A Minha Queda Será Por Você
13 Inevitável, perigoso e irresistível
— Meninas! — Sailor Saturno surgiu por trás de Diamante. O príncipe virou o corpo para dar passagem à guerreira do silêncio — Adivinhem só? Mais tarde serão presenteadas com um passeio pela cidade! É hora de escolherem os vestidos que usarão no baile!
A notícia descontraiu o clima na sala de música. Reiko, empolgada, foi a primeira a saltar e falar como gostaria que fosse o vestido, Marine apenas ria divertindo-se com a euforia da amiga, Crystal permanecia aérea, o príncipe já havia se recomposto e não mais a encarava, contudo, a menina não conseguia desviar o olhar dos cabelos quase brancos, da lua negra, da boca... Ah sim, ao fitá-la, lembrava-se da sensação de beijá-la... Suspirou quase a fechar as pálpebras quando seus ombros foram sacudidos repentinamente. Era Olho de Peixe exigindo que pudesse ir ao centro encontrar um estilista para lhe fazer um vestido também.
— Olho de Peixe, tome vergonha! Vire homem de uma vez por todas! — Olho de Tigre finalmente se manifestou, envergonhado pelo comportamento do companheiro.
— Ah, se ele quer tanto usar um vestido, deixe-o! — Mizumi interveio, aproximando-se do rapaz de cabelos cerúleos — Posso ajudá-lo a escolher o modelo, que tal? — apoiou-se no ombro de seu protegido.
— É sério? — Peixe deu um pulo de alegria — Está bem, quero algo que valorize as curvas de meu corpo! — Abraçou o braço de Mizumi, e a dupla “aquática” deixou o salão a conversar como duas comadres.
Enquanto os outros que lá estavam riam, Olho de Tigre cobria a testa com uma mão e Yumi aproveitava todo o movimento e animação para sair discretamente, porém, ao passar pela porta, seu ombro esbarrou no de Diamante. Inevitavelmente encararam-se, o príncipe notou nos olhos prateados tamanha aspereza que lhe provocou arrepios. Balançou a cabeça levemente e ajeitou a franja, voltou o olhar para dentro do salão e de lá, a princesa lhe sorria, enquanto Sailor Saturno ouvia as exigências de Reiko sobre tecidos e cores, Saphiro de pé ao lado de Hina perguntava sobre as teclas brancas e pretas do piano e Marine aproveitava para envergonhar mais ainda Olho de Tigre, indagando se no fundo ele também não gostaria de usar um vestido. Era estranho e divertido o comportamento daquelas pessoas da Terra, talvez todo aquele vigor e senso de humor fossem responsáveis pela sensação de lar, refletia. Mesmo seu irmão que no passado era tão quieto e solitário mostrava-se contagiado por todo o clima de festejos. Notava-o a fitar admirado os delicados toques da menina ruiva no piano, percebia a afeição que ele sentia pela pianista e chegava a achar engraçado. Depois, tornou a olhar quem de início chamara a sua atenção – Crystal – ainda a olhá-lo, como quando cantava. Era impossível encará-la sem recordar do beijo em meio a pétalas de rosas brancas e flores azuis. Ao pensar bem, dava-se conta de quão perigoso fora a impulsividade do ato, e também, de como tudo mudaria dali adiante.
— Princesa, venha comigo, o seu vestido já está pronto e é presente de seus pais! — Sailor Saturno pegou Crystal pela mão e a foi levando para fora do cômodo. Enquanto saíam, a princesa esbanjou um último sorriso para Diamante, ainda fitando-o com a mesma luz no olhar, o nemeseano sentiu-se lisonjeado e, estranhamente contente.
Saphiro, ao olhar de relance, percebeu tudo. Os olhares e sorrisos trocados por seu irmão e a filha do “coelho” não eram de simples amizade ou simpatia. Ainda era bom observador, e temia que o mais velho de sua linhagem acabasse por cair na mesma armadilha do passado.
— Está tudo bem? — Hina o trouxe das divagações com sua voz amena.
— Ah, está sim... — Abriu um pequeno sorriso — Eu só preciso ter uma conversa com meu irmão, mais tarde voltarei a vê-la.
Hina corou e baixou os olhos esverdeados para as teclas onde as mãos estavam em repouso. Saphiro afastou-se do piano e foi até o seu parente, à porta.
— Irmão — disse em voz baixa — Percebeu o que aconteceu aqui durante os últimos minutos?
