A Minha Queda Será Por Você
52 Sonho Azul
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 52 – Sonho Azul
Diamante, depois de abandonar Onyx com seus fantasmas, regressou à sala do trono e anunciou a mudança dos súditos para o Palácio de Cristal. Não tocou no prisioneiro, por enquanto, revelou sobre a sua condição apenas ao irmão mais novo, em quem confiava, não suspeitou que certa curandeira estivesse a ouvir a conversa por de trás de uma pilastra negra. Saphiro, no entanto, sentira-lhe a presença. Quando o Príncipe Branco abandonou o óvni ao lado de Jade, o Azul caminhou afoito até a coluna e puxou Quartzy pelo braço antes que ela pudesse fugir.
— O que significa isso? — cobrou-lhe a resposta, a mão apertava a pele e rosava-a. Os cabelos róseos cobriram parte do rosto assustado e ela gemeu, dolorida — Desde quando ouve escondida as nossas conversas?!
— Me desculpe, príncipe! — encolheu-se trêmula — Me desculpe! — insistiu.
— Para quem você conta? Com quem você conspira? Com aquele louco por acaso? — segurou-a pelos ombros e fê-la encontrar seus olhos ariscos, sofridos...
— Você sabe que não conto a ninguém! Me magoa vê-lo desconfiado de mim, Saphiro... — chamou-o pelo nome pela primeira vez, surpreendendo-o. Os olhos lilases tremeluziam ternos — Há tanto que sei e nunca abri a boca para contar, nem abrirei! Sou leal a você.
— O que fazia escondida, me ouvindo? — as mãos enluvadas escorreram dos ombros estreitos e libertaram-na. Quartzy corou feito em brasa.
— Às vezes, eu o sigo... — revelou e deu-lhe as costas, embaraçada — Não é para bisbilhotar! É só... — pousou as mãos a frente do peito arfante, queria conter o coração precipitado. Ouviu passos se aproximando, ele estava a poucos centímetros, à espera. — Você não tem um palpite? — sussurrou. O silêncio de Saphiro respondeu por si. Ele não fazia ideia. Quartzy sorriu, em parte por alívio, em parte por ter alguma esperança, por mais remota que fosse. Lembrou-se, então, das palavras da rainha sobre Hina, lembrou-se também do que Saphiro lhe contara em Nemesis quando a dupla se reunia, ouvia música e devaneava sobre a Terra. A bela jovem dos cabelos cor de fogo que aquecera o coração do príncipe caçula durante sua estadia no reino utópico – assim Quartzy a tinha em mente. De repente, o sorriso murchou e seus traços adquiriram tons melancólicos. — Príncipe... — voltou-se de frente a ele e curvou-se — Perdoe-me por ser tão curiosa, você tem a minha palavra de que tudo o que ouvi sobre Onyx ficará guardado, não revelarei a ninguém. Mas, se seu desejo é me punir, que assim seja. — baixou a cabeça pronta para receber qualquer castigo. Novamente, seus ombros foram aquecidos pelo tecido macio das luvas azuladas. Dessa vez, sem o peso da suspeita.
— Quartzy, você é tão boa para mim... — fitou-a dócil, a desconfiança se dissipou como uma miragem no deserto — Aliás, você é boa. O seu coração é puro. — constatou — Não, você não seria capaz de fazer mal a ninguém, eu sei. Sei também que deve estar com pena daquele sujeito. — acertou, ela estava — Mas, sou eu quem está pedindo, não faça nenhuma bobagem. Não deixe que sua piedade a condene. Aqui, ninguém perdoa... — certo assombro encobriu a última frase. — Vamos, — tornou ao normal — meu irmão espera a todos na nova morada. Enfim, realizamos um de nossos sonhos. Você finalmente conhecerá o Palácio de que tanto falei! — terminou com um sorriso, porém, Quartzy via além daquela carapaça uma tristeza de quem tomara uma difícil decisão, e sabia também sobre o que era a escolha.
— Príncipe, — tocou-lhe a mão com pouca cerimônia — eu rogo, também não faça nenhuma bobagem...
Ele fingiu não entender, mas sabia do que se tratava o conselho. Não voltaria atrás, pensava. Não falaram mais, apenas se foram juntos, como os grandes amigos que eram.
...
— Haunted Hands! — Visto que o outro ataque, Ghost Dance, não funcionara, Sailor Phantom apelou para as forças abissais. Por dentro das fendas que se abriram no piso arruinado, as mãos fantasmagóricas surgiram e buscaram pela pele de Aoi. Ao redor, os postes que ainda possuíam iluminação oscilavam incessantemente. Os olhos da marinheira do submundo sequer piscavam, o corpo quase abandonava o chão. A luz azul a envolvia, fria e mórbida.
