A Minha Queda Será Por Você
27 O despedaçar de uma alma
Notas iniciais
A minha queda será por você
Capítulo 27 – O despedaçar de uma alma.
Olho de Tigre abriu os olhos. De repente uma terrível enxaqueca o fez sentir o mundo girar.
— Oh, finalmente acordou! — a voz o despertou de uma vez por todas.
— O que faz no meu quarto garota? — ele perguntou ao sentar-se na cama, os lábios ressecados pediam por água, procurou a jarra ao lado, não a encontrou porque estava na mão da jovem espevitada, assim como o copo, ela mesma o enchia.
— Tome! — entregou o copo nas mãos dele com cuidado. – Fui eu quem o trouxe para o quarto essa madrugada, você estava de porre, foi difícil te carregar! – riu.
— Fez isso sozinha? — mostrou-se surpreso.
— Sim, até tirei um cochilo com você, confesso! Fiquei com preguiça de voltar para o quarto... — suspirou — Não se lembra de nada mesmo?
— Não, nada. — o fato de não se lembrar do que fez preocupava-o, e a preocupação esboçou-se no rubor de seu belo rosto. — O que você fez comigo? Ande, fale logo! Tenho certeza de que se aproveitou da situação!
— Eu me aproveitei da situação? Quem se aproveitou foi você! Eu que não deixei ir adiante! — soou indignada.
— Eu me aproveitei, como assim? — ele pareceu ainda mais indignado, chegou a levantar-se, mas a dor de cabeça o fez sentar-se tonto. — Eu não acredito em você!
— Pois eu digo que quando chegamos ao quarto, você me atirou na cama e me tascou um beijo de tirar o fôlego! — enfatizou a palavra "beijo".
— Reiko, por que eu faria isso? — riu nervoso — Aposto que foi você!
— Que seja! — impaciente, a mocinha pôs as mãos na cintura e virou o rosto rosado, sim, estava envergonhada. Quem diria? — Acredite no que quiser!
— Reiko? — estupefato ao vê-la ineditamente sem jeito perdeu a dúvida. Ele poderia muito bem tê-la agarrado, era uma bela jovem em todos os quesitos — Sinto muito, não me lembro de nada.
— Quer ajuda para se levantar? — ergueu a mão a ele, tentando quebrar o gelo.
— Está bem. — segurou-a e levantou-se devagar — Ai, que dor de cabeça! — praguejou. Pegou o copo e bebeu toda a água que havia nele em uma golada.
— O nome dessa dor de cabeça é ressaca! — ela piscou, divertida.
— Olho de Tigre, a rainha o requisita urgentemente! — O chamado de Sailor Wind à porta cortou de vez qualquer possibilidade de clima.
O líder dos guardiões de Elysium, Tigre, sequer teve tempo de tomar banho, vestiu-se às pressas sem perceber que Reiko ainda estava no quarto. Já vestido, ruborizou ao vê-la estática ali, olhando-o atentamente e com ares de curiosidade.
— O que está olhando? Vamos, parece ser grave! — rubro apontou a porta, indicando desejar que ela fosse à frente. Após a saída de Reiko, Olho de Tigre ajeitou a capa e foi-se. No corredor, esperavam-no Sailor Wind, Olho de Águia e Olho de Peixe.
— Vamos ao quarto da princesa. — Sailor Wind afirmou.
— E Reiko? — Tigre perguntou.
— Foi na frente. — a guardiã dos ventos respondeu.
— Alguém se deu bem hoje... — Olho de Águia sussurrou para Olho de Peixe, ainda assim Tigre o ouviu e quase ralhou, mas conteve-se, havia algo no ar dizendo-lhe que no quarto da princesa coisa boa não ocorria e bastou que chegassem lá para depararem-se com o quadro: Crystal num sono mórbido atirada ao leito, príncipe Damien a afagar-lhe a mão enquanto príncipe Diamante, impaciente, andava de um lado para o outro.
— Não, você não pode estar me pedindo isso! — Diamante vociferou.
— Olhe para ela! Não se importa com o seu bem estar? — Rini apontou Crystal — É uma troca, não vê? Vocês por ela!
— Quem garante? — ele questionou — Quem garante que se retornarmos a Nemesis essa tal de Ametista libertará Crystal de suas garras? E se for uma armadilha? Será que você não sabe raciocinar direito, Coelho?
— Mais respeito, está lidando com a rainha de Tóquio de Cristal, príncipe Diamante! — Sailor Saturno interveio.
— Meu irmão pode estar certo, majestade. — mais calmo, Saphiro tomou a frente — Devemos agir com cautela, os três guardiões já estão aqui. – apontou o Trio Amazonas à porta.
— Majestade, o que está havendo? — Olho de Peixe entrou no quarto temeroso, seu coração deu um pulo ao notar a palidez da princesa.
