A Minha Queda Será Por Você
61 O mártir
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 61 – O Mártir
— O rei partiu em busca de Diamante, eles vão se matar! — Sailor Acqua anunciou ofegante logo que chegou ao palácio e alcançou os companheiros de batalha — Precisamos fazer alguma coisa, onde está a rainha?!
— Nós sabemos, e Crystal saiu para procurá-lo! — Rini cravou as mãos à cabeça.
— No estado em que ela está?! — Marine gelou por dentro.
— Nós vamos encontrar o rei e a rainha, Acqua, não se preocupe! — Sailor Nature afirmou em tom de juramento — Sailor Fire, vamos!
— Sim! — a fagulha alaranjada a circundou.
Doryan saiu discretamente do grande salão, não ficaria parado esperando por notícias.
...
— Damien! — a voz de Sailor Love ecoava enquanto ela sobrevoava o reino silencioso e devastado, o único som além de seus gritos era o do vento cortante trazendo consigo alguns flocos de neve. Adiante, uma figura se prostrou esguia e sorridente. — Quem é você?! — parou os movimentos subitamente. Os olhos de prata escura ficaram rubros como preciosos rubis.
— Não atrapalhe. — a mulher ordenou em tom de ameaça. Crystal paralisou. A Lua Negra pulsou na testa da dama desconhecida, em seguida outra figura surgiu ao lado, essa a rainha conhecia bem:
— Topázio! — arregalou os olhos.
— Acho que ela deveria assistir. — o cavaleiro revestido em nova armadura, negra e não dourada, sugeriu.
— Isso seria divertido, tem razão...
Sailor Love sentiu-se envolvida por uma enorme bolha negra, batucou as paredes e descargas de energia deram-lhe pontadas no corpo todo fazendo-a cair sentada e não conseguir levantar. O ar pareceu rarefeito, sentiu-se nauseada e tonta pela incontável vez. Quando deu por si, ela sobrevoava dois homens num embate, gritou por eles o mais alto que pôde, todavia eles não eram capazes de ouvi-la, sequer vê-la, era como se não estivesse ali.
A sorte do príncipe Black Moon era a sua capacidade de flutuar e de se teletransportar, pois a arte da esgrima concentrava-se nas mãos e nos movimentos do rei de Tóquio de Cristal. Quando as armas se chocavam, faíscas se faziam como fogos de artifício, então cada um era arremessado para um lado devido a vasta quantidade de energia despejada. Damien usava a espada como escudo quando Diamante lançava-lhe rajadas púrpuras do ápice da lâmina negra, e quando a primeira oportunidade surgia, saltava em direção ao oponente e o preto chocava-se com cristalino outra vez, a cena repetia-se como um ritual.
A palma de Diamante cintilou azulada, ele a apontou a Damien, todavia não foi rápido o suficiente, a espada do rival subiu feroz na direção de seu abdome, ele desviou depressa e escapou de um ferimento fatal, porém um corte desenhou-se na altura de suas costelas e o sangue real manchou a farda branca e os bordados azulados. O nemesiano estancou o sangue com uma mão enquanto com a outra apontava a espada ao justador.
— Não pode me vencer, Diamante. — girou o sabre como se pesasse menos que papel — Admita, você perdeu.
— Enquanto eu estiver vivo a luta não terminou. — a espada pincelou raios nos ares, reunidos foram de encontro ao regente.
— Não vai durar muito. — golpeou todas as centelhas, partiu algumas, outras endereçou de volta a sua origem.
