A Morte Das Areias do Saara
70 Como se já não estivesse ruim o suficiente...
Notas iniciais

Na manhã do quinto dia, Nefer-ka-ptah chamou-lhe um sacerdote de Ísis, um grande mágico aprendido em todos os mistérios dos deuses. E juntos eles fizeram uma pequena caixa mágica, como a cabine de um barco, e fizeram homens e um grande estoque de equipamentos, e colocaram os homens e os equipamentos na cabine mágica. Então eles lançaram um feitiço sobre a cabine, e os homens respiraram e estavam vivos, e começaram a usar o equipamento. E Nefer-ka-ptah afundou a cabana mágica no rio, dizendo: "Operários, operários! Trabalhem para mim!" E ele encheu a barcaça real de areia e navegou sozinho, enquanto Ahura estava sentado na margem do rio em Koptos, observando e aguardando, pois sabia que a tristeza deveria advir dessa jornada para a terra do sul.
Os homens mágicos na cabana mágica trabalharam a noite toda e o dia inteiro por três noites e três dias ao longo do fundo do rio; e quando eles pararam, a barcaça real também parou, e Nefer-ka-ptah sabia que ele havia chegado onde o Livro estava escondido.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
— No décimo oitavo dia, do segundo mês de Peret dos habitantes de Kemet, no décimo ano do poderoso de dupla força, estabilizador das Duas Terras, Khufu, o protegido de Khnum, filho de Sneferu e Hetepheres… — lia Anúbis o texto do papiro que havia acabado de pegar do barco dos emissários de Khufu.
Diante de Anúbis, os deuses ouviam com atenção a cada palavra e prenderam a respiração, tensos, quando Anúbis tirou alguns segundos para pular toda a parte irrelevante de todos os títulos que Khufu tinha.
— ...Os escribas dos escritos sagrados... — continuava Anúbis — e os sábios da Casa da Vida eis que declararam o anúncio para as terras de Hórus e para todos “Sob o reinado de Sua Majestade Khufu do povo do Egito, Sua Majestade declara o fechamento de todos templos, de Norte a Sul. Os sacerdotes estão, por meio deste, proibidos de realizarem sacrifícios aos deuses assim como o faraó, Sua Majestade Khufu, também não fará mais oferendas aos deuses.
—Neket iadet… — xingou Shu entredentes.
—Deixa ele continuar… — ralhou calmamente Osíris.
— A construção do Horizonte de Khufu à de continuar. — disse Anúbis continuando a ler o longo texto — E todos sob seu reinado e sob seu Augusto serviço se esforçarão para a conclusão da maior obra daquele que governa o Norte e o Sul, a seu próprio modo.
Uma pausa foi feita nesse instante em que Anúbis deixou escapar um suspiro de decepção. Seus olhos percorreram o texto procurando por partes mais relevantes e acabou optando por simplesmente resumir a ideia geral dali em diante.
—O texto continua… menciona as punições que dependem de cada caso… — explicou Anúbis — Podem ir de uma simples perda do cargo de sacerdote como algo mais físico como cem golpes na canela.
—Incrível a audácia de Khufu. — disse Hórus.
—Selou o próprio fim. — comentou Néftis.
—O que faremos? — perguntou Anúbis entregando o papiro para Hórus que estendia-lhe a mão querendo ler o texto completo.
—Não é óbvio? — perguntou Shu — O de sempre quando estamos com raiva do povo. Não deixar o Nilo encher.
—Não estamos com raiva "do povo". — lembrou Anúbis — Estamos com raiva de Khufu. Não deixar a cheia do Nilo acontecer esse ano prejudica primeiro o povo, principalmente os mais pobres. Sabe tão bem quanto qualquer um de nós que se o Nilo não transbordar, o povo não terá água suficiente para suas plantações. Khufu será o último a sentir os efeitos de uma seca. Ele nunca morrerá de fome. No máximo chegará um dia que ficará com um pouco de fome enquanto o povo estará morrendo de fome desde do começo.
—Se seremos todos afetados pela decisão de Khufu, nada mais justo do que todo o povo também o ser. — disse Shu.
—Você realmente acha isso?- perguntou Néftis olhando incrédula para o avô.
—Sim. — disse Shu firme cruzando os braços.
—É ridículo. — disse Anúbis — Você se quer para pra pensar no que está falando antes de sair falando tanta tolice?
Claro que Sou não gostou de ouvir aquelas palavras ditas pelo bisneto. Era possível ver a raiva dele quando ele se aproximou lentamente de Anúbis inspirando e expirando lentamente mais com uma raiva que faziam suas narinas se alegarem brevemente.
