Levei um susto quando uma sirene começou a soar alta e estridente. Me levantei da cama depressa, num pulo e já estava saindo correndo quando reparei meus que meus colegas estavam todos calmos e olhando pra mim.

– O que foi? — perguntei, tentando entender a situação.

– Nada. Esse é o nosso despertador matinal. — esclareceu Carol que ainda estava meio deitada, com o cabelo todo desarrumado e cara de sono.

Me senti constrangida pelo pequeno engano e voltei para a minha cama, sentando e colocando os sapatos, que na pressa havia esquecido de calçar. Depois de todos termos trocados nossas roupas e estarmos prontos para mais um dia de treino, saímos a turma toda, para o café da manha.

Durante o caminho, Carol que estava ao meu lado me deu uma cotovelada para chamar minha atenção e estendeu a mão, onde havia um rabicó:

– Se você quiser continuar com seu cabelo comprido, faça um coque durante todo o dia. Porque logo que o Alexandre perceber que você esta com esse cabelão solto vai mandá-la cortar.

Agora reparando em minhas colegas, todas tinham os cabelos ou curtos como o da Carol ou amarrados em um coque. Como não percebi isso antes? Que falta de atenção a minha! Melhor prestar mais atenção aos detalhes se quiser tentar me tornar parecida com eles.

As aulas ocorreram do mesmo jeito que ontem, com a exceção de que eu não fui o centro das atenções e dos fiascos hoje. Já sabia o que esperar das aulas e não fiquei tão perdida. Tentei, também, ficar perto de Carol e de Danilo para poder imitá-los e pedir ajuda se precisasse, mas não precisei. Hoje também consegui almoçar e não me sentia tão cansada com os esforços físicos. A única aula com um professor diferente que tivemos foi a de Primeiros Socorros, que foi novamente com o Julio.

Durante todo o dia havia estado ocupada demais para lembrar que a última aula seria de defesa pessoal e que deveríamos lutar uns contra os outros. Quando a terrível aula chegou e o professor Alexandre voltou a sala, eu não era a única que parecia preocupada, mas, com certeza, era a mais despreparada. Na noite anterior tinha lido boa parte do livro sobre defesa pessoal, mas não havia entendido muita coisa. Não tinha a mínima ideia de como me defender ou como atacar alguém, nunca, sequer, tinha dado um soco em toda a minha vida.

Alexandre não perdeu tempo e logo chamou a turma para ir à base de treinamento dos alunos. Não conhecia aquele lugar ainda, e ele fez jus as expectativas que eu tinha de como seria o local das minhas aulas no quartel: era um lugar com pouca iluminação, um ringue de luta no centro da sala, alguns sacos-de-pancada pendurados enfileirados de um lado e alguns colchonetes de outro.

Sentamos-nos nos colchonetes enquanto Alexandre ficava de pé em nossa frente avisando como as coisas funcionariam:

– Hoje ainda não valerá pontos a luta de vocês pois será a primeira, onde se adaptaram com os movimentos e com o ringue. Lutaremos meninos contra meninos e meninas contra meninas, mas somente hoje. Nas próximas aulas todos lutarão contra todos. Durante dois minutos um da dupla irá atacar e o outro irá se defender e em outros dois minutos o contrário. Alguma dúvida?

Um menino que eu não conhecia por nome, que tinha a pela clara com sardas e cabelo quase ruivo levantou a mão:

– Devemos atacar de verdade ou apenas fingir?

– De verdade. — Alexandre pareceu irritado ao responder — Nada aqui é fingimento. E a melhor forma da pessoa ser estimulada a se defender é quando ela sabe que senão fizer isso seu lindo rostinho sofrera as consequências.

Todos ficamos calados e Alexandre perguntou quem queria ser o primeiro a lutar. Como ninguém se voluntariou ele chamou dois garotos. Também não conhecia eles de nome, mas me parecia que um se chamava John e outro algum nome que começava com P.

John, um garoto negro e com porte atlético, começou se defendendo enquanto o outro o atacava. Ele acabou levando alguns socos no começo, mas no fim dos dois minutos já tinha pegado o jeito e defendia-se de todos os ataques do colega. Alexandre que estava do lado vigiando o movimentos dos dois, gritava ordens de como deveriam agir, o que mais lhes atrapalhava do que ajudava.

Nos outros dois minutos em que os papeis se inverteram, foi quase a mesma coisa, John atacava e o outro se defendia, enquanto Alexandre berrava. Acabado os dois minutos Alexandre deu um palmadinha nas costas dos dois e os mandou sentarem, dizendo:

– Nada como serem os melhores da turma.

Achei um pouco de exagero da parte dele, falar que os dois eram melhores que os outros. Mas ninguém reclamou nada sobre isso, provavelmente com medo do que Alexandre poderia fazer.

As lutas continuaram e em certo momento um grupo com cinco homens, todos fardados, mas exibindo tatuagens no pouco de pele que estava amostra e com a cabeças raspadas entraram na base e ficaram assistindo nossas lutas, comentando entre si sobre nós e rindo alto.

