Notas iniciais
saindo mais um capítulo!! XD espero que gostem! ♥ a história está atualmente na parte que eu mais queria fazer até agora. estou bem feliz! ♥

Tu rolas para o horizonte, tu lançaste luz sobre as trevas, enviaste ar das tuas plumas e inundas as Duas Terras como o Disco ao raiar do dia. Tua coroa penetra a altura do céu, tu és o companheiro das estrelas, e o guia de todo deus. Tu és beneficente em decretos e discursos, o favorecido da Grande Companhia dos Deuses e o amado da Pequena Companhia dos Deuses.

~Fragmento Livro dos Mortos

Caos. A palavra que melhor descrevia a situação combinava bastante com os títulos que Set carregava. Deus da seca, da caça, da guerra, do deserto… do caos. A imagem de Osíris se despedaçando passou uma mensagem clara para alguns dos deuses ali. Se até o todo poderoso Osíris podia ser feito em pedacinhos tão facilmente, então não era seguro para ninguém ali. Alguns deuses tentavam fugir mas os aliados de Set não queriam deixar que ninguém se afastasse dali. Outros deuses, pior do que fugir, já estavam se ajoelhando para Set.

Quanto a Anput e Anúbis, eles travavam uma batalha com Sekhmet. Ao redor deles, nada além da areia fria e de demais batalhas sendo travadas. Anúbis prendeu a mão esquerda de Sekhmet quando a deusa leoa se aproximava de Anput querendo provavelmente fazer o mesmo que tinha acabado de acontecer com Osíris usando as espadas gêmeas que segurava nas mãos. A deusa leoa ficou confusa ao se sentir puxada para trás e dando um alto rugido, se virou para enfrentar Anúbis que se aproximou rapidamente da mão dela envolvendo a ambos com a névoa negra que tudo necrosava, menos ele. Sekhmet gritou de dor quando a névoa tocou cada centímetro de sua pele e quanto o jovem deus arrancou uma das espadas de sua mão de maneira nada delicada.

— Anúbis! — exclamou Anput.

O jovem deus jogou para a jovem a espada que tinha acabado de roubar de Sekhmet e ela agarrou ganhando agora uma arma para lutar. Não havia tempo para se perguntarem o que aconteceu com Osíris. Ele era um deus. O faraó dos deuses. Imortal. Tudo ficaria bem, certo? As perguntas vinham facilmente, mas tinham que se concentrar na luta já que Sekhmet era uma adversária formidável.

Sekhmet rugiu com toda a força de seus pulmões e, no momento seguinte, ela era um leão completamente. Anúbis não tinha tempo para pensar se a névoa negra insistente tinha a deixado mais fraca ou se a transformação foi sua real intenção. Independente de qual foi, seus dentes e garras foram mais do que o suficiente para se livrarem das faixas de linho. A enorme leoa, maior que qualquer leão comum, avançou para Anúbis com a enorme boca escancarada pronta para devorá-lo. Contudo, no último segundo, ele desapareceu e ela mordeu o ar vazio. Como se tivessem combinado, Anput apareceu por trás de Sekhmet caindo no ar com a ponta da espada virada para baixo pronta para perfurar a deusa como um prego.

Para a tristeza da jovem deusa, Sekhmet desviou também no último instante. As feições de sua face leonina revelavam a pura ira quando ela pulou na direção da garganta de Anput. O percurso, no entanto, foi desviado quando um enorme chacal negro pulou na garganta de Sekhmet. Entre dentes e sangue prateado, os dois predadores lutavam com uma ferocidade que daria inveja aos daqueles de sua espécie. A complicada e emaranhada luta tornava complicado para que Anput interferisse sem ferir Anúbis.

Ao olhar ao redor, Anput notou Ísis de joelho no chão com a boca aberta num grito silencioso ainda olhando para o ponto onde antes Osíris estava enquanto deixava as lágrimas escorrerem sem parar por seu rosto. Até que, Set apareceu atrás de Ísis ao mesmo tempo em que uma luz dourada emanou de outro deus que Anput não pode ver quem era. A luz se afastou rodeando o campo de batalha como uma redoma enquanto o coração de Anput batia mais rápido ao notar Set se preparando para atacar Ísis.

