A Minha Queda Será Por Você
51 Inocência
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 51 — Inocência
A voz ressoando através da espessa porta era conhecida. Onyx sorriu em deleite. Diamante começara a transmitir a holografia de Rini à Crystal.
— E agora, rainhazinha? — murmurou prazeroso enquanto ajeitava os óculos sobre os orbes âmbar — Como será que vai reagir diante do comportamento monstruoso de sua mãe querida? — um risinho agudo foi contido pela mão enluvada, e o cientista permaneceria a fazer fuxico se o som de passos pesados não o tivessem alarmado. Virou lentamente o rosto, recobrou a postura, e deu-se com uma menina desorientada, os cabelos azuis arrepiados davam-lhe um ar de cãozinho abandonado. O espartilho com rasgos laterais exibia a cintura perfeita e alva, livre de manchas. A pele recuperara o tom de natureza, não se via mais o negrume de suas veias, no entanto, não significava que o interior de Aoi deixara de ser consumido pelo impetuoso Cristal Negro. O riso de Onyx se fechou, os olhos sempre irônicos adquiriram misterioso tom. A menina, cambaleante, aproximou-se. Os dedos das mãos tremiam. — Imagino que busque por algumas respostas, não? — fitou-a de cima a baixo, depois afagou-lhe o queixo marcado por lágrimas. Aoi ainda soluçava. — Se você soubesse o quão incrível é, não estaria tão triste. — aproximou a boca do ouvido eriçado e sussurrou a suspirar profundamente. Olhou para um lado, depois para outro, enfim caminhou para longe da porta da saleta. Sem ouvir os passos da Lolita, parou e fitou-a de soslaio. — Siga-me. — ordenou. Quieta, Aoi acatou.
...
— Não vai cuidar da sua escrava? — Jade perguntou em tom de deboche! — Argh! — gemeu quando Quartzy jogou em seu braço o raio de uma poção ardida. Encarou-a rabugenta e recebeu um sorriso meigo como resposta, era assim que a curandeira a desarmava. — E então, Topázio? — falou mais alto de modo que não houvesse a desculpa “não te ouvi daqui”. O cavaleiro sentara-se em um divã no canto do quarto. Os três estavam em seus aposentos, foi como o Militar orientou-as. Jade insistiu: — Não deveria estar consolando Aoi? — havia indignação nas palavras da guerreira.
— Aoi não precisa de consolação. — seco, respondeu enquanto olhava para o além.
— Ela me pareceu bem triste... — Quartzy comentou a limpar os três machucados no braço de Jade.
— Aoi não sabe o que é tristeza. — ainda indiferente, explicou — Ela pensa que sabe.
— Como assim?! — Jade se exaltou — Eu a vi se debulhar em lágrimas quando a irmã morreu! Como você pode ser tão frio?! Essa menina te adora! Você é nojento, Topázio!
— Não me admira você ter sido escrava por tanto tempo. — levantou-se — Pode ter conquistado a liberdade, mas ainda pensa como um capacho, fraco, incapaz de entender uma vírgula sobre a tecnologia de seu planeta, sobre os milagres que o Cristal Negro pode operar... — respirou fundo, reticente — Deixarei que Quartzy cuide de você e darei uma olhada no palácio que conquistamos.
Jade se levantaria e diria mais meia dúzia de desaforos, porém Quartzy segurou-lhe o ombro invicto e fitou-a profundamente. A dona dos cabelos esverdeados virou o rosto, os lábios cor de vinho arredondaram-se em um bico emburrado, os braços fortes e morenos cruzaram-se impacientes.
— Ele a salvou, Jade. — Quartzy disse sem cerimônia — O grande General Topázio, conhecido pela escassez de sentimentos e pelo excesso de ganância e luxúria, arriscou-se para salvá-la.
— Topázio acredita que sou propriedade dele!
— Eu sei da história, mas, se me permite opinar... Acho que há mais do que simples sentimento de posse dentro dele. — tocou-lhe as mãos — Acho que Topázio se importa com você, tanto que me mandou trazê-la até aqui, no quarto dele, e cuidá-la. — sorriu — Talvez ele não seja tão mau quanto pensamos...
— Você, ingênua, como sempre! — bufou irritada — Não vê? Topázio está me cercando porque sabe que mais cedo ou mais tarde perderá a sua outra bonequinha. Boneca, é isso o que ela é! Aoi e Akai eram os brinquedos dele, não se diferenciam tanto dos Droids que Onyx e Saphiro constroem. Topázio perdeu Akai, agora perderá Aoi. O que restará para saciar o apetite doentio dele? Ele pensa que serei eu! Mas, eu o mato antes de ele tocar em um fio de cabelo meu! Basta que eu consiga uma nova arma, você vai ver! Um dia, matarei Topázio com minhas próprias mãos! — fitou as palmas calejadas de tantas batalhas e trabalhos pesados — Então terei vingado a mim e às gêmeas!
— Ah Jade! — lamentou Quartzy — Esses sentimentos amargos de nada fazem bem, tanto os seus quanto os de todos aqui. Os integrantes do clã Black Moon parecem ter a sina de carregar em suas almas tantos sentimentos ruins, e assim nunca conseguimos viver em paz. Em parte, a escuridão que se alastrou em nosso planeta foi causada por essa negatividade, pelo rancor, e em parte pelo amaldiçoado Cristal Negro. Mas mesmo a joia da escuridão, penso eu, só cresceu e se ramificou graças às pessoas. Os grandes culpados de tudo são nossos antepassados e nós que viemos depois deles e persistimos no erro. — Levantou-se elegantemente e expirou longa quantidade de ar — Seu braço logo estará bom. Espero que sua mente também clareie. — afastou-se, quando chegou à porta pousou a mão sobre a maçaneta dourada, girá-la-ia, todavia, ainda havia algo a dizer: — Perdoe, Jade. — aconselhou amena — Perdoe e conhecerá a verdadeira liberdade. — e saiu, deixando uma amazona pensativa.
Do outro lado da porta, encostado à parede, estava Topázio à espera. Quartzy lhe sorriu como se, de alguma forma, entendesse o que se passava no âmago dele. Aquilo não o agradou. Desconfiado, observou-a caminhar pelo corredor adentro, depois fitou a porta entreaberta e pensou em invadir o quarto, tomar Jade nos braços como fazia na juventude. Conteve-se. O mais importante era marcar o novo território. Assim sendo, o conquistador dourado desceu aos cômodos restantes do Palácio e sondou a construção. Muito resistiu aos fortes impactos, ainda havia salão de baile, cozinha, resquício de salão real e quartos. Era óbvio qual cômodo seria o dormitório da realeza – o mais luxuoso e distante, no andar mais alto da pomposa construção. Com um sorriso perverso estampado à face límpida, Topázio entrou e passou os dedos por cada móvel que restou, derrubou os abajures no chão e estagnou, no entanto, ao ver-se diante do canto mais íntimo do espaço. Duas camas, grandes, porém separadas, e ainda com uma cortina rosada entre elas?! Isso lá poderia ser quarto de um casal?! Mas era, e ele sabia por ver à parede duas imensas pinturas dos reis: Damien a exibir sua enorme espada lapidada em gema preciosa, e Crystal com a pedra mística sobre o peito. Diante do inusitado, Topázio gargalhou num misto de diversão, surpresa e malícia.
