A Minha Queda Será Por Você
63 Sailor Phantom, a alma atormentada
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 63 — Sailor Phantom, a alma atormentada
...
— Precisamos tirar os civis daqui, já! — Sailor Love, lutando para se manter de pé, tentou organizá-los em fila para que seguissem ao palácio, mas quando as pessoas notavam a presença de Diamante ao lado da guerreira se afastavam — Confiem em mim! — ela suplicou.
— Confiem em mim. — Diamante ergueu uma mão a eles esbanjando traços amenos — Eu vou consertar as falhas que cometi.
— Confiar?! Veja o que vocês fizeram! — Hakaru ralhou e tirou um canivete do bolso do casaco, o resto das pessoas começou a cair quando o zunido ficou ainda mais forte — Vocês não mudam nunca!
— Se não fosse por ele, — Rini veio ao lado de Diamante e apontou-o — minha mãe estaria morta aos catorze anos de idade e Tóquio de Cristal jamais teria existido, então cale essa boca por agora e nos siga! — bradou impaciente, provocando surpresas na filha e também no príncipe inimigo.
Diamante respirou fundo e manteve expressões faciais enigmáticas, nos traços nada demonstrava, todavia, por dentro sentia o sangue correr veloz e gelado, o coração estocava pulsações intensas enquanto os pés caminhavam devagar, ainda equilibrados apesar das distorções de espaço. Aproximou-se do homem cego de um olho. Hakaru, acuado, apontou-lhe a pequena lâmina reluzente e de fato roçou-a ao queixo do Black Moon. Fitou o profundo violeta sem piscar, sem temer a nada, Diamante também não despregou-lhe os olhos.
— Não vou tentar convencer-lhes de que devem me perdoar, não agora. Mas nesse momento, não temos tempo para desavenças, há algo pior do que eu ao redor, e eu posso ajudá-los a impedir que isso machuque a sua terra natal mais do que eu mesmo machuquei. — segurou o punhal entre os dedos e apertou-o. O sangue desceu em finas cascatas, e mesmo assim o nemesiano não demonstrou sentir dor.
Antes que conseguisse puxar a arma da mão de Hakaru, viu-se envolvido por outros homens, prontos para morrer em luta se fosse preciso. Homens comuns, esforçando-se para manterem-se de pé ainda que o zunido fosse insuportável e os membros parecessem pesar mais do que densas rochas. Todos transpiravam de frio e calor ao mesmo tempo. Não tão distante, as guerreiras da Lua Branca, feridas e cansadas, giravam e olhavam ao redor à procura do responsável pela bagunça.
Depois dos sons agudos e chiados, de tudo o que era concreto parecer abstrato, vozes desconexas ecoaram lamentações ininteligíveis como uivos desesperados. Névoa branca cobriu as luzes frenéticas dos postes de outrora. De todos ali, Sailor Saturno mostrou-se ainda mais apreensiva.
— Não, não pode ser... — ela sussurrou aterrada, utilizando-se da foice como apoio, o cabo fincado ao chão esburacado.
— Hotaru? — Rini, protegida pelas asas de seu Pégaso onírico, arregalou os orbes rubros.
— Povo de Tóquio de Cristal, precisamos que fiquem todos próximos! — Sailor Love apelou, mas aquelas pessoas pareciam se negar a ficar perto enquanto houvesse qualquer Black Moon à vista.
— Há alguém ali! — Doryan apontou além da bruma branca, em seus braços jazia o falecido rei, abraçava-o como se fosse um tesouro o qual não poderia perder de forma alguma.
Blocos de cristal e concreto desgarraram-se do chão e flutuaram. Vidros, luzes e pilastras espatifaram-se em sincronia enquanto a silhueta de uma mulher que agarrava a cabeça em mãos tornava-se nítida. Carros, móveis, pedaços de estruturas, bancos de praças voaram sem direção certa, sem pena, e ameaçaram cair sobre as pessoas. Diamante, ágil, abriu o terceiro olho e a luz dourada cintilou em meio à brancura do nevoeiro sobrenatural. Ele apontou as mãos a tudo o que poderia descer em queda livre e esmagar as pessoas que até alguns segundos atrás ameaçavam-no e o acuavam. Os civis estavam certos de que seriam atingidos e encolheram os corpos e cerraram os olhos por reflexo. O silêncio os fez erguerem os rostos e contemplarem os objetos flutuantes, a centímetros de suas cabeças. Em seguida, as mesmas pessoas, pasmas, observaram o Príncipe Branco mover os braços e direcionar os destroços e os automóveis para longe, sem prestar atenção no que vinha por suas costas – um pedaço de ferro pesado e pontiagudo, lançado com o mesmo desmazelo que todo o resto fora.
— Meu irmão! — Saphiro bradou e correu em sua direção. Diamante virou o rosto e o corpo, não rápido o suficiente...
Porém, outras pessoas o foram.
Sailor Love atirou-se sobre ele e ambos caíram juntos ao chão, por pouco à salvo de serem atravessados pela peça, Onyx a cativou com os dedos lapidados de Cristal Negro e estilhaçou-a. Sailor Fire convocou o ilustre dragão e orientou-o a ajudar a derreter o que mais voasse pelos ares e ameaçasse a vida dos presentes, Sailor Nature perfurou diverso pedregulhos com seu chicote místico e os espatifou, Sailor Wind encarregou-se de levar os resquícios de pedras e vidro quebrado para longe com seus furacões e vendavais, Sailor Acqua protegia a si e ao último dos sednianos com seu tridente, no entanto a fadiga das guerreiras era visível e seus movimentos não eram tão rápidos como deveriam.
— Reiko! — Sailor Acqua exclamou ao ver a amiga ser atingida diretamente na cabeça por um pedaço de pilastra e cair desacordada. O sangue escorreu pelo canto da testa.
Quartzy correu na direção da guerreira e a segurou no colo, Marine preparou-se para avançar no pescoço da nemesiana até notar a jovenzinha materializar em mãos uma espécie de cálice com um líquido cintilante e despejar sobre a cabeça de Sailor Nature. O sangue tornou ao lugar de origem. A guardiã piscou os olhos púrpuros algumas vezes e vislumbrou a moçoila que a tinha acolhido nos braços.
— Obrigada... — disse em tom de surpresa, o mesmo que sua amiga de cabelos dourados, não tão distante, demonstrava.
— Eu posso cuidar dos ferimentos de todos, mas precisamos ir a um lugar seguro! — Quartzy explicou consternada. A situação era grave, não só Reiko, mas Yumi, a mulher que não parecia se deixar abater por nada, fora atingida nos braços e pernas, o prateado do olhar mostrava-se fosco, quase entregue, o dragão de Hina tinha cravado em si alguns pedaços de entulho e sentia dificuldade de locomoção, a mocinha dos cabelos alaranjados precisou chamá-lo de volta ao broche antes de algo pior lhe acontecer. Sailor Love, no limite da preocupação, ergueu os braços para cima e a lua na testa luziu esbranquiçada, o broche coloriu-se e uma aura ebúrnea envolveu quem estava em volta, era como um campo de força. Nada os atingiria por algum tempo, contudo o tremor nas pernas da guerreira era prova de que ela não suportaria sustentar a barreira por muito tempo. Quartzy levantou-se e reforçou o campo de força. Algo se chocou contra ele fortemente, ou melhor: alguém.
— Jade! — Saphiro arregalou os olhos e enrijeceu os músculos ao vê-la lançar-se contra o círculo transparecido.
— Não pode ser, ela estava morta! Eu sei que ela estava morta! — Sailor Wind perdeu o controle das emoções e atravessou o campo de força.
— Wind, não! — Crystal chamou em vão.
Martelo chocou-se com o braço cristalizado, nenhum arranhão provocado. Dessa vez, a única demonstração de raiva escapuliu dos gestos da marinheira dos ventos, a outra mulher não se afetava por nada, sequer emitia sons quando atingida. E, para piorar, seu novo corpo parecia impenetrável, quando a lâmina de Yumi relava-lhe o peito ou barriga, fagulhas formavam-se com o atrito, nenhuma marca se desenhava, se não os trincos no fio prateado da arma gerada pela pedra mística.
— Você não pode estar viva! — Wind rosnou, os lamentos assombrosos e as distorções ao redor lhe soavam mudos, o som da ira e da falta eram a real perturbação.
