A Minha Queda Será Por Você
57 Sacrifício e Salvação - a tristeza de Onyx
Notas iniciais
A Minha Queda Será Por Você
Capítulo 57 — Sacrifício e salvação — a tristeza de Onyx
Os gritos de Onyx ecoavam de dentro do quarto de hóspedes aos corredores, vibravam nos cristais das paredes, nas pilastras derrubadas e nos lustres. O corpo do cientista encolhia-se como uma aranha agonizante, logo após os espasmos se espalhavam por todas as articulações.
— Quartzy! — ele urrava enquanto a curandeira esticava-lhe os braços e o segurava pelos punhos, entre as pernas firmes continha as dele, descontroladas — Por que me tortura?! Por que não me dá o que eu preciso?!
— Controle-se! — ela foi firme — Estou tentando manter o seu organismo limpo, você precisa se libertar da dependência do cristal negro!
— Não, não, não, não! Não! — a negativa persistia nos sacolejos da cabeça. Ele vidrou o olhar num Droid de pé à porta e tentou esticar o braço na direção da criatura — Me dê aquele ali, só aquele! Prometo que faço mais deles quando eu estiver alimentado! Sim, Quartzy?! — riu desconexo.
— Eu já disse que vou limpar seu sangue desse veneno! — Quartzy instistiu e outro Droid, ao seu lado, tentava espetar uma agulha de seringa na veia do pulso de Onyx, porém, a agulha se partiu como tantas outras. O intuito era purificá-lo com um soro composto pelas habilidades dela. Deu o sinal para o Droid, com seus tentáculos negros, atar os punhos e os tornozelos do homem, a mulher imersa em persistência segurou o rosto do gênio insano nas mãos e o forçou a encará-la — Não estrague tudo, Onyx! Você tem uma tarefa importante a cumprir!
— Salvar o seu namoradinho?! — gargalhou — Me dê o que preciso e eu o trago para você!
— Não é hora para brincadeiras, estou tentando ajudar você! — fincou com toda a força a agulha na veia ressaltada dele — Sinto muito por isso! — fechou os olhos, e encolheu os ombros — Me desculpe! — ele todo tremeu debaixo dela, os olhos reviraram, e a agulha foi cuspida do braço, os vasos ao redor enegreceram. Era inútil. Quartzy não sabia mais o que fazer.
— Quartzy, me permita ajudar... — a rainha entrou pela porta, em mãos carregava o broche, receptáculo do cristal sagrado. — Talvez isso o purifique.
— Não, Quartzy! Não deixe ela se aproximar! Não deixe! — o horror dominou os traços e os músculos do homem.
— Do que você tem medo? — Crystal sentou ao lado dele no leito, pegou uma toalha dobrada na mesa de cabeceira e enxugou-lhe a testa.
— Ela vai me matar Quartzy! — urrou aterrorizado.
— Não seja tolo, Onyx. — a dona dos cabelos de quartzo rosa tirou o seu peso de cima do corpo do cientista e sentou do outro lado.
— Não tema a luz... — Crystal sorriu.
— Se me libertarem do poder do cristal negro, não poderei ajudar em nada! — exclamou risonho — Não compreendem?! Meu organismo se associou à joia das trevas de tal forma que eu preciso dela para sobreviver, preciso dela para desenvolver os meus projetos! Meus projetos... — as pupilas dilataram — Meu projeto! — tentou sentar.
— Calma, calma! — Quartzy o conteve pelos ombros.
— O que está havendo aqui? — príncipe Diamante surgiu como a imagem da morte aos olhos de Onyx.
— Príncipe... — possuído por cacoetes e tremeliques, Onyx apertou os lençóis entre os dedos ansiosos — Se quer que eu seja apto a ajudar na busca de seu irmão, traga Topázio até mim e peça-o para me levar até meu óvni.
— Não confio em vocês dois sozinhos. — o líder cruzou os braços e escorou as costas na parede.
— Eu apelo à sua bondade príncipe, por favor, faça isso! Se algo de ruim acontecer, me lance naquela prisão novamente!
— Se algo ruim acontecer por sua causa, não será na prisão que irá parar, mas no inferno! — Diamante profetizou — Quartzy, você o leva até a nave.
O cientista e a Black Moon em trajes de bailarina entreolharam-se, ambos aflitos. Era aquilo ou nada.
— Crystal, vamos... — o homem de branco ergueu-lhe o braço, a rainha sorriu e o abraçou. Antes de saírem do dormitório, ela fitou Quartzy com um olhar encorajador.
— O que tem na sua nave? — finalmente a sós com ele, perguntou.
— Meu projeto... — sussurrou desconfiado de que alguém ouvia.
— Escute — massageou-lhe os braços e os ombros, ele ainda tremia —, se estiver tramando algo de ruim, desista... Aproveite a chance que recebeu, e saiba que se está livre a ideia foi Topázio, mas foi também de rainha Crystal. Não falhe com ela e com o príncipe, Onyx. — olhou-o nos olhos.
— Você não confia em mim, não é? Tsc! — bufou — Não a julgo.
— Conquiste a minha confiança. — dessa vez, ela enxugou o suor da testa e dos cantos do rosto do enfermo.
— E, novamente, você é boa comigo... Não faz jus à lua que carrega na testa. — gargalhou como se ouvisse a mais tosca das piadas — Me desamarre, Quartzy. Não vou avançar em você, só tire essas coisas daqui! — se referia aos Droids.
— Nunca foi a minha intenção "fazer jus" à insígnia que me rotula de traidora e perversa, que, aliás, rotula a todos nós... — suspirou entristecida, sinalizou para os servos deixarem o cômodo, foi obedecida e Onyx se viu livre das amarras.
