A Minha Queda Será Por Você
16 Onyx, o gênio insano
Era o mesmo cenário do sonho que tivera uma vez, as paredes de cristal negro e espelhado eram quase iguais, todavia, algo ali se diferia. Ela olhou ao redor e notou que água escorria por aquelas pedras preciosas, de algumas o líquido respingava como chuvisco, de outras descia como cascatas. Não havia luz naquele extenso corredor, ainda assim formavam-se arco-íris do piso ao teto. Por mais louco que o cenário fosse, Crystal, coberta por um manto de seda branca andava, os pés emergiam na água gelada até as canelas, toda a água à sua volta fazia-a lembrar do beijo que compartilhou com o príncipe embaixo de uma árvore... Ah, aquela fora a mais linda tempestade que presenciara em toda a sua vida! Apesar de como se fez o desfecho, com aquilo ela aprendeu mais que nunca a amar a chuva. Seguiu a trilha de um daqueles arco-íris, ao chegar a seu final avistou por trás de uma névoa branca a capa escura a balançar. Ela reconheceu assim que o viu, apesar de turva a visão.
— Príncipe... — Não sabia o que dizer, não sabia como ele reagiria, sentia-se envergonhada por ter somente um pano amarrado ao corpo. Parou de falar e adentrou a névoa.
Ele se virou lentamente, estava encharcado, o tecido da farda branca transparecido, a ponta da capa submergia naquelas águas que pareciam mais profundas.
“O que faço para provar meus sentimentos por você?” — Ela pensou, enquanto encarava aqueles olhos púrpuros como se estivesse hipnotizada.
Ele se aproximou ainda em silêncio, ficou a um palmo de distância olhando-a como de início. O olhar enigmático fazia o coração de Crystal se espremer dentro do peito, sentiu um nó na garganta tão forte que pensou que sufocaria. Afoita, quando abriu a boca para falar ele a impediu, repousou o dedo indicador sobre os lábios macios, rosados, úmidos e quentes da menina. A princesa arregalou os olhos azuis em espanto, mas não demorou a fechá-los, entorpecida por aquele toque impetuoso primeiro em sua boca, depois nas bochechas, descendo ao pescoço, bailando as pontas dos dedos na pele quente e arrepiada. Não entendia o que ele estava fazendo, sequer importava saber, só desejava que ele não parasse.
Sutil como um vento, ele a desvencilhou do fino tecido que cobria o corpo pueril. Despida, não teve forças para cobrir a intimidade, ou sequer relance de timidez, estava entregue nos braços dele, apreciando o correr daquelas mãos pálidas e frias em seu corpo pequenino, o sopro dele em sua pele, em seu ouvido. Estava caindo lentamente nas águas misteriosas daquele cenário onírico, sentia sobre si o peso do corpo dele agarrado ao seu.
Não sentia frio, tampouco falta de ar, quanto mais mergulhavam abraçados trocando carícias voluptuosas, mais inebriada Crystal ficava. A sensação era de que poderia ficar ali, nas profundezas, para todo o sempre desde que Diamante estivesse consigo. Outra vez sentia o calor desconhecido na fresta entre as pernas, era bom...
— Princesa, isso lhe pertence, não é mesmo? — a voz não pertencia ao príncipe, era feminina embora grave, e soava longe inicialmente — Princesa? — Quando ia tornando-se próxima, gradativamente o cenário em que Crystal se encontrava transparecia, desvanecia como uma ilusão.
... E era. Crystal abriu os olhos de supetão, ofegante sentou-se olhando para os lados, Sailor Wind a encarava de um jeito estranho, e logo ela entendeu o porquê: debaixo da coberta branca era possível ver o molde de seu braço e o volume de sua mão entre as coxas. Em um reflexo, ela tirou a mão de lá e a segurou com a outra, em segundos o rosto corou completamente.
“O que eu estava fazendo?” — Crystal pensou atordoada. Esfregou a testa e notou-a molhada de suor.