Os orbes negros da oponente mantinham-se bem abertos e risonhos, de vez em quando ela gargalhava como uma criança alegre. Esquivava-se com graciosidade, em rodopios nos ares. Cruzava os braços a frente do rosto, e quando os esticava para os lados, mais rajadas negras e cortantes ela lançava na direção de sua presa. Dessa vez, Valkyria não foi rápida o suficiente para escapar ilesa. A perna esquerda sofreu um corte largo e profundo acima do joelho. A marinheira urrou de dor e rolou pelo chão, as mãos apertaram o ferimento, as luvas brancas em breve tiveram as palmas manchadas de vermelho. Aoi aproximou-se curiosa, um dedo indicador encaixado ao queixo e a cabeça levemente curvada para o lado. Antes que tivesse a chance de acertar o golpe derradeiro, uma pedra atingiu-lhe o topo da cabeça.
— Ai! — resmungou e virou-se para ver de onde vinha. Não tão distante estava um homem raivoso como um lobo selvagem, um dos olhos era coberto por um negro tapa-olho. Os cabelos revoltos dividiam-se em várias mechas desarrumadas. Aoi riu e concluiu que era: — Um pirata! — apontou-o.
— Hakaru, o que está fazendo aqui?! — Sailor Phantom desaprovou o ato imensamente — Isso não é assunto seu!
— Você é assunto meu! — catou mais pedras no chão empoeirado e prestou-se a tacá-las em Aoi. Mas que mira! Se a Lolita não fosse ágil e amparasse todas com as mãos, Hakaru certamente teria acertado-lhe a testa inúmeras vezes.
— Sai daqui! — Aoi tacou de volta as pedras, acertou algumas, outras rolaram pelos escombros. Não tinha interesse algum em civis, sua missão era liquidar com as Sailors, bem se lembrava. Virou-se de volta a Sailor Phantom, de pé e cambaleante — Minha luta é com ela! — enquadrou a outra com as mãos e deu-lhe uma piscadela brincalhona — Hi, hi, hi!
Sailor Phantom desembainhou a espada, Aoi viu-se refletida na lâmina colorida.
— Isso vai ser divertido! — bateu palmas animadas e, aos pulos, direcionou-se ao fio da arma mortal.
Que criatura rápida! A lâmina afiada quase lhe atingiu as costelas, então Aoi se abaixou, passou por baixo do corte e saltou por cima dele, aos giros. Atingiu Valkyria com um dos pés e derrubou-a. Antes que a defensora do reino pudesse se levantar, o mesmo pé pousou sobre sua barriga e tirou-lhe o ar. Aoi ergueu a mão aberta e mirou a marinheira, na palma, uma esfera negra se materializou e tratou de cair, como um cometa, acima da Guardiã dos Mortos. Sailor Phantom protegeu-se com a espada à frente. A esfera se desfez em raios que circularam a lamínula afiada, envolveram-na num pequeno tornado, antes que Valkyria perdesse o controle da arma sacudiu-a na direção de Aoi e ricocheteou os raios. A Black Moon foi atingida em cheio. Seu corpo pareceu entrar em curto, os olhos negros oscilaram entre o preto e o arroxeado, ela pensou ver alguém igual a ela, mas de vermelho, chamando-lhe o nome. Caiu de joelhos, arfante, pôs as mãos sobre a cabeça, tudo enegreceu na mente, menos a imagem de um homem pálido, olhos âmbares, e cabelos negros como as noites nemesianas. Tornou a ficar de pé, mesmo tonta, fechou os punhos e dobrou os joelhos, pronta para lutar. Sailor Phantom ainda empunhava a espada, não parecia se importar com o sangue banhando-lhe a perna.
— De todas as Sailors, a última com quem deveria mexer sou eu, criança. — os cabelos lisos e escuros bailavam ao ritmo da brisa cortante e mórbida, a espada se banhava na luz índigo fantasmagórica. Aoi pensou ver atrás da guerreira o espectro de um homem. Hakaru, adiante, observava-a orgulhoso. Os postes faiscaram outra vez, algumas pedrinhas sobre o piso flutuaram. Aoi ouviu uivos, gritos chorosos em ecos distorcidos. Olhou aos lados, não havia nada além de um céu nublado e névoa branca espalhando-se pelo cenário — Ouça o lamento dos mortos, em breve o seu se unirá aos deles! — No meio do véu branco da neblina, Valkyria camuflava-se, a vantagem era sua. Rápida como um raio, enterrou a espada na barriga da Ágata e a girou. — “Está feito!” — pensou, mas a espada não respondeu como deveria.
Era sabido que aquela arma possuía em si o poder de sugar a alma daquele a quem cortasse, porém, Aoi afastou-se, a segurar a lâmina em mãos, e, sem demonstrar sofrimento pela grave ferida, arrancou a espada de si e largou-a displicentemente no chão.
— Era para doer? — perguntou, inocentemente. Valkyria podia ver a face surpresa de Hakaru através do pequeno rombo criado no ventre de Aoi, quase um risco. Onde estava o sangue? Não havia nada...
— Não é possível! Você não pode ter sobrevivido à lâmina dessa espada! Ela suga a alma de quem corta e guarda-a nela! — então, os olhos arregalaram-se diante da constatação dilacerante — A menos que você... não possua uma...
— Alma? — Aoi arqueou as sobrancelhas mecanicamente — O que é isso?
