A Minha Queda Será Por Você
42 Escrito por linhas tortas
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 42 – Escrito por linhas tortas
Eu os selei, para todo o sempre! — Crystal acordou no meio da madrugada, arfante, impregnada pela frase sombria. A pele eriçada repuxava-se. O vento tempestuoso abrira a janela e uivava sombrio. As cortinas brancas agonizavam-se, tontas, e ela, assustada, pulou da cama, fugiu do quarto e correu pelos corredores. Não quis pedir abrigo aos pais, não iria preocupá-los, procurou outra forma de proteger-se e encontrou-a num quarto desabitado.
Acendeu a luz e atentou-se a cada detalhe: à cama arrumada, lençóis recém-trocados, a poltrona encapada, e, em uma prateleira qualquer, um vaso vazio. A memória dela pintou uma tela de rosas azuis naquele romântico jarro. Na cama, um príncipe deitado, na poltrona, o mesmo príncipe sentado. Ele lhe sorria, ameno, embora os olhos púrpuros cintilassem sua intensidade e desejo. Ela suspirou, aproximou-se do leito e jogou-se sobre ele, abraçou os travesseiros e afundou-se em algodão. Embora a roupa de cama fora trocada há tempos e o dormitório limpo diversas vezes, Crystal ainda sentia o cheiro Dele impregnado em cada centímetro de coisa. Imaginando-o perto, adormeceu enfim. Todavia, como Ametista profetizou, não pôde alcançá-lo nos sonhos, uma espécie de barreira em torno dele a impediu e impediria sempre... Estavam fadados a desencontrarem-se.
De manhã, Neherenia partiu, todos a agradeceram e despediram-se amistosos. Rini, de certo modo, ficou um pouco aliviada por a Rainha de a Lua Nova regressar às suas terras. Helios, risonho, logo adivinhou o porquê: ciúmes infantis. Ainda assim, a coelha crescida era grata e para sempre seria.
...
Escola, novamente, e depois, dever de casa para fazer. Conforme o tempo passava, o período de provas se aproximava. Crystal teve vontade de arrancar os cabelos.
— Está tudo errado, faça de novo! — Marine decretava ao ver as contas desorganizadas em um papel, sem pena o amassava e arremessava na lixeira.
— Ai! — Crystal desmanchava-se na cadeira, irritada e frustrada. No fim das contas, lá ia a coitada, o cérebro a ponto de fritar, refazer os cálculos todos.
— Não acredito nisso, quantos erros de grafia! Você chama isso de redação?! — de novo, Marine rasgava ou amassava o papel, não importava, o destino era o mesmo: lixo. — Faça outra vez!
— Estou com saudades das aulas de Sailor Wind, ela era menos cruel... — Crystal cochichava com Reiko e Hina quando Marine dava as costas.
— O que disse? — a geniosa guardiã das águas, sempre atenta, virava-se, as mãos adornavam-lhe a cintura.
— Nada não! — disfarçava abobalhada.
E aquele tipo de cena se repetia com frequência. Por mais chato que soasse, daquela forma elas foram se aproximando, e quando menos esperavam tornaram-se grandes amigas, como nunca antes foram. Esqueciam-se de que estavam entre sailors e princesa e tornavam-se apenas adolescentes vivendo o momento. Damien e Olho de Tigre se juntavam ao grupo animado às sextas-feiras, dia que, após a aula, Sailor Wind as liberava para se divertirem. Juntos, passeavam pela cidade, iam ao parque de diversões, visitavam museus, assistiam a filmes nos enormes hologramas dos cinemas, faziam compras e se deliciavam com as comidas engordativas das lanchonetes. Logo, conheceram a cidade de cabo a rabo. Como jovens comuns, registraram cada aventura em fotografias, Crystal mandou fazer um grande painel prateado e pregou-lhe várias, pendurou-o à parede, onde um dia jazeu um espelho. Antes de dormir, admirava cada imagem, se contagiava pelos risos gravados nas fotos, e assim sentia-se menos vazia e dormia, quase em paz. Driblava a saudade como podia. Porém, não era de desistir fácil, quando a oportunidade surgia ela subia naquele palanque e tentava discursar, descia os degraus depois de muito ser enxotada.
