A Missão
50 Capítulo 33
Notas iniciais
– Acho que temos que nos preparar para partir – eu quebrei o silêncio.
Júlio se virou para mim, para ver se eu estava chateada com ele e depois olhou para o sol:
– Sim. Já dá pra ver que o sol vai se pôr daquele lado – ele apontou – Então vamos seguir para cá.
Guardamos as coisas na mochila e saímos, andando no mesmo sentido do rio, seguindo em sua margem para não nos perder. O pé de Júlio ainda estava machucado e ele andava mais devagar, mancando e fazendo careta de dor cada vez que encostava o pé no chão.
Fui pro seu lado e me ofereci:
– Deixe eu ajudar – ele olhou pra mim, mais uma vez me analisando. Colocou o braço em meu ombro, apoiando o seu peso em mim e continuamos o caminho. Ele pulando em um pé só.
A medida que andávamos, adentrávamos cada vez mais na floresta, e íamos saindo de perto do rio que começava a fazer uma curva. Se fosse em outra situação, eu teria aproveitado toda a beleza da floresta: suas altas árvores, o canto dos pássaros, os poucos raios de sol que conseguiam chegar até o chão. O rio, que ia ficando para trás, se alargava cada vez mais e era possível enxergar algumas vitórias-régias boiando em suas águas.
Eu estava distraída, olhando as vitórias-régias quando Júlio me cutucou e apontou para uma árvore:
– Olhe!
Uma arara multicolorida estava em seu galho. Ela tinha as cores vermelho, amarelo e azul bem contrastantes em suas penas.
– É lindo! — comentei maravilhada com toda aquela beleza.
A floresta ficava mais escura com o passar dos minutos. Os raios de sol quase não passavam antes, e agora que ele tava se pondo, a claridade era menor ainda.
– Preciso parar um pouco – Júlio pediu, e eu o ajudei a sentar em uma pedra.
– Quer um pouco d'água? — lhe alcancei a garrafinha.
Olhei ao redor. Estava ficando mais escuro e isso não era bom. Eu tinha aprendido na escola que na Floresta haviam muitos bichos, alguns perigosos, como cobras enormes e onças-pintadas.
– Não podemos continuar. — Júlio adivinhou meus pensamentos – É muito perigoso.
– Também acho. — concordei, tentando me lembrar do que sabia sobre a floresta. Qual devia ser o lugar mais seguro? — Vamos voltar para a margem do rio. Pelo que eu sei, a maioria dos animais vive nas árvores e lá na margem não tem tantas árvores assim.
– Bem pensado. — ele me elogiou, se levantou e começou a voltar. Corri para o ajudar.
Voltamos para onde tínhamos nos afastado do rio. Júlio respirava pesado ao meu lado e ficou claramente aliviado de termos chegado. Pelo jeito o acidente tinha o deixado pior do que eu imaginava. Ele estava muito cansado, respirando fundo e com uma cor pálida. Seu rosto estava suado por toda a umidade e calor e também tinha outra coisa...
– Júlio seu rosto tá sangrando – corri em direção a ele enquanto gritava.
Ele colocou a mão na testa, sentiu o sangue e a tirou. Cheguei do seu lado e segurei seu rosto nas minhas mãos:
– Deixe eu ver – pedi – Seu corte abriu com todo esse esforço. — constatei. O sangue não estava escorrendo como quando tinha sido feito, mas, mesmo assim, estava deixando seu rosto todo sujo. Tirei a mochila das minhas costas, e encontrei o mesmo pano que havia usado de manhã. — Aqui. Segure apertado pra estancar o sangue.
Ele pegou o pano da minha mão e fez como eu lhe disse:
– Obrigado.
Levantei de pé, e comecei a andar em círculo nervosa. Júlio estava cada vez pior. Estávamos perdidos em uma floresta. E não podíamos passar a noite ali. Não sabíamos o tipo de bicho que poderia aparecer.
– Você acha que existem crocodilos no rio? — perguntei para Júlio, atônita.
– Não sei. — Ele me respondeu.
