Notas iniciais
aquela hora q eu planejei uma coisa totalmente diferente pra esse capítulo mas tudo mudou no meio da escrita kkk o q eu planejei mesmo fica pro prox

Eu amo uma garota, mas ela mora lá,

Do outro lado do rio,

Um Nilo inteiro em meio à enchente,

Com um crocodilo curvado na areia.

~ Fragmento de “Cairo Ostracon 25218”

O sol ainda mal era refletido na superfície das águas turvas do Nilo. Apreensivo, um fazendeiro deixava para trás sua modesta casa de barro e andava até as margens do rio passando entre os campos que mal exibiam plantações. O solo rachado que encontrou em várias pequenas partes de seu caminho eram sinais tenebrosos do motivo que levava aquele fazendo à todo dia, logo cedinho, ir até as margens do rio que trazia vida ao Egito.

No peito do fazendeiro ardia a esperança de encontrar a água do rio mais elevada. Mas, dia após dia, ele sentia o desespero apertar seu coração. O rio não mudava, as águas não aumentavam e consequentemente não molhavam as plantações. O fazendeiro podia ser leigo nas complicações que podiam ter levado o Nilo à não ter inundado, mas, no fundo do seu coração, ele sentia que devia ter relação com aquele dia, semanas atrás, que o sol desapareceu e o dia virou noite.

Soltando um pesado suspiro, o fazendeiro foi andando até o equipamento simples mas revolucionário. Com uma haste de madeira mais alta que o fazendeiro que segurava uma segunda, mais fina, que servia como uma gangorra. Nessa mais fina, em uma ponta estava uma cesta de junco revestida de betume, enquanto a outra tinha pedra pesada presa e revestida em algumas partes com argila forçando essa extremidade a ser a mais pesada do que a cesta que seria enchida de água.

O fazendeiro abaixava a cesta até as águas do Nilo e então deixava a pedra pesada na outra ponta da vara fazer o serviço de erguer a cesta de novo. Em seguida, era só derrubar a água no caminho artificial, erguido logo embaixo da estrutura, que levava a água até a plantação. Era um serviço cansativo e repetitivo, mas ele sabia que logo logo seus filhos iriam acordar para ajudá-lo na empreitada de conseguir levar água para o único sustento que a família tinha. Mas, tendo que alimentar seus seis filhos, sua esposa, e ainda pagar os impostos, os cenários não eram nada bons.

Até encher a cesta de junco estava complicado pois a água estava muito baixa e, não importa o quanto o fazendeiro trabalhasse, nada era tão bom quanto a cheia do Nilo. Mas isso não significava que ele ia desistir. Afinal, se desistisse, estaria fadando a sua família a morrer de fome. Por isso, ele continuava tentando, dia após dia, fazer a comida crescer. Cada grão que conseguia crescer no solo seco e sem os nutrientes da cheia era um alento ao coração.

Enquanto isso, no Salão do Julgamento, o caos estava só começando. A fila dos mortos aumentava a cada dia, mas ainda não estava totalmente descontrolada. Afinal, ainda estava num período em que muitas famílias tinham guardado parte dos alimentos do ano anterior. Mas, sabendo o que viria depois, nenhum dos deuses teve sequer emoção para comemorar a virada do ano. A data passou sem uma festinha sequer.

— Eu fiz tudo o que podia! — reclamava Tefnut nos poucos minutos que separavam a entrada de uma alma para ser julgada da outra — Não é exatamente fácil fazer chuva nessa época do ano!

— Até eu estou ajudando a procurar nuvens de chuva! — rebateu Shu irritado junto com a esposa — Mas não tem NENHUMA nuvem nas redondezas! Sabe bem que essa época o solo não vê uma gota d’água que não venha do Nilo.

