A Minha Queda Será Por Você
24 O baile: parte I
Notas iniciais
A minha queda será por você
Capítulo 24 – O baile: Parte I
Um mar de gente – era isso o que Crystal via. Um vasto oceano de pessoas, muitas ela sequer conhecia. Correu os olhos por todas elas, estavam curiosas, ansiosas, sorridentes e à espera. Não deu muita atenção ao homem no canto do salão, sua vista se prendeu naquele que estava no centro cujo traje claro, assim como o dela refletia as luzes coloridas e os pequeninos diamantes espelhados, bordados na altura do peito cintilavam de leve. Ele esbanjava um sorriso recatado, em uma das mãos segurava uma taça de vinho tinto, balançava-a levemente de modo que o líquido ali contido ondulasse no ritmo da melodia do piano. Ah, sim o piano! A introdução de Hina estava quase acabando, o momento de Crystal viria logo, só de pensar em cantar na frente de tantos o estômago dela embrulhava. Pousou as mãos sobre o abdome tenso, respirou fundo e fechou os olhos, seria mais fácil começar sem ter de encarar a ninguém. Buscou na memória um momento muito feliz, o que encontrou foi um campo cuja relva verde balançava, ela corria, e o dono de seus sonhos a alcançava, os dois caíam sobre a grama e o coração dela badalava como um sino. Sorriu, enfim mais segura, pois sabia do que precisava para não falhar: emoção. A emoção que sentira ao compor aquela canção. A mesma emoção que sentiu ao desfrutar daquele momento no campo com o príncipe, a mesma emoção que sentia toda a vez que lhe lançava um mero pensamento, um suspiro, a simples emoção de querê-lo, de amá-lo.
“É para você...” — pensou ao inspirar e relaxar os braços.
A última nota da introdução fora tocada, em seguida uma breve pausa. Ainda de olhos fechados, Crystal abriu os lábios e deles, finalmente, a sua doce voz ecoou pelo salão:
Eu não estou sozinha dessa vez
porque você está ao meu lado
para me guiar através do céu estrelado
O medo não é mais meu companheiro
E eu acredito em tudo o que você faz por mim
Nós viemos de tão longe no tempo...
Naqueles instantes musicais, apenas as velas e as estrelas da cúpula iluminavam os convidados, enquanto Crystal reluzia como uma pérola no palco. Ela abriu os orbes azuis oceânicos e vidrou-os na figura de seu pensamento como se a amena iluminação dos castiçais resplandecesse apenas o rosto dele.
...só para estarmos juntos nessa vida!
Você sempre será o meu maior tesouro
e agora eu vejo
Como um campo de rosas brancas
Isso parece tão bom por dentro
e vai durar para sempre,
meu eterno sonho!
Diamante não era tolo, o seu interior estremeceu por completo diante às palavras que lhe eram entregues pela doce voz da princesa de Tóquio de Cristal – “é para mim!” – constatou com um brilho de contentamento nos olhos. Inebriado, esqueceu-se de que naquele salão havia outros além dele e ela, era como se só existissem os dois.
Estamos perdidos em um vasto mar azul
Repleto de alegria e serenidade
Jamais haverá um dia
em que eu o deixarei escapar no tempo!
Porque estamos juntos nessa vida
Você sempre será o meu grande amor!
A última frase da estrofe foi cantada com tamanha intensidade que aqueceu o coração de muitos. Incrivelmente Crystal já se soltara, abriu os braços, permitiu que o corpo gesticulasse conforme a música, naquele simples instante quem a visse juraria que não era aquela menina desastrada, preguiçosa e infantil.
... Como um campo de rosas brancas,
Isso parece tão bom por dentro
E vai durar para sempre,
meu eterno sonho
Meu eterno sonho...
você sempre será!
Ao findar a última nota do dueto piano e violino, um breve silêncio se deu, tão breve que mal foi percebido. Em seguida, não se sabe quem foi o primeiro a aplaudir, Diamante ou o viajante do espaço. Não tão depois, todos os convidados se levantaram e bateram palmas estaladas, contagiantes, sincronizadas. Crystal mordiscou o lábio inferior num largo sorriso, eufórica. No seu costumeiro entusiasmo, puxou Hina por um braço e Mizumi por outro, quase derrubando-as do palco. Reverenciaram e agradeceram ao público juntas. Hina só desejava se esconder. Enquanto flores lhes eram atiradas, os músicos contratados para tocarem a valsa subiam no palco, junto à eles Rini e Helios chegavam e abraçavam a filha tão querida.