...
Aoi atentou-se a cada detalhe daquele lúgubre laboratório. O espaço era arredondado, possuía pelo menos cinco andares. Nos superiores, em imensos tubos de ensaio, Onyx armazenou, certa vez, as medusas que ele moldara. Atualmente, os vidros jaziam vazios, somente respingos escuros em suas paredes provavam que um dia neles existira um tipo exótico de vida. No andar do meio: experimentos com pedaços de pedra negra, os poucos que restaram. No centro da sala escura, numa espécie de fornalha, uma rocha maior, bruta, preta, Aoi sabia que se tratava de Cristal Negro também, mas era diferente. Não se deu o trabalho de perguntar, no momento, sua curiosidade maior era sobre outro assunto: ela própria. Enfim, desceram ao mais baixo dos andares, não por escadas ou por elevadores, mas de mãos dadas, teletransportando-se como se fossem feitos de fumaça.
Finalmente, Aoi se viu em território conhecido. Tentou engolir saliva, mas a garganta secara, assim como os lábios e os olhos, tudo. Aproximou-se das macas, a sua, depois a da irmã, e por último do misterioso leito no meio, coberto pelo lençol branco. Passou a mão por cima do pano e sentiu algo respirando, os dedos correram para as pontas de algodão, ia puxá-las como se estivesse a tirar uma cortina e...
— Ainda não, doce Aoi. — Onyx, às suas costas, segurou-lhe as mãos e virou-a de frente a ele — Não é para isso que veio aqui. Lembra-se? — caminhou para longe das camas de metal junto a ela, andaram até uma mesa cheia de tubos de ensaio, ferramentas e outros objetos que a mocinha não saberia distinguir. — Você nunca se perguntou como conseguiu entrar em meu laboratório? — metódico, arrumou as coisas sobre o tampo espelhado, analisou o que havia borbulhante dentro de alguns tubos. Encheu alguns sacos de soro com os líquidos. No fim, olhou-a novamente — Hein, querida?
— Eu não... — não compreendeu. Baixou o olhar — eu simplesmente cheguei aqui.
— Nessa nave, só entram aqueles que são próximos a mim. — abriu-lhe os braços — Ou seja, meus amigos!
— O senhor Topázio é seu amigo? — perguntou na inocência.
O sorriso dele se fechou. Aoi endureceu por completo.
— Topázio é outro caso. Eu diria que nossos elos são muito mais fortes do que de meros amigos. Está acima de coleguismo, entende? Você e sua irmã são provas dessa cumplicidade. — caminhou pela sala.
— Não estou entendendo... — seguiu-o.
— Lembra-se de que eu disse que você era um projeto meu? Não só você, mas sua irmã também. Bom, confesso que me assoberbei. Vocês não foram um projeto só meu, tive certa ajuda. — encontrou um lugar qualquer no recinto e sentou-se sobre o chão, cruzou as pernas em pose de meditação, pousou as mãos sobre os joelhos, mas antes estapeou a mão enluvada ao seu lado, no piso liso, convidando-a a sentar-se. Assim que Aoi se acomodou, Onyx sugeriu: — Quer ouvir uma estória?
— Eu gosto de estórias... — vaga como um vazio qualquer, relembrou dessa característica.
— Era uma vez um cientista muito respeitado, conhecido como o grande gênio de seu tempo. — começou, a voz grave era perfeita para um narrador — Tal cientista possuía os cabelos tão alaranjados quanto os de Akai, e os olhos mais púrpuros do que os seus. — acarinhou-lhe o rosto — Seu nome era Amber. Sabe por que Amber foi tão conceituado? — Aoi balançou a cabeça negativamente, Onyx continuou: — Depois de anos com o planeta inteiro na miséria, mesmo os nobres generais que cuidavam das pessoas viam-se falidos e sem prestígio, Amber descobriu que os restos de Cristal Negro esquecidos em Nemesis poderiam ser multiplicados. Um belo dia, ele pegou uma lasca de cristal, dissolveu-o em água e viu que nesse estado, as moléculas se multiplicavam, e assim o cristal criava brotos, ou sementes se assim preferir, e o próprio planeta as semeava. Elas cresciam, tomavam forma, e a partir disso, Amber fez outra descoberta: daqueles novos cristais que ele criou, se os derretesse em certo ambiente e a certa temperatura, a partir deles poderia gerar vida! — os olhos arregalaram-se, o sorriso rasgou-lhe a face pálida — Amber passava horas no laboratório, observando as criaturas negras ganharem forma. Mas havia algo faltando, ele percebeu. Logo que elas nasciam, grunhiam, se retorciam, como feras... Não sabiam raciocinar, e embora ele tenha tentado ensiná-las, foi em vão. Gerar vida não era o suficiente. Ele queria gerar vida inteligente!
— O que isso tem a ver comigo e minha irmã, senhor Onyx? — preocupada, lançou a questão.
— O cientista tinha um filho, tão inteligente quanto ele, — Onyx explicou — que, embora tivesse apenas nove anos de idade, observava pela fechadura da porta os experimentos frustrados do pai e ficava a pensar sobre eles dia e noite. Sem que percebesse, o menino acabou ficando obcecado por aquela situação. Era triste ver o pai transtornado, isolado em um laboratório em tempo integral, pressionado pelos aristocratas a criar uma criatura que fosse capaz de pensar, de interagir, e enquanto isso a mãe do pobre menino enlouquecia de solidão... — fez uma breve pausa — ela, um anjo, a verdadeira companheira do menino, tornou-se irreconhecível com o tempo. Prostrou-se em uma cama e ficou a admirar o teto negro e empoeirado... — fechou os olhos levemente. Uma mão pequenina pousou sobre a sua. Os orbes amarelo-alaranjados descerraram-se e elevaram-se à figura da menina compassiva. Onyx sorriu orgulhoso e prosseguiu: — O menino, mesmo assim, não tinha uma vida tão deprimente quanto parece. Pela amizade de seu pai com um homem importante, o pequeno gênio teve a sorte de conviver com os nobres generais e passar muito tempo nos acampamentos, observando gente ir e vir, e se relacionar. Enfim, o pequeno ganhou uma oportunidade de conhecer um meio feito de pessoas, e não só de medusas. O cientista pai, por sua vez, foi se esquecendo de como era ser gente, e acabou adquirindo um comportamento parecido com o de suas crias. Ilógico, feroz... — respirou fundo — Talvez isso se devesse ao fato de ele não mais se alimentar da ração, de se nutrir apenas da energia do cristal. Não importa, não é esse o tópico que quero desenvolver, voltemos ao menino prodígio que passou um tempo observando pessoas de verdade. Um dia, esse menino estava pensando sobre os experimentos do pai e se deu conta de que o progenitor trabalhava apenas com a pedra, e a pedra não tinha alma. Sendo assim, como ele esperaria que suas criaturas tivessem algo de humano? O menino teve uma ideia. Certa vez, a caravana de generais passou por uma enorme montanha verde, conhecida por ser o lar de diversos escravos. Não sei se sabe, mas Jade veio de lá. Então, durante o curto período em que a montanha estava adormecida, o menino subiu algumas de suas rampas, entrou em uma das grutas e encontrou duas meninas, irmãs, provavelmente. Deveriam ter no máximo doze anos. Estavam abraçadas, raquíticas, uma demonstrava-se dócil e ao mesmo tempo apavorada, a outra rosnava como uma fera, intempestiva. O garoto se aproximou, prometeu libertá-las das correntes. Rapidamente, a primeira lhe sorriu e agradeceu muitas vezes. A segunda encarou-o silenciosa e desconfiada, mas graças à insistência da outra acabou cedendo, tinha um coração inocente no fim das contas. Ah, inocência, como aquele pequeno notável admirava essa qualidade! Ele, animado, aproximou-se, tirou um punhal da mochila que carregava e o apontou às coleiras que adornavam aqueles lindos pescoços... o primeiro que ele rasgou foi o da temperamental, e sem dar tempo para a dócil gritar, cortou-lhe também a garganta e coletou o líquido vital de cada em duas garrafas, assim que as encheu até o bico, tampou-as com rolhas e guardou-as de volta na mochila... elas e a faca, ainda suja.
