A Minha Queda Será Por Você
15 Madrugada de ventanias oceânicas
Notas iniciais
— Obsceno... — a mulher sussurrou, sem transmitir emoção alguma. Fechou os olhos e se afastou, mas não foi rápida o suficiente para que Mizumi não a visse.
Enquanto Olho de Águia a amassava nos braços e lhe devorava o pescoço e colo, Mizumi olhava para a porta e sorria satisfeita.
...
Os lábios afoitos e molhados do antigo integrante do Circo da Lua da Morte arrastavam-se pela pele de Mizumi, a língua traçava caminhos do queixo, pescoço, até a clavícula. As mãos trêmulas apertavam a cintura da marinheira e subiam, junto a elas, a camisola curta e transparente ia lentamente. A guerreira marinha notava o quão inexperiente Olho de Águia era pelo jeito nervoso como a tocava e o respirar entrecortado, parecia que o ar lhe fora roubado. Mal começaram e a testa já suava, o homem ainda tremia.
Após um risinho, Mizumi o envolveu com as pernas e com a força delas girou os corpos. Ainda prendendo-o entre elas, sentou-se sobre ele.
“Que bela visão” — Olho de Águia pensou, com um sorriso bobo estampado na face. A alça fina da camisola caíra pelos ombros, Mizumi fez questão de baixar a outra. Os longos cabelos esparramavam-se ao redor do rosto de Águia fazendo-o ter a sensação de que um mar em fúria o engolira. E o perfume, ah sim, parecia um alucinógeno, assim como o batom cor de rosa que cintilava adornando o sorriso indecifrável da sua sereia.
— O que foi, passarinho? Não fará nada? — tocou o dedo indicador no queixo dele e o subiu à boca. — Mostre-me aquele seu lado feroz de hoje à tarde! — o desafiou.
Estava tão extasiado e excitado que mal sabia como agir. Sentiu a genitália enrijecida ser afagada, quase explodiu.
— O que... Está fazendo? — perguntou surpreso, observando a mão de Mizumi tocá-lo sutilmente por cima da calça em uma carícia completamente atrevida. Não esperava que ela fosse direto ao ponto tão cedo. Suspirou ao ser levemente apertado.
Mizumi empinou os quadris para trás e aproximou o rosto ao dele. Deitada sobre o seu corpo, ainda o tocando o seu mais íntimo, subiu e desceu os dedos e depois, segurou-o firmemente entre eles. Arrancou alguns gemidos do rapaz e o viu ruborizar, mais uma vez riu, encostou os dentes à orelha dele e disse:
— Mostre a ave de rapina que é, não me decepcione... — sussurrou, e com isso despertou os instintos de caçador do velho Águia.
Segurou os ombros dela e a empurrou para trás. Mizumi caiu sentada, de pernas arreganhadas, Águia montou em cima e apenas com um puxão, rasgou a camisola de sua desejada Sailor. Ofegante, segurou a cabeça da guerreira e tomou-lhe os lábios, prensou-os com tamanha força que quase os fez sangrar. Ela apreciou muito, e mais ainda quando uma mão feroz apertou-lhe o seio deixando marcas de dedos na pele. Abandonou os lábios dele e foi a sua fez de experimentar a maciez de um pescoço. Sugou a pele e mordeu-a em todo o perímetro, causando arrepios e deixando hematomas. Olho de Águia a segurou pela cintura e induziu que sentasse sobre si, não houve cerimônias, Mizumi não só o fez como mais uma vez envolveu-o com as pernas, e no abraço, propositalmente roçou sua intimidade à dele, que embora vestida, possuía vasta sensibilidade. Não satisfeito só com aquela provocação, Água a segurou pelas duas nádegas e a fez dar uma galopada, induzindo os sexos a se roçarem, e o dela, coberto por um pano tão fino já quase podia ser visto pelos olhos da ave. Ia puxar aquela fina “fita” que a cobria quando Mizumi o impediu.
— É a sua vez agora. — a mulher disse e em seguida, abriu habilidosamente os botões da farda do rapaz, expondo o peito e barriga bem delineados, e também os braços e costas atléticos, como os de um verdadeiro artista circense acrobata devem ser. — Nada mal... — Mizumi mordeu o lábio inferior, desejosa. Passou a mão pelas linhas que dividiam cada músculo e com as unhas deixou a sua marca.