— Você é a única de nós que não pode ser rotulada. — afirmou veemente. A verdade escondida por trás dos olhos dele era que, enquanto a discussão acontecia, a pele dele absorveu pouca coisa da energia maligna que compunha os tentáculos que o amarravam. Ria-se por dentro por ninguém ter desconfiado.
Quartzy se levantou e lhe estendeu a mão. Onyx teve de aceitar o auxílio, pois apesar da reabastecida secreta, ainda era pouco para fortalecer suas pernas. A mão mecânica enredou a "enfermeira" pela cintura, imediatamente foi afastada. Ele riu.
— Você não é engraçado como pensa! — ela resmungou preciosamente rubra — apoie-se no meu ombro!
— Por que não nos teletransportamos? É mais rápido...
— Porque quero que você veja...
— Veja o quê? — a caminhada para fora respondeu por ela. Onyx esteve diante de um vasto corredor espelhado e límpido. Os cristais das paredes, tocados pela luz formavam espectros coloridos. — É estranho não ver a cor negra por aqui... — disse para si.
— Tem muito mais.
Fitando-a de soslaio, notou um sorriso de contentamento embora o semblante ainda demonstrasse preocupação, certamente por Saphiro.
Passearam, e quando surgia alguma pilastra atravessada pelo caminho, primeiro Quartzy a saltava, depois dava apoio para que Onyx também ultrapassasse o obstáculo. Como as pernas dele eram instáveis, era necessário que a bondosa nemesiana o abraçasse e o puxasse no momento de saltar as pedras. Nesses breves "pulos", o cientista se perdia no calor e na maciez da moçoila e confortava-se aos poucos.
Depois de alguns minutos, Quartzy chegou ao destino almejado na companhia de Onyx, os jardins...
— Como é possível? — ele ajeitou os óculos sobre os olhos para se certificar de que todo aquele colorido pincelado no verde era real. Deu dois passos à frente, os lábios entreabriram-se e não houve uma piada pronta na ponta da língua. Ele se desequilibrou, num reflexo Quartzy o segurou nos braços e ao fitá-la, Onyx sentiu o hálito cheiroso invadir-lhe as fossas nasais.
— Vem comigo... — ela virou o rosto à frente e puxou-o pelo braço. Por visão periférica, notava-o ainda a olhá-la, vidrado. Fingiu não perceber e percorreu o caminho de pedras brancas com ele ao seu lado.
Tantas flores, tantos tipos de árvore, ele parou repentinamente, estava ofegante. Quartzy o ajudou a sentar apoiado nas grandes raízes de uma árvore antiga e acomodou-se ao seu lado.
— O que são esses barulhos? — Onyx perguntou curioso.
— Passarinhos... — ela respondeu aos risos.
— Acha graça por quê? Você também passou a vida inteira sem saber o que era escutar passanhiros. — ficou sem jeito quando percebeu que ela fazia piada dele e não o contrário.
— Passarinhos, Onyx. — o corrigiu, suspirou e encostou a cabeça no tronco, fechou os olhos. Além do palácio o frio devastava o cenário, ali, contudo, graças ao poder de Crystal, era a supremacia da primavera.
Ele prendeu o olhar nela: sereníssima e tocada por um tipo de luz que ele não conhecia. Tentou focar-se na esfera que brilhava no céu, mas sentiu-se cego. Roçou os olhos rapidamente por baixo das lentes de vidro, piscou-os, ajeitou a haste dourada e circular, tornou a vislumbrar a única coisa pura de seu planeta agraciada pela luz Terrestre, adornada por paisagem inexistente em Nemesis. Sentiu algo sutilmente pousar em um dos ombros, tocou-o e dele tirou uma larga folha verde. Analisou-a e depois a guardou num dos bolsos do jaleco. Os olhos teimosos voltaram-se para Quartzy e seu peito tranquilo, estufando e desinchando devagar, as mãos pousadas sobre a saia clara tecida em camadas de filó. Onyx sentiu um desconforto no peito, parecia que algo queria fugir de seu abdome, batia agressivo.
— Já pensou em nosso clã vivendo aqui? — ela abriu os olhos e girou a cabeça na direção dele.
— É tudo o que você sempre sonhou... — disse em tom de desdém — tolinha.
— Você não gostaria, Onyx?
— Eu? — as sobrancelhas levantaram-se — Eu gostaria de ir ao meu óvni e fazer o que tenho que fazer. — fixou os olhos em uma direção qualquer.
— Ela regenerou esses jardins graças à pedra, mas principalmente graças à sua força de vontade... — contou — Ela poderia fazer o mesmo por você...
— Bobagem Quartzy! — deu de ombros.
— É verdade! — ajoelhou-se à frente dele, certo júbilo brilhava em seus olhos — Imagine-se livre do Cristal Negro, livre para ser você mesmo! Imagine despertar o seu melhor lado finalmente, e poder ser um homem feliz, livre dos fantasmas do passado! — tomou-lhe a mão humana, esticou-lhe os dedos dentro dos seus. Como era bom dividir o amor que tinha pelas coisas vivas com alguém! Acatava ao conselho de Crystal, alegre e esperançosa.
— O que aconteceu com você, Quartzy? — Onyx se manifestou em baixo tom, ele parecia um tanto confuso. A mão fria por baixo da luva tocou a face da jovem altruísta, tirou-lhe pequenas folhagens das madeixas bagunçadas que escapavam do penteado costumeiro — Eu quase acredito na sua sandice... deve ser porque sou louco, mas a sua loucura supera a minha! — soou estupefato.
— Não é loucura, é possível! — insistiu — Eu sei que é... eu vi que é! — interceptou a mão mecânica.