— O quê? — o príncipe piscou brevemente os olhos, estava distraído — Do que está falando, Saphiro?
— Venha, precisamos conversar. — o mais novo tocou-lhe o ombro, olhou para cada lado, e foi caminhando na frente, Diamante o seguiu.
...
Rini e Helios, abraçados e recém-banhados, observavam da enorme janela adornada pelo gradeado de ouro os bosques e jardins mesclados à arquitetura de prédios de cristal do belo reino. Tocadas pelo sol, todas as estruturas adquiriam um tom furta-cor e em consequência da luz refletir em suas superfícies, pequenos arco-íris se formavam, colorindo os céus. Batidas na enorme porta fizeram com que os reis parassem de contemplar a paisagem. Rini abriu as maçanetas e deparou-se com a mais fiel de suas súditas, Sailor Wind.
— Wind, aconteceu alguma coisa? — deu passagem à guerreira, que em passos calmos foi ao centro do enorme salão real e lá curvou –se em reverência.
— Majestades, é meu dever alertá-los de que o príncipe do planeta Nemesis parece estar tentando seduzir a princesa.
— Como é? — rei e rainha perguntaram ao mesmo tempo.
— Observei como a olhava, senti-me enojada. — Yumi rangeu os dentes.
— Espere Sailor Wind, não julgue de forma precipitada. — Helios ponderou — Em que se baseia para afirmar isso?
— Majestades, estou certa de que não é a minha imaginação. Não seria nada surpreendente se príncipe Diamante tentasse com nossa princesa concretizar uma paixão que não conseguiu com a antiga rainha.
— Yumi é boa observadora, Helios. — Rini passou uma mão pelo queixo — Nossa filha é muito parecida com minha mãe, seria natural se Diamante sentisse atração por ela.
— Pelo o que contam os livros de História desse reino, não acredito que o príncipe da Lua das Trevas tentaria forçar nossa filha a qualquer coisa... Sim, ele pode sentir algo por ela, mas deve ser sensato o suficiente para saber diferenciá-la da avó.
— Você não o conhece, querido. No passado, fez de tudo para ter minha mãe, sem se importar com o que acontecesse ou com o que ela sentia. Não me seria estranho se os instintos o dominassem outra vez e ele tentasse tomar a nossa filha à força! — a filha de rainha Serena andava de um lado para o outro.
— Majestade, eis o problema: — Wind se manifestou antes que o rei o fizesse — há retorno.
— O que quer dizer com isso? — Rini perguntou enquanto Helios mostrou confusão também.
— A princesa retribuiu aos olhares e sorrisos, notei que durante todo o ensaio não pararam de se olhar. Príncipe Diamante está conseguindo seduzir a princesa Crystal. Não fazemos ideia do que acontecia entre eles quando a princesa saía do palácio às escondidas para visitá-lo e desconfio de que hoje de manhã, enquanto foram passear, algo aconteceu entre eles e...
Antes que pudesse terminar a sentença, a porta foi aberta outra vez, era Sailor Saturno com Crystal ao lado, as duas sorriam descontraídas, mas logo os sorrisos se desfizeram quando ambas foram encaradas pelos reis e por Sailor Wind.
— Filha, que bom que está aqui. — Helios disse.
— É, muito conveniente, aliás! — diferentemente do rei, a voz de Rini soou irritada.
— O que eu fiz dessa vez? — Crystal perguntou para Sailor Saturno, que se mostrou tão confusa quanto ela.
— Venha já aqui, do meu lado. — Rini ordenou.
Crystal andou em passos lentos, temerosa. Ao ver Yumi ainda em posição de reverência no centro do salão e notar reprovação no olhar, sentiu a garganta fechar. Foi até os pais e não sabia a quem mais temia, se a seu pai e a misteriosa calmaria, ou à mãe, que notavelmente estava brava. Sailor Saturno se retirou, pois notara que naquela conversa não havia espaço para ela, eram só a princesa, os pais e Sailor Wind.
— O que fez com príncipe Diamante essa manhã, minha filha? — Helios perguntou sereno.
“Essa não!” — Estremeceu imaginando se Olho de Peixe abrira a boca para contar alguma coisa. — Ah, nós fomos dar uma volta pelo jardim! — tentou parecer o mais natural possível — O príncipe queria ver as flores, fomos à estufa!
— E foi só? — outra pergunta do pai.
