A Morte Das Areias do Saara
120 Heresia
Notas iniciais

Que eles tomem a quantidade de mirra que quiserem e carreguem os navios para a satisfação de seus corações com árvores de mirra frescas e todos os bons produtos desta terra estrangeira.
Os puntitas desconhecidos dos egípcios, o 'povo barbudo' da terra dos deuses, eu os aplaquei por causa de você, para que eles te louvassem como um deus por causa da grandeza de seu poder em toda a terra estrangeira.
Eles sabem que sou seu senhor e reconheceram que sou a imagem legítima de Amon-Re.
Filha que subjugou os senhores, o rei do Alto e Baixo Egito Maatkare, eu a gerei para mim, eu sou seu pai.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
Os deuses olharam para Amon-Rá e para o mar de fogo extremamente curiosos mas também preocupados. Eles tentavam entender porquê, como e quem estava querendo nascer de um mar de fogo. Não era exatamente um lugar que se imaginaria alguém nascendo.
— O que é esse “algo” que está tentando nascer? — perguntou Hórus.
— Um deus. — respondeu Amon-Rá sem enrolações — É o que parece… a sensação era estranha, mas tenho certeza que era um deus.
— Conseguiu ver esse deus? — perguntou Ísis.
— Não. — respondeu novamente Amon-Rá — Só senti a presença dele, lá bem no fundo.
— Não deve ser nenhum deus tão relevante e forte assim. — disse Khnum — Nenhum assim nasce a séculos.
— Queria muito que fosse alguém simpático… — admitiu Anput apenas para Anúbis — Mas eu não estou com um bom pressentimento. Não dá arrepio na nuca essa história?
— Dá sim. — concordou Anúbis — Por isso espero que Khnum esteja certo.
Logo ao lado de de Anput e Anúbis, coincidentemente estava o deus Haurun, um deus recém chegado do panteão egípcio originalmente de Canaã, atual Palestina, Israel e Jordânia. Mas como o Egito tinha anexado Canaã e mercadores e construtores cananeus estavam espalhando pelo Egito a existência de Haurun, o deus começou a se misturar com os egípcios, apesar de ele ainda ser mais desconhecido do que conhecido.
Ao lado de Haurun, estava um deus com quem ele tinha se dado muito bem, Imhotep. Acompanhando a discussão e as revelações, assim como os outros deuses, Imhotep inclinou a cabeça na direção de Haurun minimamente, sem tirar os olhos de Amon-Rá, e sussurrou:
— Algum outro deus já nasceu do fogo? — perguntou Imhotep com receio de ser ouvido pelos deuses no centro da discussão.
A pergunta chegou até os ouvidos de Anput e Anúbis, que não responderam, apenas ficaram prestando atenção no que Haurun iria responder. Afinal cada grupo de amigos e familiares de deuses estavam começando seu próprio ciclo de conversas e teorias ditas em voz baixa.
— Especificamente do fogo não sei dizer. — respondeu Haurun também sussurrando.
— DEUSES! — gritou repentinamente Thoth fazendo alguns dos deuses se sobressaírem, mas atraindo o olhar de todos para ele.
Thoth abriu os braços amplamente. Estava de costas para a maioria dos deuses, já que estava no meio do centro da discussão com Amon-Rá sobre o acontecido, então Thoth girou o corpo com um sorriso no rosto. Ele deu uma piscadela para Imhotep mostrando que tinha ouvido sua pergunta. O deus da sabedoria levou os braços para trás de suas costas, e começou a falar como se fosse uma palestra:
— Deuses nascem das mais diversas formas. — disse Thoth — Alguns de vocês são mais novos então vamos nos atualizar das mais diversas formas. Pois bem, alguns de nós, geralmente os mais velhos, o universo simplesmente decide que precisamos existir e assim acontece.
— Ele não perde uma chance de explicar alguma coisa, né? — sussurrou Haurun para ninguém em particular.
— Não. — responderam Imhotep e Anput ao mesmo tempo.
