A Missão

44 Capítulo 28


Eu estava parada a mais de duas horas no mesmo lugar, olhando pro mesmo ponto e ainda tentando me manter atenta. Margareth estava lendo alguns papéis e assinando, enquanto eu estava atrás dela, parada de pé, a protegendo de qualquer ameaça. Mas não existia ameaça nenhuma ali. Ela estava confortável em seu escritório, com janelas de vidros blindados e guardas na porta. Não havia o que temer, mas, mesmo assim, eu tinha que ficar atenta.

Essa foi uma das ordens que recebi no primeiro dia: eu deveria ficar prestando atenção em tudo ao meu redor durante as minhas 12 horas de serviço diárias. E dar a minha vida para proteger a governante, custe o que custar.

Parece meio assustador essa obrigação, só que não acho que tenha tanto perigo assim. O palácio do governo é muito seguro, e os governantes quase nunca saem daqui.

Margareth quase nunca fala comigo, age como se eu não estivesse ali e eu me sinto grata por isso. É melhor me sentir invisível do que ter que aturá-la me mandando e desmandando o dia todo. Apesar de eu me sentir invisível perante a ela, não é assim que me sinto com as outras pessoas aqui dentro do palácio e no quartel.

Meu uniforme de trabalho não é mais a farda comum dos militares. Margareth fez questão de me fazer usar meu cabelão negro solto, e ainda uma calça preta bem justa ao corpo, mas que me permite fazer todos os movimentos possíveis, no caso de uma luta, e uma regata da mesma cor, também justa ao corpo e que deixa meu colo a mostra. E além de tudo isso uma bota, com salto não muito alto, mas também preta, com amarrações e que vai até o joelho. Me sinto ridícula com esse uniforme. Pra começar é muito preto: o uniforme inteiro é preto, meus cabelos são pretos, a única coisa de tonalidade diferente é a minha pele branca, que até causa um contraste legal, mas mesmo assim... E percebo vários soldados me olhando enquanto eu cruzo, principalmente no quartel. Eles tentam disfarçar, mas eu percebo. Não é comum para eles ver uma mulher andando com roupas tão justa e cabelo solto por lá. Eu me sinto uma piriguete.

Margareth terminou seus afazeres com aquela papelada toda, guardou-as organizadamente e ficou olhando para os vários monitores em sua parede.

Eu não tinha percebido em minha primeira visita ao escritório dela, mas na parede ao lado da porta, tinham vários monitores juntos, todos mostrando alguma parte do país. Ela passava a maior parte do dia assistindo a esses monitores, aumentando o volume e o zoom para escutar o que estava falando, focando em apenas um lugar, entre outras coisas. Era como se a vida de toda a população de Tazur fosse um reality-show que ela assistia do conforto de seu escritório. Até o quartel era vigiado, todos os cantos, menos nossos quartos. Ás vezes ela enjoava de assistir as imagens e apertava alguns botões em seu computador e sons de pessoas conversando preenchiam o ambiente. Eram telefonemas pessoais, de pessoas comuns, que ela ouvia para se divertir. Tinham casais apaixonados se declarando, pais brigando com seus filhos, bancários dando instruções de trabalho, entre outras coisas.

Eu sentia nojo com tudo aquilo. Nojo dela, Margareth, e dos outros dois governantes, que também deviam fazer a mesma coisa. Onde ficava a privacidade? Tudo que fazíamos era vigiado e depois usado para diversão dos nossos governantes.

Governantes esses, que não deixavam o povo saber sua identidade ou qualquer coisa sobre eles. Apenas mandavam e desmandavam em todo mundo, eram capazes de mudar a vida de alguém com apenas uma ordem. E enquanto faziam isso assistiam de camarote as pessoas sofrendo, vivendo e obedecendo.

Eu não podia suportar aquilo. Era uma mistura de sensações: ódio, nojo, revolta, tristeza, angústia. Tentava não olhar para as telas e não escutar os áudios. Não queria participar daquilo. Queria que, pelo menos, eu desse um pouco de privacidade as pessoas. E devia me controlar também. Minha obrigação era proteger a governante com a minha vida, como poderia fazer isso se a odiasse? É, eu não era a pessoa perfeita para esse cargo.

Como eu poderia viver assim? Via diariamente aquilo, todos levando suas vidas sem saber que eram observados. E como eu poderia ser eu mesma quando estivesse fora daqui se sabia que sempre teria alguém me espionando. Era angustiante essa falta de privacidade.

Quando terminei meu turno, voltei para o quartel e fui para a base de treinamento dos soldados já formados. Todo o dia eu fazia isso, ia lá e liberava toda a raiva que sentia durante o dia nos sacos de pancadas. Era a única coisa que me fazia continuar com a cabeça no lugar e aguentar.

Ao contrário da base de treinamento dos soldados que ainda estavam tendo aulas, essa era cheia de militares a esse horário. Eram quase todos homens e ficavam me olhando entrar, com aquele uniforme escroto e depois começar minha série diária de pancadas.

Nesse dia, Thomas estava soqueando do meu lado e resolveu me irritar:

– Problemas com seu maravilhoso trabalho? — perguntou, soando irônico.

– Não. Tá tudo maravilhoso. E isso não é da sua conta. — minha raiva começou a sair como veneno da minha boca. Tentei me controlar e dei socos mais fortes no saco de pancadas.

– Por fora já é uma mulher — ele gesticulou pro meu corpo, se aproximando de mim — Mas por dentro ainda é uma pirralha.