Diamante saltou do piso a uma rocha alta, Damien o seguiu, no momento em que o rei alcançou o topo desnivelado o príncipe branco estava de joelhos sobre a pedra, com a mão estirada na estrutura. Por entre os dedos a luz azulada reluziu, em questão de segundos o suporte onde ambos estavam explodiu, o Black Moon teletransportara-se para outra rocha milésimos antes. O sedniano rolou sobre os cacos, a túnica esfarrapou-se imunda de pó, a espada caiu longe. Os olhos marinhos ergueram-se ao sentirem a sombra do grande desafeto aproximando-se a flutuar. Ligeiro, Damien levantou e impulsionou-se a alcançar a espada que caíra longe, Diamante o interceptou apontando-lhe a arma maligna, entretanto, antes que a arma acertasse-lhe o peito, o soberano da Terra a conteve em mãos. Um fez força para descer o fio da lâmina, o outro para contê-lo, os joelhos do desarmado dobraram-se e os pés arrastaram-se pelo piso de vidro arrancando-lhe pequenos fragmentos pontiagudos.
— Não, parem com isso! — Sailor Love gritava de dentro da bolha, ninguém a ouvia.
Os raios acertaram Damien dessa vez, ainda assim ele não caiu, sangue escorreu pelas mãos firmes que continham a espada, a sua força era tamanha que fez o cristal negro trincar. Aos poucos ele conseguiu virar o fio do gládio na direção do peito do rival. Diamante utilizou o poder elétrico novamente, Damien soltou uma mão e segurou-o pela capa, dessa vez as descargas afetaram os dois homens e eles caíram. Perseverante, o sedniano arrastou-se com destreza até alcançar a própria espada. Fincou-a no piso e usou-a de apoio para se levantar. Diamante ainda erguia-se quando um punho cerrado afundou em sua face fazendo-o beijar o chão uma vez mais, depois chutes impiedosos nas costas, o oponente urrava de ira e frustração. Damien não queria simplesmente matá-lo, era óbvio. Queria vê-lo sofrer, e por essa razão o orgulho do líder da Lua Negra não o permitia gemer ou esboçar dor. Diamante arranjou forças para apontar a mão ao marido traído e acertá-lo com uma esfera de energia. Ao menos dessa vez não houve tempo para esquiva, o ombro de Damien inflamou em carne viva. As pernas correram para trás por instinto, os movimentos do braço esquerdo ficaram debilitados. Então, Diamante pôs-se de pé e limpou a sujeira dos ombros, assim como o sangue da boca e o do ferimento de espada.
— Sobre seu pai... — ofegou — eu peço desculpas.
— É um pouco tarde para isso! — cortou-o e avançou. As espadas chocaram-se violentamente, mais fagulhas se dissiparam do atrito — Não tente bancar o bonzinho agora!
— Não me orgulho com o que fiz ao povo de seu planeta, — insistiu na justificativa a olhá-lo diretamente nos olhos — Disso me arrependo sinceramente, e mesmo que pedir perdão não mude o que aconteceu, quero que saiba disso.
— Pouco me importa! — urrou e insistiu em atacá-lo. A força era tamanha que, conforme Damien investia, Diamante tinha de dar passos para trás e defender-se com destreza, o nariz quase tocava o espelho negro tremente que protegia-lhe a face, o peso da espada do oponente aumentava nas pancadas.
—... me arrependo pelo modo que tirei a vida de seu pai, mas sobre Crystal... não tenho remorsos. — prosseguiu e esforçou-se para o discurso não fazê-lo se desconcentrar da batalha — Sei que está aqui porque deve saber do que se passou enquanto ela esteve sob minha custódia. Tudo o que vivi com Crystal poderia viver de novo, a sua união com ela não representa nada para mim. — girou veloz e surgiu às costas do rei, o semelhante de Endymion virou-se hábil e as espadas se encontraram, agora o encurralado era Damien.
As palavras sobre a rainha despertaram a fera adormecida dentro do homem de cabelos negros, os orbes azulados dilataram-se, os dentes rangeram, a sanidade estava perdida assim como a mira debilitada. A espada de Sedna bateu-se na de Nemesis inúmeras vezes, sem dar tempo ao Black Moon de carregar os raios da lamínula.
— Não pronuncie o nome dela! Não ouse! Ela nunca será sua, não permitirei!
— Ela é — afirmou veemente — e você sabe.