Anput tentou se transportar para salvar Ísis, mas notou que não podia. A expressão de surpresa cruzou na jovem deusa enquanto ela também entendia para o que servia a redoma dourada. Ninguém escaparia fácil dali.

Quando a espada de Set se abaixava sobre Ísis, que já não tinha forças para sequer levantar, ele foi atingido por um forte jato d’água. Surpreso, ele olhou para a direita, para a origem da água, e ficou surpreso ao ver Néftis. A mulher chorava tal como a irmã mas em seu rosto estava estampado o mais puro ódio.

— O QUE VOCÊ FEZ?! — gritava Néftis.

— Ora, ora. O que temos aqui? — disse Set dando uma leve risada.

— O. QUE. VOCÊ. FEZ?! — gritava Néftis atingindo Set com uma onda d’água à cada palavra.

Set deu um, dois, três passos para trás devido ao impacto dos golpes enquanto o ódio lentamente estampava o seu rosto por estar sendo colocado contra a parede pela esposa.

— Tsc — reclamou ele olhando para Ísis.

De Set uma tempestade de areia nasceu rodopiando ao seu redor. Quando ele tentou agarrar Ísis no ponto onde sabia que ela estava, notou que ela não estava mais ali. Ísis e Anput se encolhiam botando a mão na frente do rosto enquanto Anput puxava Ísis para longe de Set. A tempestade de areia fazia com que ficasse difícil andar e enxergar para onde estavam indo.

Como uma explosão, a tempestade de areia se desfez com um forte jato de vento derrubando as duas e quase todos os outros deuses no chão. Anput caiu no chão com Ísis e tentou puxar a deusa e pedir para que ela se levantasse, mas ela nada fazia. O olhar de desespero de Anput em nada parecia com o olhar de falta de esperança de Ísis e o de triunfo com o qual Set olhava para Ísis.

Soltando um grito de guerra, Néftis correu para Set segurando uma lança que havia encontrado largada na areia. Entretanto, com o olhar frio, Set apenas segurou a lança, arrancou das mãos da esposa, segurou-a pelo pescoço quase enforcando-a e deu várias joelhadas em seu estômago antes de larga-la com dor no chão.

— Desculpe querida, mas está atrapalhando — disse Set com uma voz doce que contrastava com a violência do ato.

Enquanto isso, não muito longe dali, a luta entre Anúbis e Sekhmet estava quase concluída. Prova da complicação da luta foi a posição de seus combatentes. Anúbis estava no chão com a barriga contra a areia, sobre si, caida olhando para o céu, estava Sekhmet que tinha uma lança enfiada próxima de sua omoplata esquerda pelas mãos de Qebui que ainda segurava a lança. Os três estavam bem feridos, principalmente Anúbis e Sekhmet que colecionavam várias marcas de mordidas. Mesmo na posição nada favorável na qual se encontrava, Anúbis pode ver a situação de Anput, Ísis e Néftis. O jovem deus, com certa dificuldade, tirou o braço debaixo de Sekhmet, que ainda se debatia fazendo sangue prateado espirrar, e tocou no chão à sua frente. Da palma de sua mão saiu a névoa negra que se espalhou como um rastro até o mais perto que ele conseguia das três deusas. Não usou a névoa para ferir as três pois, de dentro da névoa surgiram vários mortos vivos e chacais feitos de névoa.

Chacais e mortos vivos dificilmente seriam adversários dignos de Set, mas seriam o suficiente para o distrair. Dois mortos vivos tomou o lugar de Qebui segurando a lança que prendia Sekhmet no chão. Rapidamente, Qebui e outros dois mortos vivos foram até Anúbis para o puxar de debaixo de Sekhmet. Os chacais feitos de névoa pulavam contra o rosto de Set e os demais mortos vivos faziam uma barreira entre as três deusas e Set. Sabendo que aquilo não ia durar muito tempo, Néftis e Anput levantaram Ísis e correram.

Ainda dentro da confusão, Néftis, Anput, Ísis, Anúbis e Qebui se encontraram. Anput tinha um dos braços de Ísis sobre seu ombro e Néftis o outro. O olhar de preocupação de Néftis passou pelo corpo de Anúbis, o tórax exposto com feridas de garras e dentes de Sekhmet que se curavam lentamente mostrava os rastros da ferocidade da luta da qual acabara de sair.