Comecei a andar mais rápido. Precisava fazer alguma coisa. Tínhamos que sair dali. Não estávamos seguros.
– Liss, se acalme –Júlio viu como eu estava e ordenou. — Vai ficar tudo bem – ele sempre me dizia aquilo e nem sempre ficava. Continuei nervosa. Eu estava com muito medo. — Não se preocupe. Eu vou vigiar a noite inteira e se algum bicho aparecer eu mato. E amanha vamos continuar o caminho de volta. Vai ficar tudo bem.
Aquilo me fez parar e encarar ele. Minhas preocupações se esvaíram. Júlio era o que estava pior de nós dois, e mesmo assim, disse que ia vigiar a noite inteira e que ia ficar tudo bem. Eu é quem devia estar o acalmando e não o contrário. Aquilo não estava certo. Eu precisava pensar nele, não em mim. Não podia perder a cabeça.
– Eu vou na floresta, procurar alguma coisa para nós comer. — engoli os meus medos e decidi ir sozinha para a floresta escura, cheia de bichos. Faria o que fosse preciso, sem pensar nos medos e nos perigos.
Já começava a me afastar, quando...
– Não, você não vai. — não sei como Júlio levantou tão ligeiro, mas ele estava ao meu lado, segurando meu braço, me impedindo de avançar. Me virei e o encarei. A voz e a expressão que usou era a que utilizava quando queria dar uma bronca ou uma ordem no quartel. — Você não vai entrar na floresta sozinha a essas horas.
– Eu vou sim. — usei o mesmo tom que ele – Precisamos de comida, e você não está bem o suficiente para ir comigo. Fique aqui que eu já volto.
– Liss. Você não vai – ele não chegou a gritar, mas a agressividade era muito perceptível, ainda mais com o aperto forte no braço. — Ainda temos um pouco de comida que sobrou. Isso dá pra hoje, amanha de dia – ele frisou a palavra dia – vamos conseguir mais.
Não tinha como vencer ele. Suspirei derrotada e fui para a mochila achar a comida que tinha sobrado.
Quando estávamos comendo, uma coisa que ele disse antes me chamou atenção:
– Você disse que se algum bicho aparecer você mata. Como pretende fazer isso, sargento? — falei ironicamente. Ainda estava um pouco irritada por ele ter me mandado ficar.
Júlio deu um leve sorriso e arrogantemente pegou alguma coisa em seu cinto:
– Assim soldado. — mostrou uma arma que havia trazido.
Como eu não tinha pensado nisso? Ele sempre pensava em tudo.
– Foi erro meu não ter trazido nada desse tipo? — perguntei, ainda me sentia uma aluna inexperiente perto dele. Devia ter pego uma arma no quartel hoje cedo.
– Foi. — concordou Júlio, ainda com seu tom de sargento arrogante. — Um bom militar nunca sai pra lugar algum sem estar devidamente preparado. Mas eu tenho uma coisa pra você – ele mexeu no cinto de novo – Não tão bom quanto a minha, mas melhor que nada. — ele me alcançou uma faca.
Me surpreendi por ele estar me alcançando aquela faca. Não tinha certeza se devia aceitar, mas ele fez um movimento com a cabeça me incentivando.
– Obrigada. — peguei e guardei a em meu cinto. Me senti um pouco melhor por não estar tão indefesa assim.
Rapidamente a noite chegou e a escuridão tomou conta. Demorou um pouco para meus olhos se acostumarem com a falta de luz. Quase nem conseguia ver Júlio, e a lua não estava aparecendo para iluminar.
– Devíamos ter feito uma fogueira. — observei.
– Não sei se adiantaria. — ele falou, tirando o pano do corte, que já não sangrava mais. — Parece que vai chover a qualquer momento. — olhei para o céu e ele continuou – E uma fogueira poderia atrair animais.
Como sempre Júlio estava certo. Depois de uns minutos que ele falou aquilo, a chuva começou. No começou foi fraca, mas a quantidade aumentou cada vez mais.
