A Modorra.
2 Capítulo 2 - Ouça a noite.
Notas iniciais
"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão."
-Mario Quintana
Seria minha última noite em casa. As paredes brancas do meu quarto(cheio de caixas lotadas,umas por cima das outras,lotadas de maneira que não fechavam)fariam falta. Tudo já estava pronto para minha mudança,tudo menos minha mãe.
— Oi mãe.- falei enquanto pegava leite na geladeira. Nossa cozinha era simples,porém era bastante confortável para se passar um dia inteiro nela fazendo qualquer coisa que seja.
— Oi Violet...- respondeu com um chorumingo se encostando no balcão. Notei pela primeira vez que minha mãe não havia se acostumado com a ideia. Todos os seus namorados virtuais não supririam meu silêncio. Lágrimas se formavam em seus pequenos olhos esverdeados e eu com minha tamanha insensibilidade,apenas a abracei e voltei ao quarto.
A luz prateada da lua iluminava boa parte do meu quarto,o que me fazia repensar antes de cutucar o interruptor. Joguei-me na cama. Senti pela última vez aquele cheiro de roupa limpa,o algodão que alcochoava a fronha do travesseiro,me preparando para uma despedida um tanto dolorosa. Mas de alguma forma,eu me prendi à visão da lua e acabei adormecendo.
---------------x---------------
Quando completei 14 anos,comecei a ter sonhos com um garoto. Alto,com a medida perfeita do corpo(nem gordo,nem by CouponDropDown\">magro), com clavículas bem definidas; sua pele era clara e os olhos dourados. Seus olhos eram tão encantadores, que eu até esquecia da covinha que se formava no canto direito de sua boca; uma boca pequena quase que desenhada.Cabelos negros curtos se elevam na altura da testa formando um clássico topete.
Nos meus primeiros sonhos com ele,éramos amigos. Dividíamos conversas,guloseimas,calor... Em alguns sonhos estávamos no frio,sentíamos a neve tocar a ponta de nossos dedos e nos divertíamos enquanto fazíamos anjos de neve. Era algo tão by CouponDropDown\">real que apesar de ser tão bom,me assustava. Principalmente quando tudo começou a se tornar um pesadelo. As lindas árvores,verdes pela essencia da estação com suas flores avermelhadas,agora estavam secas e tomavam formas sombrias junto às suas raízes. Os lagos estavam sórdidos e as nuvens haviam sumido,no lugar delas,o céu tinha tomado uma cor vermelhada.
---------------x---------------
Em minha última noite,me aconcheguei facilmente no colchão já velho,mas que eu podia sentir minha forma já projetada nele. Achei que demoraria mais para dormir. A noite e o calor se mantinham juntos,de modo que tive de ligar os dois ventiladores para sentir ao menos uma brisa.
O relógio marcava 04:30 da manhã quando acordei. Estava suada e com uma sensação de ser observada. O quarto estava escuro e a lua não pairava mais sua luz ali. Os dois ventiladores continuavam ligados,mas pareciam não ser suficientes para minha alta temperatura.
Resolvi puxar meu cobertor-era grande e se estendia da minha cabeça;onde se encontrava o travesseiro; até parte da minha cintura- para que deixasse meu corpo receber o que se provinha de meus eletrônicos. Porém senti um certo peso sobre a parte superior do cobertor. Pensei primeiramente em minha mãe,mas o que ela estaria fazendo ali? Ela jamais acordaria de madrugada para me observar e talvez pensar em como seria ruim estar longe de mim,ela faria isso em seu quarto;como sempre foi.
Depois de várias tentativsas de trazer a parte mais superior do cobertor,desisti e resolvi deixar como estava. Eu já tinha cerrza que tinha alguém ali e a única coisa que consegui fazer,foi deixar meus olhos fechados e esperar até que amanhecesse. Pensei diversas vezes em ir ao quarto de minha mãe,mas me faltava coragem. "Quem foi Violet?" "Onde estava toda aquela coragem de antes?". Pergunto para mim mesma em meus pensamentos.
Coloquei minhas mãos em meu rosto e esperei. Esperei dormir,esperei que aquilo fosse embora,esperei que amanhecesse,mas nada mudou. Parecia ter passo 3 horas,mas na verdade ainda era 04:35.
Quando pensei que aquela sensação havia acabado,ouvi um grito. Como de um morcego ou uma coruja,não sei definir. Jurei que estava surda,pois era como se o animal estivesse grudado em meus tímpanos. Meu susto foi tão intenso,que puxei com tudo o cobertor e fiquei embaixo dele,mesmo sentindo um calor infernal o meu medo era maior.
Notei que o tal ser não estava mais sentado ao lado da minha cabeceira,mas só ficou pior. Eu apenas o sentia se aproximar e me encolhia,me encolhia em meu próprio calor. Agarrei minhas pernas e rezei para um alguém acima de todos,mesmo não acreditando em sua existência. A última coisa de que me lembro,foi um sussurro; uma voz grossa; de maneira que não pude definir o que falou.
E então adormeci.
---------------x---------------
Exatamente as 10 da manhã levantei. Não estava atrasada,já que minha mãe tinha decidido que só iríamos para a minha faculdade após o almoço,pois a viagem durava poucas horas.
Encaminhei-me direto ao banheiro e lavei o rosto. Ainda lembrando da péssima noite passada. Liguei o chuveiro na água gelada,me despi e senti a cachoeira fria me tocar,uma das sensações que mais me acalmava. Enquanto me ensaboava, me assustei com o que vi. "Que porra é essa?". Meu corpo estava cheio de marcas de unhas,mais precisamente beliscões. Depois de um tempo observando a gravidade de algumas,acabei supondo que o ser da noite anterior teria deixado as marcas. E só consegui pensar em uma coisa: tenho de ir embora daqui...e minha mãe também.
continua.
Fale com o autor