— Amigos, estamos muito gratos pela presença de cada um de vocês! — Helios tomou a frente naquele palco de acústica incrível, não havia-se necessidade de microfones ou alto-falantes. — Muitos sequer conheciam a nossa menina, Crystal, alguns a viram tão pequena que acredito não terem ficado na lembrança dela. — riu descontraído, passando a mão pela cabeça da filha — Bem, essa é a nossa chance de reapresentá-la a vocês e dizer para que não se preocupem com o futuro, pois a nossa menina está seguindo os passos da saudosa avó: tornou-se guardiã do sagrado cristal de prata!
— E, aproveitando essa grande comemoração, gostaríamos de ceder a primeira valsa de nossa estimada filha para um grande aliado nosso — Rini deu continuidade.
— O quê? Mas... — Crystal sussurrou, atordoada.
— Só uma valsa, querida. Você se importa? — Helios tocou-lhe o ombro.
— Será que...? — Diamante cogitou, esperançoso de que fosse ele.
— Príncipe Damien, por favor aproxime-se! — Rini ergueu o braço em direção aos fundos do salão. As luzes coloridas então o focalizaram: o viajante tirou a capa negra que trajava e revelou-se em uma armadura toda lapidada em algum tipo de cristal azulado, quase transparente.
O estrangeiro de cabelos negros e lisos, escorridos na altura dos ombros caminhou calmamente pelo salão, aproximando-se do palco. Diamante o acompanhou com os olhos a remoer-se. Repentinamente via à sua frente o que mais temia, pela semelhança dos traços só poderia ser uma pessoa:
— Endymion! — Foi Saphiro quem exclamou. Diamante apertava a toalha da mesa, as veias das mãos ressaltavam.
“Eu sabia que esse patife daria as caras!” — ameaçou levantar-se, porém Saphiro o conteve, também vidrado no sujeito.
— Desculpem-me pelos trajes, não tive tempo de me trocar, acabei me atrasando um pouco. Espero não tê-la ofendido, minha princesa. — que voz grave ele tinha! A sua firme mão segurou a de Crystal e levou-a aos lábios, beijando-a cordialmente. A menina corou. — Me permite? — disse a reverenciá-la.
— Anh? O quê? — olhou para os lados, confusa.
— Me permite ter a honra da primeira valsa?
— Mas é que, é que eu... — procurou Diamante em meio as pessoas do salão. Estava sentado, o semblante sério e um risco mórbido nos lábios. Não saberia desvendar o que significava aquilo, mas feliz ele não estava. — Eu deveria...
— Vim de tão longe só por essa oportunidade... Prometo não pisar em seu pé! — tentou descontraí-la, notando-a nervosa.
— Crystal, minha filha, não faça essa desfeita! — Rini advertiu.
— Está bem — a menina suspirou — “só uma valsa não fará mal, não posso criar caso com minha mãe hoje!”.
Dona de um coração mole, Crystal cedeu à vontade dos pais e, de braços dados com o desconhecido foi ao centro do salão, onde foi cercada pelos convidados. Olhou entre eles e não encontrou mais Diamante, por distrair-se à procura do príncipe quase tropeçou no pé do outro que riu, sem importar-se com a sua falta de jeito.
— Deixe-me guiá-la. — falou terno e apertou-lhe a cintura de leve, deixando-a corada outra vez.
— Quem é você? — perguntou curiosa, enquanto rodopiavam pelo piso liso.
— Não sabe? Há anos espero por uma chance de conhecê-la. Venho de um planeta distante, exatamente a dez bilhões de quilômetros daqui, localizado no Cinturão de Kuipir, o nome de meu lar é Sedna.
—... Sedna? — piscou os olhos rapidamente, impressionada.
— Sim, vê minha armadura? É feita de um mineral próprio de lá, mais resistente do que diamante!
— Diamante! — ela pareceu voltar de um transe, não tardou a olhar para todos os lados procurando por ele.
— Algum problema? — o príncipe extraterrestre a girou, estonteando-a. Em sequência do giro, puxou-a para perto, mais até do que planejava. A princesa, sem graça, fugiu de seu olhar e manteve-se a buscar pelo salão a presença do outro príncipe.
— Nossa, como ele é bonito! — Reiko suspirou referindo-se ao príncipe de Sedna, de um lado seu estava Olho de Tigre, do outro estava Marine, perto da loura estava Olho de Peixe e Olho de Águia.
— Ei! — Olho de Tigre a repreendeu.
— Ah, Tigrinho, não vem que não tem! Você só está comigo porque não conseguiu convencer a Marine de te acompanhar! — apontou para a outra, que cruzou os braços e virou o rosto. — Vai dizer que ele não é bonito, Marine? — não recebeu resposta.