— Que horror! — estremeceu — O menino matou as duas garotas, um menino de nove anos!
— Um menino de nove anos que convivia com a realidade de um pai louco e uma mãe doente, certamente, não poderia ser inocente. Além do mais, ele assistia de camarote à sujeira entre os generais que se diziam nobres, que se gabavam de já terem estado na Terra, e que, à surdina, estupravam crianças, matavam por prazer, e maltratavam seus escravos. Não, aquele menino nasceu como um fruto podre, e só sobreviveu devido a sua inteligência! Muito bem, o menino de quem falamos chegou em casa naquela noite, tão orgulhoso de sua ideia que mal podia esperar para pô-la em prática! Entrou no laboratório do pai, levou uma surra por isso, mas não desanimou. Esperou Amber descarregar-lhe toda a ira, a pele leitosa ficou roxa como uma ametista, e mesmo tão dolorido, enquanto o pai ofegava já sem forças para lhe dar um murro sequer, o virtuoso sentou-se diante de duas macas onde descansavam as duas mais novas crias e despejou em suas bocas o sangue que coletara. Uma das medusas bebeu o néctar de uma garota temperamental, e a outra saciou a sede de conhecimento através do sangue de uma menina meiga e cheia de sonhos... — fitou-a nos olhos. Aoi perdeu a cor. — Amber observou tudo de olhos bem atentos e arregalados, naquele momento ele percebeu que o menino herdara a sua sagacidade e a desenvolvera. Amber se deu conta de que juntos, poderiam criar a vida perfeita! O trabalho seguinte foi quase arte plástica. Pai e filho moldaram os ossos, os órgãos, a pele, os cabelos, e escolheram os trajes de suas belas criaturas. Amber deixou que seu herdeiro escolhesse as cores dos olhos e dos cabelos de cada uma. O menino, por algum motivo, relacionou a gentileza e a generosidade com a tranquilidade do azul – Aoi, o vermelho com a fúria, a teimosia e a graciosidade – Akai. Mas só o nome de cores não era o suficiente, porque bem sabemos que no clã Black Moon todos os integrantes importantes possuem nomes de pedras. E que pedra poderia possuir tons de azul e roxo, de laranja e vermelho?
— Agatha... — inexpressiva, raciocinou.
— Sim, duas ágatas preciosas nós criamos. — abraçou-a de lado.
— Você era o pequeno gênio... Por que não me lembro de você? — encostou a face em seu peito palpitante e fechou os olhos, ligeiramente sonolenta.
— Durante anos, fomos felizes, minha menina. Você e Akai foram as irmãs, amigas e amantes que tive. E foram programadas, de início, para me adorarem, para adorarem meu pai e serem as cuidadoras de minha mãe. Porém, meu pai que já não tinha juízo, piorou com os anos... E, um dia, quando eu mal completara dezesseis anos, Amber teve um surto... — a voz do cientista tremeu, embargada, e ele mirou a mão coberta pela luva. Depois fechou os olhos. Aoi abriu os dela, notou-o atribulado e segurou-lhe a mão que não era humana. Calmamente, livrou-a da luva e contornou suas curvas negras.
— Foi seu pai que fez isso com você? — trouxe a mão mecânica para perto, pousou-a no rosto — Eu sou assim por dentro?
— Eu a fiz, quase perfeita. — uma ternura que parecia não pertencer a ele preencheu-lhe o semblante — Sim, seus ossos são de cristal negro que primeiro foi líquido, e depois, congelado, tornou-se sólido outra vez. Cada curva sua foi lapidada pelas minhas mãos, um pouco pelo meu pai. Quando digo que você é quase perfeita, é porque o material com que as preparei não foi o suficiente para brindar-lhes com uma alma. Não há alma em sangue, apenas as lembranças de uma. Não lembranças de vida, mas de um modo de ser, de pensar, e mesmo de sentir. Sim, minha Aoi, apesar de seu interior ser de faz de conta, como o de uma boneca, você tem sentimentos, ainda que muitos deles tenham sido implantados em você. — uma lágrima dela lubrificou a prótese que a acariciava. — Sei que deve ser difícil de entender. Você não imagina como senti a sua falta e a de Akai, e como foi difícil ter de fazê-las esquecerem de mim. Passe a mão em sua cabeça, atrás, no topo — soltou-a.
Chorosa, Aoi obedeceu, os dedos passaram por debaixo dos fios lisos, o pequeno chapéu adornando a lateral da cabeça caiu, e, na altura do pseudoencéfalo, ela sentiu como se fosse um inchaço, na verdade era um botão.
— Aperte rapidamente e você apenas dormirá. Aperte com força e segure por trinta segundos, e você se esquecerá de tudo o que viveu e de quem conheceu, então a pessoa que se apossar de você, através disso — puxou o controle arredondado da manga — a programará para sentir e lembrar do que for conveniente, mesmo que suas lembranças sejam uma invenção. Na época em que convivemos, as memórias que você e Akai tinham eram de que vocês foram adotadas por minha família. Quando as entreguei ao pai de Topázio, tive que implantar na memória de vocês um amor demasiado pelo seu atual mestre, e ainda assim, ele levou anos até acordá-las e usufruir de seus encantos... — suspirou.
— Então eu não amo o senhor Topázio, então é tudo uma invenção? — abraçou-se a ele como se pedisse abrigo.
— Nesse momento em que você está aqui e estou te contando a verdade, não há nada sendo manipulado em você, minha pequena... — apertou-a nos braços, a mão mecânica pousou no ombro rosado. — O que quer que esteja sentindo agora, pertence a você.