— Você nunca chegará aos pés de sua avó! — ouviu de alguns outra vez, e a frase se repetiu por dias.
Num dia qualquer, enquanto passeava com os amigos pela praça, avistou o templo que uma vez prendeu sua atenção. Separou-se do time e se aproximou da sagrada arquitetura. Prendeu os olhos nos vitrais de seus avós, nas faces das guerreiras de outra era esculpidas em mármore e resolveu entrar. A catedral, como por fora, no interior era toda branca, alumiada por enormes lustres de cristal. Colunas gregas sustentavam-na, sentadas em bancos revestidos de veludo arroxeado, pessoas oravam. No fim do extenso corredor cristalino, um patamar com duas estátuas esculpidas em cristal maciço e rosado: os antigos soberanos. A princesa se aproximou, intimidada pela magnitude do par, e diante eles, sobre dois degraus, ajoelhou-se e uniu as mãos.
— Me ajudem... — sussurrou — Não sei o que fazer para que eles me deem ouvidos.
Silêncio, depois, o soar melancólico de um grande órgão no andar de cima tocando uma canção nostálgica e arrastada, conhecida pelo nome Moonlight Densetsu. A música entorpeceu todos os sentidos da garota deslocada. Seus olhos nevoados elevaram-se às imponentes esculturas e elas pareciam fitá-la, intensas. As mãos das duas lendas, entrelaçadas, apertavam-se, inseparáveis. Os raios de sol atravessavam os matizes e refletiam as diferentes cores nas obras de cristal, o vidro precioso espelhava-as sobre Crystal. De repente, ela ouviu o som de gente se levantando, e passos, e então, uma sombra estagnou ao seu lado. Virou os olhos lentamente e teve o vislumbre de um homem numa armadura negra erguendo-lhe a mão. Assustou-se e meneou a cabeça, confusa. Não havia armadura, apenas um traje, que por coincidência era feito do mesmo tom de preto que os cabelos pousados nos ombros, a mão dele, aberta na direção da menina, convidava-a a segurá-la. Sentiu-se tão protegida que não resistiu, entregou-a e os dedos entrelaçaram-se, sem perceber, acabou por reproduzir o gesto das estátuas.
— Vida longa ao príncipe e a princesa! — primeiro uma mulher, depois outras pessoas repetiram e curvaram-se, leais. Reconheceram-nos, mesmo não vestidos a rigor, ela compunha-se no uniforme do colégio, ele em trajes casuais, um longo casaco negro sobre camisa e calças sociais do mesmo tom.
Um caleidoscópio é meu coração
Luz da Lua, guie este amor...
O coral cantou o refrão e deu um ar ainda mais épico àquele momento. Crystal sequer notara quando as vozes límpidas deram o ar de sua graça e combinaram-se ao instrumental. Uma lágrima involuntária escorreu de seu rosto, ela rapidamente a enxugou, libertou bruscamente a mão e saiu correndo. Damien se ergueu sobre os degraus e observou-a, contra a luz, abandonar o lugar sagrado. Às portas, as meninas, Yumi e Olho de Tigre encararam-na interrogativos.
— Estou com fome! — arranjou um sorriso qualquer — Podemos ir para casa?
— O que há com você, Crystal? — Hina, discreta, perguntou-lhe ao ouvido.
— Nada! — exaltou-se ao ver Damien surgir na entrada. — Vamos, vou na frente! — correu afoita, fingindo uma empolgação que não lhe pertencia.
— O que aconteceu lá dentro? — Marine esperou que os outros tentassem alcançar a princesa para perguntar a ele.
— Algo muito estranho, e muito mais forte do que nós... — suspirou distante. — Marine, nos tornamos grandes amigos nesse tempo. Posso confessar uma coisa?
— Claro! — sorriu terna, como só era quando estava com ele.
— Acho que realmente somos as reencarnações de Endymion e Serena. Depois de hoje, não tenho como duvidar disso.