— Esqueceu-os no jardim. — Sailor Wind fingiu ignorar a cena desconcertante que presenciara e ergueu em uma das mãos um par de sapatos encardido. — O que estavam fazendo lá?
— Ah, eu os esqueci... Gosto de caminhar descalça pelos jardins. Já é tarde, Wind? —desconversou, fingindo naturalidade.
— Não, mas é bom despertar e arrumar-se. Daqui a poucas horas terá aula e aposto que não fez a lição.
— Bem lembrado! — a princesinha abriu um sorriso desajeitado, retomando as suas origens.
...
Olho de Águia ergueu os braços para o alto e os alongou, sentiu os ossos deles e das costas estalarem, estava fatigado. Sentou na cama sentindo os músculos ainda enrijecidos pela noite passada, curvou o pescoço para um lado e para outro estalando-o também. Depois, olhou à sua volta e não viu nem sinal da parceira. Levantou-se, vestiu as calças e foi até o banheiro da suíte, nada de Mizumi por lá. Suspirou, lavou o rosto, escovou os dentes com a escova da amante, aliviou-se, arrumou o cabelo e por fim retornou ao quarto, terminou de se vestir e com um sorriso triunfante caminhou até o salão de jogos. Era cedo, nenhum dos companheiros acordara, a mesa de bilhar estava com as bolas coloridas espalhadas por cima, Águia as empurrou para o canto e jogou-se de costas sobre o fundo verde.
— Mal posso esperar para contar as boas novas para o Tigre...
...
As gêmeas andavam aos saltos, seus passos pesados soavam no piso de cristal negro, irritando o exuberante cavaleiro dourado.
— Quietas! Esse som de atrito com o vidro está me irritando! — bradou impaciente.
— Desculpe mestre... — as duas falaram em sincronia.
Enquanto caminhavam pelo longo corredor negro rodeado por um lago que refletia toda a escuridão, Aoi, nas pontas dos pés foi até Topázio, temerosa que estivesse muito chateado, afagou a ombreira dourada e depois a capa marrom de seu amo.
— Está muito zangado? — disse, em tom submisso e doce.
Ele parou bruscamente, respirou fundo como se buscasse algo e então, em humor mais ameno do que há pouco, virou-se de frente à acompanhante de cabelos azuis.
— Sinto muito, minha Aoi... — passou os dedos por aquela face juvenil e delicada —Ultimamente, estive zangado com algumas coisas, algumas pessoas, mas não é um problema insolúvel.
— Podemos ajudá-lo, mestre! Podemos fazer o que o senhor quiser! — a menina dos cabelos faiscantes, Akai, aproximou-se também, segurou a outra mão do homem e a pôs sobre seu rosto como se exigisse o mesmo afago que Aoi recebera.
— Eu sei minhas meninas, me serão muito úteis, por isso estão sempre ao meu lado. Vocês são minhas duas ágatas preciosas. — terminado o discurso, Topázio segurou primeiro Aoi pelo queixo, depositou um beijo breve nos lábios da jovem, em seguida, fez o mesmo com Akai, exatamente na mesma intensidade, deu um intervalo para que as duas suspirassem contentes, depois virou-se novamente para continuar a jornada até o veículo que os conduziria para a região sul do planeta, como sempre a dupla o seguiu.
