Notas iniciais
feliz Natal para todos e feliz aniversário para Hórus, lá vamos nós para o cap novo! :) na imagem de hoje, pra combinar, a máscara mortuária de Tutancâmon

A majestade deste grande Deus está no círculo e ele pronunciou ordens aos deuses que estão nela.

O nome da porta pela qual os deuses entram os grandes deuses diante dele, o nome dos portões para a Cidade em Duat é Mu-medet o grande, onde Khepera nasceu.

Na escuridão chegará a imagem deste grande deus “Pedaços de carne na superfície da água” é o nome secreto da hora, a cidade é onde você esmaga os corações dos inimigos de Re.

~ Fragmento de “O livro do amduat”

Na região de Karkamis, perto da atual fronteira entre a Turquia e a Síria, um homem de meia idade, grande e corpulento, com o cabelo volumoso com cachos negros grandes e desgrenhados e barba salpicada de grisalho que rodeava seu rosto de uma têmpora até a outra. O homem estava diante de seus maiores conselheiros e, no canto, aprendendo com o homem, estava seu filho mais velho.

O jovem, chamado Mursili II, observava atentamente cada ação e cada fala do seu pai, um dos maiores governantes que o Império Hitita já tinha visto em sua história, o grande Suppiluliuma I. Suppiluliuma abria diante de si um papiro, o qual lia com voz de incredulidade e zombaria.

— “Meu marido está morto e eu não tenho filhos.” — dizia Suppiluliuma lendo em voz alta — “As pessoas dizem que você tem muitos filhos adultos. Se você me enviar um de seus filhos, ele se tornará meu marido, pois me repugna tomar um de meus servos como marido.”

Ao terminar o fragmento do texto que lhe interessava, Suppiluliuma ergueu o olhar para os seus e largou o papiro no centro da mesa para aqueles interessados em ver com os próprios olhos as palavras escritas ali pudessem lê-las. Com o canto do olho, o imperador também olhou para o filho rapidamente, como se silenciosamente pedisse para ele prestar atenção.

— A rainha do Egito mandou isso? — perguntou um dos conselheiros, incrédulo.

— Desde os tempos mais antigos tal coisa nunca aconteceu antes. — completou Suppiluliuma.

— Ela parece estar com pressa… — comentou um dos conselheiros percorrendo os olhos pelo resto da carta — Não temos muito tempo, pelo o que me parece.

— Não vou arriscar assim um de meus filhos levianamente. — disse Suppiluliuma — Talvez eles tenham um príncipe, eles podem estar tentando me enganar e realmente não querem que um de meus filhos reine sobre eles.

— Até porque é uma situação extraordinária demais. — disse um conselheiro — Convidar assim um dos nossos para reinar sobre eles? Mesmo se estivéssemos com uma relação boa com os egípcios, é muito estranho.

— De fato estranho… mas seria uma boa oportunidade para casar Zannanza. — disse ele mencionando um dos filhos e olhando para o ali presente — Afinal, Mursili II já vai ser meu sucessor.

— Pode ser que a rainha esteja com medo de um terceiro usar dela e para isso, alguém poderoso seja necessário. — sugeriu outro conselheiro — Se a questão é encontrar algum império poderoso, que não seja o Egito, e tenha filhos, obviamente somos a melhor opção mesmo considerando a questão de um ângulo mais neutro.

— Quero enviar alguém para me trazer informações dignas de crédito. — disse Suppiluliuma — E o mais rápido possível. Eles podem tentar me enganar, e é possível que eles tenham um príncipe, então traga-me informações em que eu possa acreditar.

— Sim, senhor. — disse um conselheiro — Podemos mandar Hattu-Zittish. Ele tem capacidade de chegar rápido na capital egípcia. Não acho que alguém consegue ser mais rápido que ele.

— Que assim seja feito então. — concordou Suppiluliuma.

Poucos minutos depois da reunião, o tal Hattu-Zittish já estava em seu cavalo indo o mais rápido possível para o Egito. Durante a longa viagem de vários dias, o homem passou por o que reconheceu como sendo o acampamento militar egípcio, foi de longe o ponto mais estressante de sua viagem. Podia estar indo apenas como um emissário, mas seria melhor não ser visto.