— Ele parece tanto com o... — Olho de Peixe sussurrou, também estava a admirar Damien. Havia uma luz nos olhos do rapaz indecifrável para os próximos, mas quem quisesse arriscar um palpite poderia dizer que se assemelhava a uma triste nostalgia.
— Ei, Peixe! O que você tem? Não me diga que já se esqueceu do bonitinho lá! — Reiko apontou para Saphiro, estranhamente solitário. Hina ainda não o acompanhava, pois havia se comprometido de participar da primeira valsa com a orquestra.
— Ora, é claro que não! Sabem, tem um negócio me incomodando aqui, não sei dizer o que é... – coçou o nariz, ligeiramente avermelhado, e ao olhar para o seu lado se deu conta do que era: — Gato! — saltou para trás num reflexo.
— Gato? — Marine descruzou os braços e viu um homem de longos cabelos brancos acompanhado por uma bela mulher de cabelos arroxeados quase negros e uma mocinha com as madeixas cinzentas presas em dois coques, os três possuíam na testa a mesma insígnia de lua dourada de Crystal e Rini. — Onde tem gato?
O homem acompanhado riu e se aproximou.
— Prazer em conhecê-la, meu nome é Artêmis, essas são Luna, minha esposa e Diana, minha filha. Olho de Peixe, volte, não pretendemos devorá-lo! — disse brincalhão.
— Olhe só aquelas quatro do outro lado, não sei dizer qual é mais bonita! — Olho de Tigre, no intuito de provocar Reiko apontou um grupo de quatro mulheres: uma possuía cabelos e olhos rubros, trajava um longo vestido cor de vinho com as mangas douradas , longas, soltas e transparecidas, segurando uma mão sua estava uma jovem de cabelos negros, o seu vestido se assemelhava ao de outras duas, mudavam apenas as cores, o dela era azul escuro, bordado em cristais esbranquiçados, quem a olhava dizia que se parecia com um céu noturno estrelado. O vestido da moça de menor estatura, por sua vez, se assemelhava ao céu de amanhecer por conta de suas cores claras, a mistura de cinza a azul-celeste e lilás na barra combinavam com seus cabelos claros. A mais alta de todas elas, enfim, poderia ser comparada ao crepúsculo, tons de abóbora e vermelho compunham as cores de seu vestido, combinando perfeitamente com seus cabelos castanhos e olhos púrpuras. Assim como no modelo do vestido, as três mocinhas que acompanhavam a bela ruiva se assemelhavam nos penteados, as madeixas negras, prata e castanhas estavam amarradas em um baixo e fino rabo-de-cavalo. Antes que Reiko pudesse se sentir enciumada com o comentário de Tigre, Artêmis e Luna, já entrosados com o grupo, riram juntos. — O que é tão engraçado? — o galante integrante do trio amazonas arqueou uma das douradas sobrancelhas, desconfiado.
— Se soubesse o que sabemos, provavelmente mudaria de ideia! — Luna respondeu. Três das belas mulheres que ele apontou, eram metade... Bem, é complicado!
Enquanto os outros se divertiam, Crystal começava a sentir-se tonta com tantos giros, além disso, entre um e outro rodopiar procurava naquela multidão o príncipe com quem gostaria de estar dançando e... nada. Avistou até o irmão mais novo, mas ele havia sumido. Quando a orquestra enfim cerrou a primeira valsa em um acorde alegre, Crystal, ofegante e sentindo-se indisposta, desvencilhou-se de Damien.
— Está tudo bem? — o rapaz perguntou preocupado, apertando-lhe os ombros.
— Sim, eu só preciso de um pouco de ar... — Crystal passou a mão pela testa.
— Quer que eu a leve lá fora? — propôs, prestativo e sorridente.
— Ah, não... — olhou novamente para os lados, procurando uma forma de escapar dele — Você poderia me fazer um grande favor? — fitou-o, pidona.
— O que quiser, princesa!
— Bem, vê aquela menina lourinha de vestido azul? — apontou para Marine, solitária. Findada a primeira valsa, na seguinte os casais enfim começavam a dançar e Marine estava sem par, pronta para sentar-se a uma mesa. — Coitadinha, está tão sozinha... gostaria que dançasse com ela! — Crystal foi astuta.
— Ah é? Bom... Se quer assim, tudo bem então!
— Isso, por favor! — No desespero, espontânea como sempre, com uma mão o empurrou, dando-lhe o impulso de que precisava. Damien praticamente patinou até a mesa de Marine.
— Olá! — sorriu desajeitado diante da mocinha de cabelos dourados. — Será que eu poderia convidá-la para uma breve valsa? — estendeu-lhe a mão.