—Eu falando tolice?- disse Shu -Controlar o Nilo ao nosso bel prazer é nossa forma mais clássica de fazer os humanos pagarem. Fazemos isso à séculos! Pff… tinha que ser filho do Set pra falar essas asneiras.
—Ah não…. — disse Set despreocupado encostado contra o muro enquanto Anúbis fechava a expressão com muita raiva só de ser comparado com o pai — não não… eu sinceramente gosto da ideia dos mortais morrerem pelo erro de Khufu. Não jogue o detalhe do menino ser contra pra cima de mim. Mas acho que posso levar um pouco a culpa pelo seu lado rebelde. Muito embora tenha virado para o lado errado da rebeldia.
Anúbis revirou o olhar controlando o nojo que tinha só de ver Set e ainda ter que ouvir aquelas palavras da boca dele. No meio de tudo aquilo, não demorou muito para vários deuses falarem ao mesmo tempo e uma discussão impossível de se acompanhar começar.
—Não é "lado errado". — disse Isis — Isso se chama "ser bom", Set. Algo que você não entenderia.
—Será que podemos voltar ao assunto principal? — sugeriu Hórus massageando as têmporas.
—Podemos amaldiçoar toda a linhagem de Khufu — sugeriu Khnum.
—Você nem se deu ao trabalho de criar o Anúbis! Não pode reivindicar nada!-exclamou Néftis
—Não seja hipócrita, mulher! — disse Set — Você o jogou no deserto antes de eu saber que existia. Nem você o criou!
—Ainda bem que Hórus te capou. — zombou Shu — Não teremos mais problemas com filhos seus.
—Quer ver eu te capar também seu velho idiota? — ameaçou Set.
Naquela discussão claramente sem controle, Osíris estava apenas de observador. O deus soltou um suspiro longo e cansado e foi até Anúbis pousando a mão em seu ombro antes que ele resolvesse entrar na briga também. O ato, por mais singelo que tenha sido, rendeu um olhar de inveja e ciúmes por parte de Hórus.
— Não vamos chegar a lugar algum assim. — disse Osíris — Pode fazer um favor pra mim?
— Claro… — disse Anúbis desviando sua atenção da briga.
— Uma reunião dessas tem que ter a presença de Thoth. Ele é o escriba real afinal de contas. — explicou Osíris — Além disso, ele teria ideias interessantes sem dúvida.
— Quer que eu tente encontrá-lo? — perguntou Anúbis.
— Sim. — confirmou Osíris — Além disso, estou com uma péssima sensação. Não é do feitio dele estar longe por tanto tempo assim em momentos como esse. Nem Hórus conseguiu encontrá-lo, embora eu tenha minhas dúvidas do quão bem ele procurou.
—Seshat deve saber de algo, não?- perguntou Anúbis.
—Talvez. — disse Osiris dando de ombros — Deixo isso em suas mãos, sim? Vou ficar me certificando de que nenhuma decisão drástica seja tomada aqui enquanto isso. E de que ninguém sairá com partes do corpo faltando … ou pior.
Anúbis afirmou com a cabeça e simplesmente desapareceu em busca primeiramente de Seshat. Tinha esperanças de que a filha de Thoth soubesse de seu paradeiro e, felizmente, sabia bem onde a deusa estava, pois estava no mesmo lugar que Anput.
Assim, o lugar onde Anúbis apareceu foi o que Anput havia mencionado para ele várias horas antes que estaria junto com Seshat e Sodpet. As três deusas estavam sentadas na praia rindo e conversando enquanto o sol começava a se pôr à oeste marcando as águas do Mar Mediterrâneo de laranja.
— Anúbis! Veio se juntar a gente? — perguntou Sodpet ao ver ele ali surgindo do nada — Desculpe, mas é pra ser o dia das garotas. Até Nefertem tentou se juntar e não deixamos.
— Não, tudo bem. — disse Anúbis — Na verdade, estou atrás do Thoth. As coisas estão meio…. Complicadas…. Lá no Salão do Julgamento.
— O que aconteceu dessa vez?- perguntou Anput.
— Eu não deveria contar então finjam que não sabem mas… — disse Anúbis desviando o olhar e soltando um suspiro — Khufu mandou fechar todos os templos.
— Todos? — perguntou Seshat incrédula enquanto as outras duas só olhavam para ele chocada.
— Todos. — confirmou Anúbis — Lorde Osíris pediu para eu ir atrás de Thoth… Antes que os outros tenham alguma ideia ruim ou se matem lá embaixo. Você sabe onde ele está, Seshat?
— Calma.. espera… fechar os templos? — perguntou Anput não conseguindo acreditar — Tem certeza dessa informação?