Em outro ponto da viagem, numa noite em que o cavalo estava esbaforido de cansado, fazendo ele decidir que talvez fosse bom tentar trocar de cavalo na cidade seguinte, quando parou para descansar ele notou mais duas pessoas descansando por perto. Reconheceu a língua egípcia na conversa tensa entre um homem mais velho e um mais novo de cabelos ruivos, ambos vestidos como soldados egípcios de alto-escalão. Assim, preferiu novamente não ser visto.

Deixando os dois homens para trás, Hattu-Zittish continuou sua jornada trocando de cavalo duas vezes no meio do caminho. Exausto, com pesadas olheiras e imundo, ele chegou diante do palácio em Tebas. Era um estado verdadeiramente morimbundo, mas nada como uma carta escrita pela mão do próprio Suppiluliuma para confirmar quem Hattu-Zittish era.

Assim, mesmo que constantemente acompanhado por três guardas, Hattu-Zittish conseguiu ficar diante da rainha Anquesenamon. Analítico, Hattu-Zittish notou como ela parecia triste e depressiva, com olheiras tão profundas quanto as dele, mas uma tristeza impossível de disfarçar. Havia uma chance de ela estar grávida, algo que queria verificar, embora não soubesse como já que não havia nenhum sinal que confirmasse ou negasse essa possibilidade.

— Por favor, diz que é algo importante pois tenho assuntos a tratar. — pediu a rainha com voz cansada.

— Um emissário do povo hitita, minha rainha. — disse o guarda estendendo para ela a mensagem em papiro, que já tinham tomado de Hattu-Zittish.

Essa fala fez surgir um brilho no olhar da rainha, que começou a caminhar em direção ao papiro, enquanto o soldado que o segurava fez o mesmo apressadamente para que ela não chegasse perto demais de Hattu-Zittish. Com mãos trêmulas e apressadas, Anquesenamon pegou o papiro, abriu-o e percorreu os olhos apressadamente pelas palavras ali escritas, que imediatamente a fizeram sentir-se ofendida.

— Não vê em que situação eu estou?! — exclamou Anquesenamon em vozes baixas, para que ninguém fora daquela sala escutasse. Falava com o mensageiro como se ele fosse o próprio imperador — Por que diz 'Estão tentando me enganar?' Se eu tivesse um filho, deveria escrever para um país estrangeiro de uma maneira humilhante para mim e para o meu país?

Raivosa, a rainha olhou para uma serviçal que estava na porta, claramente esperando por ela.

— Traga-me papiro, tinta e pincel. — pediu ela para a serviçal, que rapidamente saiu correndo para cumprir a ordem, e logo voltou a olhar para Hattu-Zittish — Não acredita em mim e até diz isso para mim! Aquele que era meu marido está morto e eu não tenho filho. Devo então pegar um dos meus servos e fazer dele meu marido? Não escrevi para nenhum outro país, escrevi para vocês. Dizem que Suppiluliuma tem muitos filhos. Dê-me um de seus filhos e ele será meu marido e senhor da terra do Egito. Quer andar pelo palácio todo atrás de algum filho do falecido faraó? Questionar o meu povo atrás de um filho do falecido faraó?

— Sou apenas um mensageiro, vossa majestade. — disse Hattu-Zittish.

— Como se não estivesse servindo de espião para ver nossa situação também… — disse Anquesenamon.

Hattu-Zittish não respondeu, mas também não abaixou a cabeça, manteve-a firme e elevada, enquanto a serviçal voltava apressadamente com tudo que a rainha havia pedido. Anquesenamon demorou alguns segundos para olhar para a serviçal pois estava ocupada demais tentando tirar alguma conclusão do olhar de Hattu-Zittish. Entretanto, eventualmente pegou o papiro e preparou uma mensagem para Suppiluliuma contendo aquelas mesmas palavras que tinha acabado de esbravejar para o mensageiro hitita.

Ela soprou o papiro, numa expectativa dele secar logo, mas suspirou, exausta, derrotada por tudo que estava acontecendo ao seu redor desde da morte de Tutancâmon. Olhou então para o mensageiro de novo e disse:

— Vai querer um banho, algo para comer e uma noite de sono? — perguntou a rainha, tentando recuperar sua calma e compostura.