Caminharam até alcançar um enorme círculo, no centro encontrava-se um veículo que lembrava um helicóptero, não possuía rodas, uma energia azul-marinho era o que parecia fazê-lo flutuar, também não possuía hélices, o que o tornava semelhante a um helicóptero era seu formato arredondado na parte frontal, cujo vidro do lado de fora era negro, porém do interior era possível enxergar toda a paisagem, era como aquelas películas utilizadas em vidros de carro. Topázio foi o primeiro a adentrá-lo, sentou-se no banco da frente, imediatamente uma barra, também de cristal negro, se formou em volta de si, era o cinto de segurança. As duas meninas sentaram nos bancos de trás, barras também protegeram seus corpos delineados. Não havia volante ou qualquer tipo de marcha, apenas um mapa florescente no visor. Topázio tocou exatamente no ponto do mapa que desejava ir e sem demora, o transporte começou a ganhar altitude até que em milésimos de segundo, partiu como uma bala deixando para trás apenas faíscas daquela energia azul escura, parecia uma estrela cadente que não caía, mas modulava os céus com a sua luz constante. Akai estendia os braços para o alto e sorria como se estivesse em uma montanha russa. A pobre Aoi cerrava os olhos e abraçava-se à barra, o frio na barriga era tamanho que a pobrezinha encolhia as pernas e gemia assustada. Topázio fitava constantemente o mapa, conforme a espécie de “nave” se aproximava do destino, piscava no vidro frontal um ”x” verde em cima do destino de chegada. Através do vidro, pequenas e raras luzes passavam corridas como um “flash”, pertenciam às poucas casas ainda habitadas.
“Essas pessoas estão tão desmotivadas que nem mais se reproduzem... Quanto mais o tempo passa, mais deserto torna-se Nemesis. Ametista perde o seu tempo trazendo dos mortos dois inúteis que traíram a nossa causa, devíamos invadir a Terra o quanto antes e colonizá-la, devíamos escravizar os humanos ou eliminá-los de uma vez e fazer de nosso clã a raça mais abundante daquele planeta!” — pensava amargurado, enquanto a aeronave descia e dissipava a poeira daquela paisagem soturna.
Assim que o veículo tocou o solo, as duas meninas pularam na frente do cavaleiro cuja armadura, por mais dourada que fosse, sequer reluzia naquele breu. Akai prontamente formou duas chamas nas palmas das mãos que serviram como tochas para iluminar o local.
— Mestre, tem certeza de que é aqui? — a jovem rubra questionou, visualizando à sua volta apenas ruínas e não ouvindo um som de gente viva. O silêncio instigava a adrenalina.
— Sim. — ele respondeu sem titubear — Prossiga, Akai. Precisamos que vá à frente para que possamos enxergar o caminho.
— Já que o mestre manda... — a menina não fez mais perguntas, apenas andou cuidando para não tropeçar nos buracos pelo chão feito de terra escura e cristal.
Chegaram até um ponto onde tiveram que parar. À frente havia apenas um enorme lago formado por um líquido negro e aparentemente pastoso como o piche, nada além, só a linha do horizonte sem estrelas , um céu obscuro, coberto por nuvens cinzentas e esverdeadas formadas pela energia maligna do cristal que regia Nemesis.
— Mestre, e agora? —Aoi perguntou confusa, abraçando-se a ele.
— Agora não, Aoi. — desvencilhou-se dos braços dela.
— Mestre, e agora? — Akai virou-se para ele.
— Aguardamos. — Topázio respondeu.
— O quê? —Akai indagou.
Topázio apontou em silêncio para trás da ruivinha, ela não compreendeu até que sentiu um sopro gelado apagar as pequenas chamas em suas mãos. Quando virou-se para ver o que era, notou que pequena parte do lago transformou-se em uma criatura com o corpo semelhante ao de uma medusa cheia de tentáculos na cabeça. Não teve tempo de gritar, aquela “coisa” enrolou um dos tentáculos em sua boca e pescoço, e em incrível velocidade a puxou para dentro do lago que agora mais parecia um imenso buraco negro onde Akai se perdeu.
— Mestre, faça alguma coisa! —Aoi gritou aflita, e logo foi a sua vez de ser tragada por outra daquelas “coisas” que repentinamente apareceram em grande número formando-se do material que provinha daquele lago profundo.
