A Minha Queda Será Por Você

56 Todos merecem uma nova chance?


Notas iniciais
Os comentários da nova leitora estão sendo um incentivo maravilhoso para eu tentar atualizar essa fic e deixá-la igualada ao que está nos outros sites! Muito obrigada! Espero que gostem desse capítulo, boa leitura!

A Minha Queda Será por Você
Capítulo 56 – Todos merecem uma nova chance?

A estação mais longeva do ano naquele planeta adornado por um mineral raro era a primavera. Desse modo, os rochedos ancestrais eram naturalmente envoltos pela flora local – uma espécie de musgo composto por um verde tão intenso e brilhante que à noite iluminava o reino – além da cor da esperança, o forte púrpura contrastava nas pétalas espessas e aveludadas das flores de caule azulado. Os aromas cítricos se misturavam no ar e insetos cintilantes, oscilando em diversas cores, voavam em sincronia formando espirais nos céus. Doryan amava a noite em Sedna, em nenhum outro lugar da galáxia deveria haver uma paisagem tão colorida e luminosa.

O castelo encontrava-se no mais alto dos rochedos, em verdade, a magnânima construção fora talhada a partir da própria pedra e dividia-se em diversas torres pontiagudas. A lua de Sedna era enorme, o seu imponente tamanho dava a impressão de que, se um sujeito escalasse a torre mais alta até o ápice, poderia tocar o astro dourado. No último dia do longo mês – o tempo passava mais devagar no planeta em relação à Terra – comemorava-se o "Dia da Lua Dourada", pois era o momento em que o satélite parecia abraçar parte do planeta, e não só tocar a torre. O mesmo astro que inspirava admiração inspirava o temor nesse dia especial, por causa da grande influência sobre as marés. Não haveria na via láctea oceano mais selvagem do que o de Sedna. Talvez por isso não existisse uma população vasta de sednianos lá, o planeta poderia ser o pai de mineral magnífico, todavia a voracidade de seus mares não permitia que muitos de seus lugares fossem habitáveis. Poucos eram corajosos a se aventurar a viver no mar e partir para nunca mais voltar, porém a maioria dos súditos do rei Dremyr vivia nos redores do grande castelo de pedra, em casas semelhantes a iglus cristalizados, cobertos por mantos de flores arroxeadas e luminosas. A escassez de locais aptos à moradia era compensada pelas florestas suspensas de Sedna, pois tudo ali parecia possuir tamanho dobrado em relação à Terra – as árvores, as frutas, os legumes, as flores, os animais, a luz. Ninguém estava pouco abastecido, nada faltava, os bosques eram sagrados e alimentados com fervor, assim se mantinha o equilíbrio.

Os produtores de tecnologia a partir da gema viviam em casas flutuantes, sobre as nuvens azuladas do planeta. Doryan seria um morador aéreo se seu pai lhe tivesse permitido, mas rei Dremyr era muito apegado ao filho mais novo, ainda mais depois da partida do primogênito. Damien era a grande promessa. Doryan não se importava, admirava o irmão e sentia-se feliz quando ouvia sobre seus feitos. Ele e o pai estavam sempre na expectativa de que o grande sonho do príncipe, casar-se com a princesa de Tóquio de Cristal, se tornasse realidade. Doryan principalmente, por ter passado a infância e adolescência ouvindo Damien narrar seus sonhos e observando-o admirar a imagem da menina dos cabelos castanhos. Em Sedna, a única variedade de cabelo era o negro, e ninguém fazia questão de tingir os fios de cor diferente, o preto era tão forte e insistente, difícil de descolorir, não valia o esforço, e livrar-se dele, na cultura local, significava desejar libertar-se da própria identidade, portanto, Doryan sempre tivera curiosidade de conhecer alguém diferente, imaginava até mesmo seus parentes com outros tipos de cabelos e essa era uma brincadeira que o distraia muito quando criança. Ao ver a imagem de Crystal pela primeira vez chegou a achá-la feia, depois engraçada, algumas vezes levou uns cascudos do mais velho por fazer comentários como "cabeça de terra", "cabelo de lama" e toda vez que se lembrava disso depois de o irmão partir rumo ao planeta azul, achava graça. No fundo, ele gostaria de conhecer uma terráquea, as mulheres de Sedna nunca lhe despertaram o interesse. Como ele se pegava pensando nessas coisas! Ainda mais naquele Dia da Lua Dourada, tão esquisito sem a presença do irmão...

Geralmente, ele ia ao ponto alto da torre central e brincava de segurar a áurea esfera celestial nas mãos, mas naquela noite, sem motivo aparente, ele desceu aos porões submersos em águas marinhas – via-se o oceano através das janelas rígidas e sem trincos – para dar uma olhada nas máquinas que gostava de construir. Desejava construir uma tão resistente que nem mesmo o oceano em sua fúria pudesse naufragar, e assim, os sednianos poderiam explorar melhor o seu planeta. Apesar de possuírem uma frota de naus, armada na ocasião, se atreviam mais a navegar pelo espaço do que pelas águas de sua própria terra natal. Mal saberia ele que a descida ao porão fora sua salvação...

E sua ruína...

Um forte estrondo, e seus ouvidos foram tomados por um apito insuportável, só a isso conseguiu ouvir por longos instantes, tapou-os com as mãos e o som agudo perpetuava. Pela primeira vez em séculos, uma das janelas rachou e um fio de água salobra partiu a invadir a grande sala. Assustado e sentindo-se culpado sem nem mesmo saber o porquê, Doryan subiu as escadas como se não houvesse amanhã. Conforme seus pés corriam mais um degrau, mais fortes os tremores das estruturas eram, a rocha que lapidava o reino mantinha-se firme, contudo. Através das janelas compridas e retangulares, Doryan via raios negros e esverdeados serem lançados por ouriços de cristal negro, já estava suficientemente aterrorizado, e ficou mais... sentiu seu pé pisar numa superfície macia, não poderia ser um degrau... de fato, eram as costas de um súdito, amigo de longa data, espatifado sobre a base, a pele cinzenta de tão pálida. Doryan estancou, o ar não parecia lhe passar pelo nariz, a saliva o sufocaria, aterrada na garganta, amarga feito fel.

"O que é isso?!" uma lágrima doída escorreu-lhe a face. Pensou no pai, mas não conseguiu correr como antes fazia. Os passos pesavam-lhe como chumbo e doíam como farpas. Primeiro adentrou um corredor, viu-se diante de mais corpos. Olhou através das portas dos cômodos naquele primeiro andar e teve certeza de ali não existir mais vida. Mesmo atacado por vertigem e náusea insistiu em prosseguir porque ainda faltava uma longa caminhada até chegar ao salão circular na sacada principal do castelo.