— Ora, e o que mais poderia ter sido? — respondeu nervosa.
— Crystal, somos seus pais, sabe que pode nos contar qualquer coisa. — Rini virou-se de frente a ela — Confiamos na sua palavra, sabemos que não mentiria, por isso, serei muito direta na pergunta. Diamante tentou algo com você?
— Mamãe, está meio cedo para caducar! — gargalhou alto, forçou o riso até onde pôde — O príncipe tentar algo comigo? Claro que não! Somos apenas grandes amigos! Ele me conta as histórias de seu planeta e eu as de nosso reino.
— Não é isso o que Sailor Wind alega, e sabe que Yumi não é mentirosa. — Rini apontou.
— Como assim, Wind? — Crystal, desajeitada, fitou a guerreira do vento, perguntando-se em pensamentos se a mulher de cabelos cor da prata a teria flagrado em segredo.
— Vejo como se olham, sequer sabem disfarçar. — Yumi a golpeou com o olhar e timbre. —Quando a segui até o bosque e presenciei o seu reencontro com o príncipe, notei nos gestos dele intenções nada inocentes!
— Você está sendo maldosa! — Crystal resmungou — Fiquei feliz de ele ter ido assistir meu ensaio, e o príncipe não me olhava diferente de qualquer outra pessoa que estava na sala de música! Ninguém pode me admirar por um instante que tem de haver algum interesse por trás? Tem que ser eu e não o único talento que tenho? Yumi, você fala assim porque parece achar que qualquer tipo de tratamento um pouco afetuoso é sinônimo de más intenções, só que nem todos são tão sérios e polidos como você, e seria muito triste se todas as pessoas precisassem ser frias umas com as outras para não serem mal interpretadas!
— Crystal, acalme-se, ninguém disse que você não tem talento, é claro que é possível olharmos para você por admiração. – Helios abraçou a filha. — Não precisa falar desse jeito com Yumi, ela não quis ofendê-la!
— É só isso, Crystal? Diamante a olhava cantar, apenas? — a mãe ainda desconfiada, questionou. — E toda a vez que foi visitá-lo ele a tratou respeitosamente?
— Sim! Príncipe Diamante não sente nada por mim além de uma afeição quase fraternal, minha mãe! Por favor, pare de implicar tanto com ele! — a voz soou tremida, a princesa acreditava que teria um ataque se aquela conversa perdurasse.
— Majestade, eu me retiro — Wind se levantou irritada, sabia que não adiantaria persistir naquela discussão, no entanto, não acreditava que o que presenciara fora uma simples apreciação de talentos.
— Ai, filha... — Rini suspirou, tentando manter a calma — Me perdoe, mas meu sexto sentido não me permite confiar completamente em Diamante... Algo me diz que ele ainda é muito perigoso e que devo protegê-la! — tocou o rosto da filha com as duas mãos — Eu só não quero que ele se aproveite de você por ser como a sua avó.
— Eu não sou a minha avó e ele sabe disso. — as feições de Crystal tornaram-se zangadas.
— Entenda, filha. Apesar de não ser a sua avó, carrega dentro de si o espírito dela, e mesmo seus traços, olhos e sorriso são muito semelhantes... — Rini abrandou o tom de voz, tentando acalmar a menina e fazê-la entender.
— Mas não sou ela! — a menina tirou as mãos da mãe do rosto e deu um passo para trás, afastando-se do pai também, em seguida, impulsiva como era, correu para sair de lá.
— Crystal, filha, volte aqui! — Rini ergueu o braço em direção à filha e chegou a dar alguns passos atrás dela, mas a princesa correu para longe, quando a grande rainha chegou à porta não viu para que lado do corredor Crystal rumou. Passou a mão pelo rosto, frustrada — O que eu faço? Parece que só falho com essa menina!
— Querida... — o marido se aproximou e tocou os ombros da esposa — Precisa parar de tratar Crystal como sua mãe, mesmo que ela seja a possível reencarnação. Pense que Crystal também tem desejos, sentimentos, e deve ser horrível para ela a todo o momento ser comparada com alguém que sequer conheceu.
— Não consigo ser boa em nada, nem como rainha, tampouco como mãe! — Rini quase desabou, mas conteve a emoção em seus olhos com sucesso.
— Você é muito melhor do que pensa, minha pequena dama... — Helios a abraçou por trás — Ainda há muita doçura dentro de você... Tente confiar não somente em outras pessoas, mas em si mesma!