A resposta foi um grito e mais assaltos violentos entre espadas, enquanto eles se atacavam as lâminas rangiam, as forças se destinavam todas aos movimentos das armas uma contra a outra, bastava esperar para saber qual delas se partiria primeiro.
...
— Príncipe... — Quartzy abraçou-se ao braço de Saphiro e o massageou tentando relaxar as articulações tensas. Ele não se movia, as safiras preciosas prendiam-se à imagem holográfica de dois homens se engalfinhando.
De longe, Onyx os observava sem nada dizer, até que num repente o óvni chacoalhou violentamente e os três no salão caíram esparramados sobre o pavimento escuro.
— Mas o que é isso?! — Saphiro ajudou Quartzy a se levantar. Outra forte turbulência os fez cair sentados.
Onyx agarrou-se a uma pilastra e depois a outra, alcançou o painel de controle e viu no radar uma nau imensa a poucos metros dali. Apertou alguns botões e fez a imagem focar-se, era um pomposo navio flutuante a apontar canhões ao ouriço.
— Estamos sendo atacados!
...
— Essa não! — Sailor Acqua exclamou assim que chegou ao porto, tocou os ares e não encontrou a nau. No céu cinzento percebeu luzes esbranquiçadas ao longe e o som estrondoso provocava tremeliques nas estruturas — Príncipe Doryan!
...
Acima de suas cabeças, Diamante e Damien avistaram além das nuvens a nau esplendorosa, dela pétalas vermelhas caíam e uniam-se aos flocos de neve descidos do céu. De um lado, rajadas ebúrneas direcionavam-se ao imenso ouriço também ali flutuante e aos poucos despedaçavam o campo de energia que o envolvia, do outro vinha tiros de descargas negras que atravessavam a nave sedniana. Os líderes abaixo precisaram correr para longe para desviar dos pedaços e das fortes labaredas que abandonavam os dois veículos gigantescos e explodiam-se no solo.
— Isso não acabou! — Damien alcançou Diamante, as espadas beijaram-se muitas vezes mais.
...
— Ficaremos apenas olhando? — Topázio questionou. Ele e Hematita estavam ao lado de Crystal, cada um protegido por uma bolha semelhante a que engaiolava a rainha — Quando atacaremos?
— Não precisaremos, eles vão se destruir sozinhos.
— Que graça tem isso? — bufou.
— Aprenda a apreciar sem ter que sujar as mãos, Topázio. — ela sorriu.
...
— Tirem-me daqui! — Sailor Love queria se debater, mas a energia maligna a sufocava. O coração não se mostrava forte o suficiente, ela não sabia como solucionar aquilo, nem mesmo como amenizar a culpa, pois o marido, de algum modo, sabia de sua traição. Rouca, a garganta ardida gritava insistentemente — Diamante, Damien, parem!
E aos olhos dela o reino cobria-se do branco da neve e do vermelho das pétalas infindas. O cheiro doce a nauseou, assim como as luzes violentas, o som de desmoronamento. O óvni negro chocou-se com um prédio e o transformou em chuva de cacos.
...
— Quartzy, leve seu namoradinho para fora daqui agora! — Onyx instruiu — Jogarei o óvni contra a nave inimiga.
— Mas e você?! — ela perguntou enquanto ajudava Saphiro a se levantar.
— Eu dou um jeito! — riu-se — Vão logo!
— Onyx... — ela notou a apreensão nos olhos do cientista e ergueu-lhe a mão — venha conosco!
— Leve-a... já! — o gênio instruiu Saphiro.
— Mas você vai morrer se ficar aqui, isso é loucura! — Quartzy exclamou preocupada.
— Eu sou louco, esqueceu? — simulou uma gargalhada e gesticulou a Saphiro para que a levasse, mesmo contra a vontade. O Príncipe Azul, sério e pesaroso, seguiu a coordenada, puxou Quartzy para si e teletransportou-se com ela.