Ataque. — uma voz estranhamente conhecida e temida ecoou nos resquícios de sua consciência, seu rosto perdeu a expressão e a jovenzinha tornou a atacar instintivamente. Sailor Phantom, atônita, se viu paralisada diante das rajadas negras que a cercavam. Hakaru, mais próximo do que ela se lembrava, a empurrou e recebeu nas costas um ataque direcionado a ela. O grito do homem ecoou por todo o perímetro, agonizante, em seguida, como um escudo, o antigo rebelde caiu desacordado sobre ela.
— Hakaru?! — Valkyria o abraçou, apalpou-lhe os ombros, não houve resposta. — Hakaru! —gritou-lhe o nome em amargor profundo, depois se deu com a inimiga de pé, acima dos dois, sorrindo. Sailor Phantom enrijeceu, pousou ao lado o home desacordado, e, num rompante, uma forte ira dominou seu corpo. Antes que Aoi pudesse se mover, algo a segurou, eram braços transparentes, diversos.
— O quê?! — As luzes dos postes, tais quais as janelas de prédios próximos, começaram a explodir. Adiante, Valkyria tremia e grunhia como se estivesse a incorporar alguma entidade de outro mundo. Os olhos de Sailor Phantom perderam a cor e ficaram completamente esbranquiçados. — Mas o que é isso?! — Tremeu como uma criança que teme o monstro do armário.
...
Quartzy não sabia bem como se sentia dentro daquela fúnebre construção em ruínas. A claridade a assustava, pouco conhecera sobre o marfim e o cristalino na vida. E as pinturas, as esculturas das antigas guerreiras e das atuais, dos regentes, todos tão inalcançáveis e santificados, impunham-se sobre sua pequenez. Aquelas paredes, janelas e cúpulas luxuosas todas contavam uma epopeia. Era de se estranhar que tantas obras de arte tivessem sobrevivido ao cruel ataque. Ainda que cristais pontiagudos atravessassem paredes, pareciam ser um adorno e não infortúnio. Das janelas, os orbes tristonhos avistavam as árvores secas. A irmã adotiva de Ametista fechava-os e tentava recompor na memória a imagem que tinha de jardins – pintados em guache e aquarela, esverdeados e vívidos – e ela se perguntava, saudosa de algo que não conhecia: um dia veria o verdadeiro verde?
— Chegamos. — Saphiro à frente, depois de tê-la mostrado quase tudo, conduziu-a ao salão real. Ali, Diamante os esperava, sentado confortavelmente no torno que pertencera a Endymion, depois a Helios, e a Damien. Topázio, curvado diante do aparelho de holografias, tentava entender como a geringonça funcionava. Saphiro, em poucos instantes, resolveu a pendência e a imagem se materializou: Aoi tentava escapar das pedras flutuantes que a tinham como alvo. E, distante, Sailor Phantom, de braços abertos, consumia uma infinidades de espectros, fortes ventos a circulavam e mantinham-na guardada no frio sopro da Morte. Aos poucos, a guardiã flutuava estática, os postes sem iluminação entortavam-se como colheres amaciadas pelos dedos de um telepata.
— Incrível! — Jade, encostada em uma parede, descruzou os braços e aproximou-se da cena bizarra.
— É mais poderosa do que eu imaginava... — Diamante analisava-a, lembrando-se de quando conhecera a solitária Sailor Phantom. — Se não for parada, ela mesma se encarregará de acabar com a cidade. — coçou o queixo, pensativo.
— Inútil. —Topázio rosnou referindo-se à Aoi, jogou a capa cor de barro para trás e deu as costas.
— Aonde pensa que vai? — Diamante abordou-o — Seu lugar é aqui, à minha vista.
— Do que se trata isso? — irritado, o cavaleiro dourado estufou o peitoral da armadura reluzente e encarou o líder do clã.
— Ainda não conversei com você sobre um assunto de meu interesse. Portanto, fique. — havia um embate de olhares hostis, não se sabia quem venceria.
Estavam todos tão absortos em diferentes conflitos, internos ou externos, que não se deram conta do que se passava em alguns andares acima, num quarto de princesa, protegido por anjos pintados no teto circular. Os cotovelos de Crystal afundavam-se na seda que cobria o leito, amarrotada e envelhecida, quase lascada. Ela permanecia a sussurrar uma prece, e enquanto inundava-se de um desejo e uma crença otimista, a aura ebúrnea a abraçava, quase confundia-se com braços gentis. Uma aparição, tão sutil, que a rainha cativa só percebeu quando ouviu o sussurro:
— Estou aqui, como sempre... — a voz dos sonhos, que confundia-se com a dela própria, anunciou-se.
— Vovó... — de olhos fechados, sorriu, sentindo-se agraciada e ao mesmo tempo confusa. Dividia-se em contentamento por senti-la perto, e em confusão por temer que, na verdade, fosse apenas ela falando consigo mesma. E até onde ela própria se diferia de Nova Rainha Serena, mesmo? Por tantos anos se fez a imagem dela que era incapaz de saber até que ponto ainda era Crystal — “Diamante” — o profundo amor que sentia por ele sempre a resgatara e trazia à tona sua identidade. Um amor assassino, porém salvador. Os dedos, enlaçados, apertaram-se trêmulos. A luz afagou-os em forma de mãos cuidadosas.
