A Missão

68 Capítulo 47


A reunião acabou já era de noite, e Thomas pediu se poderíamos gravar os anúncios ainda hoje. Eu e Júlio concordamos. Tínhamos que resolver isso de uma vez. Eu estava indo para o quarto do antigo governante, que eu havia dormido noite passada, quando Júlio falou:

– Liss, o Danilo levou suas coisas para o quarto que era de Margareth. É um quarto feminino e ele achou que você ficaria melhor lá. Mas se quiser podemos trocar. Eu estou com o quarto de Golt.

– Não, beleza. Não me importo — respondi. Só queria um quarto em que pudesse tomar banho e trocar de roupas.

– Ok. Nos vemos daqui a pouco – disse ele, entrando no quarto.

Tomei um banho quente e demorado. Estava precisando muito daquilo. Tive o cuidado na hora de lavar perto do meu ferimento. Ele parecia estar melhor. Mas ainda doía um pouco.

Após o banho achei minhas coisas todas lá no quarto de Margareth, como Júlio havia dito. O quarto e o banheiro estavam impecavelmente limpos, sem nenhum vestígio do sangue e da sujeira que havíamos feito ontem. Mas mesmo assim eu me lembrava com clareza de Margareth amarrada e amedrontada no banheiro, do soldado que eu baleei na perna desmaiado em uma poça de sangue do lado da cama, dos outros dois soldados desacordados.

O que havia acontecido com eles depois que tínhamos assumido o governo? Estavam presos, mortos? O que aconteceu com todos os militares depois que assumimos? Não tinha tido tempo para pensar nisso antes, mas agora que estava sozinha e com minhas necessidades físicas, principalmente de higiene, satisfeitas não conseguia tirar esse tipo de questão da cabeça.

Havia apenas colocado a farda militar quando escutei uma batida na porta. Com o cabelo ainda bagunçado e molhado do banho, fui abrir. Era Júlio quem estava lá, impecavelmente em sua farda alinhada. Lembrei de quando ele aparecia no quartel daquele jeito e sempre me surpreendia.

– Desculpe, ainda não estou pronta – eu disse pra ele.

– Tudo bem – ele concordou.

Convidei-o para entrar, ele entrou e ficou esperando enquanto eu terminava de me arrumar.

– Demorei um pouco mais do que o esperado no banho, desculpe. — achei que devia uma explicação para meu atraso.

– Sem problemas. Adoro irritar o Thomas – ele disse, e não estava usando a ironia, estava sendo sincero de verdade.

Achei minha escova de cabelos e comecei a escová-los enquanto conversava com Júlio:

– O que aconteceu ontem depois que eu dormi? Com os soldados daqui e com os do quartel? Eles ficaram contentes e nos apoiaram?

– Não cheguei a presenciar isso. Foi Thomas quem cuidou desses detalhes. Mas segundo o que eu ouvi, Thomas mandou para fora do palácio todos os soldados e contou a eles e a todos do quartel que agora estávamos no poder. Ele relembrou que todos fizeram um juramento sobre obedecer aos governantes e proteger o governo acima de tudo. Esse juramento não especifica quais governantes, então agora eles tem que se submeter a nós também, não podem se rebelar. Mas não acho que isso pudesse acontecer. Os militares, no geral, não se importam com quem governa o país. Não faz muita diferença para eles. E até acho que alguns prefiram que nós estejamos aqui do que Margareth, Golt e Milton.

– E quanto ao traidor, aquele que entregou você? Ele está preso?

Júlio olhou surpreso para mim:

– Me esqueci disso. Não cheguei a perguntar a Thomas. — era a primeira vez que via Júlio esquecendo de alguma coisa. E isso era estranho, ainda mais porque se fosse eu nunca esqueceria disso e gostaria que o culpado por traição fosse preso o mais rápido possível.

– Não acredito! — Me virei para ele sorrindo, brincando um pouco para aliviar a tensão – O inteligentíssimo sargento Júlio César Anthoni, que sempre pensa em tudo, esqueceu esse grande fato! Que falha imperdoável, vossa excelência – e fiz uma pequena reverência para ele, como fazíamos com os outros governantes.