— Olhe para você... — uma voz soturna soou, não da boca de Jade, ecoou como um alto falante nos ouvidos de Yumi — Consumida pelo luto, logo você... aquela que não assume os próprios sentimentos, aquela que se fez de pedra. Só que é tarde para sentir alguma coisa agora, pois não importa o quanto você sinta, não irá trazê-la de volta.
Os lábios tremeram, num repente, os olhos arderam infernalmente e nem a fricção violenta do braço nas pálpebras foram o suficiente para evitar a torrente que desceu. Em rara vez, tão inédito quanto o primeiro suspiro, foi o pranto vertido daqueles olhos lapidados em frieza, olhos aquecidos agora pelos sentimentos que escapavam, não só pela prata, mas pela garganta amarga. Trêmula, ela gritou:
— Silver Hurricane! — e envolveu a si e à adversária no furação mortal.
...
— Quartzy, cuide de todos! — Sailor Love pediu e a amiga, mesmo hesitante, acatou. A barreira dantes azul tornou-se azulada enquanto a marinheira do amor alçou voo.
— Crystal! — Rini montou no cavalo alado e preparou-se para segui-la, uma mão em seu ombro a conteve.
— Eu cuidarei dela com a minha vida! — Diamante prometeu, a honestidade marcou-lhe as expressões.
— Confio na sua palavra... — Rini, emocionada, tomou-lhe a mão — mas sou mãe, Helios é pai e precisamos protegê-la... então, vamos juntos! — sorriu amistosa. — Sailors Senshi, — dirigiu-se às subordinadas — encarrego vocês de levar príncipe Doryan e os civis ao palácio, devem cuidar de seus ferimentos e mantê-los seguros, o Trio Amazonas está lá e juntos mantém uma barreira protetora ao redor da construção, estarão seguros!
— Majestade! — Quartzy se antecipou impulsiva e antes de receber olhares tortos curvou-se perante a todos em sinal de respeito — Tenho habilidades de cura, posso ajudá-los... prometo que as minhas intenções são as melhores, por favor, me permitam!
— Não vejo problema. — Doryan opinou, e o povo ao redor ouviu-o atentamente — Certa vez ela me salvou, eu não estaria aqui se não fosse por ela.
— Eu só peço uma coisa em troca! — Quartzy continuou, o rosto rosou e a voz estremeceu — Permitam que Onyx nos acompanhe! — o burburinho começou, os olhares recaíram desconfiados sobre o cientista surpreso pela atitude de sua paixão platônica — Ele foi humilde e corajoso, confessou seus crimes e mostrou arrependimento! — Saphiro também a encarou embasbacado — Além do mais, Onyx é inteligente e possui talentos incríveis, pode nos ajudar na batalha! Ele... ele controla aquelas medusas, são como soldados! — a língua começou a enrolar devido ao nervosismo.
— Está bem. — Helios respondeu sereno — Onyx, siga até o palácio com os outros.
— Mas majestade! — Marine protestou temerosa.
— Essa é a hora de nos unirmos para salvarmos o reino que tanto amamos, Sailor Acqua. — Pégaso afirmou terno.
— É hora também de agirmos como minha mãe agiria, — Rini completou — vão!
— Todos se deem as mãos, por favor. — Saphiro orientou — Rápido! — disse firme ao perceber que alguns ainda relutavam — Não queremos ser atingidos por nada, certo? Se formos com as próprias pernas corremos muitos riscos, portanto devemos nos teletransportar.
Sailor Nature tomou uma atitude, não havia tempo para dúvidas, por isso pegou a mão de cada civil e os fez laçar os dedos, Sailor Acqua, mesmo contrariada, ajudou a amiga e por último Sailor Fire, tímida e desajeitada, também caminhou entre os nativos de Tóquio de Cristal e os auxiliou a unir as mãos, cada guerreira ficou em uma extremidade para dar segurança às pessoas amedrontadas, Quartzy ficou perto de Onyx e ao notá-lo nervoso por segurar a mão de um terráqueo enojado, sorriu-lhe e cativou com cuidado os dedos negros de vidro, ele mirou-a de canto, ainda estupefato. Todos desapareceram e o que sobrou foi um cenário fantasmagórico, com vultos negros a circular. Rini respirou aliviada.
...
No palácio, Reiko foi recebida aos beijos e abraços por seu Olho de Tigre enquanto Quartzy organizou as pessoas por filas e compôs o seu elixir curativo. Hina, sentada ao lado, ajudava-a a administrar o soro nas pessoas e até mesmo nas guerreiras. Isolado, Doryan acomodou o corpo do irmão em um quarto vazio e depois iniciou uma busca nos jardins do palácio por rosas vermelhas. Ele sabia que pelo poder da pedra mística, Damien permaneceria jovem para sempre, como se dormisse um sono tranquilo, e não saberia dizer se isso era um consolo ou dor maior. O parente estaria fadado a nunca mais abrir os olhos, a estar ali e não estar ao mesmo tempo.
...
— E Hotaru, onde está? — Olho de Águia perguntou depois de procurá-la por cada lado do salão e em outros cômodos que a guerreira frequentava.
— Ué, ela não veio com a gente?! — Sailor Nature coçou o canto da face.
— Hakaru também não está aqui! — um grupo de homens alertou.
Águia passou a mão pelos cabelos róseos e depois pelo queixo, andou de um lado para o outro lembrando-se do desaparecimento da marinheira das almas, e agora das outras duas personalidades. Ele suspeitava sobre o que acontecia e não gostava nada disso.
— Eu preciso procurá-los! — anunciou.
— Não podemos sair do palácio, precisamos manter a barreira! — Olho de Tigre o segurou pelo braço.
— Águia, a rainha está lá fora! — Olho de Peixe surgiu de uma saleta — nosso senhor Helios, Lady Rini e Sailor Wind! — tocou-lhe o ombro livre — Confie. — pediu.
— Mas... — "Eu não posso perdê-la!" — empalideceu, aquela era a pior situação possível de se experimentar, acreditava.
...
— Não! — antes que o furacão desintegrasse Sailor Wind e Jade juntas, o lume cálido as envolveu e dissipou a tormenta que as abraçava. Não tão longe, Sailor Love as encarava ofegante, algumas penas escapavam das asas por conta do forte vento e da gravidade alterada. — Sailor Wind, Jade, não podem fazer isso!
— O que faz aqui?! — frustrada, a guerreira indagou — Isso não é assunto seu!
Crystal chegou perto destemida e com um singelo sorriso na face. A amazona de Hematita apontou-lhe os dedos pontiagudos, raios esverdeados formaram-se nos ápices, os olhos negros miravam-na como um alvo. Yumi saltou sobre a adversária, ignorando a presença de Sailor Love, porém a palma firme de Jade espalmou-lhe o peito e trincou o broche prata, a transformação da guerreira oscilou e ela caiu desnorteada. Veloz, Jade saltou sobre a rainha e derrubou-a deitada no chão. O negrume piscou escarlate no olhar e entre os seios.
...
— O que ela pensa que está fazendo? — Topázio, referindo-se à Crystal, perguntou confuso. Ele e Hematita assistiam as cenas refletidas nas águas do córrego dentro da gruta em que a Dama de Preto trouxera a vida de volta à antiga escrava, assim como a presenteara com um novo corpo. — Mas que mulher idiota! — riu desacreditado.
— Jade, acerte o ventre dela. — Hematita ordenou sorridente.
...
Os dedos fecharam-se e o punho desceu, Crystal o conteve e a força da amazona provocou-lhe uma torção na região do pulso. Ainda assim a luz reverberou dentro de suas novas veias e a cor dos olhos oscilou. Num ato instintivo, Jade agarrou o pescoço de Sailor Love e o apertou, pequenas faíscas esverdeadas formaram-se nos dedos e o corpo da guerreira do amor estremeceu por conta das descargas elétricas.
— Crystal! — a voz de Diamante ecoou dos céus, ele desceu rapidamente e apontou as mãos à Jade, preparado para acertá-la e espatifa-la se preciso fosse. Os orbes oceânicos, no entanto fitaram-no desaprovadores.
— Jade... — entre tosses, ela falou — Você ainda está aí, eu sei. — a boca alargou-se para buscar ar, ouviu os ossos do pescoço estalarem em resposta a um forte aperto, uma palma tocou-lhe o ventre e o choque seria forte, Crystal sabia. A vermelhidão pulsante no peito da Black Moon cintilou nas pupilas da regente terrestre, e então, numa medida desesperada a mão trêmula e calorosa da neta de Serena tocou o ponto rubro com ardor — Não permita que a controlem, você nasceu para ser livre! — a frase soou duplicada, como se duas pessoas num mesmo corpo a proferissem, Jade viu duas luas, dois pares de olhos azuis, duas pessoas apelando à sua consciência.