Após uma meia-hora já estávamos encharcados. Junto com a chuva gelada havia um vento forte, que fez o calor do dia dar lugar ao frio. Não tinha ideia que podia fazer tanto frio naquela região. E eu estava com minha farda, que não proporcionava proteção alguma e estava toda molhada. Meu corpo todo estava gelado, eu tremia de frio e batia os dentes. Me encolhi em meu lugar e tentei parar de tremer. Mas não conseguia. Estava congelando, por mais absurdo que parecesse.
Júlio me escutou batendo queixo, e se levantou, vindo pro meu lado. Ele se sentou e sem que eu esperasse esticou seus braços ao redor do meu corpo e me puxou para mais perto dele. Não entendi o porque daquela atitude dele, e o olhei pedindo uma explicação.
– Vou te esquentar. — ele disse.
Ele estava certo. Tava me esquentando. Eu já me sentia bem melhor. Seus braços em torno de mim me davam sensação de segurança e seu corpo me transmitia calor. O frio não passou totalmente, porque a chuva continuava e estávamos molhados, mas eu parei de bater queixo. Estávamos tão próximo que eu sentia a pele dele em contato com a minha, o que me causava um certo arrepio e deixava minha pulsação acelerada. Tentei me acalmar escutando o som das nossas respirações e dos pingos de chuva caindo.
Acabou funcionando, aqueles sons ritmados, fizeram com que eu ficasse mais tranquila e que minha respiração e batimento cardíaco voltasse ao normal. Ainda tinha consciência que estava abraçada com Júlio, mas agora seu corpo me passava sensação de conforto e proteção.
– Você devia dormir – Júlio falou suave e calmo olhando com ternura para mim.
– Não. Você devia dormir. — discordei. Por mais bem e tranquila que eu estivesse, não conseguiria dormir, não naquela situação. Ele é quem precisava se recuperar. — Eu vigio tudo. E mais tarde te acordo.
Júlio acabou percebendo o quanto eu era teimosa. Se eu dizia que ia ficar acordada era porque iria. Ele desistiu de arrumar confusão comigo, mas também era teimoso:
– Se quiser ficar acordada que fique. Mas eu também vou ficar. — deu de ombros.
– Tudo bem, então vamos ficar os dois acordados. — eu que não ia ceder.
O silêncio voltou e eu escutava nossas respirações. Era tão estranho e ao mesmo tempo tão confortável. Ele me abraçando pra me esquentar. Eu sentindo todos seus músculos contra o meu corpo, o seu cheiro... Estava completamente bem. Nada mais me preocupava. Todo o medo de passar a noite na floresta havia sumido de mim. Ele estava ali comigo, estávamos seguros os dois juntos.
– Já que vamos ficar acordados, o que acha de conversar? — ele propôs. Sua boca estava perto do meu ouvido e a sua voz saiu num sussurro.
– Ok. — tentei não me arrepiar – Sobre o que você quer falar? — perguntei, falando mais alto que ele.
– Vi que você ficou chateada quando eu lhe contei que havíamos feito você ser designada pro quartel. Queria entender o porquê.
Me aconcheguei mais nele, encostando minha cabeça em seu peito musculoso. Era ainda melhor do que antes. Podia sentir como ele era forte por baixo daquela farda, o seu coração batendo em um ritmo regular. Me sentia mais segura ainda. Era como estar em um paraíso.
– No começo, — comecei a falar lentamente e baixo, não querendo quebrar o clima de paz que reinava entre nós – quando soube que havia sido designada pro quartel, achei que tivesse ocorrido algum erro. Eu não tinha porte físico e muito menos personalidade para isso. Não tinha explicação eles me enviarem para lá. Aí quando cheguei no quartel e conheci as pessoas daqui, me preocupei com isso de novo. Eles, — olhei pra Júlio — ou melhor, vocês, são tão fortes, tão rudes e agressivos. Às vezes parecem que nem tem sentimentos. E eu? Eu era, e ainda sou, uma garotinha mimada, que sempre teve do bom e do melhor e que agora tem que viver.... — perdi a linha de raciocínio. Júlio tirou um dos braços de volta de mim e pôs a mão em meu cabelo, desfazendo o meu coque. Meu cabelo caiu em ondas pelas minhas costas, em cima do seu outro braço que me segurava.