Olho de Águia sorriu mergulhado em vaidade. Perceber que a mulher que o ridicularizara sentiu atração ao olhar seu corpo era um presente para a autoestima. A trouxe para mais perto com a força de apenas uma mão, prensou-a contra si e o esfregar de pele com pele o deixou ainda mais enlouquecido, ia jogá-la na cama, entretanto, antes que tomasse a iniciativa foi ele mesmo quem caiu deitado. Mizumi o jogou contra o colchão e jazeu por cima. Deslizou as mãos pela pele firme do peito, barriga, circulou o umbigo com o indicador, em seguida fez o mesmo trajeto com a língua, até alcançar a barra da calça de Águia. O jovem guardião de Ilusão ergueu o rosto, novamente enrubescido, e contemplou a bela Sailor Ocean apoiar as mãos sobre os lençóis e com os dentes despi-lo. Ao terminar de tirar essa peça, sem demora segurou a roupa íntima dele e também o livrou dela.
— Tira isso! — Olho de Águia exigiu, tomando-a nos braços outra vez e puxando a lingerie que ela vestia.
Jogou-a deitada sobre a cama, arrancou-lhe a fina calcinha e por fim, lá estava ela, completamente nua, debaixo dele, com a brecha entre as pernas úmida e quente à espera. Águia roçou a ponta do membro naquela “porta”, sentiu o líquido translúcido umedecê-lo, fez menção de introduzir tudo de uma vez, afoito, mas Mizumi tencionou as pernas e a entrada, impedindo-o. Antes que ele protestasse, a Sailor pegou-lhe as mãos, as colocou sobre os seios e as fez apertá-los novamente.
— Me toque... — pediu suave como uma marola.
Não havia como negar. Massageou os montes, contornou os mamilos rosados com os dedos e ao notar os suspiros e gemidos sussurrados, partiu para carícias com a língua, novamente degustou do pescoço e foi descendo até reencontrar os relevos perfeitamente redondos e macios. Enquanto experimentava a textura de um com a boca e depois o sugava, o outro apalpava entre os dedos. Enquanto isso, Mizumi arrastava as unhas pelas costas dele e apertava-as com as pontas dos dedos, deslizava as palmas e voltava aos ombros, acariciava a perna dele com a própria e então, decidida a provocá-lo por completo, com uma daquelas mãos ardilosas segurou-lhe o membro pulsante e estimulou-o em movimentos para cima e para baixo. O corpo do homem estremeceu, mas não deixou barato, a mão que segurava o seio de Mizumi desceu até a sua feminilidade, dois dedos contornaram-lhe os grandes lábios molhados, um desavergonhado adentrou o orifício apertado, o outro acariciou o clitóris.
Os gemidos de Sailor Ocean incentivavam Água a continuar e davam-lhe sensação de triunfo. Quando chegou a pensar que a tinha dominado completamente, foi empurrado outra vez e caiu sobre a cama. Bateu levemente a cabeça na cabeceira, todavia, o prazer era tanto que sequer sentiu dor. Mizumi sentou sobre ele novamente e posicionou-se perfeitamente para o encaixe.
— Eu quero assim. — ela disse, enquanto com uma mão segurou mais uma vez o membro rijo e roçou-o na sua intimidade. Fechou os olhos e passou a ponta da língua pelo lábio inferior, provocando o rapaz, como sempre.