— Sinto que você não é o homem mau que aparenta, e que algo muito triste aconteceu a você no passado... — roçou a bochecha ao peito conturbado de seu criador — Sinto carinho por você... — confessou — e me sinto triste por não ser gente, por nunca ter conhecido a infância... — soluçou.
— Mas você é mais que gente, minha Aoi. — segurou-a cuidadosamente pelo queixo e fê-la olhá-lo nos olhos — É uma evolução de gente, feita para sobreviver ao ambiente mais hostil, não corre o risco de perecer de fome, ou sede, por mais que você as sinta já que as tem na memória! — pausou para dar um suspiro, e depois continuou em ares passionais — É uma eterna criança, o seu ser foi brindado por uma inocência tão plena que mesmo que eu a resete milhares de vezes, essa característica você não perderá, jamais. Você é tudo o que eu nunca pude ser... — selou as testas, as luas negras confundiram-se — Eu invejo a pureza, me sinto tentado a corrompê-la, mas o que resta de humano em mim está fadado a almejá-la, a admirá-la... a amá-la. — só de falar em inocência a imagem de Quartzy entorpecia-lhe os sentidos. Os longos cílios negros colaram-se, levemente úmidos.
Aoi, envolvida, apoiou as mãozinhas nas coxas dele, ergueu-se jeitosa, uniu a maçã fria à dele, e soprou suave como uma brisa:
— Meu verdadeiro mestre... — afastou as bochechas geladas, encaixou os lábios aos dele e assim esquentaram-se.
Surpreso, Onyx escancarou os olhos. Os óculos entortaram-se sobre o fino ebúrneo nariz. Aoi depositou-lhe não um, mas vários beijos tímidos. Algo semelhante a um coração que ela jurava que tinha palpitava dentro do peito, deveria ser mais um órgão moldado por ele. A Lolita pegou a mão de carne do lapidador, abrigou-a entre as suas e levou-a até seu busto palpitante.
— Isso é real, Aoi. — disse a frase, entrecortada por selinhos colantes — Isso é real... — afagou-lhe os cabelos e ela, empolgada, sentou-se no colo do cientista e enredou-o com suas pernas roliças.
Desejosa, no seu jeito tímido e vagaroso espalmou as mãos no peitoral de Onyx, trêmula desceu-as pela barriga, depois as subiu outra vez até a gola da blusa preta, começou a desapertar os botões do colarinho chinês. Ele a observou estático e desacreditado. Aoi, corada, ainda que despedaçada por dentro, prosseguiu. Abriu calmamente cada botão até revelar o abdome pálido e magro daquele que todos consideravam insano. Os cabelos dele, presos em um baixo rabo de cavalo, ela soltou e deixou-os caírem sobre os ombros, lisos e brilhosos como um veludo. Afagou-os, entrelaçou os dedos nas mechas e desfez alguns nós.
— Você pode me fazer um favor? — enquanto os olhos tremeluziam e a boca tremelicava, ela pediu: — Por mais ilusório que seja, por mais que eu não tenha uma alma, isso dói mais do que a morte! Eu preferiria ter explodido no lugar de minha irmã, sem saber da farsa que sou, do que ter que viver para descobrir tudo isso. Dói tanto que não sei descrever... — encaixou o nariz e a boca no alvo pescoço de Onyx, os ombros chacoalharam, ela estava aos prantos — tudo o que eu conheci da vida foi falso, eu não aguento isso! Mesmo o que eu achei que sentia, não passava de uma mentira. Eu só quero viver um momento meu, que eu fiz sem que alguém me mandasse, e então, depois, quero apagar, não me lembrar de nada. Faça isso por mim. Você faria, mestre? — as unhas roçaram-se ao peito, as pernas contraíram-se e o enredaram mais, àquela altura os botões da calça do homem já estavam abertos e pela primeira vez ele não tinha uma de suas frases à ponta da língua.
— Você quer fazer isso comigo, Aoi? — Segurou-lhe o rosto com a mão humana e a mecânica.
— Você se importa comigo, se importava com Akai? — olhou-o no fundo dos olhos, desarmou-o — Se sim, faça isso por mim. Eu quero. — ela sorria? Sorria linda e melancólica.
Onyx não pensou em Topázio, não pensou em planos, não pensou em nada. Passou os dedos pelos rasgos no espartilho, sentiu a pele macia remexer-se. Puxou-lhe as longas luvas e as despiu, esticou-lhe os braços lívidos e beijou-lhes toda a extensão. Depois, depositou beijos molhados pelo pescoço esticado, pelo colo quente, pelos seios perfeitamente empinados e livrou-a do corpete que a apertava. Ainda assim, as curvas mantinham-se perfeitas, cada monte arredondado e do tamanho certo para ele, segurou-os, massageou-os com cuidado, Aoi suspirou entregue, as pernas relaxaram. Enquanto ela suspendia a saia de tule adornada por laçarotes na barra, Onyx desabotoava as fivelas das botas de cano longo e descia-lhe a meia arrastão, para ajudá-lo, a Agatha suspendeu as pernas, esticou-as, e se expôs para ele.
Ainda que as calças do cientista estivessem arriadas até o joelho, Aoi, apressada, encaixou-se no colo dele, e tão logo sentiu o membro espremido à sua porta, sugou-o para dentro. Enfim, sentiu um calorzinho conhecido. Implantado na cabeça dela? Já não importava. Apoiada nos próprios joelhos, moveu-se para cima e para baixo. Onyx contornou-lhe a cintura e revirou os olhos, extasiado. Em algum momento ele estivera assim com ela, dias que Aoi não recordava.
Enquanto remexia-se com o sexo masculino dentro dela, atentava-se bem às expressões contentes do criador. Para analisá-lo melhor, tirou-lhe os óculos e repousou-os sobre o piso. Com a vista turva, Onyx semicerrou os âmbares e jurou ver sobre si não Aoi, mas Quartzy. Sorriu de satisfação, puxou-a contra seu corpo, colou o peito aos seios dela, tão macios, e ela continuava a mover-se graciosamente, a afagar-lhe os braços, e para completar o ciclo, segurou-lhe a mão mecânica e depositou-lhe uma infinidade de beijos. Em alguns instantes, via a menina azulada, em outros o cor-de-rosa tomava conta de sua vista. Aoi o agradava, fazia-o se sentir querido, coisa inédita na vida dele. Mas Quartzy era um sonho impossível... e só de pensar em tê-la, em tomá-la, o sangue fervilhava.
Ah, a inocência... ele mordeu o lábio inferior, estremecido, e apertou as nádegas de Aoi. Faminto, segurou-a pelos cabelos e devorou sua boca açucarada. A língua girou afoita dentro daquele pequeno espaço, molhou-a toda. Aoi sentiu o ar lhe escapar, o corpo amoleceu nas garras dele. E, assim que Onyx atingiu o ápice, depois de enterrar-se com força dentro da menina, fez o que ela pediu. Inclinou-lhe o corpo para trás, segurou-lhe a cabeça e empurrou o botão a fundo.
— Obrigada... — ela disse com um sorriso no rosto antes de se desmontar nos braços dele em sono profundo.