Júlio riu alto e feliz. Gostei de vê-lo daquele jeito, rindo de uma piada minha. Uma risada sincera e inocente. Eu ri com ele.

– Quer dizer que eu sou o inteligentíssimo sargento Júlio César Anthoni, o que sempre pensa em tudo? — questionou ele, erguendo uma sobrancelha e ainda sorrindo.

– Sim. Isso mesmo. — respondi, chegando mais perto e o encarando, tentando me erguer para ficar da altura dele – Não é você o perfeccionista que pensa em cada detalhe?

– Isso é o que você está dizendo – rebateu ele, se aproximando mais de mim e rindo de alguma coisa que eu não entendi. — E você seria quem?

– Eu... — pensei — eu seria a menina que consegue fazer vossa excelência rir.

– Só isso? — ele me agarrou pela cintura e me puxou para perto dele ainda sorrindo.

– O que mais quer que eu diga? — nós estávamos muito perto um do outro. Nossos corpos estavam colados. Eu tinha que olhar para cima para poder enxergar seu rosto e ele olhar para baixo.

Nossa distância diminuiu ainda mais, se é que isso é possível. Ele abaixou a cabeça, deixando seu rosto quase encostado ao meu. Sentia sua respiração se misturando com a minha, seu cheiro de sabonete e desodorante. Eu queria agarrar seus cabelos, despenteá-los inteiro e puxar sua boca para minha. Mas me contive.

– Que você é a menina que me faz perder a cabeça, o ar, o sono, o juízo. Que você é a menina que me tira do sério, que me deixa louco, me tira a razão... — sua voz saia baixa, num sussurro, para que apenas eu escutasse. Ele olhava para mim, eu olhava para ele. Nossas bocas foram se aproximando, se tocando...

E uma batida na porta fez o encanto se quebrar. Nos afastamos no susto. Júlio foi abri-la, enquanto eu tentava normalizar o ritmo do meu coração e prender meus cabelos.

Era Thomas que tinha ido ver por que estávamos demorando tanto. Expliquei que tinha demorado no banho e pedi desculpa, ele não pareceu convencido e continuou irritado.

Enquanto íamos para o local que gravaríamos o anúncio, Júlio perguntou a Thomas:

– Você descobriu quem foi o traidor que me entregou aos governantes? — Júlio estava sério. Ele andava lado a lado com Thomas, mas seu porte físico, altura e beleza eram muito melhores que a do outro.

– Sim.

– E quem foi? Ele está preso? — pressionou Júlio por mais detalhes.

– Não interessa quem foi. Foi tudo um mal entendido. Uma confusão. Mas eu já resolvi. E não teve consequência nenhuma. Agora esqueça isso.

Não teve consequência nenhuma para ele. Pra Júlio teve sim. Todo o sofrimento e a humilhação que ele passou por ser preso, a tortura... Afastei isso da cabeça.

Por algum motivo Júlio resolveu esquecer aquilo, como Thomas lhe pediu. Pensei em me meter e exigir uma resposta, mas não queria causar confusões entre eles. Júlio sabia o que estava fazendo e se achou melhor deixar aquilo quieto, ele devia ter motivos.

Gravamos várias vezes os anúncios até não ficar tão ruim assim. Passamos a noite inteira fazendo isso. Já estava amanhecendo quando decidimos terminar e exibir aqueles que tínhamos.

Júlio tentava se manter bem e firme, mas eu via em seu olhos que estava cansado. Ele ainda sentia os efeitos da tortura. Ia demorar um pouco para melhorar completamente. Eu também me sentia fraca e cansada, meu cérebro não estava mais funcionando direito, só fazia o que era necessário. Minha cabeça doía e meu ferimento também.

Antes de ir dormir resolvi ir pegar alguma coisa para comer na cozinha. E depois fui para o meu quarto e capotei assim que deite na cama.

Notas finais
Uoowww o que foi essa declaração do Júlio? Ai, ai.... Pena que tinha que ter o Thomas para chegar na hora errada e estragar tudo. A partir de amanhã volta os Diários e já teremos a versão do Júlio sobre tudo que aconteceu desde que ele foi preso.