Nos dois primeiros andares em que esteve, conseguiu assimilar os horrores que viu, nos outros as imagens se confundiram entre o vermelho sangue, o laranja intenso do fogo, o negrume das trevas e, finalmente, no salão, os orbes azuis retomaram a capacidade de compreender formas. Um espectro esbranquiçado contrastava com a escuridão inédita no céu, nuvens negras cobriram a lua por completo, e já não havia flora viva para brilhar. Doryan puxou do bolso de sua túnica uma espécie de binóculos, e embora o objeto tremesse junto às suas mãos, ele conseguiu focar-se na figura. Junto a ele, alguns sobreviventes eram telespectadores, os serviçais do banquete. A eles, pessoas desarmadas e acuadas, as violetas foscas encararam.

Sabem quem sou eu? a voz grave ecoou, e algo dourado tremeluziu no centro da testa: um olho.

Doryan, paralisado, se perguntou onde estariam os guardas que se compunham com armaduras talhadas em pedra blindada. A resposta jazia às margens do castelo, nos navios revirados, na frota naufragada, pega de surpresa pelo abate cruel.

Sou o príncipe de Nemesis a mesma voz prosseguiu , do planeta renegado e que sucumbiu à fome, ao esquecimento! à sua volta surgiram um homem em armadura dourada, duas mocinhas idênticas nos traços e diferentes nas cores, uma amazona de cabelos esverdeados banhada em sangue sedniano, um sujeito excêntrico de jaleco e um rapazote feito de azul levitavam. Os olhares vingativos por si só eram como armas, mas a pior parte ainda não se iniciara.

Doryan ouviu pisadas estridentes no chão, ele as conhecia...

"Pai!" O sujeito passou ao seu lado, entregou-lhe algo em mãos e seu corpo imediatamente voltou a obedecê-lo. Era uma pedra bruta, somente a realeza a possuía em tal forma, ou seja, ele, o pai viúvo e o irmão.

Covardes! Fizeram essa emboscada traiçoeira porque sabiam que em uma guerra não teriam condições de derrotar as nossas tecnologias! rei Dremyr continuou a caminhar adiante, mesmo que parte de seu corpo desejasse ceder ao poder de Diamante.

Interessante... o príncipe branco desceu dos céus como uma pluma a cair no concreto graciosamente. Quer dizer que você consegue resistir ao meu poder telecinético?

Dremyr ficou estático repentinamente, um cordão de pedras brilhava sobre sua roupa nobre e uma coroa sobre os longos cabelos envelhecidos pela idade. A longa barba, porém, nunca desbotara-lhe o preto.

"Pai, por que parou?!" Doryan indagava em pensamentos. O rei tinha, além da coroa, o cordão pendurado no pescoço feito em pedras brutas como a que ele tinha em mãos, portanto os movimentos não deveriam estar bloqueados.

Vão buscar suprimentos! Diamante ordenou e seus súditos desapareceram como se de fumaça fossem feitos, menos o cientista e o homem azulado. Depois, os dedos do príncipe cravaram-se no cordão de Dremyr e o arrancaram, fazendo-o em pedaços, as gemas se espalharam pelos lados, uma bateu nos pés de Doryan e ele ameaçou se mover, mas seu pai negou-lhe o direito de locomoção com os olhos. Em seguida, a coroa foi lançada longe a girar feito um bumerangue sem direção. Os dois regentes se entreolharam por segundos antes da ordem fatal Ajoelhe-se! a marionete o fez, já sob os domínios telecinéticos do Black Moon. Olhe só para você... pousou a mão sobre a cabeça do homem e pesou-a sobre os fios É como se Endymion pudesse envelhecer. gargalhou amargamente e puxou de dentro da manga uma pedra escura no formato de um punhal.

Não! Doryan desobedeceu a vontade do pai e correu em direção a Diamante. O líder da Lua Negra ergueu-lhe uma mão e com ela o impulsionou para longe. As costas do sedniano bateram-se com força contra uma pilastra amadeirada, ele sentiu as costelas estalarem e a dor foi tão lasciva que, embora ainda consciente, Doryan não conseguiu mais se mover, apenas assistir.

Seus atos o amaldiçoarão. calmo e de queixo erguido, Dremyr avisou fitando-o nos olhos.

Nascer em Nemesis foi minha maldição. Segurou o homem pelos cabelos, e imerso em fúria e ressentimento, rasgou-lhe o pescoço com a lâmina que lhe cabia. Teve de fazer um esforço a mais quando o punhal fincou-se no osso, quase a cabeça não se desprendeu do corpo agonizante. Até lá, Diamante já estava ungido em sangue. Finalmente, apenas a cabeça presa pelos cabelos enrolados aos dedos permaneceu na mão do príncipe. O corpo pendeu para o lado em tremeliques. Agora! Diamante deu a ordem e um dos lacaios presentes, o homem de jaleco a sobrevoar os céus, manuseou a cabeça e ergueu o braço para o alto. Um óvni arredondado desceu rasgando as nuvens de treva e dele brotaram seres negros como o piche, os corpos eram femininos, muito bem lapidados, no entanto, os tentáculos frenéticos às cabeças tornavam-nas criaturas horrendas. Na face do outro homem flutuante não havia expressão alguma, a indiferença cortante o definia como o frio de um inverno azul em Sedna contrastando com a fúria do tufão ebúrneo no salão.

Doryan tentava se mover, mas as articulações doíam tanto que ele quase desmaiava ao se esforçar. Até mesmo chorar era um esforço sobre-humano, cada soluço lhe custava uma pontada. A única coisa que não o permitia se render era a raiva. No azul de seus olhos a imagem de Diamante refletia, proferindo os dizeres:

Não acredito que algum de vocês viva para contar a estória, ainda assim, quero que saibam quem foi o responsável pelo fim do seu império! Eu, príncipe Diamante, me encarrego de destruir todo aquele que se puser em meu caminho, principalmente os descendentes de Endymion! uma chuva se iniciou, mas não era de água. O barulho de vidro tocando o piso soava musical, a sinfonia dos desafortunados. Junto ao sólido vinha o negro aquoso como petróleo, que assim como as medusas, sugavam a energia de tudo aquilo o que tocassem.

Uma daquelas coisas negras abraçou Doryan e o fez sentir-se ainda mais fraco. Enquanto a criatura drenava-lhe as energias ele fitava agora a cabeça esquecida de seu pai à beira da sacada. Ela sumiu de suas vistas assim que Diamante a chutou como se fosse uma bola, sacada abaixo. A raiva cega de Doryan não o permitiu perceber por trás da ira do príncipe um risco de tristeza entre as sobrancelhas.

"Maldito seja!" os dentes rangeram, na palma a pedra tilintou. Ao lembrar-se dela, cravou-a na testa do monstro que iria consumi-lo e o transformou em pó.