— Olho de Peixe, Olho de Água, Olho de Tigre! — Chorosa, Rini correu até eles — Só vocês podem me ajudar! Helios está em Elysium averiguando um problema e, enquanto isso, Crystal caiu nesse sono profundo e se mostra cada vez mais fraca! Não acorda de jeito nenhum! — desabafou.
— Majestade, se me dá licença... — Olho de Peixe tomou a iniciativa e aproximou-se da cama, parou ao lado de Damien. O príncipe não conteve o ar de surpresa ao ver Peixe em trajes masculinos, o delicado integrante do trio suspirou conformado, qualquer plano seu de conquistar o sedniano fora por água abaixo. Ergueu uma de suas mãos em direção a Crystal e proferiu: — Um. — o corpo da menina foi suspenso, às suas costas uma parede vermelha surgiu. — Dois. — as mãos e os pés da princesa foram cativos por algemas, assim seu corpo desacordado estava seguro — Três! — por fim, o espelho dos sonhos surgiu estranhamente fosco. O andrógino ex-artista circense olhou para a rainha como se pedisse autorização, a regente simplesmente meneou a cabeça num "sim" inseguro, assim, Peixe seguiu adiante, segurou o valioso espelho nas mãos e mergulhou o rosto nele, em poucos segundos foi violentamente repelido, seu corpo foi de encontro à parede de cristal e quase se atritou com o piso, mas seus dois fiéis amigos o seguraram.
— Peixe! — os rapazes clamaram preocupados.
— Olho de Peixe, o que foi isso? — Rini correu até ele e repousou sua cabeça no colo dela.
— Alguém está atacando a princesa através de seus sonhos, eu vi...
— O que você viu? — Damien se aproximou, passando a frente de Diamante que também rodeava o peixinho.
— Eu vi a escuridão e... — encarou Diamante — Argh! — gemeu de dor nas costas.
— O que podemos fazer para trazê-la de volta? — a rainha perguntou, apalpando os ombros de Olho de Peixe.
— Majestade, se o mal está nos sonhos da princesa, o que podemos fazer é ir a Elysium e procurá-la. Em algum lugar no mundo dos sonhos a princesa está sofrendo de um pesadelo terrível, talvez possamos resgatá-la! — Olho de Águia afirmou determinado, cativando um olhar orgulhoso de Sailor Ocean.
— Por favor, façam isso, vocês são os únicos além de Helios que podem ir até lá! Se o mal se apoderou de Crystal, será que... — não se atreveu a completar a questão, tapou a boca com a mão e pensou no marido.
Os três encararam-se sérios, Tigre e Águia deram apoio para Peixe se levantar, já de pé deram-se as mãos e fecharam os olhos em sincronia, na testa de cada um uma luz dourada reluziu, em seguida seus corpos pareceram transparecer como se não fizessem parte daquela dimensão. Todos observaram atentamente os rapazes aos poucos desaparecerem, como se fossem espectros. Rini suspirou, tentando buscar alívio retornou à filha e sentou-se ao lado dela na cama. Notou à mesa de cabeceira o broche de transformação, na remota esperança de ele ajudá-la, tomou-o em mãos e o repousou sob o coração de Crystal, orava para o Cristal de Prata, orava para a Mãe. Do outro lado, num mundo que um dia foi o abrigo dos sonhos mais belos, em pose de Buda sob a enorme flor de lótus negra, Ametista se materializara, não distante Crystal se encontrava com os olhos opacos diante da cena que a assombrava com frequência: Diamante e sua avó desfrutando de um beijo que ela acreditava nunca ser destinado a ela.
Olhe bem para você... — a voz ecoou dentro de si, tomando-a. — Olhe-se no espelho que só diz a verdade! — ela acatou e viu-se como uma sombra — Essa é você por dentro, é tudo o que tem de si.
— Sim, é verdade... Essa sou eu... — sorriu melancólica e tocou o vidro, afagando as formas desconexas e obscuras que o Nada mostrava. — Eu sou uma sombra... — uma grossa lágrima esvaiu-se, pingou do queixo no piso enegrecido.
Tudo o que querem é o retorno de sua avó, não vê? Nada querem de você.
— Vovó, porque não assume logo... — caiu de joelhos — assuma o meu corpo, tome a vida que é sua e não minha! Eu estou pronta... — cerrou os olhos, o corpo inteiro se fechou em uma enorme bolha negra. Os olhos de Ametista abriram-se, negros, suas mãos ergueram-se na direção de Crystal e dela passaram a absorver a energia vital.
— A sua energia alimentará a minha vida, princesa. Graças a ela poderei manter-me sadia por mais um tempo, até completar o meu grande objetivo. — Ametista suspirou, aliviada.
— Está ainda mais gelada! — Damien exclamou.
— Vejam, o espelho dos sonhos dela! — Marine apontou incrédula ao objeto tomado pelo negrume.