Sozinho no objeto voador, o morador dos pântanos nemesianos fechou os olhos, ajeitou as lentes arredondadas sobre o nariz e sorriu, depois, com as duas mãos nervosas segurou alavancas avermelhadas semelhantes ao mecanismo de marcha dos transportes de séculos passados, respirou fundo e atirou o ouriço contra a nau. No mesmo instante um furacão azulado se formou do mar em direção à cidade, no topo dele um ponto luminoso erguia um tridente aos céus. Como uma estrela cadente, a luz aquática adentrou a nau e resgatou o príncipe que a pilotava antes que ela explodisse e esparramasse seus escombros por todos os lados, o furacão evaporou. O outro objeto voador, por sua vez, entrou em combustão maior e quando finalmente detonou a luminosidade foi tão intensa que todos os que estavam aos redores ficaram temporariamente cegos.
Após um clarão, veio a chuva negra mesclada à neve. O restante de medusas cativas no ouriço voador caiu em terra no instante em que Sailor Wind, Nature e Fire aproximavam-se do campo de batalha. Num beco da cidade, Saphiro continha Quartzy.
— Onyx! — ela gritou, a boca tremeu amarga, não existia resquício de nave no céu, apenas pedaços flamejantes no chão, ela sabia disso pela fumaça que se unia do piso às nuvens. O peito doeu imensamente, Quartzy cravou a mão nele tentando conter o mal estar, falhou deliberadamente.
Não me deixe Quartzy! — a voz desesperada dele ecoou em sua memória, assim como cenas turvas do cientista tentando reanimá-la, os traços embora nebulosos, visivelmente preocupados —Salve-a! Eu imploro, salve-a! — a cabeça dela latejou — Eu faço qualquer coisa em troca, mas me devolva a minha Quartzy! — tudo se esclareceu na lembrança e ela soube o que Onyx fez por ela, além de sentir o seu sofrimento.
— Foi tudo para me salvar... — outra pontada, uma torrente de lágrimas desceu e respingou no chão farelento — Ele se sacrificou por mim! — os joelhos toparam-se com o piso, de repente ela sentiu uma falta que não cabia dentro de si, um luto interminável. Nem ela sabia o quanto o cientista importava. Rememorou cada implicância, cada gargalhada, e mesmo os últimos risos que ele dera, já não mais galhofeiros. Ele mudara, Quartzy sabia. Por último e para acrescentar-lhe mais tristeza, relembrou o abraço recebido como consolo.
— Quartzy, sinto muito... — Saphiro tocou-lhe os ombros gentilmente, foi a única reação que conseguiu esboçar, nem ele esperava uma atitude nobre do cientista.
— Precisamos alcançá-los, príncipe Saphiro! Essa batalha tem que ser impedida! — ela se levantou trêmula — Chega de mortes por nada!
— É tarde demais, não há o que fazer.
— Se o senhor não quiser ir, tudo bem. Eu irei!
— Quartzy, você não sabe lutar! — segurou-a pelo braço — É suicídio!
— É o mínimo que posso fazer por Onyx, Akai, Aoi, Jade... e senhorita Ametista!
...
— A sua espada não é indestrutível no fim das contas... — Diamante observou as rachaduras no gládio de Damien. Não que a sua própria estivesse tão diferente.
Estavam exaustos, marcados por ferimentos pelos braços, pernas e laterais do tronco, não havia avantajados. Suavam e ofegavam enquanto se encaravam. Compreendiam que o próximo movimento possuía grandes chances de ser o último.
— Mesmo que me vença, jamais será aceito nesse planeta... Todos sabem o que você fez, todos presenciaram a sua tirania. Não há perdão para você.
— Me tratam como se eu fosse um monstro, é mais fácil me ver desse jeito. — deu um passo a frente — Eu sei os sacrifícios que meu povo teve que fazer, sei dos meus. Você teve a sorte de crescer em um planeta habitável, com recursos. Não conhece as mazelas da fome e da miséria. No seu planeta, assim como na Terra, o dia se difere da noite, o ano possui estações.
— Não banque a vítima agora, não combina com você. — também deu um passo na mesma direção.