Topázio bufou, ergueu as mãos para frente e delas uma forte luz semelhante a um raio solar surgiu e assumiu a forma de uma espada. Ajoelhou-se sobre a terra negra e cravou a lâmina de trovões no líquido escuro. Raios dourados espalharam-se por todo o perímetro até que aquelas coisas foram se desfazendo em “piche” novamente, e como se juntas formassem uma bocarra, cuspiram as duas meninas que arfavam. Akai e Aoi caíram deitadas sobre o chão, encharcadas. Todo aquele líquido começou a ser sugado para baixo como uma descarga, enquanto ele descia uma enorme esfera negra emergia. Quando saiu por completo de sua toca, uma porta se abriu do nada, nem mesmo formato ela tinha e quem olhasse aquele imenso objeto flutuando jamais preveria que possuía janelas ou sequer uma entrada. De dentro daquela porta, também redonda como a esfera, um sujeito saiu a flutuar. Seus longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo baixo, seus olhos alaranjados por trás de pequenas lentes arredondadas e transparente dos óculos refletiram nas íris de Topázio. O dito alquimista e cientista desceu, o jaleco cinza balançava ao vento, por baixo vestia roupas semelhantes às que os chineses usavam na antiguidade, a camisa abotoava pelos lados como aquelas fardas chinesas de bordas douradas, o que diferia o traje além do jaleco, eram os coturnos negros calçados no lugar das clássicas sapatilhas, era realmente um sujeito excêntrico.
— Ora, ora... — a voz não era tão grave quanto à de Topázio, o riso debochado era agudo inclusive. — O que temos aqui? — encarava Topázio com um largo sorriso — Não pensei que...
— Você deve ser Onyx. —Topázio se adiantou impaciente — Essas criaturas que nos atacaram são criações suas, não? Ouvimos dizer que é um exímio alquimista e cientista, a minha senhora deseja conhecê-lo pessoalmente.
— Hum... — Onyx ajeitou os óculos e examinou as duas meninas que se ajudavam a levantar — Mas que preciosidades são suas bonequinhas...
— Disse bem, minhas. — o louro pôs-se na frente das protegidas, Aoi inocente nada demonstrou, contudo, Akai obviamente estava tão enojada que virou o rosto.
— O que a grande soberana deseja de mim, um cientista louco e falido? — riu, cruzando os braços, Aoi percebeu que em uma das mãos ele usava uma luva branca.
—A princesa Ametista acredita que você tenha a habilidade de nos ligar à Terra sem precisarmos invadi-la, não compreendi bem a ideia, mas tenho certeza de que será muito esclarecedor se nos acompanhar até o palácio.
— Enfim um bom rumor a meu respeito foi espalhado — os pés do cientista tocaram o chão, ele estava de frente ao louro imponente, encarando-o com um largo sorriso na face — Ao contrário de todos aqueles que dizem que enlouqueci, me encerrei em um esconderijo com as minhas criaturas e nunca mais pus os pés para fora desde que meu pai, o descobridor de que era possível multiplicar o cristal negro, faleceu misteriosamente. — terminou a frase com uma gargalhada.
— Não tenho dúvidas de sua insanidade, mas se Ametista deseja seus préstimos, não sou ninguém para contrariar.
— Tem certeza? — Onyx arqueou uma sobrancelha e pôs as mãos para dentro dos bolsos do jaleco — Algo me diz que tudo o que você mais gostaria nessa vida seria poder contrariá-la...
— Cale-se. — Em baixa voz, Topázio ordenou.
— E se eu não quiser me calar? — o possível “cientista maluco” desafiou.
Topázio, com a força de uma mão o segurou pelo pescoço e o ergueu, rangendo os dentes. Aoi e Akai pularam juntas, a segunda saltou mais por euforia do que por qualquer motivo.
— Se não calar essa boca fétida, o afogo nesse seu riozinho de gosma e faço desse lugar podre seu túmulo! Duvida de minha palavra? — quase rugia como um leão.
— Certo, certo, já entendi que não sabe brincar, eu parei! — o dito “cientista maluco” balançou as mãos, nervoso.
O cavaleiro soltou o homem amedrontado com tamanha força que o fez cambalear quando tocou os pés no chão. Aoi ainda encarava a mão coberta pela luva branca. Embora mais pálido do que o normal por conta do susto, Onyx ainda tinha humor para lançar um de seus largos sorrisos para a menina.
— Siga-nos até a nossa nave. — Topázio ordenou.
— Tenho uma ideia melhor. — Onyx disse.