...
Crystal correu até o quarto e trancou as portas, encostada nelas, suas costas escorregaram até que caiu sentada à abraçar a si mesma. O coração gritava enquanto as articulações enrijecidas do corpo tremiam, quase fora pega! No entanto, o que mais a incomodava era aquela dúvida que outra vez a perseguia, a que se materializava em seus sonhos:
— Será que foi a minha avó que o príncipe visualizou quando me beijou? — passou os dedos indicador e médio pelos lábios contornando-os. Os olhos umedeceram tanto, porém, apenas uma lágrima escorreu deles.
Estava tão feliz até pouco tempo e agora já não sabia mais o que sentia, eram muitas sensações para serem definidas, somente algo era claro, queria beijá-lo novamente, ansiava por estar naqueles braços outra vez, desejava poder ser devorada por eles e neles se perder.
...
— A beijou? — Saphiro quase pulou para trás ao ouvir a confissão do irmão.
— Foi irresistível, tudo era propício! O momento, as flores, o jeito como ela caminhava... — Diamante sentou na cama e apertou os lençóis.
— E como ela reagiu? — o mais novo, estupefato, caiu sentado sobre uma poltrona que havia naquele quarto.
— Ela correspondeu... — o Black Moon mais velho olhava para o nada, também surpreso. — Ela quis!
— Irmão, compreende o quão grave foi sua atitude? Os pais dela jamais aceitarão esse envolvimento, por mais que ela ceda a você!
— Sim, eu sei! — levantou subitamente e jogou a capa — Podemos ser expulsos daqui a qualquer momento por minha imprudência!
— E o que pretende fazer agora? Está arrependido?
— Eu não sei! — estava nervoso, sim, muito nervoso — Só sei que desejo mais, Saphiro!
— Irmão, pare e pense! Essa menina não é Sailor Moon, é muito parecida, mas não é ela! — o caçula também levantou. — Você pode estar confundindo o que sente, e com isso, causará um enorme estrago em sua vida e na dela! Ah, e não pode se esquecer de que, se a tal princesa for mesmo a reencarnação de nova rainha Serena, é certo de que rei Endymion também deve ter reencarnado e virá ao encontro dela!
— Eu sei! — Diamante quase gritou — Eu sei de tudo isso, mas eu a quero! Se ao menos ela não demonstrasse o mesmo... Mas, ela me quer também, eu sinto isso! Endymion, Edymion, Endymion! Não aguento mais ouvir esse maldito nome! Estou farto desse fantasma!
Durante os breves segundos em que o tom de voz fora alterado, Saphiro viu em seu irmão o espectro da vida passada, o príncipe temperamental e passional que desejara a destruição de todo um império somente pelo amor de uma mulher.
— Saphiro, preciso refletir... Por favor, deixe-me a sós. — notando o próprio comportamento, concluiu que o melhor a se fazer era discutir consigo mesmo em pensamentos até chegar a uma solução para aquele dilema. Não queria ser grosseiro com um ente tão querido, já bastara o quão duro fora na outra vida.
O mais jovem acatou a decisão do mais velho e se retirou. Ao fechar a porta, suspirou aflito. Afastou-se de punhos fechados, sentiu uma forte necessidade de procurar algo que o distraísse para não permitir que a negatividade o dominasse, assim como indagações indevidas. Como se fosse um instinto, seus passos o levaram até o coreto de vidro embrenhado entre as árvores do jardim. Subiu os poucos degraus e foi até o centro, sentou-se ao piano de cauda e fitou as teclas. Desejou tanto que Hina estivesse lá a tocar para apaziguar a sua alma, sorriu discreto por ser tão bobo, parecia um menino pensando nela. Tocou uma tecla, depois outra buscando uma melodia agradável, mas não tinha o menor talento para a música. Ouviu um risinho vindo de fora, virou o rosto e viu quem era, a sua ruivinha...
— Esses sons são dissonantes... — aproximou-se, tímida como sempre.
— Pode me ensinar a tocar algo melódico? — perguntou, também sem jeito.