O sorriso fechou-se devagar, os olhos dela pesaram de preocupação assim como suas mãos inertes. Os cabelos dourados, no entanto, chacoalharam-se agitados quando uma brisa passou depressa. Dessa vez, ela deixou escapar um suspiro.
...
— O príncipe está de volta! — Jade anunciou quando pisaram no palácio.
Saphiro, ansioso, foi o primeiro a aparecer no salão real. Expandiu um sorriso brilhante quando viu as portas abrirem e o irmão mais velho surgir das sombras, no entanto, assim que as luzes tornaram os traços lânguidos visíveis, o Príncipe Azul escondeu a arcada ebúrnea por trás de lábios curvos para baixo.
Os olhos violeta, desfocados, giravam perdidos, às vezes davam lentas piscadas, a boca, seca e rachada, jazia reta, entreaberta. Diamante estava em um estado de apatia tão profunda quanto preocupante. Quartzy, ao se chegar, viu Saphiro tocar os ombros do regente e apertá-los para provocar alguma reação.
— Mestre! — Akai saiu do lado de Diamante e correu em direção a Topázio assim que o viu presente, perto dele estavam Aoi e Onyx, ela os ignorou completamente e enroscou-se no pescoço de seu cavaleiro precioso.
— Akai, agora não é hora! — resmungou enquanto sorria discreto, não para a serva e sim para uma Jade à distância. Ela lhe virou a cara.
— Estão todos mortos... — Diamante murmurou catatônico.
— Como? — soara tão baixo que Saphiro não compreendera.
— Mortos. — falou num tom firme, destoante ao anterior. Sombrio, fitou o caçula — O nosso povo morreu de fome. — rangeu os dentes, grave. — Andei por todos os cantos desse pequeno inferno e só encontrei cadáveres!
— Não pode ser... — o mais novo empalideceu.
— E nós seremos os próximos se não fizermos alguma coisa. — Topázio tomou o turno de fala.
Quartzy cobriu a boca com as mãos, o ar lhe faltou. Tentava digerir as palavras aterradoras do Príncipe Branco. Akai não parecia entender a gravidade da situação, Aoi coçava o canto da cabeça confusa. Onyx mostrou-se calmo, como alguém que já esperava por tal notícia, o cavaleiro dourado, por sua vez, emanou o triunfo pelo olhar e se pronunciou:
— Ainda pretende resolver as coisas através de um casamento, príncipe?
— Não é hora para isso! — Saphiro intercedeu pelo irmão.
— Na verdade, não há hora mais propícia! — O cientista tomou o lado da Crueldade feita em Ouro e Topázio — Acho que deveríamos mostrar a ele o que descobrimos!
— Agora não! — Saphiro esqueceu-se de sua serenidade costumeira e bradou, surpreendeu até Quartzy. — Irmão, me acompanhe. Você precisa descansar... — segurou o braço do parente e fê-lo envolver seu pescoço, assim, lado a lado, deu-lhe apoio até chegarem aos aposentos de Diamante. Lá, o Segundo Príncipe acomodou-o a cama.
— Do que eles estavam falando, Saphiro? — os olhos reviraram, exaustos, ele pousou a mão à testa numa tentativa de conter a enxaqueca, algo azul-claro forçou sua vista a atentar-se, eram as rosas num vaso, estranhamente não murcharam.
— Acho melhor ver com os seus próprios olhos... — fechou os punhos e espremeu as safiras, raivoso — Mas, só quando estiver se sentindo melhor. — enfatizou.
— Eu quero saber, já! — Impaciente, sentou-se.
— Não! — conteve-lhe — Suplico que espere melhorar.
— É sobre ela, não é? Eu sinto!
Saphiro se calou.
— Topázio! Onyx! — o líder gritou os nomes. Teimoso, levantou-se e cambaleou do quarto aos corredores, insistiu em chamá-los até que se apresentassem — O que querem me mostrar? Do que estavam falando? — ansioso e trêmulo, ofegou — Não quero que nada se adie, andem logo com isso, falem o que quer que seja!
— Não é algo para se falar, príncipe, é para se ver! — Onyx riu e irritou-o ainda mais. — Siga-me! — de peito estufado, andou na frente como o guia que pretendia ser.
