Notas iniciais
Quem queria ação ficará feliz com esse capítulo... ou não. Boa leitura, pessoal!

Tome. — Sailor Saturno servia sopa aos refugiados, um a um. O grande caldeirão estava logo no início dos túneis, Olho de Águia encarregava-se de encher as cuias e entregá-las à guerreira.

As pessoas estavam sentadas pelo chão em grandes filas, mães abraçavam seus filhos, os homens conversavam entre si sobre a atual situação do reino e sobre o que poderiam fazer para ajudar, boa parte deles eram grandes admiradores de Hakaru. A angústia pairava como uma assombração nos corações das pessoas assim como o silêncio, até que um fio de luz branca pôde ser visto através de uma pequena fresta no teto de cristais pontiagudos.

O que é isso? — os civis começaram a perguntar em agitação.

Acalmem-se. — Hotaru disse serena — Olho de Águia, por favor, veja o que está acontecendo. Eu fico aqui cuidando de vocês. — esboçou um sorriso acolhedor.

Águia caminhou até a guardiã e tocou-lhe os ombros. Fitou-a nos olhos e notou-lhe o abatimento, conhecia bem o motivo e designou-se não só a averiguar que luz era aquela, mas também a procurar Valkyria e ver se a moça estava bem. Abraçaram-se apertado e, sem demora, o ex-artista circense partiu.

...

A Minha Queda Será por Você
Capítulo 58 – Lágrimas de Sal

...

— Como você se sente? — Onyx estava ajoelhado ao lado do leito de Quartzy.

— Você já perguntou isso um milhão de vezes, eu disse que estou bem. — arqueou uma sobrancelha, desconfiada e deveras constrangida — Só me sinto cansada... E príncipe Saphiro? Alguma notícia?

O cientista suspirou e revirou os olhos, pôs-se de pé, com as mãos enfiadas nos bolsos.

— Darei um jeito de achar seu namorado. — Quartzy corou — Não que eu me importe com o que quer que tenha acontecido com ele, mas porque tenho que cumprir com minha função e reconquistar a confiança do príncipe. — ajeitou os óculos sobre o nariz e soltou um risinho de desdém.

— Onyx, você não muda... — ela se cobriu até o pescoço e virou-se de lado na cama, os olhos pesaram aos poucos e, então, ela adormeceu.

Ele, percebendo-a como estava, se aproveitou para chegar bem perto e poder observá-la com detalhes. Aproximou a mão do rosto ainda um pouco pálido, roçou as pontas dos dedos enluvados na testa da jovenzinha e os lábios dela entreabriram-se, as pálpebras estremeceram. Por impulso, o Black Moon se afastou antes que a acordasse.

— Então, ela conseguiu. — Topázio surgiu das sombras como um fantasma aterrorizante. Onyx deu um pulo e sufocou um gritinho agudo com uma mão sobre a boca.

— Você quer me matar do coração? — sussurrou aos risos.

— Escute — sem rodeios, em dois passos esteve tão próximo do cientista a ponto de surrupiar-lhe o ar, e como isso não era o suficiente para o cavaleiro, suspendeu o gênio pela gola até seus pés desencostarem do piso e balançarem-se aflitos —, conte sobre o que fizemos e veja o que acontecerá com ela. — sibilou ao ouvido pálido e atento — Experimente me trair! Lembre-se de que se não fosse por minha família você jamais teria saído daquele pântano, verme. — e largou-o caído no piso — Ah! — já afastado, parou e girou-se de frente para o outro — Sua mãe manda lembranças, ela não aguentava mais ficar dentro daquele laboratório escuro e pequeno, então tomei a liberdade de levá-la a um local mais apropriado.

— Você não fez isso... — os orbes âmbares arregalaram-se chocados, os lábios tremeram e os dedos metálicos arranharam o chão, ainda que cobertos por luvas — Você não podia tê-la tirado de lá! — levantou-se e correu até a porta antes que Topázio pudesse sair. Cravou as mãos na armadura dourada fazendo o som metálico soar como um sino — Você vai matar a todos nós!

— Ela não é o seu grande projeto, a perfeição? Por que se preocupa tanto? — deu de ombros.

— Onde ela está?!

— Já disse, num lugar seguro onde príncipe Diamante não poderá encontrar. Aproveite que sua mãe gerou mais cristais e cumpra a sua função, arranje um meio de encontrar o irmãozinho desaparecido. Agora, saia da minha frente! — Onyx segurou-o pelos braços — Perdeu a noção do perigo?! — rosnou e empurrou o cientista.

— O príncipe saberá de tudo, eu juro!

— Abra a boca e eu dou um jeito de sumir com o seu precioso quartzo rosa e também com sua hematita de um jeito que você jamais poderá encontrá-las para trazê-las aos cuidados da rainha. — mirou-o por cima da obreira de ouro e da capa castanha — Estarei esperando por isso. — e se foi.

Onyx, tremente, ergueu-se, ajeitou o jaleco, olhou para os lados e para Quartzy, viu-a ainda de olhos fechados, sentiu-se aliviado e correu de lá para fora. Quando ele desapareceu do cômodo, os olhos da bailarina abriram-se atribulados e ela pôs a mão sobre o peito, ouvira tudo em segredo.

...

— Crystal... — Diamante apalpou os braços e as mãos da rainha, no entanto não obteve resposta, ela estava em sono profundo, na face linhas de esgotamento faziam dos olhos levemente caídos, a respiração chiava pesada. Sentiu-lhe a testa quente. — Droid! — chamou o mais próximo e orientou-o a trazer toalha molhada, assim cuidou que a temperatura do corpo da amada se equilibrasse. Não tão mais tarde, Topázio surgiu à porta do quarto ereto como um soldado — O que faz aqui? — perguntou impaciente.

— Príncipe, acho que seria interessante se viesse ao salão real e assistisse uma coisa.

— Não vê que estou ocupado?

— Acredite, é algo importante. O Droid pode cuidar da rainha nesse momento, ela não tem nada grave.

— O que é? — levantou-se.

— Uma batalha.

Diamante, instigado, acompanhou o súdito até o local indicado, lá o holograma transmitia a imagem de duas mulheres imponentes enfrentando-se. Jade girava ao alto a lança consertada por Saphiro, Sailor Ocean se esquivava graciosamente das rajadas negras, porém, mesmo rápida como era, um raio acertou-a de raspão na perna e ela caiu em espasmos no piso áspero e desnivelado.