Hina, ainda envergonhada, sentou ao lado dele e calmamente tocou algo simples apenas com a mão direita, em seguida, completamente desajeitada, segurou de leve a mão dele para mostrar como deveria fazer. Saphiro viu a face da jovem rosar mais uma de muitas vezes, todavia, o toque quente e simples de mãos fez o Black Moon corar também, discretamente. Tentou ao máximo distrair-se para não ser envenenado pelos próprios pensamentos e previsões. O contraste dos fios vermelhos ao tempo chuvoso por trás do vidro das paredes o ajudava a apaziguar a mente, ao menos um pouco. Abriu um pequeno sorriso e se deixou levar pela música e boa companhia.
...
“Volte...” — Bastou que ficasse sozinho, e aquela voz tornou a assombrá-lo. Talvez fossem o nervosismo e a confusão os causadores. A palavra “vingança” unida à “Endymion” o perseguiam como se fossem seu fardo. Diamante se jogou sobre a cama e fitou o teto claro, depois fechou os olhos tentando relaxar. Tolice. Em um milésimo de segundo viu em sua mente uma menina de cabelos arroxeados sentada em um tatame, em seguida Nemesis em ruínas. Sentou em um pulo, sentiu suor escorrendo pelo canto do rosto e o enxugou.
“O que diabos significa isso?” — pensou, perturbado.
...
— O que há Yumi? — a voz familiar soou ao lado.
Sailor Wind estava sentada na sacada, perdida em pensamentos, quando junto à voz, o queixo de alguém repousou sobre seu ombro e dois braços a envolveram pelas costas.
— Mizumi, não me amole. — Disse fria.
— Ah, pare com isso! Sei que está apreensiva, posso ler seu comportamento como ninguém. — a guerreira dos mares desfez o abraço e sentou ao lado da guardiã do vento — O que há?
— Algo está acontecendo, e não é nada bom... Meu instinto não falha, Mizumi. O príncipe Black Moon e seu irmão trarão desgraças a nosso reino, escute bem. — Wind olhava para o céu, que aos poucos se fechava, anunciando tempestade.
— Mas que coisa, teremos que adiar a nossa saída para comprar vestidos... — Mizumi disse a fitar o céu também.
— Será que só pensa em futilidades? — A mulher de olhos e cabelos de prata virou o rosto e encarou a outra. — Deveria preocupar-se com uma possível guerra futura!
— Você que é drástica em tudo, Yumi! — Sailor Ocean balançou as pernas, ainda a fitar o céu cinzento — Nunca se diverte, nunca interage com os que estão à sua volta, não se envolve sentimentalmente...
— Você é a última pessoa que pode falar de sentimentos. — Yumi a cortou. — Desde quanto sente algo verdadeiro por alguém? Todos são peças em seu joguinho de sedução.
— Joguinho de sedução, do que está falando? — Mizumi riu, em seguida, passou a mão pelos cabelos e cruzou as pernas.
Yumi a fitou em silêncio, por instantes a guardiã dos oceanos quase acreditou que a mulher fria como o gelo a contemplara, abriu um sorriso de satisfação e deslizou uma mão pela sacada com o intuito de tocar a de Sailor Wind. Fracassou. A mulher esguia, em movimentos leves, saltou da sacada, e embora a altura fosse considerável, chegou ao solo dos jardins intacta e de pé, pairou com uma pena de anjo no ar. O vento, ironicamente, soprou mais forte, fazendo os fios ondulados azuis esverdeados de Mizumi balançarem, pela cor, seus cabelos pareciam literalmente ondas se formando na praia. De baixo, a solitária representante dos ventos a encarava, para outros que tentassem ler seu olhar, nada ele representaria além de indiferença, mas Mizumi via além, aqueles espelhos refletiam desaprovação, mágoa, e bem no fundo, quase disfarçado por trás das pupilas opacas, afeição, desejo de proteger, e também, um outro tipo de desejo o qual Sailor Ocean há muito tentava reacender...
— Parece que há alguém atrás de você para resolver um assunto interminado. — Foram as últimas palavras da mestra da rispidez. Yumi correu ao longe, deixando para trás a brisa da chuva que logo cairia unida a algumas folhas que recentemente abandonaram os galhos das árvores.
Mizumi sorriu e virou o rosto, já sabia de quem se tratava.
— Passarinho? Demorou a me procurar! — brincou.
Olho de Águia estava a postos atrás, os olhos castanhos avermelhados ardiam em mescla de raiva e luxúria, os lábios comprimidos de ansiedade, músculos tensos e mente atribulada de pensamentos sujos. Mizumi andou até ele naturalmente, esbanjando o sorriso que o deixava ainda mais perturbado. Frente a frente, Águia não deu tempo para que Mizumi falasse ou se movesse, segurou seus pulsos com violência e ainda a apertá-los, prensou-a contra uma coluna.