Saphiro alcançou-os, tentou segurar Diamante outra vez. Impulsivo, o príncipe regente o empurrou e insistiu em ir. Topázio os acompanhou por último. Entraram na sala de holografias, Onyx parou diante da mesa onde as cápsulas eram encaixadas. As mãos dele afagaram o aparelho e, através das lentes arredondadas dos óculos, encarou o príncipe com um largo e insano sorriso no rosto.
— Graças às minhas tecnologias, descobri que o par de seu brinco ficou esquecido em Tóquio de Cristal, precisamente com sua tão querida princesa, vossa alteza. Para que o senhor não questione minha devoção e lealdade, adianto que, por mais que eu possuísse chances de dar um fim à vida dela, contentei-me em observar seus movimentos. Admito, fiquei curioso depois que o senhor se vangloriou tanto do romance que brotou entre ambos, e, a princípio, até acreditei que fosse real, já que a menina levava consigo o acessório para onde quer que fosse, pendurado no pescoço, como um pingente...
— Pare de enrolar! — Topázio ordenou.
— Estou tentando explicar! — riu-se — Continuando, sim, ela sofreu com sua partida, como qualquer garotinha teria sofrido. Não é verdade? Mas... — encaixou seu apetrecho circular a mesa, pois ali as imagens se formariam com maior amplitude e detalhes — o tempo passou, e com o tempo as coisas mudaram, mais rápido do que eu esperava.
Os olhos de príncipe Diamante dilataram-se, a boca se abriu muda, e as mãos se fecharam fortemente. O Outro, sempre por perto, tocando as mãos da menina, acompanhando cada passo dela, isso ele esperava, mas, vê-la atirada nos braços daquele energúmeno e a peça negra despedaçada no chão como se nada fosse... Ah, não! Aquilo não! O sangue ferveu e correu furioso, a face pálida vermelhou de raiva e ele tremeu. Enquanto cumpria com as obrigações de seu sangue e tentava resgatar o que quer que tivesse sobrado de sua terra natal, Ela se consolava nos braços do homem odiado por ele! Diamante se esquivou enquanto pôde, e Ela insistiu que o queria até quebrar sua resistência, para aquilo?!
— Apaixonaram-se. Como prova de amor a ele, ela destruiu o seu brinco e, então, a perdi de vista. Como eu sabia que isso poderia acontecer, gravei o máximo de imagens que a memória de minha máquina me permitiu. — apertou os botões do pequeno objeto e as holografias se apagaram como feixes de luz que se extinguem — Sinceramente, não faço ideia de que passo tomará, e não cabe a mim opinar, mas espero que meus esforços sejam de alguma ajuda. — reverenciou-o, estranhamente respeitoso.
— Talvez este seja o momento para se libertar, os sentimentos que nutre por essa garota são um empecilho para agir em nome de seu povo. Se ela é o motivo de sua hesitação, lamento, mas não me soa como uma razão concreta para não atacarmos a Terra. Até porque, como se casará com uma mulher que se entregou para outro homem? Acaba de ver com os próprios olhos. Duvidará? Não há fundamento ou praticidade nisso. — Enquanto o gênio do clã esforçara-se para ser compreensivo, o militar não mostrou convalescência. — Portanto, pergunto-lhe na esperança de que sua consciência seja razoável, e de que você não mais se deixe levar por suas emoções, o que decidirá? Cumprir com o objetivo do clã e tomar Tóquio de Cristal, ou nos matar de fome aqui nesse planeta remoto? — cruzou os braços e fitou-o diretamente, sem piscar ou desviar.
Saphiro, apreensivo, observou o irmão mais velho. A lisa franja celeste cobriu-lhe os olhos enigmáticos, o estopim de raiva deu espaço a letargia, o estado anterior. Aliás, a inexpressividade do Príncipe era, em si, um grande enigma. Ele deu as costas, girou a maçaneta da porta e se foi. Todos se surpreenderam com a falta de reação, os três homens que restaram na sala entreolharam-se, dois deles assustados: Saphiro e Onyx.
— Você é o irmão dele! Explique, o que foi isso?! — Onyx perguntou entre risos nervosos.