— Alguns de nós, por outro lado… — continuava Thoth — viemos ao mundo tal como os mortais. Frutos de uma gravidez consequente de sexo. Tudo bem, às vezes tem magia envolvida em alguma parte desse processo, mas é fato que temos dois elementos, sexo e gravidez. E ainda tem quando surgimos de alguma forma mais mágica dependendo da vontade ou poder de outro deus ou outros.
— Não acham que alguém criou um deus para nascer ali, né? — perguntou Sobek.
— Não… a sensação não combina. — disse Amon-Rá — Era algo ainda se formando. Fraco. O que não combina muito quando o poder ou vontade de outro deus decide que mais um deve surgir.
— Sim. Então, continuando... — disse Thoth — Esses três tipos surgem independente dos mortais e geralmente o primeiro, criados pelo universo, nascem bem mais poderosos, afinal geralmente são deuses primordiais. Mas todos precisamos da crença dos mortais em nós, ou então nos resta o apagamento e esquecimento. Contudo, temos um quarto tipo ainda… bem, eu ao menos consegui dividir os nascimentos só em quatro grupos, somos de fato muito complicados… assim, muito complicados… nosso sangue é prata, nossa carne é ouro… mas nosso peso não é tão diferente de se fossemos humanos… ou metade humanos e metade animais no caso de uns… o que não faz sentido se comparar o peso do sangue e da prata e-
— Thoth… por favor, não enrole. — pediu Hórus.
— Certo. Enfim… — disse Thoth soltando um pesado suspiro — Às vezes os mortais decidem que querem acreditar em algum deus que.. bem… não existe. Não ainda, ao menos. Algumas vezes esse deus era um mortal, outras não tem nada para servir de base. Mas é fato que existe essa crença em alguém, crenças geram pedidos, responsabilidades e a necessidade de ter alguém para tratar tais pedidos e responsabilidades. Assim, surge um novo deus.
— Então, a não ser que alguém esteja escondendo alguma coisa de nós, o que não parece muito provável… — disse Ísis percorrendo o olhar pelos deuses presentes — Temos a possibilidade de dois casos, certo? Os criados pelo universo e os criados pelos mortais.
— Exato. — concordou Thoth — Sendo que os criados pelo universo são extremamente raros depois que um panteão já está estabelecido. Eles são geralmente os que começam os panteões.
— Tem como descobrirmos com certeza qual dos dois é? — perguntou Hathor.
— Sem ter que esperar pelo resultado? — perguntou Thoth suspirando novamente e coçando a cabeça — As chances são pequenas, mas teríamos que ficar de olho para alguém rezando para algum outro deus que não existe. Se acharmos, o que é uma chance remota, confirmamos que é esse tipo de deus. Mas provar que algo não acontece com absolutamente ninguém é bem mais complicado de provar do que o acontecimento de algo.
— Então é praticamente impossível descobrir se é um deus que o universo cria. — concluiu Ísis — E as chances de confirmar que algum mortal está rezando pra outro deus já são muito baixas.
— Já que tais preces com certeza não chegam até nós… — resmungou Hórus.
— Acompanhar cada pessoa por pelo menos um dia inteiro para avaliar se estão rezando para algum deus desconhecido é muito difícil. — disse Sobek.
— Isso se a pessoa rezar todo dia. — lembrou Hathor — Quem garante que a frequência não é diferente?
Vários círculos de discussão começaram, mas o fato era que ninguém tinha uma solução imediata. Alguns até questionaram se uma solução imediata era necessária. Porquê não só esperar? Vários deuses já tinham surgido mesmo, de todas as formas possíveis, desde que o Egito tinha se unificado e as coisas seguiam muito bem. Não deveria ser nada tão diferente da média, nem nada tão preocupante. Esse pensamento começava a dispersar alguns deuses que iam voltando para seus afazeres.
— Acho que estávamos já tempo demais sem acontecer nada de muito diferente. — disse Anúbis para Anput.
— Verdade. — concordou ela rindo — E em alguns dias tem a cerimônia final de coroação. Como acha que Amenhotep IV vai ser como faraó?
— Não sei. — disse Anúbis dando de ombros — Não sei muito dele. Só sei que Nefertiti parece inteligente, pelo o que ouvi falar.
— Ela também é muito bonita e elegante. — opinou Anput.