Pacientemente, após meio minuto, Onyx a vestiu e a calçou, depois se vestiu e, por fim, pegou-a no colo e deitou-a sobre a maca. De certo modo triste, de outro ambicioso, ajeitou a franja azulada, pegou seu controle clássico e disse:
— Aoi, não precisará mais se preocupar com Akai, você sequer a conheceu. Por Topázio não sentirá mais nada, a sua única vontade será destruir as Guerreiras Sailor. Você há de vagar pela cidade destruída, e cada marinheira que encontrar, você derrotará. Essa é a missão de sua vida, sem sofrimento, sem lembranças, sem dúvidas... Inocente. — beijou os olhos fechados da jovenzinha, depois seus lábios. Então, levantou-se, ajeitou o jaleco, colocou os óculos e terminou: — Quando ela estiver pronta, irá por conta própria. — Antes de sair do laboratório, analisou a maca coberta e sorriu satisfeito: “Está quase na hora”.
...
Crystal caiu sentada sobre uma cadeira qualquer. A lombar latejou dolorida, as mãos agarraram-se aos braços frios da tal poltrona, dura e escura. Os orbes azuis, encharcados, mantinham-se dilatados. A boca tremia, abria-se, mas nenhum som conseguia escapar. À sua frente, Diamante estava de pé e braços cruzados. As violetas violentas encaravam-na. A rainha sentiu-se cercada. Ofegante, buscou forças dentro de si, fitou sobre as pernas seu broche opaco. Tomou-o nas mãos e levantou-se de súbito.
— Algo está errado! Eu não acredito nisso! — disse convicta — Minha mãe é dura, mas não é má!
— Por acaso você é cega?! — desacreditado, Diamante apontou a imagem da antiga rainha congelada no centro da saleta — Você está mesmo tentando ignorar o que acabou de ver?! Sua mãe abandonou meu povo à mercê da miséria! Sua mãe descumpriu a promessa de Rainha Serena! Ela nos manteve exilados, e mesmo sabendo que Nemesis não tinha condições de gerar recursos nos virou as costas, e ainda nos ameaçou! Disse para não insistirmos em manter contato, disse para não tentarmos medir forças com a Terra, você viu! Quer que eu ponha de novo?!
— Não precisa! Eu posso ver centenas de vezes, e insistirei em dizer que isso só pode ser uma farsa! — se o príncipe sabia falar alto, a voz dela ia além — Minha mãe sofreu um trauma terrível quando vocês atacaram a Terra na primeira vez? Sim! Ela tinha medo do contato? Sim! Mas jamais os proibiria do direito de ir e vir! Por anos, seus conterrâneos não deram notícias de que estavam vivos, Nemesianos desapareceram como poeira no espaço depois da guerra civil em Tóquio de Cristal, vocês mesmos cortaram relações conosco, orgulhosos, acharam que sobreviveriam bem sozinhos no fim das contas, e os recursos sempre foram enviados! Sempre!
— Quem lhe disse isso, sua mãezinha querida?! — riu mergulhado em sarcasmo.
— Minha mãezinha querida esteve comigo, discursando a favor de seu retorno para uma multidão de pessoas que nos xingavam e nos vaiavam, no dia em que você mandou um de seus subordinados me atacar através do brinco que me deixou de lembrança! — apontou-o, feroz.
— Isso é mentira! — retrucou indignado — Foi aquele príncipe inconveniente que destruiu o brinco que deixei com você, eu vi! Onyx me mostrou a imagem de você, nos braços do energúmeno, e meu brinco despedaçado no piso!
— Mas esse Onyx não te contou que o seu brinco despejou uma forte carga de energia maligna sobre mim, sobre meus pais! E, que se Damien não o tivesse destruído, eu e minha família teríamos morrido naquele palanque, e justo no momento em que minha mãe, a pessoa que você odeia, conseguira convencer o povo a perdoar seu clã pelos males passados! Estou enganada sobre isso?! — deu um passo a frente, confiante. Os olhos brilharam, e também a Lua na testa.
— Não foi isso o que eu soube, não foi isso o que eu vi! — com o cenho franzido e os dentes rangentes, persistiu na versão que conhecia.
— Mesmo depois daquele ataque, eu insisti em defender você! — apertou-lhe os ombros, os cristais da capa tilintaram — Eu, meu pai, Luna, Artêmis, todos tentamos nos comunicar com Nêmesis! Não houve dia em que não tivéssemos tentado um contato, um sinal, qualquer coisa! Sempre sem resposta! Quando uni os Cristais e adquiri os poderes de perambular pelos sonhos, tentei alcançá-lo através deles, mas aquela menina dos cabelos lilases lançou uma maldição sobre mim, e perdi a capacidade de alcançá-lo desse jeito! Eu tentei de tudo, mas não tentei sozinha! Minha mãe esteve do meu lado, sempre! Minha mãe, mesmo amedrontada e com péssimos pressentimentos, e digamos de passagem, pressentimentos que se cumpriram, fez de tudo para me ver feliz e trazê-lo de volta! Se ela desconfiava de suas intenções, se ela temia que o pior acontecia? Você é inteligente o suficiente para discernir que sim, e assim mesmo ela insistiu em tentar ver as coisas pelo lado positivo, não me proibiu de procurá-lo, não me forçou a nada! Minha mãe, de coração aberto, estava pronta para recebê-los, pronta para abençoar o nosso casamento, e também meu pai. E o que você fez?! Atacou Sedna! Você destruiu um império e uma família! Damien estava de partida, mas já não tinha para onde ir! Tudo o que lhe sobrou foi um irmão mais novo que passou anos em coma! — puxou-o pelo colarinho — Você sabia que eu tinha mandado ele embora?! Você sabia que naquele dia ele tentou me beijar e eu o recusei, mesmo ele sendo o meu herói, o meu guardião, aquele que realmente se preocupava em me ver feliz e segura?! Imagine se ele tivesse ido embora?! Para onde iria?! Comer poeira no espaço?! O lar de Damien se tornou o palácio, definitivamente. Nós, a família dele. E o meu povo? — trépida, riu de si mesma — Meu povo me detestava por saber de meu caso com você! Eu me esforcei, dei meu sangue, abdiquei de quem eu era para me tornar o ídolo que eles gostariam que eu fosse, e mesmo assim eles riam de mim pelas costas! Eu e as meninas criamos aquela cúpula de cristal ao redor do reino para protegê-los, e não foi o suficiente! Por outro lado, Damien eles sempre admiraram. A palavra de Damien foi lei. E se não fosse Damien, eu teria sido linchada, ridicularizada, ou coisa pior! Então, casei com ele e assim os cidadãos de Tóquio de Cristal aprenderam a me amar. O que me deixa mais triste é saber que esse amor das pessoas do reino por mim e por Damien, é na verdade um fantasma de uma devoção para com minha avó e meu avô! Deusa Selene, isso nunca vai acabar! — pôs as mãos sobre a cabeça e urrou atormentada. Parou de falar, pois já gritara tanto que a garganta começava a coçar. Sentou-se outra vez e cobriu o rosto com as mãos.