Diamante fechou os punhos com força, não suportaria perdê-la, ainda mais por terem se despedido tão mal na noite passada. Culpou-se por tê-la magoado, culpou-se por sua dualidade, culpou-se por tudo o que poderia. Sem cerimônias, sentou-se do outro lado do leito, tomou a outra mão da princesa, surpreendendo a todos no quarto.
— Crystal, me ouça! — ele disse — Chamarei o seu nome até que me responda. Crystal, Crystal! — insistiu.
Enquanto isso, o Trio Amazonas se separava pelo estranho mundo onírico, cada um escolhera uma direção, quem encontrasse primeiro a princesa avisaria através de um pequeno guizo mágico amarrado ao punho. Olho de Peixe seguiu pela direção dos lagos petrificados, Olho de Águia escolheu os céus, seus braços abriram-se em grandes asas e Olho de Tigre seguiu pelos bosques na sua rapidez felina, superara a enxaqueca no susto. Dos céus Águia assustou-se ao ver no que Elysium havia se tornado, a energia maligna causava-lhe mal estar, parou ao deparar-se com a enorme flor de lótus negra, notou lá a presença de uma estranha, não pensou duas vezes antes de arremessar sobre ela a sua arma: um chicote prateado de lâminas afiadíssimas. Surpreendentemente foi interceptado pela pequenina mão, e sem provocar corte algum.
— Como?! — ele tentou puxar a arma, mas ela a cativou firme. Sentiu um forte arrepio percorrer-lhe a espinha quando os olhos negros de íris à pupila o encararam.
— Não pode me ferir, este não é meu corpo físico. — ela explicou, puxando-o com toda a força. Ele gritou, de nada adiantou, foi arrastado até estar diante a ela, o guizo pendurado ao punho chiou, provocando vibrações nas águas e nas árvores macabras. — Pobre criatura... — ergueu-lhe uma das mãos e lançou-lhe uma rajada de energia maligna — Desapareça!
— Não tão fácil! — a voz doce soou, era Olho de Peixe pondo-se à frente e, num gracioso salto, levando Olho de Águia consigo, esquivando-os do ataque. — Mas é um inútil mesmo, hein? Tem que melhorar se quer que Sailor Ocean te dê algum valor! – resmungou.
— Ah, seu peixe de uma figa, eu saberia sair dessa! — Águia respondeu.
— Um "muito obrigado" bastava! — o outro ajeitou os cabelos e depois uniu bem os dedos, entre cada um havia adagas afiadíssimas, lapidadas em cristal. — Então esse não é seu corpo físico? Adivinhe só, as nossas armas não foram feitas simplesmente para cortar o que é material! — na graça de sempre, num rodopiar coreográfico atirou as lâminas, a princípio tomaram direções desconexas, a pequenina nemesiana riu. — Afinal, somos os guardiões desse mundo! — ele completou raivoso. As lâminas vieram pelas costas de Ametista e causaram estragos em seus braços, pernas e nas proximidades do pescoço. – Acha que é fácil acabar conosco, sua insossa?
— Devo admitir que os subestimei, — fechou os olhos, conformada, embora repleta de cortes, não sangrava, era como uma ilusão — mas, mesmo que se desfaçam desse meu corpo, não poderão salvar a princesa ou o rei.
— O rei? — os dois perguntaram ao mesmo tempo, arrancando de Ametista um risinho.
Ela iria se manifestar, mas um forte relâmpago dourado a atingiu, vinha de um bastão dourado a rodopiar na mão de Olho de Tigre, o líder do trio saltava alto, atingia os céus oníricos.
— Vamos, liberte a princesa de uma vez! — Tigre grunhiu, ordenando.
— É só isso? — ela o desafiou e desmaterializou-se, surgiu diante do corpo da princesa caída no piso, envolvida pela energia trevosa. — Acham que relâmpagos, adagas e lâminas poderão desfazer o que já está feito?
— O que está feito? — Tigre pairou a sua frente.
— O coração dela está em pedaços, nada do que façam ou falem poderá desfazer isso. — Apontou Crystal — A alma dela se desfaz a cada segundo, e sabem de quem é a culpa?
— Sua e de sua trupe, lógico! — Olho de Tigre respondeu de imediato.