...
Diamante vagou até o quarto como um fantasma arrastando suas correntes pelo piso, Quartzy o viu e resolveu segui-lo até a porta, não ousou entrar, mas observou através da fechadura o homem entorpecido cativar um ramo de flores em mãos, apertá-las contra o peito e espremê-las até lhes derramar todo o sulco e não lhes deixar uma pétala sequer. O silêncio fúnebre morreu, no lugar dele um grito excruciante, rasgado e selvagem. As trevas envolveram-no, os olhos apáticos arregalaram-se furiosos e ele repetiu, com força, vezes seguidas:
— Mentirosa! Como ousa me trair?! — as mãos cravaram-se à cabeça, os dedos esconderam-se por debaixo dos fios. A dor era tamanha que ele precisava extravasar de alguma forma, os objetos ao redor flutuaram, no estado de ira em que se encontrava, não conseguia controlar os próprios poderes. Não tardou para que mal conseguisse raciocinar. Não houve espaço para dúvidas, estava odiosamente claro para ele. Se relutou contra o que viu, foi por tão poucos instantes que mal conseguiu se lembrar.
— O que está havendo?! — Saphiro encontrou Quartzy à porta.
— Príncipe, não entre lá! — apavorada, pôs-se à frente, impedindo passagem — Sei que é irmão dele, mas do jeito que as coisas estão, ele pode matar qualquer pessoa por engano!
— Deixe-me passar! — disse autoritário, segurou-a pelos ombros no intuito de forçá-la a sair do caminho.
— Não! — num ato desesperado, abraçou-o forte.
— Quartzy?! — segurou-lhe os braços, tentou livrar-se deles, ela o apertou ainda mais — Quartzy, pare com isso, ele não vai me machucar, me deixe passar!
— Não! — persistiu até que caíssem sentados ao chão, enlaçados de frente um para o outro. O coração dela pulava, a face rosara, Saphiro perdeu as forças.
Ouviram explosões do outro lado da porta, som de vidro se quebrando, urros e pragas. Saphiro cerrou os olhos com força e tremeu de cima a baixo. Enterrou o rosto em um dos ombros da bailarina, buscando consolo.
— Jurou que amaria a mim e a ninguém mais, jurou ser minha! – Diamante continuava a gritar, descontrolado – Isso não ficará assim! Não, não ficará! Vai se arrepender! Eu a avisei!
...
— Crystal? — Rini quase deu um gritinho de susto ao ver a filha chegar à sala de jantar trajada em um vestido branco, réplica da nobre vestimenta que Princesa Serena costumava usar no Milênio de Prata.
— Eu resolvi experimentar... — sorriu e corou. Durante a ceia, a mãe a encarou incessantemente.
Depois da sobremesa, a jovenzinha foi a primeira a pedir licença. Já que no quarto não havia mais o espelho da penteadeira, Crystal foi até o salão de baile onde algumas paredes possuíam espelhos gigantescos, iniciavam-se no rodapé e quase tocavam o teto. Parou diante de um e rodopiou, admirando-se, ou melhor: tentou se admirar. Percorreu as mãos pela barriga, ajeitou a saia, e, por último, prendeu parte das marias-chiquinhas nas mãos, simulando os coques que a sua ancestral usava. Suspirou, desapontada.
— Por que está fazendo isso? — o príncipe de Sedna surgiu às costas dela, vidrado na imagem que se apresentava no espelho.
— Há muito tempo tenho percebido que meu povo não me respeita por Crystal, na verdade, eles não gostam de Crystal... — as mãos soltaram as ondas, os falsos coques se desfizeram. — Eles amam Sailor Moon, e se apegam a mim por acreditarem que sou sua reencarnação. O mesmo acontece com você, Damien, essas pessoas nos amam por acharem que somos Serena e Endymion. Então, eu me pergunto, — abraçou a si mesma — Como poderei reinar Tóquio se não sou respeitada? Eles não me escutam... Estou apavorada! — cobriu os olhos com as mãos.