Diamante, não satisfeito, resolveu passear pelo salão, quase patinando sobre o sangue derramado no piso encerado, suas mãos acenderam como lâmpadas e delas fortes cargas de energia de um tom azul celeste foram destruindo tudo o que aparecia pelo caminho... pilastras, paredes, monumentos, inclusive uma estátua dourada de mulher, salva em uma vitrine onde uma porta dava entrada ao palácio – dentro jazia o farelo dos ossos da falecida rainha – e nada remanesceu. Gritos soaram enquanto o príncipe, cego e tomado por ímpetos cruéis, destruía o que podia dentro da construção incandescente. O piso do salão esquentou e as chamas persistiam em se espalhar como uma doença, o cheiro de carne queimada invadiu as narinas de Doryan e provocou-lhe tosse. Obviamente, sua presença era totalmente ignorada por qualquer nemesiano que estivesse pelas redondezas, do contrário o mestre da tragédia o teria notado ao despedaçar a medusa com rocha de Sedna. Nada mais parecia importar aos invasores além da busca por suprimento. Algumas nuances de gente indo e vindo pelos céus a carregar em naves as iguarias de Sedna, mais rancor a ser guardado no coração fragilizado do príncipe caçula. Nada sobrou das florestas suspensas, o tesouro fora saqueado...

Finalmente, ao terminar o serviço dentro da morada real, o homem nos trajes brancos pincelados pelo sangue nobre tornou a caminhar pelo salão até parar e fitar o nada. Ele sorria vitorioso, mas as mãos fechavam-se tensas, as veias ressaltavam, a testa continha um risco, os olhos arregalados vidravam-se na devastação e a lua negra, dividida pelo traço de tensão, pulsava. Doryan se perdeu nela e arrastou as unhas pelo chão...

O céu se acendeu, uma esperança se ativou, fugaz como uma estrela cadente, até o último sedniano vivo perceber que eram as explosões causadas pela chuva meteórica de negritude. Algumas torres começaram a desabar, o lugar onde ele estava em breve ruiria com o resto. O mar, agitado, batia às margens e a água logo respingaria nele. Um maremoto vinha... água com eletricidade. Se ainda restasse vida, os choques seriam golpe final, assim seria a morte dele. Viu o algoz pela última vez no intento de gravar seus traços na memória, mesmo sem saber para quê, sussurrava-lhe o as palavras odiosas que gostaria de gritar, pensava no irmão e na Terra, e na própria invalidez por não poder dar o aviso. Imaginava o fim injusto que teria o outro reino, como acontecia com o seu planeta, e tudo tornar-se-ia escuridão... Então, uma pedra negra acertou-lhe a cabeça e o mundo acabando-se girou à sua volta enquanto os olhos reviravam e suas energias se esgotavam.

Passos apressados... alguém sobrevivera afinal.

Está vivo! a voz que, pela confusão mental, Doryan não sabia distinguir se pertencia a homem ou mulher ecoou lenta. A pessoa que exclamou, em seguida, com dificuldade levantou-o nos braços e começou a arrastá-lo A próxima explosão dizimará o planeta! Você precisa estar fora daqui antes que isso aconteça!

"O covarde foi embora!" não prestara atenção no socorro ainda, pois procurava o príncipe que se esvaiu em meio ao céu nebuloso.

Você precisa sair do planeta, já! Está me ouvindo! Para onde o levo, senhor?!

Quem é você? enfim, deu atenção à criatura santa que o amparou — Esqueça, não há tempo...

Senhor, deve haver algo que possamos fazer, mas pense rápido! Uma nave pequena, qualquer coisa!

No porão... não há tempo... e, como mágica, ele se viu sobre os degraus, com água na altura de sua cintura, e estranhamente não foi eletrocutado. Poderia jurar que ao redor dele e de seu "anjo da guarda" havia uma aura azulada. Como?! tentou ficar em pé, a cabeça latejou, segurou-a em uma mão e a palma molhou. Sangue... o nervosismo o fez quase desmaiar.

Senhor! Onde?! as mãos seguraram-lhe os ombros e o mantiveram erguido Onde há um transporte?

As cápsulas... as cápsulas redondas... ele tentou explicar, inutilmente. A sua sorte foi a sagacidade da pessoa bondosa que o acolhera e também a força de vontade para trazê-lo às costas dentro da água, envolvendo-o em um campo de força, até encontrar uma plataforma mais alta onde as tais cápsulas ficavam estacionadas, ainda num nível onde o mar não tocara. Doryan tinha a vista turva, não conseguiu vislumbrar quem estava ao seu lado, notou apenas que a pessoa estava coberta por um manto escuro. as cápsulas são individuais... tateou o objeto até encontrar o local correto que deveria apertar para ele se abrir como uma flor, depois explicaria como o companheiro deveria fazer para acionar outra capsula, mas foi jogado no assento do transporte ... espere!

Você precisa viver!

Quem é você? Trabalha no castelo?! Como posso... ameaçou desfalecer, mas recobrou as forças Como posso agradecer?!

Vivendo... Assim, o senhor tira um grande peso de minhas costas.

Quem... é?!

Embora a pessoa tenha abaixado o capuz escuro, suas formas não ficaram claras, Doryan percebeu que os cabelos não eram negros, eram claros, mas não soube decifrar a cor por seus olhos oscilarem as temperaturas e os tons.

Agora! a voz alterada pela percepção do príncipe alertou, uma forte luz vinha se aproximando Salve-se, ou meus esforços foram em vão!

Em nome da boa vontade de quem o ajudou, ele disse o comando necessário para a capsula se fechar e partir. Sua última salvação era aquele meio de transporte funcionar a comando de voz, tudo projetado por ele. Lutou para manter a consciência o máximo de tempo que pôde, e através do painel observou, enquanto abandonava a atmosfera, a enorme lua se chocar com o planeta e do encontro a última explosão ocorrer como fogos de artifício dourados, roxos, azuis, furta-cor.

Partículas bateram na capsula e a giraram pelos ares, quase a nave se choca com meteoritos pelo caminho, as fortes sacolejadas fizeram Doryan segurar o vômito diversas vezes e se obrigar a engoli-lo de volta. Durante o percurso, ele pensava sobre o irmão e sobre a pessoa que o ajudou... No entanto, soou tão irreal o encontro com o desconhecido que outra memória se construiu na mente confusa, Doryan se viu a arrastar-se pelos corredores e a rolar escadas para chegar à capsula que o levou a sobrevivência, assim o príncipe se convenceu de que a ajuda fora uma lembrança criada por ele mesmo para tornar um momento tão desgastante em algo mais atenuado. No fim das contas, com ou sem auxílio de uma entidade ou anjo, o destino foi o mesmo. Ele perdera tudo em uma noite, e a culpa recaía sobre qualquer um que carregasse em si a insígnia da Lua Negra.

...

As recordações o assombraram ao estar de frente para um membro do odioso clã. A indiferença nos olhos do inimigo não se diferia tanto da postura dele no dia da chacina, e era algo que Doryan não conseguia suportar. Intenso e feroz como um cão, o sedniano agarrou o colarinho do outro e quase o sufocou, no entanto, o semblante do prisioneiro não se alterou.