Silente, a nemesiana saltou ao longe e sumiu em meio à névoa e os vultos que se arrastavam pela paisagem sombria. Diamante correu até a estimada guerreira e a ajudou a se levantar.
— Crystal, perdeu o juízo?! — resmungou em misto de impaciência e preocupação enquanto apalpava-lhe o rosto, os ombros e braços — Se algo acontecesse com você... com vocês, eu... — afagou-lhe a barriga e em seguida a abraçou forte.
— Mamãe, papai, vocês devem sair daqui. — Sailor Love falou assim que os pais se aproximaram, tão afoitos quanto Diamante — Não poderão ajudar, e ainda correm o risco de se ferir! — disse preocupada — Vocês são símbolos importantes para as pessoas do reino, a presença de vocês transmitirá mais segurança!
— Mas Crystal, como vamos deixá-la nesse estado?! Você espera um bebê! — Rini contestou e Helios esboçou a mesma preocupação no olhar dourado.
— Eu estou com ela. — o líder do clã da Lua Negra disse convicto — Enquanto eu respirar, nada vai acontecer com Crystal. — firmou o enredo ao redor da cintura de sua estimada — Não sairei de seu lado, está me ouvindo? — fitou-a tão decidido a ponto de embaraçá-la.
...
Conforme Sailor Saturno adentrava a névoa os grunhidos e lamentos soavam mais altos e pavorosos, vultos escuros remexiam-se agonizantes, alguns espectros se arrastavam pelo piso desnivelado. A certo ponto, os pés de Hotaru grudaram-se no chão que mudara de forma, o cristal transformou-se em gosma escura, borbulhante e fétida.
— Ela está provocando isso. — a voz de um homem despertou-a.
— Hakaru, você não deveria estar aqui! — repreendeu-o.
— Qual é?! Também sou responsável por ela! — riu tranquilo, destoando do contexto.
A navegante do silêncio não quis discutir, não era propício. Um resmungo breve foi o suficiente e ela persistiu a cortar o nevoeiro com o ápice de sua arma mortal. Nada dissipava aquilo, e as aparições tornavam-se cada vez mais frequentes, assim como os gritos... não só dos mortos, mas de uma mulher ainda viva, flutuando sobre as ruínas.
— Valkyria! — ambos gritaram.
— Calem-se! — Sailor Phantom gritou ao léu, sequer pareceu falar com eles. Transparecidos a sua volta estavam os corpos franzinos agarrados aos seus tornozelos, adiante, onde na subida de uma colina existia o único cemitério do reino, uma fenda arroxeada abrira-se na escuridão do céu, dela desciam seres disformes e escandalosos, os sepulcros e mausoléus estremeciam alumiados. Um grito histérico de Valkyria provocou mais explosões de postes, mais objetos ao redor flutuaram e junto a eles, Hotaru e Hakaru.
...E então, tão súbito quanto o início da atividade paranormal que dominara metade do reino, um apagão. As luzes definharam, o homem comum e a mãe da jovem perdida mal enxergavam as palmas das mãos em frente aos olhos, as pupilas dilataram e as espinhas eriçaram com a sensação de que eram observados, de que seres de outro plano respiravam pesadamente às suas nucas e ouvidos, à espreita.
Algo caiu... e alguém. Hakaru ouviu o som da foice tocar o chão e procurou a direção, enfim os olhos habituaram-se ao escuro e enxergaram as formas de Sailor Saturno caída, acertada por uma grade.
— Fuja! — ela ordenou enquanto esticava o braço e tentava alcançar a arma.
Hakaru fez o inverso, quando seus pés alcançaram o chão lamacento correram até Sailor Phantom e ele agarrou-lhe uma perna.
— Volte a si! — bradou. A mulher baixou o semblante a ele, os olhos completamente esbranquiçados demarcavam ira e desespero. Uma força a qual Hakaru não podia ver o empurrou longe, de encontro com um dos vários postes entortados, e a falta de energia se emancipou ainda mais a partir do momento em que os pés de Valkyria tocaram o chão e ela caminhou enrijecida.
...
— Eu não sei o que é isso, mas sei que não é bom! — Olho de Peixe engoliu seco a observar os acontecimentos através de um painel — Não podemos deixar que chegue até o palácio!
— Parece o fim do mundo! Quem é o responsável por esse apocalipse?! — Olho de Tigre balbuciou aterrorizado.
— É Sailor Phantom, — Olho de Águia, pálido comentou — eu tenho certeza! — apontou as almas que caminhavam pela cidade, em seguida o dispositivo a detectou a andar errante em meio aos escombros, tudo ao seu redor voava, quebrava ou explodia — Vejam, é ela mesma! — cobriu a boca com as mãos.
— Então é verdade, ela é capaz de fazer tudo isso! — Rini, recém-chegada, entrou na sala onde os três se reuniam e tocou a imagem — O que é aquilo?! — apontou a fenda no céu.
— Não sabemos, majestade! Eu peço, por favor, deixem-me ajudar Hotaru! — Olho de Águia suplicou.
— Vá. — Helios surgiu em sua forma humana, dessa vez sério. — Eu assumo seu posto.
...
— Mas o que é isso?! — Diamante pôs-se a frente de Crystal quando uma horda de assombrações se aproximou rastejante, os olhos vazados e as bocas salivantes moviam-se perturbadores, os dedos disformes apontavam o broche no peito da navegante.
— Não podemos lutar contra isso. — Sailor Wind levantou e, juntamente com Diamante, ficou à frente da rainha para protegê-la — Não se pode matar o que está morto.
— Mas e se eu puder fazer alguma coisa? — Crystal interveio — O meu cristal serve para a purificação, e eu sei que eles precisam disso! — não se permitiu ficar para trás, passou entre a guerreira e o príncipe. Embora estivesse com medo, segurou a peça entre os seios e respirou fundo. Estava apavorada e tremia descontroladamente. Não perdera a essência medrosa de quando era mais nova, e cogitou sair correndo quando aquele grupo de almas atormentadas quase lhe tocaram os fios de cabelo, porém, Sailor Love prendeu a respiração para manter o autocontrole, e assim que a soltou, liberou juntamente as palavras: — Silver Moon Crystal Purify! — berrou no ápice de seu ato de coragem. A luz cegou a todos por instantes, em seguida não havia mais aparição alguma diante do trio e todos respiraram aliviados. Sim, mesmo o grande príncipe Diamante tremeu nas bases, mesmo ele deveria admitir ter medo de fantasmas.
— Sailor Love, olhe aquilo! — a névoa enfraqueceu de leve e a brecha púrpura no céu enegrecido visível ficou — Está vendo? — Sailor Wind prosseguiu — é de lá que essas coisas estão vindo!
— Se eu usar o meu poder, posso fechar aquele portal e mandar os fantasmas de volta ao mundo deles!
— Eu a levo até lá. — Diamante decretou, e sem dar tempo de Sailor Wind reclamar, explicou: — Se queremos terminar com isso rápido, eu posso teletransportá-la.
— Sim, ótima ideia! — Crystal empolgou-se e deu as mãos a ele — Sailor Wind, por favor, cuide-se, volte ao palácio! — o tom de preocupação era notável.
Os regentes dos clãs partiram, deixando Yumi incumbida de não fazer nada que pusesse em risco a própria vida.
É para lá... — uma voz conhecida soou na mente do zéfiro de Tóquio de Cristal.
— Mi... zu... mi. — o machado quase escorregou dos dedos, um orbe esverdeado girou nos ares a caminho do palácio, Sailor Wind o seguiu como se estivesse hipnotizada.
...
— Hotaru! — Olho de Águia a encontrou e imediatamente puxou a grade que caíra sobre ela, as veias ressaltaram nos músculos mediante o esforço. A túnica que ele vestia não tinha mangas. Assim que a libertou, largou o objeto metálico sobre o chão e acomodou-a nos braços — Você está ferida?! Isso poderia ter te esmagado! — afastou alguns fios negros que cobriam a face melada de suor e lama.
— Não se preocupe, estou bem! — afagou o rosto do pássaro apreensivo — Ela só quis me conter... — a tristeza fez-se evidente.
— Hotaru... — o desalento passou de um para o outro, Águia lia perfeitamente as expressões da mulher encaixada em seu abraço. Não soube o que dizer, acomodou o rosto dela em seu peito e penteou delicadamente os lisos cabelos.
