A Missão
12 Capítulo 9
Notas iniciais
Voltei a sentar nos colchonetes sentindo-me a pior pessoa do planeta. Eu estava dolorida pelos golpes que havia levado e pelos golpes errados que tinha tentado dar. Mas o que mais me doía, mais do que meu tombo ou a humilhação de ter ido tão mal na frente de meus colegas, era o tapa e as palavras de Alexandre.
Ele havia conseguido o que queria: me atingir. Eu realmente fiquei abalada em saber que era a pior aluna da turma dele. Era claro que era. Nunca tinha feito um mínimo movimento parecido com aqueles, também estava em desvantagem no tempo de treinamento. Ai merda! Porque eu tinha sido mandada para cá se era certo que não ia me encaixar de jeito nenhum?
Não prestei muita atenção nas lutas que se seguiram depois da minha, entre elas a da Carol, que só pude entender que tanto ela quanto sua parceira tinham se machucado um pouco.
No fim da aula, sai pelo corredor de cabeça baixa, sem querer conversar ou olhar para qualquer um. Só vi que tinha alguém atrás de mim, se aproximando, quando a pessoa colocou sua mão em meu ombro me reconfortando. Reconheci a voz na mesma hora:
– Não fique assim — Danilo se colocou do meu lado e como eu não tinha parado de andar, me abraçou com o braço que estava no meu ombro e continuou caminhando comigo.
– Como você quer que eu fique então?- levantei a cabeça e fitei seus olhos escuros, transmitindo toda a indignação que eu tinha por mim mesma, nas palavras.
– Não foi nada demais o que aconteceu na sua luta. Todos levamos golpes, e você recém começou, está em desvantagem contra nós.
– Só que vocês não chegaram a cair. Muito menos levaram um tapão de Alexandre.
– Não ligue para aquele idiota. — Danilo me fez parar e segurou minhas duas mãos, para que eu ficasse virada em sua direção e o olhasse.- Acredite em mim quando eu digo que você foi bem, como todos nós.
– Mas você ouviu o que o Alexandre disse? — soltei minhas mãos dele, não querendo ser reconfortada. — Sou a pior aluna que ele já teve.
– Já vi muitos piores que você. Inclusive em nossa turma. — seu tom era doce e carinhoso. Ele queria que eu me acalmasse. — Como eu disse, O Alexandre é um idiota.
– Que seja. — eu suspirei, cansada daquela conversa — Só que temos que concordar que eu também não sou grande coisa.
– Nisso eu não concordo não. Você pode estar um pouco menos preparada por não ter tido um irmão que lhe ensinou, como eu tive. Mas se quiser posso te ajudar. — seus olhos brilharam com a ideia que teve.
– Não! Não quero sua ajuda. Vou ficar bem e vou melhorar. — eu era orgulhosa demais para admitir que precisava de umas aulas de reforço com um colega. Não queria que desperdiçasse seu tempo comigo.
– Ta bom então. — ele se virou e voltou por onde tínhamos vindo, claramente magoado com minha recusa de sua ajuda.
Estava a fim de ficar sozinha e fui ao bosque que havia ido no dia anterior e me sentei lá, embaixo de uma árvore. Recostei a cabeça no tronco e me senti mal por ter tratado Danilo com tanta rispidez. Eu não poderia já estar virando alguém com o coração duro. Na hora da conversa com ele acabei não me lembrando que ele também tinha sido ofendido por Alexandre e Thomas. Tinha sido egoísta e pensado somente na minha dor, esquecendo completamente que para os outros também não tinha sido fácil.
Já era hora de parar de me eu me tratar como coitadinha! Chega de me enxergar pior que os outros. Estava na hora de me tornar igual, mas sem deixar meu lado sentimental de lado.
Danilo tinha se oferecido para me ajudar a melhorar, mas depois de como o havia tratado, me sentia meio mal por voltar atrás. Acho que eu podia treinar sozinha. Talvez treinar os movimentos várias vezes fosse a chave para conseguir fazê-los com perfeição. Pelo que eu sabia depois das aulas tínhamos o tempo livre para fazermos o que quisessemos, isso devia incluir usar a base de treinamento.