— Você me evitou durante tanto tempo, mas estive aqui, olhando por você, por nós duas.
— Como pode dizer que a evitei se tudo o que fiz todos esses anos foi agir como se eu fosse você?! — indagou em tom de indignação melancólica — Me ajude, por favor! — suplicou e afundou o rosto na camada clara de pano, empoeirada e sedosa. As mãos seguraram a maciez do tecido e apertaram-no, amassando-o mais do que já o estava. O broche em formato de coração rolou até tocar-lhe a testa, como se alguém o empurrasse de encontro a ela, Crystal subiu o olhar abatido à peça brilhante, cuja pedra no centro cintilava em diferentes cores, como um: — Arco-íris...
— O Cristal de Prata e o Cristal Dourado uniram-se por suas mãos, você é a guardiã do amor e dos sonhos, isso a faz também guardiã das esperanças, não só suas, mas de todos os que a rodeiam. Seus pais, seus amigos, seus inimigos, e, até mesmo, o homem a quem você tanto ama. — As madeixas douradas e preciosas a enredaram quando a mulher endeusada surgiu à frente, sempre a sorrir, e ergueu-lhe as mãos.
— Mas, vovó, como você pode ver, estamos envolvidos pela energia maligna do Cristal Negro, meus poderes estão anulados aqui dentro, estou fraca... — hesitou.
— Onde está a verdadeira força, Crystal, lembra-se?
— Mas... — as mãos tocaram-lhe a face, aqueceram-na. A insígnia de Lua Crescente alumiou a testa e a franja castanha, os cachos sobre as orelhas balançaram-se e os orbes oceânicos dilataram-se diante de uma visão: o sofrimento de uma garota de cabelos azuis e o de uma mulher órfã de pai.
— Onde está a verdadeira força, Crystal? — uma das mãos cálidas tocou-lhe o busto palpitante e esquentou-lhe o coração.
A luz que começou como um simples contorno esbranquiçado, emancipou-se pelo quarto e escapou pelas janelas, correu pelos corredores e dançou pelos jardins.
Enquanto isso, no que restara de um campo de batalha, Hakaru recobrou a consciência e vislumbrou a sua conhecida de longa data completamente perdida. A seguir, um bloco de pedras e pernas à mostra, debatendo-se. Ainda que parte do corpo jazesse esmigalhada por baixo dos escombros, os olhos de Aoi mantinham-se abertos, a boca tentava exprimir qualquer coisa, apenas gemidos lhe escapavam.
— Valkyria, já chega! — Hakaru levantou-se com dificuldade, tentou contê-la, e seu corpo foi arremessado longe. A Sailor continuava a contorcer-se em agonia. Os urros mortificados de mais de mil almas escapavam de sua garganta, naquele instante, mortos andavam por entre a gente e ela era a ponte. — Valkyria! — Hakaru insistiu em se aproximar.
— Fique longe! — a voz, alterada, porém reconhecível, alertou-o. De nada adiantou, em passos sôfregos ele se aproximava. E, à frente, a criatura sobrevivente conseguia se livrar de algumas pedras e arrastava-se para longe.
— Não dói... — Aoi refletia, algo dentro dela dizia não ser certo não sentir os impactos sobre o corpo, no entanto, sentia um aperto em algum lugar abstrato, não saberia medir o tamanho da angústia, da sensação de falta. O que faltava? O que supriria aquele buraco? Outra pedra atingiu-lhe as costas, depois um poste que lhe caiu transverso. Não doeu, não houve sangue a jorrar, apenas um líquido negro.
— Se Onyx estivesse aqui, poderia usar o comando de autodestruição — Topázio comentou ao assistir o fim deprimente de Aoi — e assim se matava dois coelhos em uma cajadada só.
— Vocês não viram aquilo?! — Quartzy se referiu a um feixe de luz que viu passar pela fechadura, mas ninguém lhe deu ouvidos, ninguém além de Saphiro que procurou pelos vestígios de algo diferente.
— E como Onyx usava esse comando? — Diamante se sobrepôs ao comentário de Quartzy.
— Através do controle dele. — Topázio respondeu sem pausas.
— Este aqui? — Diamante tirou o objeto esférico de dentro do colarinho. Topázio, assombrado, estancou. — Como será que se faz?
— Aperte o botão lateral... — sem perceber, no modo automático, o cavaleiro revelou e assustou-se consigo mesmo. O largo sorriso do príncipe provocou-lhe arrepios que ele não demonstrou por orgulho.
Diamante, seguro, apertou o lugar indicado. O corpo de Aoi, mesmo dilacerado, ergueu-se e ela elevou os olhos ao céu, neles a imagem de um pássaro negro se refletiu, uma das largas penas deixaram o corpo esguio para caírem nas mãos estremecidas da menina. A voz, outra vez, repetiu-se e falou por sua boca. O minuto final iniciou-se, e através dela, de novo, viu outra menina, idêntica nos traços, diferente nas cores, pronunciando a frase final. Lágrimas arderam no rosto artificial, o negrume dos olhos escorreu junto ao choro soluçado.