— O que fazemos agora?! — perguntou Anput desesperada.

— O que?! Dar o fora daqui! — exclamou Qebui.

— Temo concordar com ele — disse Anúbis.

— Vamos mesmo levar ela? — disse Qebui olhando para Néftis de cima à baixo.

O olhar de Néftis foi de vergonha quando ela abaixou o rosto em direção ao chão sem coragem de encarar os jovens que nem se quer pediam sua opinião. Não tinha palavras para se defender também considerando o lado que estava até então.

— Não temos para isso agora. — reclamou Anúbis.

— Esse treco dourado está impedindo qualquer viagem pelo Duat — disse Anput se referindo ao transporte que ela e Anúbis faziam as vezes — Temos que atravessá-la!

O pequeno grupo seguiu correndo para o mais longe possível logo atravessando a redoma dourada que não impediu à nada. Assim que atravessaram Anúbis fez as honras de transportá-los para outro lugar. Não teve tempo de pensar muito em qual lugar, assim, apareceram no meio de uma duna de areia inclinada demais. Isso fez com que eles rolassem duna abaixo.

Meio atordoado e completamente sujo de areia, Anúbis se sentou e areia caiu de sua cabeça. Ele cuspiu tirando a areia de sua boca e viu que todos os outros estavam se levantando fazendo o mesmo.

— Porque não nos levou para o palácio? — perguntou Anput.

— É o primeiro lugar que Set iria procurar! — disse Anúbis.

— E por isso nos trouxe para o meio do nada?! — reclamou Qebui.

— Preferia pra onde? Pra casa do Ahmen? — retrucou Anúbis.

— Temos que resgatar Neby! Não podemos deixar ele sozinho no palácio — disse Anput.

— Ele não estava no palácio quando saímos. — disse Anúbis dando de ombros — Às vezes ele sai a noite e volta no dia seguinte. Mas vou dar um jeito de acha-lo.

— E mais importante que isso… — disse Qebui olhando de braços cruzados para Néftis — O que ele fez com Lorde Osíris? Onde ele está?

— E ele por acaso quer fazer o mesmo com Lady Ísis? — perguntou Anput olhando para a esposa do faraó que ainda parecia estar impactada com os acontecimentos.

— E-Eu não sei todos os detalhes. — disse Néftis — Ele não me conta tudo. M-Mas… acho que sim. Ele pretende fazer o mesmo. Sei que ele recebeu uma profecia mandando ele tomar cuidado com a semente.

— Semente? — perguntou Anput.

— É… acho que ele teme que Ísis possa estar grávida — disse Néftis olhando cautelosa para a irmã.

— N-Não… não estou grávida. — gaguejou Ísis. As primeiras palavras que ela proferia desde do esquartejamento do marido.

— Espero que não esteja mentindo. — disse Qebui quase colocando o dedo no rosto de Néftis.

— Não estou. Eu juro.- disse Néftis sentando-se na areia e começando a chorar de forma soluçante — Eu não sabia que ele ia fazer aquilo com meu irmão. S-Se eu soubesse.. se eu soubesse… eu teria...

— Teria o que? Feito algo? Nunca fez nada até agora — disse Anúbis sem se preocupar com as palavras que saíam de sua boca.

Ele olhava para a mãe de braços cruzados e ela logo levantou o olhar choroso tímido para o filho. O ódio no coração do jovem deus pelo pai era bem forte e, embora também existisse pela mãe, não era tanto quanto sentia por Set. Não sabia bem o que sentir por Néftis. Claro, ela tinha o abandonado no meio de um deserto inóspito tal como aquele onde estavam no momento. Ninguém podia enganar Anúbis quanto à isso pois ele se lembrava muito bem. Mas ela nunca tramou tanto quanto o pai. Contudo, também nunca fez nada.