— Não sou a vítima, nem o vilão, assim como você. Você não é o mocinho, Damien. Nenhum de vocês é. — sabia que estavam sendo observados por holografia, e de fato o eram, não só pelo trio amazonas e pelos antigos regentes, mas também pelos habitantes do reino que se abrigavam nos jardins, em cômodos do palácio, nos porões, e pelos que ainda se escondiam pelos túneis ou em edifícios abandonados. Um desses era Hakaru. — Não há heróis ou vilões aqui. Tudo o que acontece é consequência de escolhas que vem sendo tomadas ao longo de anos. Escolhas anteriores às suas, às minhas, às de Crystal, às do Coelho. — baixou a espada.
— Pelo menos dessa vez, você me chamou pelo nome. — a espada tremulou em mãos enquanto ele soltava um riso breve, logo a seriedade retomou o semblante, um brilho de pesar refletiu-se nos olhos — Talvez você esteja certo, Diamante. Tudo isso pode ser consequência de más escolhas, mas que diferença faz? Eu escolho lutar! — saltou na direção do oponente com tudo de si, esticou os braços ao alto apontando-lhe a espada reluzente, o príncipe ebúrneo abaixou-se, um joelho apoiou-se sobre a superfície. O gládio agudo apontou-se para cima e ele o empurrou com toda a força.
— Não! — Sailor Love uivou desacreditada, os olhos dilataram-se e o coração acelerou até o ápice da explosão. Subitamente, a lua crescente inflamou-se e resplandeceu a luz cálida e alabastrina enquanto gotículas de sangue se esparramavam nas rachaduras do pavimento lá embaixo.
Topázio e Hematita observaram a bolha que cativava Crystal se despedaçar como vidro, não era só a jovem rainha ali dentro, havia uma presença às costas, um espectro fúlgido ajudando-a a planar ao chão. De lá ela correu desenfreada até alçar os homens de sua vida.
Damien levantou, ao passo de que Diamante permaneceu na posição em que estava. O rei virou-se, avistou a rainha em vestes de marinheira e caminhou sofregamente até ela, sua espada caiu pelo caminho. Quando quase podia tocá-la a vista nublou e os membros pesaram, ele caiu lentamente, foi amparado antes de se chocar com o frio e sólido vidro.
— Não consigo sentir raiva de você, mesmo depois de tudo... — sussurrou sem forças, um filete escarlate verteu do canto dos lábios, a mesma cor encharcou as luvas brancas de Sailor Love.
— Não fale, não se esforce! — ela chorou devastada, a mão dele tentou alcançar-lhe a face, mas não houve forças, ele precisava guardá-las para falar.
— Não chore, não poderia ter sido diferente... Agora você é livre para escrever o seu próprio destino sem minhas intervenções.
— Damien, você é parte do meu destino! Você não é a sombra de meu avô, como eu não sou a sombra de minha avó! — pôs a mão sobre o broche — Eu vou curar você e então tudo ficará bem!
— Não! — tentou conter a mão dela, o corpo estremeceu, sangue jorrou do peito atravessado e escorreu pelas costas vazadas — Se já me amou um dia, se tem algum afeto por mim, me deixe descansar, Crystal — sorriu — não há lugar para mim aqui... eu não quero mais estar aqui. Descanso é meu último desejo, conceda-me.
— Majestade! — Sailor Acqua veio correndo, carregava Doryan enfraquecido. Estancou a frente do rei e da rainha, os olhos perderam o brilho e focaram-se no líquido rubro delineando as formas do piso, alcançando-lhe a bota azul. Marine empalideceu e quase caiu sentada.
Doryan abriu os olhos e saltou dos braços da marinheira, jogou-se de joelhos diante do irmão, logo depois Marine fez o mesmo. Do outro lado, as guerreiras finalmente dizimaram as medusas que as mantinham distraídas e correram ao triste ponto de encontro. E os outros, que não estavam lá, mas assistiam de suas respectivas localizações – Rini e Helios, Olho de Peixe, Olho de Tigre e Olho de Águia, os súditos fieis – viam-se assolados e sem palavras, as gargantas fecharam-se em nó de amargor.