— Você precisa desistir dessa mania de tentar me salvar, querida Quartzy... — suspendeu o queixo dela com o dedo indicador — Eu não quero ser salvo. — e então, apoiou-se à árvore e se ergueu — Gosto de ser o que sou, não quero mudar. — ela permaneceu ajoelhada onde estava, frustrada. — Você não está preocupada com seu namoradinho? Estamos perdendo tempo!
— Todos querem ser salvos... — levantou-se — e você precisa ser salvo de você mesmo.
— Eu já disse e vou repetir, a sua bondade ainda será o seu fim. — bagunçou a franja rósea — Bobinha! — depois lhe apertou o nariz.
— Vamos! — irritada, desistiu do assunto por ora e então, se teletransportaram ao laboratório aéreo do cientista.
A mudança de clima era drástica, assim como o contraste das cores. Imediatamente, Quartzy sentiu-se triste e amargamente relembrou dos anos passados, do lar que a abraçara durante toda uma vida.
— Me espere aqui. — ele pediu apressado. Dava largos passos rumo ao elevador que o levaria aos andares de baixo.
— Mas eu não posso deixá-lo sozinho! — o seguiu.
— Quartzy! — a segurou pelos ombros — Lembra do que falei a você? Sobre a bomba?
— Sim, eu lembro. O que tem isso? — ficou amedrontada pelo tom do cientista.
— Ela está lá embaixo, e eu não sei se é seguro você se aproximar, pura como é... Acredite, pedir que fique aqui é a minha forma de te proteger. — os olhos dele não fugiram, a boca não ria, Onyx falava sério e perturbado.
— Está bem... — desarmou-se — eu o espero aqui.
— Muito obrigado Quartzy, não demorarei! — correu à porta do elevador.
Poderia ir direto ao último andar inferior, todavia precisava ver o estado do laboratório e a surpresa foi grande ao chegar ao primeiro nível abaixo, na sala de testes. Da última vez em que esteve naquele cômodo, poucos pedaços de cristal restavam. Naquele momento, havia não só diversos fragmentos, como grandes cristais formando uma trilha do piso à parede, outros cravejados no teto. Onyx compreendeu que não valeria à pena gastar tempo averiguando cada trecho, ao menos não antes de ir até o quarto das macas. Num frenesi de medo, ansiedade e expectativa ele derrapou pelos corredores, abriu a porta violentamente, fazendo-a bater à parede e provocar um estrondo. Para sua decepção, as macas estavam vazias. Ninguém estava lá.
...
— Olá criança. — os olhos grafitados brilharam na escuridão.
A coluna de Quartzy esticou-se em reação ao arrepio, o vapor saiu da boca, o corredor inteiro gelou. Ela se virou lentamente para vislumbrar o que estava atrás, ou quem. Era uma mulher esguia que, ao invés de andar sobre o piso, caminhava pelo teto e aproximava-se vagarosa. Os cabelos longos desciam como cortinas noturnas, as pedras da gargantilha reluziam como espelhos. Sem esforço, a criatura flutuou do teto ao chão e a mocinha inofensiva teve de erguer a cabeça para poder olhá-la nos olhos.
— Quem é você?! — "a bomba"! — compreendeu, mas não conseguiu correr, as pernas congelaram coladas ao pavimento. As garras afiadas roçaram-lhe a face rosada, desenharam a lua na testa e, por fim, a mão comprida segurou-lhe a nuca. — O que... — a boca de Hematita selou-se à dela e forçou-a a abrir. O ar lhe foi sugado, a pele rosada esmaeceu a cor e o cabelo perdeu o brilho. Por último, o corpo caiu como papel solto no ar enquanto a pele da mulher de preto adquiria desenhos negros momentaneamente.
Então, Hematita subiu no teto outra vez e caminhou sem rumo, perdendo-se na escuridão perpétua. Não muito depois Onyx chegou afoito e deparou-se com o corpo atirado ao chão.
— Quartzy! Não! — jogou-se onde ela estava, passou os dedos pelo nariz e boca da jovem bailarina, não sentiu a respiração sair, tocou-lhe o colo e aterrorizou-se com o peito silente — Não, Quartzy, reaja! — tentou reanimá-la com as mãos em seu peito — Não me deixe, Quartzy! — não houve resposta. — Não... — a garganta queimou até a boca, os dentes rangeram.
Dor... pontadas no peito e no estômago. Onyx gritou um lamento indescritível e a abraçou forte, os braços da nemesiana balançaram-se inanimados e ela estava gelada. Insistente, a sacudiu, apertou-lhe as mãos, balançou-lhe a cabeça e quando aceitou que aquilo não adiantaria, ainda crente que poderia trazê-la de volta, a levou nos braços até o laboratório.
— Não se aflija, Quartzy! Eu vou trazê-la de volta, já fiz isso antes, eu prometo que dará certo! — alimentou a crença insana aos risos nervosos, risos que não carregavam ironia ou sarcasmo, apenas desespero.
...
— Você deveria ir para o outro lado, não vai ser de grande ajuda irmos na mesma direção. — Jade sentiu a presença de Topázio logo atrás.
— Já rodamos todo o perímetro, é bem óbvio para mim que Saphiro, ou o corpo dele, não está na cidade. — marchou entediado até alcançá-la e andarem lado a lado.
— Fala como se desejasse encontrá-lo morto. — rosnou.
— Tanto faz... — sacudiu os ombros displicentemente.
— Mas você! — puxou-o pela capa.
— Estou mais preocupado com outros assuntos. — encarou-a — Como, por exemplo, essa súbita vontade do rei de fazer as pazes com os terrestres. O que acha disso?
— Desde quando minha opinião tem alguma importância para você? — largou-o sem cuidado.
— Você poderia ter votado a favor do fim da guerra, mas preferiu que a votação fosse adiada.
— Porque acho errado votarmos sem a presença do príncipe mais novo! — se defendeu.