— Infelizmente sim. — disse Anúbis.
Anput e Sodpet trocaram olhares temerosos e deixaram um suspiro escapar de seus lábios enquanto se perguntavam o que estava passando pela cabeça de Khufu para tomar uma decisão tão louca quanto aquela. Seshat também compartilhava da preocupação quanto ao o que a decisão de Khufu podia ocasionar para o povo do Egito mas, no momento, se preocupou em pensar quanto a onde poderia estar Thoth.
— Não sei exatamente onde meu pai está… — admitiu Seshat — Mas tenho algum chute. Talvez ele esteja no sul, em alguma parte do Alto Egito. Mais cedo, Min veio atrás dele.
— Min? — perguntou Anúbis estranhando ela ter mencionado o deus um tanto esquecido pelos demais — Se estiver com Min então, ele pode estar em Koptos ou Akhmim... Mas o que ele estaria fazendo lá?
— Isso eu já não sei. — admitiu Seshat — Só sei que ambos pareciam bem preocupados antes de irem para sei lá onde. Eu tentaria Koptos primeiro.
— Obrigado — disse Anúbis ao afirmar com a cabeça brevemente.
O Alto Egito não era exatamente um lugar muito pequeno para se procurar. Se estendendo por vários nomos em direção ao sul até alcançar a Núbia, era sem dúvida uma grande área. Por mais que a presença constante dos egípcios estivesse registrada em vários de seus pontos e nas cataratas do Nilo, muitas das coisas se concentravam mais ao norte do Império, ainda mais com a capital estando tão à norte também, bem no começo do delta do Nilo. Ter uma cidade por onde começar era muito bom. Assim, Anúbis deixou as margens do mediterrâneo de lado torcendo para que pudesse encontrar Thoth rapidamente.
Deixando a praia para trás, o deus surgiu em sua forma de chacal em uma das dunas de areia que rodeava a cidade de Koptus. Não era uma cidade muito grande, especialmente quando comparada à Mênfis, mas tinha seu próprio movimento. Afinal, de lá saíam expedições comerciais rumo ao Mar Vermelho ou de mineração no deserto oriental, repleto de ouro e quartzito.
Com o sol já marcando o final do dia, os habitantes da cidade se preparavam para dormir sem imaginar que um chacal de pelos negros olhava para a cidade e seus habitantes enquanto procurava por o filho mais velho de Rá. Pra alguma coisa tinha que servir as habilidades de um canino como um chacal, assim, Anúbis tentou encontrar qualquer pista do cheiro de Thoth no ar.
Por alguns vários momentos, ele não sentiu nada de diferente nos cheiros ali. Lama e areia eram os mais fortes, mesmo quando ele ia deixando o deserto mais de lado e se aproximando do Nilo rapidamente. A terra ia se tornando menos seca e o cheiro de árvores e animais iam aparecendo mais, até que ele parou ao sentir um cheiro familiar. Anúbis ergueu o focinho para os céus puxando aquele cheiro mais e confirmou que era o cheiro de Thoth. A partir daí, não fui muito difícil seguir o cheiro do deus rio acima.
Anúbis correu em sua forma de chacal, muito mais rápida do que simplesmente correr em duas pernas. Não podia simplesmente perder o rastro de Thoth ao tentar aparecer magicamente mais pra frente. Mas, até ali, enquanto corria pela divisa entre as terras lamacentas e as terras áridas, pode ver que o cheiro de Thoth não parecia fazer nada de muito diferente além de subir o rio indo para sul.
De repente, a cada passo dado, mais e mais o rio se aproximava à sua esquerda. Não mais podia ficar na divisa entre a terra seca e a molhada. Thoth havia se aproximado do Nilo e, quando a cidade já começava a desaparecer no horizonte atrás de Anúbis, ele parou. As tochas da cidade mal davam para serem vistas mais e o sol já pouca luz dava, mas ainda estava claro o suficiente para ele ver duas figuras de pé sobre as águas do Nilo tal como se ele fosse uma superfície sólida como outra qualquer, não água.
Uma das duas figuras, não muito surpreendentemente, era Thoth que, ao ver o chacal negro surgindo nas matas de plantas de papiro que adornavam o leito do rio, sentiu o peso em seu ombros aumentar drasticamente. Thoth engoliu em seco quando Anúbis foi se aproximando tranquilamente também andando sobre o rio sem nem tocar em sua água e no meio do caminho trocou de forma para que pudesse ter uma conversa mais normal com os dois deuses por mais que também conseguisse falar em sua forma de chacal. Contudo, ao se aproximar de Thoth, ele notou como Thoth parecia extremamente preocupado assim como Thoth notou pelo olhar de Anúbis que algo não estava certo.