– Gosto desse seu cabelo de garotinha. — ele comentou, explicando o porque tinha soltado – Continue...
Ele voltou pra posição anterior. Eu fiz o possível para esquecer as sensações em meu corpo e voltar para minha narrativa:
– Quando você falou que tinha feito eu ser designada pro quartel, fiquei ... qual a palavra certa... chocada, revoltada,... Enfim, achei que você pudesse ter mudado toda a minha vida. Eu poderia ter sido designada pra um lugar muito melhor, quem sabe até estar morando com meus pais ainda. Eu podia não ter passado por nada do que passei no quartel, todo aquele treinamento duro, os exercícios da câmera de gás, as torturas... Minha vida podia ser completamente diferente. E você mudou isso.
Senti os seus músculos se contraindo, olhei pra ele e seu rosto estava triste e arrependido.
– Desculpe, Liss. — sua voz saiu arrasada – Eu nunca tinha pensado por esse lado. -suspirou – Me sinto muito mal por ter feito isso com você. — ele tirou os braços de volta de mim e encostou ao lado de seu corpo.
Me cortava o coração vê-lo daquele jeito. O duro e forte Júlio com aquela expressão de menino arrependido. Precisava consolá-lo.
– Não. — levantei de seu peito pra poder olhar seu rosto que parecia realmente muito infeliz – Eu pensei melhor e agora não acho mais isso. — me aprecei em dizer – Pelo contrário, acho que você me deu uma chance de fazer uma coisa boa. Talvez esse seja o meu destino desde sempre, lutar para derrubar esse governo e colocar um melhor no lugar. Um que faça esse nosso país melhorar. Não me importa se podia ter sido diferente. — me encostei de novo em seu peito.
Júlio me olhou parecendo confuso e, por fim, me abraçou novamente. Ficamos em silêncio. Tinha um clima estranho entre nós, uma certa tensão.
– Você quer saber o resto da história?Por quê você foi uma das escolhidas e chamada pro quartel? — ele não parecia mais tão à vontade ali quanto antes, mas se esforçou pra quebrar aquele clima.
– Claro. — falei baixo, ainda escutando os seus batimentos cardíacos.
– Nós queríamos pessoas de várias regiões do país para se juntar a nós. Então tínhamos espiões em cada região. Esses espiões buscavam encontrar pessoas que se enquadrassem nos nossos ideais. Na região em que você morava não havíamos encontrado ninguém ainda. E isso estava preocupando. Tirei minhas férias e fui para Crytur, procurar pessoalmente por alguém. Sabíamos que os governantes estavam planejando designar uma das novas soldadas que iriam se formar para trabalhar no palácio. Portanto, se eu achasse uma menina adolescente antes de completar os 18 anos e que fosse bonita e esperta o suficiente para agradar os nossos governantes, seria a escolha perfeita, já que teria a chance de poder trabalhar no palácio. Eu tentei sempre buscar por esse perfil. O espião da região já tinha observado algumas pessoas, e me passou informações sobre elas. Tinham três meninas que se encaixavam no perfil que eu queria, e uma delas era você. Procurei ver cada uma, e no dia em que vi você saindo de casa, para ir dar um passeio, percebi na hora que era a pessoa certa. — ele começou a acariciar meus cabelos – Alguma coisa dentro de mim me dizia isso. E eu tinha certeza! Não duvidava da minha intuição. Passei um mês inteiro a seguindo e espionando. Via você com sua família, seus amigos e na escola. Prestava bastante atenção em suas reações a certos assuntos e isso me deu bastante pistas. E o melhor foi o dia que você foi informada sobre sua designação. Você não falou nada, mas estava visível em seu rosto que não aprovava aquilo e quando sua diretora começou a falar do governo, você fez uma cara de raiva e nojo que me surpreenderam. Depois te acompanhei pra cá e fiquei te observando no quartel. Mas sempre tive certeza que você era especial e que era a pessoa certa. Agora vejo que não estava errado. — ele terminou sua narrativa e abaixou a cabeça para tentar me ver – Espero que não fique brava com a minha violação da sua privacidade.
