A Mortal, Filha De Dois Deuses.
11 "O Mortal, Filho de Dois Deuses."
Levantei de um pulo. Três dias. Três dias. Era muito pouco. Não ia dar tempo. Eu precisava de mais tempo.
– Acorda! Vai agora! A gente tem que partir agora!
– O quê? Você tá ficando doida?! Poxa, Poseidon foi bem legal deixando a gente ficar aqui. – respondeu-me Mayana. – Você não pode fazer isso com ele!
– Mayana, falamos com ele depois. Agora há algo mais importante – então contei a ela resumidamente meu sonho. A cor ia sumindo mais de seu rosto a cada instante. Quando acabei, ela se levantou e começou a juntar suas coisas correndo.
Juntamos tudo, escrevi rapidamente uma carta para meu avô e para Tyson, e saímos do palácio com a ajuda de Arco-Íris. Perguntei a ele se poderia nos levar até a Carolina do Sul, pois era o lugar mais próximo – e eu estava com muita, muita pressa. Em minha mente o ouvi dizer que apenas ia buscar ajuda. Após esperar os minutos mais tensos de minha vida Arco-Íris voltou com outro hipocampo e começamos nossa viagem.
Após mais ou menos 3 horas estávamos perto de um porto em Charlestone, depois de atravessar uma baía. Mas tivemos que descer antes e nadar, pois estava tudo lotado. Muita gente estava na praia. E o estranho é que nem estava calor. Pelo contrario, ventava muito e as nuvens acima de nós estavam escuras, uma tempestade se formava. Zeus estava bravo.
Chegamos à beira da praia e ouvimos gritos. Olhei na direção do barulho. Havia um aglomerado com pessoas gritando incentivo como “vai, pega ele!" Ou "dá logo um soco na cara dele!" Eu e Mayana chegamos mais perto para ver o que estava acontecendo.
Uma rodinha de gente se formava ao redor de dois homens, uma garota estava entre eles, tentando apartar a briga.
Meu primeiro pensamento foi que eles estavam brigando por causa dela. Mas aí eu ouvi o que eles estavam dizendo. Quase cai na gargalhada por um motivo tão tolo.
– Cara, eu não quero quebrar seu nariz. Por favor. Saí desse lugar. Eu já o peguei. E é o único tão próximo do mar – disse um dos rapazes, era loiro de olhos azuis.
– Meninos, vamos nos acalmar. O que é isso? Vocês sempre foram melhores amigos, e agora estão brigando porque querem ficar mais próximo do mar, e não sobra lugar? – Disse a menina.
– Eu não vou sair daqui nunca mais! Ele disse que "pegou o lugar". Mas eu só tinha ido ao banheiro. Eu já estava aqui antes. Eu amo o mar. Daqui eu não saio. – e dizendo isso o outro rapaz, moreno de olhos verdes, voou para cima do loiro.
Saí correndo para chegar até eles. Não sei o que eu, pequena e baixinha, iria fazer para pará-los. Mas eu faria. E também não sei o porquê de eu querer tanto protegê–los. Mas tenho uma pequena suspeita – eles eram muito parecidos com meu pai e Jason, um dos meus tios.
Abri espaço à força pela aglomeração. Quando consegui, finalmente, chegar a eles, achei que jamais os pararia. Um deles, o loiro, estava com o olho roxo e sangue escorrendo da boca. O outro tinha um nariz quebrado. E os dois tinham vários arranhões da menina, que agora jazia desmaiada no chão. O loiro, de repente acertou o rosto de outro homem, quando seu verdadeiro alvo desviou. O homem tratou de se defender e logo todos no aglomerado estava se atacando e brigando.
– Parem AGORA! – Me surpreendi com meu tom. Era um tom que exigia ser obedecido. E assim foi. Todos pararam e me olharam, incrédulos. Como se pensassem O que uma menininha como essa está pensando, mandando em todos?
– Vocês são idiotas? – Perguntei com raiva. – Vocês estão se matando por causa de um pedaço de areia.
Alguns se entreolharam, como se achassem que eu tinha razão.
– É tão simples, vocês não vêem? Dividam a praia.
– Mas não tem jeito, a praia está lotada. Não tem lugar para outras pessoas – disse um homem ao fundo, todo roxo.
– Ora, mas vocês têm que ficar amontoados todos na beirada? Vão mais para trás.
– Todos estão aqui porque queremos ficar mais perto do mar – disseram vários ao mesmo tempo.
– Então entrem no mar.
– Você já olhou para o mar hoje por acaso, mocinha? – Perguntou outro lá atrás.
Virei-me. Aí eu percebi do que eles estavam falando. O mar estava revolto. Não isso é pouco. O melhor é dizer que Poseidon também estava bravo. Ondas de quase 4 metros açoitavam as pedras ao longe. Bem perto de nós, a água começava a seguir o mesmo caminho. O mar estava quase negro.
Então, entendi tudo. Havia um motivo para toda a tempestade. Os deuses descobriram o prazo. Os deuses descobriram tudo. E agora, estavam lutando entre si.