— Sem a sua amiguinha aquática, seus poderes se reduzem, não é mesmo? — Jade aproximou-se sem pressa enquanto arrastava a lâmina da lança no chão provocando faíscas.

Mizumi riu descontraída como se aquilo não fosse nada. Embora a perna doesse e formigasse ligeiramente pelo choque, a guerreira deu o impulso com as mãos e num salto ficou de pé. Jade avançou como um touro brabo, Mizumi saltou graciosamente para cima de um poste e eis que uma perseguição se deu: a Black Moon também deu largos pulos por cima das altas luminárias da cidade atrás da marinheira marítima. Ousada, Sailor Ocean pulou no topo de um telhado de casa, impulsionou-se e alcançou a varanda de um apartamento. Jade, incansável, seguiu-a irritada.

— Não pode fugir para sempre! — lançou outra rajada de raios, dessa vez intensificada numa bola de energia verde. Mizumi saltou e a varanda onde estava explodiu-se com o ataque nemesiano.

A marinheira cambaleou ao alcançar o chão, a perna ainda estava debilitada, ainda assim, Sailor Ocean correu o mais rápido que pôde, Jade saltou e pairou à sua frente. Próximas como estavam, a navegante teve a chance de segurar a lança da outra amazona e acertar-lhe joelhadas no estômago. A oponente curvou-se, mas não caiu, fechou o punho com toda a força e tentou acertar a face perfeita da mulher mais bela de Tóquio de Cristal, todavia foi aparada pelos dedos perigosamente delicados. Sailor Ocean impulsionou os pés e, com o peso do próprio corpo jogou a si e à adversária no chão. A lança ficou entre as duas, e durante alguns instantes ambas disputaram a arma, a defensora do povo da Lua Branca enrijeceu todos os músculos na tentativa de arrancar o objeto das mãos de Jade, por outro lado, em matéria de força física a nemesiana a vencia, portanto chegou o momento em que um empurrão derrubou a guerreira oceânica e, enfim, a outra se pôs por cima e apontou-lhe o fio da lâmina impetuosa. A boca de Sailor Ocean se abriu e dela uma melodia esplendorosa começou a soar. Os dedos de Jade tremelicaram e seus olhos, mesmo relutantes, aos poucos perderam o brilho, as articulações moveram de forma mecânica.

Siren Spell! — as palavras mágicas ecoaram límpidas e musicadas. A Black Moon fincou a lança no piso e curvou-se lentamente na direção da inimiga.

O cavaleiro dourado que as assistia por holografia endureceu-se de tensão, príncipe Diamante não esteve tão diferente. Uma bolha de água esverdeada as envolveu e ali era como se estivessem submersas num infindável oceano, assim Jade sentia. Mesmo sabendo que seria fatal, notou-se absorvida pelos lábios que cantarolavam as árias marítimas e persistiu em tornar os rostos próximos, a razão já não existia. Então, a pupila de Sailor Ocean afinou-se como a de um réptil e nos cantos de seu rosto escamas surgiram. Jade tentou afastar-se, mas a boca da entidade marinha selou-se à sua e jorrou água salgada por sua goela adentro. A Black Moon se debateu inutilmente. Naquele segundo, Diamante olhou ao lado e percebeu que Topázio já não estava lá, o cavaleiro surgiu como um sol a luzir sobre a bolha d'água e cortou-a com sua espada luminosa e voraz. Jade caiu desacordada, Sailor Ocean rolou para o lado, tentou se levantar mas a perna latejou, teve de rastejar para conseguir se afastar.

Topázio ignorou completamente a presença de Mizumi, abaixou-se ao lado de Jade e primeiro massageou-lhe o peito para fazê-la cuspir líquido. Como não funcionou, tratou de fazer respiração boca a boca até a mulher tossir e golfar toda a água que engolira. Enfim, vendo-a fora de perigo pôde focar-se no alvo, já de pé, apoiado em um poste, completamente vulnerável.

— Esperava mais de uma mulher como você. — ele disse enquanto chegava perto. Sailor Ocean parou de tentar fugir, desencostou-se do suporte em postura elegante. — Não preciso de minha espada para dar um fim a sua vida. — guardou o relâmpago dourado na bainha de pedra preciosa e, finalmente, segurou a mulher pelas ondas esverdeadas da nuca — É uma pena ter que sacrificar uma pérola tão rara... — arrastou os dedos pelos lábios úmidos da guerreira, afastou os fios molhados das bochechas, ela não esboçou medo ou repúdio, fitava-o intensamente nos olhos como quem se despe diante de outra pessoa — Não preciso matá-la tão rápido. — jogou-a violentamente sobre o chão, forçou-a a abrir as pernas — Me mostre seus encantos de sereia, vamos ver se consegue me afogar! — ela gargalhou causando estranhamento nele — Isso é engraçado para você?

— Homens são engraçados. — enredou-o entre as pernas com a firmeza dos tentáculos de uma lula gigante — É tão fácil despedaçá-los... — e os olhos cintilaram dourados mais uma vez — Uma simples mulher se é bela, é uma arma e tanto. — a voz alterou, já não parecia humana. Assim como Jade, Topázio sentiu a perda do controle sobre si próprio e, repentinamente, seu desejo de possuir a marinheira engrandeceu de tal modo que ele teve de experimentar o beijo fatal. A água salgada invadiu-lhe a garganta, mas diferentemente de Jade, o filho de General Aurum era rígido e tinha maior instinto de sobrevivência do que qualquer outro. Fechou o punho e acertou o queixo da guerreira com tamanha força que a nocauteou no ato.

— Vadia! — esbravejou, desembainhou a espada e preparou-se para dilacerar o pescoço de Mizumi. Uma larga pena caiu sobre o busto da guerreira, a seguir uma sombra cobriu a luz do poste sobre os dois. Havia mais alguém lá. Um chicote coberto por espinhos afiados cravou-se no pulso de Topázio e arrancou-lhe sangue além de rachar a bela peça de armadura dourada que o envolvia.

— Solte-a. — Olho de Águia ordenou seriamente.

A dor inesperada fez o Black Moon largar a espada. Com a outra mão, puxou Olho de Águia pelo chicote, o sangue escorreu da palma ao braço e ele não fez uma careta sequer, a raiva cegava Topázio. Pois, o guardião de Elysium não resistiu à puxada, aproveitou-se dela para golpear o adversário com um chute certeiro no rosto. Topázio deslizou sobre o firmamento carregando consigo alguns cacos de cristal, pequenos cortes adornaram o rosto até então perfeito, assim como o hematoma do golpe que levara.