— Hu,hu... Idiotas! Não, a culpa é de todos vocês! — os apontou, e eles mal poderiam saber que tudo o que Ametista falava ecoava pelos lábios de Crystal, no quarto onde mãe, príncipes e súditos fitavam-na apreensivos. — A culpa é de todos aqueles que desde sempre a fizeram imagem-semelhança da avó! Por toda a vida ela se viu sombra de uma mulher que já se foi, mas é claro que por sua índole benigna ela conseguiu conter essa sombra num cantinho escondido do coração, onde apenas ela era capaz de mergulhar quando estava sozinha. Não deixava a sombra crescer, seu lado esperançoso a mantinha cativa, por isso conseguia ser tão pura e manusear tão bem o cristal sagrado lunar. Agora, vejam só a ironia, é justamente dessa sombra que me aproveito, e se tudo continuar no caminho em que está, o coração dessa princesa será tão corrompido que jamais voltará a ser o que era! A alma, a pequena essência que ela tem se quebrará por completo e os grandes culpados serão vocês, hipócritas! — o corpo entrecortado de Ametista virou fumaça púrpura e foi tragado pelo inspirar de Crystal, a risada da enferma soberana de Nemesis ecoou por todo Elysium e também pelo quarto da princesa do reino de cristal.
— Majestade o que está havendo? — Luna e Artêmis entraram no quarto, no corredor estavam os outros visitantes que participaram do baile, todos tão apreensivos quanto todo o resto.
— É mentira... Acreditamos que Crystal seja a reencarnação de minha mãe sim, mas isso não exclui a personalidade dela, e nem sua unicidade! Crystal... — as lágrimas tomaram os olhos avermelhados — é verdade que isso a perturba tanto durante todo esse tempo? — abraçou-a, as lágrimas pingaram sobre a face da menina — Eu sinto tanto, tanto, minha filha!
— Crystal, Crystal me ouça! — Diamante insistia.
Escuro... Escuro como tudo fica ao fechar dos olhos à noite.
Nada... Nem um ponto de luz no final de toda aquela escuridão. Ela tinha final? Não... Aquele era o interior dela. Despida, flutuando em pose fetal ela rolava por ali, até vislumbrar um cenário de torres negras, iluminadas por luzes artificiais.
"O que é isso? Onde é aqui?" — ela se perguntou, amedrontada.
Avistou duas crianças observando uma flor azul, reconheceu-as de prontidão. O mais velho possuía os inconfundíveis cabelos claros, quase prateados, e consolava o pequenino, prometendo-lhe tomar a Terra para que pudessem viver em paz em meio a uma multidão de flores como aquela. Crystal sentiu um forte aperto no coração.
"Por que estou vendo isso?" — abraçou a si mesma, e, na mesma posição vulnerável em que estava, sentiu-se acomodada em algo macio, olhou aos lados, sentou-se e viu-se dentro de uma enorme flor azul como aquela que o pequeno Diamante olhava. Como aquela? Não, ela estava dentro da flor que ele e o irmão mais novo admiravam. Mas, como?
— Crystal, Crystal, não me deixe, por favor! — era o pequeno Diamante quem falava.
— Você pode me ver? — ela se mostrou confusa.
— Volte para mim! — o pequenino afagou as pétalas delicadas.
— O quê?
— Volte para mim... — no quarto, sentado ao lado dela, surpreendendo a todos mais uma das inúmeras vezes, ele suplicava como se orasse, agarrado à mão dela, de olhos fechados, ajoelhado à cama, concentrado. — Volte para mim, você é a luz em mim! — a criança chorosa da ilusão dirigia-se a ela, suplicante — Volte, por favor!
O Cristal de Prata brilhou fracamente no colo de Crystal, Rini, embora confusa, esboçou um pequeno sorriso. Damien mantinha-se atônito, não sabia se sentia raiva ou alívio por Crystal responder aos estímulos de Diamante. Do outro lado, era o sedniano quem lhe cativava uma mão, apertou-a levemente, sentindo-se inseguro e sonolento.
"Não..." — uma voz ecoou na mente de Crystal, tentando controlá-la. — "Isso é mentira, não é a você que ele vê!" — as madeixas tornaram-se douradas. — "É a ela!" — a imagem de Sailor Moon pulsou diante de si. — "Ela é a luz dele e ele a busca desesperadamente em você"!
— Eu não a vejo assim! — outra voz ecoou grave e firme. — Posso ser o único, mas não a vejo assim!
— Quem é? — Crystal olhou para os lados, seu corpo caíra no vazio mais uma vez, tudo estava escuro, exceto num ponto mais ao longe, onde algo reluzia intensamente. Movendo braços e pernas como quem nada, Crystal foi até esse "pingo" de esperança e admirou-se ao ver a armadura reluzindo em diferentes cores. — Príncipe Damien? — surpreendeu-se e, com os braços tentou esconder as vergonhas. Ele tocou-a nos ombros, numa tentativa de acalento.
— Ele adormeceu! — no quarto, Rini constatou ao notar os olhos selados do príncipe viajante e o semblante tranquilo.
— Meu irmão também! — Saphiro ajoelhou-se ao lado de Diamante, acomodando-o.
— Muitos ou quase todos podem vê-la como sua avó, mas eu não, eu nunca! — Damien tomou as mãos de Crystal, pouco se importando com a condição dela, seus olhos viam além do corpo desnudo, procuravam-lhe a alma. — Eu a vejo por quem é, e o que você é fez com que me interessasse por você...
