A Missão
6 Capítulo 4
Notas iniciais
Dormi profundamente e acordei apenas no outro dia, quando alguém colocou a mão em meu braço e chacoalhando-a levemente chamou meu nome:
– Liss! Acorde. Está na hora... — Era Júlio vestido em sua farda militar impecável. Mesmo ainda sonolenta, pude perceber que ele não estava rude como o outro dia, suas palavras saíam mais suave e ele parecia mais amistoso.
Quando me sentei na cama percebi que ainda estava escuro e portanto não deveria mesmo ser a hora de acordar, eu deveria estar sonhando ou sei lá, principalmente pelo comportamento atípico de meu acompanhante.
– Que horas são? — Perguntei esfregando os olhos enquanto bocejava e em seguida tirando os fios conectados a mim.
– Quatro e cinquenta. Você tem 5 minutos para acordar realmente, se vestir, tomar café e sair para seu primeiro dia de treino. Estarei lá fora lhe esperando. — acho que comemorei cedo demais. A realidade voltou à mim com todo o impacto: Júlio havia voltado a ser sério e frio e seria meu primeiro de muitos dias convivendo com pessoas como ele.
Esperei que ele saísse do quarto, e rapidamente pulei da cama, me vestindo, lavando o rosto e escovando os dentes. Não daria tempo de tomar café, e nem sei como tomaria mesmo se tivesse tempo, pois eu estava em um quarto de hospital e não havia nem um vestígio de comida por perto.
Júlio me levava para a turma na qual eu iria fazer parte, e enquanto andávamos ele me explicava mais algumas coisas:
–A partir de hoje você treinará das 5:00 da manhã às 06:00 da tarde, tendo uma hora para o almoço. Depois desse horário estará livre para fazer o que quiser, contando que respeite todas as regras. Temos o toque de recolher às dez horas, e quem for encontrado vagando por aí depois desse horário será severamente punido. — ele parou um pouco de falar, provavelmente pensando em o que mais havia para me informar. — Aqui temos regras muito específicas e se você sair da linha pagará sério por seu ato. Também não se esqueça que valorizamos soldados disciplinados, obedientes e dedicados e é assim que você deverá se tornar se quiser se dar bem aqui.
Quando ele disse a última frase, pela primeira vez olhou fundo em meus olhos, como se estivesse tentando transmitir isso pelo olhar ou transmitir qualquer outra coisa. De certa forma, não gostei dessa observação, porque ser disciplinado e principalmente obediente parecia o que o governo queria: alguém em que eles pudessem mandar e desmandar, sem nenhuma oposição.
Percebi que nisso eu não me daria muito bem aqui. Não conseguia me imaginar sendo uma peça do governo, que era movida de um lado à outro. Alguém sem sentimentos, que podia ser manipulado como um objeto. Também não sei se conseguiria acatar as ordens de todos aqueles militares metidos a gostosões. Mas eu deveria tentar se quisesse me meter no mínimo de confusões possíveis.
Chegamos ao local. Eu imaginei um lugar escuro cheio de colchonetes, com um ringue de luta, vários sacos de pancada e esse tipo de coisa, mas ao contrário, estávamos em frente a uma sala bem iluminada, com várias carteiras, como se fosse uma escola. E no fim dessa sala havia alguns poucos equipamentos de exercícios.
A minha turma já tinha toda entrado na sala e estavam sentados em seus lugares, enquanto um cara grandalhão aparentando uns 40 anos de idade estava na mesa dos professores mexendo em alguns papéis.
Júlio entrou na sala e se dirigiu a esse cara grandalhão, que parecia ser o professor. Eu fiquei na porta, meio escondida enquanto observava os dois conversarem. A conversa foi rápida e nem percebi direito quando Julio olhou para mim e chamou meu nome, pedindo para eu entrar. Só fui entender mesmo quando ele chamou pela segunda vez, já irritado com minha demora em lhe obedecer.
Me pus perto deles, na frente de todos os outros alunos sem conseguir olhar para lugar algum a não ser para o chão. Julio se virou para a turma e anunciou:
– Vim trazer uma nova colega para vocês. O nome dela é Liss Deboch.
Sem falar mais nada saiu da sala e me deixou lá, meio sem jeito, sem saber para onde olhar ou o que fazer.
O professor percebendo a minha hesitação se aproximou de mim, me deu um aperto de mão dizendo:
– Sou Alexandre, o professor e instrutor. Pode sentar-se soldado, já vamos começar nosso treinamento.
Cruzei a sala ainda meio envergonhada, sem olhar para ninguém e me sentei ao fundo, tentando prestar atenção ao que o professor dizia:
– Vamos começar como sempre. Todos nos equipamentos se alongando, agora.
Eu ainda deveria estar sonolenta, pois também demorei a perceber que todos haviam levantado e andavam para o fim da sala. Eu fui a última a levantar e pude perceber o olhar bravo do professor me encarando por ser tão lerda. Todos se colocaram lado a lado e começaram a se alongar. Tentei imitá-los o máximo que conseguia. Mas não sei se me sai tão bem.