Olho de Águia, ágil, pegou Sailor Ocean nos braços e tirou-a de lá.

— Covarde, vai fugir?! — Topázio provocou, mas Águia não lhe deu ouvidos. — Prontificou-se a segui-los, mas uma espécie de furacão o jogou longe, de encontro com um trecho levantado de rocha.

Sailor Wind desceu do topo de uma construção em ruínas e girou os machados em mãos.

— O que aconteceu aqui? — Jade recuperou a consciência e tentou se erguer, o corpo cambaleou e ela caiu sobre as pernas.

— Agora não é o momento de discutirmos isso! Os outros estão fugindo! — e uma arma giratória o desconcentrou, por muito pouco o machado cristalino não acertou-lhe o pescoço, mas levou alguns fiapos dourados de suas ondas. Sailor Wind nunca gostou de rodeios. — Vá atrás daqueles dois! — Topázio ordenou seco.

Impaciente, a amazona nascida no Abismo Verde forçou as pernas trêmulas a correr enquanto ainda acreditava poder seguir o rastro dos fugitivos. Enquanto isso, Topázio e Sailor Wind primeiro travaram uma batalha de olhares, em seguida, correram um na direção do outro. Para o espanto do Black Moon, as lâminas dos machados, ao tocarem sua espada brilhante provocaram-lhe uma rachadura inflamável. Imediatamente ele se afastou.

— Mas o que é isso?! — perceptivo, chegou à conclusão de que algo nas armas da marinheira assemelhava-se à arma do regente de Tóquio de Cristal e sorriu instigado. — Até que vocês não são tão imbecis quanto parecem. — Rajadas negras envolveram a arma solar, uma forte corrente escura de ar se formou delas e começou a sugar o que estava próximo — Parece que não poderei brincar com você.

Os saltos das botas cinzentas de Sailor Wind se arrastaram pelo piso estilhaçado, cacos de cristal flutuavam e também as gotículas de sangue provindas dos cortes na face do cavaleiro. O ar, a gravidade, tudo mudara, a Lua Negra pulsava na tez.

O olhar prateado manteve-se gélido e inexpressivo, como uma pedra rígida. Os dedos esbeltos apertaram os machados firmemente e ela se deixou levar pela correnteza das trevas. O corpo esguio flutuou, a saia rodada girou enquanto os lisos fios de vento voaram espalhados. As lâminas desceram sobre a escuridão, vorazes, Topázio girou a espada em direção ao abdome reto da guerreira, todavia, ela sempre fez jus a seu elemento protetor – rápida – rodopiou por cima do oponente e o atingiu pelas costas, conseguiu rasgar-lhe a capa e provocar um risco na armadura dourada.

Topázio virou-se, irado, apontou o fio da arma a ela e raios de sol brotaram dali. Yumi teve o vento como anjo da guarda, um tufão a envolveu e dispersou as rajadas de energia negras e douradas. Girando dentro do fenômeno da natureza o qual controlava, investiu ataques contra o filho de general Aurum. Topázio também girava com a espada em mãos, e mais rachaduras surgiam à medida que os machados da Sailor se roçavam na lâmina de luz. Raios, todavia, atingiam Sailor Wind no percurso e rasgavam-lhe a vestimenta. Filetes de sangue borrifavam das costelas, cintura e barriga, e nenhuma expressão de dor se desenhava à face fina.

...

— Acho que conseguimos despistá-la... Mizumi, Mizumi responda! — Olho de Águia sussurrava e apalpava as bochechas da marinheira desacordada.

Hmm... — ela gemeu baixo e virou o rosto, estava apoiada à parede do edifício garagem em que estavam escondidos.

— Droga! — o guardião dos sonhos praguejou preocupado. Tocou o pulso de Sailor Ocean e sentiu por baixo da luva o comunicador. Abaixou o tecido branco e acionou o dispositivo — Alô, alguém na escuta?!

Sailor Ocean?! Não... Olho de Águia, é sua voz? O que está havendo? — Sailor Acqua foi a primeira a responder.

— Marine, precisamos de ajuda. Sofremos um ataque, Sailor Ocean está ferida e Sailor Wind está em apuros!

Não se preocupem! Sailor Nature ainda não retornou no bote, mas sou uma guardiã da água, o mar é meu elemento! — apertou o tridente azulado em mãos — Darei um jeito de chegar até vocês!

— O mar... — Mizumi grunhiu sonâmbula — Preciso do mar... — a concha, seu objeto místico, se materializou em uma das mãos. Então, os longos cílios se descolaram devagar, os olhos esverdeados cintilaram ao terem nas pupilas a imagem de Olho de Águia refletida — Passarinho... — suspirou e abriu um pequeno sorriso.

— Mizumi... — ele, sério, ajeitou a luva dela quando a conferência com Sailor Acqua se desfez.

— Pensei que nunca mais estaríamos juntos... Ainda lembro de nossos momentos juntos com carinho e saudade... — acarinhou o rosto do antigo amante, a mão dele interceptou a dela e, com cuidado, afastou-a — Eu imagino que me repudie... — baixou o olhar.

— Repudiei... Mas isso é passado agora.

— Você ama Hotaru? — encarou-o em ar de profundidade.

— Muito. — respondeu convicto, fitando-a da mesma forma.

Silente, ela sorriu e olhou para o lado. Olho de Águia analisou-a e percebeu lágrimas orvalhadas nos cílios de sereia.

— Você me amou um dia? — quase calou a pergunta, mas precisava saber da boca dela.

— Eu amei verdadeiramente apenas uma pessoa... — fechou os olhos e passou os dedos pelo queixo dolorido — e não fui correspondida.

— Ainda há tempo de você e Sailor Wind se resolverem. — sentou-se ao lado dela e tocou-lhe o ombro fraternalmente.

— Você é diferente dos outros homens que conheci, talvez em outra vida eu tivesse amado você... — apoiou a cabeça no ombro amigo. — apesar de você ser um homem. — os lábios tremeram melancólicos — Homens sempre me viram como um objeto, e eu me aproveitei disso. Com o tempo me habituei e meu julgamento limitou-se a vislumbrar todos os homens do mesmo modo, seres superficiais, desimportantes... agora me sinto tão sozinha e cansada... me sinto tão vazia e sem sentido...