— Não posso dizer isso, minha esposa pode escutar. — brincou Anúbis falando com o rosto sério, mas Anput começou a rir e empurrou ele bem de leve.
— Besta. — falou Anput logo entrelaçando a mão dela na dele — Mas você me acha bonita também né?
— Claro que acho. — garantiu Anúbis rapidamente tocando o queixo dela e virando o rosto dela para que pudesse lhe dar um rápido beijo — Encantadora.
Anput corou enquanto um tímido sorriso preenchia seu rosto. Nem o clima nem o lugar eram propícios para trocar carinho, então eles logo interromperam o momento apesar de terem continuado com as mãos entrelaçadas. Nesse tempo todo, a discussão entre os demais deuses continuava, provavelmente por muitos terem a sensação estranha e incômoda de que algo iria acontecer. Sem soluções milagrosas, a discussão rapidamente ficava repetitiva e, consequentemente, cansativa, o que fazia alguns voltarem aos afazeres.
— Não podemos ficar eternamente parados aqui discutindo isso. — declarou Ísis — Temos muito o que fazer. Eu, Hathor, Thoth, Amon-Rá e Osíris vamos tentar descobrir o que pode estar acontecendo, mas torcendo para, como dito por Khnum, não ser nenhum deus muito preocupante. Ainda bem que as chances disso são razoáveis. Hórus, Anúbis, lembrem que tem que aprender o máximo que conseguirem de micênico. Então vamos todos voltar aos nossos afazeres. Não podemos parar por causa disso.
Isso dispersou de vez o resto dos deuses, mas a discussão continuou entre Ísis, Hathor e Amon-Rá enquanto os três andavam para dentro do Salão do Julgamento para compartilhar as novidades com Osíris. Thoth, por outro lado, chamou Anúbis e Hórus com a cabeça. Os dois deuses, mais Anput que aproveitou que Thoth não via problemas em ela ir também, acompanharam o deus até sua sala.
A sala de Thoth era uma bagunça de papiros jogados para todos os lados e alguns devidamente organizados numa prateleira que ia do chão até o teto. Para um visitante, certamente parecia um caos ver os papiros jogados aos montes pelas mesas e até pelo chão, mas, para Thoth, aquilo estava devidamente organizado. Ele sabia onde estava cada coisa, incluindo o que procurava.
— Eu tenho aqui algumas escritas vindas de Micenas e anotações minhas sobre o idioma. — disse Thoth passando a mão perto das prateleiras enquanto andava em busca da certa — Cheguei a analisar o básico, mas não tive tempo nem interesse de ir mais a fundo no idioma.
— É muito complicado? — perguntou Anúbis.
— Nem tanto. — disse Thoth parando diante de uma prateleira e começando a juntar nos braços tábuas de argila e rolos de papiro — A escrita é derivada do minóico, então não tem tanta novidade. Só é desanimador pois quase tudo que escreveram foram apenas contextos administrativos, listas de mercadoria... Terrivelmente chatos de ler.
— Pelo visto as conversas serão em egípcio mesmo já que não temos muito com o que trabalhar. — opinou Hórus enquanto Thoth largava nos braços de Anúbis tudo que tinha juntado e voltava para a estante para pegar mais coisas — Mas imagino que seja útil ao menos para contar com a sorte de identificarmos uma palavra ou outra que eles possam dizer no idioma nativo deles torcendo para que não entendamos.
— Exato. — respondeu Thoth.
Anput pegou um dos pergaminhos do topo e abriu-o atraindo o olhar de Anúbis e Hórus. Os três percorreram os olhos pelo o que era claramente Thoth transcrevendo algumas palavras usando o alfabeto micênico, e ao lado colocando tradução e em seguida uma escrita bem estranha em egípcio mas sem sentindo.
— E essa última palavra em hieróglifo? — perguntou Anput — Ela não faz sentido.
— É porque é uma tentativa de transcrever o som que a palavra faz. — respondeu Thoth voltando com mais papiros e largando nos braços de Hórus — Eu fiz uma tabela interessante, veja…
Ele percorreu os olhos pelos papiros nos braços dos dois deuses e pegou de lá um papiro cujas bordas estavam marcadas com tinta vermelha, deixando-o assim diferente dos demais. O deus abriu-o e explicou para os três outros deuses presentes, o que parecia uma longa tabela de símbolos micênicos comparados com egípcios.