— Vamos, não temos tempo a perder. Ela foi em direção ao palácio, não podemos deixar que chegue lá! — buscou forças de onde nem sabia existir e forçou os joelhos para ficar de pé. Olho de Águia deu-lhe apoio e catou a foice do chão para entregar em suas mãos. Seu braço ainda não estava completamente curado desde a batalha contra Jade, mas ele fez o esforço de materializar as asas assim mesmo, Hotaru subiu em suas costas e juntos flutuaram sobre a neblina, conforme os sons de coisas se quebrando ficava mais alto eles sabiam que Valkyria estava perto.
...
— Aqui estamos. — Diamante vislumbrou a enorme entrada – um portão de gradeado talhado em belas formas, apenas um lado aberto, muros de pedra espessos.
Crystal engoliu seco e deu um passo a frente, depois deu dois para trás e abraçou-se fortemente ao príncipe.
— Ai que medo! — choramingou — Vai na frente!
— Eu não acredito que depois de purificar uma multidão de espíritos você está dando chilique porque precisa entrar em um cemitério! — apesar de toda a seriedade da situação, o Black Moon deixou escapar uma risada para lá de espontânea.
— Você fala assim porque nunca deve ter assistido filmes de terror, se tivesse entenderia muito bem porque estou com tanto medo! A coisa mais burra a se fazer num filme é descer até o porão, abrir portas de armários, olhar no espelho... e entrar num cemitério! — resmungou.
— Crystal, vai! — fechou o riso, segurou-a pelos ombros, virou-a de frente para a entrada e deu um empurrãozinho.
— Mas me dá a mão pelo menos?! — pediu como uma criança chorosa, de cabeça baixa. Diamante suspirou, revirou os olhos, deu outra risada e, sim, cativou-lhe os dedos.
— Nada vai acontecer se eu estiver ao seu lado, lembra? — disse-lhe ao ouvido — Agora vamos...
Caminharam entre as lápides pomposas, Sailor Love arrepiou-se com as imagens de anjos lapidadas em mármore e as grandes cruzes pregadas acima dos blocos fúnebres, e no centro, sobre um mausoléu de portas escancaradas, a abertura nos céus. Os espíritos agarravam-se aos monumentos, gritavam, dançavam e até mesmo cantavam. Algumas das lápides foram profanadas, caixões estavam abertos e sem nada dentro, a terra movia-se como se em algum momento os mortos fossem se levantar para andar entre os vivos, velas acendiam e apagavam sozinhas. Diamante abraçou-a por trás e começaram a flutuar juntos. Crystal poderia voar sozinha, mas seu príncipe não a abandonaria. Assim que estiveram próximos à porta para o mundo do além, a rainha de Tóquio fechou os olhos, respirou fundo e abriu o broche em formato de coração. A pedra jazida no interior flutuou até alcançar as palmas da guerreira, ali seu brilho expandiu pelas redondezas, cativando a atenção dos que vagavam pelo cenário funesto.
— Espíritos perdidos na noite infinita, eu lhes rogo, sigam o caminho da luz...
...
— Valkyria! — a voz a fez parar subitamente a poucos metros do palácio. Blocos de pedra e cristal a rodeavam pelos ares como anéis.
— Vá embora enquanto há tempo. — não virou para olhá-lo. Ele se aproximou, novamente aquela força o jogou longe, deixando-lhe o casaco ainda mais surrado do que estava. Insistente, ele se levantou outra vez, seguiu o mesmo percurso, e foi lançado sem direção certa — Você vai morrer! — a voz alterada alertou, algumas das pedras que circundavam o corpo da médium atiraram-se nele e acertaram braços e ombros, ele sangrou, todavia não desistiu — Hakaru! — o grito por si só provocou um forte vendaval e outra vez, apesar de ele fincar os pés no chão com a força que tinha, o corpo voou de encontro a uma pilastra partida ao meio e ele ficou tonto, a beira de perder a consciência... não desistiu, arrastou-se até ela, não se desviou das pedras caindo sobre as costas, chegou aos tornozelos e agarrou-os com força, impedindo-a de andar. — Por que você não me dá ouvidos?! — Sailor Phantom arrastou as mãos pelo rosto e pescoço, por poucos segundos os olhos verde-azulados retornaram a cor original, depois a brancura os preencheu e os cabelos vinho tornaram a voar espalhados para direções estranhas, como veias ramificadas para todos os lados, objetos a flutuar, as pernas a andar, e Hakaru a ser arrastado junto.
— Você não quer fazer isso... — as mãos dele subiram pelas panturrilhas e ele conseguiu ficar de joelhos, aderido às pernas dela. Obstinado, com o pouco de equilíbrio que lhe restara ficou de pé e abraçou-a de modo que seus braços ficassem imóveis. Infelizmente, Sailor Phantom não precisava de braços ou pernas para fazer estrago. O chão tremeu e rachou, fissuras abriram-se profundas como abismos, os prédios mais próximos estremeceram e começaram a desabar.
— Eu não consigo controlar... — sussurrou derrotada, mãos fantasmagóricas começaram a escalar as aberturas — é isso o que sou, é isso o que meu poder faz. Destrói, mata, seca a vida. — um ponto de luz negro cintilou dentro do broche, a cabeça doeu infernalmente e ela gritou — As vozes, elas não me deixam! — mirou o palácio outra vez, tornou a andar em direção a entrada, outra vez foi apanhada, a mão então pousou na bainha da espada, ela puxou Hakaru pelo braço e apontou-lhe o gládio — Vá embora! — a luz índigo cobriu o sabre.
— Vá em frente. — Hakaru abriu os braços e ergueu o queixo — Você só ameaça e não cumpre, já está me cansando.
E ela foi...
...
"Eu não quero mais ouvir! Me deixem em paz!" — ela pensava enquanto caminhava perdida pelos becos, quando esbarrava em alguém sentia tanto medo que temia desmaiar. O medo não era das pessoas, mas da sua capacidade de ferir alguém só por estar nervosa. Em qualquer lugar que ela passasse um tipo de atividade elétrica acontecia, ou os objetos ao redor entortavam não importava o quão rijos fossem. No auge de seus onze anos, ela própria procurou uma casa de repouso em um reino distante e se internou, passou um ano amarrada a uma camisa de força em uma sala branca e acolchoada, completamente só. E mesmo lá dentro, as visagens supliciadas se materializavam e sussurravam atrocidades, gritavam, construíam cenários apoteóticos e transportavam Valkyria para um mundo onde ela não queria estar, uma terra de pesadelos intermináveis e lembranças que ela gostaria de apagar, o pai morto, a mãe sofrida, ela própria, tudo o que não queria ser... nem mesmo o hospício conteve as tragédias. Os tratamentos de choque aos quais a jovenzinha se sujeitou pioraram a sua sensibilidade e deixaram-na mais confusa. Fugiu da instituição como fugiu de casa – na surdina. Não sabia para onde ir, seguiu sem rumo até se encontrar no reino onde nascera, uma triste coincidência. Não poderia ficar na cidade, sua mãe ainda a procurava, sabia. Meteu-se nas periferias, viveu como indigente, procurando por restos de comida nas lixeiras, até que um sujeito lhe jogou uma maçã fresca certa vez.
— Coma isso, é mais saudável. — disse enquanto a analisava.
Ela, tal qual um vira-lata desconfiado, ao mesmo tempo em que devorou a fruta não tirou os olhos dele.
— Será que você pode tirar esse capuz para eu ver com quem estou falando?
Ela se negou, afinal, alguém poderia reconhecê-la e contar a sua mãe que ela esteve ali.
— Me chamo Hakaru. — despreocupado, o homem se apresentou — Escuta, eu posso te ajudar se quiser, sei onde você pode conseguir comida e água potável. Essas coisas sobram em Tóquio de Cristal, sabia? Portanto não tem porque você se humilhar assim. Aliás, você deveria estar na escola...
— Não! — rosnou — É melhor não, não fico bem perto de gente. — simulou mansidão.
— Está bem, como quiser! — ergueu as mãos ao alto em espécie de rendição — Mas se precisar de alguma coisa... — tirou um cartão do bolso do casaco e aproximou-se para entregar na mão dela. Um rosnado fê-lo parar. Hakaru desistiu de chegar perto, atirou o pedaço de papel na direção dela e a menina catou.
