A Morte Das Areias do Saara
20 Conhecimento inesperado
Notas iniciais

Salve, ó vós que fazes almas perfeitas para entrar na Casa de Osíris, faze da alma bem instruída de Osíris o escriba Ani, cuja palavra é verdadeira, para entrar e estar contigo na Casa de Osíris. Que ele ouça como você ouve; deixa-o ter visão como vedes; deixa-o levantar-se enquanto estás de pé; deixe-o tomar o seu lugar mesmo enquanto toma seus lugares.
~Fragmento do Livro dos Mortos
No meio do nada formato por centenas de milhares de grãos de areia amarelados banhados pela luz do sol, um chacal de pelagem completamente negra se espreguiçava. Já fazia dias que Anúbis procurava por qualquer pedaço do corpo de Osíris. Ísis, Anput, Néftis e Thoth também ajudavam embora Anúbis e Anput ocasionalmente interrompessem as buscas para cuidar de Neby que permanecia esperando na pequena residência de barro no Delta do Nilo. Certamente as buscas seriam mais complicadas se aqueles que buscavam precisassem de água e comida, mas não era o caso. Também precisavam de menos tempo de descanso mas, depois de horas, dias, fazendo exatamente a mesma coisa sem parar, era difícil não ficar um tanto desconcertado. Foi exatamente por isso que Anúbis parou e sentou-se no meio de um vale formado por morros de areia.
A forma de chacal do jovem deus foi logo substituída por sua forma humanóide que logo começou a coçar e soar o nariz que estava cheio de areia depois de ficar tantas horas cheirando por aí.
— Argh! — reclamou Anúbis largando-se ainda mais no chão até deitar completamente na areia.
O braço sobre seus olhos tentava proteger os olhos da claridade do sol assim como a tintura preta feita a base de um composto de sulfeto de chumbo que contornava seus olhos cansados depois de literalmente dias sem nem uma soneca. Interessantemente, não era pelo rapaz ser um deus que o composto de chumbo não o machucava, alguma coisa havia de misterioso na mistura que preparava o kajal que impedia-o de ser tóxico.
Anúbis se sentou quando sentiu algo pinicando seu pé e então viu um escorpião que tentava inutilmente o picar mas sem conseguir fazer o ferrão ultrapassar sua pele. De forma despreocupada, apenas mexeu o pé se livrando do escorpião e então se espreguiçou voltando à sua busca em forma de chacal.
Depois de algumas horas, ele encontrou um cheiro que lhe foi familiar. Rapidamente começou a ficar mais animado quando começou a correr na direção do cheiro. Ele subiu uma duna de areia e então de lá ele pode ver, no meio da duna seguinte, algum objeto estranho. Trocando para a forma humanóide, ele se aproximou com cuidado subindo a duna seguinte com medo de que a areia enterrasse a tal coisa. Ao se aproximar, foi logo distinguindo as cores do objeto em questão. Azul, dourado, azul, prata, azul. Com cuidado, Anúbis pegou o objeto que logo se mostrou ser metade de uma mão. A pele azulada, o sangue prateado e a carne dourada não tornava a imagem menos grotesca, mas era essa imagem grotesca que deixou o jovem deus feliz ao encontrar aquela mão que exibia apenas metade de uma palma e três dedos.
Num piscar de olhos, Anúbis deixou o deserto para trás desaparecendo de lá e então reaparecendo na cabana de barro mantendo a mão azulada de Osíris firmemente protegida entre suas próprias mãos pálidas. Na cabana de barro, encontrou apenas Neby. Se aproximou do animal que se enroscava em uma soneca e fez carinho em sua cabeça com a mão esquerda enquanto a direita segurava o pedaço de Osíris. O animal recebeu o carinho de bom grado e então Anúbis sentou-se na cabana suspirando.
— Não podemos deixar isso aqui sozinho, Neby. — disse Anúbis — E se Set descobrir que estamos juntando os pedaços de Osíris?
— Eu posso ficar aqui de olho e ir embora caso qualquer coisa aconteça… — disse Anput entrando na cabana calmamente.
— Desde quando estava aqui? — perguntou Anúbis.
— Acabei de chegar. Vim só ver Neby — disse Anput fazendo carinho na cabeça do animal também — Conseguiu achar alguma coisa então?
— Metade de uma mão — disse ele exibindo o pedaço.
— Isso é certamente nojento. Mas também é uma boa notícia… — disse Anput soltando um suspiro e sentando-se ao lado de Anúbis.
— Pergunto-me quantos pedaços serão.
— Vamos torcer para que não sejam muitos — disse Anput e Anúbis concordou com a cabeça.
Querendo retornar às buscas, Anúbis estendeu o pedaço de Osíris para que Anput pegasse para protegê-lo. Anput olhou para o pedaço por alguns segundos, claramente meio enjoada, antes de pegá-lo.