Osíris então levantou as mãos em sinal de rendição enquanto tentava acalmar os ânimos dos dois. Não havia pedido por mais chuva de nenhuma forma grosseira ou mal-agradecida, mas talvez o estresse e cansaço dos dois deuses havia falado mais alto. Afinal estavam tentando trazer chuva na época mais sem chuva do ano. A expectativa de chuvas era reduzida a zero por ao menos mais quatro meses.

— Perdão… — disse Osíris — Não foi minha intenção questionar o trabalho de vocês. Sei que estão tendo enorme dificuldade em trazer ou criar cada gota de chuva fora de época. Apenas comentei que as chuvas, já que são fracas e passageiras, não estão adiantando muito. Agradeço enormemente a ajuda que estão dando. Geralmente deixamos os humanos lidarem com a seca, mas sinto que, dessa vez, a culpa é nossa.

Exausta emocional e fisicamente, Tefnut sentou-se num elegante sofá e escondeu o rosto com as mãos. Ao mesmo tempo, a alguns metros dali, Anúbis acompanhava com o olhar a briga de seus bisavós com Osíris. Os nervos estavam tensos entre todos os deuses. Brigas daquelas já não eram mais novidade desde que Apófis havia se libertado, fugido e permanecido até agora sem ser encontrado.

— Espero que Sobek e Hapi voltem a tempo para a próxima cheia. — disse Thoth, acompanhado de Seshat, andando até o lado de Anúbis parecendo mais cansado e estressado do que todos os outros, especialmente julgando pelos cabelos completamente fora do lugar — Não aguento mais de um ano seguido disso.

— O pior ainda nem chegou… — lembrou Anúbis pesadamente — Quando o estoque de comida acabar é que vai ficar ruim.

— Não me lembre disso. — resmungou Thoth já massageando as têmporas — Tenho que pensar em jeitos de derrotar Apófis já que Rá ainda está mal. Não tenho tempo, nem cabeça, para ficar cuidando da papelada dos mortos. Por isso… Seshat ficará no meu lugar a partir de agora até tudo voltar ao normal.

A deusa deu um passo para frente com um enorme sorriso no rosto pronta para mostrar que estava preparada para o importante serviço. Em sua mão direita, ela segurava um rolo de papiro enquanto a direita já segurava o pincel pronto para registrar o destino que cada alma teve.

— Será um prazer. — disse Seshat.

— Copiei a sua ideia. — admitiu Thoth — Hórus me falou que Anput está cuidando dos seus serviços dentre os mortais…

— Sim… — confirmou Anúbis — Indo nos embalsamadores e recolhendo corpos de pessoas que não tem condições de pagar por uma mumificação. Ela se recusou a fazer a mumificação. Acha nojento. Então ainda sobrou para mim.

— Vamos concordar que você tira o cérebro deles pelo nariz e isso é bem nojento. Sem falar que abre os corpos no meio... — disse Seshat com cara de nojo e tudo que Anúbis fez foi dar de ombros já que isso já era normal para ele.

— Bem… — anunciou Osíris quando os problemas com Tefnut e Shu pareciam estar resolvidos — vamos deixar a próxima alma entrar, sim?

E assim, alma após alma, os julgamentos foram se seguindo e a cada dia a quantidade de mortos ia aumentando. Tendo que dividir-se entre julgar almas e mumificar corpos, o já escasso tempo livre de Anúbis foi reduzido para zero. Nem sequer tinha mais tempo para fazer as mumificações com calma e manualmente, tal como gostava. Em vez disso, só a magia conseguia fazer elas rápido o suficiente para ele conseguir cuidar da enorme quantidade de corpos que chegavam, com as costelas salientes pela fome, prontos para serem preparados para a viagem final.

Com o passar dos dias, as coisas ficavam mais tensas no Egito e nada dos deuses saberem onde Apófis estava. Uma ou duas vezes, no passar das semanas, eles chegaram a encontrar Apófis, mas tais encontros tinham sido rápidos demais e nem sequer duraram o suficiente para uma batalha começar.