— Não tem que ser assim! — uma voz diferente, doce, soou dentro de Aoi, como se a afagasse por dentro. Era outro tom que ela sentia conhecer. Fechou os olhos e viu, sabe-se lá onde em sua consciência ou fantasias, uma mulher de longos cabelos castanhos, cujas asas angelicais a abraçaram. Para a surpresa de Aoi, ao menos a voz, não só ela ouvia, mas também Hakaru e mesmo a descontrolada Valkyria pareceu recuperar parcialmente o controle do corpo, a prova disso era a capacidade de abraçar a si mesma para tentar conter-se. — Aoi, pequena Aoi, você é boa, e sua irmã também era!
— Você, eu te conheço! — riu e chorou ao mesmo tempo — Sei que te conheço! A sua voz me passa tranquilidade e segurança... Você é... a rainha! — os orbes arregalaram-se, ela se lembrou, aos poucos, enquanto o que restara dela mesma iniciava a brilhar em processo de combustão — Você me contou histórias lindas, que para onde quer que eu vá quando isso tudo acabar, carregarei comigo! — as mãos penderam, através dos buracos que atravessavam o tronco bem talhado o lume se concentrava, pronto a explodir — Se é que, uma coisa como eu, vai para algum lugar quando a vida expira. Alguém sem uma alma pode ir para o céu ou para o inferno, majestade? — sorriu conformada com qualquer destino que viesse, até que, diante de si, viu algo que imaginava impossível – a imagem de sua irmã, de braços abertos, e, sobre o peito alaranjado um espelho de moldura rosada com um laço lilás adornando-o no topo — Akai! — gritou, a outra respondeu com um sorriso sapeca.
— Akai tinha sonhos. E você, Aoi? — a voz de Crystal soou melodiosa e reverberou além do alcance daquele trecho destruído e abandonado. Naquele instante, a menina meiga e inocente viu escapar de seu peito escancarado um espelho semelhante ao de Akai, nele se refletiu a imagem de duas meninas, pequeninas, brincando como quaisquer crianças comuns fariam, na Terra. Chorou copiosamente, não de tristeza, e sim de uma alegria intangível. — Se você tem sonhos, você tem uma alma. — no espelho de Akai, as duas partiam juntas, de mãos dadas, para um lugar melhor.
Enfim, antes que aquele corpo lapidado pelas mãos de dois criadores cheios de malícia explodisse, a alma transparecida de Aoi escapou-lhe e caminhou em direção à outra alma, a sua gêmea. Deram-se as mãos e subiram aos céus como duas esferas da cor da água e do fogo, todavia, não foi o céu seu destino final. Os orbes luminosos e risonhos partiram além, ao mundo onde os sonhos mais bonitos são guardados. Helios, Diana, Rini, Olho de Tigre, Olho de Peixe e Olho de Águia contemplaram Elysium alumiar-se com duas novas presenças, tal como acontecera com o Trio Amazonas há muitas luas atrás. Diana, então, entendeu o que se passava: um milagre!
— Um milagre! — Hakaru repetiu o pensamento em voz alta quando viu as nuvens fugirem assustadas e revelarem um céu azul digno de verão, o sol, tornou a brilhar, ao menos por instantes, e, encurralada por escombros, uma pequena flor azulada cresceu em passe de mágica. A presença de Crystal desapareceu, o frio tornou a rugir, ainda que o céu já não parecesse conter em si uma nova tormenta. O corpo mecânico de Aoi, ao invés de explodir, desfez-se em pó místico e perdeu-se no meio do vento.
No palácio, as testemunhas do acontecimento surpreendente não proferiram uma interjeição de espanto. Ficaram atônitos, catárticos. Diamante, assim que saiu do transe, correu ao quarto onde guardara sua rainha. Escancarou as portas e deu-se com ela caída sobre a cama, em uma das mãos fechadas sobre o peito o broche brilhava em tons de dourado. Sim, ela fizera aquilo! Mas como?! Diamante tocou-lhe a face febril, apertou-lhe as mãos, Crystal estava em sono profundo. Tentou tomar-lhe o broche, mas uma forte carga de energia o repeliu. Afoito, correu até a janela e quase caiu sentado diante da cena: o jardim, todo, recuperara a vida, ainda que a barreira negra envolvesse os limites dentro e no entorno do Palácio de Cristal. Não só ele, mas os outros integrantes de seu clã logo se aperceberam do estranho ocorrido. Todos desceram aos jardins e admiraram os mais diversos espécimes de plantas, árvores e flores que embelezavam e perfumavam o lugar. Quartzy, entorpecida, jogou-se sobre a grama, pegou alguns fios em mãos e aspirou o aroma da terra fresca, depois correu pelos campos, afagou flores e deitou-se entre elas. Saphiro a seguiu e sorriu satisfeito ao finalmente vê-la feliz. Ela merecia.
Jade, disciplinada, caminhou devagar, estranhou a textura macia do chão onde pisava, parou de frente à uma árvore e tocou-lhe o tronco, uma borboleta amarela pousou sobre seus dedos e passeou sobre eles. A amazona trouxe-a mais para perto dos olhos e contemplou-a voar longe.