— Imagino que esteja com pressa… — disse Hattu-Zittish.

— Bastante. — admitiu Anquesenamon — Depois que Ay se coroar faraó e me forçar a casar com ele, tem pouco que é possível fazer, e tudo com grande dificuldade.

— Então aceitarei apenas uma soneca até o pôr do sol, alguma comida e água para levar e um cavalo novo. — pediu o Hattu-Zittish — Resistente, de preferência, se possível.

— Um cavalo… que abuso… — resmungou um dos soldados.

— Providenciem para ele, por favor. — pediu a rainha, acabando por fazer o soldado calar a boca.

— Sim, senhora… — disse o soldado.

— Passem para ele o papiro quando ele secar, sim? — acrescentou Anquesenamon virando-se para sua serviçal também — Certifique-se disso, por favor. Tenho outros assuntos a tratar.

Afobada e com passos apressados, Anquesenamon foi para seu próximo à fazer do dia. Não podia se atrasar muito mais para ver o seu irmão. Seus pequenos passos apressados deixaram para trás a área de convivência do palácio e foi até onde os mumificadores reais trabalhavam, e o corpo do irmão passava, de forma apressada, pelos últimos estágios da mumificação. O cheiro de morte chegou até as narinas da rainha, intensificado pela falta de ventilação do lugar, totalmente fechado por pesadas paredes e um pesado teto, com apenas algumas poucas janelas trazendo luz e ar para o lugar.

O que mais incomodava Anquesenamon, no entanto, era a forma de seu irmão, imóvel, sobre uma das mesas robustas de madeira robusta.

Sempre doía ir ver o irmão, achou que ia desmaiar no chão da vez que foi e o corpo já estava ressecado e ainda não estava nada embalado ou escondido, dessa vez pelo menos já estava coberto de faixas. Isso era algo que incomodava Anquesenamon, ainda lembrava de quando a mãe morreu e vagamente de quando o pai morreu, tinha a impressão de que a mumificação de Tutancâmon estava sendo às presas.

— Ó irmão… — disse Anquesenamon soltando um pesado suspiro — Como me faz falta.

— Vossa majestade… — disse o embalsamador líder, um sacerdote de Anúbis, segundo a própria vestimenta provava.

— Me lembre de uma coisa, por favor… — disse Anquesenamon — A mumificação de meu irmão está sendo mais rápida que a dos meus pais, certo?

— Erm.. bem… — gaguejou o sacerdote, tentando fugir da resposta.

— Para o sepultamento dele estar marcado para depois de amanhã… é o que parece ter acontecido. — disse Anquesenamon — Sei que a morte dele foi repentina mas, isso é errado. Ay prometeu um sepultamento digno de um faraó, mas parece estar apressando as coisas para que possa pegar o trono para si já que o único que tem poder para competir com ele pelo trono no Egito é Horemheb, e ele está longe.

— E terá um enterro digno de um faraó. — garantiu o sacerdote — A morte súbita do faraó em tão pouca idade realmente complica as coisas, mas até onde sei, vários objetos foram coletados para suprir o faraó no pós-vida e os sarcófagos são incríveis também.

— Hm… — resmungou a rainha, não muito convencida.

— Bem, pedi para lhe chamaram para ver a máscara mortuária. Acabou de chegar. Quer ver? — sugeriu o sacerdote, tentando escapar do julgamento da rainha.

— A que insisti para fazer de ouro puro? — questionou Anquesenamon surpresa — Achei que não iam conseguir fazer em tão pouco tempo, ou que Ay iria desistir do preço. Ou será que não fizeram de ouro no final das contas?

— Ela mesma e sim, de ouro puro. — disse o sacerdote se virando e chamando a rainha com a mão até uma caixa de madeira com um pedaço de pano cobrindo-a.