Sem comida o suficiente, mais e mais pessoas iam trocando qualquer coisa por um peixe ou saco de lentilha. E frequentemente ladrões invadiam casas e lutavam com seus habitantes apenas para roubar aquele último saco de trigo. E com isso, não só mais vítimas de fome os mortais eram encaminhados para o submundo, mas também como vítimas de assassinato ou consequencias tardias de uma ferida horrenda.

Quer tudo aquilo tenha sido ou não um plano de Apófis para distrair os deuses da busca por ele, tinha dado certo. O caminho para o Salão do Julgamento estava um completo caos. Almas se aglomeravam desesperadas, assustadas, perdidas ou irritadas. Néftis tentava organizar as almas em duas filas. Crianças e resto. No meio da bagunça, um pensamento que constantemente passava na mente de Néftis é que tinha que ajudar com as almas para que o filho ficasse menos sobrecarregado.

E de fato, Anúbis estava tão sobrecarregado, inclusive emocionalmente, que os poucos minutos que ele se permitiu de tempo livre foi para ensinar Anput a fazer uma mumificação completa. Claro, depois de tanto tempo convivendo com ele, ela já tinha mais do que uma noção básica, mas era melhor passar por todos os detalhes e macetes. Especialmente porque ela não conseguia fazer as mumificações magicamente.

Tinham concordado que ele iria pegar os mortos esporadicamente e ela iria os mumificando e, se estivesse afim, iria ajudar nas mumificações também. O fato era, o ritmo de morte tava maior do que o ritmo de mumificações que ele conseguia fazer já que perdia quase todo o seu tempo em julgamentos.

Como ela tinha passado muito tempo andando para cima e para baixo no Egito buscando por mortos sem capacidade de pagar por uma mumificação, tinha sido a primeira vez em semanas que ela estava vendo o marido novamente. E, por um segundo, se surpreendeu com o olhar cansado dele. Seu trabalho já não era nada fácil emocionalmente falando. As histórias que seguiam as almas julgadas comumente eram arrasadoras. E ela sabia que essa seca estava ceifando mais as vidas frágeis e essas vidas também eram as que mais doíam, crianças com menos de 5 anos.

— Anúbis… — disse Anput com voz de preocupação quando ele foi se aproximando com o baú que ganhara de Osíris no aniversário de mil anos — … Está.. tudo bem?

Anput sabia que a pergunta soava idiota, mas não era como se tivesse outra coisa melhor para perguntar naquele momento.

— Vai ficar… eu acho... — disse Anúbis, cansado, suspirando pesadamente enquanto colocava o baú sobre a mesa de pedra na qual já estava deitado o corpo de uma idosa — Estou na metade dos julgamentos da fila das crianças. Sempre são as piores. Depois vou para os adultos. Então tenho pouco tempo para te ensinar a fazer uma boa múmia.

— E vai parar para respirar quando? Sua cara está horrível! — ralhou Anput — Está até mais pálido! E eu achei que isso não era nem possível. A última vez que saiu do submundo foi ano passado e… por Rá… isso já faz meses! Nunca ficou tanto tempo sem sair daqui.

Os dois ficaram em silêncio enquanto Anúbis não conseguia achar as palavras para o comentário dela. Mas, lá no fundo, ele tentava se convencer de que ia ficar tudo bem. Era só mais uma seca. Não era como se já não tivesse passado por aquilo antes. Mas o fator de Apófis estar no meio complicava muito as coisas, por que isso significava que nem todos os deuses estavam tão disponíveis assim para ajudar com os problemas mais mundanos.

Desistindo de achar as palavras que podiam acalmar Anput, afinal sabia que nenhuma iria fazer isso provavelmente. Anúbis abriu o baú e começou a tirar as ferramentas de dentro dele.

— Sabe pra que serve cada uma? — perguntou ele olhando para ela e sentindo o olhar de preocupação dela como uma facada em seu coração.