Não aguentando mais aquele jogo de sedução e toda aquela insinuação,ele segurou as duas nádegas da marinheira com firmeza e a forçou a descer para finalmente consumarem o ato que ele tanto almejava. Com pouco esforço, conseguiu fazê-la abaixar o suficiente para metade de seu órgão pedinte adentrá-la. Os dois gemeram simultaneamente, Mizumi jogou a cabeça para trás e cerrou os olhos, Olho de Águia desencostou as costas da cabeceira e inclinou o corpo para a frente. Apertou firme uma coxa dela assim como uma das nádegas que ainda estava em sua mão. Em pouco tempo, não precisou mais indicar o que queria, a própria guerreira, também ansiosa por tê-lo em seu interior por completo, começou a remexer-se com ele em seu interior. Firmou o peso do corpo nas pernas, apoiou-se nos ombros do guardião e moveu-se como se estivesse a cavalgar. Águia a beijou novamente, devorou-a, mordiscou-lhe toda a boca e entre suspiros,os dois arfavam, emitiam sons desavergonhados, estavam completamente entregues. A ave expandiu um sorriso vitorioso enquanto a sereia quase gritava e iniciavam-se os espasmos por todos os músculos. Agarrou-se à nuca do homem e com a ajuda dele, aumentou o ritmo da “dança”. Com a rapidez dos movimentos e também o escorrimento do lubrificante natural de Mizumi sobre a genitália masculina, Olho de Águia sentia o ápice aproximando-se. Por uma questão de orgulho, atirou Mizumi à cama e segurou seus pulsos, prendendo-os. Certificou-se de manter-se dentro dela o tempo todo e de lá não saiu. Riu, tomando conta da situação, e enquanto ria, dava continuidade ao ato que quase alcançava o ponto crítico. Introduzia-se completamente dentro dela com força, as estocadas eram frenéticas, vorazes, animalescas. Mizumi sequer tentara se soltar, parecia ainda mais estimulada, todo o corpo sacudia sem controle, os olhos de Águia vidrados nela eram mais um estímulo.
— Vá mais rápido! — Exigiu irracional — Vá, passarinho, dê tudo de si!
— Vou mostrar... Quem é o passarinho! — Não teve piedade, aumentou o ritmo como foi pedido, e também a força. Os pulsos de Mizumi ficaram arroxeados. O atrito violento em seu interior provocava ardência, mas a dor parecia outro incentivo.
Olho de Águia esforçou-se tanto que a cama balançava de acordo com as estocadas, a luz da lua refletia no suor de sua pele. Grunhia, ofegava... Tentou conter o gozo até onde pôde, mas o prazer o consumiu de tal forma que uma quantidade absurda de sêmen foi despejada de uma vez dentro de Mizumi, parte dela escorreu entre a virilha e pelas coxas da marinheira.
— Ainda está zangado? — ela sussurrou, ofegante.
— Você é incrível, Mizumi... — acomodou o corpo sobre o dela e encaixou o queixo no delicado ombro. Respirou fundo e fechou os olhos, preparando-se para descansar.
— Ei, ainda não! — ela reclamou.
—... O quê?
— Eu quero mais! — Mizumi exigiu.
A noite seria longa, Olho de Águia percebeu. Contudo, isso realmente não o incomodava. Sem muita demora, estavam outra vez trocando carícias afoitas, beijos ferozes e por fim, o ato se repetia de novo e de novo ao percorrer da madrugada...
...
— Olhem só para ela, parece um menino! — algumas crianças maldosas, provavelmente filhas de nobres que habitavam aquele lugar cochichavam, mas a pequena dos cabelos bagunçados e olhos prateados não demonstrava se importar com os comentários, passava entre elas como se não as enxergasse.
Apesar de nascida da semente estelar de uma guerreira, não trajava vestidos delicados, na verdade os detestava. Pareciam pesados e apertados, não compreendia como as garotas conseguiam mover-se dentro deles. Gostava de se sentir leve, livre para alongar o corpo, saltar e treinar. Usava sempre uma camisa branca de botões e uma calça cinza desbotada.
Ao longe, geralmente observava a outra garota que nascera na mesma época que ela. Via o seu total oposto – delicadeza e vaidade. Eram gêmeas de nascimento, mas estranhas em atitude, entretanto, a ligação de ambas era forte... Enquanto todas as menininhas a tratavam como um moleque e sentiam-se envergonhadas ao terem de estar por perto de Yumi, aquela outra pequena e bela criatura lançava-lhe olhares curiosos, ainda que nunca tivessem trocado palavras.
— Olá... — certo dia, sem motivo aparente, enquanto a solitária Yumi estava sentada sobre uma das várias sacadas do palácio, a sua “gêmea” finalmente lhe dirigiu a palavra — Eu sou Mizumi. — esboçou um sorriso meigo e sentou-se bem ao lado.
— Por que está falando comigo agora? — perguntou — Por mais que seja a mais bonita entre todas as garotas desse reino, se a virem de papo comigo também a isolarão.
