A Missão

45 Capítulo 29


Tomei banho e me troquei o mais rápido possível, estava mais calma agora e curiosa em saber o que Júlio poderia querer conversar comigo que fosse demorar tanto.

– Pronto. Estou aqui . — anunciei, sentando na mesma cadeira que antes.

Os dois ficaram me olhando sentar, cada um do seu jeito. Júlio tinha um olhar observador e a expressão séria, Danilo tinha um tom de riso e me olhava com admiração:

– Sabe que eu gosto muito do seu novo uniforme, mas também é legal te ver assim a vontade. — disse o irmão mais novo.

Eu estava com uma calça moletom escura e uma camiseta rosa, que na minha opinião eram bem melhor que aquela farda, mas bem menos atraente.

Me virei para Danilo com olhar reprovador, e ignorei suas palavras:

– Cadê o Eric? — ele normalmente sempre estava lá a esse horário.

– Dei um jeito de dispensá-lo para que pudéssemos conversar a vontade — Danilo deu de ombros.

Dessa vez, endireitei minha postura na cadeira, cruzei a perna e olhei para Júlio com o meu tom mais formal:

– Estou curiosa, o que traz o sargento aqui? — era uma provocação a ele, já tinha percebido que ele não estava na personalidade de militar.

– Não vim aqui como o sargento, e sim como... — ele recuou e pensou antes de terminar a frase — amigo.

Aquilo tinha me surpreendido, não sabia que ele me considerava como uma amiga. Eu até o considerava um pouco, mas não achei que ele retribuísse a afeição. Me lembrei daquela cena estranha no corredor, quando ele acariciou meu rosto. Não o tinha mais o visto depois daquilo, e já tinha até esquecido o acontecido. Mas agora, ali, de frente pra ele e olhando em seus olhos novamente, o sentimento de confusão voltou.

Sacudi a cabeça para colocá-la em ordem e parar de pensar em besteira:

– Então? — insisti, aquele suspense estava me deixando nervosa.

Júlio parou por uns segundos, pensou em como começar:

– Liss, agora você já sabe muita coisa sobre o governo. Muito mais do que sabia quando entrou aqui. O passeio pelo palácio deles deve ter te mostrado como tudo funciona e quem são nossos governantes. — fiz que sim com a cabeça e ele prosseguiu — E agora que está trabalhando lá, deve ter muito mais informações e entender muito mais. Então gostaria de saber como se sente em relação a eles. O que você acha da forma de governo e de quem nos governa?

Eu olhei pra ele piscando os olhos. O que isso interessava?

– Sei que você não veio aqui pra saber minha opinião sobre o governo — declarei, na defensiva. — E não estou entendendo a onde você quer chegar com isso.

– Na verdade, eu queria saber a sua opinião sim. — explicou ele. Me lembrei de quando ele dava aulas e usava esse mesmo tom de voz — Mas vamos começar com a minha: eu não concordo em nada com eles. Na maneira de governar, no jeito que agem, em nada. Tudo isso pra mim está errado.

Ele deu uma pausa, me dando tempo pra refletir. Pensei em tudo que havia visto nesses dias de trabalho com Margareth. Em como eu me senti após ver como tudo funcionava. A raiva, o nojo, a revolta. Sem pensar muito acabei dizendo:

– É, eu também não concordo.

Danilo que permanecia calado, só observando o desenrolar da conversa, sorriu com a minha resposta e deu uma olhada pro irmão, que o ignorou e permaneceu focado em mim:

– É sobre isso que eu vim aqui falar. — ele deu uma pausa, escolhendo as palavras novamente — Eu sou o líder de um grupo aqui no quartel, que não aprova a maneira como o governo age. Nós não achamos isso certo e queremos mudar essa realidade.

Pensei ter escutado errado e olhei para Júlio para ver se ele estava falando sério. O que ele tava dizendo? Que era o líder de um grupo que é oposto a forma de governo de Tazur?

Não, não era aquilo. Eu devia ter escutado errado, ou eu devia estar sonhando.

Júlio era um sargento do exército, nunca seria contra o governo. Sua tarefa era protegê-los, e era deles que recebia suas ordens. Sem contar que se um grupo desses existisse eu saberia. E nunca tinha escutado nada a respeito daquilo.