— O que é isso, passarinho? — o sorriso se manteve, assim como a chama naqueles olhos marinhos. Irritava mais ainda o homem por não demonstrar intimidação, pelo contrário, era claro como brilhante o prazer estampado nas feições e também, arrepios pela pele de Mizumi.
— Vou mostrar a você que com Olho de Águia não se brinca! — o timbre soara mais grave do que o normal. Não satisfeito, apertou com ainda mais força os pulsos dela, quase causando dormência nas extremidades dos dedos pela falta de circulação de sangue.
— Então mostre, mostre agora! — Mizumi gemeu propositalmente, apenas para provocá-lo.
— Não devia me desafiar, Sailor Ocean! — Apertou-a contra a parede, espremeu os corpos e quase lhe furtou o oxigênio.
— Passarinho — riu — Você não me assusta.
— Não sou um passarinho, sou uma ave de rapina, um caçador! — segurou Mizumi pela nuca com uma mão, puxou-lhe alguns fios de cabelo, e ainda assim aquele sorriso na face da sereia persistiu. — Agora, vamos terminar o que você começou!
— Gosto de me sentir a presa... — tocou a palma da mão na barriga de Água e a subiu até o peito — Tente me dominar! — parecia tão delicada, mas rápida e ágil, com uma só mão, conseguiu empurrá-lo longe o suficiente para colidir-se a uma parede. Em um salto, Sailor Ocean pairou de pé sobre a sacada, graciosa como uma bailarina.
— Sua... — Águia se levantou desajeitado, passou as mãos pelos ombros limpando a poeira, em seguida ao fitá-las, notou três fios verde-água enrolados nos dedos. — Vai aprender a não me ridicularizar!
— Adoro esse seu jeito bravo, passarinho, me anima muito! — o semblante de contentamento era mais um fator que o irritava, juntamente a todo o resto: Os longos cabelos macios bailando ao vento que anunciava a chuva prestes a cair do céu escuro, os olhos verdes de água salgada, o traje de marinheira cuja saia curta a movimentar-se exibia a virilha da guerreira. Jamais sentiria tanta atração por alguma outra mulher como sentia por ela.
— Um! — o integrante do trio Amazonas ainda dominava a velha técnica, por trás de Mizumi surgiu algo similar a uma parede vermelha que a atingiu pelas costas — Dois! — as mãos da mulher, elevadas à altura do rosto foram presas, e a maldita não abandonava o sorriso que tanto o irritava — Três! — Enfim, o espelho dos sonhos de Mizumi surgiu a reluzir.
— Que gracinha, quer saber qual é meu sonho, passarinho? Esperava mais de você. — a marinheira curvou os lábios em um bico.
Antes que Olho de Águia se aproximasse o suficiente de Mizumi para desvendar a sua maior fantasia, um redemoinho o abateu. Sentiu uma dor aguda em todos os membros do corpo, perguntava-se de onde aquele pequeno fenômeno surgira quando, caído no piso de cristal, viu a silhueta por trás da névoa branca — alta, esbelta, pernas longas como os braços e os finos dedos que para ele apontavam.
“Mas ela não tinha ido embora?” — não conseguia compreender o surgimento tão repentino.
— Ah, Yumi... Não precisava! — Sailor Ocean se libertou da armadilha em um sopro e recuperou seu espelho dos sonhos.
— Olho de Águia, isso será reportado à rainha imediatamente! — Sailor Wind, como um soldado, anunciou.
— Não! — a outra a segurou pelo braço — Era só uma brincadeira, não seja tão dura!
— Mizumi, sei que poderia ter se soltado dessa armadilha amadora facilmente, mas ainda assim o que esse homem fez foi inapropriado. — Wind abandonou a posição de luta, entretanto a sua hostilidade habitual não se desfizera.
— Eu o induzi a fazer isso, sou mais culpada do que ele, portanto, esqueça isso! — pela primeira vez, Águia a via falar sério.
— Que seja. — a mulher esguia puxou o braço e o desvencilhou da mão de Mizumi, passou ao lado de Olho de Águia sem sequer encará-lo e sumiu corredor à dentro.