— Como consegue ser tão inexpressivo?! Você não se importa com nada?! — bufou. O silêncio o incentivou a partir para a agressão. Doryan acertou um murro na outra face de Saphiro, a que permanecia intacta. O rosto do príncipe virou-se no impulso. Novamente, ele cuspiu um jato de sangue e permaneceu silencioso. — Reaja! — outro murro, nenhum grunhido — Vocês são monstros, de fato! — Doryan, estarrecido, afastou-se e sacolejou a mão, doída pela força feita. — Não valem o cansaço, não valem que eu dedique um pensamento meu! Aberrações!

— Sinto pelo que aconteceu ao seu planeta... — falou baixo.

— Sente uma ova! — suspendeu-lhe a cabeça a puxar-lhe os cabelos, obrigando-o a encará-lo diretamente nos olhos — Eu me lembro de você lá! Você não deu a mínima! Mas fique ciente, traste! Meu pai morreu por escolha própria! Ele preferiu se sacrificar a revelar o poder da pedra de Sedna! Ele sabia que Damien poderia usá-la como um trunfo diante da ignorância e impulsividade de seu príncipe!

— Meu irmão... — Saphiro completou depois de mais uma golfada rubra — o golpe do rei de Tóquio de Cristal não foi o suficiente. Ele está mais forte do que nunca. — e olhou-o diretamente nos olhos, desafiando-o.

— A força dele se esvairá enquanto o tempo passa e o irmãozinho querido dele não volta. — propositalmente apertou as mandíbulas de Saphiro entre os dedos, pressionando-os contra as maçãs recentemente golpeadas. — Será que um morto-vivo como você realmente sente dor? Ouvi estórias...

— Se nos abomina tanto, por que se iguala? Não acha que suas atitudes nesse momento são, no mínimo, monstruosas? — manteve a calma ainda que estremecesse por dentro e seu coração bombeasse o sangue alucinadamente.

— Vou lhe mostrar o que é monstruoso! Não sobrevivi para contar a estória em vão! — irado, avançou no encarcerado. Saphiro cerrou os olhos firmemente e segurou a respiração.

...

— Vocês... vocês não entendem! Eu precisava vê-lo! — Sailor Fire, relutando com a timidez natural, tentou impor-se aos companheiros de combate e mesmo ao rei.

— Deveria ter pedido permissão primeiro, Hina. — Damien punha-se no caminho à companhia de Sailor Acqua e Sailor Wind. — Você e Mizumi agiram pelas minhas costas...

— Majestade, isso não é verdade! — Sailor Ocean deu um passo à frente e explicou-se confiante — Com todo o respeito, vossa alteza deveria compreender, por ser um homem compassivo, tudo o que Sailor Fire sofreu durante esses anos, separada do homem que amava. Ela precisava da oportunidade de reencontrá-lo, apenas para dizer adeus.

— Saphiro, assim como príncipe Diamante, é nosso inimigo. Graças a eles e seu bando Tóquio de Cristal está em ruínas, percebe isso Hina? — o rei fitou-a diretamente em ares de reprovação. Em verdade, talvez através dela Damien vislumbrasse Crystal e como a rainha deveria se sentir em relação ao príncipe nemesiano. Pensar sobre isso o fazia inevitavelmente imaginar a postura da esposa no claustro, à companhia do inimigo, à mercê de sua vontade — Isso não é possível ou aceitável! — exclamou.

— Eu não posso evitar! — num impulso, Sailor Fire respondeu com tudo de si — Não mando nos meus sentimentos, e ainda assim, Saphiro não é ruim como vocês pensam! Saphiro é diferente! Eu sei que se ele pudesse evitar toda essa confusão ele faria!

— Sailor Fire, respeite o rei! — Sailor Acqua a peitou.

— Majestade, Sailor Ocean é volátil, não serve para ser a guardiã do prisioneiro. — Sailor Wind, até então em silêncio, entrou na discussão.

— Sequer você, que é intempestiva e se não fosse pela minha diplomacia, príncipe Saphiro poderia estar morto a uma hora dessas. — Sailor Ocean retrucou à altura — Você também não serve para ser a guardiã do prisioneiro.

— Enquanto vocês discutem o assunto, pessoa menos apta a ser guardiã de Saphiro está na sala com ele, o príncipe Doryan! — Sailor Nature soltou o verbo — Majestade, estamos sendo irresponsáveis ao deixarmos os dois sozinhos!

As palavras de Reiko acionaram um "clique" em Hina. A razão a abandonou e apenas a emoção foi seu guia. Empurrou Sailor Wind e Sailor Acqua cada uma para um lado numa força que normalmente ela não teria. Em seguida, correu até o convés, derreteu a maçaneta nas mãos, empurrou a porta e deu-se com Saphiro caído e Doryan em pé, pronto para desferir-lhe um chute impetuoso na barriga. A guerreira jogou-se à frente do prisioneiro e apontou suas mãos incandescentes ao sedniano. Em resposta, Doryan puxou do bolso da túnica uma lâmina prateada e apontou na direção da Sailor. Em pouco tempo, os outros defensores do reino invadiram o lugar, Damien por último. Todos abismaram-se com o embate prestes a ocorrer. Sem perceber, o corpo de Sailor Fire envolvera-se por uma aura alaranjada e asas de dragão sutilmente formaram-se às suas costas, cintilaram aos olhos de Saphiro e quase ofuscaram-lhe a vista.

— Hina... não! — ele pediu, ela não ouviu.

— Sailor Fire, acalme-se. — Sailor Acqua tomou a frente, acreditando que seus dons aquáticos pudessem abrandar a outra marinheira — Doryan, saia daqui. Já! — por segundos esqueceu-se do título do rapaz e deu-lhe a ordem.

— Mas ele não pode ficar intacto, nem impune! — furioso, rosnou.

— Doryan! Saia agora! — Damien puxou-o pela túnica e o lançou para fora da saleta — Você me envergonhou!

— Sailor Fire, recomponha-se. — Sailor Acqua insistiu e, calmamente, aproximou-se da guerreira. Ao tocar-lhe os ombros, as palmas quase tostaram por dentro das luvas e mesmo assim a guerreira não se afastou. A frieza de seu elemento aos poucos contaminou Hina e a aura flamejante se dispersou. De longe, Mizumi orgulhou-se da capacidade da outra marinheira de apaziguar o fogo.

— Saphiro... — rubra e ofegante, olhou para os lados, depois para trás e o encontrou caído, ferido e desamparado. — Saphiro! — abaixou-se e o acolheu nos braços.

— Sailor Fire, isso é traição. — Sailor Wind, drástica, acusou.

— Wind! — Sailor Ocean, abismada com tamanha frieza, espalmou a mão no ombro da outra e recebeu um olhar inquisidor em retribuição.

— E você é cúmplice. — Continuou a guerreira dos ventos.

— Não sejamos tão radicais! — Sailor Nature meteu-se.