— Não diga besteiras, Sailor Ocean! — afastou as ondas que cobriam parcela do belo semblante — Você é muito mais do que um rostinho bonito, não sei por que se esconde por trás da sua beleza!

— Então você percebe, Passarinho... o quanto sou insegura! — afundou o rosto no peito da túnica e chorou como se fosse uma criança.

— Sem razão de ser. — afagou-lhe a cabeça — Você é muito mais do que pensa. Não precisa tentar seduzir a todos para se sentir querida, quem tiver que amá-la, a amará por quem você é e pelos seus feitos.

— Yumi jamais irá me notar, não importa o que eu faça! — soluçou.

— Eu sei que vocês estão aí! — a voz de Jade ecoou em consonância ao barulho dos saltos de seus calçados a trotar sobre o chão.

— Preciso chegar ao mar, só assim meu ataque mais forte se materializa... — a marinheira mudou de postura, os olhos secaram como se nunca antes lacrimejaram e ela se pôs de pé.

— Certo! — Águia concordou e a seguiu, foram-se ligeiros. Jade os vislumbrou e seguiu.

...

— Sailor Acqua, tome cuidado! – Doryan tocou-lhe os braços antes de ela subir à borda do navio — Temo por você!

— Obrigada, mas não precisa temer príncipe. Graças ao poder da pedra de seu reino, meu tridente está mais forte e agora tenho maior capacidade de lutar contra os integrantes da Lua Negra. — afagou-lhe os ombros — Por favor, cuide do rei Damien enquanto eu estiver ausente, confio em você. — piscou um dos olhos e esboçou um sorriso amigável. Doryan corou. Após despedirem-se, a guardiã das águas apontou o tridente para o mar e girou-o, um redemoinho se formou e fez a nau balançar intensamente. De olhos fechados, Marine sussurrou — Kracken! — e tentáculos azulados emergiram do turbilhão, a criatura abriu sua bocarra e emitiu um som intenso. Doryan caiu sentado e mirou-a ficar de pé sobre o monstro dos oceanos e acenar. Comparou a valentia dela à de Poseidon, o Deus Netuno, desejou que um quadro daquela mulher fosse pintado enquanto a via partir magnânima, a mestra dos sete mares.

— Sailor Acqua! — durante o percurso, Sailor Nature cruzou seu caminho — O que faz aqui?!

— Problemas! Leve Olho de Tigre até o navio e traga Sailor Fire! Sailor Ocean e Sailor Wind precisam de ajuda!

— Certo! Tigrinho, reme mais depressa! — ordenou prontamente.

— Por que só eu tenho que remar?! — reclamou ofegante de tão exaurido por remar sozinho.

...

Sailor Wind por pouco não caiu de joelhos, as pernas curvavam-se pesadas, ela toda estava ensanguentada, ao passo de que a armadura de Topázio já perdera uma ombreira, parte do peitoral e a farda preta por debaixo já estava aos frangalhos, no entanto, a espada ele conseguira salvar por um fio, a arma parecia se regenerar de acordo com a luz. Vez ou outra ele a apontava para um poste e absorvia a luminosidade, no momento atual o breu os abraçara por isso. Viam-se curvas e alguns traços, a tocha que dava lume ao todo era a espada empunhada pelo guerreiro.

Silver Hurricane! — Sailor Wind conjurou o ataque. Topázio desviou por um triz.

Yumi lançou-lhe os machados como se fossem bumerangues, um retornou à mão dela, o outro foi cativo pelo inimigo. A mão forte apertou-o de tal maneira que o partiu em duas partes mesmo Doryan tendo esculpido seu entorno na pedra de Sedna. Em rara vez, os olhos de Sailor Wind arregalaram-se e sua reação provocou um riso nos lábios do rival.

Diamante, assistindo de onde estava, também ficou assustado. Nem mesmo ele conseguiu obter êxito contra a espada de Damien revestida pelo mesmo material. Um pensamento obscuro fê-lo cair sentado sobre o trono. Onyx chegou ao salão um pouco depois e sentiu-se perdido diante dos fatos, contemplou o cavaleiro caminhar até a valente Sailor, notou uma aura enegrecida formar-se como fumaça ao redor do corpo do homem.

— Isso não pode acontecer, se ele a matar, Crystal... — Diamante levantou-se e segurou o brinco, através do objeto entrou em contato com o súdito — Topázio, pare onde está e...

Haunted Hands! — mãos fantasmagóricas abriram mais fendas no chão e agarraram-se ao corpo do bravo d'ouro. Ele lutou para se libertar, entretanto, quanto mais se debatia, mais mãos espectrais surgiam para tentar afogá-lo no mundo do além.

— Quem se atreve?! — O cavaleiro berrou rouco, com movimentos de espada cerrou alguns dos dedos fúnebres, o pé pressionou-se no piso, ele deu um pulo e flutuou diante da nova personalidade que antes estava erguida às suas costas.

— Sou Sailor Phantom, a paranormal, guardiã das almas do submundo — e nesse instante, as luzes que Topázio havia surrupiado o brilho reacenderam-se misteriosamente oscilantes, ruidosas e faiscantes — e estou aqui para reivindicar a sua alma! — desembainhou a espada ceifadora da cintura. — Sailor Wind, as vozes me dizem que Sailor Ocean precisa de você!

Yumi não contestou, ao ouvir o título da guardiã dos mares prontificou-se a encontrá-la de imediato.

— Então será espada contra espada. — Topázio assumiu postura de combate. Valkyria fez o mesmo.

— Que azar o seu de cruzar o meu caminho! — Diversas figuras macabras se formaram ao redor de Sailor Phantom, seres disformes, cujos olhos e bocas vazados eram enormes, lamuriavam graves e em vibratto os sons escapulidos do purgatório.

— Não tenho medo de fantasmas. — as rajadas negras se formaram em torno de sua espada mais uma vez.

A imagem holográfica, desde que Sailor Phantom surgira, começou a ter interferências. Aos poucos a transmissão modificou de lugar, agora Diamante via a perseguição agonizante: Jade era a predadora, Sailor Ocean e Olho de Águia as presas.

— Príncipe, — um Droid interrompeu — a rainha precisa de sua atenção.

Ele passou as mãos pelo rosto que, pelo nervosismo, transpirava sutilmente. Jogou os cabelos para trás sem muito jeito, as mechas esparramaram-se arrepiadas para os lados e em passos afoitos ele ia...

— Príncipe, o que eu faço?! — Onyx, tão nervoso quanto, indagou.