— Exemplo… esse aqui que parece uma versão simplificada da ankh, para eles tem o som de “za”, assim como escrito ao lado. — disse Thoth — Sempre que consegui achar alguma sílaba ou palavra em egípcio que tivesse o mesmo som, eu o coloquei. Caso contrário. Tentei explicar o som o melhor possível.
— Deve ter dado trabalho… — comentou Anúbis.
— Ah sim. Deu. — admitiu Thoth soltando um pesado suspiro só de pensar no esforço — Por isso que, tirando essa tabela e algumas traduções, o resto não tentei nem ler ou traduzir. Então boa sorte para vocês. Escrevam o que descobrirem para facilitar a vida do próximo que tentar aprender, por favor.
Thoth, parecendo apressado, deixou os três ali e saiu da própria sala, com certeza rumo ao Salão do Julgamento para tratar do assunto de o que nascia nas profundezas do fogo. Os três deuses se entreolharam e abaixaram o olhar para os pequenos montes de placas de argila e papiro nos braços de Anúbis e Hórus. Por um segundo, Anput segurou a vontade de rir imaginando aqueles dois, logo aqueles dois, terem que trabalhar juntos para desvendar a língua micênica.
— Não importa quando seja o encontro, — disse Hórus — impossível ficarmos totalmente fluentes sem achar algum micênico para ajudar. Sem falar que temos vários outros compromissos.
— Será que eles arranjaram alguém egípcio para ensinar? — perguntou Anúbis — Ou… quem sabe os mercadores? Thoth disse que tem muitas listas de mercadoria. Pode ser um bom começo.
— Podemos ficar num porto! — sugeriu Hórus achando a ideia genial.
— Thonis. — disse Anput — Parece ser uma boa cidade para tentar achar mercadores micênicos. É no mediterrâneo afinal de contas.
— Realmente uma boa ideia. — concordou Hórus — Podemos ir lá e tentar ouvir as conversas e comparar com o que conseguimos tirar do material de Thoth.
Hórus, sem muita dificuldade, magicamente duplicou os papiros escritos por Thoth contendo as descobertas dele quanto a língua micênica para que ele e Anúbis pudessem cada um ter uma versão própria dos papiros. Quanto às argilas originalmente vindas de Micenas, e que não eram nada práticas de carregar, eles decidiram que não valia muito a pena serem duplicadas magicamente também, ao menos não por enquanto.
Eles se organizaram como dava e acrescentaram decifrar a língua micênica no meio da longa lista de afazeres que já tinham. Por vezes, Anúbis jogava os papiros sobre uma das mesas de pedra vazia da sala das múmias e alternava entre mumificação e estudar os papiros. Ajudava muito ter a memória perfeita dos deuses, não era preciso revisar. O problema era decifrar o idioma.
Felizmente, tal problema também era um ótimo jeito de Anúbis não lembrar do silêncio e vazio da sala das múmias e de quantas horas, ou dias às vezes, passava com pouca ou nenhuma interação social fora do trabalho de pesagem das almas. Assim, quando o foco nas mumificações começava a ser difícil manter e o silêncio da sala das múmias se tornava sufocante, ele trocava de atividade e se dedicava ao micênico.
Anúbis sabia que tudo era uma tentativa ridícula de não lembrar o quão sozinho se sentia. Lidar com aquela solidão crescente estava sendo cada vez mais complicado pois, nos julgamentos das almas, Anúbis constantemente se via olhando por mais tempo que o normal para o portal do Aaru, ou para o próprio Aaru quando tinha que entrar para acompanhar alguma alma. Enquanto fitava o Aaru ou seu portal, Anúbis pensava no tanto de amigos que estavam lá do outro lado. Pensava especialmente na última que a morte havia levado, Hatshepsut, que ainda fazia muita falta.
Algumas vezes, a solidão ficava tão difícil de lidar, que Anúbis ia estudar micênico dentro do Aaru, onde ao menos Neby e toda sua matilha podiam lhe fazer companhia.