Ao chegar ao lado da caixa de madeira, o sacerdote tirou o pano que a cobria e imediatamente os olhos de Anquesenamon se arregalaram e sua boca se abriu. A máscara mortuária de Tutancâmon era estupidamente linda e incrivelmente brilhante. A máscara tinha um formato, um tanto idealista, do rosto de Tutancâmon usando a coroa do Alto e Baixo Egito e a barba falsa de faraó. As orelhas eram furadas para segurar brincos, provando que era o filho primogênito de Akhenaton. O costume de furar as orelhas dos meninos primogênitos transcenderia os séculos até a idade moderna.

A máscara era incrustada com vidro colorido e pedras preciosas, lápis-lazúli ao redor dos olhos e sobrancelhas, quartzo para os olhos, obsidiana nas pupilas, além de áreas com cornalina, amazonita, turquesa e faiança. O conjunto todo pesava mais de 10 quilos, sendo o ouro o maior responsável por esse peso.

— Incrível… — disse Anquesenamon hipnotizada pela beleza da máscara.

Contudo, olhar assim, para a máscara feita aos moldes, mesmo que idealistas, do irmão, logo fez com que Anquesenamon começasse a ficar com lágrimas nos olhos. O sacerdote notou isso, suspirou pesadamente e disse em voz baixa:

— Vou deixá-la a sós um pouco…

Não sabia se ela ouviu, mas toda vez que ela ia ver o irmão acontecia isso. Afinal, aproximadamente apenas um mês havia se passado desde da morte do rapaz. Com certeza seria um recorde de mumificação de um faraó.

Querendo ser respeitoso e dar um tempo para a rainha, o sacerdote deixou o cômodo para trás. Foi reconfortante passar pelo portal de entrada e logo ser abraçado pela brisa fresca e sem cheiro e pelo calor do sol começando a marcar o fim do dia.

— Então… — disse uma voz logo na parede do portal de entrada, fazendo o sacerdote levar um susto, quase deixando o coração sair pela boca, por não ter notado que alguém estava ali.

O sacerdote se virou em meio ao susto, e todas as cores sumiram de seu rosto quando viu que a pessoa era ninguém menos que Anúbis. Sem pensar duas vezes, o homem se jogou ao chão, de joelhos, encurvado e com a testa roçando no chão de pedra salpicado de areia carregada pelo vento.

— O que exatamente Ay te prometeu para você apressar a mumificação, e consequentemente, o enterro de Tutancâmon assim? — perguntou Anúbis, sério e de braços cruzados.

— Ó g-grande Anúbis… — gaguejou o sacerdote.

— Pode pular a bajulação e ir direto para a resposta da pergunta. — pediu Anúbis.

— E-Eu n-não… ahm… — se enrolou o sacerdote sem ter coragem de erguer o rosto — Não entendo…

— Não tente me enganar, pois já aviso que não vai conseguir. Então se poupe da humilhação e das consequências que isso pode causar. — alertou Anúbis — Sei bem quanto tempo demora uma mumificação, ainda mais de um faraó, mesmo considerando que a morte foi súbita demais. Sei bem que apesar do sepultamento já ser depois de amanhã, os pintores ainda estão decorando a tumba no vale dos Reis, que é facilmente também uma das menores tumbas de faraó. Tumba essa que, ainda por cima, irão rechear de objetos que não eram nem de Tutancâmon para que ele não passe necessidade no pós-vida pela baixa quantidade de coisas realmente feitas para ele. Então explique, e recomendo que enquanto eu ainda estiver de bom humor.

O sacerdote mordeu o próprio lábio levemente e suspirou derrotado, mas ainda não ergueu a cabeça. Ele tomou para si alguns segundos para respirar fundo, e então falou:

— Ay prometeu mais poder e riquezas para os sacerdotes no geral, especialmente os em Tebas e Mênfis. — admitiu o sacerdote com a voz trêmula — Os sacerdotes estão todos do lado dele.

— E para você especificamente? Alguma coisa? — questionou Anúbis.

— M-Muito ouro… — disse o sacerdote, claramente envergonhado.

— Você ouviu. — disse Anúbis não falando com o sacerdote lá, prostrado em sua frente, mas para o falcão pousado no teto da sala de mumificações.