— A mais bonita? Eu discordo... — a menina disse — Você é o mais bonito. Sempre olhei para você e pensei em como seria bom se fossemos namorados. — corou, achando graça — E eu não ligo se os outros deixarão de falar comigo por causa disso.
— Então você é mais uma que não sabe que sou menina? Não é a primeira vez que isso acontece mesmo. — Yumi desde criança possuía o tom frio e imutável, assim como gestos e expressões — Lamento, mas cometeu um engano, não posso ser seu “namorado”.
As pequeninas mãos do oceano a abraçaram levemente de lado, as ondas verde-água derramaram-se por um de seus ombros e aquele rosto perfeitamente esculpido pelo Deus dos mares roçou-se ao dela, nunca antes afagado por outra pessoa.
— Então, você é a mais bonita. — Mizumi corou — E eu ainda gosto e quero ficar com você, só com você!
A face da criaturinha perfeita refletiu nos olhos espelhados de Yumi, e pela primeira vez na vida, a garotinha solitária sentiu algo quente dentro de si, porém, nem mesmo o calor e o despertar de sentimentos positivos a tornaram capaz de sorrir, mas ao menos a fizeram perceber que em seu interior havia uma alma e não só vento.
Yumi não deu resposta alguma à Mizumi, contudo, conforme os dias passavam ambas tornavam-se muito próximas. Sem perceber, já permitia que ao caminharem, Mizumi segurasse a sua mão, e sem muito tardar, entrelaçavam os dedos como se fossem um casal.
No despertar da adolescência, os abraços de Mizumi e singelos toques foram perdendo a inocência, e então, certa vez, enquanto caminhavam como de costume pelos jardins do palácio de cristal, Yumi conheceu outro tipo de calor... As mãos oceânicas envolveram o seu rosto, e lábios salgados tomaram os seus de supetão.
— Mizumi, o que é isso? — Não demonstrou nada além da velha morbidez, mas por dentro queimara como um vulcão.
— O que eu sempre tive vontade de fazer, desde a primeira vez. — a outra disse a sorrir naturalmente. — Eu quero você, Yumi, só você!
Yumi era jovem demais para abstrair tudo o que sentiu com aquele gesto, tampouco para admitir que o apreciara. Por que Mizumi, que frequentemente era cortejada por rapazes se interessaria por ela, que não sabia lidar com gente, que acreditava ter nascido apenas para um propósito: proteger aquela terra e seus reis?
Não muito depois do ocorrido, chegou o tempo de as duas assumirem os poderes que lhe foram cabidos para que um dia pudessem ao lado de Sailor Saturno passar ensinamentos para as pequeninas recém-nascidas de outras sementes, e futuramente, à princesa que estava para nascer. Yumi, durante todos os anos de árduo treinamento para adquirir total controle sobre seu poder, aproveitou para isolar-se como no início da vida fazia,viajou para longe e assim conquistou mais autocontrole do que já possuía, e por fim afastou de si qualquer tipo de instinto que julgasse sujo. Quando já estava formada como guerreira, reencontrou Mizumi. Os anos a deixaram ainda mais bela do que era, e também, sedutora... Rumores chegaram tão rapidamente quanto o nascer do sol: Mizumi se deitara com mais de a metade dos rapazes que habitavam ou circulavam pelos domínios do palácio.
— Mizumi... — Sailor Wind sussurrou o nome de quem despertara as suas lembranças naquela madrugada nebulosa.
Sentia uma amargura profunda nos lábios, como se houvesse comido algo estragado. Em passos largos e leves como ela sempre fora, passou pelos corredores, saiu pela grande porta e embrenhou-se no jardim. Enquanto andava por aqueles caminhos de pedras, às vezes sentia uma das mãos esquentar, como se alguém a segurasse.
“Ridículo. Para que reviver essas memórias remotas? Mizumi não vale isso” — Repreendeu-se em pensamento enquanto seus passos a levavam até a fonte onde a imagem da antiga rainha estava esculpida em cristal, sentou-se à beira e ajeitou as mãos sobre os joelhos. Alguns pingos de água caíam e escorriam pelo corpo esguio, era um fino chuvisco, parecia que os tempos chuvosos ainda não haviam cessado. Ela estava acostumada com o frio, por anos viveu em uma ilha onde parecia que a única estação do ano era a das chuvas e flocos de neve. Orgulhava-se por ter sido a única guerreira a aprender sozinha a lutar, e também a ser objetiva e focar só naquilo que considerava importante, por toda a vida construiu a seu redor uma carapaça de gelo, chegou a crer ser intocável, só que, naquela maldita madrugada, algo de vulnerável nas profundezas de seu âmago queria despertar, e ela só queria matar em si qualquer tipo de sentimento que a afastasse da sensação de ser uma fortaleza.