— Acho que eu descobri essa, Neby. — disse Anúbis sentado no chão rodeado por chacais, cachorros e lobos, encarando um trio de placas de argila deixadas no chão enquanto em seu colo estava um papiro apoiado numa prancheta de madeira e, em sua mão, um pincel de junco com a ponta suja de tinta preta — “Rita”? É assim que lê? Acho que significa “Linho”. Mas só acho…
Neby se aproximou e lambeu a orelha do deus, que simplesmente ergueu a mão livre e acariciou o animal.
— É… Ontem eu fui com Hórus no porto de Thonis. — explicou Anúbis enquanto escrevia em seu papiro “linho” em egípci e, ao lado, transcrevia a palavra em micênico — Se “rita” não for linho, é alguma coisa que eles disseram muito quando estavam enchendo o barco de linho… Hórus com certeza deve discordar. Só sabe discordar de mim. Aqui é mais relaxante para estudar, especialmente que não preciso me preocupar já que as almas humanas aqui, ao contrário de vocês, não conseguem voltar até aqui.
Anúbis suspirou e ergueu o olhar do papiro para a imensidão do Aaru. Ficou em silêncio por uns segundos, como em transe. Foi só quando um dos lobos parceiros de Neby soltou um pequeno uivo, olhando preocupado para Anúbis, que o deus voltou a si e voltou a olhar para o material ao seu redor.
— Sim. Tem razão. — disse respondendo ao lobo — Ela faz falta mesmo. Mas né… Eu tenho que esquecer. Ela está morta e está bem. Depois de amanhã, Anput vai estar livre, então vai ser menos ruim. Hórus vai estar ocupado com o faraó, ainda bem, então vou para Thonis com Anput. Mas ainda vou ter que ir amanhã para Thonis com Hórus… Sinceramente, minha paciência com ele está acabando.
O trabalho em dupla do processo, por outro lado, era estressante para ambas as partes, e Anput comprovou isso quando, dois dias depois, foi para a cidade litorânea de Thonis, junto com Anúbis. As ondas do mar mediterrâneo criavam um som confortável, enquanto ambos estavam invisíveis sentados sobre o teto de uma das construções do porto. Anput percorreu os olhos pela pacífica cidade portuária que era um misto das diferentes culturas que passavam ali em busca de comércio. Os dois deuses tentavam encontrar o micênico no mar de idiomas falados pelos mercadores estrangeiros por ali.
— Hoje Amenhotep IV vai escolher qual deus irá acompanhá-lo durante o reinado… — disse Anput olhando, preocupada, para Anúbis, que parecia cansado, tenso e deprimido — Não vai acompanhar a cerimônia? Tá que quase nunca vai, mas…
— Não aguento ficar mais perto do Hórus. — admitiu Anúbis sem deixar de fitar o porto atentamente em busca de algum mercador micênico — Se eu ficar mais um dia perto dele, eu vou dar um soco no meio da cara dele.
— Tá divertido assim trabalhar com ele de perto, eim? — perguntou ela rindo, tentando descontrair — O que ele fez?
— Arrogante como sempre. — disse Anúbis e então, eventualmente, suspirou alto e deitou-se — Acho que hoje não vai aparecer nenhum mercador de lá. Ontem saiu um grupo grande daqui, então acho que vai demorar um pouco pra chegar outro.
— Aprendeu algo ontem então? — perguntou ela passando os dedos pelos cabelos dele e, gostando do cafuné, ele logo fechou os olhos.
— Uhum.. — respondeu ele tentando relaxar, mas sentido a tensão nos ombros — Confirmei que “rita” é “linho”.
— Vamos pra sala das múmias… ela tava sem nenhuma por hoje né? — perguntou Anput sem parar o cafuné — Podemos pegar uma das mesas, acendo uns incensos, aproveitando o escurinho confortável… faço uma massagem em você. Só uma massagem mesmo. Uso os mesmos óleos que gosto quando vou com Seshat fazermos massagem. São bem cheirosos e relaxam bastante. Está precisando relaxar. Não pense que não notei o quão tenso e pra baixo está. Já trabalha normalmente demais e agora te enchem de mais coisas.