— Você é o gênio. Se os nossos precisarem de ajuda, não pense duas vezes, dê um jeito! — e se foi.

...

— Passarinho! — Mizumi exclamou quando Jade aproveitou-se que o chicote espinhoso do rapaz enrolara-se na lâmina de sua lança e partiu-o em pedaços. O guardião de Elysium viu-se sem ter o que fazer, pois era a sua arma mais forte. — Siren Spell! — Sailor Ocean apelou.

— Não vou cair nessa de novo! — Jade formou uma esfera verde de energia no ápice da lança e direcionou-a a navegante marítima. Olho de Águia a puxou antes que fosse atingida.

— Não estamos próximos o suficiente do mar! — Sailor Ocean reclamou apavorada.

— Mas falta pouco! — ele abriu os braços, penas materializaram-se e logo ele tinha asas abertas — Ei, você! — provocou a nemesiana — Quero ver me alcançar! — fitou Mizumi e gesticulou para que subisse em suas costas. Ele voaria mais rápido se fosse sozinho, mas as circunstâncias obrigavam-no a ter uma passageira.

Pft! — Acompanhou-os com facilidade, atirando-lhes raios.

Olho de Águia esquivou-se da maioria, porém, ao chegar à areia da praia uma das rajadas acertou-lhe em cheio na asa direita, as penas desapareceram e seu braço mostrou-se com um corte profundo até a altura do peito. Ele e Mizumi entraram em queda livre, rolaram pela areia, cada um para um lado. A senshi esbarrou o rosto onde a água se findava em pequena onda. O rosto ardeu por conta de leves arranhões provocados pelo atrito. O olho verde entrou em contado com o líquido salobro, ela sorriu.

— Fim de linha. — Os saltos de Jade afundavam na areia enquanto ela andava, e mesmo assim a amazona não perdia o equilíbrio.

— Tem razão... — Mizumi sentou-se, contemplou Olho de Águia desmaiado, coberto de areia, e depois vislumbrou o mar agitado e escuro, refletindo a luz das estrelas madrigais. A concha perolada jazia nas mãos delicadas, a guerreira fechou os olhos respirou fundo e fez o chamado: — Caríbdis! — A enorme serpente azulada brotou do fundo dos mares esparramando água por toda parte, uma chuva de lágrimas salgadas.

Novamente, o forte cheiro de maresia expelido pela criatura fez as narinas de Jade arderem, o ser mitológico atirou-se contra ela em fúria, a amazona saltou por cima dele e jogou-se contra Sailor Ocean. As duas engalfinharam-se pela areia, Mizumi empurrou Jade com os pés fincados em seu diafragma. Caríbdis abriu a bocarra cheia de presas e atirou-se de novo na direção da Black Moon, não conseguiu mordê-la, mas dessa vez, antes que fugisse, Jade se viu enrolada pelo gigante. Os ossos doeram, apertados, ela gritou agonizante. Repentinamente, Onyx surgiu nos ares surpreendendo-a, se houvesse ar para se exprimir, ela perguntaria o que ele fazia ali. Não poderia negar o alivio ao vê-lo com pedaços afiados de cristal negro entre os dedos, como se fossem adagas. O cientista as lançou no enorme animal e fê-lo estremecer, o sangue da fera era da cor do petróleo. Certamente Onyx acertara-lhe uma artéria importante.

— Caríbdis! — Sailor Ocean correu até seu guardião e abraçou-se a sua enorme cara nada assustadora para ela. Enquanto isso, o abraço fatal ao redor de Jade se desfazia.

— Você me deve uma! — Onyx disse antes de retornar ao palácio através do teletransporte. As lâminas negras, pouco a pouco, transformaram-se em medusas famintas. As criações do gênio insano alimentaram-se da serpente de dentro para fora.

— Eu sinto muito... — lamentosa, Sailor Ocean falou, e em segundos seu protetor explodiu em diversos pedaços, espalhando a sua gosma escura por todo o perímetro. Mizumi caiu, assim como Jade e os Droids de Onyx, todos melecados e grudentos.

— Agora eu quero ver como você vai se virar. — Jade falou enquanto, enojada, limpava-se do muco. As medusas levantaram-se e desfilaram até Sailor Ocean.

— Eu cuido delas. — a voz de Sailor Wind soou próxima. — Silver Hurricane! — o ataque, por si só, dizimou duas das criaturas.

— Wind... — Mizumi sorriu aliviada e fez o que deveria, atacou Jade com as próprias mãos, conteve-lhe a lança, girou-se com ela da areia à água e esforçou-se para derrubá-la, mas a guerreira era difícil, os pés estavam fincados na areia de modo que seu corpo dificilmente seria derrubado.

...

— Crystal, o que está havendo com você?! — Diamante não conseguira equilibrar a temperatura dela, a Lua crescente cintilava intensa em diversas cores, assim como o cristal dentro do broche dela. — O esforço foi demais! — abraçou-a intenso — Crystal, pode me ouvir? Acorde! Você não pode se deixar ficar presa no plano dos sonhos outra vez, está me ouvindo?!

— Príncipe, o que está havendo? — Quartzy surgiu à porta do quarto.

— Você não deveria estar descansando? — perguntou nervoso.

— Eu estou bem. O que há com a rainha? — aproximou-se da cama, tocou o pulso esquerdo de Crystal — A pulsação está descompassada. — comentou, depois tocou-lhe o pescoço e peito — O coração dela... já vi algo assim antes. — lembrou-se de Ametista — O que ela fez, majestade?

— Ela trouxe você de volta à vida.

—... O quê? — o rosto de Quartzy perdeu a cor no ato. A frase de Diamante foi uma espécie de acionamento de memória, repentinamente a imagem dos olhos cor de grafite tornou-se nítida assim como a face pálida, os longos cabelos negros e os lábios largos, num sorriso rasgado, e a lua negra na testa. A jovenzinha sentou-se estupefata e sem ar.

— Você está bem agora, está a salvo. Mas Crystal, o corpo dela não é resistente o suficiente para lidar com tamanho poder! — ele também estava pálido. — Você entende disso, cuidou de Ametista a vida toda. Quartzy, não deixe que nada aconteça com ela... — não soou como uma ordem, mas como uma súplica desesperada.

— Príncipe, farei tudo o que estiver em meu alcance, prepararei uma poção agora mesmo!