— Senhorita Ametista teria gostado tanto de ver isso... — em um suspiro, Quartzy refletiu.
— De algum lugar, sei que ela vê. — Jade tentou abrandar o sentimento de luto que sabia que a amiga ainda carregava. Ajoelhou-se diante dela e tocou-lhe os ombros. Quartzy a abraçou. Ambas sentiram-se repentinamente aquecidas por um súbito amor. Não o sentimento carnal e passageiro, era algo maior, não somente uma pela outra, mas por qualquer coisa que fosse viva. Jade, então, virou o rosto para trás e encontrou os olhos dourados fitando-a de longe, confusos, assustados e curiosos. Sorriu-lhe, e assim assustou-o ainda mais.
Topázio, sentindo-se esquisito, saiu logo de lá. Algo nele não aguentava vislumbrar tanta beleza de uma vez só. Arfante, fugiu. Escondeu-se no laboratório de Onyx, passeou por cada ambiente de lá até dar-se com a pedra principal do Cristal Negro dentro de um forno, e mesmo a gema preciosa feita de Trevas, de algum modo, parecia comportar-se como todos, havia nela um pequeno ponto de luz arroxeado, como uma pequena esperança se formando.
“Por que ela sorriu para mim?” — no entanto, esse era o pensamento mais forte dentre tantos outros. Monopolizava-lhe a mente e o coração. Doía... Franziu o cenho intrigado, viu-se terrivelmente irritado com as sensações inusitadas. Correu até uma maca vazia e derrubou-a. Depois cravou as mãos à cabeça e urrou sem saber bem o porquê do grito. O turbilhão dentro dele cessou ao ouvir o som de passos estalados no piso. Virou-se e encontrou, perdida na sala, uma mulher pálida, despida, cujos cabelos negros arrastavam-se pelo chão. Os olhos prateados como espelhos nítidos focaram-se no dourado vibrante dos cabelos do militar.
— Quem é você? — Topázio perguntou desconfiado.
— General Aurum, não me reconhece? — ela pareceu confusa.
— Aurum? Sou filho dele, Topázio. — aproximou-se ainda mais intrigado com aquela criatura possivelmente criada por Onyx. — E você, quem é?
— Topázio? Lembro de você criança... Dormi tanto tempo assim? — afagou o rosto adulto do menino dourado.
— Eu a conheço? — arqueou uma das sobrancelhas louras.
— Sou Hematita, esposa de Amber, o cientista. Você viu meu filho Onyx?
— Você é a mãe de Onyx?! — afastou-se, atribulado — “Mas a mãe de Onyx morreu há muito tempo!” — fitou a maca do meio, aquela que Onyx estava sempre a esconder e finalmente a ficha lhe caiu — “Ela era o projeto dele, o que meu pai patrocinou, e depois eu!” — puxou-a pelo braço — Venha comigo, Onyx deve ter guardado uma roupa para você em algum lugar. Ninguém deve saber de você, ao menos por enquanto. — arrastou-a pelos corredores sombrios, não notou os olhos dela cintilarem vermelhos vez ou outra, tampouco os invernais sorrisos macabros na face tão materna.
...
Jade e Quartzy faziam uma excursão pelos jardins, Saphiro, por sua vez, sabia bem aonde desejava ir: ao coreto de vidro, seu lugar preferido, solitário sem a presença dela. Tão logo entrou, jurou vê-la sentada ao piano a tocar a triste conhecida melodia, mas ela não estava ali, apenas o instrumento e encontrou um livreto de pousado acima das teclas, aberto. O príncipe tomou-o em mãos e leu os títulos, escrito a nanquim em perfeita caligrafia, tal como estavam as notas:Your Love era o nome, mas não era a única, algumas folhas adiante havia outra ainda mais elaborada, denominada de Spark. Que músicas seriam aquelas? Não lembrava de Hina tocando-as, mas logo a resposta gritou aos olhos dele, abaixo dos títulos, em letras menores, o nome da compositora – a sua menina dos cabelos de fogo. Uma havia mais notas do que letras, certamente, mas a outra era uma canção completa e dizia assim:
Guarde um pensamento
por mim, meu amor
Enquanto você contempla de longe
Pois a faísca que nasceu em seus olhos
Ilumina meus sentidos
Sonhe comigo, meu querido
Grave minha canção em suas têmporas
Deixe que minha voz afaste todos os seus medos
e o envolva
Como a noite se estende sobre a luz do dia,
Por favor, lembre-se
que, por um vislumbre do seu sorriso eu daria
tudo de mim:
Sorrisos e segredos, esperanças e medos;
Lágrimas e desejos, palavras e sonhos.
Guarde um pensamento
por mim, meu amor
quando acordar de seu sono
Para a faísca que nasceu de seus olhos
eu me rendo.
E, em uma nota final, ela escreveu:
Sinto tanto a sua falta... Volte para mim.