O ex-artista circense se levantou em silêncio, vestia a roupa exótica que usava quando era um integrante do Circo da Lua da Morte, Mizumi riu ao reparar o “modelito”, e mais uma vez, constrangeu o rapaz de cabelos rosados e arrepiados. A mulher, como sempre elegante, parou de pé ao lado de Águia e ergueu-lhe a mão para auxiliá-lo. O orgulho não permitiu que aceitasse a ajuda, levantou por si mesmo e ainda calado mirou os olhos no piso que refletia a sua velha forma, em um piscar de olhos, a farda que ganhara de Helios tornou a adornar seu corpo. Respirou fundo, buscando a calma e sensatez, até que foi abraçado de lado e o peso de um rosto repousou sobre seu ombro, um ar morno soprado no pescoço provocou um arrepio.
— Já passou passarinho... Está mais calmo? — Mizumi afagou as costas dele.
— Sailor Ocean, sinto muito por meu comportamento...
— Mizumi. — sussurrou ao ouvido dele, arrepiando-o novamente. — Quero que me chame assim.
Águia virou o rosto e fitou-a confuso e extasiado. Sentia-se como um brinquedo nas mãos dela, mas não conseguia resistir ou reagir aos toques, voz, e claro, à beleza madura, cheia de curvas.
— Deixarei a porta de meu quarto encostada à noite — outro sussurro entorpecente — Venha me fazer uma visita, podemos terminar o que comecei... O que acha? — Ao término da frase, soltou-o e andou calmamente na mesma direção que Sailor Wind seguira. Olho de Águia pensou que o corpo desmontaria, passou a mão pelo ouvido, desacreditado, e em pouco tempo voltou a ser o velho Águia, um sorriso malicioso de triunfo se formou, os olhos faiscaram.
“Parece que estou bem à frente de meus companheiros no jogo do amor...”.
...
Crystal recuperara o fôlego após algum tempo de meditação em frente ao espelho, penteou os cabelos e prendeu-os em marias-chiquinhas altas, como sempre fizera. Suspirou e deixou o quarto. Observara as nuvens negras no céu e mesmo assim resolveu sair para espairecer. Foi até os jardins, fitou a direção que a levaria para fora do palácio e só não resolveu sair por causa do clima. Seguiu o caminho de pedrinhas que levou até uma fonte, que como todas as outras, possuía em seu centro a escultura de rainha Serena. Levantou a longa saia do vestido lilás bem claro, livrou-se dos sapatos e mergulhou os pés na água rasa. Andou até a imagem esculpida como uma santa, largou o tecido que segurava e não se importou que a borda fosse molhada. De frente ao monumento, fechou os olhos e lembrou-se da voz da antiga rainha dizendo:
— Eu faço parte de você, e você faz parte de mim — disse em voz alta e completou: — Mas eu não sou você, vovó... Eu tenho a minha alma!
Da janela do quarto, Diamante viu o caminho que Crystal seguiu, e por mais que tentasse resistir, não foi forte o suficiente para conter a vontade de encontrá-la.Precisavam se ver, precisavam conversar... Fechou os olhos, concentrou-se, e pela segunda vez desde que voltara a viver, utilizou seus poderes: Transportou-se.
Uma forte trovejada clareou os céus, simultaneamente, ao findar o grave ruído, o príncipe de Nemesis surgiu atrás de Crystal, à beira da fonte. A princesa estava tão distraída que não notou a sua presença, Diamante aproveitou para admirá-la em silêncio. Perfeição – era a denominação para a visão da atual princesa e antiga, uma de frente à outra, encarando-se, simbolicamente selando o elo transcendental e genético.
Crystal segurou as barras do vestido outra vez e o subiu, exibindo as canelas e os pés, virou-se calmamente no intuito de voltar ao palácio ou dar mais voltas pelos jardins, foi quando se deparou com o senhor de seus sonhos, tremores e anseios. Engoliu seco e estancou, poderia jurar que por breve instante seu coração parou para depois palpitar afobado. O príncipe, por sua vez, mantinha a serenidade não só no olhar como em todas as expressões faciais, mesmo que por dentro estivesse a ponto de explodir.