O sacerdote ousou levantar um pouco a cabeça e assim pôde ver, mesmo que parcialmente, o falcão saindo voando e pousando logo ao lado de Anúbis. Quando este falcão mudou de forma, mostrando ser Hórus, o sacerdote abaixou a cabeça mais uma vez.

— Odeio quando os sacerdotes ficam corruptos… — admitiu Hórus com um pesado suspiro — Decepcionante.

— E ainda por cima é um problema que nunca desaparece. — disse Anúbis também aparentando estar decepcionado.

— Tudo isso para diminuir as chances de Horemheb pegar o trono, certo? — perguntou Hórus para o sacerdote.

— Isso. Isso. — admitiu o sacerdote — Afinal ele tem o exército.

— E era justamente de um exército mais forte que precisávamos agora. Mas obrigado por confirmar o que eu queria… — disse Hórus se virando para Anúbis — Te vejo no submundo?

— Já vou. — respondeu Anúbis olhando para o sacerdote no chão enquanto Hórus saiu voando — Sabe que tentar compensar com coisas bonitas de ouro na tumba não vai dar tão certo pra vocês né?

— … S-Sei… — admitiu o sacerdote.

— E nem ficar enganando rainha. — completou Anúbis.

— Sim, sei… — afirmou novamente o sacerdote, ficando cada vez mais deprimido.

— Espero que isso não se repita. — pediu Anúbis — E que tente compensar tudo isso, caso contrário… bem, você sabe também. Afinal, eventualmente sua hora também vai chegar.

— S-Sim, senhor. — disse o sacerdote quando Anúbis sumiu dali.

Ainda com a cabeça pensando na situação complicada de Tutancâmon, Anúbis chegou no Salão do Julgamento e encontrou-o estranhamente vazio. Ele olhou ao redor e notou que havia um pequeno aglomerado na porta de entrada, composto por Osíris, que não conseguia ir muito além, e Ísis, Thoth, Seshat, Hathor, que estavam mais para fora do salão do que para dentro, ao contrário de Osíris. Todos eles pareciam extremamente interessados em algo que acontecia lá fora.

— O que está acontecendo? — perguntou Anúbis metade curioso, e metade preocupado.

— Vem ver. Vem. Vem. — gesticulou apressadamente Ísis chamando-o.

— Não vai se arrepender. — completou Seshat com um brilho no olhar.

Ficando cada vez mais curioso, Anúbis foi até a aglomeração na entrada do Salão do Julgamento e olhou para a mesma direção que eles olhavam. O brilho que havia no olhar de Seshat logo foi para os olhos dele também ao entender o motivo.

Do lado de fora, conseguia ver a interminável fila de almas esperando para serem julgadas e, mais além, junto com as almas, estavam Anput e Kebechet. Anput estava um pouco afastada da menina, claramente apenas a acompanhando e deixando a criança fazer o que quisesse. Nesse caso, o que Kebechet queria fazer era ficar na ponta dos pés e estender para uma alma uma taça que provavelmente estava repleta de água.

Naquele momento, ela dava a taça de água para uma senhora, que, com um gentil sorriso, a pegou e bebeu com calma ante a expectativa da menina. Com a taça vazia, a idosa inspirou profundamente e expirou novamente, sempre com um sorriso no rosto. Em seguida, ela, e logo abaixava a taça vazia e devolvia para ela. Querendo acompanhar mais, Anúbis foi andando até o centro da cena ignorando o olhar das almas pelas quais passava.

— Obrigada. — disse a senhora, sorrindo gentilmente.

— Tá mais calma agora, tia? — perguntou Kebechet.

— Estou sim, obrigada. — garantiu a senhora sorrindo para a menina.

— Keb. — disse Anúbis quando chegou perto o suficiente.

— Papai! Olha, papai! Eu tô ajudando! — exclamou Kebechet erguendo a taça de água vazia.

— Estou vendo. — respondeu ele com um sorriso.

— Ela disse que queria acalmar as pessoas que estavam nervosas. — explicou Anput.

— Ah… como o menino daquela vez que ela fez a primeira magia dela… — lembrou Anúbis.

— Posso ajudar com as múmias também? — pediu Kebechet.

— Errr... — resmungou Anúbis desviando o olhar — Nã… Erm… Vou pensar no seu caso.