— Como se nunca conversamos? — ela mostrou-se confusa.
— Certa vez vi uma imagem sua, éramos crianças, desde aí me encantei pelo seu sorriso meigo e suas lindas madeixas castanhas... — afagou-lhe as ondas e trouxe-as para perto do rosto aspirando-lhes o aroma — Nunca ouvira falar de Sailor Moon, apenas de Crystal. — suspirou — E foi por Crystal que viajei pela galáxia.
— Príncipe Damien, nem sei o que dizer... — mostrou-se apreensiva — Eu...
— Não diga nada. — abraçou-a com cuidado. — Volte a ser quem era, não se permita definhar nessa escuridão, esse não é o seu lugar. Você é Luz, Crystal, à Luz pertence e não às Trevas...
— Mas, se pertenço à Luz, porque as Trevas me atraem tanto? — semicerrou os olhos, rememorando a insígnia da Lua Negra. — "Desejo as Trevas com tudo o que há dentro do meu ser... Quero fazer parte da Escuridão Dele"... — entorpecida, ela fechou os olhos e a lua em sua testa retomou o brilho.
— Isso, então finalmente se vê com quem deve estar. — Ametista apareceu mais adiante, mostrando-se satisfeita. — É nos braços dele que deve se aconchegar. — por trás da pequenina, Diamante surgiu quieto, adulto, apenas observando o casal abraçado. — Aquele é o lugar dela! O seu é ao nosso lado!
— Não! — Crystal abriu os olhos e afastou-se de Damien subitamente — Não vai corrompê-lo, não vai levá-lo embora! — disse convicta, e a lua em sua testa brilhou intensamente. No colo de seu corpo adormecido o cristal prateado reluziu, no lago de Elysium, nas profundezas, na testa de Helios petrificado o cristal dourado também cintilou. Ambas as pedras criaram feixes intensos de luz que, ao se encontrarem nas extremidades dos mundos formaram inúmeros arco-íris, todos eles terminaram exatamente no mesmo lugar, no ilusório corpo despido da princesa.
Ela ergueu as mãos ao alto como se soubesse o que fazer, e dessa vez nenhum espectro pareceu acompanhá-la. Seus pés deixaram de tocar o piso negro aos poucos, da ponta deles até suas mãos elevadas um báculo cristalizado se formou, em seu ápice, uma grande lua crescente lapidada na mesma pedra mística continha dentro de si todas as cores possíveis de serem vistas por olhos humanos, de uma ponta a outra ela formava em si também um arco-íris, este brilhava unicamente, como a nebulosa de Andrômeda. Os dois príncipes focaram-se de tal forma naquele esplendoroso báculo que demoraram a perceber as brancas asas de Crystal, semelhantes às de seu pai unicórnio. O Trio Amazonas materializou-se diante dela, pois enfim ela retomara a própria consciência, seu corpo era seu, Ametista entrou como fumaça e como fumaça foi expelida, jazia caída à sua frente, tão inerte quanto os homens que a encaravam, desacreditados. A soberana de Nemesis ajoelhou-se, fitando Sailor Love em novos trajes, resplandecentes, talhados em detalhes dourados e prateados mesclados às cores cor-de-rosa e lilás. No centro do broche uma pedra diferente reluzia, era como uma pérola mística – a fusão do cristal dourado ao cristal prateado.
— Impossível... — Ametista sussurrou. — O Cristal de Prata sequer estava aqui!
— O Cristal Dourado chamou pelo Cristal de Prata, como o dia chama pela noite. — Crystal afirmou, seus olhos pareciam espelhos e refletiam a incredulidade de Ametista. — Vá embora. — disse calma. — Não tenho a intenção de machucá-la.
— O quê? — mostrou-se ainda mais confusa.
— Deixe Elysium em paz, deixe príncipe Diamante e príncipe Saphiro em paz e vá embora, por favor. — pediu calmamente, assustando aos companheiros que pareciam desconhecê-la.
— Não! — a voz de um homem ecoou — Não, princesa! Não caia nessa armadilha!
— Onyx? —ela começou a arfar, enfim os males de sua doença tratavam de persegui-la lá para mostrar-lhe que seu corpo físico começara a correr riscos. Em Nemesis, os colapsos já iniciaram, seu coração adquirira ritmo perigoso, Quartzy acalmava-lhe a febre com toalhas molhadas e poções.
— Quem são vocês, afinal? — Diamante deu um passo à frente.
— Pergunte ao seu irmão. — Ametista disse, levantou-se, e num esforço que pareceu absurdo, flutuou até o centro da flor de lótus, junto com a enorme pedra negra ela desapareceu, até sobrar o lago calmo e a paisagem oscilante, ora negra e arrepiante, ora fantástica e mística, no fundo do lago, sem que ninguém soubesse, o corpo de Helios petrificado permaneceu, enrolado por algas.