Saphiro apertou os papéis em uma mão rente ao peito, saiu de lá desnorteado. Quartzy o viu correr de volta ao palácio e não pensou antes de adentrar o coreto, seu pé pisou em um papel perdido e deixou-lhe a marca da sola do sapato. Delicada, agachou-se e o pegou, não entendia nada de notas musicais, mas as letras da canção ela era capaz de compreender:
Esperarei pelo seu amor eternamente
Faça de conta que só existimos nós dois
Me apego aos sussurros do seu amor
Tudo o que somos é um sonho antes do amanhecer...
O papel escapou por entre os dedos como se fosse uma pluma. Quartzy caiu sentada sobre o banco do piano, uma de suas mãos apoiou-se sobre as teclas e provocou um som estarrecedor aos ouvidos, ela saltou assustada e correu para longe dali.
...
Valkyria desmaiara nos braços do ferido Hakaru. Sailor Saturno, enfim, encontrou-os perdidos na selva de pedra.
— Valkyria! — ajoelhou-se diante da mulher acolhida pelos braços do rebelde. Hotaru fitou-o como se exigisse explicações.
— Ela enfrentou uma inimiga poderosa... — contou apático — Se não fosse pela ajuda da rainha, não sei o que seria de nós...
— Da rainha?! — Hotaru sobressaltou-se — Então o que eu senti não foi minha imaginação! Aposto que todas as outras guerreiras sentiram o mesmo! — olhou-o melhor e percebeu que as costas do homem respingavam sangue no chão. — Venha comigo, apoie-se nisso. — Ofereceu-lhe a foice como cajado.
—... tem certeza? — perguntou surpreso por Sailor Saturno confiar-lhe sua arma.
— Você se arriscou para salvar a vida de minha filha, merece a minha confiança. — pegou-a nos braços, levantou-se e iniciou os passos — Vamos nos refugiar nos túneis até que vocês se recuperem. Como são queridos, as pessoas ajudarão a cuidar de suas feridas.
— Onde estão as outras? — usando a foice como apoio, dificultosamente, caminhava em passos de tartaruga, arrastava as pernas praticamente, mas não se queixava.
— Escondidas em lugares seguros. Logo nos reencontraremos.
Sailor Saturno tinha razão, alguns estavam em grupo, mas uma estava sozinha — Sailor Fire, ela se refugiava no antigo teatro, devastado, onde tivera o encontro com seu dragão de estimação. No tablado, o piano cobria-se por espesso manto de poeira. Hina tocava uma de suas saudosas melodias, e mesmo que algumas teclas não estivessem em perfeita afinação, a música soava bela e digna de uma serenata. A guardiã do fogo permaneceu parte da noite a tocar as duas mesmas canções. Embora seu repertório fosse vasto, não cansava daquelas composições, faziam-na recordar da época áurea da vida. Enquanto desmanchava-se em musicalidade, seu amado esbanjava a habilidade de lapidador. Enfim, a lança de Jade ficava pronta. E, no meio dos dois distantes, uma garota perdida: Quartzy, sem que ninguém soubesse, abandonou os limites do palácio e resolveu caminhar pela cidade silenciosa. O céu, naquela noite, esbanjava a sua coleção de estrelas, astros que Quartzy mal podia ver em seu antigo planeta. Todavia, algo além das estrelas cativou-lhe a atenção: os sons tristes do choro de um piano. Atraída, seguiu-os como as crianças enfeitiçadas seguiram um flautista em uma fábula. Entrou por uma das portas tronchas do teatro devastado. Aproximou-se pelos corredores, desfilou entre as cadeiras aveludadas e parou diante do palco, onde a chama do dragão voador iluminava a artista absorta na música, Hina via somente a ela própria e a lembrança de uma preciosa safira.
— Você... — a voz murmurada de Quartzy alarmou Sailor Fire. — é ela...
— Quem é você?! — pulou da cadeira, e ao ver a Lua Negra na testa da única plateia, armou-se com chamas nas mãos.
— Hina, não estou aqui para lutar com você. — disse amena.
As chamas apagaram-se.
— Como sabe o meu nome? — os olhos verdes cintilaram confusos, as bochechas rosaram.
— Saphiro me contou sobre você... — sentou-se em uma das cadeiras.
—... Saphiro? — uma fina lágrima rolou pelo canto do rosto — Onde ele está? — engoliu o amargor da saudade e tentou se manter firme.
—Você ainda o ama, mesmo depois de tudo o que você e seu povo sofreram? — encarou-a curiosa e ansiosa para que a resposta fosse a de seu querer...
— Sim! — mas não era — Sim! — Hina afirmou mais de uma vez enquanto caía sentada sobre o banco à frente do grande piano de cauda.
Quartzy fechou os olhos e respirou fundo. As pálpebras arderam, quando ela abriu as pestanas novamente, as ametistas tremelicavam iluminadas. Sailor Fire fitava-a incessantemente, talvez tentasse entendê-la, então Quartzy se ergueu e se fez clara:
— Eu também amo Saphiro. — fechou as mãos unidas às pernas, assim como os braços enrijecidos. Hina não soube o que dizer ou o que fazer. Olharam-se silentes por alguns instantes, pensativas, entretanto, nenhuma das duas demonstrou qualquer tipo de hostilidade — Você pode me fazer um favor? — tentou quebrar o gelo.