A princesa pensava se ele viera para dizer que havia se confundido, que aquele beijo não passara de uma recaída nostálgica. Mordeu o lábio inferior e baixou o olhar, porém, seus passos traiçoeiros iam de encontro a ele. Diamante a esperava de onde estava. Por fim, ficaram um de frente para o outro, Crystal levantou o olhar devagar, seu peito subia e descia em um respirar pesado, afoito. Apertava o tecido nobre da saia, não manifestava fala alguma, esperava que ele a iniciasse. Diamante, atento, percebeu em cada pequeno traço e marcas de expressão da menina o quão nervosa estava, e por outro lado, como era radiante mesmo não demonstrando alegria e sem ser agraciada pela luz do sol, ausente naquela tarde. Olhou por pouco tempo para a imagem de rainha Serena lapidada em cristal e tornou a fitar a jovem à sua frente.
— Tão parecidas, mas tão diferentes... — disse, quebrando o mórbido silêncio. Segurou o rosto da princesa com uma mão e passou o polegar por uma bochecha, fria pelo clima chuvoso.
— É o meu fardo! — Crystal sorriu, era um sorriso triste. Tremia pelo frio, e também pelo esforço de controlar o choro, que parecia insistir em libertar-se.
Diamante a puxou bruscamente de encontro a seu peito e a envolveu com os dois braços, foi o golpe fatal. Crystal emitiu um grunhido e em seguida lágrimas desceram como grossas cascatas, incessantemente. O príncipe, sem saber o que dizer, passou a mão pela nuca de Crystal tentando acalmá-la, mas parecia inútil. As mãos da jovem apertavam-lhe o tecido da roupa, o corpo frágil tremelicava, e talvez se não possuísse o amparo do nemesiano, não se aguentasse em pé.
— Por que chora? — Perguntou aflito, temendo que aquilo fosse remorso por ter cedido ao beijo.
— Porque quero ser amada por quem sou... — levantou o rosto, e fitou-o novamente, com o rosto marcado pelas lágrimas — E quero ter o direito de amar quem eu desejo!
— Mas se for Sailor Moon... — começaria a falar sobre Endymion.
— Eu sou Crystal! — não permitiu que terminasse.
Naquele instante, finas gotas de água caíram dos céus, rapidamente intensificaram o pranto das nuvens e tornaram-se mais espessas. Crystal segurou o braço de Diamante e o puxou para debaixo de uma larga árvore. As costas da princesa bateram no tronco, as mãos do príncipe a cercaram sem querer. Ambos quase ofegantes pela pequena fuga da tempestade olhavam-se e pensavam no que poderia ser dito e feito. A princesa buscou ar o suficiente, e mesmo temendo que o coração fosse escapulir pela boca, se pronunciou:
— Quem beijou hoje na estufa, eu ou minha avó?
Os olhos de Diamante arregalaram-se levemente, e a língua enrolou-se na tentativa da resposta. No fundo não sabia o que dizer, só sabia o que desejava fazer.Por que ela tinha que lembrá-lo ainda mais do ocorrido e de seus dilemas? Ainda mais daquele jeito, molhada de chuva, com o vestido colado ao corpo, a saia transparecida, gotas de água respingando do rosto e cabelos mesclados à lembrança da frase que em outro dia ela disse. Em um ato insano, ignorando a questão, colou os lábios aos dela novamente, mas por pouco tempo, logo se apartou tentando conter o que considerava uma loucura.
— Eu sinto mui... — começaria a desculpar-se por esse beijo e pelo anterior, mas as mãos que seguraram o seu rosto, não permitindo que se afastasse, o pararam.
— Não! Não sinta! — aquele tom soava como uma súplica, assim como o toque desesperado. Ela tomou a iniciativa e o beijou novamente, uniu os lábios ao dele não só uma vez, mas várias, uma seguida da outra, em selinhos frenéticos, pedintes — Não sinta, por favor, não sinta muito!
... E esse foi o fim da resistência. Diamante matou em si qualquer tipo de cerimônia e finalmente permitiu o instinto inibir a razão. Abriu a boca e devorou a de Crystal, invadiu-a com a língua impiedosamente. As mãos da princesa abandonaram o seu rosto para deslizarem pelos ombros, pescoço e nuca. O príncipe, inebriado pelo gosto adocicado, pela maciez e calor da pele, agarrou-lhe a cintura e atou os corpos molhados em um abraço quase sufocante. Beijava-lhe a boca, depois o rosto, o pescoço, voltava aos lábios e reiniciava aquele ciclo incessantemente, sentia o coração dela quase apitar a cada toque, as mãos dela descerem por suas costas, o corpo entregue em seus braços como um presente, estava feito. Ela era sua, ao menos naquele momento, abaixo das largas folhas e da tempestade, era sua.
Continua...
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