— Bobagem! — ficou tão próximo quanto a sua inconveniência ditava — Olhe nos meus olhos sem piscar e diga que foi só pela ausência de Saphiro que preferiu adiar a votação. Diga que não sente raiva dos defensores da Lua Branca e que não deseja fazê-los sofrer, vamos! — desafiou-a.
— Eu sei muito bem o que você está tentando fazer e não gosto nada disso! — o empurrou e andou para longe.
— Você prometeu à Ametista que participaria da vingança. — relembrou-a — É tarde para voltar atrás.
Jade parou, calada, e cerrou os punhos, apertou a lança e inclinou a cabeça aos céus. Demorou-se naquela posição e instigou a curiosidade do general sobre seus pensamentos e desejos.
— Não pronuncie o nome dela, — finalmente se manifestou — você não é digno. — e foi-se embora na direção contrária a ele.
Enquanto isso, não muito distante, Olho de Peixe e Olho de Tigre encontraram-se e combinaram de ir juntos, sob o lume do pôr do sol, ao porto onde Sailor Ocean e Sailor Wind os receberiam em um barco. E, na nau sedniana, enquanto Hina alimentava Saphiro supervisionada por Sailor Nature, Damien comunicava-se com os antigos regentes do reino.
— Eu sei como a senhora está ansiosa para voltar, — Damien referia-se à mãe da esposa — mas espere só mais uns dias. Não tenho como assegurar a sua proteção e a de meu sogro por enquanto, somente quando o palácio e Crystal forem recuperados. Tenha paciência...
— Rini, escute-o... — Helios, brando como sempre, aconselhava — menos de uma semana, passará rápido, você vai ver...
— Tudo o que quero é poder abraçar minha filha e ver que ela está bem! — lamentou — E Saphiro? Disse algo sobre ela? Sobre como está sendo tratada?
— Saphiro mal abre a boca. — disse rancoroso.
...
— Saphiro, você precisa comer... — Sailor Fire insistia em levar a colher de sopa à boca do príncipe, mas ele virava o rosto.
— Está doendo infernalmente! — resmungou.
Hina pôs o prato de lado por um instante e roçou uma bolsa de gelo às bochechas inchadas dele. O prisioneiro gemeu e baixou a cabeça, depois mordiscou os lábios e a ergueu, resistindo à dor.
— Príncipe Doryan não brinca em serviço... — Reiko comentou — Lamento por você, Saphiro. — ele a olhou reprovando o comentário, a guerreira riu-se — Aprenda a ter senso de humor!
— Reiko! — Sailor Fire revirou os olhos e o rosto rosou tímido e impaciente.
— Hina, obrigada... você e Mizumi não contaram sobre minha participação no seu encontro às escondidas ao rei. É injusto eu não ter levado bronca, mas mesmo assim, obrigada! — bagunçou o penteado da ruivinha.
— Não... não foi nada! — ajeitou as madeixas rapidamente, corou ainda mais ao perceber que Saphiro, mesmo doído, abriu um sorriso discreto diante da situação.
...
Sailor Ocean apoiava-se no mastro e seus pensamentos vagavam ao longe, a brisa levava as suas ondas na direção que bem entendia. Na proa do monumento, Yumi estava sentada. Desde o conflito elas não se falaram. Mizumi tentou ser madura e foi até a defensora das ventanias.
— Yumi...
— Me deixe em paz. — não se deu o trabalho de olhá-la.
— Não podemos fingir que somos duas estranhas para sempre.
— Mas nós somos, você que tenta forçar intimidades.
— É... — Mizumi baixou o olhar e respirou fundo — Quer saber? Talvez você esteja certa. Meu mal pode ser não saber a hora de abandonar o navio, mas parece que estou aprendendo... — cansada, caminhou para onde estava — Passe bem, Sailor Wind.
Não recebeu palavras e nem olhares, a dona dos cabelos e olhos prata sabia interpretar perfeitamente o papel de frígida.
...
— Não está dando certo! — o suor de Onyx respingava sobre o corpo jazido no leito — Por que não está dando certo?! — derrubou duas macas, chutou-as, praguejou e meteu as mãos na cabeça, por dentro dos fios negros. Depois, apoiou-se na cama metálica em que Quartzy estava deitada e tomou-lhe as mãos gélidas.
— O corpo dela não reagirá ao cristal negro... — as mãos maternais seguraram os ombros do cientista.
— Mãe... — olhou-a por cima dos ombros, na face transparecia o assombro.
— Você é um homem agora... — acarinhou-lhe o queixo e ajeitou-lhe os óculos.
— Esperei tanto tempo por isso... é exatamente como eu lembrava de você! — abraçou-a firmemente, aconchegou a cabeça no peito da progenitora — Juntei cada pedaço!
— Não, querido... eu era uma mulher doente e agora estou curada. — beijou-lhe o topo da cabeça — graças ao poder da pedra milagrosa de nosso planeta, e ao seu talento... — cativou a face do desamparado e olhou-o nos orbes da pedra que nomeava o pai e esposo. — No entanto, tirando a minha fraqueza, sou eu, a mesma, a mulher que contava estórias para você dormir, que o banhava, que penteava os seus cabelos...
— Mas... minha mãe não teria a coragem ou a malícia de tirar a vida de uma pessoa! — tornou a atenção à lânguida Quartzy — Não! — afastou-se subitamente e atirou-se à frente da moçoila que há poucas horas atrás o tratou com doçura.
— Você se importa mais com esse ignóbil cadáver do que com a única pessoa que o amou verdadeiramente? Você acha que essa garota o aceitaria como é? Eu sempre o aceitei, mesmo com todas as mazelas. — expeliu o ar impacientemente — Você e essa sua mania por ansiar coisas puras, idealizadas... — caminhou pelo repartimento sombrio, passou esbeltamente por cima das macas derrubadas — Você é como eu, meu filho, nunca será puro, há uma erva daninha em você.