Valkyria guardou o cartão com nome e contato do desconhecido num bolso por dentro da mortalha e o esqueceu lá.
Depois de quase uma semana sem comer, passando as noites nos buracos mais apertados e discretos, num acesso de desespero a criança entrou na cozinha de um restaurante pouco conhecido e assaltou a despensa. Foi pega no ato, o cozinheiro correu exasperado atrás da pequena e ela ficou tão nervosa que todas as luzes do ambiente pipocaram, portas e janelas abriram-se e vidros quebraram. O pânico foi generalizado. Por ironia do destino, talvez por sorte, o desconhecido de outro dia almoçava lá naquele instante. Se não fosse o cascudo dado por ele, firme o suficiente para fazê-la apagar, provavelmente a imprensa fosse chamada e ela seria descoberta, porém, de algum modo não sabido pela garota, Hakaru desdobrou o dono do restaurante (ou o ameaçou) e o assunto deu-se por encerrado. Quando Valkyria acordou, estava numa cama simplória em uma cabana de madeira, ao seu lado jazia uma lâmpada.
— Consegue acender? — despreocupado, ele perguntou.
Para ela aquela era uma tarefa ridícula, deu de ombros e fitou o objeto. O quarto alumiou-se intensamente.
— Incrível... — o sorriso a deixou sem jeito — Tem ideia do talento que você tem? E você nem é uma delas...
— Não chegue perto! — alertou quando ele ia ajeitar-lhe os fios bagunçados.
— Você não precisa mais roubar comida a partir de agora, percebi que não quer que te descubram. Se você não deseja ser presa ou devolvida ao lugar de onde veio, me procure quando precisar de alguma coisa. — indicou — o endereço que te dei é onde encontro meus amigos, eles também não vão julgar você. Digamos que somos os segregados da sociedade, ninguém se importa muito com a gente — riu.
— Vocês são marginais? — perguntou inexpressiva.
— Talvez. — gargalhou.
Se ele fosse realmente um marginal, talvez aquilo não fosse tão ruim. Valkyria, de algum modo, sentia-se uma fora da lei, sabia do perigo que representava e temia até mesmo não ser a melhor das pessoas. Então, fez um acordo com o seu cúmplice: não queria que ninguém chegasse perto dela, portanto, tudo o que pedia era que ao meio-dia e à meia-noite um prato de refeição e um copo de água fossem-lhes deixados na esquina da taverna onde os baderneiros se encontravam. Era perfeito para ela, pois o local ficava longe da cidade, embrenhado no mato, um dos únicos lugares da cidade em que a moral, a ética e os bons costumes soavam como utopia, assim como a ideia de juventude eterna. As pessoas que frequentavam o muquifo lembravam em muitos aspectos o povo do século passado, não se preocupavam com o futuro, queriam aproveitar o dia ao máximo, não temiam a morte, nem a achavam tão ruim assim, para tudo deveria haver um prazo de validade, e talvez se a vida não se prolongasse tanto as pessoas dessem-lhe mais valor. "Tempo demais, atitude de menos" ela os ouvia dizer o lema, os observava em segredo, e seu alvo principal era o homem de tapa olho, aquele a quem ela chamou de "pirata" até gravar o nome.
Durante o primeiro mês, Hakaru respeitou o limite de distância. A princípio ela comia sozinha, aos poucos ele se introduziu, ficava sentado ao longe a observando. Então, os assuntos começaram frios. "Como foi o seu dia?", "Você tem família?", "Qual é o seu nome?" e depois de insistentemente ele querer se aproximar, a terceira pergunta ela respondeu:
— Valkyria.
— Que belo nome... — discreto, aproximou-se um pouco mais.
— Eu não quero machucar você. — enrijeceu.
— Então não machuque. — sentou ao lado e pousou as mãos nos ombros dela — relaxe. — massageou-os.
Primeiro, cada articulação endureceu e ela se concentrou arduamente para não provocar nenhum fenômeno, mas o prato de comida começou a flutuar. Antes que ela pudesse protestar ou se desesperar, ele se pronunciou tranquilo:
— Feche os olhos, inspire e expire... — e ele reproduziu a respiração junto com ela, até que o prato parou de girar nos ares e voltou ao modo em que estava. Valkyria abriu os olhos lentamente e fitou-o boquiaberta.
— Você não tem medo de mim?
— Se enxerga moleca! — riu incansavelmente — Olha o meu tamanho e olha o seu! — bagunçou os cabelos que cobriam a face alva.
...e depois de tanto tempo de sofrimento calado, ela riu.
Valkyria analisou-o meticulosamente, percebeu nele o anseio de cuidar. Lembrou-se do pai brincalhão, o coração aqueceu. Aquilo era carinho? Deveria ser, porque era parecido com o sentimento que brotava dentro dela no tempo em que seu pai era vivo. Era confortável...
— Ei, por que você usa isso no olho? — apontou o acessório.
— Isso aqui? Eu tenho uma cicatriz horrorosa porque resolvi brigar com a pessoa errada. Quer ver? — alargou um sorriso — Só não vai ficar com medinho!
— Vejo coisas muito piores do que cicatrizes todos os dias. — tornou a inexpressividade habitual.
Hakaru levantou o protetor e mostrou o corte sobre o olho cego, Valkyria emudeceu. Outra pessoa acharia a marca feia ou se sentiria incomodada diante da diferença gritante entre os olhos dele. As sobrancelhas eram espessas, não havia delicadeza alguma nos traços, a barba por fazer demonstrava o desmazelo, e no queixo, outra cicatriz afirmando que meter-se com ele era encrenca na certa. E o que seria encrenca maior, ele ou ela?
"É bonito" — pensou consigo mesma e o coração acelerou num rompante. O prato girou novamente.
— Eu sabia que você ia ficar com medo. — riu e cobriu o olho. Valkyria protestou, ele não deu ouvidos — Olhe, se você não tiver onde ficar, pode passar as noites em minha cabana. É só me ajudar a limpar e arrumar que a vaga é sua.
No dia seguinte, quando Hakaru preparava-se para dormir, a menina perdida bateu à sua porta, o único pertence nos braços era uma manta verde quadriculada que ela usava para se cobrir quando dormia na rua. Foi bem recebida, o "marginal" cedeu-lhe a cama e arrumou no chão um emaranhado de edredons que lhe serviram como colchão. A cabana de madeira resumia-se a dois cômodos – o quarto e a cozinha – o banheiro era uma casinha ao lado de fora, para tomar banho era necessário ir ao chuveiro a céu aberto, ou à fonte termal a alguns metros dali.
— Por que nesse século alguém ainda vive assim? — certo dia ela perguntou quando saíram para pescar no lago ali perto.
— Disse a garota que catava comida do lixo quando eu conheci. — o comentário provocou riso não somente nele, mas nela, e a empolgação fê-la sem querer agitar as águas e a canoa balançar — Ei, se controla baixinha!
— Já estou quase do seu tamanho! — irritou-se, formou uma onda e o atingiu. — Me desculpe! — cobriu o rosto com as mãos — Eu sabia, eu não devia estar aqui! — encolheu-se e cobriu os ouvidos com as mãos.
— Acalme-se — segurou-a pelo rosto —, você vai superar isso. — fitou-a intensamente nos olhos.
— Há doze anos vivo com isso, daqui a pouco faço treze e não passa, nem ameniza, só fica pior... as vozes, os pesadelos, os mortos... Eles fazem parte de mim, vivo mais na morte do que na própria vida. A minha vida é um interminável cemitério! — passou a mão pela testa — estou tão cansada...
— Você é forte — abraçou-a e afundou as mãos nos cabelos cor de uva —, vai aprender a controlar, vai aprender a usar isso para o bem, eu tenho certeza. Você me orgulha Valkyria.
— Por que eu carrego essa maldição? — não conseguiu retribuir o carinho, encolheu-se nos braços fortes com medo de que se o abraçasse sugaria a vida do seu corpo.
— Dom, isso é um dom. — enfatizou — E acabamos de pescar um peixe grande! — sentiu a vara tremer ao lado — me ajude a puxar! — rapidamente, o clima mudou — Você bem que poderia usar os seus poderes agora! — riram enquanto faziam uma baita força para nada, o bicho escapou e eles tiveram que se contentar com os dois pequeninos que já haviam capturado.