– Tudo bem. — o que mais eu poderia dizer. Ainda tentando entender o que ele tinha dito, e o que aquilo significava. E além do mais não conseguia ficar brava com ele. Ainda mais enquanto ele me abraçava daquele jeito e passava a mão em meus cabelos. Tentei mudar de assunto – Eles vão descobrir o que viemos fazer? A missão está acabada? — eu não tinha pensado ainda em todas as implicações que o nosso acidente causaria quando voltássemos ao quartel.
– Não. Já pensei nisso. Eu costumava passar meus dias de descanso andando por ai em um avião. Nunca fui tão longe, é claro. Mas depois que voltarmos e perguntarem sobre o que aconteceu direi que peguei o avião para praticar como antigamente e lhe convidei para ir junto. É quase a verdade. Direi que o avião começou a dar problema e que eu não conseguia mais controlá-lo. Ai ficamos um bom tempo andando em linha reta, sem que eu pudesse fazer alguma coisa. E quando consegui, já estávamos aqui. Tão longe do quartel. E aí consegui pousar e voltamos a pé para casa.
– Que bom que você pensa em tudo – concordei feliz, sua desculpa parecia perfeita.
A chuva acabou parando, mas eu ainda tinha muitas perguntas para fazer e queria continuar ali com ele, daquele jeito:
– Seu pai era militar também? — tinha ouvido alguém falar qualquer coisa sobre isso.
– Sim. Ele era tenente. — senti o orgulho que ele tinha em falar do pai. — E foi ele quem colocou na minha cabeça as primeiras dúvidas sobre o governo.
– E o que aconteceu com ele? — eu sabia que ele tinha morrido, mas queria saber de quê.
– Morreu em uma rebelião. Uma cidade perto daqui se revoltou contra o governo e os militares foram chamados para contê-los. Começou uma confusão. Alguns militares atiravam e jogavam bombas nas pessoas, outros como o meu pai, tentavam socorrê-las. Numa dessas vezes, ele tava resgatando pessoas de um hospital quando um colega falou para deixá-las lá. Os dois começaram a discutir e o soldado lhe deu um tiro no peito.
– Sinto muito. — eu não devia ter tocado nesse assunto. Passei rapidamente pra outro tópico, tentando não deixá-lo triste com a lembrança da morte do pai– O Danilo foi designado pro quartel porque você interferiu também?
– Não. Pra ele eu não fiz nada. Na verdade nem tava nos meus planos chamá-lo para se juntar a missão, mas vi que ele se encaixava nos perfis também. Acho que designaram ele pra cá, porque ele já tinha o porte físico adequado e nosso sobrenome é bem conhecido.
– Ele nos contava, durante o treinamento, que você ensinava ele a fazer vários exercícios. — comentei.
– Sim, ele sempre gostou desse tipo de coisa. Desde que era pequeno e nosso pai ainda era vivo.
Júlio ficou pensativo por um bom tempo. Alguma coisa em nossa conversa o havia incomodado.
– O que foi? — tentei descobrir.
– Nada. — ele negou, mas eu sabia que tava escondendo alguma coisa.
– Júlio... — insisti, como uma mãe com seu filho.
Júlio pensou mais um pouco, olhou pro céu e acabou cedendo:
– O Danilo sempre gostou disso, dessas coisas do quartel. Por isso se deu tão bem no treinamento. Ele nasceu pra ser designado para isso. — Júlio fez uma pausa e olhou pra mim, admitindo – Eu não devia ter interferido na sua designação. Você não foi feita pra isso. Não que você tenha se saído mal no treinamento, muito pelo contrário, você foi muito bem. — ele me puxou para cima, para que ficasse com o rosto de frente para o seu. Segurou meu queixo com as duas mãos. E seu tom de quem explicava alguma coisa, passou pra um doce, fraternal. — Mas você é tão delicada... — ele passou as costas da mão da minha sobrancelha a ponta do meu queixo. Pisquei com a mudança nele — ... tão linda... — suspirou. E eu não conseguia pensar em nada. Um calor diferente irradiava por nós agora. Estávamos tão perto, tão colados. Só conseguia pensar em seu toque, em seu rosto sorrindo pra mim, em seu olhos negros me olhando como se nunca tivesse me visto na vida. Ele se aproximou o rosto mais do meu, nossos narizes quase se encostando, segurou meu rosto com suas mãos e disse por último com a voz ainda mais doce, carinhosa e baixa – tão perfeita...