— Como você? Você era a criatura mais bondosa que eu conhecia! E como pode duvidar da minha devoção? Gastei parte da minha juventude não só tentando reanimar as partes de seu corpo, mas também tentando trazer a sua alma de volta! Eu não quis criar um Droid de você, eu não quis criar em suma, eu quis revivê-la, e sinto-me orgulhoso de vê-la aqui, comigo! Mas eu adicionei uma coisa em você... uma coisa que não achei que fosse mudar a sua índole... — a respiração falhou — me esforcei a acreditar, criei outra realidade em minha cabeça, mas um lado meu sempre temeu o que poderia acontecer quando você acordasse.
— Você me deu poder. — tocou-lhe o peito afobado — Eu sei o que liga minhas partes desmembradas filho, são os pedaços de cristal negro que você depositou em mim... ah! —suspirou — e meu organismo aceitou tão bem, veja! Nada pode me derrubar agora, nem ninguém! Só que tudo tem um preço, nesse e em qualquer mundo...
— Quartzy foi o preço a pagar?! — questionou colérico — Eu falhei! Isso só pode ser um Droid! — cobriu a testa com uma mão.
— Isso? — segurou-o pelo pescoço e o ergueu — É assim que se refere à sua mãe, moleque malcriado? — a voz não continha emoção alguma, sequer tremulava — Eu sou a sua mãe, em carne, em cristal e em espírito. Você é tão cego que desenhou em sua mente a minha alma como bem quis. Você não conhece minha alma, Onyx. E é minha culpa. Quis parecer perfeita para você, suprir todas as suas expectativas e carências, e a realidade é que me fingir de algo que eu não era me sufocava e me tornava ainda mais doente. Nunca quis ser mãe, nunca quis me casar com Amber, fui vítima das circunstâncias. — largou-o ao perceber que ele começava a ficar roxo.
— Você não pode ser minha mãe. — massageou o pescoço marcado pelos dedos da besta e rouco, lamentou — Minha mãe não era assim...
— Iluda-se, é a sua cara. — deu-lhe as costas — Eu disse que tinha um preço, não disse necessariamente que deveria ser a sua amiguinha. Infelizmente, ela estava no lugar errado e na hora errada. Que azar!
— ...Qual é o preço? — pigarreou.
— Vida. Não adianta tentar trazê-la de volta, eu suguei até a última gota do néctar dela... — olhou-o pela última vez e saiu do dormitório das criações.
— Ah, doce Quartzy... — levantou-se cambaleante, tomou as mãos da dona dos cabelos cor de rosa e prometeu: — Não posso desistir de você! — abraçou-a como se fosse um urso de pelúcia, depois cativou a cabeça dela em mãos e colou a boca à dela, selada e mórbida.
...
— Veja... — Crystal entrou no quarto com uma bandeja de prata em mãos, nela havia uma jarra e duas taças de cristal — Trouxe vinho.
— A tarde já está acabando e os dois não voltam, sinto que Onyx está tentando me passar a perna! — o príncipe estava a olhar o cenário através da janela, a mão pousava sobre o vidro — Estou pensando em invadir o laboratório daquele imbecil e arrastá-lo pelas pedras dos jardins até sua pele descolar do corpo... — rangeu os dentes.
— Não seja tão precipitado... Lembre-se, você precisa aprender a controlar os impulsos. — acomodou a bandeja em uma mesa encostada à parede, encheu as duas taças, entregou uma nas mãos dele, a outra ficou para si.
— Sinceramente Crystal, me sinto perdido e sem saber o que fazer. — olhou-a, percebeu que as vestimentas da rainha eram informais, um roupão de seda branca escondia uma camisola de decote rendado, descolada da pele e longa. Os cabelos dela, em conjunto, soltos escorriam sobre os ombros e peito. Admirou-a dar uma golada no líquido avermelhado — Não beba tão depressa, você não está acostumada... — avisou.
— Mas quanto cuidado... — a rainha sorriu e apoiou-se no ombro dele, admirando a paisagem além da moldura da ventana — Não se preocupe, não passarei dessa taça... Não amanheci muito bem do estômago. — fechou os olhos.
— Está doente?! — precipitado como sempre, quase entrou em colapso.
— Não é nada demais, Diamante! — riu — Acho que é pelo nervosismo, talvez o jantar de ontem à noite não tenha caído bem, só isso. — viu-o suspirar aliviado, acarinhou o peito branco, desceu as mãos pelos desenhos da farda.
Em outro contexto, ele a devoraria ali mesmo, sem ver mais nada pela frente. Contudo, as atribulações do príncipe eram visíveis em seu semblante abatido, até a pele estava mais leitosa do que o costume. O coração de Crystal apertava-se mais conforme a hora passava e nem Saphiro, nem Quartzy, nem Onyx regressavam.
Não demorava e o príncipe voltava a andar em círculos, ela tentava distraí-lo o máximo possível, até que a preocupação dela própria já não era capaz de se ocultar. Ao menos Diamante não rejeitava seus carinhos, pelo contrário, ainda rendia-se a eles. Crystal se perguntava, mesmo assim, até quando conseguiria apaziguar a fera que dormia dentro do invólucro de príncipe
...
— Sailor Wind, Sailor Ocean... Eu gostaria de fazer um pedido. — Sailor Nature se chegou — Está quase na hora de vocês buscarem o Tigrinho... eu gostaria de saber se tem como eu ir com vocês... — botou os braços para trás e balançou as pernas — Posso?
— Bem... — Sailor Ocean se prontificou a analisar a questão.
— Não tem lugar no bote, é um bote e não um ônibus. — Wind cortou.