— Oh, bem... — Reiko tinha razão, o tal príncipe de um planeta longínquo era muito bem apessoado, Marine pensou. Não notou, mas seu rosto estranhamente ruborizou. — Uma valsa, certo. — o que perderia? Era um baile! Não era o tipo de evento que adorasse, mas, paciência! Uma dança não lhe arrancaria pedaço. Melhor com um estranho do que com aquele tigre desembestado.
Crystal aproveitou ter encaminhado o príncipe e também que seus pais distraíam-se a valsar, em passos saltitantes foi até a parte exterior do palácio tão bem enfeitada como todo o resto. Viu-se quase a cair. Céus, como o piso deslizava! Olhou novamente para todos os cantos, nada dele. Sentiu um amargor na garganta que afetou seu coração, de repente ele parecia espremido por algo pesado. Passou as mãos pelo rosto gelado, respirou fundo e correu para os jardins iluminados por luzes azuladas.
— Príncipe Diamante! — gritou seu nome insistentemente.
No salão, o festejo era animado. O casal que mais chamava atenção em meio aos outros era Olho de Tigre e Reiko, exímios dançarinos, não daria para dizer qual dos dois conduzia ou era conduzido.
— Devo assumir que você é muito boa nisso! — Olho de Tigre se mostrou espantado.
— Não só nisso! — Reiko afirmou segura, e, aproveitando-se de que sua mão repousava no ombro do belo felino, subiu-a a nuca dele, fazendo-lhe afagos nos cabelos d’ouro.
— Opa! Vá com calma! — pediu, embora não pudesse dizer que não estivesse apreciando o toque gentil dos dedos da “mãe terra”.
— Saphiro... — em outra extremidade do cômodo festivo, a ruivinha se aproximou em passos tímidos, a sua participação no palco terminara. — Você está bem? — perguntou ao notá-lo desconsolado. — E seu irmão?
— Ele se aborreceu e resolveu desistir da festa. — disse cabisbaixo, com as costas acomodadas à parede. — Acho que também não estou mais no clima...
— Entendo... — Hina fitou o piso, desapontada — Ele ficou assim porque Crystal dançou com aquele rapaz, não é? Bem, foi só uma valsa...
— É mais complicado do que isso, Hina. — o olhar do nemesiano mostrou-se distante.
— Será que você podia... — passou levemente a mão pelo braço dele numa carícia sutil – me fazer um pouco de companhia? — pediu, envergonhada. Queria chamá-lo para dançar, não conseguiu. Entretanto, Saphiro era observador, notara o ar decepcionado dela.
— Você esperou tanto por isso, não esperou? — respirou fundo — Não posso decepcioná-la.
— Ah, não, não! Está tudo bem, Saphiro! — abriu um sorriso meigo, disfarçando — Você não precisa dançar comigo se não quiser, eu nem sei dançar... Morro de vergonha!
— Eu também não sei. — confessou ligeiramente corado.
— Então não precisamos... — antes que completasse a frase, o jovem Black Moon a pegou pela mão e, calmamente a guiou até a parte de fora do salão, onde poucas pessoas estavam. Naquele ambiente pacato, entre duas pilastras adornadas de rosas perfumadas, Saphiro pegou as duas mãos de Hina e as pôs sobre seus ombros, logo após repousou as próprias mãos sobre a cintura bem talhada da menina.
— Eu acho que é assim. — tentou guiá-la para um lado e para o outro, mas ambos se atrapalharam. De nervoso, os dois riram. — É, não nascemos para isso! — constatou.
A delicada guardiã das chamas, risonha, repousou o queixo num ombro de Saphiro. Suas mãos que antes repousavam lá subiram delicadamente, seus braços por fim envolveram a nuca do nemesiano. Como não era muito alta, Hina acabou por ficar nas pontas dos pés, mesmo calçando sapatos de salto. Trêmula, fechou os olhos. Com o busto dela colado ao seu peito, Saphiro sentiu o coração descompassado da sua adorada Sailor Fire.
— Ah, Hina! — sussurrou, mirando os olhos na enorme lua crescente pintada no céu — Só você para me fazer sentir melhor numa situação como essa... — divagou, embalando seu corpo junto ao dela numa tentativa de dança.
— Que situação? — Hina se pronunciou também em baixo tom.
— É complicado...
— Quando abrirá seu coração para mim, Saphiro? — falou para si mesma, quase inaudível, entretanto ele a ouviu, apenas decidiu não responder.
