olhos fechados invocando uma segunda lança, mas parecendo meio em dúvida se lançaria ou não.
— Como me acertou? — Aten não resistiu perguntar segundos antes de arrancar a lança presa em seu corpo.
— Acha mesmo que eu aceitei ficar esses séculos todos totalmente dependente de um único olho que enxerga? — perguntou Hórus.
Os outros deuses testavam se dava para abrir os olhos, mas a luz era cegante demais e é indiscutivelmente complicado e arriscado lutar contra alguém que você não consegue olhar. Esse leve contratempo de uma habilidade nova de Aten, contudo, não seria o que levaria os deuses a pararem de atacar.
Wadjet, de olhos fechados, usou sua habilidade de cobra e, colocando repetidas vezes a fina e longa língua para fora, determinava a localização de Aten. Nesse meio tempo, Hórus jogou outra lança, tentando adivinhar onde Aten estava pelo barulho na areia que tinha feito e torcendo para não acertar nenhum companheiro. Aten desviou do ataque no último segundo e lançou contra Hórus a primeira lança jogada pelo falcão.
Anúbis invocou seu cetro e, batendo-o contra a areia molhada, invocou um guerreiro de pedra com cabeça de chacal, enquanto Thoth invocou uma grande shabti viva, uma figura feita de faiança verde. Set, usando a mesma tática de Hórus, mas menos precisa, transformou um ponto ao redor de Aten em uma areia movediça mais forte que uma normal.
Por pouco, Hórus desviou da lança jogada por Aten, que lhe raspou a bochecha. Estava esbanjando confiança por fora, mas a verdade era que Hórus estava extremamente tenso diante da forma diferente de combate. A lança passar por pouco em sua bochecha fez com que ele soltasse um suspiro de alívio.
De olhos fechados, Wadjet fez aparecer enormes asas e voou na direção de Aten chegando lá no momento em que Aten era sugado pela areia movediça de Set. A areia de Set, infelizmente, também pegou Tefnut, que, até então, ainda estava fazendo chover com a ajuda de Sobek e Neith, mas a aparição da areia movediça interrompeu-a.
— Set! Isso é coisa sua, né? — gritou Tefnut tentando escapar da areia movediça com olhos entreabertos, desafiando a luz intensa — Essa areia movediça me pegou também!
— Provavelmente não vai acreditar em mim, mas foi sem querer. — disse Set.
— Agradeceria se pudesse me tirar daqui então! — pediu Tefnut com extrema dificuldade em lidar tanto com a areia, como com Aten.
— Acho que chamarei logo nosso plano B… — resmungou Isis para Thoth — Não quero contar com a sorte.
— Acho que é melhor. — opinou Thoth — Essa luz incandescente é novidade.
— Tentarei ser rápida. — prometeu Ísis antes de sumir dali.
— Acho difícil… — disse Thoth com um suspiro mesmo sabendo que Ísis já tinha ido e não ouviria seu breve comentário.
O corpo de Aten começou a pegar fogo, a chuva diminuiu, virando um mero chuvisco, já que Tefnut estava ocupada tentando sair da areia movediça. Aten tentou lutar contra Wadjet, mas ela era imune ao seu fogo e, apesar do desespero de Aten, a deusa cobra conseguiu fincar no braço dele suas longas e profundas presas venenosas.
— TEFNUT! — gritou Neith, ela e Sobek precisavam principalmente de Tefnut para continuar a chuva.
Apostando que molhar todos na areia movediça poderia ser mais benéfico do que maléfico, Neith, Khnum, Sobek e a shabti de Thoth se juntaram para lançar uma onda em tudo que havia entre eles e a areia movediça que engolia Aten, Tefnut e Wadjet.
Tefnut de fato achou a água que jogaram útil. Afinal, ela pode moldá-la com sua magia para conseguir sair da areia movediça enquanto Wadjet usava seu grande e poderoso corpo de cobra para envolver e prender Aten.
— ME SOLTA! — reclamava Aten.
— Não… — disse Wadjet segundos antes de morder Aten novamente apesar das tentativas dele de afastar o rosto dela.
O guerreiro criado por Anúbis correu na direção de Aten enquanto seu criador se envolvia com a mais densa névoa negra, deixando-a o menos espalhada possível. Assim, Anúbis conseguiu ousar abrir os olhos e, dentre a escuridão que o protegia de boa parte dos raios solares de Aten, ele conseguiu ver um pouco de luz, que dedurou o local em que o deus estava. Apostando tudo no fato de ser filha de Rá, Sekhmet abriu um pouco os olhos e determinou, com alguma dificuldade, qual era o centro de toda aquela luz.
Sekhmet invocou um arco e flecha e atirou no centro da luz, na direção de Aten. Da mesma forma, Anúbis lançou, rapidamente, uma pequena quantidade de teste de névoa negra naquela mesma direção. A flecha e a névoa atingiram Aten na altura da omoplata esquerda e Wadjet evitou ambas por pouco.
Aten gritou de dor e, com Wadjet ainda presa a si, ele agarrou-se a Tefnut, que estava quase de fora da areia movediça. Segurando-lhe o pulso com extrema força e com um sorriso ameaçador no rosto, ele explodiu, sumindo dali e queimando Tefnut e Wadjet por completo e deixando-as desmaiadas e Tefnut com ferimentos bem mais feios já que Wadjet tinha certa resistência ao fogo. A chuva parou, outra flecha de Sekhmet foi lançada, mas ela simplesmente atingiu a areia. Enquanto isso, o guerreiro de Anúbis acabou achando mais importante puxar Tefnut e Wadjet da areia movediça.
— O filho da mãe fugiu. — declarou Set desfazendo sua areia movediça.
Alguns dos deuses ameaçaram abrir os olhos de novo, mas logo se arrependeram pois, com a mesma intensidade de luz mas sem uma explosão, Aten apareceu atrás de Anput, Hapi, Qebehsenuef e Akhenaton. Instintivamente, ignorando a dor nos olhos ao se virar, Hapi se jogou contra Aten envolvendo-o completamente com seu corpo feito d’água e apagando as chamas que começavam a surgir em sua pele.
— Ele está atrás de nós! — declarou Anput pegando sua arma enquanto o alerta dela apertou o coração de Anúbis de preocupação.
— Deve querer voltar para dentro do Akhenaton ou o resgatar! — exclamou Qebehsenuef.
Anput agarrou o faraó por um braço, Qebehsenuef pelo outro, o guerreiro de pedra de Anúbis correu na direção de Aten acompanhado de Sekhmet. Anput, Akhenaton e Qebehsenuef sumiram dali, o guerreiro de pedra de Anúbis e Sekhmet derrubaram Aten e Hapi, que o envolvia. Os olhos de Sekhmet estavam vibrantemente vermelhos e sua visão turva, mas ela mesmo assim cravou suas presas no pescoço de Aten e ali permaneceu quando ele explodiu mais uma vez.
Hapi, como água, explodiu para vários lados se misturando com os pedaços de pedra do guerreiro criado por Anúbis. Sekhmet, por sua vez, explodiu dolorosamente e caiu desmaiada e fraca, mas ainda viva, na areia.
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