E Marine, por sua vez, observava Hina ignorar a discussão e limpar o sangue do rosto de Saphiro com as próprias luvas. Ainda que a guardiã aquática fosse rígida, não era como Yumi, seu coração se apertava.

— Hina, que tolice... que tolice! — Saphiro praguejou em baixo tom no passo em que as luvas brancas da navegante ficavam avermelhadas ao afagarem-lhe as maçãs. Silente, ela o abraçou com firmeza e escondeu o rosto em seu ombro, amedrontada e envergonhada.

— Sailor Acqua, cuide dos ferimentos de Saphiro. — Damien entrou na sala, sério e sem levantar a voz — Sailor Fire e Sailor Ocean, me encontrem lá fora... agora.

— Vamos Hina. Vamos! — Sailor Ocean a sacolejou, ao perceber que a menina dos cabelos de fogo não largaria fácil o prisioneiro teve de apartá-la a força.

— Não... não! — Sailor Fire resmungou chorosa enquanto era arrastada, os lábios de Saphiro desenharam um "vá" em si.

A ventania uivava do lado de fora da nau, Sailor Wind acompanhou as outras duas guerreiras. No convés, ficaram Sailor Acqua e Sailor Nature com Saphiro. Sentado em um canto, desmoralizado e frustrado, Doryan observava a reunião do rei com as senshi.

— Sailor Ocean, não posso mais permitir que seja a responsável pelo prisioneiro. — Damien deu início ao sermão — Não podemos ter segredos uns com os outros nesse momento, você deveria compreender. Precisaremos encontrar outro ofício para você, e Sailor Fire... — encarou-a pensativo, encolhida e rosada de vergonha — Você teria a coragem de ferir meu irmão, seu príncipe? Você se voltou contra nós?!

— Não é isso! Eu... — as mãos fecharam-se no tecido da saia pregueada.

— Como posso confiar em você?! — Damien prosseguiu. Pior do que o desapontamento do rei era o olhar julgador da marinheira dos ventos, aliás, a fúria dos zéfiros lá fora deveriam ser trabalho seu.

— Eu sinto muito, não sei o que dizer! — abaixou a cabeça — Se for da vontade de vossa majestade, eu entrego o meu broche.

— Majestade! — Sailor Ocean abraçou a guerreira de fogo — Eu peço, perdoe-a!

— Majestade! — Sailor Wind e Doryan, no fundo, resmungaram.

Damien mostrou-se confuso e apreensivo, por segundos ele virou as costas e pôs-se a pensar.

— Eu só segui os conselhos da minha melhor amiga, majestade. — depois de um longo suspiro na busca por serenidade, Hina começou a se defender — Certa vez ela me disse que devemos lutar pelo nosso amor, e foi isso o que eu fiz, e é o que ela faria em meu lugar...

— Melhor amiga... — o rei tornou a encará-la — Crystal. — esbanjou um sorriso desgostoso e se aproximou da ruivinha — O que acha que Crystal está fazendo agora, Sailor Fire? — havia tristeza em seu tom — Acha que ela está lutando por amor? Por qual amor?

Hina se calou e fugiu do olhar do rei.

— Isso é culpa sua. — Sailor Wind apontou Mizumi e chamou a atenção de todos, intencionalmente — Você instigou essa situação, e numa hora em que deveríamos estar mais unidos do que nunca a discórdia paira entre nós! Majestade, se me permite opinar, é o broche dela que deve ser tomado!

— Você me chama de volátil, de desfrutável, pois bem! — Sailor Ocean se enraiveceu — Mesmo que eu seja tudo isso, ainda sou melhor do que você! Ao menos eu, a puta do reino, tenho alguma empatia pelas pessoas. E você?! Você é uma pedra! Não sei como alguém como você pode ser uma Sailor! — segurou-a pela gola.

— Tire as nadadeiras de mim! — Wind ralhou e a empurrou, Sailor Ocean insistiu em atacá-la, não com os poderes oceânicos, mas com os golpes de uma mulher frustrada. Yumi teve de segurar-lhe os punhos — Controle-se! — a sacudiu.

— Já chega! — Damien berrou grave — Parecem crianças, as duas! Chega!

Todos se aquietaram, a não ser o mar. Doryan encorajou-se, pôs-se de pé e aproximou-se do resto, eretos, a espera das palavras do regente.

— Wind tem razão em uma coisa, vivemos um momento crítico! Devemos estar mais unidos do que nunca! Devemos nos esforçar para trazer de volta nossa rainha, não podemos ficar brigando por motivos supérfluos ou por egoísmos! Não importa os nossos medos, não importa os nossos sentimentos, somos guardiões do reino e devemos nos dedicar a motivos maiores! Vocês compreendem isso?! — os súditos concordaram silentes com o rei — É um absurdo nos atacarmos, ameaçarmos uns aos outros! Se não conseguimos chegar a um consenso aqui, nessa nau, imaginem no momento de enfrentarmos nossos inimigos?! Hina pecou, Doryan pecou e vocês duas também pecaram, deixem já essas questões de lado! Quando o reino estiver em paz, vocês têm toda a liberdade de voltar a cultivar suas picuinhas, entenderam?!

— Sim, majestade. — Yumi e Mizumi, constrangidas, disseram juntas.

Um relógio começou a piscar no pulso de Damien, o rei recobrou a calma e abriu-o, nele surgiu a imagem de Olho de Tigre escondido nos escombros de alguma construção.

Majestade! Consegue me ouvir?!

— Olho de Tigre, que bom que está de volta. Como está a situação do reino?

Não muito boa, majestade... está um frio de rachar osso aqui! E percebi uma Black Moon fazendo patrulha pelo local, não sei o que está havendo, ela parecia procurar alguma coisa.

— E deve estar. Príncipe Saphiro está conosco, Tigre.

Mesmo?! Mas que notícia esplêndida, majestade! E como encontro o paradeiro de vocês?!

— Sailor Wind e Sailor Ocean vão buscá-lo. — enfatizou o tom nos nomes e sorriu discretamente.

Ótimo! Olho de Peixe e Olho de Águia se dispersaram pelo reino, Águia encontrou Sailor Phantom e Saturno nos túneis da cidade.

— São boas notícias, afinal. Encontre Yumi e Mizumi no porto no fim do dia de amanhã, certo?

Certo! — e a transmissão foi encerrada.

— É impressão minha ou eu ouvi a voz do meu Tigrinho! — Sailor Nature veio correndo de dentro do convés, animadíssima.

— Não é impressão, Reiko. Olho de Tigre estará são e salvo nos seus braços amanhã! — Sailor Ocean reabriu seu costumeiro sorriso e aproximou-se da marinheira dos cabelos negros. Sailor Wind, por sua vez, permanecia desconfortável naquele ambiente.

A marinheira dos ventos reverenciou o seu soberano e afastou-se da confusão de gente.