— Realmente eu não esperava que um dia fosse receber um pedaço de uma mão. — disse Anput.
Anúbis ficou em silencio por alguns meros segundos enquanto Anput tentava lutar contra seu estômago embrulhado. Ele direcionou os olhos lentamente para a entrada da cabana quando falou:
— Da próxima vez posso trazer flores.
A tão simples e breve frase fez as bochechas de Anput ficarem vermelhas enquanto ela olhava para ele como se não acreditasse em seus ouvidos. Um pequeno sorriso se formou em seus olhos depois de um tempo enquanto ele lentamente ousava virar o rosto para ela até que ela pode ver que ele estava vermelho. A vermelhidão no rosto dele ficou bem mais acentuada que a dela devido a dor pálida de seu rosto.
— Lótus azuis e jasmins seriam legais. — disse Anput — ou anemones.
— Lótus azuis, jasmins e anemones. Certo. — disse ele ao se levantar e deixar a cabana para trás, ambos de rostos corados e ela com um leve sorriso.
Antes de seguir em sua busca, ele se aproximou das águas do mediterrâneo e lavou as mãos que estavam levemente sujas com sangue prateado que não era dele. Em seguida, ele desapareceu se envolvendo em névoa negra. A busca por um segundo pedaço de Osíris não foi tão diferente da busca pelo primeiro. Dias se passaram quando ele encontrou o segundo pedaço. As maiores diferenças foram que, dessa vez, ele encontrou o pedaço perto de uma árvore seca e que esse pedaço não era fácil de distinguir que parte do corpo poderia ser. Sua forma levemente arredondada sugeria que podia ser tanto alguma parte da coxa como da panturrilha. Contudo, antes de voltar para a cabana, tinha algo mais o que fazer.
Com a mesma facilidade com a qual ia e vinha, ele surgiu num pequeno vilarejo perto do Nilo onde pegou um pedaço de pano esquecido e envolveu o pedaço de Osíris. Agora que ele não parecia nada mais do que um embrulho qualquer, Anúbis seguiu para sua segunda tarefa.
Dentre jardins, oásis e arbustos, ele foi juntando as flores mais coloridas que conseguia encontrar. Não sabia dizer quais eram jasmins ou anemones quando essas segundas eram brancas, mas as anemones de outras cores eram facilmente identificáveis e os lótus azuis eram de uma beleza e delicadeza tão surpreendentes que era difícil confundi-lo com qualquer outra flor. A cor azulada de suas pétalas oscilavam entre vários tons de azul que, junto com seu centro amarelo, fazia parecer que a flor irradiava uma leve luz própria que aumentava em sua beleza. Com um pequeno buquê de aproximadamente 10 flores em sua mão direita, Anúbis se transportou novamente para a cabana.
Com as flores escondidas atrás das costas, ele entrou na cabana encontrando Anput com Neby dormindo logo ao seu lado enquanto ela fazia carinho em sua barriga.
— Ísis passou aqui mais cedo. — disse Anput — Disse que vai tentar achar alguém para ajudar na proteção da cabana e também chegou com um pedaço.
Ainda sem dizer uma palavra, Anúbis deixou o pedaço embrulhado no pedaço de pano em um canto tentando não mostrar as flores que escondia em suas costas embora Anput já estivesse se perguntando o que ele estava escondendo.
— Espero ter acertado as jasmins — ele disse tirando o singelo buquê de suas costas e estendendo para ela.
As bochechas dele já estavam levemente coradas e, logo em seguida, a mesma vermelhidão preencheu o rosto de Anput. Com um sorriso, ela se levantou e foi até ele pegando então as flores de suas mãos.
— São lindas, mas acho que tem umas margaridas no lugar de jasmins aqui — ela disse colocando as flores mais perto de seu nariz e sentindo o cheiro delas com um sorriso no rosto e com os olhos fechados.
— Tentarei acertar da próxima vez — disse Anúbis coçando a nuca sem graça.
— Vai ter uma “próxima vez” então? — perguntou Anput.
— Se permitir e for de seu agrado.
— Claro que sim — respondeu Anput se aproximando dele e então dando um rápido beijo em sua bochecha — Obrigada.
A vermelhidão rapidamente tomou conta do rosto de Anúbis enquanto ela se distanciava e apreciava as cores que tinha acabado de ganhar. Anput então pegou um dos lótus azuis e colocou em seu cabelo de forma elegante tentando não machucar a bela e delicada flor. Os olhos de Anúbis ficaram presos na jovem até que foi despertado pela situação complicada em que estavam.