— Não tinha dito que daqui ia lá cuidar do seu nomo? — perguntou Anúbis sem abrir os olhos.
— Posso fazer isso mais tarde. — respondeu ela — Tiro o atraso amanhã qualquer coisa também.
— Certeza? — perguntou ele finalmente abrindo os olhos.
— Certeza.
Os dois concordaram em ir para o submundo, se levantaram e deixaram Thonis para trás. Ao passo que, longe dali, em Tebas, um momento muito importante acontecia. Altivo e completamente sozinho, Amenhotep IV entrava na sala mais profunda no templo de Karnak. Um arrepio na nuca lhe mostrava que ele não estava sozinho. Os deuses, vários deles, os mais frequentemente escolhidos pelos faraós, alguns espectadores e que torciam pela primeira vez a serem escolhidos, estavam só esperando o novo faraó decidir qual deus seria seu parceiro durante o reinado.
Amenhotep IV parou no meio da sala sem se ajoelhar, dizer nada, nem abaixar a cabeça. Percorreu os olhos pelas paredes preenchidas com escritas sagradas sobre os deuses, com principal foco em Amon-Rá, mas seu olhar era estranho, desgostoso. Também era estranho o comportamento dele, desprovido de qualquer reverência.
— Amenhotep IV… — disse Hórus, estranhando o comportamento, mas seguindo tal como sempre fazia com todo faraó que chegava até ali — Rei do Alto e Baixo Egito, detentor do trono das duas terras…
— Esse sou eu. — respondeu o novo faraó com o primeiro brilho de alegria surgindo em seu olhar ao ouvir a voz cujo dono não via — Quem fala?
— Hórus. — respondeu o deus.
— Ah… — respondeu o faraó com um grande descaso e o brilho do olhar sumindo e deixando Hórus ficar sem palavras, boquiaberto e de olhos esbugalhados.
Ainda bem que Amenhotep IV não conseguia ver os deuses, pois, caso contrário, teria visto a mesma reação estampada nos rostos de todos ali, mesmo que os olhares focassem ou em Hórus, ou no jovem Amenhotep IV. Os deuses tentavam entender o que estava acontecendo ali e questionavam-se quanto o que iria acontecer.
Hórus precisou de um tempo para se recuperar, não sabia bem como prosseguir. Já estava com vontade de dar um tapa disciplinar no faraó, mas teria que se controlar. Assim, seguiu as falas que repetia a cada faraó que subia ao trono do Egito.
— A qual deus consagrará a si e seu reinado? — perguntou Hórus — E, se desejar, poderá escolher um nome régio para si.
— Não. — respondeu Amenhotep IV.
— Como “não”? — perguntou Hórus depois de alguns segundos de silêncio devido ao choque e saindo totalmente do script diante da surpresa.
— Não tenho interesse em consagrar meu reinado com falsos deuses. — declarou Amenhotep IV.
— “Falsos deuses”? — repetiu Hórus incrédulo.
— Como ousa?! — exclamou Khnum já não aguentando ficar quieto.
— Nunca, em todos esses séculos! — disse Thoth exasperado sentindo-se ofendido.
— Bem que eu estava com uma péssima sensação! — disse Sobek se juntando as vozes aflitas dos deuses em caos.
— Os homens dormiam como os mortos! — exclamou Amenhotep IV fazendo sua voz ser ouvida sobre as exclamações de pleno choque dos deuses, que não sabiam o que fazer — Agora levantam os braços em louvor, os pássaros voam, os peixes saltam, as plantas florescem e o trabalho começa.
— Devemos matá-lo? — perguntou Khnum aos cochichos.
— Saudade da Hatshepsut… — comentou Hathor suspirando.
— Ela não teria feito isso… — concordou Tefnut.
— Dá pra vocês, deusas, esquecerem ela um pouco? — reclamou Khonsu — Temos um grande problema aqui.
— Aten cria o filho no ventre da mãe, a semente nos homens, e gerou toda a vida! — continuava Amenhotep IV erguendo os braços parecendo bravo e corajoso mas, tinha que admitir, estava com medo — Ele distinguiu as raças, suas naturezas, línguas e peles, e atende às necessidades de todos!