— Saphiro está desaparecido, Crystal desacordada, e enquanto estamos aqui duas lutas estão sendo travadas lá fora justo no momento em que eu gostaria que isso tudo parasse! — desabafou — Mas, talvez seja tarde para começarmos do zero, talvez eu e ela estejamos alimentando o fantasma de um sonho... — franziu o cenho.

— Príncipe, vai dar tudo certo. — Quartzy sorriu — Confie!

...

Ghost Dance! — a fumaça púrpura desnorteou Topázio, ele moveu os braços tentando espantá-la e mais lamúrias entraram por seus ouvidos, alguns dos postes curvaram-se como se estivessem derretendo. As almas tentavam puxá-lo para dentro das mais recentes rachaduras, e o chão daquela área assemelhava-se ao piso rachado de biomas áridos, mas lapidados em cristal. Ele tropeçou e sua perna afundou-se em uma das fendas.

— Que maravilha! — bufou irônico, antes que fosse puxado agarrou-se ao tornozelo de Sailor Phantom. A marinheira desceu a espada ceifadora à altura do pescoço dele, Topázio defendeu-se com a sua própria espada, os raios que a envolviam tomaram conta da espada de Valkyria e a guardiã brilhou trêmula, os espasmos se deram graças aos choques que ela levou. A espada ceifadora caiu para um lado, Sailor Phantom para o outro, desacordada.

...

— Valkyria! — Sailor Saturno e Hakaru sentiram-se estranhos ao mesmo tempo, e eles sequer dividiam o mesmo ambiente naquele segundo.

...

Quando Topázio estava pronto para desferir o golpe derradeiro, uma voz conhecida ecoou em seu ouvido.

Traga-a para mim.

Os olhos dourados perderam o brilho, como uma marionete, o corpo obedeceu, ele catou a espada da marinheira, embainhou-a na cintura dela e carregou-a no colo em direção à escuridão.

...

Sailor Ocean enfim conseguira afundar Jade na água de sal, conteve-a submersa à segurá-la pelo pescoço. Ao mesmo tempo, Sailor Wind dava cabo do restante de Medusas. Demorou para que Jade parasse de se mexer debaixo d'água. Finalmente, Mizumi, exausta, viu-se livre para se aproximar de sua adorada ensanguentada e também esgotada.

— Sailor Wind... — lenta, arrastou os pés pela areia. Yumi estava lá, não sorria, não ralhava, apenas ofegava.

— Você está bem? — pela primeira vez em anos, a voz da guardiã dos ventos demonstrou qualquer tipo de emoção, por mais sutil que o fosse.

Sailor Ocean sorriu, entreabriu os lábios para dizer algo, mas um ataque súbito roubou-lhe a voz. A lança negra atravessou-lhe o broche, partindo-o e transformando-o em poeira brilhosa. Jade fingiu-se de inconsciente e aproveitou o momento de distração da guerreira para rastejar por baixo d'água, catar a lança que se enterrara no fundo, e atacá-la pelas costas.

As moedas de prata tilintaram dilatadas, o machado remanescente quase escapou pelos dedos da guerreira. Sangue escorreu pelos cantos dos lábios de Mizumi e avermelhou a boca rósea. Ela tentou falar, mas uma goma de sangue escapuliu da boca e seu corpo curvou para frente. As mãos agarraram-se à lâmina inteira que a atravessou, o uniforme de marinheira já não existia, a senshi estava coberta por fios de pérola.

...

— Crystal! — Diamante exclamou ao ver o corpo da rainha arquear-se sobre a cama e os olhos revirarem, ela choramingou mesmo desacordada e a luz ebúrnea a envolveu.

...

Jade puxou a lança de volta com tudo e o corpo de Mizumi pendeu adiante. Olho de Águia despertou e assistiu à cena.

— Não... — ele balbuciou.

Sailor Wind cativou Sailor Ocean durante a queda e caiu de joelhos com ela nos braços

— Yu...mi! — entre tremeliques ela tentou falar, assim como tentou alcançar o rosto da mulher a quem amava com uma das mãos.

— Não se esforce! — Sailor Wind a repreendeu e ao mesmo tempo conteve-lhe a mão e entrelaçou os dedos.

— Eu te amo... — sussurrou, os olhos insistiam em se fechar — Eu não queria que acabasse assim... — o sangue que escorria incessantemente do peito e das costas encharcou as pernas da guerreira dos ventos e também a areia debaixo delas. Jade se aproximava, mas as duas guerreiras não lhe davam importância.

Sailor Wind mordeu o lábio inferior e respirou fundo, depois, como se fosse um ato de coragem, colou o corpo de Mizumi ao seu num abraço desesperado e sussurrou:

— Você não pode me deixar... — afundou o nariz nas ondas verde-água — Eu também te amo, sempre amei e tive medo disso.

— Isso era tudo o que eu precisava ouvir. — o sorriso se alargou em meio a mais golfadas rubras violentas, até que os olhos fecharam-se e as articulações dela pararam de se mover.

Os olhos de Olho de Águia inundaram-se de lágrimas. As mãos do guardião cravaram-se na areia e ele grunhiu de dor e tristeza.

— Mizumi? Mizumi! — Wind urrou como um lobo uivante e Jade estava lá, de pé, pronta para ceifar a sua vida como fizera com a outra guerreira. A marinheira dos ventos baixou a cabeça como se não se importasse e esperou que a lâmina descesse como uma foice.

Drowning Waterfalls! — das águas Sailor Acqua surgiu e trouxe consigo a fúria dos mares em seu tridente. Jade foi abatida de supetão e caiu com o rosto afundado na areia. A lança, por sua vez, fincou-se perto de Sailor Wind.

— Sailor Ocean! — Marine ajoelhou-se diante da guerreira, ela já não respirava, além disso, uma luz a cobria, aos poucos sua pele transparecia, toda a sua existência acabou por transformar-se em espuma marinha e depois flutuar aos ventos como bolhas de sabão. Não só Águia derramava-se em pranto, Sailor Acqua não conseguiu controlar as lágrimas.

Yumi, de cabeça baixa, tinha os olhos cobertos pelos fios de prata. Depois de Mizumi ter desaparecido a sua semente estelar remanesceu por poucos segundos e brilhou como um astro único e inigualável. As mãos de brisa cativaram-na próxima ao coração e a mantiveram lá o máximo de tempo possível... todavia, mesmo em Tóquio de Cristal, nem tudo pode durar para sempre e a semente voou aos céus, perdeu-se na imensidão do desconhecido. Sailor Wind permaneceu como se ainda segurasse a senshi oceânica nos braços. Nada restara.