Perdi a cabeça. Eu ainda não estava controlada o suficiente, minha raiva de todo o dia de trabalho ainda não havia sido descarregada em minhas pancadas. E quando ele falou do meu corpo e me chamou de criança, não aguentei:

– E você é o que? Um cara mimado que quer ser o tal. Se acha o melhor de todos. — ergui meu tom de voz e me aproximei ainda mais dele, apontando o dedo em sua cara — Mas é um moleque, que só passa o dia insultando os outros. Fica escondido atrás dos outros sargentos, como um covarde!

Ele veio em minha direção e me empurrou contra a parede. Sua mão em meu pescoço me apertava e ele olhava bem nos meus olhos, com o rosto a centímetros do meu e quase cuspindo na minha cara:

– Não fale o que você não sabe pirralha. Eu não sou um covarde! — os outros soldados que estavam na base vieram correndo em nossa direção, gritando para que Thomas me soltasse. Mas ele não fez isso, apenas esticou o braço que não estava me prendendo, fazendo um sinal para que os outros recuassem — Você tem chances de se dar muito bem aqui garota, então não estrague tudo. Eu posso muito bem destruir todas essas chances. Você está entendendo?

Fiz que sim com a cabeça. Não conseguia falar com ele me prendendo. Um outro militar, que já tinha visto junto com Thomas se aproximou dele e colocou a mão em seu ombro:

– Deixe ela pra lá. Ela já entendeu. Você pode entrar em confusão também, ela é a guarda pessoal da governante.

– Não me interessa o que ela é!— Thomas gritou pro soldado. Depois olhou pra mim e se acalmou um pouco — Você está avisada.

Ele me soltou e saiu, seguido por alguns outros militares.

Eu fiquei de pé na parede, olhando ele sair e tentando entender a ameaça. Mas logo os outros soldados estavam do meu lado:

– Você está bem? — perguntou um.

– Estou. — respondi, voltando a mim e tentando sair dali também. Mas era inútil, todos estavam me cercando. Era muita gentileza da parte deles se preocupar comigo. Se bem que eu sabia que aquilo tudo se devia a minha aparência. — Por favor, eu gostaria de sair agora, se me derem licença.

Eles abriram espaços e eu comecei a passar, mas logo um outro soldado na casa dos 30 anos estava ao meu lado:

–A soldado quer que eu lhe acompanhe até seu quarto?

– Não. — falei rudemente. Aquilo estava me deixando a ponto de explodir de novo. Precisava sair dali e esfriar a cabeça. — Eu sei onde é meu quarto. E quero ir sozinha. Voltem para o que estavam fazendo e esqueçam isso.

Saí batendo firme os pés, e andando rápido para que nenhum deles me seguissem. Não sabia que uma roupa horrível seria capaz de causar isso nos homens.

Entrei no quarto, batendo a porta com raiva. Logo escutei a voz de Danilo:

– Chegou a minha musa inspiradora... — ele disse alegre. Danilo tinha amado meu novo uniforme e ficava me olhando o tempo inteiro que eu estava com ele. Inclusive, na primeira vez que eu o usei, ele me fez dar várias voltas em torno de mim mesma e me analisou dos pés a cabeça.

Mas eu não tava pra clima pra suas brincadeiras ou pra suas cantadas hoje, então rapidamente fiz questão de lhe dizer, enquanto trancava aporta:

– Não to a fim de brincadeiras hoje Danilo. Tive um dia difícil.

Então me virei e vi que Danilo não estava sozinho sentado no sofá. Tinha alguém com ele e não era Eric:

– Júlio?— era pra ser uma saudação a ele, mas ficou mais como uma pergunta.

– Olá Liss. Desculpe incomodá-la, mas gostaria de ter uma conversa com você, se fosse possível. — seu tom era calmo e gentil, mas não me enganou.

O dia ia ficar pior ainda. Já receberia minha punição por ter tratado Thomas daquela maneira. Como ele tinha sido rápido em reportar tudo aos seus comandantes.

– Thomas foi rápido. — eu disse num suspiro caindo na cadeira em frente a eles. Não tinha percebido o quanto estava cansada, passara o dia inteiro de pé. — Muito bem... Sei que desculpas não vão adiantar, então pode falar meu castigo.

– Ahn? Do que você tá falando Liss? -Danilo se meteu.

– Júlio sabe. Vamos, pode começar... — queria terminar de uma vez com aquilo e poder tirar aquelas roupas apertadas, tomar um banho, jantar e dormir.

Júlio me analisou com o olhar confuso, como se realmente não entendesse e tentasse descobrir se eu estava louca.

– Desculpe não estou entendendo. — ele disse ainda tentando descobrir o que estava acontecendo, enquanto me observava.

– Eu e o Thomas. Nós tivemos... — o que teria sido aquilo? Qual a palavra correta? Discussão? — ... um desentendimento agora na base de treinamentos. — Os irmãos tiveram a mesma reação, arquearam as sobrancelhas como se não acreditassem naquilo e quisessem mais informações. — Se não é por isso que esta aqui, o que você quer falar comigo? — dirigi-me a Júlio, apressando a mudança de assunto antes que pedissem por detalhes.

– Nossa conversa pode ser meio longa. Se quiser tomar um banho e trocar de roupas, eu aguardarei sem problemas.

– Ok. Só alguns minutos. — concordei e fui para o banheiro. Grata por poder esfriar um pouco mais a cabeça e poder tirar aquela roupa.

Notas finais
Eu disse que esse capítulo seria revelado sobre a Missão mas me enganei. Desculpe. É somente no próximo.