— É um bote e não uma gôndola, cabem quatro pessoas. — Ocean refutou.
— É verdade, Sailor Wind. Tem um lugar sobrando que eu sei. — piscou agradecida para Mizumi.
— Façam como quiserem. — conformada que perderia a discussão, Yumi se prontificou a ajeitar os remos para a partida.
...
— Damien... — Doryan entrou no dormitório do rei e pegou-o pensativo, sentado à beira da cama. — Passou o dia inteiro aqui, mal comeu... — sentou-se ao lado do irmão — Hoje fiz alguns progressos, acrescentei a pedra sedniana nos machados de Sailor Wind e amanhã acrescentarei no tridente de Sailor Acqua, pensei também em esculpir armaduras, não tão elaboradas quanto a sua, porque o tempo é curto, mas boas o suficiente para protegê-las da influência do cristal dos Black Moon e... Damien? — balançou-o pelo ombro — Está me ouvindo?
— Desculpe, o que disse? — roçou os olhos cansados com as mãos.
— Damien... Você ainda está aborrecido pelo que aconteceu, não é? Eu sinto muito pela minha conduta e por ter causado tamanho reboliço, de verdade.
— Não Doryan, não é com você. Desde o início dessa confusão não tenho dormido bem, é só isso...
— Falta pouco para sua mulher estar novamente nos seus braços. — a frase causou um riso no mais velho.
— Minha mulher... — riu mais alto e cobriu o rosto com as mãos — Não ligue para mim, o cansaço está alterando meu juízo.
— Damien, você está escondendo alguma coisa de mim. Saiba que pode me contar, não importa o que seja.
— Não quero contar nada agora, só quero dormir... Poderia me dar um pouco de espaço? A cama é pequena.
— Sim, claro. — Doryan se levantou resignado.
— Obrigado por se preocupar — ajeitou-se sobre o leito, afundou o rosto no travesseiro —, mas é como você falou, em breve Crystal estará de volta e as coisas irão melhorar.
— Bom descanso... — falou da porta.
— Uhum... — o rei respondeu sonolento.
...
Diamante resolveu esperar o retorno dos súditos no salão real e Crystal fez-lhe companhia. Enquanto ele apertava os dedos no braço cristalizado do trono, a rainha tentava acalmar uma das mãos violentas.
As portas se abriram, para o desapontamento do príncipe o súdito que surgiu era Topázio.
— Vim reportar que ainda não encontramos nada, nenhuma pista, majestades. — ajoelhou-se perante os reis.
— Topázio, quero que vá ao óvni de Onyx e veja porque ele demora tanto para retornar. — em momentos de desespero, medidas de desespero devem ser tomadas, assim Diamante acreditava.
Porém, quando nem bem Topázio tinha acatado a missão, o cientista entrou esbaforido pelo salão com Quartzy nos braços. Sem raciocinar bem, sem ao menos olhar os regentes na face para ver suas reações de desconforto, raiva, tristeza ou o que fosse, jogou-se aos seus pés e a jovem tão quista jazeu no chão de cristal. Finalmente ele ergueu o rosto, mas não foi ao príncipe que dirigiu os olhos e sim à rainha.
— Salve-a! Eu imploro, salve-a! — agarrou-se aos tornozelos de Crystal e ela levantou assustada.
— O que você fez?! — furioso, Diamante também levantou, preparado para acertar um golpe de misericórdia no sujeito ao chão, todavia Crystal o impediu a pôr o braço à sua frente.
— Fiz de tudo para trazê-la de volta, nada funcionou, estou desesperado! Sei que a sua pedra opera milagres, por isso recorro a você! Eu vi os jardins! O cristal sagrado traz a vida de volta, então, eu imploro, traga-a de volta! — puxou o corpo de Quartzy para perto — Eu faço qualquer coisa em troca, mas me devolva a minha Quartzy! Se salvá-la eu prometo, rainha... — ofegante, soprou os cabelos que lhe cobriam a vista — serei seu humilde e fiel servo até o fim de todos os tempos! Você é a única esperança que tenho! —abraçou-se às pernas da rainha — Quartzy! — urrou como um animal.
— Controle-se! — Diamante ordenou.
"Grande imbecil!" — Topázio, enojado com a cena humilhante, olhou para o outro lado.
Crystal tirou o broche de dentro do decote do vestido, depois tocou gentilmente a cabeça de Onyx, ele a fitou surpreso e se aturdiu mais quando a monarca ajoelhou-se à sua frente, mirando-o.
— Eu darei tudo de mim para fazer isso, prometo! — apertou o broche em mãos e respirou fundo buscando controle, afinal, Quartzy lhe era muito querida e doía coração pensar em perdê-la.
"Vovó, me ajude!" — ao aproximar-se da finada amiga ajoelhou-se, pousou o broche sobre o peito do corpo estático e as mãos o pressionaram contra o coração silencioso. Crystal fechou os olhos e uma luz esbranquiçada aos poucos começou a envolvê-la.
Diamante mantinha a mão sobre a boca, cético. Depois, fitava o cientista, doido para rasgar-lhe o pescoço sem se dar o trabalho de perguntar o que aconteceu. Não obstante, mesmo o príncipe acostumado a se permitir cegar pela ira, percebia a sinceridade do luto de Onyx. — "Nem Sailor Moon revivia os mortos..." — ele pensou melancólico, preocupado com a decepção que Crystal sofreria.
Topázio entendia que naquela ocasião não seria conveniente perguntar a Onyx o que se sucedera, mas sabia que havia outra pessoa que poderia dar uma resposta e, no momento em que a luz de Crystal tornou-se vívida demais para ele suportar, o cavaleiro escapou ladinamente do palácio e foi procurar as respostas com a única pessoa que estava no óvni de Onyx.
...