Diamante, mais confuso do que nunca graças ao relato de Crystal, desligou o aparelho de holografias, parou diante dela e afagou-lhe a cabeça.
— Vejo que passamos por dúzias de desencontros, minha rainha. Isso será investigado e resolvido. — forjou calma, mas incandescia por dentro. Não sabia o que pensar, ou em quem acreditar, sabia apenas o que sentia por ela. — Digo-lhe uma coisa: para que insistir em proteger um povo que não a respeita de verdade, que não se importa com sua felicidade? Esqueça esse casamento farsante, una-se a mim!
— Eu nunca abrirei mão do meu povo, do meu reino — ergueu o rosto e fitou-o nos olhos — do mesmo modo que você nunca abrirá mão dos seus! Se formos nos unir, que seja Lua Branca e Lua Negra, completas, sem mais guerras, sem mais intrigas! Mas como obrigarei um povo a engolir o outro sem criar nova guerra civil? Está acima de meu alcance e do seu, você sabe.
Depois de um longo suspiro, Diamante abaixou-se e ficou da mesma estatura de Crystal, sentada. As mãos esbranquiçadas pousaram sobre os joelhos dobrados da rainha, afagaram a seda perolada da saia, o broche rolou entre elas, mas o príncipe não fez menção de pegá-lo. Ela, rígida como uma estátua, observou-o silente, sofrida e exausta.
— Somos portadores de responsabilidades pesadas, eu diria que são os nossos fardos. — passou os dedos pelos braços dela, caminhou-os até encaixarem-se nos ombros encolhidos — Assim como você tem que liderar o seu povo, eu tenho que liderar o meu, e se ambos têm algo em comum é o ódio, o ressentimento. Seu povo não aceitaria conviver com o meu, e vice e versa. Nossas escolhas são difíceis, então facilitarei as coisas para você. — ergueu-se levemente, inclinou-se sobre ela. Um indicador desavergonhado espremeu-lhe os lábios e desenhou-os — Não lhe darei escolha. — Crystal abriu a boca, preparada para reclamar, então Diamante segurou-lhe a cabeça e beijou-a com urgência. Uma lágrima escorreu pelo canto do rosto da mulher enquanto seu corpo entregava-se sem luta. O receptáculo da pérola mística luziu discretamente. Diamante notou o corpo da rainha aquecer, sentiu-se incentivado a continuar. Ela gemeu lamentosa, sem retribuir, sem repudiar. Arfante, o dono de seus sonhos e pesadelos cessou o ato sádico e amoroso ao mesmo tempo — Você ficará aqui, comigo, a salvo.
— Você é completamente louco se pensa que seremos felizes assim, eu não abrirei mão da minha posição e dos meus entes queridos, Diamante... — embora fraca, bateu o pé. O nariz dele a afagar o seu a entontecia, porém não a calou — Eu posso cair, mas lutarei pelo que eu acredito.
— E no que você acredita? — respondeu o sussurro com outro, ainda a compartilhar do hálito fresco dela.
— Que sempre haverá uma esperança — fechou os olhos.
— E eu acredito que cometi um erro irremediável naquele dia, depois da chuva, na caverna. — abraçou-a pela cintura, puxando-a para si de modo que não pudesse escapar — Não devia tê-la levado de volta para o palácio, deveria tê-la ouvido.
— Do que está falando? — falou, a boca abafada no peito da farda clara.
— Você disse que deveríamos partir para longe, pediu que eu não a levasse de volta ao palácio. Não deve se lembrar, estava fora de si, ardendo em febre. Mas a verdade escapou dos seus lábios. Você disse: Jamais seremos felizes aqui. E estava certa. Esse lugar um dia será o nosso túmulo, cairemos juntos. Até lá, a manterei longe de tudo e de todos, somente para mim. E, de algum modo, viveremos o nosso romance.
— Como pode ser tão egoísta? — os olhos elevaram-se ao teto e vidraram-se no reflexo dos dois, abraçados desesperadamente. — “Como posso amá-lo assim mesmo?” — os dedos cravaram-se à capa escura, afagaram as costas largas. Os cílios castanhos piscaram gotejantes enquanto o príncipe depositava-lhe beijos quentes no rosto e pescoço. — Diamante... — quase desfalecendo, sussurrou-o. Sentiu o peso aliviar, era seu corpo carregado por ele, não discerniu bem os corredores, sequer quando o negro se tornou cristalino. Já não estavam no óvni, estavam nas ruínas do palácio, e mais: no antigo quarto dela. Diamante a deitou sobre a cama e deitou-se sobre ela. Crystal sabia o que viria. — Não... — “Sim” — o corpo dizia, contradizendo-a. Logo, mãos percorreram seu corpo, hábeis, ferozes, e tudo o que esteve ao seu alcance foi aceitar, acatar, e sentir a luxúria percorrer-lhe as veias como rios agitados. Estava frio, no entanto ela sentia-se quente. O nojo que sentira, a fúria, desfizeram-se tão logo ele a acariciou, a despiu e a amou. Os rios, quentes, cruzaram-se, parte adentrou-a, outra se despejou sobre os lençóis empoeirados. Mal sentiu as lascas de cristal arranharem-lhe as costas. Lá fora, além da barreira negra, finos raios de sol refletiam-se cansados. No fim do ato, Diamante ainda deu-lhe alguns beijos antes de se levantar da cama e dizer “ter assuntos para resolver” em tom de suspeita. Crystal ficou lá, em triste pasmaceira. Somente quando sozinha, vestiu-se, ajoelhou-se ao pé da cama, e com o broche em mãos começou uma espécie de oração: — Vovó, estou tão perdida! Sei que está em algum lugar dentro de mim. Por que não me visita? Por que não me orienta? — uma luz, fraca, quase imperceptível, a envolveu. Além das dúvidas, a certeza do amor cravado no coração fazia a Lua Dourada luzir encantadora. E assim, Crystal persistiu — Eu tenho fé vovó, tenho fé de que ainda encontraremos um final feliz depois de tanta tempestade!
...
Angustiado, Diamante marchou pelos corredores desérticos do palácio cristalino. Teve de levantar as pernas vez ou outra para passar por cima de pilastras gregas caídas e desviar de diversos buracos. Ah, como aquilo o irritava! Todavia, queria caminhar, queria pensar. Não lhe saía da cabeça os relatos de Crystal e os de Onyx. Alguém mentia, e pela experiência do príncipe branco, era límpido como a água:
“Onyx me enganou. Não permitirei que alguém me faça de tolo outra vez, esse erro não repetirei” — um amargor desceu pela garganta ressecada ao lembrar-se da traição de Grande Sábio.
Oportuno foi o encontro súbito com Topázio no salão dos tronos. Diamante estancou surpreendido, o cavaleiro afagava o veludo que cobria o forro do assento, e quando percebeu a presença do outro, indiferente, fez breve reverência à segurar a ostentosa capa.
— Príncipe? — o vocativo soou interrogativo.
— O que faz aqui? — duvidoso, questionou.