— Hina... — mais calmo, Damien direcionou-se à jovem heroína — Eu a perdoarei, não por mim, mas por Crystal. Vá ajudar Marine a cuidar dos ferimentos de Saphiro...

— Majestade?! — os orbes esverdeados tremularam de emoção — Eu... posso?

O sedniano acenou com a cabeça. Às pressas, Sailor Fire juntou-se à Acqua na pequena prisão do príncipe azul.

— Por que permitiu isso?! — Doryan inconformado, contestou em baixo tom.

— Porque aqui as coisas são assim, Doryan. As pessoas perdoam e são perdoadas, todos têm direito a uma nova chance, inclusive você.

— Eles decapitaram o nosso pai!

— Eu sei, e não me esquecerei disso. Diamante decapitou nosso pai, não Saphiro. Diamante já esgotou a fonte de chances e pagará, eu prometo. — segurou-lhe os ombros com firmeza, a imponência da promessa era digna de um cavaleiro medieval, leal e orgulhoso.

...

— Quartzy, eu preciso vê-lo! — Crystal, angustiada, tentava passar pela porta do quarto, mas a outra mulher não dava passagem.

— Majestade, o príncipe está transtornado e pode descontar as aflições em sua graça! — respeitosamente explicou.

— Mas eu poderia ajudar! Se ele deixasse eu me comunicar com as meninas, com Damien...

— Majestade, pelo seu bem, eu peço, espere!

...

Diamante andava de um lado para o outro incessantemente, a respiração arfava e os dedos sobre o queixo batucavam. Certas vezes ele passava as mãos pelo cabelo nervosamente e o jogava para trás, depois grunhia frustrado e quebrava alguma coisa que lhe surgisse à vista.

Logo quando tudo parecia correr bem e se aproximar de uma resolução, isso acontecia. Não poderia perder o seu irmão outra vez, a sua consciência não suportaria! Estava pronto para sair e procurar por Saphiro ele mesmo, mas a pisada metálica cortou-lhe as ideias subitamente.

— Topázio, o que faz aqui?! Eu ordenei que patrulhasse com Jade e procurasse meu irmão em todos os cantos do reino, lembra-se? Por que tem essa mania de desafiar as minhas ordens?!

— Meu príncipe, logo fará vinte e quatro horas de desaparecimento de seu irmão, vim reportar que não encontramos uma pista sequer de seu paradeiro e, também, sugerir algo. — o cavaleiro ajoelhou-se perante o superior.

— Sugerir algo?! — Diamante riu, não por achar engraçado, sim por considerar um disparate a audácia de Topázio — Fale de uma vez! — deu-lhe as costas elegantemente ao jogar a capa para o lado.

— Liberte Onyx. — suspendeu a face e o olhar dourado. Diamante gargalhou imediatamente. — Saphiro não está aqui, a única opção que temos a nosso favor é Onyx, majestade. Ele pode ser louco, mas é inteligente o suficiente para descobrir um meio de acharmos seu único irmão.

— Se eu descobrir que você tem alguma coisa a ver com isso eu... — foi até o outro sujeito e suspendeu-o pela capa marrom.

— Aceita minha sugestão? — insistiu. — Não acredito que tenha algo a perder.

— Pensarei no assunto! — largou-o — Volte ao seu trabalho!

— Sim, majestade. — fez a última reverência e se retirou.

O príncipe atirou-se no trono do salão, afagou os braços lapidados em cristal e apertou-os.

Topázio, embora devesse ir à cidade ou ao quinto dos infernos procurar por Saphiro, foi ao óvni obscuro, abrigo de presença ilustre.

— Está de volta... — Hematita, confortavelmente deitada em um leito qualquer, sentou-se delicadamente e ofereceu um sorriso de boas vindas.

— Vim ver se precisava de alguma coisa. — aproximou-se curioso.

— Você é muito parecido com seu pai. — tomou a liberdade de laçar os dedos nos cabelos d'ouro. — Isso me traz lembranças...

Topázio conteve os longos e finos dedos em mãos, alisou-os e percebeu a veracidade de sua textura. Como Akai e Aoi, Hematita convencia na aparência, mas ele se perguntava o que havia de diferente nela em relação às garotas.

— Onyx se gabou muito sobre você... — pensou alto.

— Não sei porque, nunca fui a melhor das mães. Mas, agora, pelo menos, sinto-me sadia. — tocou os pés descalços no chão. De pé, desfilou pelos arredores.

— Nisso somos parecidos, também não fui o melhor dos filhos... — foi a vez dele de se sentar sobre a maca.

— Não era isso o que general Aurum falava sobre você.

— Do jeito como narra as coisas, parece que tinha bastante intimidade com o meu pai. — analisou-a.

— Como é lá fora? — desconversou amena. — É colorido? — arrastou as unhas pontiagudas pelas paredes cristalizadas.

— Veja isso aqui. — Topázio tirou de dentro da armadura uma flor pequenina e leitosa.

— Oh! — ao virar-se e contemplar o pequeno milagre, Hematita teve curiosidade de segurá-lo — Mas como pode estar viva aqui dentro, onde o poder do cristal negro predomina?! — cuidadosa, aspirou o aroma desconhecido — Nunca pensei que veria uma dessas!

— Essa flor foi tocada pela aura do cristal de prata, por isso, mesmo separada da raiz ela não morrerá... Como uma flor artificial. — diferentemente de Hematita, Topázio não demonstrava simpatia pela vida prolongada. — Eu tenho que ir, fique para você.

— Obrigada pelo presente... — quando ele passou ao seu lado, tomou-o pelo braço e o fez parar. Apoiou o queixo na ombreira talhada em pedra preciosa e ouro e sibilou ao ouvido do soldado: — Você tem sido muito gentil...

Um arrepio sutil eriçou-o, encarou a mulher pálida e misteriosa como a arca de pandora, entreabriu os lábios ao vislumbrar-lhe o largo sorriso e os olhos sem brilho, tomados pelo cinzento nevoeiro que ela era. Sentiu-se atraído e estranhamente revigorado.

— Até breve. — e ela o soltou, nesse exato instante as sensações de virilidade e força se foram tão súbitas como vieram. Sem nada a dizer, Topázio se foi. Hematita, a sós, aproximou a flor dos lábios, formou um bico e inspirou suavemente as pétalas. Não existiu mais flor depois disso. As pétalas se esfarelaram, assim como o caule e tudo o que compunha a vida naquele pequeno milagre antes admirado por Olho de Peixe. Tão logo a flor sumiu, a doçura de Hematita também se desvaneceu, em seu lugar, certa morbidez tomou o posto. Ela fitou a porta por onde Topázio saiu e sorriu outra vez, mecânica, vazia, indecifrável.

...

Já era quase noite, e Crystal não tivera a oportunidade de conversar com o príncipe durante todo esse tempo. Quartzy, protetora, a manteve no quarto e a distraiu como pôde, ou pensou ter feito. Um Droid trouxe-lhes as refeições, a rainha mal tocou na comida.