Alexandre percebeu que estavam todos se alongando e discretamente saiu da sala, nos deixando sozinho. Foi só ele cruzar a porta para uma menina morena e alta de cabelos curtos, que estava ao meu lado, puxar assunto:
– Ei Liss, prazer em te conhecer, meu nome é Carol. — ela não parecia tão rude como todos os outros, talvez porque ainda estivesse começando seu treinamento e ser grosseiro fosse aprendido com o tempo.
– Prazer. — foi a única coisa que respondi, tentando me concentrar em imitar seus movimentos.
Ela percebeu minha dificuldade e tentou soar simpática:
– Não se preocupe, o começo é difícil mesmo. Mas com o tempo você aprende e se acostuma.
– É. Espero que sim. — agora eu tentava alongar meus braços.
O professor voltou e mandou que parássemos de nos alongar e passássemos para a próxima tarefa. Ele não especificou que tarefa seria essa, mas parecia que todos os dias eles seguiam a mesma rotina e todos já sabiam qual a sequência de cada coisa.
Para a minha surpresa a maioria deles deitou no chão, uns de bruços e outros com a barriga para cima e começaram fazer exercícios como abdominais e apoio. Outros 2 fizeram exercícios nas barras e um começou a fazer poli-chinelo. Eu fiquei parada de pé apenas olhando para eles, completamente perdida.
Infelizmente Alexandre percebeu que eu não estava fazendo a tarefa que ele mandara e se aproximou de mim, falando autoritariamente e alto, quase gritando:
–Soldado, posso saber o porquê de você estar ai parada?
–Ãh..... é que eu não entendi o que é para fazer.- falei hesitante e com medo do que viria a seguir.
– Minhas palavras foram claras: próxima tarefa. Você tem algum problema de audição?
– Não. — eu disse olhando para baixo e me sentindo mal por ser humilhada em meus primeiros minutos de treinamento em frente a toda a turma.
– Senhor. — corrigiu-o, mas eu não entendi a correção a princípio.
–Ahn?- perguntei
– "Não, senhor" é o que você deveria ter me respondido. Será que além de um problema de audição você tem algum problema mental? Fique sabendo que eu exijo respeito.
–Entendido senhor, e desculpe pelos erros. — enfatizei o "s" na palavra erros, querendo pedir desculpas por não estar fazendo o que ele mandou e por não tê-lo chamado de senhor.
–Desculpas não adiantam de nada. — ele sentiu prazer em dizer as próximas palavras, como se fosse um grande gesto o que estava fazendo — Como é o seu primeiro dia vou pegar leve com você, pois sou uma pessoa boa. Mas não se acostume. Os outros não são assim como eu. Agora quero ver você fazendo 100 abdominais, 40 apoios e 300 polichinelo.
Argh! Se isso era ser bonzinho não quero nem imaginar o que uma pessoa má faz! Tentei acalmar meu ânimos que estavam exaltados com as ordens do professor. Respirei fundo várias vezes, enquanto ele mandava os demais alunos pararem seus exercícios para me assistirem.
Bom, eu seria o centro das atenções e como nunca havia feito nenhum desses exercícios e não tinha o mínimo de preparo físico, todos veriam o meu fracasso.
"Que forma boa de começar um primeiro dia de aula!" pensei sarcasticamente e me dirigi ao meio de todos, para começar a minha série "assistida" de exercícios.
Comecei pelos abdominais e quando estava ainda nos 20 não aguentava mais. Forcei meu corpo a esquecer a dor e seguir em frente para terminar os 100 abdominais. Mas quando cheguei nos 50 não havia nada que me fizesse continuar. Eu simplesmente não conseguia mais. Apenas desisti e deitei no chão, tomando um pouco de fôlego.
–Você ainda não completou os 100. Continue agora até os 200... — Alexandre me deu um olhar que parecia que iria tirar meu couro viva.
Consegui prosseguir até os 100 onde tive que parar novamente para recuperar as forças e tomar fôlego. Novamente o professor aumentou em mais 100 o número de abdominais e eu agora teria que ir até os 300.
Fazia 50 e parava, mais 50 e outra parada... Por fim Alexandre desistiu de aumentar o número de exercícios e sentou-se, olhando para mim com expressão indiferente enquanto eu terminava minha série.
Nos apoios parei de 10 em 10 e nos poli-chinelos consegui fazer os 300 sem parada alguma. Quando terminei meu corpo não aguentava mais. Parecia que tudo doía, todos os músculos tremiam e eu não conseguia mais mandá-los fazer qualquer mínimo movimento. Desabei no chão com a respiração ofegante e o coração acelerado, parecendo que ia saltar do peito.
Finalmente Alexandre levantou da cadeira, colocou-se em minha frente e disse, olhando para mim com cara de nojo:
–Parabéns soldado. Você foi muito bem! Em recompensa a isso fica hoje sem almoço.
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