— Vim ver se não restaram inquilinos indesejáveis, majestade.
— Estou vendo... — arqueou uma das sobrancelhas. Topázio fitou-o diretamente na Lua ferida, incógnito. O príncipe branco retomou a palavra: — Onde está Onyx? Quero vê-lo, já. — soou grave e seguro — Traga-o ao salão principal do óvni. Depois, todos nós nos acomodaremos melhor aqui, qualquer um poderá circular à vontade.
— O que tem de tão importante para tratar com o louco, príncipe? — o tom denunciou irreverência e indignação curiosa.
— Assunto meu. — e se foi, lembrando-se de que no dia em que retornou ao palácio em Nemesis, Topázio também o instigou a assistir o discurso de Rini. Sua intuição o deixava em estado de alerta.
Enfim, surgiu à frente do trono esverdeado. Adiante, Saphiro, Quartzy e Jade com o braço enfaixado observavam as holografias de Tóquio de Cristal. A amazona, particularmente, procurava pela marinheira que quase surrupiara-lhe a vida. Prometia a si mesma que a destruiria. Havia conversado com Saphiro há minutos atrás e feito-lhe a proposta:
— Sei que é um alquimista muito capaz, parte dos Droids que tínhamos você que fez. Então, será que poderia me forjar uma nova lança?
— Disse bem, sou alquimista, e não ferreiro. — respondeu apático.
— Ora, vamos! Você é bom na arte de modelar, apenas lapide uma para mim!
— Não serei capaz de lapidar uma lança que lance rajadas elétricas, Jade.
— E nem precisa, a eletricidade é produzida por mim, e eu a concentro na lança! – explicou.
E, assim, Saphiro aceitou a encomenda. No entanto, a arma seria lapidada na pedra do nome da guerreira. Cristal Negro, um pouco, somente na lâmina. Sobrara pouco da pedra, e não havia tempo para Saphiro e Onyx ficarem reproduzindo-a. O príncipe mais novo pensava sobre o novo trabalho quando percebeu a chegada do irmão e viu-lhe o semblante raivoso.
— Algum de vocês viu Onyx? — perguntou em tom de ordem.
— Está aqui. — disse Topázio ao chegar ao salão segurando o gênio pelo braço.
— E essa agora?! — praguejou o outro — Eu estava no laboratório, cuidando dos meus afazeres!
— Saiam todos. — Diamante, severo, sentenciou. Ninguém se atreveu a perguntar o porquê.
Quartzy foi a última a sair, da enorme entrada espiou os dois homens se encarando. O líder, duro feito pedra, sério e ríspido. O cientista, fantasmagórico e confuso, fitou-a de canto e engoliu seco.
— Posso saber o que é isso, meu príncipe? — abriu o verbo logo que a bailarina desapareceu na escuridão, puxada pela mão azulada de Saphiro.
— Você subestima a minha inteligência, Onyx. — riu-se sardônico — Infelizmente, para você, mentiras têm prazo de validade. Cedo ou tarde, a cortina cai!
— Do que está falando? — fez-se de desentendido.
Diamante, calado, apontou uma das orelhas, a que por muito tempo permaneceu sem o adorno da gota negra, mas que um dia ele resolveu refazer o par. A princípio, Onyx piscou os olhos várias vezes, perguntando-se o que aquele gesto queria dizer. Então, Diamante chamou-o e calmamente indicou o caminho à sala de holografias. Não deu tempo para que o filho do cientista mais prestigiado de Nemesis desarmasse o campo de força da porta. Empalideceu ao ver seu regente tentar abrir a maçaneta e falhar, piorou quando o viu tentar teletransportar-se para dentro e também não conseguir. Onyx olhou para os lados, abriu um botão do colarinho escuro, sufocado de pavor. Não passou desapercebido. Sorridente, Diamante se aproximou, ergueu-o pelo tal colarinho desarrumado, e falou, enfático:
— Abra.
— Eu não sei o que está acontecendo, eu...
— Meu olho pode estar ferido, mas você sabe muito bem que ele não é a única artimanha que possuo. — jogou-o contra a porta selada — Abra! — bradou.
Trêmulo, Onyx falhou ao catar seu controle por debaixo da manga, o apetrecho acabou rolando pelo piso e parou aos pés de Diamante. O príncipe, curioso, cativou-o e o analisou por inteiro.
— É-é... é por esse controle que a p-p-porta abre! — gaguejou nervoso.
O nobre Black Moon dos cabelos de céu chegou bem perto, ergueu a mão em que o objeto jazia, e mandou:
— Mostre-me.
Que escolha tinha o gato acuado, se não obedecer? Devagar, Onyx digitou os comandos. Diamante sequer piscou, prestou bastante atenção em cada movimento. O campo de força desarmou-se e a porta abriu como se fosse mágica. Um outro sorriso ameaçador estampou-se à face do Dono dos Olhos Púrpuros. Simulando educação, ergueu o braço junto à capa e deixou o suspeito entrar primeiro. Em seguida, ele entrou e fechou a porta, manteve firmemente o controle à sua mão e cruzou os braços. Não falou mais, apenas gesticulou. Apontou na prateleira a holografia que gostaria de assistir, guardada dentro de uma placa envidraçada. Onyx, lento, a pegou, e tremendo como se sofresse esclerose, encaixou-a à mesa de centro. A imagem de Crystal atirada aos braços de Damien e o brinco despedaçado pincelou-se como uma mórbida tela.
— O que tem isso, príncipe?! — riu nervoso.
— Você sabe. — encarou-o profundamente — Achou mesmo que o seu conto duraria para sempre? Eu sei de tudo, Onyx. — a serenidade tornava-o ainda mais assustador.
— Não sei do que...
Diamante ergueu-lhe a mão, uma luz azulada contornou-lhe a palma. O corpo de Onyx foi atirado a toda contra a parede, diversas placas caíram das prateleiras, algumas sobre a cabeça dele.
— Faça-se de besta mais uma vez e eu arranco sua cabeça fora! Se acha muito importante, não é mesmo? A parte mais difícil já passou, o reino está em minhas mãos! Por que acha que devo poupá-lo agora? Meu irmão é tão inteligente quanto você! — aproximou-se, lento. — Se quer uma chance de viver, fale a verdade, e fale já! — rosnou.
— Príncipe! — atirou-se aos joelhos dele e abraçou-lhe as pernas — Perdoe-me! Eu só pensei no nosso povo que morria de fome! — forjou tom choroso — Não fiz para o seu mal! Fiz para ajudá-lo! Eu sabia que se sentia mal por ter sentimentos pela princesa, sabia que isso o dividia, então o ajudei a tomar a decisão certa! O senhor sabe, e viu que depois eu estava certo! Ela se casou com o príncipe Sedniano! — exclamou dramático. — Tudo o que faço é pelo bem maior da família Black Moon!
— Me poupe! — chutou-o longe — Conversa! Se essa holografia é uma farsa, o que me garante que o discurso de Rainha Rini também não seja?!