— Mizumi, sua vadia! — Praguejou e esmurrou a beirada da fonte com uma das mãos, provocou uma leve rachadura no cristal e um hematoma na palma da mão, cuja luva branca que a cobria rasgara levemente. Respirou fundo, passou o olhar por toda a paisagem que a cercava até notar não muito distante um par de sapatos jogados e cobertos de lama. — Mas, o que é isso? — Levantou-se e os pegou, as gotículas que caíam dos céus lentamente fizeram com que lama escoasse. Mesmo encardidos, eram reconhecíveis. — São da princesa. — concluiu — O que fazem aqui?
...
Uma sensação esquisita na barriga e um ruído conhecido despertou Crystal de seu sono. A princesa sentou na cama e passou a mão pelo ventre, suspirou a fazer uma careta e resmungou:
— Estou com fome! — uma pequena gota escorreu pelo canto da testa.
Levantou a se espreguiçar, acendeu as luzes do quarto e deparou-se com próprio reflexo no espelho da penteadeira. Cara amassada, olhos inchados, cabelos arrepiados... Parecia uma morta-viva, pensava. Torceu os lábios fazendo outra careta, bocejou, balançou os ombros como se não importasse e abriu a porta do cômodo devagar, não desejava cruzar com seu príncipe naquele estado, não desejava esbarrar com ninguém, na verdade só pensava em comer uma imensa fatia de bolo de morango, a sobremesa que tanto amava.
Nas pontas dos pés caminhou rapidamente pelos corredores, desceu as escadas quase a engatinhar para não correr o risco de rolar degraus na escuridão madrigal, tentou ao máximo não fazer barulhos, só que ao topar-se de frente com uma pilastra o seu gemido de dor frustrou a sensação de estar sendo discreta.
— Ai, ai! — pôs uma mão sobre o nariz, avermelhado pela pancada — Ai! — não parecia suficiente ter amassado as narinas na parede de cristal, ainda feriu o dedo mindinho do pé na quina pontiaguda de um móvel daquele enorme salão, e para finalizar o desastre, tinha que derrubar um vaso.
“Isso, sua tonta! Acorde o palácio todo!” — reclamou mentalmente, parada como uma estátua, esperando ouvir passos de alguém muito zangado por ter sido acordado. Segundos se passaram e o silêncio permaneceu, aparente sinal de que ninguém a notara. — “Ai, que sorte!” — aliviou-se, e depois de cumprir o trajeto quase derrubando mais objetos e fazendo novos estragos, chegou à estimada cozinha, enorme como tudo era naquele lugar. Inúmeros fogões e fornos para dar conta de alimentar tantos inquilinos, e também grandes geladeiras, uma específica com aquilo o que Crystal tanto queria: Doces!
Os olhos da menina brilharam e um sorriso alargou-se na face, ainda havia uma boa quantidade de bolo, e não só isso, bombons, cupcakes, e todo o tipo de sobremesa bem engordativa. Não havia nada melhor para afastar a tristeza do que aquele paraíso de canduras, aquilo sim era consolo! Completamente esganada, começou a devorar tudo o que seus olhos alcançavam ali dentro. Sem importar-se com etiquetas, pegava fatias de bolo com as mãos e melava-se toda, igual a uma criança.
— Você é uma princesa ou um macaco, afinal? — uma voz masculina a fez parar e quase morrer de susto e de vergonha.
Impulsiva, Crystal fechou as portas da geladeira e acabou por prensar o indicador de uma mão nelas, a dor fez com que a boca se abrisse em um grito e a metade da fatia que nela estava se espatifasse no chão, abriu a porta, aos pulos assoprou o dedo, um dos pés deslizou no pedaço do bolo caído e a menina inevitavelmente foi de encontro ao piso envidraçado. Fechou os olhos e se encolheu como um feto quando a pessoa que a abordou acendeu as luzes.