Conforme as guerreiras chegavam ao porto, notavam um fio de luz branca vindo do centro do reino.
— Vejam aquilo! — Reiko quase ficou de pé e seu movimento provocou forte balanço no bote.
— Sossegue aí! — Wind a colou no assento, irritada como sempre — Estamos vendo! — remou mais depressa.
Sailor Ocean esticou os braços e com o seu movimento as águas salgadas formaram uma marola forte o suficiente para apressar a viagem. Ao chegarem, depararam-se com Olho de Tigre e Olho de Peixe ansiosos. Sailor Nature nem piscou, correu pela areia, subiu os degraus de madeira e pulou nos braços do seu felino favorito naquele cais iluminado, Peixe demonstrou-se entediado ao encaixar as mãos na cintura.
— O que é aquilo? — Mizumi apontou e perguntou ao companheiro marinho.
— Também não sabemos, começou há algum tempo. — Olho de Peixe contou.
— Precisamos averiguar! — Sailor Wind observou.
— Sim! Sailor Nature, leve-os à nau! Deixe essa tarefa conosco... — Sailor Ocean orientou a colega de luta.
— Ué? Mas como vocês voltam depois? — A guardiã da natureza perguntou confusa.
— De qualquer modo, não caberíamos todos no bote... esquecemos do Peixinho! — Mizumi coçou a cabeça desajeitadamente. Yumi não poderia ralhar porque falhou nesse quesito também.
— Como é que é?! — o rapazote de cabelos cerúleos cruzou os braços e reclamou histérico.
— Peixe, não há tempo para isso. Vamos! — Olho de Tigre o puxou pelo braço.
— Cuidem-se! — Sailor Nature gritou antes de começar a dar as remadas e se afastar, os integrantes do Circo da Lua da Morte a ajudavam.
As marinheiras que ficaram, correram juntas na direção do espectro luminoso. No meio do percurso, Sailor Wind foi pega desprevenida por um dos Droids que passeavam pela cidade na busca por Saphiro. O ser jogou-se por cima dela e prendeu seus braços antes que ela conseguisse puxar os machados da cintura.
— Wind! — a outra guerreira freou em cima da hora.
— Continue! Eu a alcanço depois!
Por mais que Mizumi se preocupasse profundamente com a mãe dos furacões acima de qualquer questão que uma tivesse com a outra, teve de acatar as palavras de Sailor Wind e prosseguir. Como o rei dissera, havia prioridades, e sabia-se bem quem emitia aquele tipo de luminosidade e calor fortes o suficiente para fazer o início da noite se assemelhar ao início da manhã. Quanto mais se aproximava do Palácio de Cristal, mais forte o foco de luz ficava, até ela quase não poder enxergar. Mizumi sorriu animada, pensou que talvez a rainha estivesse conseguindo escapar do cárcere.
— Finalmente encontrei um dos odiosos membros da Lua Branca! — a voz da amazona atraiu a atenção da navegante. Do alto de um pedregulho de cristal, Jade apontava-lhe a lança lapidada por Saphiro, Sailor Ocean virou-se para ela calmamente — Você... — Jade a reconheceu — é a maldita que quebrou a minha lança! — saltou da pedra — Diz para mim, vadia... onde está o príncipe Saphiro?
Sailor Ocean sorriu provocativa e adquiriu posição de combate. Jade perdeu a paciência e partiu para cima.
...
Os cabelos da rainha desrespeitavam as leis da física e bailavam para cima, o vento provocado por sua energia fez com que as largas mechas se soltassem. A lua cintilava doirada na testa, os olhos resplandeciam num tom de azul inimaginável e finas lágrimas desciam pelos seus cantos.
— Vovó, me oriente! — suplicava continuamente.
No exato instante em que Diamante desistiria de assistir ao triste espetáculo e virar-se-ia para outro lado, o vislumbre de Serena, na mesma posição de Crystal, à sua frente, como se fosse um reflexo, tomou forma. As mãos delas se uniram sobre o broche, e a pedra cravada nele assumiu diferentes cores. Elas evocavam preces com os lábios, ninguém entendia bem as exatas palavras. Onyx mantinha-se na expectativa até que a rainha entrou em colapso e caiu desacordada. A luz, aos poucos se apagou... e Quartzy permaneceu como estava.
Diamante deu um longo suspiro e correu até sua protegida, acomodou-a nos braços e apalpou-lhe o rosto frio...
— Crystal... Crystal! — ela não respondia. Um Droid prontamente se aproximou para ajudar — Leve-a para o quarto — deu a ordem, Depois se levantou e foi até o desconsolado Onyx — Eu deveria executá-lo por isso, mas perdi a vontade. Acho que viver e lidar com o que quer que você tenha feito será muito mais doloroso. — depois da sentença, deixou o cientista sozinho com seus fantasmas. — Como ela está? — perguntou à serviçal ao chegar ao quarto.
— Bem majestade, apenas dorme... — a voz robótica ecoou.
O príncipe se aproximou cuidadoso e sentou ao lado da rainha, penteou-lhe a franja com os dedos e acariciou a lua ainda cintilante. Os olhos dela abriram-se devagar.
— Como está se sentindo? — ele perguntou.
— Enjoada... — revirou os olhos — e tonta.
— Você se esforçou demais... — beijou a testa quente — Parece estar com febre, chamarei o Droid para medir a sua temperatura.
— E Quartzy? — cativou a mão principesca, os olhos expressavam ansiedade.
Diamante suspirou e balançou a cabeça negativamente. Nesse momento, Crystal cobriu a boca com as mãos e abafou um gemido, depois cobriu os olhos instantaneamente encharcados. Foi tomada por um abraço acolhedor e quente, manchou a farda de lágrimas, arrasada. Os ombros balançaram-se em sincronia aos soluços.