— Por acaso ela disse alguma coisa?! Foi isso?! — limpou o filete de sangue escorrido pelo nariz — Ela fez sua cabeça?! Abra os olhos, majestade! Se ela o amasse, por que se entregaria a outro?! Eu sou inocente! — a última palavra ecoou por todas as paredes e acabou por aterrorizar o seu autor.
— Inocente? — gargalhou escarnecedor — E você lá sabe o que é inocência?! É um cínico, um oportunista! — segurou-o pelos fios negros — Sorte a minha ter trazido Crystal para mim! Nenhuma de suas palavras pode superar a verdade expelida pelo corpo da rainha! Ela se entregou ao rei? — e gargalhou novamente, ainda mais alto — Você não sabe de nada, mas eu? Eu sei, eu vi. Minha Crystal se guardou para mim todos esses anos, e sabe que prova eu tenho? Ela era virgem!
— Era? — suado e paralisado, estremeceu ao som do verbo conjugado no passado. Concluiu o óbvio: o príncipe da Lua Negra e a Rainha da Lua Branca reataram. Ofegou, em pânico, a ficha caíra impetuosa, e mesmo assim, ele sorriu falsamente — Me sinto feliz pelo príncipe, então, que agora tem tudo o que queria. Falta apenas derrotar os rebeldes, depois disso, tudo estará perfeito. Conte com minha devoção! — fechou os olhos e espalmou a mão ao peito esquerdo, em juramento... e a cabeça ardeu ao ter os cabelos desenrolados dos dedos cruéis. Onyx caiu como se o corpo pesasse uma tonelada.
Os passos do príncipe soaram fortes e decididos. Já distante, Diamante fitou Onyx uma última vez e lhe sorriu. No entanto, antes do gênio insano ter tempo de sentir alívio. O príncipe sumiu das vistas e a barreira da porta se refez. De memória, Diamante digitou os códigos no controle e depois o guardou dentro da farda limpa.
Os olhos alaranjados dilataram-se reluzentes, contrastando com a pele pálida, levemente cinzenta como neblina. As mãos espalmaram-se à porta, frenéticas, desesperadas. A voz rasgou a garganta em gritos suplicantes, Onyx implorava por soltura. O ambiente pequeno, fechado e escuro trazia-lhe lembranças odiosas da infância. Do outro lado da porta, ele imaginava não o príncipe, mas certo cientista de cabelos de fogo e olhos de anoitecer arroxeado, e via-se não como homem, mas como um garotinho encurralado no canto do interior de um armário. As mãos cravaram-se à cabeça. Onyx debateu-se delirante:
— Me tire daqui, por favor, me tire daqui!
Diamante sequer estava no corredor. Partira sem se importar com o sofrimento do enclausurado.
E, no laboratório, Aoi finalmente acordou. Seus olhos abriram-se negros da íris à pupila. Serena, ela se sentou sobre a maca. Curiosa, olhou para os lados com o dedo indicador sobre o queixo. Pôs-se de pé, e num repente, uma ordem sussurrou-se em seu interior. Depois de um riso, seu corpo desvaneceu e surgiu na cidade, diante dos estragos. Saltitou despreocupada alegre, até que uma voz a interrompeu:
— Quem é você?!
Virou o rosto e visualizou uma mulher de longos cabelos cor de vinho, trajada em uma fantasia gótica de marinheira, nas mãos uma espada nórdica. Um alvo desenhou-se à face da navegante. O corpo de Aoi girou-se, rápido. Robótica, ela uniu as mãos e esticou os braços para a frente. Boom! Uma enorme carga de energia maligna fugiu-lhe das palmas e endereçou-se à Sailor Solitária que acabara de sair de um dos túneis onde civis foram abrigados: Sailor Phantom.
...
— Eu sou inocente, me tirem daqui! — Onyx persistia em gritar — Eu sou inocente... — as costas escorregaram pela parede, os orbes perderam o brilho.
— Eu sou inocente! — o rapazinho, choroso, insistia enquanto tentava estancar o sangue do braço decepado. E, não era apenas o braço que se cobria de sangue, mas todo o seu corpo.
Para o azar do gênio adolescente, o resto de líquido escarlate que o cobria e grudava-lhe os negros cabelos à face pertencia não a ele, mas a seu pai, esquartejado sobre o chão. À sua frente, dois homens adornados por suas armaduras resplandecentes mantinham-se irredutíveis em relação à pena:
— Você é um monstro delirante! — um deles falou — Pena de morte seria um prêmio para ele, — comentaram entre si — Deixemos a aberração exilada em um pântano tenebroso, ele e a fome, somente — riram-se. — Assim ele terá o resto de seus dias para pensar no que fez! Um filho matar os próprios pais é o pior dos crimes! — cada um carregou-o de um lado e arrastaram-no para fora, sem importarem-se com o ferimento grave do menino.
— Não, vocês estão enganados! — Ele matou a minha mãe! Ele matou a minha mãe! — urrava.
— Oh, ele gosta tanto da mãezinha dele, coitadinho! Pois então, leve-a! — um dos homens trouxe o cadáver arrastado, a palidez confundia-se no vermelho intenso, os cabelos longos, lisos e noturnos perdiam-se no caminho.
E assim levaram Onyx e o corpo dilacerado de sua mãe para um bosque longe de tudo e de todos. Mal saberiam eles que, no pescoço, dentro de um pingente, o pequeno gênio carregava certa quantia de Cristal Negro líquido e aquele pouco foi o suficiente para que ele sobrevivesse por um tempo. Como seu pai antes fazia, o mocinho tomou a quantidade que jazia no pequeno vidro e terminou de se corromper. Passaram-se meses, e ele permaneceu abraçado ao corpo inerte e putrefato que um dia lhe foi uma mãe, até que um dia, um homem dourado como o sol aproximou-se, um velho conhecido, o tal amigo de seu pai. Onyx surpreendeu-se com a visita e, enegrecido, desiludido, não esboçou reação de qualquer forma, apenas chamou-o pelo nome:
— General Aurum?
O Iluminado atirou-lhe diversas peças de cristal negro, inclusive a legítima, que gerara todo o resto. Só poderia tê-las pegado no antigo laboratório de Amber, mas Onyx não tinha forças para iniciar um interrogatório, o pouco de garra que tinha usou para catar as pedras como um moribundo cataria comida do chão lamacento. Os restos de sua mãe confortaram-se no chão de piche.
— Quero que fique claro o porquê de eu estar o ajudando, menino — Aurum começou a justificar: — sei de seus talentos, e tenho certeza de uma coisa. Você e meu filho são o futuro desse planeta. Faça por onde.
...Aquela foi a última vez em que Onyx viu o pai de Topázio. Soube depois de anos que o general morrera em combate, todavia, nunca soube de detalhes. O que realmente importava, afinal, era que com a ajuda do camarada de seu pai, o jovem talentoso construiu o seu império – o laboratório, as medusas e outra coisa que, nesse instante, tinha o braço lânguido pendurado para fora da maca,descoberto do lençol claro. Os dedos longos e delicados moviam-se discretamente, as articulações estalavam-se. Ligado à veia dela, o soro negro em conta-gotas.
Continua...
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