De dia, ele ia ao centro e ela sabia o que fazia, Hakaru e os amigos não concordavam com o sistema político em voga há tantos anos. Quando tentava arrancar dele motivos, Hakaru desconversava, fazia algum tipo de piada, e assim se seguia. Valkyria preocupava-se, pois sua mãe era súdita e protetora dos reis que o grupo dele criticava. Porém, ela própria não sabia o que pensar sobre aquele estilo de vida em que pessoas viviam um milênio sem adquirir um fio branco de cabelo. Uma grande ilusão, pensava... Se tudo fosse perfeito, não existiriam almas atormentadas visitando seus sonhos à noite. Não importava se pessoas vivessem cinquenta ou milhões de anos, o fim seria o mesmo. Ainda que o corpo não apodrecesse, a alma padeceria, o outro lado, aos olhos de Valkyria, era cruel. Tinha tanto medo de dormir à noite que optava por sentar-se à cama e observar Hakaru jogado displicentemente sobre as colchas no chão. Dificilmente ele vestia uma camisa para dormir, e a certo ponto da madrugada, depois de tanto ele se mexer, a calça sempre arriava de leve, expondo-lhe a cueca. Valkyria decorou a coleção seleta de roupas de baixo que ele usava, assim como pijamas, roupas casuais, sabia as cores que ele mais gostava, sabia de quantos em quantos dias tomava coragem para fazer a barba, analisá-lo tornou-se um hábito, observá-lo um prazer... Deveria ser comum, talvez fosse assim a admiração de uma cria pelo progenitor. No entanto, aos treze anos, às vésperas da adolescência, Valkyria passou a observá-lo secretamente na hora do banho, já não se interessava somente pelas roupas, pelas cores favoritas ou pelo modo como ele se ajeitava, interessava-lhe as curvas e os desenhos da pele, cada músculo, nuance e movimento, interessava-lhe o olho verde e o azul de cegueira, mergulhava-se na coleção de cicatrizes, desenhava-as em pensamentos, perdia-se nos matizes de sorrisos diferentes...
Não, aquele sentimento não era como o de uma filha para um pai, tampouco as sensações com as quais ela não sabia lidar representavam afeto inocente. O resultado disso – a cada dia um novo objeto aparecia quebrado, as lâmpadas estouravam frequentemente, árvores tombavam ao redor da cabana e os fenômenos intensificavam-se em conjunto aos temores e sentimentos incubados na menina. Valkyria retornou ao tormento inicial, a qualquer momento poderia matá-lo acidentalmente, e parecia cada vez mais impossível lidar com os impulsos da telecinese.
À noite, precisava cobri-lo para não se ver vidrada no abdome despido, às vezes tinha ímpetos de deitar-se com ele, porém o máximo que fazia era sentar-se ao lado e mover os cabelos dele com a força do pensamento até o frio na barriga fazê-la trincar os vidros das janelas. Estava ficando insuportável respirar perto de Hakaru sem provocar alguma atividade paranormal. A sua mente, no auge da ansiedade, ateou fogo na cozinha e ele apagou a tempo, mas foi a gota d'água para a menina. Hakaru poderia dizer que não se importava, que os dois superariam aquilo, o que fosse, nada tirou da cabeça de Valkyria o medo de fazer com ele o mesmo que fez com Tenshi. Não suportaria perder outra pessoa amada. E ela o amava. Como amava! Era apaixonada por Hakaru. Por isso, fez o que fazia com maestria – fugiu silenciosamente, sem deixar vestígios.
Vagou sem rumo certo, distante dos mesmos lugares que ele frequentava. Rendeu-se ao mundo dos mortos e esqueceu-se da realidade dos vivos. Regressou ao luto da infância e resolveu viver perto do próprio pai – em sua tumba – e lá o reencontrou, o seu espírito ao menos, e não se sentiu mais tão sozinha. Envolveu-se profundamente com a morte e isso a fez pensar em entregar-se totalmente, desprender-se da carne, não via sentido algum para existir. Os anos passaram, ela saiu da infância para conhecer a adolescência contida nesse mundo sombrio composto por um coral de vozes sofridas de gente que ela nem conhecia. Se morresse poderia estar no mesmo plano do pai e não ter que se contentar com o seu espectro, as vozes não mais a perturbariam, pois ela seria mais uma no mórbido coral dos que partiram. Por mais que o espírito paterno protestasse e deixasse claro que gostaria que ela vivesse, Valkyria mostrou-se decidida a tirar a própria vida, dormiu com essa ideia. Na manhã seguinte, acordou com um peso sobre o peito – um broche – e ao tocá-lo, soube o que representava.
— Eu sou uma delas... — por pouco não deixou o objeto púrpuro cair — mas por quê?!
Uma mulher de cabelos dourados surgiu como um feixe de luz, a magia foi sussurrada ao ouvido e, automaticamente Valkyria proferiu as palavras e transformou-se na guerreira do submundo, Sailor Phantom.
O evento a aturdiu. Não via razões para ser uma heroína, não quando ela acreditava ser um perigo a quem a rodeasse. Ainda assim, precisava compartilhar aquilo com alguém. Precisava que Hakaru soubesse que o seu presente de quinze anos fora o fardo de se tornar uma senshi. Por anos se educou para não permitir o afloramento de emoções. Raiva, tristeza, alegria — tudo ela conteve dentro de uma bolha, e assim a paranormalidade abrandara. Estava pronta para fazer a visita, surgiu na cabana em uma noite tempestuosa, na hora em que ele se preparava para dormir e o assustou.
Obviamente, ao vislumbrá-la nas roupas de marinheira fez todas as perguntas que vieram à cabeça, poucas ela soube responder. Houve algo dito por ele, no entanto, importante e inesquecível para ela:
— Viu como os seus poderes tem algum propósito? Você tem uma missão, então. Nada é aleatório com vocês — referia-se desdenhosamente à linhagem da Lua Branca.
— Eu não sou como elas. — e a luminária do quarto tremeu. Nem mesmo dois anos estudando a si mesma foram suficientes para Valkyria aprender a se controlar.
— Você não é como ninguém. — disse em tom chiado, deveras sedutor, mesmo sem a intenção de ser.
— Hakaru, é como você disse... agora eu tenho uma missão. — inspirou e expirou como ele a ensinara, contendo-se o máximo possível — Por favor, não cause problemas. O meu dever é defender...
— Eu sei, eu sei! — cortou-a impaciente —Agora você é importante, é uma heroína — riu sarcástico — e eu um reles plebeu... mas quer saber? — analisou-a de cima a baixo — Você ficou bem nesses trajes... — o riso se desfez num risco, a boca entreabriu silente e o rebelde fechou a distância entre ambos, ergueu os dedos ao rosto da nova guardiã, roçou-lhe as pontas — Senti a sua falta... — e sussurrou.
A luz do quarto explodiu de acordo com o batimento descompassado do coração dela, Hakaru fechou os olhos diante do forte lume e quando os abriu Sailor Phantom não estava mais lá, a janela aberta fez com que as cortinas remexessem. Amar alguém a deixava fora de si, porque por mais que Valkyria transparecesse indiferença, ela sempre fora feita de sentimentos intensos e desmedidos, cuja violência espelhava-se na telecinese. Valkyria era, em si, um portal entre dois mundos, dentro dela cabiam todos os sonhos e anseios dos que já se foram, não havia como ela ser menos lírica ou voraz, ela era tudo em uma só, um delicado corpo que suportava diferentes dimensões, natural e sobrenatural. Estar perto dela, portanto, era a assinatura de uma sentença de morte, Sailor Phantom era um túmulo para si e para quem a rodeasse...
"Não é minha mãe o enviado do mal, eu sim, eu sou o verdadeiro silêncio!" — constatou aos prantos quando avançou com a espada para atravessar Hakaru. Os olhos fecharam-se e as lágrimas os selaram, as aberturas no chão tornaram-se maiores e mais prédios próximos ao evento desmoronaram. Todavia, mesmo olhos fechados são sensíveis à luz. Sailor Phantom abriu-os novamente e notou uma foice de lâmina cintilando em tons de azul a conter sua espada nórdica. Sailor Saturno estava diante de Hakaru, a salvo.
— Mãe... — os dedos abriram-se e a espada tombou — Faça o que tem que ser feito. — fechou os olhos.
— Do que você está falando?! — Hotaru questionou.
— Dê um fim ao meu sofrimento. — abriu os brancos orbes novamente e apontou a foice nas mãos maternas.
— Você não pode me pedir isso!
— Valkyria, não seja tão drástica! – Hakaru viria à frente, mas Olho de Águia o conteve.