Um olhar de vergonha estampou o rosto de Néftis fazendo com que ela olhasse para baixo. O clima tenso gerou o silêncio entre os deuses até que Néftis se levantou lentamente e andou a passos trôpegos até o único filho. Olhou-o verdadeiramente talvez pela primeira vez. Viu não só os ferimentos que já estavam praticamente fechados, mas também viu como já era mais alto que ela, viu um pouco de sua personalidade e viu que não fora uma mãe para ele.

— Sei que o que fiz não tem perdão mas… — disse Néftis com as mãos sobre o coração parando por uns segundos de falar como se tentasse achar as palavras.

— Não quero ter essa conversa agora — disse Anúbis dando as costas para a mulher e indo até Ísis.

Anúbis se ajoelhou diante de Ísis, que ainda fitava o chão como uma estátua ensandecida, e tocou-lhe o ombro de forma encorajadora.

— Vamos tentar resolver isso. — disse ele.

— Como? — disse Ísis com uma voz baixa que mal saía.

— Lorde Osíris não pareceu ter desaparecido. Viu como foi. — disse Anúbis olhando esperançoso para ela e então para Anput em busca da confirmação de um segundo par de olhos.

— Pareceu ter… se… — disse Anput se estremecendo sem querer terminar a frase — E então… se espalhado?

— Acha que ele está vivo? — perguntou Néftis esperançosa.

— Acho que ele está por aí — disse Anúbis propositalmente não respondendo se achava que Osíris estava vivo ou morto.

Aquelas palavras encheram Ísis de uma nova esperança e, tremulamente, ela se levantou. Anúbis também se levantou e invocou mais um de seus chacais feitos de pura névoa.

— Ache Neby, quando o achar, fale para que vá para onde estivermos — disse Anúbis.

— Ele vai conseguir só com isso de informação? — perguntou Anput olhando para o chacal de névoa que se distanciava correndo.

— Quero acreditar que até ele encontrar Neby, estaremos em algum lugar e ele poderá passar o recado — disse Anúbis.

— Eu não sei onde vocês vão ficar, mas eu vou para longe daqui — disse Qebui.

— Não vai com a gente? — perguntou Anput.

— Você ouviu tudo isso! — disse Qebui — Set está com certeza atrás de Lady Ísis e, depois disso tudo, ele com certeza está bem irritado. Eu quero distância de tudo isso. Talvez eu vá até a Núbia. Adeus e boa sorte para vocês.

E assim, sem demorar demais nas despedidas, Qebui se foi corrrendo como o vento para cada vez mais ao sul esperando cruzar a fronteira do Egito em direção à terras que em muitos séculos no futuro viriam a se chamar Sudão.

Anput soltou um pesado suspiro olhando para Anúbis logo em seguida.

— Ele levantou uma questão certa. Para onde vamos? — perguntou Anput.

— Na-eiore? — sugeriu Anúbis depois de algum tempo.

— Não é muito fácil ele nos achar lá? — perguntou Anput.

— Ficar no deserto não é exatamente muito bom também — disse Anúbis — Ele reina sobre os desertos. Rapidamente iria nos achar. Podemos ficar perto do Wodj-Wer.

Com a localidade decidida, o grupo mais uma vez se transportou. Saíram do meio do deserto e foram para uma localidade completamente diferente. Atrás deles a terra era verde por vários metros até ser novamente substituída pela areia no limite do horizonte. A terra era fértil, lamacenta, quase um pântano. O Nilo também era muito diferente ali. O grande e poderoso rio, que na verdade era, para eles, denominado simplesmente de itéru, o grande rio, se ramificava criando aquela área tão diferente e tão verde. Na-eiore. Ali, as águas do Nilo desaguavam numa imensidão de azul que se estendia na frente dos deuses, desaguavam no Wodj-Wer, desaguavam no Mar Mediterrâneo.

Notas finais
## REFERENCIAS ## Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Núbia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Núbia Período Pré-Dinastico - https://en.wikipedia.org/wiki/Early_Dynastic_Period_(Egypt) História do Egito Antigo - https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_ancient_Egypt Mar Mediterrâneo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Mar_Mediterrâneo Nilo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Nilo#Delta_do_Nilo Wadj-Wer - https://en.wikipedia.org/wiki/Wadj-wer ###### Os leitores fantasmas bem que poderiam dar um oizinho tbm dessa vez né?