A Missão
33 Diário
Queria poder começar escrevendo com "Querido diário...", minha vida seria tão boa se eu fosse capaz de começar sempre com essa expressão e contasse coisas comuns do dia a dia de uma menininha fútil. Mas não é bem assim, eu sou um homem e não uma menininha, sou um sargento do exército e não uma pessoa comum e também não estava fazendo coisas do cotidiano de todos durante o dia. Estava ajudando a torturar os meus alunos.
Torturar! Isso é horrível. Mas foi isso mesmo que fiz durante essa tarde. Alexandre me pediu para ajudá-lo com o exercício de hoje e eu não pude negar. A princípio ele queria que eu fosse o responsável por mergulhar os alunos dentro do tanque d'água, mas eu dei um jeito de escapar disso.
Eu nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas. Por mais que eu pareça, não sou tão sangue frio. Jamais conseguiria torturar meus alunos apenas como um exercício de treinamento. Então usei o argumento: você é o professor e o primeiro sargento e deve ser você quem fica com a principal tarefa. Ele gostou do meu argumentou e ficou todo envaidecido com isso e eu fiquei feliz por ter escapado da pior parte.
Ficou como minha obrigação buscar os alunos na sala de aula, levá-los para a sala de tortura, avisá-los para não contar nada sobre os seus pais, prendê-los e depois da prova feita, buscá-los e levá-los para o dormitório.
Desde a primeira vez que apareci na sala de aula para levar o primeiro aluno, percebi que o clima era de alegria. Eles não sabiam ainda o que enfrentariam e estavam animados com todo aquele suspense.
Peguei todo o profissionalismo que havia dentro de mim e botei pra fora, ficando pronto para enfrentar toda aquela longuíssima tarde. Depois que eu prendia as mãos e os pés dos alunos e os vendava, saia para fora da sala e ficava lá apenas escutando os gritos.
Tudo era péssimo! Assustador! Primeiro era Alexandre gritando ordens, depois o aluno gritando de dor. E eu ali impotente, sem poder fazer nada. Tendo que ficar parado esperando enquanto tudo se desenrolava lá dentro.
Quando tudo terminava e o aluno admitia a informação que Alexandre tanto queria saber, Alexandre vinha até a porta e me dava um sinal para que eu buscasse o aluno seguinte. Depois de buscar o aluno e prendê-lo, eu fazia a volta e ia em outra sala, pegar o aluno que já tinha feito a prova.
Depois da aluna Carolina ter rapidamente contado sobre sua família, fui chamar o Danilo que parecia feliz enquanto andava comigo. "Agora vou descobrir esse grande mistério" foi o que ele comentou comigo. Não consegui dizer nada para ele, apenas continuei o caminho calado. Chegando à sala, eu avisei que a prova não era o que ele estava esperando e que ele não poderia contar nada sobre nossa mãe e nosso pai para o Alexandre. Depois disso o Alexandre assumiu, dizendo que como éramos irmãos, eu deveria deixar o resto com ele, para ser justo com os demais, e foi o que eu fiz. Sai e deixei para Alexandre prendê-lo, enquanto ficava do lado de fora, esperando para ouvir os gritos dos dois.
Danilo foi mais demorado que a Carolina, e quando terminou fui buscar o aluno seguinte, Eric. Quando apareci para pegá-lo na outra sala, ele não parecia tão mal assim, como eu esperava. Estava sentado no banco, de olhos fechados, mas logo que percebeu minha presença abriu os olhos e se levantou de pé, para minha direção. A única coisa que eu disse foi: "vamos" e seguimos como estranhos. Quando chegamos no dormitório estava preocupado com ele e perguntei como estava, ele disse que tava bem, que tinha sido só um exercício e já tinha passado. Percebi que estava bem mesmo e voltei para o meu posto.
Tudo parecia sempre a mesma coisa com todos os alunos, e eu me sentia sempre cada vez pior vendo que eles iam para a prova animados, mas depois começava a escutar seus gritos e ver seus olhos alarmados indo para o dormitório.
Uma exceção a todos os alunos foi Liss, que desde que saiu da sala de aula já parecia assustada. De alguma forma ela tinha entendido que era uma coisa ruim e me pressionou para que eu confirmasse isso para ela. Não queria ser eu quem contava isso, mas não tinha opção. Então falei que ela estava certa. Depois disso fiz como em todos os outros, a prendi e sai para fora, ouvindo seus gritos.
Quando tudo terminou e eu fui buscá-la, tive uma grande surpresa a encontrando sentada e encolhida no chão em um canto da sala, chorando desesperadamente. Parecia uma criança abandonada, alguém sem chão. Chamei seu nome e ela não teve reação alguma. Estava em estado de choque. Com seus instintos mais selvagens a dominando.
Tentei acalmá-la dizendo que tudo ficaria bem. Que tinha acabado. Mas nada funcionava. Vê-la daquele jeito estava me matando por dentro. Porque tínhamos que machucar as pessoas daquela maneira? E não estou falando de machucar fisicamente, e sim emocionalmente. Ela estava com o psicológico em ruínas.
Voltei a enxergá-la como a pequena garota frágil que ela era. A menina que não deveria estar ali. E que por minha culpa estava. Ela não era tão forte como aparentava. Talvez eu nunca devesse tê-la trazido para cá, para sofrer. Devia ter sido melhor se eu tivesse deixado-a seguir seu destino e ir para uma designação que fosse realmente o ideal para ela.
Agora ela estava ali. Desesperada, e eu era o culpado por isso. Sem pensar no que estava fazendo, puxei-a para os meus braços e a abracei. Não importava o que tinha acontecido, eu ia protegê-la, eu sentia isso.
Depois que ela se acalmou levei-a para o dormitório e tive que passar no meu também, para trocar minha farda que tinha ficado molhada pelo contato com ela. Mas eu não me importava. Por mais difícil que tivesse sido o momento, foi ótimo tê-la em meus braços, sentir seu corpo contra o meu.
Eu odeio quando o meu coração domina a minha mente. Mais tarde eu refleti sobre isso e entendi que sentia um afeto muito especial pela Liss e isso me fazia esquecer tudo e perder toda a razão. A necessidade de protegê-la e de me sentir culpado por qualquer coisa que acontecesse com ela, vinha disso. Mas eu não posso deixar isso prevalecer. A razão é quem tem que trabalhar pela missão, e usando o cérebro, o surto que Liss teve hoje não foi nada bom. Talvez ela não esteja preparada, ou não seja a pessoa certa para cumprir aquela importante tarefa, tenho que cuidar disso e ver o que é melhor para ela e para a missão.
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