— Se não fizer por conta própria, eu terei que obrigá-la. — amarga, Sailor Phantom proferiu — Ghost Dance! — as mãos espectrais surgiram dos confins abissais à superfície e agarraram Sailor Saturno, a guerreira do planeta anelado as ceifou com a foice e mais surgiram num ciclo interminável.
— Há alguma coisa estranha acontecendo com você, eu não sei o que é, mas sei que podemos resolver! — Hotaru insistiu: — pare com isso!
— Silver Hurricane! — Sailor Wind surgiu junto ao furacão inesperado.
Sailor Phantom rolou pelo chão e quase caiu abismo abaixo em uma das fendas, Hakaru a alcançou antes de o pior acontecer e a manteve segura por um braço.
— Valkyria, vamos! Apoie as pernas e escale, eu vou te tirar dessa! — ela suspirou e nada fez — Valkyria, eu não estou brincando! — segurou-a com a outra mão, os dedos dela escorregavam pela luva.
— Valkyria! — Sailor Saturno segurou-se em Hakaru e o ajudou a puxá-la.
— Sailor Wind, por que fez isso?! — Águia perguntou abismado, a fenda era muito estreita para ele entrar e resgatar a filha de Hotaru. Yumi fitou o horizonte em mudez, os orbes fundos tinham traços de cansaço e melancolia.
Detesta fazer o papel de megera toda vez, no entanto ninguém conseguiria fazê-lo, por isso você o assume... — a voz saudosa ecoou como o som da maresia na memória. Yumi deu as costas e caminhou lentamente a pensar — "está resolvido".
Uma forte luminosidade cintilou no céu como se fosse um sol, a neblina começou a se dissipar. Vultos caminhantes viraram-se em direção a luz e, hipnotizados, voaram em sua direção. Era o brilho da pedra mística, Crystal cumpria o seu objetivo
...
— Eu vou fazer uma coisa nada nobre! — Hakaru alertou — Me segure, Sailor Saturno — foi acatado rapidamente. Pôs as mãos à obra, esgueirou-se até ficar pendurado naquele vão. Visto que o braço de Valkyria deslizava ele esticou o outro dele até alcançar o topo da cabeça da mulher e agarrou-lhe pelos cabelos, puxando-a. Sailor Phantom gritou irritada e mais pedras flutuaram em resposta, mas a violência foi rápida, durou segundos antes de ele alcançar-lhe a gola do uniforme — Puxe, Sailor Saturno! — novamente, acatado. Hotaru teve ajuda de Olho de Águia, e lá em baixo, um lume azulado pareceu empurrar a senshi mediúnica para cima.
— Não, não! — ela se lamentou e debateu — Vocês não entendem, eu não posso existir, eu não posso estar com vocês! — empurrou a todos, arrastou-se para longe, abraçou os joelhos e cravou as mãos aos cabelos — Eu abri o portal, não vai parar!
— A fenda está se fechando, Valkyria! — Sailor Saturno contou alegremente — Isso vai passar!
— Não, não vai! Isso nunca passa, com portal aberto ou fechado eles estão sempre aqui, sempre comigo, sussurrando, colocando ideias em minha cabeça! Eles se manifestam através de mim, levaram meu pai, quase levaram Hakaru, e podem levar vocês!
— Feche os olhos. — O "pirata" se ajoelhou a frente dela e tocou-lhe os joelhos.
— Afaste-se! — rosnou.
— Feche os olhos — prosseguiu —, inspire e expire... inspire e expire, repita comigo.
Os olhos, aos poucos retomaram a cor, ainda que ligeiramente opacos, somente depois ela os fechou e reproduziu o exercício em sincronia com Hakaru. As distorções diminuíram à medida que Valkyria controlava o ar e os batimentos, e também conforme o portal tornava-se menor e sugava as almas errantes.
...
Yumi... — a brisa marinha outra vez — Não se culpe...
— Mizumi, é você? — parou na metade do caminho.
Olhe para trás... — Sailor Wind seguiu a orientação e deu-se com a aparição translúcida.
— Pensei que não a veria outra vez... você me levou até eles não foi? Você queria que eu chegasse até Sailor Phantom e Sailor Saturno.
O poder de Valkyria me trouxe junto com as outras almas, e então eu pude vê-la novamente... — vagou elegantemente até a senshi solitária — Eu tenho um pedido a fazer, e não aceito negações. — os dedos fantasmagóricos afagaram a alva e fina face.
— O que quiser... — Yumi fechou os olhos, focada nas sensações.
Demonstre os seus sentimentos, aceite afagos, afague quando quiser, ame sem medo, ame mais do que ressente.
— Você disse um pedido, — abriu levemente a prataria — isso é muita coisa.
É o meu pedido, você pode fazer isso por mim? — sorriu amena, aos poucos suas formas ficaram menos nítidas. — Você pode permitir que o seu coração amoleça? — Uma mão pousou sobre o broche rachado da Mãe dos Ventos, o cinza alumiou-se esverdeado, sutil como os sussurros dentro de uma concha.
— Eu devo isso a você. — os olhos umidificaram.
Você deve isso a você, dê uma chance...
— Dar uma chance ao quê? — sentiu-se confusa.
Ao futuro... — e assim ela desapareceu como se tudo tivesse sido um sonho. Porém, Yumi sabia que o encontro acontecera por seu broche antes trincado não conter um risco sequer, a peça brilhava como nova e estava quente.
...
Doryan... — assim como Sailor Wind recebera uma visita, o sedniano sentiu-se agraciado com a presença do irmão, de pé à beira da cama onde o corpo descansava — Me escute com atenção.
— Damien! — levantou-se bruscamente, correu para abraçá-lo e o atravessou, não havia corpo físico.
Marine sentiu um forte arrepio ao longo da coluna e correu até o quarto perfumado por rosas vermelhas. Da porta, vislumbrou o que pensou ser uma miragem. A espada de cristal desenhou-se nas mãos do rei fantasma, a mesma que ficara esquecida nos escombros juntamente com o gládio de Diamante quando todos os viventes do palácio retornaram para protegerem-se.
Entregue-a a Diamante. — o espectro orientou.
— O quê?! Você não pode estar me pedindo isso! Aquele homem destruiu o nosso planeta, ele acabou com nossa família, ele...
Ele pode salvar a Terra, Doryan. Ele e Crystal, juntos...
— Não! — apertou a arma em mãos — Você está tentando me castigar, por que eu faria isso?!
Eu estou bem, meu irmão... nosso pai está bem... — outra presença, repentina, surgiu e a temperatura do cômodo esfriou mais ainda.
— Pai... — o mais jovem acreditou que fosse desmaiar, sentiu breve náusea. O senhor da barba longa mostrava-se sorridente e ao mesmo tempo melancólico.
Meu filho, faço do pedido de seu irmão o meu. Nenhum planeta mais deve sofrer por males entendidos e rancores mesquinhos. Deixe o passado para trás.
— Faz ideia de como isso é difícil?
— Mas não é impossível... — Marine, mesmo temerosa, entrou pela porta e parou ao lado de Doryan — Damien... — os olhos dela lacrimejaram ao ser recebida por um sorriso ilustre.
Cuide de meu irmão Marine, ele está desamparado...
— Eu prometo, Doryan ficará bem!
Entreguem a espada... — os dois homens repetiram juntos antes de desvanecerem.
— Isso não faz sentido, aquele homem... — apertou o cabo da arma.
— Aquele homem também foi uma vítima das circunstâncias, mas concordo, ele não pode ficar impune. — afagou os ombros caídos do príncipe — Agora descanse, você não pode ficar aqui para sempre...
— Você está bem, cuidaram de você? — mirou-a preocupado.
— Aquela mocinha, a que te salvou... ela está ajudando todo mundo — sorriu — e é uma Black Moon.
— Toda regra tem sua exceção... — comentou ao aproximar-se da porta — Você não vem?
— Eu vou ficar só mais um pouquinho... — contemplou o corpo sobre o leito adornado por flores rubras — depois me junto a você.
Quando Doryan saiu, Marine se sentiu à vontade para ajoelhar-se ao lado da cama e pousar o rosto sobre o peito silente de um pálido Damien sorridente.
— O seu desejo será cumprido... — uma lágrima escapou.
...
— Você conseguiu! O portal se fechou! — Diamante exclamou jubiloso — Mas... — fitou a cidade e a escuridão, os tremores e objetos flutuantes prevaleciam.