—... O que você quer? — apertou o veludo do banco, estremecida, o coração agitado quase a sufocava.
— Toque Sonata ao Luar para mim... — pediu elegantemente.
Hina não soube dizer não. Nervosa, virou-se de frente ao piano, torceu para não enrolar os dedos nas notas e tocar as erradas, e iniciou a melancólica melodia. Quartzy fechou os olhos e sorriu, as mãos abriram-se. Ela inteira amoleceu. Após o breve momento de torpor, tornou a olhar a pianista, entregue à música, imersa em cada grade de colcheias. Havia um lume diferente nas expressões delicadas da guardiã do fogo, e o dragão a rodeá-la tornava-a ainda mais sublime. Como conseguia tocar uma sonata inteira de olhos fechados? A música realmente corria por suas veias.
“Não tenho como competir com ela”... — Quartzy conformou-se e desapareceu antes que a rival percebesse. Surgiu diante de um Saphiro distraído. Antes que ele falasse, ela se antecipou: — Eu sei onde ela está. — confessou.
— Do que está falando? — estranhou-a ser tão direta e séria.
— Hina, sei onde ela está e posso levá-lo até ela. — tocou-lhe a mão.
Saphiro fitou o lado oposto, hesitante.
— Não quer vê-la?
—... leve-me até lá. — os ombros baixaram-se pesados, também os olhos. Enquanto Quartzy transportava os dois até a fronte do teatro decadente, ele pensava: “Hoje nossos destinos serão selados, e nosso passado... encerrado.” — abriu os orbes azulados, estava à porta, pronto para entrar. Quartzy fez sinal de que ficaria do lado de fora, esperando-o. Era exatamente o que ele queria.
Saphiro empurrou as maçanetas douradas, uma banda da porta caiu podre. Passou por cima dela e adentrou a imensa construção, passou pelas catracas, subiu as escadas de mármore e surgiu em um dos camarotes de cima, lugar perfeito para vê-la tocar a melodia de uma das partituras que ele guardara dobrada por dentro da farda. O tilintar de suas medalhas prateadas alertaram sua presença ali. Hina conhecia perfeitamente aquele barulho. Ergueu a face e avistou-o ereto, com as mãos apoiadas sobre a sacada dourada. Um dèjavu – ele na plateia, contemplando-a, como no dia em que ganhou seus poderes como Sailor Fire. Ao recebê-lo no esconderijo, as bochechas coraram e ela sorriu tão meiga como era na adolescência. Seu corpo crescera, os cachos aprenderam a se comportar, e mesmo assim, ela era a mesma menina que um dia prometeu esperá-lo o tempo que fosse preciso.
— Saphiro! — gritou-lhe o nome, tremendo de júbilo. Ele desceu calado, pairou do outro lado do piano, uma das mãos deslizou pela madeira preta, cinzenta de pó.
Enquanto ele se aproximava, a mão deixando um rastro de limpeza no verniz, o peito de Hina arfava, ela inteira tremia, sorridente. O sorriso era como uma adaga cravando-se no peito do nemesiano, ele, por sua vez, mordia o lábio inferior, doído. Parou a centímetros de distância dela, livrou-se das luvas, deixou-as cair sobre a madeira do assoalho. Tocou a face quente com as duas mãos. A sua menina dos cabelos de fogo fechou os olhos e suspirou, finas lágrimas escorreram e molharam os dedos de Saphiro.
Foi mais forte do que ele, quando deu por si, já a beijava desesperadamente. Segurou-a pela nuca e enrolou os dedos nos anéis avermelhados, entortou o laço que fazia o penteado de Hina, selou o peito ao dela e sentiu os corações vibrarem em sintonia. Sentiu também os braços em tremeliques, abraçarem-no com força e surrupiar o resto de ar que ele guardava para respirar. O perfume era o mesmo, a maciez... quase podiam ouvir o barulho da chuva. Saphiro conduziu-a até o piano e a deitou sobre o tampo preto. As pernas dela bambolearam, pesadas, penduradas no ar, a saia vermelha subiu singelamente, revelando toda a extensão das coxas redondas e firmes. Uma mão de Saphiro pousou no pescoço tufado da guardiã, ainda encurralada por aquele beijo suplicante e estonteante. A franja azul e lisa perdia-se na alaranjada, ele ofegava, e também ela. A outra mão, livre, escorreu pela cintura, pela lateral da perna quente dobrada e afundou-se no bolso branco da calça dele, procurando por uma coisa. Sailor Fire não percebeu-o pegar um pequeno pedaço pontiagudo de pedra negra. O beijo colante, finalmente, se acabou. Hina abriu os olhos devagar e encontrou os dele, quase chorosos, transbordando pesar.
— Me perdoe, Hina. — ele ergueu a pedra ao alto, o gume afiado apontado para o peito da marinheira.
— Saphiro?! — piscou os olhos, desacreditada. As mãos apertaram o peito dele, uma das medalhas caiu e quicou no chão. O toque desesperado, a contração das pernas da mulher não o impediram de descer aquela arma com tudo de si.
Continua...
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