— Acho que sim… — respondeu ela suspirando — … mas confirmar seria bom.

Ferramenta à ferramente, Anúbis foi explicando o que cada uma fazia e, seguindo a ordem de cada etapa, começou todo o processo de mumificação da senhora idosa demonstrando para Anput como se fazia. Anput contava com a memória perfeita dos deuses para lembrar cada etapa e cada movimento que tornava algum corte mais fácil. Mas a garota também usava de toda sua concentração para não desmaiar ou vomitar ali mesmo. Tinha sido um teste muito difícil especialmente quando ele mostrou o melhor jeito de tirar o cérebro pelo nariz.

Quando ela viu aquela massa cinzenta começando a sair, ela teve que desviar o olhar e tampar o nariz pois só o cheiro já deixava sua cabeça tonta. Vendo a reação dela, ele parou tudo que fazia e, numa rápida limpeza mágica de mãos, colocou a mão esquerda atrás das costas dela pronto para segurar ela se ela caísse.

— Está tudo bem? — perguntou ele se tornando o preocupado da vez — Desculpe por pedir para você fazer isso.

— Não…. tudo bem. — disse Anput tentando respirar fundo em meio ao cheiro podre que a sala tinha — Eu meio que me ofereci mesmo...

— Se não quiser, pode deixar que eu faço depois. — ofereceu-se ele.

— E ter que te forçar a duplicar ainda mais o tamanho dessa sala pelo simples fato que já não cabe mais corpos? — questionou Anput — Não… eu consigo… Pode contar comigo.

Ele abriu um sorriso triste. Estava feliz por ver a determinação dela, mas triste por tudo que acontecia e por ter que forçar ela à isso. Assim, ao menos como um pequeno presentinho de consolação, ele deu um beijo na bochecha dela.

— Obrigado. — disse ele fazendo ela sorrir e, ao menos por um segundo, esquecer que tinha um corpo diante dos dois.

Já um pouco mais tranquila e com muita determinação. A aula recomeçou mesmo que Anúbis constantemente desviasse seu olhar para a porta da sala que guardava suas múmias e corpos. Seus olhos estavam controlados pela preocupação e ansiedade de Osíris aparecer ali chamando-o para voltar a julgar a alma das crianças. Aliás, bem quando estava nos últimos detalhes da múmia, Osíris realmente apareceu ali chamando por Anúbis com uma urgência silenciosa no olhar.

— Desculpe, de novo, por ter que pedir pra você fazer isso. — disse Anúbis apressadamente limpando as mãos com magia.

— Não tem problema. Vai lá julgar as crianças. — insistiu Anput com um doce sorriso — Se ao menos acabarmos com a fila delas, já fica bem mais tranquilo.

— Sim. — concordou Anúbis — Obrigado de novo de toda forma.

Anúbis então envolveu delicadamente o rosto de Anput em suas mãos e notou ali como estava sentindo falta dela. Tinha sido meses desde que tinha visto-a ou sentido seu toque. Queria aproveitar aquele breve segundo que se perdeu nos olhos negros como a noite dela e estendê-lo para sempre. Mas, o momento pedia urgência. Assim, ele pousou sua testa contra dela, uma típica e íntima demonstração de amor para os egípcios, e fechou os olhos por um segundo. Ela também o fez e deixou o sorriso preencher seus lábios até mesmo no segundo que, sem ela perceber, ele roubou-lhe um rápido beijo e logo saiu correndo para continuar os julgamentos.

Notas finais
REFERÊNCIAS **** Irrigação egipcia - https://www.britannica.com/technology/shaduf Irrigação Egípcia 2 - https://en.wikipedia.org/wiki/Shadoof Cairo Ostracon 25218 - https://garstangmuseum.wordpress.com/2018/02/07/all-you-need-is-love-modern-themes-in-ancient-egyptian-love-poems/ Tefnut - https://en.wikipedia.org/wiki/Tefnut