Cristal Dourado e Cristal de Prata se separaram como duas estrelas cadentes caindo em direções opostas, fora rápido e imperceptível. Crystal perdeu o ar, parecia se afogar, pôs as duas mãos sobre o pescoço buscando oxigênio. Os príncipes foram até ela, tentando recompô-la, mas eles próprios sentiram-se ofegantes, os integrantes do Trio Amazonas não se alarmaram, pois sabiam o que aquilo significava.
— O despertar se aproxima. — Disseram em conjunto e, de mãos dadas puseram-se ao redor dos outros três.
Diamante foi o primeiro a acordar, levantou-se devagar e apoiou-se na parede. Rini fitou-o apreensiva, tornou a olhar a filha e viu, no colo dela, o cristal prateado retornar ao centro do broche e o espelho dos sonhos tornar ao seu âmago. Ao lado, Damien abria os olhos em leves piscadelas, erguia o rosto confuso, olhava para os lados até confrontar-se com os olhos de Diamante, vidrados nele e em sua mão insistente a segurar a da princesa. Falando-se da princesa, foi ela quem teve o mais violento despertar, seu corpo inteiro saltou da cama como se buscasse por fôlego. Aos poucos, a pele retomou a cor rosada e esquentou mais até do que devia.
— Está com febre! — Rini constatou ao abraçá-la fortemente e apalpar-lhe o rosto.
— Vou buscar remédios! — Sailor Saturno se adiantou.
— Crystal, minha filha, eu sinto muito, eu realmente sinto muito! — beijou-lhe o rosto inteiro — Eu a amo tanto, a Lua sabe o quanto a amo, por favor, nunca duvide disso!
— Eu sei, eu sei mamãe... — disse desnorteada, enxergava tudo embaçado. Pouco a pouco recuperou a visão, enfim pôde ver a quem procurava preparando para desencostar-se da parede e deixar o quarto. Crystal não pensou nas consequências, naquele instante pareceu ouvir apenas as batidas do próprio coração. Os olhos oceânicos marejaram, ela deu um salto da cama e, sem equilíbrio atirou-se nos braços dele, desesperada, enterrou o rosto em seu peito, molhando-lhe a farda nemesiana. Todos fitaram-na calados, inclusive ele, incrédulo, tardou a corresponder o abraço, entretanto quando o correspondeu, foi com toda a intensidade que podia.
— Crystal... — Rini, ainda sentada na cama, não queria crer no que via. Aquilo definitivamente não era só amizade.
— Não vá embora! — entre soluços, a princesa implorou — Não me deixe, você não pode me deixar!
— Eu... eu não irei... — apoiou o queixo sobre a cabeça dela e fechou os olhos, apertando-a nos braços, não se importava com os espectadores, mal reparava o olhar triste e vencido do príncipe sentado ao pé da cama, assim como não se atinha aos olhares de reprovação de Rini e Yumi, aos de curiosidade de Marine e Reiko, aos esperançosos de Hina e Saphiro, e aos misteriosos de Mizumi. Seiya? Quem era mesmo? Mal recordava, sabia que ele estava à porta e só.
— Então prometa, prometa que jamais irá me deixar! — ela exigiu, apertando-lhe a farda branca.
— Eu prometo. — as palavras dele arrancaram um riso de contentamento dela, embora chorasse copiosamente.
— Saiam do quarto, por favor... — Rini, em baixo tom, pediu a todos os outros. O último a sair foi Damien, desconsolado fitou a rainha uma última vez, ela parecia tão desconsolada quanto ele. Assim que ficou a sós com o casal, a mãe atormentada levantou-se da cama e aproximou-se deles — Diamante, Crystal, é hora de conversarmos.
— Concordo. — o príncipe disse. Crystal enxugou os olhos e, ainda enredada nos braços dele, encarou a mãe.
— Mamãe, há algo que precisamos contar...
— Não há nada para contar! — Rini interrompeu — Eu vejo claramente, tentei ignorar, mas há muito já sabia.
—... E então? — Diamante perguntou ao arquear uma sobrancelha.
Rini encarou-o com chamas nos olhos, respirou fundo tentando manter a calma.
— Crystal não é Sailor Moon, Diamante. — afirmou com veemência — Pode ser a reencarnação dela, mas não é ela, e se fosse... Não se apaixonaria por você.
O abraço tornou-se menos tenso, eram os braços dele afrouxando-se, os dela o apertavam ainda, Crystal o olhava, alimentando certa expectativa, esperando os lábios dele moverem-se e dizerem algo surpreendente...
— Não se conforma que sua filha tenha se apaixonado por mim, não é verdade, Coelho? — orgulhoso ele a provocou.