— Ainda não consigo entender o que meu irmão viu em você! — o rapaz, de olhos arregalados, fez o comentário.
— Você? O que faz aqui? Também veio assaltar a geladeira é? Não pensei que fosse disso também! — Desajeitada, Crystal levantou com um sorriso bobo no rosto ruborizado, todo sujo de glacê.
— Não, eu só acordei com um barulho dos diabos e pensei que o palácio estava vindo abaixo! Você deixou uma bela bagunça ali na sala! — Saphiro arqueou uma sobrancelha e ao mesmo tempo riu discretamente, admitia que as feições envergonhadas da garota mescladas ao glacê, pedaços de morango e chocolate eram minimamente cômicas.
— Ei, ta rindo de mim é? — mesmo amedrontada, suspeitando que poderia ter acordado mais alguém, sentiu-se ofendida — Pois saiba que pelo menos a escada eu não rolei dessa vez! — tapou a boca assim que notou a confissão que fez.
— É, ao menos um progresso! — ele retrucou.
— Ah, quer saber? Estou satisfeita, boa noite para você! — Crystal ia deixar a cozinha de braços cruzados e emburrada, mas seu ombro foi pego.
— Espere, acho que posso aproveitar esse momento para termos uma conversa.
— Conversa, que conversa? — ainda em tom de birra, ela parou e o encarou.
— Eu já soube o que aconteceu entre você e meu irmão... O beijo. — rapidamente, o tom se tornou sério. — Você gosta de meu irmão, princesa?
Crystal baixou o rosto e em um instante ficou cabisbaixa, deu dois soluços e esfregou os olhos, não respondeu, sabia que se abrisse a boca para falar não se conteria e cairia aos prantos. O irmão mais novo do príncipe a fez lembrar-se de como fora tratada de forma áspera pelo homem que estimava.
— Gosta dele mesmo? — Saphiro insistiu.
— Se eu disser que sim, você vai acreditar? — a voz soou tremida — Porque... Ele não acredita! — e então urrou e soluçou como uma menininha, sabia que isso aconteceria, cobriu o rosto com as mãos, completamente constrangida e em meio aos soluços, vomitou desabafos — Ele disse que sou nova de mais para ter certeza de que gosto de alguém! Como ele pode subestimar o que eu sinto? O que fiz para que ele pensasse isso? E ainda disse que não é o homem certo para mim, pode isso? Nos beijamos sim, e foi lindo! Aí ele vem e estraga tudo dizendo que foi uma coincidência! — Enquanto atropelava as palavras com soluços, aumentava o tom de voz e resmungava — Mas que droga, o seu irmão é muito, muito, muito cruel, se quer saber! É sim! Pergunte a ele se gosta de mim, isso sim!
— Acalme-se! — ele ordenou, preocupado que outra pessoa acordasse por causa do barulho e gemidos entristecidos da menina, olhou para os lados, procurou em algumas gavetas até encontrar guardanapos, pegou-os e os ofereceu à ela — Recomponha-se, por favor! — disse, nervoso e de certa forma envergonhado, entretanto, quase riu outra vez a ver o rosto melecado de glacê e lágrimas espessas de Crystal, além do biquinho que ela fazia. — “Gosto é gosto!” — admitiu, se tentasse compreender o que o irmão via naquela criatura acabaria por surtar, não havia lógica alguma.
— Obrigada... — ainda chorosa, ela pegou os lenços, limpou o rosto e sem cerimônias assuou o nariz que escorria. — Acho que quero mais uma fatia de bolo...
— Está louca? Se toda a vez que ficar triste comer do jeito que estava fazendo, acabará se tornando uma lua cheia, literalmente! Aí sim, meu irmão sequer desejará olhá-la!
Os lábios de Crystal estremeceram e quando ela se preparava para soltar o berro novamente, Saphiro imediatamente tentou se retratar.
— Mas ele gosta de você sim, gosta muito! Então pare de chorar e de se entupir de doces, conversarei com ele e vocês irão se entender, não importa o que tenha acontecido, tudo se acertará! Agora, deixe-me levá-la aos seus aposentos para que não cause outro furacão na sala!