Nos seus respectivos lugares, as outras guerreiras sentiram que uma luz se perdera, todas perderam o equilíbrio por instantes e sentiram dor em seus peitos, a não ser Valkyria, que estava desacordada e perdida na escuridão.

— Wind, eu sinto muito... — a voz de Sailor Acqua soou embargada, os ombros sacudiam-se assim como ela toda — Se eu tivesse chegado mais cedo!

Yumi não respondeu e se levantou em silêncio, ainda de cabeça baixa e com os cabelos escondendo-lhe as expressões. O machado, dessa vez, caiu de sua mão e cravou-se na areia.

— Wind... o que vai fazer? — Marine, sentada sob a areia elevou o olhar a ela e questionou.

Mais uma vez, nada de resposta. Jade, adiante, tossiu e cuspiu uma dose de areia. Sailor Wind fitou-a, depois fitou a lança que jazia ao seu lado e pegou-a.

— Sailor Wind, o que pretende?! — Olho de Águia se levantou cambaleante e foi à frente dela — Não faça as coisas de cabeça quente! — a navegante enfiou os dedos na ferida que subia do peito ao braço dele, fazendo-o cair de dor.

— Yumi! — Sailor Acqua correu até ela enquanto caminhava na direção de Jade.

Silver Hurricane! — lançou o vento cortante na senshi aquática e mergulhou-a nas águas da praia.

Jade começava a se erguer, mas não teve tempo de terminar. Seus cabelos foram puxados por uma mão impetuosa e sua cabeça se inclinou para trás fazendo o pescoço esticar. Após, ela reconheceu a lâmina preta roçando-se em seu pescoço, era a sua própria arma... e foi a última coisa que viu. Sailor Wind rasgou-lhe a pele morena sem piedade, mas não o suficiente para decepar-lhe a cabeça. Mais líquido vermelho foi derramado, dessa vez o líquido vital de uma Black Moon.

Não era suficiente executá-la, Yumi a virou de frente e enquanto ela ainda agonizava, a lança desceu em seu peito diversas vezes. Sailor Wind sentou-se sobre a oponente, e de forma nada honrada mutilou-a. Cada vez que a lança descia, um grito rasgava a garganta da mulher em luto, e ela teria mantido o ritual por horas a fio se Sailor Acqua não surgisse por suas costas e acertasse a sua cabeça com o cabo do seu próprio machado, desacordando-a. Marine cobriu a boca com as mãos ao observar o estado do corpo, respirou fundo, atentou-se à companheira desacordada e orientou Olho de Águia:

— Precisamos levá-la daqui... precisamos notificar o rei sobre... — a garganta fechou-se de melancolia, ela enxugou os olhos, puxou Sailor Wind pelos braços até o mar, onde ela chamaria pela criatura mística dos mais diversos tentáculos, mas antes disso um bote com duas guerreiras chegou. — Sailor Fire, Sailor Nature...

— Marine, o que aconteceu?! — Sailor Nature foi a primeira a descer, logo atrás Sailor Fire surgiu temerosa.

Sailor Acqua gemeu chorosa e abraçou as duas amigas. Olho de Águia, também afogado em pranto, chegou perto e todos juntos compartilharam o sofrimento da perda.

...

— Duas mortes? — Diamante passou a mão pela face empalidecida pela notícia.

— Perdemos Jade, e os guerreiros da Lua Branca perderam Sailor Ocean. — Onyx contava quando Topázio surgiu e estancou com a notícia.

— Onde estão os corpos? — havia esperança... não! Diamante lembrou-se do estado de Crystal depois de trazer Quartzy de volta — Não, esqueça! Não podemos fazer nada! — apoiou-se no trono, um mal estar apoderou-se dele.

— O corpo de Jade quase não existe, príncipe, e o de Sailor Ocean se desfez em espuma. — Onyx contou.

— Eu trato do corpo de Jade. — Topázio, grave, proferiu.

— Você?! Ela o detestava! — Diamante ralhou.

— Príncipe, por favor, permita-o. — Onyx deu um passo a frente e ele não ria.

— Príncipe Diamante, — Quartzy surgiu no salão — a rainha está acordando.

Ele não quis discutir, preferiu deixar que Topázio fizesse o que tivesse que ser feito. Onyx e Quartzy se entreolharam, ambos sérios, mas à bailarina o traço da angústia triste adicionou-se quando ela recebeu as novas.

...

Topázio arrastou os pés pela areia da praia até parar diante do restante do corpo de Jade. Durante alguns segundos ele a contemplou. Os olhos de mel abertos e selvagens davam a impressão de que ela ainda estava viva. O cavaleiro ajoelhou-se diante ela, fincou a mão nos flocos esbranquiçados, respirou profundamente e sacou a espada para cometer um ato, no mínimo, bizarro: terminou de cerrar a cabeça da amazona do corpo, depois levantou-se com ela em mãos e saiu dali.

...

— Diamante? — os orbes azuis abriram-se e ela sentou zonza, recostada à cabeceira da cama. Inclinou a cabeça para trás e respirou pesadamente, pousou a mão ao peito, onde estava o broche — Estou me sentindo esquisita... meu coração dói. — o príncipe massageou-lhe os braços.

— Você conseguiu trazer Quartzy de volta. – ele contou sério.

— Consegui?! — um sorriso alargou-se, os olhos adquiriram o brilho da alegria — Eu não acredito! — abraçou-o — Estou tão feliz! Onde ela está? — Abraçou-o — Preciso vê-la!

— Isso pode esperar. — cortou-a e segurou-lhe o rosto.

— Por que está tão sério? Você não deveria estar feliz por isso também?

— Você adoeceu pelo esforço que fez. — explicou.

— Mas agora estou bem! Olhe para mim! — disse risonha a se apontar.

— Você não pode se arriscar assim outra vez. — conteve-a.

— Diamante, o que está acontecendo? — o riso se desfez.

Depois de um longo suspiro o Príncipe Branco contou sobre as duas tragédias. A cabeça de Crystal meneou negativamente e os olhos expandiram-se desacreditados. O coração bateu violentamente e ela se sobressaltou, saltou da cama e correu pelos corredores do palácio, as lágrimas voaram junto com os cabelos longos e densos e a saia fina da camisola. Diamante a seguiu até o salão onde ela tropeçou no piso liso e caiu de joelhos, com as mãos espalmadas no cristal, as lágrimas derramaram-se formando pequenas poças.