— Crystal, é isso o que quer para você? — apontou-o — Não vê que ele a conquista apenas para me provocar? Do outro lado dessa porta há um homem que realmente pode oferecer-lhe amor.
— Endymion? — Diamante riu — É assim que defende a autenticidade de sua filha? Entregando-a nas mãos de um homem que é, coincidentemente, idêntico ao antigo rei? Curioso, não?
— Damien! —Rini o corrigiu — Damien, o único que se apaixonou por Crystal desconhecendo a existência de Sailor Moon, diga-me onde está a coincidência, ou, será o destino impondo-se? — devolveu a provocação.
— Ou será você querendo impor um destino à sua filha? — ele rebateu, apertando os braços de Crystal.
— Quem gosta de forçar situações aqui é você! — a rainha se desequilibrou. — Homem egoísta, importa-se apenas com o que lhe é conveniente! Crystal é uma pessoa, não um de seus caprichos!
— Chega! — Crystal gritou, desvencilhando-se dos braços de Diamante — por favor, deixem-me sozinha... — pediu mais calma, porém não menos triste.
— Minha filha... — Rini tentou se aproximar.
— Por favor mamãe, eu estou bem, só quero ficar um pouco sozinha...
Rini se afastou, Diamante persistiu em ficar. Da porta, a rainha chamou-o a atenção.
— Não ouviu? Ela quer um momento de solidão para pensar! — o príncipe quase rosnou, todavia, ao fitar a princesa e vê-la assentir com a cabeça soube que era melhor sair, assim o fez.
Antes de fechar a porta do quarto olhou-a mais uma vez, parecia distante a encarar-se no espelho, desapontada, penteando as mechas castanhas soltas, esparramadas pelos ombros e pelas costas. Diamante suspirou, pesaroso, quando finalmente ouviu o barulho do trinco e virou-se na direção de seus aposentos esbarrou-se em Rini.
— Se pensa que conseguirá o que deseja, está muito enganado! — disse em baixo tom, ainda assim ameaçador.
— O que fará para me impedir? — desafiou-a outra vez.
— Eu não preciso fazer nada! O tempo justo se encarregará disso por mim! Jamais terá a minha mãe, jamais!
— Sua mãe, não... A sua filha sim!
Paft! Diamante sentiu a face esquentar, a marca da mão pesada de Rini ficou em uma de suas bochechas. A própria rainha daquele reino se mostrou desacreditada pelo que fizera. Teria ela acordado o leão? Jamais saberia decifrar o que se passava por trás daqueles frios olhos violetas.
— Majestade, está tudo bem? — Damien se aproximou e tocou-a nos ombros, Diamante fitou-o com o mesmo olhar turvo e frígido.
Calado, em passos calmos, o Black Moon passou pelos dois, seu ombro quase esbarrou no de Damien, uma tênue tensão pôde ser sentida por ambos ao passar do príncipe do décimo planeta. Afastou-se devagar, até sumir no largo corredor.
— Helios, onde você está? Preciso tanto de você! – Rini sussurrou, apavorada.
As nuvens enegreciam no céu, uma tormenta estava por vir, o grande conflito perdurara manhã e tarde, tão logo anoiteceria e tão pouco os habitantes do palácio notaram... Os trovões enfim iluminavam os céus e o quarto de luzes apagadas da princesa. Ela estava como antes, estática diante do espelho, a sua frente reluzia o seu espelho dos sonhos, na cor natural, dourado como o de sua mãe. Crystal o apertou, quase o trincando, nele se refletia a imagem de Serena nos braços de Diamante, a mesma ilusão que tivera quando caíra na armadilha de Ametista. Estava em casa, estava a salvo, mas aquela imagem não abandonava-lhe o íntimo.
— Falhou. — Topázio afirmou seco a observá-la lânguida sobre o leito. — Todo esse esforço por nada, e veja só você... Quanto tempo lhe resta?
— Dias, talvez horas... Mas, não foi por nada! — ofegava. — Uma vez eu disse que a semente fora plantada, e agora vejo o primeiro galho se formar. — sorriu, pálida, a fitar o teto escuro.
— Saphiro! — Diamante invadiu o quarto do irmão, impaciente.
— Irmão, o que há com você? — estava deitado a ler um livro, sentou-se no susto. — Está tudo bem?
— É claro que não está tudo bem! — ralhou — E nem poderia estar! — ficou de pé a olhar pela janela, de braços cruzados — Muito bem, perguntarei apenas uma vez: há algo que queira me contar?
— Há... — Saphiro baixou a cabeça, submisso.
— Então comece! — Diamante ordenou.
Crystal afagou o espelho da penteadeira a esboçar um sorriso mórbido nos lábios, no espaço que há entre um trovão e outro, aos seus olhos a sua imagem oscilava, via seus cabelos confundirem-se entre o dourado e o castanho, sua mão ansiosa fechou-se e, antes que enlouquecesse de vez, ela socou o espelho, espatifando-o e fatalmente provocando um corte fundo da palma ao pulso.
