A Mitologia dos Dragões
1 Capítulo 1 - A Descoberta
Notas iniciais
As labaredas laranja incessantemente tentavam escapar da fogueira, se esvaindo por entre as fendas na madeira e se extinguindo em contato com o solo. Era uma clareira na floresta, cercada por árvores de todos os tipos e com troncos dispostos como assento cobertos de flores e musgo verde-esmeralda. Os menestréis tocavam uma música agradável e animada, enquanto os camponeses acompanhavam a cadência sonora com os passos de dança de outrora. Até o frei encontrava-se gargalhando entre os goles generosos de seu copo de hidromel e esbarrando em todos com sua barriga notoriamente proeminente. A comemoração do Solstício era esse o motivo do festejo, grandes barris de vinho e cerveja foram trazidos até a clareira, leitões corpulentos assavam no espeto aromatizados com iguarias silvestres, e as crianças corriam para lá e para cá com gravetos na mão, cutucando umas as outras.
— Não está aproveitando a festa, por quê? — perguntou Gorbulas, se aproximando de onde Meriadoc estava sentado solitário. — Hoje é um dia importante para todos nós, o inverno se aproxima e tivemos uma excelente colheita este ano.
— Eu sei pai, eu sei... Mas hoje também faz três anos desde que ela... — retorquiu o garoto, não se virando para encarar o pai nos olhos. A mãe tinha falecido anos atrás vítima de uma doença no inverno mais gelado que já vira, com oito anos ele não se adaptara em viver somente com o pai, apesar dele se esforçar em ser menos rígido como seria uma mãe, infelizmente, ele não conseguia fazer o papel dos dois.
— Eu também sinto sua falta Merry, não existe um dia em que eu não quisesse tê-la de novo para mim, e mesmo assim, não posso trazê-la de volta. — disse o pai, esforçando-se para manter a voz firme e pousando a mão sobre o ombro do filho. — Venha, fique perto do fogo.
Os dois seguiram para o flanco direito da clareira sentando-se próximo a um archote que no momento expelia pequenas centelhas fumegantes no ar.
Os camponeses continuavam a dançar em meio aos encontrões e risadas, sob a luz da lua os homens de Lavra pareciam druidas selvagens, agitando-se como antigos pastores da floresta. Em Lavrasolo não havia grandes florestas nem castelos ou senhores, o território era guarnecido por todos com suas leis e com suas armas. Isso lá não era grande coisa, a maioria dos habitantes apenas tinha em posse arpões, garfos de aragem e marretas de ferro. Um vilarejo nobre e ainda mais nobre em sua cultura e tradição. Dizia-se antigamente, que as terras mais férteis eram dos lavra-solenses, não era uma mentira, o que realmente acontecia era que todos os habitantes se empenhavam em produzir alimentos para todo o povoado, isso porque o alimento era o único bem produzido por todos ali. Não eram necessárias armas, muito menos moedas, raramente via-se alguém barganhando com pedaços de cobre. O que ditava a troca ali era o alimento, por isso grande partes dos solenses possuem uma barriga protuberante, no entanto, isto não os impede de realizar com maestria seus afazeres diários.
— Abra os olhos — exclamou Gorbulas —, não vai querer perder isso.
A música tinha parado e agora todos formavam uma circunferência completa com as mãos entrelaçadas como uma corrente humana. Um silêncio anormal pairou sob a clareira, até as crianças pararam de correr para observar o momento e nem mesmo os ganidos de gatos ou cachorros podia-se ouvir. Exceto, pelo crepitar da fogueira no centro, que estalava ameaçadoramente.
— Pai, o quê...
— Shhhh — interrompeu o pai —, apenas veja.
Com uma riqueza prodigiosa de sons harmônicos um flautista disparou suas notas trêmulas e dissonantes pela clareira. O silêncio ainda era sepulcral entre os presentes, quando o som do alaúde de outro menestrel juntou-se ao solo da flauta, e, logo em seguida uma rabeca desencadeou um timbre melodioso e suave. As chamas bruxulearam e enrijeceram, e subitamente esferas flamejantes saltaram da fogueira e flutuaram centímetros acima do solo. Então, a música resoou mais forte e as esferas fermentaram em brasa tomando formas distintas de animais mitológicos. Um fauno saltitava por entre a fogueira soprando uma flauta de pã e logo atrás em uma fileira várias mulheres usavam uma coroa de flores e frutos de bagas na cabeça, seus cabelos ondulados caíam-lhes até a cintura e estavam completamente despidas de roupas. Não longe dali, sete figuras diminutas formavam uma comitiva de gnomos que traziam consigo mantimentos da floresta, um mais à frente tocava um corno excepcionalmente grande para sua estatura. Mais além, uma tropa inteira de centauros cavalgava armados de grandes espadas e arcos de guerra atrás de um lobo albino. Dois grifos se enfrentavam no que seria o céu travando um duelo árduo onde ambos eram feridos pelas garras um do outro. E de repente, um som gutural assustou todos eles, um rugido feroz e altivo tomou conta dos seres que desataram a correr sem rumo para todos os lados tentando se esconder da possível monstruosidade. Não tardou e no horizonte uma criatura alada surgiu, era claramente maior que todos os outros e inspirava medo e terror em qualquer um que o visse mesmo em miniatura. Rajadas de vento eram produzidas enquanto ele batia suas asas, avançando no ar com velocidade e quanto chegou onde os outros haviam estado expeliu uma torrente de fogo vivo e dourado sobre o solo dizimando o local a cinzas e fumaça.
Os archotes e a própria fogueira apagaram de uma só vez, inundando a clareira com apenas a luz da lua, uma luz remota e distante. As pessoas reacenderam os archotes e não estavam mais em festa, lentamente os camponeses foram se esvaindo para suas casas suas vozes não mais que um sussurro pouco audível. Gorbulas fez um aceno de cabeça para o filho, indicando que eles também deveriam ir para casa. Gorbulas era um conhecido comerciante de Lavra, viajava constantemente para as cidades ou vilarejos vizinhos para vender, trocar ou adquirir objetos úteis para a agricultura. Apesar disso, ele fora agraciado com um porte atlético e cabelos negros como a noite que a esta altura tornavam-se grisalhos. Caminharam vagarosamente, contornando a vila, tomando alameda das figueiras e por fim chegando à rua do espinafre.
Merry não de atrasou muito, logo que chegou deitou-se confortavelmente debaixo dos cobertores refletindo sobre o que viria a ser a criatura alada no final do festival.
— Pai, o que era aquela fera? — Perguntou quando o pai viera apagar a luz da vela no seu quarto.
— Pensei que já tivesse adivinhado — respondeu Gorbulas. — Dragões, filho, aquilo são dragões. E dizendo isso soprou a chama da vela engolfando o quarto em escuridão.
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