— Eu posso trazê-las de volta! — gritava insistentemente.

— Não há corpos para isso! — Diamante, ao seu lado, cativou-a na tentativa de contê-la — Não há almas, elas se foram!

— Pare essa guerra! O que você está esperando?! Quantos mais terão que morrer para você entender que isso tem que parar?! — encarou-o feroz, num misto de frustração e melancolia.

Ele engoliu seco e soltou-a. Quartzy ofereceu apoio, Crystal recusou e se levantou sozinha.

— Eu quero sair daqui agora! — disse firme.

— Você não sairá. — Ele também se levantou e peitou-a, não suportava ser desafiado.

— Se não me deixar ir, eu darei o meu jeito! Não pode me prender para sempre! — deu um passo a frente, provocativa.

A Lua Negra abriu-se em Olho Dourado na testa do príncipe, os olhos de Crystal oscilaram entre turvos e luminosos, ela quase perdeu a consciência e caiu nos braços dele, no entanto, pela primeira vez, a Lua Crescente em sua testa também cintilou e ela retomou o controle do corpo rapidamente, como Sailor Moon certa vez fizera. Os oceanos não se acalmaram, as mãos dela se fecharam e a aura esbranquiçada fortaleceu.

— Liberte-me! — exigiu.

Todos na sala ficaram surpresos, mas ninguém se sentiu mais coagido do que Diamante.

— Nunca. — ele se colou a ela, segurando-a pela cintura — Se meu poder não funciona mais em você, então... — ele a segurou pelo braço — terá que ser de outro jeito.

— Me larga! — ela protestava enquanto ele a puxava sem pena. — Está me machucando!

Diamante a arrastou até o quarto, atirou-a sobre a cama, ela se levantou, ele a empurrou lá novamente e foi até à porta, antes de sair, explicou:

— Entenda que isso é para o seu bem. — e trancou-a lá. Não muito depois Onyx grudou na entrada uma espécie de dispositivo semelhante ao que estava na entrada de sua prisão no laboratório.

— Me deixe sair! — ela gritava insistentemente enquanto batia à porta com força — Me tire daqui! — e persistente como era, ficou lá por horas, até a garganta doer e ela encostar as costas à porta, escorrer até o chão, onde ficou sentada, lembrando-se dos momentos alegres e mesmo dos difíceis que compartilhou com Mizumi. — Sailor Ocean... — Crystal cobriu os olhos com as mãos — Se eu estivesse com vocês, isso nunca teria acontecido!

...

— Isso não pode ficar assim! — Damien esmurrou uma parede da cabine — Eles precisam pagar!

— Livre-se do irmão dele! — Doryan sugeriu no calor da ira.

— Não é assim que as coisas se resolvem, majestades! E Sailor Ocean não ficaria contente com isso! — Sailor Acqua mesmo triste não perdia a razão.

— Marine está certa! — Olho de Peixe enxugou os olhos que já estavam inchados de tanto debulharem-se em pranto — O plano precisa ser mantido!

— Sim, — Damien concordou — mas estou cansado de esperar, não quero sofrer mais nenhuma perda! Precisamos de Crystal conosco nessa guerra! Amanhã mesmo, ao pôr do sol, faremos a proposta de troca!

— Majestade, se me permite opinar, não acho que Sailor Wind esteja em condições de propor o acordo. — Olho de Águia, abatido, comentou.

— Concordo. — Damien ponderou — Sailor Acqua, posso contar com você?

— Como quiser, majestade – ela ajoelhou-se em reverência, Doryan fixou o olhar na imagem pomposa da guerreira.

Sailor Fire observou tudo em silêncio e quando a conferência acabou ela correu para ver como Saphiro estava. Abraçou-o forte, chorosa e preocupada.

— Eu sinto muito, Hina... — tentou consolá-la.

— Tenho medo por você... — ela confessou e beijou-o carinhosamente — Eu queria ir com Marine, para ter certeza de que você vai ficar bem.

— Está chegando o momento de nos separarmos... — Saphiro suspirou e encostou a cabeça na dela.

— Não conseguirei lutar contra você, Saphiro, se isso tiver que acontecer, por favor, leve minha vida com você. — abraçou-o forte.

— Se tivermos que morrer, morreremos juntos. — colou a testa à dela.

— Sim...

...

Quando todos dormiam, Yumi finalmente se levantou, saiu da cabine e caminhou até à proa da nave. Naquela madrugada ela não estava vestida como guerreira, uma fina camisola clara adornava suas curvas e desenhava-as perfeitamente. Abaixo dos olhos cinzentos, olheiras arroxeadas. Os pés seguiram-se, um atrás do outro, até o início do transporte onde ela se apoiou e encontrou-se com o próprio reflexo na água noturna, o broche pendurado ao pescoço brilhava. Uma luz esverdeada surgiu das águas, Sailor Wind, intrigada, observou alguns orbes bailarem no ar até pararem à sua frente.

Guarde isso com você, como uma lembrança minha... — a voz conhecida ressoou como se fosse um sonho e a concha lapidada em madrepérola se materializou aos olhos dela — Não se esqueça de mim, Yumi.

— Não esquecerei, eu prometo. — abraçou o objeto rente ao peito — No fim das contas, eu nunca quis estar sozinha Mizumi...

Você não está...

— E você também nunca esteve.

Perdendo emoção
Encontrando devoção
Deveria eu me vestir de branco
E procurar o mar
Como sempre desejei fazer?

Aquela com as ondas,
Alma Oceânica...

Continua...

Notas finais
Trecho de música no final: Ocean Soul - Nightwish (álbum Century Child) Prepararam os lenços como aconselhei? Não sei vocês, mas eu precisei de uns lencinhos extra para escrever esse capítulo. Quando tracei o enredo da fanfic na minha cabeça os destinos de Jade e Sailor Ocean já estavam modelados, ou seja, desde o início a morte delas estava "anunciada", e talvez não sejam as últimas. Sabem, sou muito fã de Game of Thrones, uma coisa que admiro num enredo é o fato de qualquer personagem poder morrer a qualquer momento... mas, contudo, entretanto, porém... isso aqui é Sailor Moon, né? Então não vamos nos desesperar. Pode ter um final trágico? SIM! Pode ter um final lindamente feliz, tipo Conto de Fadas? SIM! Deixo a cargo de vocês imaginar como será, daqui a pouco o desfecho chega (assim espero). Kissuuuus e até o próximo!