— Yey! — exclamou Kebechet enquanto Anput já encarava Anúbis com olhos julgadores e ele rapidamente desviava o olhar de Anput também — Se eu ajudar muito você deixa?

— Vou pensar no seu caso… — repetiu Anúbis — Mas não fique se forçando a ajudar se não quiser.

— Eu quero! — garantiu Kebechet olhando para a taça, que se re-encheu de água.

Ela então rapidamente saiu correndo, derrubando água pelo caminho, e foi até um jovem rapaz que se encolhia na fila e parecia facilmente à beira de um ataque de pânico. Ela parecia claramente saber quem precisava de sua ajuda.

Durante todo esse processo, não só a idosa que Kebechet havia acabado de ajudar ficou admirando a graciosidade da menina, como também Anput ficou julgando Anúbis com o olhar. Foi só quando Kebechet se afastou, que Anput proferiu o motivo de seu julgamento.

— Não vai deixar ela ajudar com as múmias, né? — perguntou ela — Não são imagens muito agradáveis para uma criança.

— Ela não para de pedir… — tentou justificar Anúbis.

— São corpos! — rebateu Anput atraindo a atenção das almas para os dois — Em decomposição!

— Na verdade não em decomposição… — resmungou Anúbis com a voz meio baixa — Evitá-la é justamente o ponto da mumificação.

— Ainda são corpos e ela ainda é uma criança pequena! — disse Anput.

— Talvez seja uma das vocações dela… — sugeriu Anúbis dando de ombros.

— Podia ao menos esperar mais alguns anos então! — rebateu Anput.

— Se fosse tão fácil falar “não” tantas vezes pra ela… — reclamou Anúbis com um suspiro.

— Dizer “não” também é importante. — lembrou Anput.

— M-Mas… se me permitem… — disse timidamente a idosa — É uma menina muito inteligente e bem adorável.

— É mesmo. — disseram Anúbis e Anput olhando encantados para Kebechet oferecendo sua taça d’água para mais uma pessoa.

Enquanto isso, no palácio real, Ay estava debruçado sobre seus papiros e perdido em pensamentos, quando um guarda entrou e, sem cerimônias, cochichou algo no ouvido de Ay.

— Um filho de Suppiluliuma é? — disse Ay após ouvir a fofoca — Isso é fácil de resolver caso Suppiluliuma envie alguém… De toda forma, não chegará a tempo para o sepultamento de Tutancâmon.

— Podem pensar em roubar seu trono ainda assim, ainda mais se o tal filho casar com a rainha. — lembrou o guarda.

— Resolverei isso também... — garantiu Ay — Mal posso esperar pelo sepultamento… Não aguento essa tensão enquanto torço para Horemheb não conseguir chegar a tempo.

Seguindo os anseios de Horemheb, o dia chegou ao fim. O mensageiro do império hitita seguiu a viagem para entregar para Suppiluliuma a resposta de Anquesenamon o mais rápido possível, desafiando a exaustão de si mesmo e de sua montaria, a noite envolveu o Egito, trazendo uma temperatura mais baixa e logo o dia seguinte chegou. Foi um dia agitado, com as últimas preparações para o sepultamento de Tutancâmon, que começaram no dia seguinte.

Ay liderava o sepultamento, provando para todos que ele quem tinha organizado o sepultamento do faraó. Ser o responsável por organizar e financiar o sepultamento de um faraó, era uma das ações que coroava alguém o sucessor do falecido. Contudo, nenhum faraó conseguia governar sem o apoio ou dos sacerdotes, ou do exército. Um dos dois era praticamente obrigatório. Ay tinha o primeiro, Horemheb tinha o segundo, e por isso, Ay se preocupada com Horemheb.

A chave final, contudo, estava na procissão de Tutancâmon logo ao lado do luxuoso sarcófago folheado de ouro, a rainha viúva do faraó. Conectada por sangue com os faraós anteriores, sua mão em casamento era uma legitimação também. Silenciosamente, Ay agradecia por ela não ter a mesma garra que Hatshepsut.