— Estou feliz que estejam comigo... — Damien fitou o irmão, a amiga querida e a esposa.
— Me perdoe, Damien! — Crystal, chorosa, o abraçou singelamente, cuidadosa para que ele não sentisse mais dor do que possivelmente sentia.
— Cure-o! — Sailor Acqua exigiu, mas Damien meneou negativamente com a cabeça.
— Eu estarei olhando por você... — fitou Crystal pela última vez , sorriu — eu... te... amo. — e engasgou com o próprio sangue, as articulações tremeram-se duas ou três vezes, um último suspiro escapou pelas narinas, enfim ele descansou como queria.
Marine foi a primeira do trio a desatar-se em lágrimas e urros, as luvas brancas da guardiã das águas esfolaram-se de tanto as mãos nervosas esmurrarem o chão. Depois, no auge do desespero a guerreira jogou-se sobre o corpo do rei a murmurar "Isso só pode ser um pesadelo" repetidas vezes. Doryan tremia em misto de raiva e tristeza, sua mão pendeu sobre as costas de Sailor Acqua, mergulhou nos fios de ouro e depois puxou-a pela cintura, num abraço lutuoso. Diamante já estava de pé, ainda distante, observando a cena trágica chegar ao clímax. De sua espada uma cascata vermelha descia, chegava ao ápice e pingava no chão. Sentiu-se tonto, olhou para baixo e lembrou-se do ferimento nas costelas, perdera bastante fluído. Lembrou-se que um dia, no mesmo lugar, uma ferida de morte se abrira.
Ele venceu. Todavia, não se sentia alegre, nem mesmo vitorioso.
Sailor Love tremeu nas bases, os dedos arrastaram-se pelos cantos das maçãs enquanto o choro escapou da alma, os ombros moveram-se por conta própria e a Lua Crescente por baixo da tiara oscilou, ela ergueu o rosto e fitou Diamante ao fundo, vidrado nela, os dedos enroscados na arma que ceifou a vida do sedniano. Enquanto Sailor Acqua e o príncipe sobrevivente tentavam se acalmar, a outra marinheira acomodou o rei falecido sobre o chão e ficou de pé.
...
— Por que não aproveitamos a chance agora? — Topázio indagou.
— Eu sei que você quer tirar a vida do príncipe com as próprias mãos, mas não acha que seria mais interessante se ele fosse morto pela mulher amada? — Hematita o abraçou de lado e afagou-lhe o rosto — E então, quando ele cair, você será o herdeiro do trono.
— O irmão dele ainda está vivo. — lembrou-se rancoroso.
— Não por muito tempo... Agora vá, não permita que aquelas formigas atrapalhem o nosso espetáculo.
Topázio concordou e desceu como um cometa ao chão, surgiu à frente das guardiãs do vento, do fogo e da natureza. Enquanto isso, Sailor Acqua e Doryan ainda entorpecidos pelo luto vislumbraram Crystal caminhar até Diamante, erguer as mãos adiante e o broche cintilar em diversas cores. O príncipe vira aquilo certa vez em Elysion. Um báculo materializou-se flutuante, Sailor Love o agarrou. Uma aura esbranquiçada a cingiu, os oceanos derramaram-se em maremotos. Diamante, estranhamente sereno, sorriu e fechou ainda mais a distância entre ambos. Fixaram-se as vistas.
— Não posso permitir que mais vidas se percam por sua causa... — decretou desgostosa — Isso acaba aqui.
— Faça o que tem que ser feito, assim como eu farei. — a melancolia também escapava no tom de voz dele. A espada foi erguida, a Lua Negra desenhou-se em olho dourado, os amantes e inimigos flutuaram juntos e apontaram-se báculo e sabre.
A minha queda será por você
O meu amor estará em você
Você foi aquele que me feriu
Então sangrarei eternamente
Continua...
Fale com o autor