Nossos lábios se tocaram. Estávamos nos beijando. Ele moveu as mãos, uma para o meu pescoço e outra para o meu quadril e me puxou para mais perto dele. Eu não tive reação alguma. Apenas retribui o beijo. Era um turbilhão de sensações dentro de mim. Nossos corpos pressionados um contra o outro, pareciam exalar eletricidade. Foi um beijo intenso, bom, caloroso...e acabou antes do que eu queria.
– Desculpe – ele se afastou arfando, evitando olhar pra mim – Eu não podia.
– Porque não? — eu ainda estava perto o suficiente dele pra sentir a atração entre nós. O beijo estava sendo tão bom, um sonho, e ele havia encerrado. Porque ele havia se afastado tão cedo se ele foi quem me beijou? Fiquei um pouco irritada – Você não queria ter feito isso? — perguntei tentando entender.
Seus olhos eram profundos e ainda mais escuros. Ele estava sentindo a mesma atração entre nós, a mesma vontade de me beijar de novo.
– Não. Esse é o problema. Eu queria. Queria mais que tudo e há muito tempo. — ele soava arrependido e até fofo – Mas você não queria. Desculpe! Eu não deveria ter te agarrado.
Uma onda de ternura passou por mim. Júlio estava se desculpando por ter feito uma coisa que eu não queria. Era tão cavaleiro da parte dele. E além do mais eu tinha retribuído ao beijo, ele não tinha do que se desculpar. Como não percebeu isso? Não aguentei mais:
– E quem disse que eu não queria? — me aproximei dele de novo e dessa vez fui eu quem o beijou. Ele rapidamente entendeu, e me agarrou, me puxando contra ele. O beijo foi como o de antes, se não foi melhor ainda, e durou muito mais tempo.
Parecia que uma eternidade havia se passado enquanto nos beijávamos, mas ao mesmo tempo não parecia ter sido suficiente.
Mais uma vez, foi ele quem se afastou um pouco, somente o suficiente para poder olhar nos meus olhos:
– Vamos com calma. — não tinha certeza se aquilo era pra mim ou pra ele mesmo.
Respirei fundo tentando clarear meus pensamentos e tentando afastar o desejo que eu sentia por ele. Me levantei, interrompendo o contato entre nossos corpos e toda a energia que isso causava e sentei ao seu lado.
Ficam os calados. Acho que nós dois estávamos constrangidos com o que havia acontecido. Eu nunca imaginei que ele me desejasse e também nunca pensei que nós dois juntos poderia ser tão bom como foi. Eu ainda sentia seu gosto em meus lábios, a pressão da boca dele. Chacoalhei a cabeça para parar de pensar nisso, tinha que afastar aquelas sensações de mim.
– Pode voltar para perto de mim. Já recuperei o controle. — Júlio disse confiante e até um pouco divertido – Vem, eu te esquento de novo. — ele me puxou e eu não resisti. Voltei para seu peito. Estávamos aninhados de novo, ele me envolvia com seus braços fortes e eu tinha a cabeça e as mãos em seu peito. — Pode ficar tranquila novamente. Nada mais vai acontecer hoje.
Concordei, mesmo não me importando se mais alguma coisa acontecesse. Antes que o desejo voltasse a me dominar, aprecei em dizer o que estava pensando:
– Eu me sinto confusa.
– Com o que exatamente? — a voz de Júlio saiu baixa. Aquele clima tenso e carregado de desejo estava indo embora.