Antes que Topázio tivesse tempo para irritar-se e acertar-lhe um sopapo, Onyx puxou de um dos bolsos frontais do jaleco um objeto redondo e de fina expessura, o qual parecia possuir o manual de alguma coisa e umas luzes coloridas que piscavam. Uma antena, fina como um fio de cabelo se esticou de uma extremidade do curioso objeto, Onyx a apontou para a sua grande esfera flutuante e apertou algumas daquelas luzes coloridas como se escrevesse símbolos, assim que terminou uma rampa desceu da porta da esfera, e assim Topázio e as duas meninas se deram conta do que aquele grande e misterioso objeto voador arredondado era:
— Uma nave... — Akai e Aoi sussurraram ao mesmo tempo.
— Eu costumo chamá-la de meu “laboratório ambulante” — falou entre risos excêntricos.
— Design diferente. — Topázio analisou, lembrando-se dos antigos óvnis do clã que pareciam ouriços.
— Nem tanto... — Onyx outra vez apertou aquelas pequenas luzes no controle em sua mão, mas em ordem diferente de a primeira vez. A pomposa esfera foi envolvida por uma aura arroxeada, em seguida alguns orifícios formaram-se em toda a sua superfície, fazendo-a por instantes parecer uma peneira mesmo que seu interior ainda não pudesse ser visto por fora, seguidamente, o líquido gosmento do lago adentrou cada um daqueles buracos e sumiu nas profundezas de seu interior. De dentro dos furos, grandes pedaços de cristal negro brotaram e cresceram como galhos de árvore, e então, rapidamente o que era uma grande esfera tornou-se um clássico óvni do clã Black Moon, idêntico ao modelo daqueles que atacaram Tóquio de Cristal na época em que Serena era a rainha.
— Uau... — Aoi deu dois passos à frente, seus olhos redondos arregalaram-se admirados, parecia estar em um show de mágica. — Incrível!
— Confesso que não havia necessidade alguma de manter o aspecto antigo, mas sou uma pessoa tão nostálgica... — Onyx guardou o controle no bolso e suspirou diante à sua “obra-prima”.
— Espero que essa coisa seja rápida. — Topázio jogou a capa e, sem cerimônias, subiu a rampa antes do próprio dono da nave.
— Mas, mestre, e o nosso outro veículo? — Aoi correu desajeitada até alcançá-lo na rampa.
— E quem precisa daquela coisa ultrapassada tendo essa belezinha aqui? — Akai não tardou a ir de encontro ao ídolo “de ouro” também.
— Verdade! — Os olhos da ágata azul brilharam outra vez.
O cientista obviamente estava orgulhoso de seu trabalho, em passos calmos acompanhava os passageiros de seu invento, não continha outro largo sorriso de satisfação. Antes de adentrar a porta, olhou para trás e contemplou a paisagem desértica que habitava.
“Espero nunca mais ter de voltar para esse fim de mundo!” — aspirou e adentrou o enorme óvni. Depois de seu ingresso, a porta automaticamente se fechou. A subida do objeto voador fez com que a poeira do fundo do lago (cujo líquido sumiu completamente para dentro da nave) formasse um pequeno tornado de terra negra. Em um feixe de luz, o grande transporte sumiu e mais uma vez o cenário era silencioso e solitário, a aeronave utilizada na ida de Topázio, Aoi e Akai brevemente seria tragada pela terra, nada se mantinha ali além de cristal negro, não era à toa que o único habitante até o momento fosse o cientista.
Aoi e Akai olharam ao redor e ficaram encantadas, principalmente com o teto. Como tudo em Nemesis, a cor que prevalecia era o preto, porém, havia uma cúpula alaranjada, exatamente no centro, e nas paredes, pedrinhas daquela mesma cor.
— A minha “casa” é totalmente esculpida em ônix, faz jus à minha personalidade, não acham? — O cientista tocou os ombros das duas meninas, da gêmea serena recebeu um olhar curioso, e da mais intensa uma bofetada na mão cuja trajava a luva.