Tentei prestar atenção somente nos que estavam lutando, em seus movimentos, para ver se conseguia aprender alguma coisa para quando chegasse a minha vez. Fui tirada da minha concentração com umas risadas altas e estridentes vindo do grupo que estava lá assistindo. Olhei para eles e vi que riam e conversavam com Alexandre, que também tinha um sorriso no rosto. Eles estavam fazendo xingamentos a uma das meninas que estava no ringue. A menina era mais alta do que eu e também tinha mais músculos, mas estava meio encolhida, tentando sem sucesso se defender e levando vários socos de sua parceira. Alexandre e os outros gritavam um insulto diferente a cada novo golpe que a garota levava. Por fim acabou os dois minutos e ela pode sair, sentando-se ao meu lado ainda mais encolhida e parecendo triste.

Os próximos nomes chamados para lutar foram Danilo e Eric. Eric um menino moreno com cabelos cacheados, que começou atacando enquanto Danilo se defendia. Danilo não teve muito problema na defesa, era mais forte que Eric e também mais ágil. Levou apenas dois ou três socos. Quando mudaram de posição, e Danilo devia atacar e Eric se defender, um dos caras que estava assistindo, o que parecia ser o líder do grupinho, sugeriu:

– Alexandre, porque você não manda seus alunos darem chutes também? Ficaria mais divertido.

– Ótima ideia, Thomas. — o sorriso maléfico de Alexandre surgiu em seu rosto.

Danilo começou atacar Eric somente com socos, como todos os outros haviam feito. Eric conseguia se defender razoavelmente bem. E tudo estava indo às mil maravilhas até que Alexandre interrompeu:

– Senhor Anthoni comece a dar chutes também.

– Não. — Danilo disse desafiadoramente, encarando o professor.

– Eu não to pedindo se você quer chutá-lo ou não. Eu to mandando! — Alexandre retribuiu o olhar raivoso.

– Mas eu...eu... não posso. Isso não é justo. Não aprendemos a nos defender de chutes e os outros não precisaram fazer isso.

– Vamos, comece a chutá-lo de uma vez. Não tenho todo o tempo do mundo... Ou será que você é covarde demais para isso? — Ah!Bem que tava demorando para Alexandre começar a ofende-lo. O pior foi que o Thomas se aproximou do ringue e começou a xingá-lo também.

– Sempre soube que todos da família Anthoni eram uns maricas. — Thomas riu e Alexandre fez o mesmo — Você, seu irmão, seu pai .... todos se dizem tão fortes, tão superiores, mas isso é só fachada, não conseguem nem bater em um coleguinha.

– Cale a boca — Danilo explodiu, parecia que partiria para cima de Thomas, mas respirou fundo e se controlou — Não. Fale. De. Minha. Família. Ninguém lá é covarde como você que fica insultando os outros.

Danilo e Thomas ficaram se encarando por um tempo e por fim Alexandre mandou Danilo voltar a sua tarefa. Ele atacou Eric com socos e chutes, usando mais força do que era necessário, provavelmente descontando a raiva que sentia em Eric. O pobre garoto não conseguiu se defender de nenhum chute e pela força usada nos golpes deve ter ficado bastante machucado.

Quando os dois terminaram foi a minha vez e a de uma outra menina um pouco maior que eu, loira e bronzeada, que acho que se chama Mônica. Eu comecei atacando e foi um fiasco total. Meus socos saiam desajeitados e eu me machucava mais neles do que minha parceira, que sempre se defendia dos golpes, o que não era de se surpreender. Não esperei Alexandre pedir para mim chutá-la, e meus chutes eram piores do que os meus socos, não chegavam nem mesmo a fazer cocegas em Mônica e eu sempre acabava perdendo o equilíbrio e quase caia quando os dava.

Alexandre e Thomas, que continuava por ali, não podiam deixar de me caçoar por minhas habilidades, ou melhor, pela falta delas:

– Onde você aprendeu a lutar assim garota? Foi lá na creche?

– Isso que dá trazer crianças para cá. Não sabem nem o que é um soco.

Tentei ignorá-los e me concentrar nos movimentos. Mas por mais que eu tentasse não conseguia atingi-lá corretamente. Quando inverteu-se os papeis, o fiasco foi maior ainda. Ela não estava poupando força, e me dava chutes e socos fortes, enquanto era incentivada pelos outros dois perto de nós.

Meu rosto já estava todo dolorido e provavelmente ficaria com manchas roxas. Minha barriga também estava doendo de tantos chutes que havia recebido naquela região.

Para finalizar Alexandre gritou:

– Isso Mônica, mostre o que é lutar de verdade para essa pirralha.

Com a motivação dele, ela me deu um chute na barriga mais forte do que os outros e eu não consegui mais continuar parada. Fui para trás com o impacto e acabei caindo no chão. Mônica olhou para mim meio assustada pela força de seu golpe, enquanto Alexandre, Thomas e seus amigos riam de meu tombo.

Mônica quis vir me ajudar a levantar, mas Alexandre a impediu com um leve empurrãozinho na direção contrária:

– Bom trabalho! Pode se sentar agora.

Quando me levantei e passei por Alexandre ele me deu um tapão na cabeça:

– Imbecil! Você é a pior aluna que já tive.

Notas finais
Tadinha da Liss! Como ela vai continuar no quartel desse jeito?? Apanhando todo dia??