– Com você – admiti, sem coragem de olhar pra ele. — Você no quartel é uma pessoa e aqui é outra completamente diferente. — ele ia começar a dizer alguma coisa, mas o interrompi, ainda não havia terminado – Lá você é tão sério, autoritário, rude, arrogante e calculista. Você pensa muito antes de fazer qualquer coisa, se mantém calmo não importa o que aconteça. E aqui você tá agindo por impulso, tá se mostrando chateado, doce, sincero, carinhoso... tantas coisas. Eu não entendo. Num momento você é um, e em outro momento é outro. Sei lá se você sofre de bipolaridade ou se a pancada que levou na cabeça durante o acidente te afetou. — me senti aliviada em confessar tudo que tava me incomodando a tanto tempo.
Júlio deu uma risada alta pela primeira vez. Sua risada era tão sincera e maravilhosa.
– Bipolar? É a primeira vez que eu escuto isso – ele riu mais um pouco – Mas Liss, é tudo muito simples de entender. No quartel eu sou o sargento, quase 24 horas por dia. Tenho que me manter sempre sério e autoritário, para continuar sendo respeitado. É tudo profissional. E aqui agora, eu to sendo eu mesmo de verdade. To agindo naturalmente, sem me controlar. Eu não sou tão arrogante e rude quanto aparento. Na verdade acho que tenho um coração um pouco melhor que isso. Mas eu tenho que controlar isso a maior parte do tempo. Como seria um sargento divertido e de coração mole? Ele não conseguiria nada, nem mesmo a obediência dos seus soldados.
– Mas as vezes, no quartel, você costumava ficar um pouco mais amigável também. — me lembrei várias vezes que ele me tratava diferente, as vezes que eu percebia que não era o sargento que estava ali comigo e sim Júlio, a pessoa comum.
– Na maioria das vezes, isso acontecia por culpa sua – um sorriso tímido apareceu em seus lábios. Eu nunca tinha o visto sorrir tanto. Era uma pena, já que seu sorriso era tão perfeito. — Quando estou perto de você minha fachada desmorona e eu acabo quase sendo eu mesmo, sem máscara nenhuma.
Aquilo me deixou feliz. Era bom saber que eu era especial para ele. Que ele também não conseguia se controlar perto de mim.
– Eu me sinto assim também. — disse, não conseguindo conter um sorriso que estava surgindo – Quando estou perto de você acabo falando coisas sem pensar.
– Vamos com calma, como eu disse. — Júlio pediu. Acho que ele estava com medo que eu me declarasse pra ele. — Chega por hoje. Você deveria dormir um pouco, pra poder estar bem amanha.
Depois que ele falou, percebi que estava realmente cansada e precisava dormir. Não estava acostumada a passar madrugadas em claro.
– Você se machucou mais do que eu hoje, então devia dormir primeiro. — não podia deixar minhas necessidades falarem mais alto e ser egoísta pensando somente em mim.
– Eu estou acostumado a passar noites acordados. E mesmo se quisesse dormir não conseguiria. Sinto que é minha obrigação permanecer acordado e te protegendo. Faz parte do que eu sou.
Percebi que não tinha como ele mudar de ideia. Ia ficar acordado mesmo. Então decidi dormir, mas antes tive que fazer uma última pergunta que estava me deixando curiosa:
– Só uma última coisa. — pedi – Quantos anos você tem, Júlio?
– Quantos você acha que eu tenho? — ele disse imediatamente com tom brincalhão.
– Sei lá. Quando você tá assim que nem agora, rindo, parece que tem 20. Mas lá no quartel parece ter bem mais.
– Tenho 22. Agora durma. — foi uma ordem.
– Boa noite. — me aconcheguei ainda mais em seu peito.
– Boa noite, Liss – ele me deu um leve beijo na testa – Durma sossegada, que eu estarei aqui.
Não respondi aquilo. Era bom saber que ele estava ali me protegendo, esquentando e me fazendo sentir bem. Sem pensar mais, acabei dormindo no calor dos seus braços.
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