— Ai! — Akai resmungou — Do que é feita sua mão? De ferro?
— É nisso que dá ser malcriada, pequena! — Onyx gargalhou enquanto abria e fechava a mão.
— Você já pode parar de bancar o engraçadinho e nos apresentar o local, seria interessante dar uma olhada em seus inventos para ver se realmente valeu à pena essa viagem. — Topázio disse enquanto andava sem cerimônias para os lados. Avançando um pouco além da cúpula, encostados nas paredes do salão redondo estavam alguns aquários tampados, dentro do vidro moviam-se os líquidos negros, o cavaleiro dos cabelos claros fitou os cantos revestidos de pedra até o teto onde a cúpula estava e notou vários tubos transparentes que vinham do alto e alcançavam as tampas dos enormes tanques. — Carrega o seu lago de criaturas dessa forma? Interessante... Como as alimenta? Fiquei curioso.
O homem pálido dos cabelos negros ergueu a mão para a cúpula, apontou o indicador para um ponto específico e uma espécie de lazer avermelhado leu a sua impressão digital, aquele belo detalhe alaranjado abriu-se e formou um buraco, os três visitantes até tentaram enxergar o que havia além, porém só viam escuridão e sentiam um vento gélido soprar em suas faces. Algo pontiagudo começou a baixar, o seu negrume refletia nos olhos dourados de Topázio, e ainda assim não parecia surpreendê-lo.
— Oh, que óbvio! — O enviado de Ametista disse em tom de desdém quando notou o tamanho do pedaço de cristal negro que Onyx guardava no laboratório.
— Eu sei que não deve ser tão grande como o de nossa soberana, mas acredite, é o suficiente para o meu trabalho funcionar! — Onyx contemplou o pedaço de pedra preciosa não muito maior do que um corpo humano de altura mediana, era reto e possuía duas pontas apenas, mas emanava energia sinistra em pequenos raios púrpuros. — Essa energia tem sido o suficiente para alimentar as minhas pequenas obras primas, imagine o que eu não faria se tivesse ao menos o dobro dela... — suspirou.
— ... A senhora Ametista tem, no mínimo, um cristal negro que vale uns dez desse! – Aoi arregalou os olhos, perplexa. Tentou imaginar de que o alquimista, cientista ou o que quer que realmente fosse seria capaz com tamanho poder em mãos. Um forte arrepio correu a sua espinha e seus instintos ordenaram para que buscasse proteção nos braços do amo — Ah, mestre, estou assustada!
— Pare com essa frescura! Isso é bom para nós, sua burra! — irritada, Akai apartou Aoi de Topázio antes que ele pudesse repeli-la ou dar-lhe afeto.
— Se você tentar alguma coisa, cientista... — Topázio se aproximou, incinerava o outro com o olhar — Pode ser inteligente, ter mil artimanhas, mas jamais sua força poderá se sobrepor à minha, acho melhor que nos entendamos bem. Você entendeu?
— Já nos entendemos... — o outro sussurrou sem demonstrar espanto, esbanjava mais um de seus largos e insanos sorrisos.
Enquanto o clima hostil pairava nos confins daquele óvni, aos poucos o quarteto se aproximava do palácio e nem se davam conta. De uma das janelas compridas, Jade observava algo no céu se aproximando, notava mesmo que a iluminação fosse discreta, que era um objeto maior do que aquele que saíra do palácio há algum tempo.
— Foi mais rápido do que pensei. — desencostou-se do parapeito e correu até os aposentos de sua líder que estava acompanhada pela fiel amiga dos cabelos rosados e vestes semelhantes às de bailarinas.
— Quartzy, senhora Ametista, eles estão chegando. — Jade anunciou.
— Ótimo! — com algum esforço, Ametista conseguiu sentar na cama. — Quartzy, ajude-me a levantar e leve-me ao salão principal.
— Mas, senhora! — Quartzy a apoiou em si, preocupada.
— Não é elegante receber visitantes no quarto. — o tom, embora rouco, foi firme.