Voltando ao salão, Olho de Águia procurava Sailor Ocean pelas mesas, afoito por uma oportunidade de dançar com ela e tê-la novamente nos braços. A caminhar por entre as outras pessoas a avistou com Sailor Wind, estavam próximas a uma coluna, isoladas de todo o resto. Em passos suaves ele se pôs por de trás da coluna, bisbilhotando o que as duas poderiam estar conversando.
— Você está linda nesse vestido prateado... — Mizumi deslizou os dedos pela face pálida da rígida guerreira dos ventos. — Tão feminina... — suspirou.
Yumi segurou-lhe a mão com firmeza e nada disse. Os olhos espelhados, frios como sempre, encararam os de Mizumi a fundo, estes tremelicaram. Aproveitando-se de que a mão gélida aprisionara a sua, na tentativa de aquecê-la, cativou-a com sua outra que ainda estava livre.
— Ceda-me uma valsa, apenas uma... — pediu em tom de súplica.
— Já se cansou do canário? — a outra perguntou ríspida.
— Yumi, não seja assim... — aproximou-se mais, perigosamente.
“Mas que diabos é isso?” — Olho de Águia arqueou uma sobrancelha e entortou o bico.
— Não gosto de seus jogos. — foi firme, livrando-se das mãos de Mizumi num tapa.
—Yumi... — insistente, sussurrou seu nome, colando a testa à dela, empurrando-a levemente contra a pilastra a qual estavam próximas, coincidentemente a mesma onde, do outro lado, Águia se escondia.
— Mizumi. — o sussurro de Sailor Wind foi uma espécie de aviso, ainda assim a outra não parou. As mãos de sereia acarinharam os ombros rijos e os frios antebraços alvos e lisos, depois, alcançaram-lhe os cabelos de prata e os dedos entrelaçaram-se neles. Ainda assim, não havia mudança nos traços inexpressivos da mais velha e esguia das marinheiras. — Mizumi. — falou um pouco mais alto e chiado, ainda alertando-a.
— Não seja assim... — com a bochecha unida à de Yumi, sussurrou com os lábios avermelhados colados em seu ouvido, não arrancou-lhe sequer um suspiro. Bruscamente foi afastada com um empurrão, quase foi ao chão. — Quanta agressividade! — reclamou.
— Você pode dançar com qualquer um ou qualquer uma disponível nesse salão, pode seduzir quem bem desejar, mas a mim você não terá. — deu-lhe as costas e não se deu o trabalho de parar para olhá-la mais uma vez, mas, já distante, não pôde evitar cerrar os punhos com força.
— Passarinho, saia daí! — Com a voz afetada, as pernas ainda a tremelicar, ordenou-o.
— Desde quando sabia que eu... — saiu todo sem graça.
— Desde o princípio! — puxou-o pelo braço com tamanha força que chegou a machucá-lo.
— Ei, o que está fazendo? Peraí!
— O quê? — as longas ondas verde-água cobriam-lhe parcialmente o rosto, de modo que o guardião do mundo dos sonhos não conseguia ver-lhe os olhos. — Não era para valsarmos, não era isso o que você queria?
— Mas é claro que eu quero! Só que não assim, veja o seu estado! — soltou o braço das garras de Mizumi, puxou-a pelos ombros e foi pego de surpresa quando entrou em contato com os olhos verde-mar debulhados em lágrimas. — Ei, será que dá para você me explicar o que está acontecendo?
— Eu sou uma má pessoa, passarinho? — olhou-o desconsolada, estranhamente sorria enquanto perguntava — Diga-me, sou?
— Que bobagem é essa, Sailor Ocean? Não estou te reconhecendo! — repreendeu-a e enxugou seu rosto com as duas mãos, colocando os fios de cabelo revoltados para trás das orelhas dela. — Onde está aquela mulher sedutora, aquela que poderia ter me afogado num pestanejar naquele lago? Lembra-se dela?
— Ah, sim... — riu — Quase me esqueci de que é daquilo que você gosta!
— Ei! — segurou-lhe firmemente o rosto, mesmo que ela quisesse desvencilhar o olhar do dele não conseguiria. — Quem disse isso?
— Ninguém precisa dizer, eu sei que é dela que todos vocês gostam... — respirou fundo, expandiu um sorriso esquisito, e, com a força que tinha nas mãos se libertou das de Olho de Águia. Baixou a cabeça, cobriu os olhos com as mãos, cerrou os dentes, balançou os ombros uma ou duas vezes até que, num repente, seu semblante voltou à “normalidade” — Com licença, passarinho! — lá estava a sereia confiante e estonteante de sempre.
— O que você... Ei, Mizumi, dá para me explicar o que está acontecendo? Nós não vamos dançar? — largou as perguntas no ar, afinal, ela o deixou a falar sozinho, caminhou até o meio do salão com a classe que possuía nos momentos oportunos.