O sangue escorreu sem que ela sentisse... Estava anestesiada por todas as angústias. Foi ao banheiro numa estranha calmaria, lavou as mãos, a água escorreu como um rubi e manchou a pia cristalina. Amarrou na mão uma toalha clara, em pouco tempo estava vermelha como a pia ficara. Mesmo com aquele braço a respingar seu líquido vital, ela, ainda anestesiada, sentou-se em frente ao que restou de espelho na penteadeira, um "quase nada" de espelho, e fez um penteado em si tão mórbido quanto seu sorriso: odangos.
— Agora sim... — sussurrou.
"Eu não sou ela"? — alisou as madeixas com os dedos, tingindo-as de vermelho — "eu quero ser ela"! — levantou-se da cadeira, e cambaleante saiu do quarto. Estava delirando? Ametista conseguira enlouquecê-la? ... Ou eram seus próprios sentimentos que se encarregavam de sua loucura? Ou... enfim, sua alma se despedaçara?
Os corredores nunca pareceram tão vazios, temendo ser vista por alguém, ainda amortecida, ela correu. A certo ponto as gotículas de sangue pararam de respingar sobre o piso, talvez por ela ter apertado tanto a toalha ao redor do punho. Seguiu o caminho dos jardins e enfim passou pelos portões do palácio, a velha capa a escondia por debaixo. A tempestade lá fora por fim a engoliu, e ela sequer conseguia sentir o frio...
— Saphiro, se o que diz é verdade, então temos que ir até Nemesis! — Diamante constatou a passar o polegar sobre o queixo. — Isso é muito grave, e motivo de rebelião! — se já não simpatizava com Rini, agora menos ainda depois de descobrir sobre o que o irmão mais novo conversara com Ametista certa vez, através de uma gota de cristal negro remanescente na cidade de Tóquio de Cristal.
— Acalme-se irmão! — tocou-lhe os ombros — Será que podemos confiar nessa mulher? Veja só o que ela fez hoje!
— É verdade, mas de qualquer modo preciso ir ao meu planeta e ver em que situação ele se encontra! Sailor Moon me prometeu cuidar dele por mim, no entanto, pelo que vejo Nemesis está abandonado!
— Concordo, precisamos ir a Nemesis. Mas, iremos de passagem ou iremos para ficar? — a questão era cruel, Diamante não respondeu de imediato, suspirou aflito, vidrado no céu cinzento e tempestuoso, mal enxergava as formas dos edifícios através do vidro, devido ao aguaceiro jorrado além da janela. Sem tardar, o céu escurecer-se-ia e eles não conseguiam sair daquele impasse. Batidas na porta do quarto os fizeram parar aquela discussão. Saphiro abriu, era a tímida Hina, branca como um fantasma.
— Com licença, desculpe o incômodo, mas é que... Algo terrível aconteceu! — entrou sem ser convidada, parecia apavorada.
— Hina, o que houve? — Saphiro a abraçou de lado e fê-la sentar-se na cama. Diamante, sem querer atrapalhar o caçula, sairia, mas as palavras posteriores de Hina fizeram-no estancar:
— Fui chamar a princesa para jantar, bati várias vezes à porta e ela não me respondeu, então eu entrei e me deparei com o espelho da penteadeira espatifado no chão e um rastro de sangue! Não percebi que as gotas esparramadas no corredor fossem isso, pensei que fossem tinta, mas eram sangue, eu juro que eram! — estava aterrorizada — Não sei o que fazer!
— Avise a todos. — Diamante ordenou — todos devem ajudar a procurá-la!
Assim Hina fez, saiu às pressas do quarto e avisou a rainha, logo todas as senshis, inclusive os visitantes puseram-se avante nas buscas, alguns se encarregaram dos vastos jardins, outros se aventuraram a sair e procurá-la pela cidade. Diamante, pasmo, sobrevoava o reino em busca de uma resposta, um campo de energia púrpura o protegia dos respingos da tormenta.
— Primeiro um galho, depois as primeiras folhas... Logo a árvore inteira cresce e cria suas raízes... Uma vez que as raízes estiverem ramificadas nada poderá cortar a minha árvore. — Ametista, febril, disse contente.
— A senhorita está delirando de febre! — Quartzy alegou, muito preocupada.
— Eles virão, logo virão... Você vai ver Quartzy! — ela prosseguiu.
— Pode ser que venham, mas será que você ainda estará aqui para recebê-los? — Onyx não poderia perder a chance de cutucar.
— Nem que eu guarde meu último suspiro para esse dia, sim, eu os receberei! — respondeu irritada. — Pois aposto que não demorará!
Continua...
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