— Deixe-me ajudar também — Jade sabia que Ametista não mudaria de ideia, então auxiliou Quartzy a carregá-la, cada uma segurou um braço da pequena e enferma princesa, leve como uma pluma, vulnerável como porcelana.
...
— Ah, esse tempo que parece não passar! Nunca vi dez dias parecerem dez anos! — Rini comentou ansiosa — E mesmo assim, um lado meu deseja que não passe, já que a chegada da data do baile é a de sua despedida! Ah, Helios, pareço uma criança! — Reclamava enquanto observava alguns serviçais iniciando os preparativos para a decoração do palácio. — Veja, as flores foram tão bem escolhidas! — Olhava admirada as mãos delicadas de algumas damas do palácio amarrando os enfeites nas colunas do salão, eram arranjos de rosas brancas e lilases, delicadas e perfumadas. — As cores prediletas de Crystal... — A rainha repousou uma mão no rosto.
— Está elétrica querida, desde a madrugada não consegue parar de falar... — Helios riu, abraçando-a pelas costas. — Seja positiva, ficará tudo bem. Não importa onde meu corpo esteja minha mente e minha alma sempre a acompanham. Já se esqueceu de nossa conversa?
— Ah, querido... — virou o corpo de frente ao dele e afagou-lhe o rosto — Você é meu pilar. — sorriu, mais amena — Se não fosse toda essa sua doçura, acho que nesse momento eu estaria expelindo brasa pelas ventas! Viu como estava o estado desse palácio de manhã cedo? Era como se um furacão tivesse passado por aqui!
— E você ainda se surpreende com isso? Não viu quantas fatias de torta de morango sumiram da geladeira? — o rei riu. — Espero que nossa filha esteja bem!
— Ai, essa Crystal... — A rainha entortou os lábios, segurando um riso — Não nega as origens!
Enquanto de um lado o casal real observava a beleza da decoração que aos poucos era montada, do outro havia também alguém que a contemplava. Saphiro jamais vira tantas flores reunidas, e a riqueza da arquitetura à sua volta dava ênfase à sensação de conforto. Passou por uma das pilastras já adornadas e não se conteve em tocar uma das rosas que a enfeitavam. Abriu um singelo sorriso enquanto notava como naquele lugar tudo parecia mágico, sentia-se um personagem de um conto.
“Aqui as flores não perecem...” — imaginou, afagando uma pétala branca.
— Ai, que visão! —a voz aguda e exagerada cortou os pensamentos do jovem Black Moon.
— Você? — Saphiro disse enquanto estreitava os olhos, desgostoso.
Olho-de-Peixe mais uma vez trajava um de seus vestidos delicados, recheados de bojo no busto, para completar o visual feminino usava batom carmesim nos lábios bem contornados. Seria perfeito... Se fosse uma mulher de verdade.
— Sempre soube que você era uma pessoa sensível e delicada, isso me torna ainda mais fã de seu carisma! — Peixe abraçou-se ao braço de Saphiro — Você me faz lembrar de uma pessoa que conheci há muitos anos e que instigou a minha curiosidade sobre o que seria ter sonhos...
— Escute, não sei do que está falando. Poderia me soltar? — o nemesiano tentou ser educado.
— Bobinho, é claro que não sabe! — o outro riu e apoiou o rosto no ombro de Saphiro — Nem sei porque fui comentar sobre isso, acho que as pessoas falam muitas besteiras quando estão apaixonadas...
— O quê? — Saphiro arregalou os olhos, incrédulo — Você é louca! Digo, louco! Me solte! — puxou o braço até conseguir desvencilhar-se.
— Dê uma chance ao amor, querido! — insistente, segurou o rosto do jovem de cabelos e roupas azuis safira. — Deixe-me mostrar como ele é...
— Nem pensar! — Saphiro gritou enrubescido, e talvez por horror, não conseguiu conter-se e com uma das mãos empurrou Olho de Peixe longe.
— Ai, seu grosso! — Peixe resmungou, sentado no chão, desajeitado — Mil homens gostariam de estar em seu lugar!