– Mas, afinal, porque toda essa fixação pelo mar? – Perguntei. Não que eu não tivesse fixação também, mas no meu caso era compreensível. Eu sou neta do Deus do Mar.
– Agora que você mencionou, eu não sei – respondeu o moreno de olhos verdes que parecia com papai. – Eu simplesmente acordei hoje como se sempre tivesse pertencido ao mar. Como se ele fosse meu lar.
Uau, pensei. Isso seria uma das coisas que eu diria. A não ser quê…
– Você conhece seu pai? – Disse, antes que pudesse me deter.
– Mas que tipo de pergunta é essa? Conheço, sim!
– Hã... Ok. – Talvez ele realmente não fosse filho de Poseidon. – Então, gente, acho que vocês finalmente perceberam que não adianta brigar. Dividam o local, procurem outra praia, mudem de lugar. Tudo menos se matar – eu disse enquanto saía. Já havia gastado tempo demais naquele lugar e já era quase 14:00, sendo que saímos do palácio às 10:00.
Todos ficaram me olhando, embasbacados. O olhar deles dizia "Como uma baixinha dessas pode ser mais racional que eu?" Bem, eu tinha uma resposta para isso: Minha avó é Atena.
Mayana e eu saímos da praia e fomos para a cidade.
– Poxa, Helena. Aquilo foi incrível! A diplomacia e racionalidade de Atena se manifestaram em você. Parabéns! – disse-me Mayana.
– Que isso, não foi nada. Eu só… falei – respondi a ela. Só podia ser Mayana mesmo, sempre vendo as coisas melhores do que são realmente.
Passamos por uma vitrine com várias televisões mostrando um jornal. Nele mostrava imagens de mortes causadas por brigas no trânsito naquele dia. Depois mostrou um percentual de como as mortes por brigas no geral haviam aumentado nos últimos dias.
Deuses, estava tudo ficando cada vez pior. Éris estava jogando uns contra os outros por todo o mundo! Encontrei então uma parte boa para meu prazo. Quanto mais rápido eu fosse, menos mortes.
– Tudo bem, o que fazemos agora? Quer dizer, não sabemos para onde temos que ir – disse à Mayana.
Ela simplesmente olhou para mim, e tirou de dentro da mochila (que, aliás, se camuflavam mesmo) uma dracma.
– Vamos falar com Quíron – ela disse. Sorri para ela. Estava ficando cada dia mais parecida comigo.
Passamos por algumas ruas e entramos em um beco, onde podíamos fazer um arco-íris por um lampejo de sol sem sermos vistas.
– Mas como vamos fazer? Só temos o Sol, mas não a água.
Então, como resposta à minha pergunta, ela remexeu mais uma vez na mochila e tirou de lá um objeto que parecia um globo de neve. Olhando melhor, percebi o que era. Era uma esfera com água e um prisma dentro. Um criador de arco-íris.
– Lola, uma filha de Íris, me deu isso como boa sorte antes de partir. Ela é bem legal – informou-me Mayana. Senti uma pontada de ciúmes, mas deixei de lado. Possessiva, pensei.
Colocamos a esfera no raio de sol e um arco-íris foi projetado no mesmo momento.
– Ó Íris, deusa do Arco-Íris, aceite minha oferenda. – A névoa tremeluziu quando o dracma desapareceu no ar. – Mostre-me Quíron.
– Meninas, tudo bem? – Disse Quíron, preocupado, quando apareceu na névoa.
Eu pensei em mentir, dizer que estava tudo bem, que íamos conseguir. Isso era uma mania minha, confortar as pessoas de quem gosto. Mas isso não me ajudaria em nada, então apenas disse:
– Não, Quíron, não estamos bem. – Então contei a ele tudo. Desde o incidente no navio, passando pela tempestade, pela briga e pela noticia do aumento de mortes, até meu sonho: o lugar onde Éris estava, a maneira que ela iria matar meus pais, o tempo que ela pediu para finalizar a missão. Falei também que não sabia o que fazer agora que estava em Charlestone, já que ele tinha dito Carolina do Norte.
– Deuses, é muito pouco. Não vai dar tempo... Mas tem que dar! – Murmurou ele, mas para si mesmo do que para nós. E depois voltou a nos encarar. – Eu havia dito Carolina do Norte, porque ouvi Rachel falando “Carolina” enquanto dormia. Mas pelo que você está descrevendo do palácio dela, parece mesmo Carolina do Sul, nas montanhas. Acho bom você procurar lá.
– Ufa – suspirei de alivio. – Pelo menos isso.
– E, eu acho que tenho uma explicação para as brigas e morte, mas é só uma suposição. Não é segredo que Éris está manipulando as pessoas umas contra as outras, mas isso não é aleatório. Podemos dizer que o Olimpo se dividiu em “dois grandes times”: de um lado está: Hera, Zeus (que está apoiando sua mulher), Afrodite...
– Mas Hera e Afrodite estavam brigadas. Eu vi em um sonho.