— Você fez o que podia... — tentou consolá-la e estranhou-a por afastá-lo bruscamente e correr até o banheiro — Crystal! — encontrou-a estirada sobre o vaso sanitário, ali expeliu o café da manhã e o almoço. Preocupado, Diamante foi chamar pelo Droid.
Depois de se lavar e beber um copo d'água, ainda chorosa, Crystal quis ir ao salão novamente, Diamante relutou, ela insistiu e foram. Lá, a rainha deu instruções de que o corpo de Quartzy fosse levado a um lugar sobre o qual Diamante ouvira muito falar em sua vida passada. Uma triste sala onde certa vez uma rainha dormiu, Nova Rainha Serena. Onyx depositou a querida bailarina sobre o leito de pedra e cruzou seus braços sobre o peito, moldando-a na clássica pose fúnebre. Tirou do bolso a folha verde e pôs entre os dedos da estimada adormecida.
— Devíamos fazer um funeral... — a rainha sugeriu, enquanto roçava os olhos avermelhados de choro.
— Nemesianos não têm funeral — Onyx, ajoelhado diante da falecida, disse —, nós nos tornamos pó, simplesmente...
— Aqui, pelo menos, ela será mantida do jeito em que está, e será jovem para sempre... — Crystal tentou consolá-lo.
— Vamos, Crystal... — até Diamante sentiu pena do gênio dos pântanos nemesianos — Deixemos ele se despedir.
Os soberanos se foram, e Onyx permaneceu como estava, agarrado à última memória que tinha dela.
...
— Então, em breve eles saberão sobre a minha existência... — Hematita refletiu enquanto Topázio a ajudava a colocar o vestido.
— Precisamos tirá-la daqui o mais rápido o possível. Há uma vasta região de bosques, pode se esconder por lá, ao menos por enquanto. — repôs a preciosa gargantilha na Dama Negra, não antes de beijar-lhe o pescoço remendado.
— Você é mesmo como seu pai, até nessas horas... — virou-se de frente para ele e o beijou ardentemente, dessa vez sem sugar o ar ou a vida, apenas para apreciar a textura da língua molhada.
— Vocês devem ter passado por horas fascinantes antes. — ele encerrou o ato e enrolou os dedos nos fios negros da nuca dela — Amber descobriu e por isso a matou, não foi?
— Como você é sagaz... — arranhou sutilmente o peito e a barriga despida do cavaleiro dourado, as peças de armadura estavam todas espalhadas pelo cômodo enquanto os dois dividiam uma maca apertada. — Isso já não tem importância. — levantou-se — Leve-me para os bosques.
— Podemos conquistar muitas coisas juntos, — nu, caminhou até a mãe de Onyx e agarrou-a por trás — Eu, você, a Terra para nós...
— Primeiro, tire-me daqui. — passou a língua pelos lábios quando ele arrastou o nariz por seus cabelos e mordeu-lhe a face.
...
Horas se passaram, Onyx esteve o tempo todo no elegante e solitário jazigo de Quartzy. A exaustão o abraçou e ele se sentou, as costas apoiadas ao túmulo aberto. Depois, com maior esforço emocional do que físico, levantou-se, olhou-a pela última vez e saiu do salão. A pobre nemesiana ficou, finalmente sozinha, enredada pelo silêncio e pela escuridão...
E, então, o silêncio se quebrou.
O corpo de Quartzy sofreu um violento espasmo, em seguida a boca dela se abriu e um gemido se libertou enquanto ela engolia todo o ar que podia. Os olhos abriram-se magicamente. Onyx, do corredor, pressentiu algo diferente e voltou correndo.
— Quartzy! — um sorriso alargou-se na face do cientista ao vê-la sentada a olhar para os lados.
— Onyx? O que aconteceu? Onde estamos? — tentou ficar em pé, as pernas bambolearam e ela encontrou apoio no peito do outro Black Moon.
— Aconteceu que você está certa e eu estava errado! — a abraçou — Eu estava errado esse tempo todo! Eu quero mudar, me ajude a mudar, sei que você é a única capaz!
— Onyx... fico feliz por você ter percebido tudo isso, mas... por favor, não me aperte tanto, não consigo respirar.
— Está certo! — pegou-a no colo num repente e saiu correndo com ela pelos corredores — Ela está de volta! — gritou alucinado, às gargalhadas — Quartzy está aqui!
— Onyx, o que está fazendo?! — ela quis se enterrar de vergonha.
— Mas o que é essa maluquice? Agora que Crystal conseguiu dormir, a rainha está se sentindo mal! — Diamante saiu do quarto a esbravejar, mas antes que pudesse continuar a praguejar viu diante de si Onyx com Quartzy – viva – nos braços.
— A rainha conseguiu! — Onyx comemorou em imenso júbilo — E quanto a mim, sirvo a ela a partir de hoje e por todos os dias da minha vida!
— Majestade, me desculpe por isso! — ela balançou as pernas na tentativa de se soltar dos braços ensandecidos.
— Quarty, você lembra do que aconteceu com você? — Diamante a conteve como estava e fitou Onyx.
— Eu fui ao óvni com Onyx, e tudo ficou escuro... pareceu um sonho estranho. — ficou aérea repentinamente.
— Príncipe, quando a rainha estiver acordada eu explicarei tudo o que houve no óvni, e também outras coisas. Por mais que minha vida possa estar em risco se eu revelar os segredos que guardo comigo, eu ponho minha conta em risco.
— Cumpra com sua palavra. — Diamante disse em tom ameaçador — Agora, leve-a para o quarto, todos precisamos descansar.
E assim foi feito. Diamante fechou as portas do quarto e contemplou a amada abatida, dormindo depois de tantas confusões.
"O que você não é capaz de fazer?" — se perguntou em misto de admiração e temor.
Continua...
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