— É mesmo? Então fique com esses! — Saphiro disse de longe, indo embora às pressas.
Olho de Peixe sentiu uma mão tocar seu ombro, virou-se e viu o companheiro Olho de Tigre, seus olhos transbordaram.
— Vamos, Peixe, não fique assim! Eu entendo a sua frustração, embora não compreenda o seu gosto. — o rapaz louro e atlético abriu um sorriso e ergueu a mão para o amigo.
— O mundo é tão injusto! — O jovem delicado de cabelos longos resmungou, enxugando os olhos.
— Sim, mas há coisas que ao menos momentaneamente nos ajudam a não pensar nisso.
—... — os dois se olharam, sorriram ao mesmo tempo, Peixe aceitou a ajuda para levantar, e quando já estava de pé, falou em sincronia com Tigre: — Jogos e bebida! — juntos, caminharam rumo à sala de seu deleite onde Olho de Águia já estava.
Aliviado por ter obtido distância, Saphiro recompunha os passos e se via envolto pela exuberância dos jardins do palácio. Olhou à frente e notou um caminho, o seguiu até deparar-se à estufa, por trás dos vidros e de algumas flores avistou alguém:
— Irmão... —disse enquanto entrava calmamente naquele paraíso repleto de sonhos de infância.
— Ela gosta das brancas. — príncipe Diamante falou enquanto encarava as roseiras.
“— Nos beijamos sim, e foi lindo! Aí ele vem e estraga tudo dizendo que foi uma coincidência!“ — Saphiro lembrou-se de parte do discurso feito por Crystal na noite passada e recordou ter dito que ia ajudá-la por crer em seus sentimentos.
— Está acabado, agora já pode se orgulhar de mim, Saphiro. — Diamante baixou o olhar para o gramado.
— Não, não está. — Saphiro afirmou, fitando o semblante sério e distante do irmão mais velho.
— O que está dizendo, Saphiro? — o príncipe da Lua negra direcionou o olhar para o parente. — Você não entende, não há mas...
— Entendo sim, ela me contou. — embora aquilo o deixasse um pouco nervoso, Saphiro falava com naturalidade e tentava ser o mais direto que podia.
— Ela? — Diamante pareceu confuso.
— Sabe que eu não diria algo se tivesse dúvidas, não é mesmo?
— Sim, eu o conheço bem. — o mais velho abriu um pequeno sorriso.
— Então se eu disser-lhe algo, promete acreditar? — Saphiro deu um passo a mais, ficando mais próximo.
— Jamais cometeria o erro de desconfiar de você novamente. — Diamante afirmou.
— Ela gosta de você, de verdade. — o caçula afirmou veemente.
— Como disse? — Diamante pareceu pego por um susto, a mente deu um salto no lugar do corpo. Jurava ter ouvido errado.
— Eu não sei se é uma peça do destino, ou se seu desejo foi tão forte que o mudou, mas é verdade.
— Não, não pode ser, Endymion...
— Não percebe? Mesmo que Endymion ressurja, nada poderá desfazer o que já foi feito! — Saphiro tocou os ombros do irmão. — O coração dela se inclinou para você!
— Mas, Saphiro, eu não acho que isso possa dar certo... — estava confuso, era notável.
— Então o problema não é com ela dessa vez. Pense nisso... — afastou-se, mas antes que partisse, olhou outra vez para o único parente que tinha — Conversamos de madrugada e as lágrimas desesperadas dela foram muito convincentes... — encerrou e partiu.
...Diamante sentiu no peito uma forte pontada. Primeiro perguntou-se se acontecera em consequência do ferimento que tirou sua vida no passado, mas a dor era em um lugar específico, no centro de seu abdome. Tocou-o com as duas mãos e sentiu o coração bombear freneticamente o sangue, as palpitadas eram tão fortes que seu diafragma quase vibrava. Era algo muito além do físico, não sabia explicar ou nomear aquela sensação, talvez algumas pessoas a chamassem de remorso...
Continua...
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