— Majestade, está bem... — depois de um suspiro prolongado, Quartzy deu-se por vencida — Já entendi que não adianta a minha persistência, sua alteza não se acalmará enquanto não se encontrar com o príncipe... Temo pela senhora. — baixou o olhar.

— Diamante não me machucaria, Quartzy... — Crystal sorriu apaziguadora e levantou-se da cadeira em que sentava — E você, não fique tão apreensiva por Saphiro. Damien tem um bom coração, não fará mal a ele, acredito nisso. Encontraremos um jeito para tudo! Agora, com licença. Deseje-me sorte! — encontrou o caminho para os corredores através da grande porta.

Ao sair, engoliu saliva a tentar conter a apreensão. No fundo, estava apavorada. Não por si, mas pelas pessoas a quem queria bem. Lembrou-se dos últimos momentos divididos com o príncipe, das palavras doces trocadas. Confiou em si e em sua capacidade de amansar a fera. Só ela poderia.

A iluminação dos lustres do salão provocou incômodo nos olhos oceânicos, Crystal os piscou até se acostumar. Observou-o adiante, sentado ao trono, inclinado à frente, coluna curva, cotovelos sobre pernas, queixo apoiado nas mãos de dedos enlaçados, olhar distante e preocupado. Um pé batia insistentemente no piso, traço de ansiedade. A rainha sabia que dali viria um berro raivoso pelo menos. Atentou-se ao resto da sala, viu objetos valiosos espatifados pelos cantos. Suspirou, manteve a compostura e foi até ele. Diamante a olhou, no entanto não falou nada e também não desfez a pose em que estava. Crystal ajoelhou-se diante ele, apoiou as mãos em seus joelhos e os afagou, depois subiu os dedos carinhosos pelos braços rijos até chegar nas mãos e apartá-las para massagear-lhe as palmas.

— Nenhuma notícia de Saphiro. — amargo, contou. — Nada!

— Por que não permite que eu ajude nisso? Eu posso falar com Damien! — sorriu terna.

— De jeito nenhum! — a voz de Diamante suprimiu a dela ao passo de que ele a pegou pelos braços e puxou-a para cima. Os narizes se esbarraram. Sem muita demora, arrependido de seu comportamento, os dedos afrouxaram-se nos braços e ela obteve apoio em suas pernas novamente. — De qualquer modo, Jade e Topázio procuram por Saphiro incansavelmente, e durante essa procissão nenhum dos integrantes da Lua Branca foi visto! Eles simplesmente desapareceram! — segurou-lhe as mãos e a levantou junto consigo, retornaria a andar para os lados como um doido, entretanto a mão dela o conteve, repousada em seu peito esquerdo num afago gentil e firme ao mesmo tempo.

— Eu posso encontrá-los, Diamante. Ao menos me deixe tentar... A noite cai e o tempo passa, com ele a sua calma vai embora e eu não gosto de te ver assim, tão...

— Assustador? — perguntou irritadiço.

— Desamparado. — acarinhou-lhe a face e depois o abraçou singela.

— Crystal... — apertou-a contra si — Saphiro é minha família, se algo acontecer a ele, não serei capaz de perdoar o responsável!

— Eu duvido que coisas ruins vão acontecer a Saphiro. — roçou a bochecha no peito dele.

— Você é tão ingênua! — riu desacreditado.

— Hina não permitirá, Diamante. — fitou-o — E Sailor Fire é uma das guerreiras mais fortes do reino. — sorriu — Você não imagina como ela ama o seu irmão...

— Topázio sugeriu que eu liberte Onyx e o inclua na missão de resgatar Saphiro. — contou como quem pede conselho.

— Você acha que ele poderia ajudar? — afastou a franja da Lua que tanto a encantava.

— Ele é inteligente e perspicaz, com certeza poderia inventar uma artimanha para nos ajudar, mas... Onyx é traiçoeiro, Crystal. — conteve a mão que ajeitava os fios celestiais, trouxe-a à boca, beijou-a demoradamente, até que retomou o assunto, quase desarmado — Estou tão desesperado que considero a opção.

— Todos merecem uma nova chance, meu príncipe... Se você mudou, por que ele não pode mudar? — fechou completamente a distância entre os dois — Olhe para você... em outros tempos, talvez nem cogitasse a ideia de me escutar. Agora está tão maduro... — riu de leve.

— É verdade... — sorriu, discretamente embaraçado — e é tudo culpa sua. — enredou a cintura frágil — Essa minha... maturidade, como você chama.

— Eu só quero que um dia as pessoas consigam vê-lo com os mesmos olhos que eu... — falou entre as pausas dos selinhos que compartilhava com ele. De vez em quando uma língua ousada passava seu ápice pelo pequeno vão das bocas sedentas.

Certo como o nascer de um novo dia, o príncipe e a rainha transformaram os beijos curtos num prolongado. Diamante, suplicante, segurou a nuca de Crystal com firmeza e a inclinou para trás. Quase se asfixiou na tentativa de, por milésimo minuto, esquecer as atribulações e usufruir do lado bom de sua vida. Ela retribuiu à altura e o aqueceu naquele momento em que tentaram parar o tempo. Todavia, a preocupação do Black Moon não tardou a gritar e envenenou o romance. Ele separou os lábios dos dela, respirou fundo e olhou para o nada, seus olhos transpareciam consternação. A regente de Tóquio de Cristal encaixou nariz e boca na curvatura do pescoço dele, os braços e mãos deslizaram por suas costas, por baixo da capa, Diamante respondeu com suspiros pesarosos.

— E Quartzy? — ela perguntou — Por que não pergunta a opinião dela sobre isso?

— Quartzy... é mesmo. — semicerrou os olhos, a cabeça apoiada à dela.

— Quartzy conhece Onyx há mais tempo, e Quartzy é uma pessoa honesta, de bom coração! — massageou-lhe os ombros e comentou com animação na voz — Vamos falar com ela, vamos! — puxou-o pelas mãos com empolgação, balançando os braços e dando pequenos pulos.

— Você diz que eu amadureci, mas você... eu não tenho muita certeza. — arqueou uma das sobrancelhas claras e bem desenhadas.

— Ah é?! — exclamou em tom de resmungo — Tá bom então! — largou as mãos dele e, forçando uma postura elegante, foi à frente.

— É, definitivamente... — contendo um riso a seguiu — você ainda é uma menina! — abraçou-a por trás, de supetão.

— Não, não, não! — diferentemente dele, ela tentava conter, mas o riso escapava — Não se faz essas coisas com meninas! Ei, para! — protestava enquanto ele beijava seu pescoço, suas orelhas e seu rosto, também aos risos.

"Só ela para me distrair em uma situação como essas..." — Constatou, e deram os braços e teletransportaram-se para o cômodo onde Quarty esperava pelo retorno da rainha.