Estava decidido! Iria dedicar todo o meu tempo pós-aula para treinar e melhorar cada vez mais.
Já devia estar quase na hora do jantar então não valia a pena ir para a base aquela hora. Hoje, abriria uma exceção e jantaria primeiro.
Me dirigi ao refeitório e encontrei meus amigos já lá. Sentei ao lado de Carol e em frente a Eric, o menino que Danilo havia lutado na aula. Me sentia péssima em como havia agido com eles, principalmente com Danilo, mais cedo.
– Desculpem-me. — falei, olhando pro meu prato de comida.
– Pelo que exatamente? — Carol se virou para mim com uma expressão confusa.
– Por ter saído correndo da base de treinamento sem falar com vocês. Eu pensei somente em mim e esqueci que estávamos todos no mesmo barco e que não foi fácil pra ninguém.
– Sem problemas, Liss. — foi a resposta de Danilo para mim, ele me olhou com seu sorriso lindo no rosto, mostrando que realmente tinha me perdoado. — Eu também me senti muito mal por tudo, mas principalmente por ter descontado minha raiva em Eric.
– Ai Dani, eu já te disse que não foi tão ruim assim. Você fez o que era preciso. — Era a primeira vez que eu escutava Eric falando e sua voz era mais fina que a dos demais meninos ali.
Entre uma garfada e outra conversávamos sobre todos os detalhes daquela aula que tinha causado tanta confusão. Quando estávamos todos terminando o tom da conversa não era mais sério e preocupado, e sim divertido. Estávamos rindo dos fatos ocorridos.
– Se me dão licença... — eu me levantei e peguei meu prato ainda rindo do último comentário de Carol.
– Fica mais um pouco ai — Danilo segurou meu braço por cima da mesa, me impedindo de continuar andando. — A conversa está boa.
– E esta mesmo, mas tem algumas coisas que quero fazer antes do toque de recolher. — afirmei sorrindo, tentando não chateá-los por abandonar a conversa.
– Posso saber o que é? — tava sentindo que hoje não era o meu dia com o Danilo. Mas uma vez ele parecia magoado comigo.
– Nada de importante. Vejo vocês mais tarde. — dei um leve aceno com a mão e sai do refeitório, indo direto a base de treinamento para não perder mais tempo.
Fiquei surpresa quando cheguei na base de treinamento e a encontrei vazia. Pelo visto todos treinavam o dia inteiro e nos momentos livres queriam mais era descansar. Ninguém era louco como eu.
Não soube muito bem por onde começar e decidi que espancar uns sacos de pancada parecia um bom começo. Passei o tempo todo tentando dar um soco decente, mas não conseguia fazer com que o saco nem se quer se movesse um centímetro. Minha mão já estava vermelha e dolorida de tanto soquear uma coisa tão dura. Talvez bater na cara de alguém fosse um pouco mais macio.
Desisti de tentar fazer os movimentos certos e me empenhei apenas em tentar mexer o saco de pancada o mínimo que fosse, dei vários golpes com as mãos, com os pés.... Estava nisso quando ouvi o sinal tocar. Era o toque de recolher, tinha 10 minutos para voltar ao meu dormitório.
Quando me virei para sair da sala, avistei uma figura parada perto da porta. A quanto tempo ela estava ali? Quem era ela?
Me aproximando mais percebi que era Julio. Ele me olhava fixamente e não pude perceber se aquele olhar dizia que eu estava encrencada ou não.
– Ãh.... Desculpe. Eu estava apenas praticando alguns golpes. Não sabia que isso era contra as regras — continuei andando.
Ele pensou no que dizer, me analisando e soltou seu tom frio:
– Não é contra as regras, soldado. Agora se retire para seu alojamento.
Nem acreditei que havia escapado de uma bronca ou de uma punição. Pelo jeito eu poderia continuar treinando todas as noites. Acelerei meu passo e passei por Julio, respondendo com uma voz submissa a sua ordem:
– Sim, senhor. Boa noite.
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