Não tardou para que uma roda de rapazes se formasse em torno dela, num jeito despojado, como se brincasse de “unidunitê” apontou o dedo indicador para cada um a tapar os olhos com uma mão, aquele em quem seu dedo parou foi o seu par para valsar, com ele valsaria até que se cansasse, depois faria a mesma brincadeira até que tivesse valsado com todos os homens da roda. Olho de Águia não tardou a se dar conta de que ficara para escanteio, acreditou que a culpa só pudesse ser dele próprio, afinal, cometera alguma gafe com Mizumi, só não entendia que tipo de gafe seria.
“Parabéns, seu pombo desastrado!” — repreendeu-se em pensamentos, mas uma mão gentil tocou-lhe o ombro, impedindo-o de ficar desconsolado por muito mais tempo. — Hotaru? — ficou surpreso ao vê-la em trajes formais: um lindo vestido longo, justo, de veludo púrpuro e echarpe negra.
— Sei que não sou Mizumi, mas estou sem par e você também. — antes que ela tivesse tempo de propor a dança, Olho de Águia, esbanjando um largo e brilhoso sorriso a puxou pelas mãos até o centro do salão, onde os casais se esbanjavam.
— Ei, Reiko, quem é aquela? — Olho de Tigre, já um pouco cansado de tanto valsar, pausou os passos e apontou uma mulher entrando pelas grandes portas, diferentemente da maioria que adorava vestir-se em roupas claras ou de cores alegres, a mulher parecia uma viúva: a saia longa era feita de negro filó, o espartilho, também negro, era enfeitado por fitas púrpuras e somente o busto do vestido havia sido tecido em roxo, de resto, mesmo as longas luvas rendadas eram negras como as trevas, no pescoço ela usava uma fita de cetim enfeitada por um camafeu. Os longos e lisos cabelos acaju estavam em parte soltos, em parte trançados em um coque alto, e para a festa em especial, decidira cachear as pontas. — Parece uma dama antiga!
Antes que Reiko o respondesse, Hotaru abandonou o par e passou ao lado dos dois agraciada de alegria.
— Mas hein? — Olho de Águia coçou o canto do rosto, mais uma vez deixado de lado.
— Valkyria! — a guerreira do silêncio correu até a outra, abraçando-a como cumprimento.
— Você pediu, eu vim. — não se mostrava tão alegre, mesmo assim retribuiu o abraço saudoso.
— Helios, percebeu que Crystal não está por aqui? — Rini, abraçada a ele, com a cabeça acomodada em seu peito girou os olhos rubros pelo salão, pausando os passos.
— Ué, mas para onde ela teria ido? — O rei se perguntou.
— Por coincidência, Diamante também não está. — Rini completou. — Ele ficou furioso, eu vi.
— Porque Crystal e Damien dançaram a primeira valsa, eu também percebi.
— Vê? Essa é a prova de que ele está interessado em Crystal!
— Rini, querida, disso eu sei, o que desconheço é o sentimento de nossa filha.
— Felizmente, Damien está aqui agora!
— Você jamais aceitaria que Crystal escolhesse Diamante, não é?
— Nem pensar, de forma alguma! Não me faça pensar nisso, a noite está tão boa, e temos que aproveitar, afinal, depois de hoje... — abraçou-o forte, lembrando-se de que o prazo para que ele partisse ao mundo dos sonhos estava por expirar.
— Então aproveitemos a noite e deixemos, ao menos hoje, Crystal se resolver. — ele propôs.
...
— Príncipe Diamante, príncipe Diamante! — já ofegante de correr pelos jardins, Crystal parou e curvou o corpo, pondo as mãos sobre os joelhos, exausta. A barra do vestido já estava encardida por ela ter corrido pelo gramado. — Mas que droga! Onde você está? Será que foi para o quarto? — um estalo se deu na mente dela, lembrou-se do chafariz mais adiante, onde a imagem de sua avó fora esculpida em cristal. Correu até lá, ainda o chamando pelo nome, quase rouca.
Lá estava ele, de costas para ela, de punhos fechados, encarando a estátua. Uma aura arroxeada, quase negra o envolvia. Crystal engoliu seco, sentiu-se entorpecida por aquela energia tenebrosa, mais tenebrosos ainda eram os olhos dele, fixados naquela imagem.
— Príncipe Diamante... — sussurrou, aproximando a mão das costas dele, temerosa, passou os dedos pelo tecido da capa, alisando-o, depois segurou-se nele.
— Então finalmente o seu destino se cruzou com o dele... — ele baixou o rosto, a franja cobriu-lhe os olhos, mas não pôde esconder seu sorriso macabro — Por que estou tão surpreso? Quem pode com o destino? — riu. Era um riso incoerente ao momento, confundiu a menina.