— Eu voto em matá-lo. — disse Nekhbet.
— Concordo. — disse Khonsu.
— Também. — disse Sobek.
— Não podemos matá-lo. — lembrou Hathor aos cochichos, como se não tivesse certeza se queria que todos a ouvissem — Temos que deixar os mortais escolherem o caminho que querem seguir.
— Aten fez o Nilo no Egito e choveu, como um Nilo celestial, em países estrangeiros! — continuou Amenhotep IV — Ele tem um milhão de formas de acordo com a hora do dia e de onde é visto; mas ele é sempre o mesmo!
— O maldito é um herege, Hathor! — reclamou Khnum — Um faraó herege!
— Clamo a consagração do grande e único deus, Aten! — gritou Amenhotep IV — Bendizei ao Senhor, ó minha alma!
— HEREGE! — gritou Sobek, ficando finalmente visível e agarrando o pescoço de Amenhotep IV facilmente com sua grande mão verde e escamosa.
— SOBEK, NÃO! — gritou Hórus exasperado, sem saber o que fazer — ESPERE!
— V-Vinde a mim, grande Aten! — gritou Amenhotep IV à plenos pulmões tentando ignorar o perigo e o medo — Me despeço desse nome, à mim dado, honrando deuses falsos, e clamo minha devoção a ti não como Amenhotep IV, mas como Akhenaton!
Num lugar bem mais calmo, Anúbis e Anput chegavam ao Salão do Julgamento completamente despreocupados. A ideia principal de sessão de massagem tinha sido brevemente interrompida por Osíris que, no segundo que chegaram, chamou os dois para uma conversa despreocupada.
— Concordo com Anput que precisa descansar um pouco. — disse Osíris eventualmente — Inclusive, estava pensando… poderia tirar umas férias depois do encontro com os Micênicos. É uma boa chance de conhecer mais o norte… se tudo der certo com eles, claro.
— Já acharam um território neutro para acontecer o encontro? — perguntou Anúbis.
— Tinha sugerido Chipre. — respondeu Osíris — Mas eles não gostaram muito… mas acho qu-
O resto da fala de Osíris se perdeu pelo súbito barulho de uma explosão vinda do lado de fora. Os três correram, Osíris apenas foi para o máximo que conseguia para perto da porta considerando que não conseguia deixar o Salão do Julgamento, mas Anúbis e Anput foram até o lado de fora.
O terreno na frente do Salão do Julgamento estava um desastre. Chamas para todo lado, pedras quebradas das margens e, no meio de tudo aquilo, flutuando no ar, havia um homem que lembrava muito o faraó, mas, ao mesmo tempo, era claramente bem mais divino. Seu corpo brilhava, seus olhos eram dourados, todos os adereços e roupas eram dourados e brilhavam fortemente, seus membros eram finos e longos, seus lábios grossos e seu olhar era sério e cruel quando ele olhou com o canto do olho para Anúbis e Anput no segundo em que eles chegaram.
Nem por um segundo a mais o homem ficou ali, ele se transformou numa bola de luz com brilho tão intenso que os presentes não conseguiram continuar a olhar e então, ele explodiu queimando tudo ao redor, incluindo Anúbis e Anput. Osíris, por outro lado, apenas se livrou por estar mais longe e perto de uma parede para se esconder. Os dois deuses sentiram as chamas tocarem os braços, que levantaram em proteção automática. O dano, felizmente, foi pouco, pois eles estavam longe e a área em frente do Salão do Julgamento era ampla e aberta.
Essa bola de luz repetiu, no segundo seguinte, o mesmo efeito ao surgir no escuro cômodo fechado e apertado em Karnak onde Akhenaton e os deuses estavam. Ao contrário de Anúbis e Anput, os deuses estavam perto demais. As chamas queimaram os deuses, empurrando-os contra as paredes com força e queimando-os fortemente no rosto, braços e peito. Principalmente a Sobek, que estava com o faraó em sua mão. Todavia, magicamente, o faraó estava protegido e assim se manteve quando a bola de luz foi em sua direção e possuiu seu corpo. Era Aten, respondendo ao pedido do faraó.
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