— Majestades! — a jovem dos cabelos rosados se surpreendeu com as presenças repentinas.

— Quartzy, precisamos conversar. — um Diamante mais civilizado se manifestou, para o alívio da súdita.

...

O som das vagas se encontrando era funesto, lembrava-o de sua terra natal. Respirou o ar salgado e abraçou a si próprio, o clima era frio, a noite era estranha e escura, apesar das estrelas pinceladas no céu.

— Está mais calmo? — Sailor Acqua se aproximou.

— Deixou aquela garota sozinha com o prisioneiro?! — Doryan levantou a voz brevemente.

— Sailor Nature está com ela... e seu irmão também. Nesse momento, príncipe Saphiro está sendo alimentado. — parou ao lado dele.

— Não consigo ter a mesma frieza que meu irmão nesse assunto, talvez por eu ter assistido a execução de nosso pai e ele não.

— Entendo você, príncipe Doryan, de verdade. — tocou-lhe o ombro — No seu lugar, não sei dizer se eu teria agido diferente, não posso julgá-lo.

— Então por que não me defendeu, Sailor Acqua?

— Porque entendo também como é importante para o seu irmão, o rei, que Saphiro esteja bem no momento de troca. Percebe? Saphiro ter caído em nossas mãos foi um golpe de sorte. A verdade é que talvez nunca tivéssemos forças para sozinhos, sem a pedra mística, retomar o palácio e resgatar a rainha. E seu irmão não gostaria de recorrer a forasteiros, ele quer envolver o menor número de pessoas possível nesse conflito. Sabe por quê? Porque rei Damien não suporta a ideia de sacrificar vidas por uma causa, ele não gostaria de carregar esse peso nas costas, preferiria sacrificar a própria ao invés disso... — enquanto falava, as estrelas azuladas refletiam em sua face, tornando o azul de seus olhos e uniforme mais intenso e o dourado de seu cabelo gritante. Doryan prendeu-se nas cordas lisas de ouro, finas e aveludadas.

— Fala de meu irmão com tanta admiração... — observou.

— E eu o admiro, acredito com todo o meu ser que rei Damien foi o responsável pela salvação de um reinado que iria decair nas mãos de rainha Crystal sozinha. Ela tem boas intenções, mas não é madura o suficiente. Assim como Hina, Crystal põe seus sentimentos acima de suas obrigações e falha com seu povo... — privou-se de continuar a dissertar sobre o assunto e preferiu resumir — Um bom coração, somente, não é o suficiente para conduzir um reino.

— Você não gosta da rainha?

— Não é isso... — baixou a vista para seu reflexo desconexo nas águas — ela é como uma irmã mais nova para mim, tenho muito apreço e cuidado por ela. É só que, ela tem boas intenções, mas é tão vulnerável e tão... cega! — riu — Me desculpe, não sei porque falo essas coisas para você, príncipe. Você já tem muitas preocupações.

— Eu mal conheço a mulher de meu irmão, passei anos em sono profundo. Isso me aflige, mas pensei que fosse apenas algo entre eu e eu mesmo, só que, pelo que vejo, você também está aflita. Me diz, por quê? — virou-se de frente para ela.

— Príncipe Doryan, — segurou-lhe as mãos — Todos estão aflitos. Devemos evitar o que aconteceu hoje, não podemos ter brigas internas, devemos estar unidos. Promete que vai se esforçar como eu me esforço? Promete, pelo seu irmão, o rei?

— Por ele... — algumas madeixas de Marine, levadas pelo vento, tocaram-lhe os braços e roçaram-lhe as maçãs. Doryan conseguiu cativar uma, cuidadoso percorreu os dedos pelo ouro inédito. Ao menos a curiosidade por saber como era o cabelo de uma terráquea ele supriu, e era lindo no fim das contas — E por você. — sorriu levemente corado.

— Muito bem. — desconcertada, tomou uma distância segura — Então siga-me, pois o rei quer nos falar no andar inferior da nau. Você tem uma missão a cumprir, lembra? E eu gostaria de ver como funciona o seu trabalho com a rocha sedniana...

— Me sentirei honrado em fazer isso em sua presença — mais calmo, acompanhou-a — Marine. — sorriram juntos, cerimoniosos.

...

Onyx, adaptado à escuridão, vislumbrava perfeitamente o seu braço descontrolado, o de carne e osso. Os dedos tremiam para lados diferentes, mal articulados, a mão parecia desejar atacá-lo, matá-lo. Ele ouvia vozes conhecidas, de seus pais aos berros. Cobria as orelhas com as mãos e gemia, aquilo não parava, tinha a impressão de que as paredes iriam derreter... era a abstinência! Não havia mais nada de cristal negro para ele consumir, às vezes suas veias ressaltavam-se negras e ele quase caía de boca nelas para tomar o próprio sangue. Não seria o suficiente, ele sabia. Então, sentado num canto, seu corpo escorreu e deitou-se em posição fetal, o cientista embalava a si próprio como uma criança assustada e proferia palavras incoerentes em sussurro, talvez fosse a sua forma de orar para qualquer tipo de entidade.

De repente, a porta de seu cárcere abriu-se devagar e ele comprimiu os olhos, tomado por enjoos e pavor, aos poucos compreendeu uma silhueta feminina em pé à porta, ela se aproximou e ajoelhou-se ao seu lado. Prestou atenção nas formas, na saia de tule redonda, cheia. A pisada coreografada...

— Quartzy! — segurou-se na saia, quase a derrubou sobre si — Quartzy! Não é uma miragem? Não! Não! Estou enlouquecendo! Não é real! — gargalhou rasgado — Não é real! — estirou as pernas e debateu-as, as mãos cravaram-se à cabeça.

— Acalme-se! — ela o abraçou como uma mãe abraçaria um filho doente.

— Está tudo na minha cabeça, é tudo coisa da minha cabeça! — ele insistiu — Mas ela, ela é... ah, sim! Ela é!

— Ela quem?

— Mãe, não é real! Mãe, não é real, mãe!

— É real. — outra silhueta à porta, dessa vez um homem. Os orbes âmbar quase saltaram da órbita ao percebê-lo — Você terá mais uma chance, a derradeira, de provar a sua lealdade a mim.

— Príncipe Diamante! — jogou-se aos pés dele — Eu faço qualquer coisa, qualquer coisa!

Continua...

Notas finais
O título desse capítulo é uma provocação. Depois de tudo o que vocês leram, o que acham? Todos merecem uma nova chance? Quem odeia Diamante vai odiar mais ainda, penso eu. E Onyx? Esperem para ver muito dele no próximo capítulo! Observação: embora o planeta Sedna exista, tudo o que narrei sobre ele aqui é ficção, certo? Inclusive o tal do mineral que vocês sabem qual é, eu inventei porque tenho uma cabeça meio maluca mesmo... hehehe (já disse isso, mas não custa repetir) Espero que tenham gostado, estou ansiosa por opiniões! Kissuuuuus!