— Do que está falando? — encostou a maçã do rosto na capa macia, tentando confortar a ambos. — Que destino?
— Endymion! — bradou — Endymion é o seu destino, Endymion é meu infortúnio!
— O que tem meu avô a ver com a nossa história?
— Não vê? — virou-se tão rápido de frente para ela que a fez perder o equilíbrio e cair sentada sobre a grama. — Aquele homem com quem dançou, aquele para quem seus pais fizeram questão de reservar sua primeira valsa! Olhe os olhos dele, os cabelos, o nariz, a boca, tudo! Aquele maldito sorriso confiante, as rosas vermelhas! — Já trêmulo de tanta raiva, passou as mãos pelo rosto e grunhiu, frustrado por ter perdido a calma que com tanto esforço mantivera por tanto tempo. — Os seus pais... — falou em um tom mais baixo, embora ainda furioso — eles armaram tudo isso, esse baile, esse... esse encontro! Eles armaram tudo isso... sim, sim! Armaram! E sabe para quê? Para que você e esse principezinho se conhecessem! — apontou-a, como se a condenasse — Lá está a sua alma gêmea! — apontou o palácio – Lá está o tal que você esperava por todo esse tempo, não vê? Endymion e Serena, unidos para sempre! — foi ácido, irônico, riu outra vez.
— Eu não sou Serena! — Crystal, depois de tanto ouvir, bradou, impondo-se. — Quantas vezes terei que repetir isso? — levantou-se, trêmula. Os olhos, por tanto conter o choro, pareciam explodir de ardência. — Por que todos insistem em me comparar a ela? Oh, Crystal como vocês são parecidas! Oh, Crystal, vejo minha mãe em você! Oh, Crystal, vejo minha amada em você! Oh, Crystal, você será a guardiã do Cristal de Prata, é seu destino! Você será a rainha de Tóquio de Cristal, é o seu destino! Você será uma Sailor, você é uma princesa, você é a cópia cuspida de sua avó, portanto aja como ela! Ame a quem ela amou, lute como ela lutou, vista-se como ela se vestiu! Seja uma sombra, aliás, não! Não seja, você é uma sombra, é isso o que você é! Você não é nada! — conforme seguia a linha de raciocínio, o tom de voz tornava-se mais alto, não demorou muito e ela já gritava ferozmente enquanto apontava para si mesma, para os próprios olhos, para o próprio cabelo, puxava os fios, desengonçava as marias-chiquinhas, depois apertava o tecido do próprio vestido, afundava o dedo na insígnia de lua na testa, e chorava, como chorava! As lágrimas escorriam pelo queixo e encharcavam-lhe o colo.
Diamante arregalou os olhos e ficou sem reação, deu um passo para trás, o coração parecia ter parado por um segundo. Jamais a imaginou naquele estado de indignação, fora sempre tão pacata, até mesmo submissa.
— Crystal... — foi tudo o que ele disse.
— Estou farta disso, farta! Sabe de uma coisa? Eu gostaria de ter sido a minha avó! Ah sim, eu gostaria! Sabe por quê? Eu jamais teria escolhido Endymion, eu teria escolhido você! — nisso ela desabou de vez, curvou-se para frente e cobriu os olhos com as mãos, acabou por cair sobre os joelhos — E eu sei que... — soluçou — sei que você nunca sentirá por mim o que sentiu por ela, sei que... — soluçou outra vez — Isso não importa! O meu destino é só meu e ninguém poderá me obrigar a amar quem eu não amo, ou a ser quem eu não sou! O meu nome é Crystal Tsukino! — descobriu o rosto e o encarou nos olhos — É, eu sou descendente de Sailor Moon, sou a cara dela, mas e daí? O nome disso é genética, muitos netos se parecem com os avós e não são necessariamente as reencarnações deles! Sou Sailor Love e não Sailor Moon, entendeu? — saiu do tom choroso para o tom de briga.
Mas que força interior, que garra! Diamante quase pôde ver a lua na testa dela resplandecer. Jamais presenciara a personalidade dela gritando tão intensa. Ela se levantou por conta própria, bateu a poeira do vestido branco. Respirou fundo, buscando se acalmar.
— Desculpe... — ela pediu, fugindo dos olhos dele. Então, em poucos segundos voltara ao normal: insegura e passiva. — Desculpe! — encolheu os ombros e voltaria a cobrir os olhos se Diamante não lhe tivesse segurado as mãos.
