A Missão
27 Diário
Foi hoje o primeiro treinamento com a câmera de gás que os alunos tiveram. Todos estavam muito amedrontados e eu já pude perceber isso quando eles entraram na sala. O pavor era geral. E não era de se estranhar tal reação. Lembro que na minha vez foi a mesma coisa. A turma toda estava com medo também e eu não me sentia diferente deles.
Tentei acalmá-los o máximo possível, mas não tinha muito o que fazer. Era até bom que sentissem medo. Fazia parte do treinamento. Só assim eles aprenderiam a controlá-lo.
A pior parte foi quando eu tive que abandoná-los lá dentro da câmera de gás e fechar a porta. Olhar nos olhos repletos de pavor de cada um foi horrível. Para conseguir liberar o gás, eu tentei não pensar muito no que estava fazendo e apertei o botão como se fosse qualquer outra coisa. Aí foi só assistir eles caindo...
Parecia que eu sofria junto com eles. Cada um tentando resistir de uma maneira diferente. Logo que o gás começou a fazer efeito sobre eles, muitos entraram em desespero e saíram correndo em direção a porta. Mas isso só piorou tudo, porque nem bem deram quatro passos já desmaiaram no chão.
Metade da turma, acabou não aguentando nem 3 minutos. Os outros que ainda estavam acordados eram os que tinham escutado o meu conselho e permaneceram calmos e determinados. Mas eles também já faziam força para continuarem assim. Um por um foram caindo e a minha atenção começou a se voltar especialmente a um canto da sala, onde Danilo e Liss estavam sentados lado a lado de mão dadas. Os dois lutavam contra o gás, já respirando profundamente e com os olhos quase fechados. Danilo não aguentou mais e eu não pude culpá-lo por não ter conseguido. Eu me sentia com o coração na mão ali vendo ele sofrer, sem poder fazer nada.
O restante dos alunos caiu também, e eu já achava que ninguém tinha conseguido passar a marca dos cinco minutos quando reparei que alguém ali ainda se mexia. Era Liss. Ela tentava permanecer acordada e com os olhos abertos, e a expressão em seu rosto demonstrava a dor que ela sentia. Estava lutando contra si mesma.
Fiquei preso olhando o seu sofrimento, me sentindo agoniado e torcendo para que ela aguentasse mais um pouco. Só mais um pouco, ela iria conseguir. Em certo momento até murmurei alto, como se ela pudesse ouvir: "Aguente Liss, só mais uns minutos". Mas logo ela caiu para frente e todos então estavam desmaiados.
Não que eu esperasse outra coisa. Ninguém tinha conseguido se manter acordado na primeira vez que fez a prova da câmera de gás até hoje. Não seria dessa vez que isso mudaria.
Esperei pacientemente os segundos se arrastarem até que os dez minutos fossem completos. Aí, então fiz com que o gás parasse de ser expelido no ar e liguei as máquinas que sugariam aquele gás da sala, enquanto corria para abrir a porta.
O protocolo da prova dizia que eu deveria esperar que eles acordassem sozinhos e saíssem da sala, só depois eu poderia ajudá-los. Mas a minha vontade mesmo era entrar lá dentro e pegar cada um deles e trazer para fora, para que pudessem voltar ao normal logo.
Cansei de esperar, e resolvi me sentar para acalmar. Já haviam passados cinco minutos e ninguém tinha acordado ainda. Foi então que ouvi um barulho e olhei para porta, onde Liss estava escorada, se segurando para não cair.
Segurei-a pelo braço e a sentei no banco onde antes eu estava, colocando a máscara de oxigênio nela. Ela não estava desacordada, mas não parecia estar nesse mundo. Devia estar delirando, esse era um dos efeitos do soro. Logo que a deixei lá sentada com o oxigênio, ela adormeceu.
Voltei para a porta da sala e em seguida John se acordou e veio rapidamente para a saída. Quase não precisou de ajuda para ir sentar-se, mas também colocou a máscara de oxigênio e dormiu.
Mais cinco minutos se passaram até que outra pessoa acordasse, e para meu alívio era Danilo. Ele veio cambaleante até a porta e quando eu o peguei, acabou desmaiando de novo. Coloquei-o ao lado de John, que ainda dormia.
Danilo não dormiu muito e logo acordou. Ele ficou me olhando querendo que eu me aproximasse dele para conversar comigo. Eu tinha que me manter atento as pessoas que ainda estavam na sala e ele ainda não estava em condições de conversar, portanto fiquei a onde estava.
O próximo a aparecer foi Eric que assim como Danilo, também desmaiou em meus braços. Quando me levantava, depois de tê-lo sentado e colocado a máscara, encontrei os olhos de Liss me encarando. Fiquei feliz em vê-la também acordada e bem.
Voltei para minha posição, e logo vi que o Danilo, teimoso como sempre foi, tinha tirado a máscara e vinha em minha direção para falar comigo. Me dirigi para perto dele e fiz com que se sentasse para evitar que desmaiasse ou alguma coisa do tipo. Ele logo quis saber quem tinha sido o último a adormecer e o primeiro a acordar. Contei a ele que tinha sido Liss e ele pareceu surpreso com a informação. Eu conhecia muito bem o meu irmão, e sabia que ele, assim como eu, sempre queria ser o melhor em tudo que fazia e devia estar um pouco triste por não ter sido tão bom quanto sua amiga. Então disse que ele tinha sido o primeiro a recobrar os sentidos ali naquele corredor e ele pareceu contente com isso.
Mas nisso Liss deu um grito. Fui correndo em direção a ela, e coloquei a máscara que ela havia tirado. A princípio achei que estivesse ainda delirando, mas depois entendi que seu grito tinha sido "Eu?".Ela tinha escutado que eu havia dito que ela tinha sido a melhor no exercício e ficara espantada com isso. Confirmei que tinha sido isso mesmo e ela não pareceu acreditar. Essa menina tinha que acreditar mais em seu potencial.
Percebi que mais alguém havia chegado até a porta e fui correndo para lá. Logo que ajeitei o aluno no banco, vi que tinha que dar um jeito nos que já haviam recobrado o juízo. Eles não poderiam ficar ali tirando a minha atenção dos outros, então os dispensei para o dormitório e pude me dedicar unicamente a cuidar dos alunos que ainda saiam da câmera de gás.
Passado meia-hora desde que eu havia aberto a porta, eles começaram a acordar mais seguido um do outro, e eu tive que ser cada vez mais rápido em levá-los para o banco e colocar-nos o oxigênio.
Por fim só restava uma menina dentro da sala e todos os outros já estavam no corredor conscientes. Então logo após dispensá-los para o dormitório também, eu não me aguentei mais e depois de ver que se tinham passado uma hora, entrei na sala e tirei a última aluna lá de dentro. Mônica.
Depois que ela acordou e eu pude dispensá-la também, fui para o meu quarto e finalmente pude tirar aquele peso das minhas costas. Eu odiava esse tipo de prova. Fazia mal a mim e aos alunos. Mas a semana ainda estava só começando e passaríamos por isso mais cinco tardes.
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