–Queremos uma nova forma de governo e com governantes melhores. — Ele continuou com uma empolgação revolucionária, ignorando completamente a confusão dentro de mim. Suas palavras haviam sido ditas com um brilho nos olhos, com paixão, orgulho... E eu só pude ficar olhando pra ele, encantada com a sua maneira de falar. Meu cérebro girava a mil com o que ele tinha dito, mas nenhum pensamento era claro. Eu não conseguia pensar em nada pra dizer. E também não conseguia distinguir se aquilo era realidade ou não — Eu acho que nisso você concorda conosco.

Suas palavras me fizeram entender o que estava acontecendo. Era tudo um teste! Um teste para medir a minha fidelidade ao governo. Eu deveria ter desconfiado disso logo no inicio.

– Não, eu não concordo — tentei dizer convicta, mesmo que essa não fosse realmente a minha opinião. — Nossos governantes são os melhores que poderíamos ter, eles fazem de tudo por nosso país e devemos obedecer sempre a eles. — conclui como se aquilo fosse um mantra que eu repetia sempre.

Julio ficou frustrado com a minha resposta e levantou-se de pé se aproximando de mim:

– Liss, sei que não é isso o que você acha de verdade. Você está mentindo.

– Não estou não. — comecei a me irritar novamente. — Você que não deveria sair por ai falando bobagens sobre os seus superiores, sargento.

Danilo olhou pro irmão, que parecia estar tentando se controlar e pensar em alguma outra coisa para dizer.

Enquanto isso, resolvi acabar com aquilo de uma vez:

– Não precisa mais de todo esse teatro. Sei que isso é um teste, e vocês não precisam se preocupar com a minha lealdade. Eu sou completamente fiel aos governantes.

– Pare de ser idiota, Liss. — reclamou Danilo, se metendo pela primeira vez na conversa. — Isso não é teste nenhum. É a verdade, por mais estranho que possa parecer. Eu mesmo entrei para esse grupo esses dias atrás...

Minha convicção começou a balançar um pouco. O Danilo parecia estar falando sério, e aquilo não estava mais me parecendo um teste. Voltei a acreditar na hipótese de estar sonhando.

– Trabalhando lá com Margareth você deve estar podendo ver a imensidade de coisas erradas que nossos governantes fazem, a forma como agem....- Júlio voltou a tentar me convencer, com seu tom calmo e olhar intenso. — Pense Liss, você acha mesmo que eles fazem todo o possível pelo povo? Você acha que eles não colocam seus interesses acima de qualquer coisa? E você acha que tudo isso está certo?

O dia inteiro que eu vivi deveria ser um sonho. E logo mais eu iria acordar e perceber a verdade. Enquanto isso, não me custava nada parar de mentir:

– Não. Está completamente errado. Tudo! — admiti, enfim. — É injusto que eles possam nos espionar diariamente e nós não possamos nem saber quem eles são. — dei voz ao que eu sentia, me sentindo até um pouco aliviada em falar aquilo. — Eles usam nossas vidas para se divertir! Tiram completamente nossa privacidade.

– Como assim "tiram completamente nossa privacidade"? — Danilo perguntou.

Havia me esquecido que eu era uma das únicas pessoas que sabia daquilo. Não haviam explicado sobre isso em nosso passeio pelo palácio. Nem Júlio devia saber. Eu devia ter deixado minha boca fechada e não ter comentado sobre isso. Mas agora já tinha dito, não tinha volta. E na verdade tanto fazia quem sabia ou não, contando que aquilo não era real e que logo mais eu acordaria.

Estava abrindo minha boca pra começar a falar quando Júlio me interrompeu:

– Eles tem câmeras por todo o país e as usam para espionar as pessoas. — Júlio deu de ombros, querendo seguir a diante com a conversa. Eu não esperava que ele soubesse sobre isso. Mas pelo jeito os sargentos sabiam.

– E para se divertir com isso. — complementei. — Quando eles estão entediados ficam assistindo as pessoas levando suas vidas, ou escutando os telefonemas que elas fazem pros outros. Não temos o mínimo de privacidade.

Danilo parecia chocado. Ele relaxou na cadeira e ficou olhando pro nada, perdido em pensamentos.

– Eu não sabia que o governo tinha acesso as nossas ligações também. Mas é bom saber — comentou Júlio, mais para si mesmo do que pra mim — Bom Liss, então você concorda conosco. — fiz um sinal afirmativo com a cabeça. — O que acha de se juntar a nós? Ao meu grupo.

– Me juntar a vocês? — perguntei perplexa. Porque eu iria querer me juntar a eles? E que tipo de grupo era?

Imaginei que do jeito que meu sonho estava se desenrolando, iríamos sair por ai usando capas de super-heróis para acabar com as coisas erradas no mundo, inclusive nossos governantes.