— Você é bem maior do que eu poderia imaginar. — passou a segurar-lhe o queixo, fazendo com que seus olhos e os dela se reencontrassem.
— Acho que acabei mostrando o meu lado negro para você agora, eu sinto muito, estou muito envergonhada!
— Lado negro? Não, Crystal... Você não possui lado negro, talvez tenha me mostrado o seu lado mais lúcido. — embora ainda magoado, sorriu, pois mais que magoado, estava encantado e em seu íntimo uma nova esperança de superar Endymion floresceu.
— Não fique zangado... Foi apenas uma valsa, eu não pude negar, meus pais ficariam desapontados comigo e teria sido uma falta de educação, e...
— Pare de me dar explicações. — a repreendeu. — Lembra-se do que eu disse? Você é minha. — segurou-a pelos ombros — Acha que a entregaria fácil assim? Agora é tarde, princesa. Eu disse a você, não há mais retorno.
— Não, e eu não quero que haja! — disse convicta.
— Amanhã, nem um dia a mais, nem um dia a menos. Amanhã quero que divulguemos a nossa relação para os seus pais e todos desse palácio, quero que façamos isso na frente daquele tal príncipe, entendeu? — puxou-a para perto, apertou-a contra si num abraço violento, colando o rosto da princesa em seu peito. — Assim, poderá me provar que essa é a sua verdadeira vontade.
— Sim, amanhã!
...
— Sabe, querido, há algo que acho muito estranho... — Rini comentou, confortada nos braços do marido, dançando abraçados no salão a última música lenta da noite.
— O quê? — Helios afrouxou os braços, assim a sua rainha deslizou as mãos aos seus ombros e fitou-o nos olhos.
— Mandei convites para Nemesis e não vejo um Black Moon aqui além de Diamante e Saphiro.
— Quando foi que fez isso? — o regente se mostrou surpreso.
— Um pouco depois de Saphiro ajudar Crystal a destruir todos os cristais...
— Bela atitude de sua parte! — sorriu orgulhoso.
— Acho que foi uma forma de tentar me retratar...
— Não acho tão estranho que não tenham vindo, afinal, todos esses ataques que Tóquio tem sofrido só podem estar sendo causados por alguém de lá.
— Pois é, mas o estranho é não ter obtido sequer uma resposta ofensiva que fosse. Simplesmente fui ignorada.
— Não acho tão surpreendente, fazia tempo que nemesianos não nos davam sinal de vida. — ele falou brando – até que os príncipes surgiram em nossa terra.
— Isso é verdade!
Jamais os reis de Tóquio de Cristal poderiam desconfiar que o seu convite, gravado pela rainha em uma mensagem holográfica, jazia nas mãos de um homem pálido e de cabelos negros. Sagaz, havia aproveitado a enfermidade de Ametista mantendo-a na cama e surrupiado tanto as imagens quanto a voz de Rini do grande receptor. Através de um pequeno aparelho esférico que nas mãos continha, assistia o discurso da soberana, ao esbarrar os olhos naquela figura estonteante os seus orbes alaranjados adquiriam um brilho soturno.
Sei que há quase um século perdemos o contato, em parte por minha culpa que não me dei o trabalho de procurá-los. Não sei o que fazem, ou o que pensam, sei que têm nos atacado. Não é de nosso desejo iniciarmos outra guerra, apreciaremos manter a nossa trégua que perdura por tanto tempo. Em prova de nossas boas intenções, eu, Nova Rainha Serena II, filha de Nova Rainha Serena I, os convido para o baile feito em nome de minha filha Crystal, primeira de seu nome. E, para que não haja cerimônias entre nós, podem me chamar de Rini. Aguardo a presença de vocês ansiosamente, creio que será uma boa surpresa para príncipe Diamante e príncipe Saphiro, nossos hóspedes, trazidos de volta à vida por meios misteriosos.
— Onyx, o que está fazendo aí? — uma voz grave e imponente o tirou de seu transe, fê-lo cobrir a imagem às pressas.
— Ah, é você, Topázio? — pareceu aliviado, no entanto escondera o aparelho esférico por dentro da manga do jaleco. — Eu só estava... bem... — pigarreou e em seguida riu.
— O que quer que esteja aprontando espero que também seja de meu interesse.
— Ah, pode contar que é!
— A nossa senhora o chama. — bufou, mal-humorado como de costume.
— É para já! — estalou os dedos das mãos, primeiro os daquela isenta de luva, a outra, ao ser apertada, reproduzia um estalo metálico, bem diferente de dedos comuns. — “É tarde demais para uma tentativa de trégua, creio que a senhora Ametista o saiba, mas por via das dúvidas, é melhor que ela não veja essa gravação"!
Continua...
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