– Bem, então elas se reconciliaram. Voltando, está Afrodite, Ares (apoiando Afrodite), Dionísio (apoiando Zeus) e Deméter (que quer ficar contra Hades, que acredita mais no outro time). E o segundo time é o time da razão, que consegue ver mais ou menos o que está acontecendo de verdade: Atena, Poseidon (apoiando Atena), Ártemis, Apolo (apoiando Ártemis), Hefesto e Hermes que também enxergam a verdade.
– Como ela consegue separá-los? – Perguntou Mayana.
– Esse é o dom dela, é o que ela faz de melhor. Todos temos um dom, e ela usa o dela. Mas, de volta ao assunto novamente, todos os seres humanos são influenciados por um deus. Assim como os que vocês viram hoje na praia, eram influenciados por Poseidon. Eles estavam lutando entre sim, mas é mais comum ele lutarem com o influenciado por outro deus. Acho que, a partir de hoje, vocês vão encontrar vários brigando. E é seu dever protegê-los para que não se matem.
– Isso realmente não ajuda na busca – reclamei.
– Olha só, Helena. O tempo é pouco, mas eu sei que vocês vão conseguir! Procurem pelo palácio nas montanhas. Vocês já acharam a pessoa da profec...?
Mas ele foi interrompido por um tilintar de metal contra metal, seguido por um grito de dor que, obviamente não era humano.
– Você a matou – gritou outra voz igual a vidro se quebrando; parecia que poderia nos cortar.
Eu e Mayana corremos na direção do som, passando pela névoa e fazendo Quíron desaparecer. O beco fazia uma curva e dava para os fundos de um galpão. Atrás de uma caçamba de lixo estavam duas fúrias lutando contra um menino que não pude ver direito e um montinho de pó – o que presumi ser outra fúria que morreu.
Coloquei um dedo sobre a boca, fazendo sinal de silencio para Mayana. Depois peguei meu arco e uma flecha, que apareceu em minhas costas assim que pensei nele. Mirei bem no meio da coluna de uma das fúrias – se é que elas têm coluna. Mas não estava nada fácil, ela estava se mexendo demais por causa da luta. Se ela se esquivasse eu poderia acertar o garoto.
Lady Ártemis, pensei, me ajude a acertar esse tiro e eu queimo três hambúrgueres para você quando estiver de novo no Acampamento. Por favor.
Puxei o fio do arco, mirando de novo nas costas dela, e soltei. A flecha foi zunindo e serpenteando, quase em câmera lenta, diretamente no local que mirei. Foi quando ela se esquivou. Senti meu coração parando de bater.
– Droga! – gritei antes que pudesse me controlar.
A fúria virou, olhando para mim, os olhos vermelhos de cólera. E, graças aos deuses, a flecha passou de raspão nas costelas dela. Não a matou, mas desviou a flecha do menino.
Uma noticia ruim: as duas fúrias vieram em minha direção, as garras prontas para me dilacerar.
Então, Mayana atirou sua adaga que passou voando pela minha orelha e acertou a bruxa que estava mais perto, transformando-a em pó.
O problema é que, logo após o montinho de pó se assentar, eu e Mayana vimos a última fúria com as garras no pescoço do garoto, prendendo contra a parede.
Saí correndo tão rápido que nem fiz barulho. No último momento, quando já estava ao lado deles, ela virou sibilando para mim. Mas já era tarde para ela. Arranquei a lança de bronze que estava na mão do garoto – e que eu nem havia percebido que estava – e enfiei bem no meio daquela barriga de couro.
O vento soprou, balançando meu cabelo e espalhando o pó. Olhei para o garoto.
A primeira coisa que percebi foi os olhos. Olhos de caleidoscópio. Assim como os meus. Eles mudavam de castanho para verde conforme ele se mexia. Seu cabelo era castanho enrolado. Sua pele era apenas um pouco mais escura que a minha. Suas orelhas eram meio pontudas, como um elfo. Quase ri. O rosto estava sujo e com alguns arranhões. Ele parecia um índio hispânico.
– Hã... Obrigado – ele disse.
– Disponha – respondi. – Sou Helena Jackson e essa é Mayana Brin, filha de Hécate. Bela lança.
– É, obrigado. Tenho ela desde que nasci. Ela se adapta ao meu tamanho. – Ele sorriu. E eu percebi que era lindo o sorriso dele. – Sou Heitor Valdez. Prazer em conhecê-las.
– Você é do acampamento romano? – Mayana perguntou.
– Sim – ele respondeu, levantando o braço para mostrar a tatuagem com as letras “SPQR”.
– Então, quem é seu pai ou sua mãe. Você é um semideus, obviamente – falou Mayana.
– Eu não sei quem são meus pais. Sou filho de dois semideuses, na verdade. Herdei o poder de Vênus e Vulcano. Alguns me chamam de "o mortal, filho de dois deuses".
Eu e Mayana nos entreolhamos.
– Prazer novamente – eu disse estendendo a mão. – Sou "a mortal, filha de dois deuses".
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