O deus se ajoelhou juntando os três pedaços de Osíris que tinham juntado até então. Encarando o macabro quebra cabeça, não demorou muito para concluir que ainda não tinham partes encaixáveis entre si visto que o pedaço encontrado por Ísis era uma parte do ombro de Osíris. Foi nessa hora também que ele começou a notar algo estranho, um cheiro estranho, sendo emanado dos pedaços de Osíris. Alguém com nariz mais normal não teria notado, visto que ele era bem fraco e sutil, mas o olfato canino foi o suficiente para notar. Sua experiência com morte era pouca ainda, mas era como se soubesse o que aquele cheiro era desde sempre.
— Ele está se decompondo! — exclamou Anúbis surpreso e preocupado.
— O quê? — perguntou Anput desviando sua atenção das belas flores.
— Ainda está no começo e não tão rápido quanto a de um humano, mas ela está se decompondo. — disse Anúbis levando o pedaço de mão para mais perto do nariz para se certificar disso mais uma vez.
— T-Tem certeza? — perguntou Anput — Somos deuses… teoricamente não deveríamos passar por etapas de morte. Pra começo de conversa não deveríamos se quer morrer.
— Já fazem vários dias desde que Set fatiou Osíris, talvez esteja afetando o fator de cura ou tinha algo mais naquela espada? — perguntou Anúbis.
— De que tanto falam tão alto? Sejam mais discretos, por favor — disse Thoth entrando com mais um pedaço na mão.
— O corpo de Osíris está se decompondo! — disse Anput olhando para Thoth.
— Isso não é possível! — disse Thoth se aproximando dos dois jovens e dos pedaços já obtidos.
— Temos que impedir. Preservar o corpo o máximo possível. Ele não irá poder viver nem aqui nem no Duat se não o preservarmos. — disse Anúbis — Temos que pelo menos cobrir as partes em algo que não o deixe se decompor tão rápido… tipo sal ou natrão.
As palavras simplesmente tinham saído da boca de Anúbis com extrema facilidade tal como se ele fosse experiente no assunto. Thoth e Anput, no entanto, tomaram alguns segundos para se entreolharem estranhando um pouco aquele momento.
— Como sabe disso? — perguntou Thoth fazendo a pergunta que Anput também queria fazer.
Anúbis abriu a boca uma vez e logo fechou-a novamente antes de fazer uma leve expressão de estranhamento.
— Eu não sei como sei. Só… sei. — disse Anúbis olhando para os pedaços de Osíris.
Thoth olhou para o jovem deus por uns segundos antes de afirmar com a cabeça brevemente aceitando a breve explicação embora sua mente estivesse cheia de pensamentos e teorias sobre tal conhecimento e o porquê de o corpo de Osíris estar se decompondo.
— Certo. Posso ir atrás de sal ou natrão enquanto continuam as buscas. — disse Thoth.
Com essas palavras, Thoth se transformou em um pássaro médio, um Íbis, seu bico longo e fino era negro e sua penugem era verde água, cores nada comuns em tais tipos de pássaro que, com seus pescoços longos, gostavam de ficar perto das águas.
Depois que Thoth se foi, Anput olhou para Anúbis e tocou em seu ombro com sua mão direita enquanto a esquerda ainda segurava as flores que ganhara. Ela o olhava com preocupação uma vez que era possível ler na expressão de Anúbis sentimentos como dúvida, estranhamento e talvez até medo.
— Você está bem? — perguntou Anput.
— Estou. Não se preocupe — disse ele suavizando sua expressão e olhando para ela com um sorriso fraco e pequeno.
— Me preocupo sim. Em que está pensando?
— Várias coisas — disse ele com um suspiro pesado e então tendo sua atenção desviada por Neby que, de forma bem sofrida, tinha se aproximado dele para lamber-lhe o rosto.
A atenção do animal e da garota fizeram as preocupações saírem momentâneamente da mente de Anúbis. Ele então se ocupou em fazer carinho em Neby que logo deitou no chão com a barriga para cima.
— Não pense que esqueci de você, trarei mais comida para você também — disse Anúbis.
— Às vezes uns pássaros param por perto para beber água e eu ajudo ele à pegar — disse Anput.
— E como ele está?
— Notei hoje mais cedo que ele parecia estar com dificuldade para levantar. Alguma coisa nos ossos. Mas consegui curar ele. — disse Anput.
Anput logo aproximou seus dedos da cabeça de Neby e também fez carinho no animal deixando a cabana em silêncio por alguns segundos.
— Por quanto tempo acha que vamos conseguir prolongar? — disse Anput com uma expressão de preocupação — Não podemos afugentar para sempre a idade.
— Eu não sei, não quero pensar nisso… — disse Anúbis com uma voz cuja única descrição que poderia receber, seria depressiva.
Com o coração apertado, Anúbis aproximou seu rosto do rosto de Neby e deu-lhe um leve beijo no topo da cabeça. Ao carinho, Neby respondeu com uma lambida no rosto do jovem deus que não ficou irritado, apenas abriu um sorriso triste enquanto limpava a saliva com a mão.
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