De toda forma, o sepultamento de Tutancâmon não foi muito diferente dos faraós antecessores, eventualmente, eles chegaram na tumba reservada para si no Vale dos Reis. Com dificuldade, começaram a colocar para dentro da tumba o conjunto de sarcófagos de Tutancâmon. Tutancâmon tinha três sarcófagos, um dentro do outro, emoldurando e protegendo seu corpo, com a máscara mortuária, no interior. Ao redor dos sarcófagos, ainda havia outro sarcófago, dessa vez perfeitamente retangular, feito de quartzo, seguido de outros quatro do mesmo formato. Ao todo, eram oito sarcófagos que, juntos, formavam algo tão grande que parecia impossível encaixar na pequena tumba.

Dentro da pequena tumba, enquanto tentavam enfiar o complicado conjunto, estava Anúbis. Ninguém conseguia ver que ele estava ali mesmo se olhassem em sua direção, então estava tranquilo enquanto passava dois dedos em uma das paredes da tumba de Tutancâmon, pintadas com cenas do ritual de abertura da boca.

Os dois dedos do deus do deus saíram visivelmente sujos de tinta amarela e ele até pode sentir o gesso na parede ainda não tão firme quando tocou nela. Anúbis suspirou e olhou para a parede preocupado, com as sobrancelhas exibindo bem sua preocupação, e resmungou para si mesmo:

— Isso não vai dar certo…

Quer fosse ou não dar certo fechar a tumba com a tinta e o gesso ainda molhados, foi exatamente isso que fizeram. A porta mais interna da tumba foi selada com uma corda com um selo e, na mais externa, eles queimaram um conjunto de madeiras que segurava uma pedra no alto. O fogo fragilizou e destruiu as madeiras, que deixaram a pedra cair, fechando a entrada da tumba de vez.

Tudo era um processo que a tumba de qualquer outro faraó recebeu também, mas, ainda assim, saqueadores não tinham dificuldade em invadi-las. Contudo, com Tutancâmon seria diferente. Tutancâmon tinha alguns fatores que ajudariam sua tumba, não só ela era pequena, como também era espremida embaixo da tumba de outro faraó. Mas mais importante do que isso, não importa qual terremoto, chuva, vento ou enchente que chegasse até o Vale dos Reis, quaisquer detritos que caíssem das altas paredes e montanhas do Vale dos Reis, pela própria geografia do lugar, acabavam convergindo para a entrada da tumba de Tutancâmon.

Com o passar dos anos, décadas e séculos, a natureza acabava escondendo cada vez mais a tumba do jovem faraó, de curto reinado, sem grandes feitos, cada vez mais. A tumba de Tutancâmon ficou escondida do mundo até 1922. A única tumba intacta encontrada de um faraó, mesmo que com fungos manchando os desenhos nas paredes, exibia uma riqueza invejável e uma quantidade absurda de ouro para quem era um faraó sem impacto, de reinado curto num período difícil da história do Egito Antigo. Talvez nem a imaginação possa entender ou conceber a riqueza daqueles faraós que foram grandes e reinaram por muito tempo.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** Suppiluliuma não acreditou no pedido de Anquesenamon, achou que estavam tentando passar a perna nele e que ela na verdade tinha sim um herdeiro para o Tut. Por isso, ele enviou Hattu-Zittish para conferir as informações para ele e ele voltou com a resposta da rainha, que foi praticamente a mesma que ela falou. Todo o processo pós-morte do Tutancâmon foi feito com muita pressa por Ay, provavelmente com medo de perder o trono para Horemheb, que provavelmente estava muito longe. Consequentemente, sua tumba foi fechada ainda inacabada, com a tinta molhada e etc. Por causa disso, hoje em dia a coitada da tumba tá com fungo (já mortos) nas paredes e ninguém sabe como resolver sem estragar as pinturas. **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 A máscara de Tutancâmon - https://www.wondriumdaily.com/the-mask-of-tutankhamun/ Carta de Anquesenamon para os hititas - https://ancientegyptonline.co.uk/suppiluliuma-letter/#:~:text=The%20Egyptian%20queen%20answered%20my,and%20I%20have%20no%20son. Kebechet - https://www.worldhistory.org/Qebhet/