– Sim. Você tem a mesma opinião que nós, é uma ótima soldado. Seria muito bom tê-la em nosso grupo e ajudando em nossa missão — o brilho nos olhos e o calor na voz de Júlio continuavam.

– Que tipo de missão? — perguntei, pensando novamente na cena de nós voando pelo céu da capital procurando por injustiças.

Júlio deu uma olhada pra Danilo, que acenou com a cabeça. Os dois estavam juntos nessa.

– Nossa intenção é derrubar o governo — Júlio parecia constrangido em me contar isso. Mas não era pra menos. Mesmo em um sonho, aquela era uma ideia difícil de ser feita — E depois introduzir uma nova forma de governar.

Fiquei olhando abismada pra ele e pra Danilo, que também me olhavam esperando uma reação. Eu mais uma vez não tinha o que dizer. Parecia cada vez mais loucura. E eu só queria acordar de uma vez.

– Você está junto nessa? — perguntei pra Danilo

– Sim — ele confirmou

– Nós queríamos esperar até vocês estarem formados para lhes contar. Vocês tinham que saber sobre o governo antes de qualquer coisa. — apressou-se em explicar Júlio.

– Você disse nós. Quem mais está nesse grupo? — levantei de pé e comecei a andar de um lado pro outro, ansiosa pelos nomes que ele me diria e que me fariam ter certeza que eu estava sonhando.

– Não posso lhe dizer. Isso por sua segurança, e pela nossa. Mas eu sou o líder junto com outro militar e você sabe que Danilo também faz parte do grupo.

Minha cabeça rodava. Eu precisava entender aquilo. Era ou não era sonho? Se fosse eu deveria conseguir acordar.

Tudo parecia tão real.

Continuei caminhando de um lado pro outro da sala, tentando pensar. Os outros me observavam atentamente. Danilo parecia estressado como eu, mas Júlio era a perfeita tranquilidade.

– Ta. E como vocês pretendem derrubar o governo? — perguntei a Júlio esperando que talvez a resposta me desse alguma pista sobre a verdade daquilo.

– Você vai querer se juntar a nós ou não? — Júlio me respondeu com outra pergunta, mas ainda em tom calmo.

– Eu não sei, eu não sei. — suspirei — Primeiro preciso saber se estou sonhando ou não.

Danilo pareceu irritado com o que eu havia dito, mas não entendi o porquê. Imediatamente, Júlio fez um gesto para o irmão se conter e levantou, indo para o meio da sala,onde eu estava. Parei de caminhar e fiquei esperando, enquanto ele falava:

– Liss, eu sei que isso parece loucura, que não parece real. Mas é. Já temos muita coisa pensada. Faz muito tempo que estou envolvido nisso. E precisamos de você. Você tem acesso diário ao governo. Seria muito bom tê-la conosco. Pense em como poderia nos ajudar a melhorar o país, a livrá-lo desse tipo de governo.

– Eu preciso de um tempo pra pensar e perceber se isso é um sonho ou não. Minha cabeça tá muito confusa. — eu pedi, suplicante. Não podia decidir nada ali e agora. Tinha que esperar e ver se eu não acordaria antes.

– Se quiser posso te dar um beliscão para provar que não esta sonhando — sugeriu Danilo, recuperando seu bom humor.

Júlio ignorou o comentário de Danilo assim como eu:

– Certo. Tudo bem. Pense. — ele disse, mesmo não parecendo muito feliz com isso.

– Obrigada.

– Mas não conte nada disso a ninguém. Nem agora enquanto estiver pensando, nem se sua escolha for não se juntar a nós. Confiamos em você e precisamos manter isso em segredo.

– Não se preocupe — lhe garanti.

Ele foi saindo em direção a porta e Danilo levantou num salto para acompanhá-lo. Mas antes de ir, Júlio disse uma última coisa:

– Quando decidir, avise a Danilo, que ele irá me contar. Ele é meu irmão e não causará suspeita alguma se for falar comigo.

– Ok. — concordei.

Quando eles se foram fui pra minha cama. Se fosse um sonho eu acordaria dali a um tempo e perceberia que tudo tinha sido fruto da minha imaginação. Deitei então, e tentei dormir. Mas não consegui. Só então pude ter certeza que aquilo havia sido real. Por mais estranho que parecesse, Júlio tinha ido conversar comigo sobre um plano para derrubar o governo.

Depois dessa conclusão, fiquei me revirando quase a noite inteira, relembrando toda a conversa e tentando ficar menos chocada.