A princesa esboçou um brilho de esperança no sorriso e nos olhos ao ouvir o discurso de Saphiro, sendo o irmão mais novo de Diamante deveria estar falando a verdade. Talvez ela não fosse apenas a sombra da avó diante os olhos do príncipe... E quem sabe Diamante pudesse acreditar em seus sentimentos se fossem apontados por Saphiro? Permitiu ser levada até o quarto, agradeceu tanto o rapaz até constrangê-lo, e por fim retornou ao acalento da cama, para descansar o pouco que ainda podia e sonhar com o seu querido. Enquanto isso, o nemesiano mais novo suspirou aliviado a se ver livre da menina, jamais pensara que uma princesa poderia se comportar daquela forma impulsiva e destrambelhada, todavia, em cada gesto da garota percebia a sinceridade, os sentimentos à flor da pele, e apesar de ser precavido, estranhamente não conseguia duvidar de Crystal. Pelo comportamento desesperado, desenfreado e todas aquelas lágrimas, aquela menininha desajeitada estava apaixonada pelo seu irmão, e muito magoada com ele por algum motivo que Saphiro iria descobrir. Do jeito que príncipe Diamante estava alterado da última vez em que conversaram, e também como estava confuso, poderia ter sido áspero com Crystal.
“Disse não ser a pessoa certa para ela... Com certeza estava pensando em Endymion quando fez esse discurso.” — Concluiu — “Será que Endymion existe nessa época?”.
...
Os cabelos e a armadura dourada refletiam nas paredes, piso e teto esculpidos em cristal negro. Os olhos revelavam-se tão preciosos quanto o conjunto. O ranger metálico dos passos soava mais alto à medida em que se aproximava, ouvindo aquele som a princesa enferma suspirou.
— Ele está vindo como pediu, princesa Ametista. — Quartzy, também ouvindo o som, afirmou e permaneceu a segurar a mão da superiora.
— Estou aqui, minha senhora. — Topázio curvou-se diante à enorme cama.
“Cretino...” — Jade fitou-o em ar de desconfiança, ele apenas retribuiu com um sorriso a hostilidade.
— Ah, mestre, espere por nós! — As duas jovenzinhas, que o acompanhavam sempre, entraram destrambelhadas no quarto, uma atropelando a outra pela porta. Aoi e Akai imitaram a reverência, cada uma de um lado do homem.
— Ajudem-me — Ametista fez sinal para que Jade e Quartzy a auxiliassem a ficar sentada, foi atendida de imediato. – Topázio, tenho uma missão para você.
— Em que posso ser útil, sua alteza? — A ironia por trás do tom respeitoso provocava arrepios em Jade, que o queimava com os olhos. Topázio não dava importância, tampouco mudava a postura ou o modo de falar, Ametista também reparava o seu desdém, apenas não perdia tempo incomodando-se com ele.
— Há um alquimista e cientista que conhece tudo sobre tecnologia em Nemesis, um homem chamado Onyx, famoso por estudar meios de ligar-se à Terra sem precisar fazer viagens, e também por dar vida à criaturas que o obedecem. Já ouviu falar sobre ele alguma vez? — a voz da líder soava fraca.
— Onyx?- o cavaleiro se mostrou pensativo — Não, nunca ouvi falar. Acredita mesmo que ainda exista alguém nesse planeta com essas aptidões, majestade?
— Ele vive isolado na região sul, possui um grande laboratório de pesquisas, vive disso. — Ametista afirmou — Quero que vá até lá e diga a ele que a princesa precisa de seus préstimos para pôr um plano em prática.
Todos no quarto mostraram-se surpresos, a pequena soberana não havia comentado nada com ninguém até então, e mesmo Quartzy que era de sua total confiança não fazia ideia do que se passava na cabeça de sua superiora.
— Que plano é esse, minha senhora? — Jade logo questionou, preocupada e ao mesmo tempo curiosa — Acaso esse homem já descobriu um meio de conectar-se com a Terra? Ou seria ele capaz de construir novos óvnis? Finalmente invadiremos aquele planeta e resgataremos os príncipes?
— Não. Nada de invasão por enquanto... — Ametista cortou as perguntas — Não sejam afobados, primeiro quero o homem aqui, assim que conversar e souber mais sobre seus inventos e estudos, revelarei o que penso fazer... Mas, posso adiantar que talvez, nossa conexão com os príncipes não precise ser somente pela terra dos sonhos... — parou de falar pelo cansaço.