— Precisamos encontrá-los, Diamante! — disse convicta, a névoa se dissipara ao menos, então não seria difícil desvendar o paradeiro de Sailor Wind e quem quer que estivesse pelo reino.
...
— Não entendo o que está acontecendo, Hotaru! Mesmo ela tentando se acalmar o ambiente ainda está esquisito, as coisas ainda voam e a luz oscila mas não retorna! — Olho de Águia disse em baixo tom.
— Vamos Valkyria, respire... — Hakaru prosseguiu e massageou-lhe os braços.
— Não está funcionando... não está funcionando! — Sailor Phantom praguejou.
— O que está havendo?! — Sailor Love chegou ao lado de Diamante e aproximou-se dos amigos — Sailor Phantom! — sentou-se ao lado dela.
— Não chegue perto! — a marinheira se apavorou e encolheu as articulações.
— Não se desespere, continue respirando. — a voz grave e amena de Hakaru persistiu.
...
— Onyx, eu ainda não cuidei de você! Onde está indo?! — Quartzy questionou ao vê-lo levantar-se, atento à tela do holograma.
— Aquela mulher está sob a influência do Cristal Negro. — afirmou veemente.
— Precisamos avisá-los! — Rini preparou o comunicador e falou diretamente com Crystal — Use o poder da pedra mística nela, agora!
Sailor Love compreendeu o recado, e imediatamente tocou o braço de Valkyria, no exato instante a jovem paranormal urrou e quem estava por perto foi lançado longe. Diamante cativou a sua rainha no ar e não a permitiu se machucar, em seguida, a Lua Negra transmutou-se em olho e ele pairou a frente de Sailor Phantom.
— Olhe nos meus olhos. — ordenou calmamente e a guerreira caiu na armadilha. Diamante fê-la levantar-se contra a vontade e abrir os braços, depois disso Valkyria não conseguiu mais se mover. Pedras pontiagudas, porém, ergueram-se do piso e apontaram as partes afiadas na direção de Diamante — Tire o broche dela, rápido! — Diamante orientou e Hakaru partiu para cima da navegante espectral, puxou a peça com tamanha força que o laço do uniforme se rasgou. Ela caiu desacordada com o impacto, e junto a si as pedras. Enfim, o clima tornou ao normal, as construções que ameaçavam ruir estabilizaram-se — Crystal, é com você... — apenas com o olhar fez Hakaru compreender a atitude a tomar, ele lançou o broche na direção de Sailor Love e ela, com certa dificuldade, conseguiu agarrá-lo. A aura enegrecida ao redor do objeto era vívida.
Em instantes, Sailor Love fechou os olhos e uniu o broche de Valkyria ao seu, a brancura consumiu-os e a energia maligna se desgarrou da joia mágica como fumaça escura subindo aos céus. Não tão depois, Valkyria, acomodada no colo de Hotaru e rodeada por Hakaru despertou ligeiramente confusa.
— Como se sente? — o companheiro de aventuras do passado perguntou.
— Eu quase matei você... — disse emocionada.
— Você nunca vai conseguir me matar! — riu.
— Como o poder do Cristal Negro foi parar em seu broche? — Diamante perguntou direto.
— Eu me lembro de um homem de cabelos e olhos dourados e de uma mulher toda de preto... — massageava as têmporas enquanto buscava na memória.
— Cabelos e olhos dourados... — Hakaru estreitou os olhos, rangeu os dentes e fechou os punhos enquanto sibilava as características.
— Aquela mulher, ela é muito perigosa... bastou que me tocasse, e então a minha sensibilidade para o mundo espiritual aumentou drasticamente, assim como minha telecinese... As vozes controlaram meu corpo, me encaminharam ao palácio e eu teria sido capaz de uma grande atrocidade! — cobriu o rosto com as mãos.
— Não ouse se afastar, se manter reclusa, está me ouvindo?! Estou cansado dessa frescura! — Hakaru puxou as mãos dela de cima do rosto e forçou-a a sentar — Você não é mais criança, aprenda a lidar com esse dom, dê o seu jeito! Não vou mais aceitar que se afaste de mim! — jogou para trás os fios que cobriam o rosto sofrido da marinheira e deixou-a sem reação.
— Você não é muito diferente de mim ou dos membros de meu clã, Sailor Phantom. Entendo a sua preocupação não só com o bem estar de seus entes queridos, mas também com a aceitação do povo. — Diamante comentou.
— Não compare Valkyria com os de sua laia! — Hakaru esbravejou.
— Ele tem razão... — Sailor Phantom surpreendeu a todos com a afirmação — As pessoas têm medo daquilo o que elas não conseguem entender, do desconhecido, do inexplicável, do sobrenatural. Todos nós, da Lua Branca e da Lua Negra, somos sobrenaturais e isso nos torna amados ou temidos... As pessoas parecem ter uma cisma em aceitar somente aqueles a quem podem controlar, e quem está acima desse limite é considerado um perigo, essa é a verdade. — encarou o dono das cicatrizes charmosas — eu sou como eles, Hakaru... e ainda assim, você sempre me protegeu. O que me torna diferente aos seus olhos?
Pensativo, Hakaru analisou-a, mergulhou nos olhos cansados e no lábio reto, a seguir encarou Diamante, de pé logo atrás, e Crystal que se aproximava com o broche ainda sob seus cuidados, a rainha mostrava-se diferente, na verdade, distante.
— O seu poder não surgiu aleatoriamente, o universo é feito de elementos naturais como fogo, terra, água e ar, e sobrenaturais como o que vai além da carne, além do visível, além dos limites do concreto e do abstrato, além da vida e da morte, acima do que conhecemos como Natureza. Fazem parte do sobrenatural o tempo, os sonhos, e o próprio amor. — as palavras saíam da boca de Crystal, no entanto a voz não lhe pertencia, conforme a rainha se abaixava e estendia as palmas onde o broche jazia, ela prosseguia: — a sensibilidade, a capacidade de passear por diferentes dimensões em um sonho lúcido, a comunicação com uma dimensão além de todos nós, você nasceu com esses talentos... o broche foi meu presente a você, um lembrete de que a sua existência é uma bênção não só ao mundo, mas a todo o universo, e ele não se resume apenas a astros e planetas, o universo não é um só. Valkyria, — tomou lhe os dedos e entregou-lhe o valioso transformador — um coração inseguro e amargo é capaz de atrocidades, mas se o mesmo coração aceitar se abrir e receber o bem oferecido, ele se cura e se acalma. Não são os sentimentos que fazem de você perigosa. O medo e a falta de confiança em si mesma, sim, representam o verdadeiro perigo. Perdoe-se, aceite-se, confie-se.
— Sailor Moon! — os outros ouviam-lhe a voz, mas Valkyria a via perfeitamente a sorrir. Colou o broche ao peito e abriu um pequeno sorriso, Hotaru abraçou-a e depois de tantos anos, ela se permitiu abraçar a mãe e fechar os olhos em total entrega. Depois, procurou por Hakaru, o homem já estava de pé e caminhando dificultoso para longe. — Onde ele está indo? Está ferido, não pode ficar zanzando por aí, não tem poderes para lutar contra os inimigos! — Quis levantar.
— Ele precisa pensar, depois volta, eu tenho certeza. — Sailor Saturno falou enquanto acariciava os cabelos da filha — Esse homem é alucinado por você. — Valkyria corou imediatamente.
— E ela por ele! — Olho de Águia brincou — Olha ela, tá vermelha! Que gracinha!
— Olho de Águia, eu ainda sou a paranormal excêntrica que faz coisas voarem, luzes piscarem e fantasmas aparecerem, lembra?! — marcada por rubor, disse irritadiça.
— Mais respeito com seu padrasto! — Águia apontou-lhe o dedo e até Hotaru riu.
— Gente, o que aconteceu? — Crystal pareceu acordar de um transe, a distração da princesa provocou novas risadas nos outros, mesmo em Valkyria. Diamante deixou escapar um riso discreto, era interessante observar que depois de uma confusão astronômica aquelas pessoas conseguiam ter senso de humor.
Olho de Águia e Sailor Saturno ajudaram Valkyria a se levantar, Sailor Love e Diamante caminharam lado a lado até o palácio, finalmente o príncipe teria cuidados, o sangue em volta de suas costelas já havia secado e formado crosta.
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— Li...ber...da...de. — Jade marchava de volta à gruta onde Topázio e Hematita se escondiam — Liberdade. — a mão pousava sobre o peito e o massageava — Liberdade... — recitava a palavra sem emoção no tom.
Continua...
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