— Ficou sabendo já? — perguntou Anúbis olhando rapidamente para Min tentando entender porquê também o deus de pele negra como a noite, olhos dourados e vestes brancas com detalhes azuis estaria se reunindo com Thoth naquele lugar tão estranho.
— Sobre… o quê? — perguntou Thoth cauteloso e Anúbis notou isso nele.
— Khufu… — respondeu Anúbis.
— Não. — disse Thoth totalmente perdido — O que aconteceu? Ele morreu?
— Não. Ele está bem. — respondeu Anúbis — Mas se depender dos outros, não por muito tempo.
— O que aconteceu? — perguntou Min perdido e trocando olhares de preocupação com Thoth.
— Khufu mandou fechar todos os templos. — disse Anúbis fingindo não ter notado aquele olhar que aparentemente tinha a intenção de ser discreto — Lorde Osíris pediu-me para vir atrás de você. As coisas estão complicadas no Salão do Julgamento com todos discutindo entre si. Uma ideia sensata seria boa.
— F-Fechar os templos? K-Khufu? — gaguejou Thoth incrédulo — Isso é ruim… isso é muito ruim… mas… não tão… B-Bem… quer dizer… claro que é muito ruim mas… eu talvez esteja com um problema pior.
— Pior? — questionou Anúbis olhando rapidamente para Min que afirmou com a cabeça e abaixou o olhar envergonhado — O que aconteceu aqui? Porquê veio tão longe até Koptos?
— Não sei se irá se lembrar… — começou Thoth mas logo balançou a cabeça mudando o discurso — Claro que se lembra, somos deuses, temos memória perfeita. Para ver como estou desesperado, nem estou conseguindo pensar direito. Enfim… de toda forma, uns anos atrás… eu estava escrevendo um livro. Quando passou uma vez no meu escritório eu estava até debruçado sobre ele. Era minha obra prima, o melhor livro que já escrevi até então.
— Você levou um susto e tentou esconder o que estava escrevendo... — disse Anúbis repassando aquela memória em sua mente — Porque Hórus havia mandando você parar. Você não quis me contar mais na época, disse que era melhor assim.
— Sim! Esse mesmo! — disse Thoth tentando recuperar a postura ao tentar ficar mais calmo.
— Você não parou de escrever… — adivinhou Anúbis.
— Não… — admitiu Thoth abaixando a cabeça envergonhado — Mas, para que não caísse em mãos erradas, joguei feitiços e escondi o resultado final de meu trabalho, aqui, no fundo no Nilo, bem debaixo de nós.
— No meu território… — disse Min abaixando o olhar envergonhado também — Não tinha muita noção também no que estava me metendo. Julguei que um dia como esse não chegaria nunca.
Os dois pararam de contar a história e se olharam como se estivessem silenciosamente se perguntando quem daria o pedaço de informação final. No entanto, mesmo que aquele que estava diante deles aparentasse tão mais novo do que os dois deuses, eles estavam receosos em contar. O problema não era especificamente contar para Anúbis, o problema era que parecia como admitir que havia dado muito errado o plano deles e que logo todos os deuses, incluindo Hórus e, mais preocupantemente, Rá, saberiam do enorme fiasco que havia acontecido.
Entretanto, julgando pelo rumo da conversa e pelos olhares de Thoth e Min, não sobrou muitas opções para Anúbis ao tentar chutar o que havia acontecido.
— Deixe-me pensar… o seu livro… ele caiu em mãos erradas. — disse Anúbis e Thoth afirmou soltando um suspiro pesado.
— Sim. — confirmou passando as mãos, tenso e revoltado, por seu rosto — Ainda não sei por quem! Vim até aqui o mais rápido que pude! Não só roubaram o fruto de meu trabalho, como roubaram de um deus! Não sei quem teria tamanha audácia! Talvez seu nariz possa ajudar-nos nisso.
— O que tem de tão importante no seu livro para estar tão desesperado por terem o pego? — perguntou Anúbis.
— Tem tudo! Tudo! — exclamou Thoth exasperado erguendo os braços e logo passando a mão preocupadíssimo pela cabeleira loira — Feitiços e encantamentos antigos e importantes… informações sobre nós, onde estão nossos palácios, quais são nossas formas, onde estão nossas sombras…e sabe que destruindo a sombra de um deus tem como matá-lo de vez! Alguém com ele pode encantar o céu e a terra! Talvez até trazer os mortos de volta! O livro tem todo o conhecimento do universo! Literalmente!
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