— Princesa, aquiete-se, não faça esforço! — Quartzy alarmou-a. Essa história de mandar Topázio ir buscar um desconhecido só a deixava ainda mais aflita. — Por que Jade não acompanha Topázio nessa jornada? — fitou a outra, como se em pensamentos pedisse que fosse vigiá-lo.
— Não. Quero você e Jade comigo. — a mulher franzina falou. — Topázio tem companhia... — fitou as jovenzinhas que o serviam — Não precisa de vocês.
— Nós cuidaremos muito bem de nosso mestre, princesa Ametista! — Aoi, a gêmea doce, se adiantou. Meiga, apoiou o rosto na ombreira esculpida em pedra preciosa de seu amo, foi afagada pela mão do homem e sorriu, satisfeita.
— É sim, mestre Topázio, e eu cuidarei do senhor ainda melhor do que ela! — ciumenta e explosiva, Akai agarrou-se ao outro braço dele.
— Iremos imediatamente cumprir sua ordem, princesa Ametista — o homem, sempre imponente, agarrou as duas subordinadas, cada uma pela cintura, e assim as fez calarem imediatamente.
Abraçado às duas meninas, Topázio deixou o quarto. Assim que fechou as portas, desfez o sorriso. Os olhos da cor do ouro pareceram incendiados.
— Mestre Topázio? — Aoi chamou sua atenção, os olhinhos azuis, levemente púrpuras fitavam-no apreensivos.
— Está tudo bem, minha Aoi. — Apertou-a mais contra si, fez o mesmo com a outra para não começarem a discutir — Vocês são duas preciosidades, minhas meninas! — o elogio provocou sorrisos alegres em ambas, não fizeram perguntas, deixaram-no sentir em paz.
...
Mizumi abriu os olhos quando a luz os cobriu e também por sentir uma leve brisa tocar-lhe a face. Virou o rosto para o lado e viu seu parceiro em sono profundo, fatigado como se tivesse levado uma surra, respirava pesado, roncava bem baixo. A bela dos mares passou as pontas dos dedos pelo rosto dele e sorriu. Lembrou-se de ter dito à Yumi que não seria mal se apaixonar por ele, e no fundo talvez desejasse isso. Mas querer algo não significa conseguir por inteiro.
— Ah, passarinho... — sussurrou e depois suspirou. Ergueu o rosto e percebeu as portas de vidro da sacada entreabertas, pela fresta vinha o vento que balançava as cortinas brancas, transparecidas pela tênue claridade do amanhecer.
“Vento...” — por um instante, os olhos sensuais quase marejaram, os lábios curvos formaram uma reta. Enrolou o corpo no lençol, branco como as cortinas, e andou até a sacada.
— Olá. — disse ao ver quem estava sentada na sacada — Bom dia Yumi. Está aqui há muito tempo? — sorriu — Que sapatos são esses? — notou-os sobre as pernas da guerreira nascida do frio.
— Dejavu... — Yumi sussurrou enquanto olhava além do horizonte.
— O que disse? — Sorridente, a outra se aproximou e sentou ao lado.
— Teve uma noite divertida, Sailor Ocean? — mudou de assunto.
— Ah, isso... Sabe, acho que gosto de Olho de Águia... — olhou em direção ao quarto — Só não sei se durará por muito tempo.
— Logo enjoará, não tenho dúvidas. — Yumi afirmou veemente — Não é de sua natureza pertencer a uma única pessoa.
Quando Mizumi abriu a boca para responder, Sailor Wind saltou ao longe. A guerreira dos mares teve a vista ofuscada pelo sol, apenas enxergou a silhueta fina da companheira de infância contra o astro do dia.
“Justamente por meu coração ter pertencido sempre à mesma pessoa, jamais consegui me apegar à outras...” — pensou no que diria, e concluiu que talvez fosse melhor não ter dito. Yumi sempre fora como o vento, impalpável, inalcançável. Em passos calmos retornou ao quarto, sentou-se ao lado do rapaz que ainda dormia e ficou a olhá-lo. — “Passarinho, até quando poderá preencher o meu vazio, a minha carência?”.
— Sim, sou mesmo uma egoísta... — riu de si mesma.
Continua...
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