— Ainda falta muito, princesa. — tocou-lhe os ombros e os massageou — Você tem só quinze anos... Eu, com dezoito, ainda não sou rei. Seus pais estarão aqui por muito tempo, você sabe, por causa do poder do Cristal de Prata.
— Minha mãe uma vez me disse que assim que eu completasse a maioridade, me passaria a coroa. E eu sei que ela só planeja fazer isso por também acreditar que sou a reencarnação de Nova Rainha Serena. — estremeceu — E então, você vê... Eu subo naquele palanque e recebo pedradas! O que me acontecerá quando for rainha? Serei deposta? Serei executada na praça?
— Não diga uma coisa dessas! — apertou-lhe os braços e virou-a de frente a ele — Eu jamais permitirei que a machuquem! Jamais!
— Eles respeitam você... — riu entristecida — Eles o seguiriam para onde quer que fosse! — passou a mão pela testa e depois pelo canto da face — Você deveria assumir esse reinado, não eu. Não tenho talento para ser rainha, eu deveria ter nascido normal, como qualquer outra garota...
— Eu não poderia assumir o reino sozinho, só o assumiria se estivesse casado com você. — apertou as mãos pequeninas e trouxe-as para perto do rosto, beijou cada uma.
— Damien... — respirou fundo — Você sabe que eu amo o...
— Não precisa repetir isso para mim, já ouvi várias vezes e entendi o recado. — acarinhou uma fina mecha de cabelo caída à frente dela — Mas princesa, e se ele não voltar? Logo será inverno, logo o final do ano chegará e ele sequer teve a consideração de mandar uma mensagem dizendo que chegou vivo em seu planeta natal.
— Ele vai voltar! — afirmou feroz.
— Como pode ter tanta certeza? — ela não retrucou — Está vendo? Você não tem...
— Tem razão, eu não tenho certeza de nada... — confessou — Mas preciso acreditar nisso, tem me mantido viva! No dia daquele atentado, algo em mim, algo que eu prezava muito, morreu, Damien. Eu tive que arranjar outra coisa para pôr no lugar, qualquer coisa, ou nunca mais sorriria de novo. Só que, há um vazio, um vazio enorme aqui! — bateu no peito — Vocês têm sido incríveis, graças a vocês tenho seguido em frente, preciso admitir. Você me ajuda muito, me dá forças, mas tudo isso acontece porque, no fundo do meu coração, eu planto a esperança todos os dias! Ele disse que me amava, ele me fez jurar que eu seria dele, e eu me entreguei... Como Diamante me disse uma vez, não há retorno! — embora controlasse as lágrimas, o sofrimento transparecia nela toda.
— Você está exausta, eu percebo... — cativou-lhe o rosto e afagou as bochechas — Crystal, não é obrigada a se manter presa a um homem que não teve a decência de tentar manter contato! Se ele a ama de verdade, prezará por sua felicidade, e olhe só para você, está qualquer coisa, menos contente! — abraçou-a — Eu só quero vê-la feliz!
— Eu sou feliz! — disse como se tentasse convencer-se — Tenho uma família e amigos maravilhosos! Seria muito egoísta da minha parte não ser feliz quando a vida me oferece tudo do bom e do melhor!
— Não minta. — olhou-a nos olhos, sério — Use essa máscara com qualquer um, menos comigo. Você está profundamente infeliz, pode disfarçar o quanto quiser, e eu continuarei vendo através de você.
— Como Damien? Como você consegue?! — questionou atônita.
— As nossas almas dialogam — colou as testas — de maneiras misteriosas.
A mesma sensação que teve na igreja fez o coração da princesa descompassar. As pálpebras quase se tocaram, sonolentas. Os lábios de Damien estiveram tão próximos que as respirações se confundiram. E, por questão de meio segundo, ele a teria beijado se não fosse empurrado repentinamente.
— Eu sinto muito, mas não posso! — as lembranças pulsaram em seu âmago e provocaram um frio no estômago: o primeiro encontro debaixo da grande árvore, o casebre abandonado no bosque, a brincadeira na relva, a presença Dele no castelo, o beijo na estufa, o beijo afobado na tempestade, a visita noturna e a consumação de um ato amoroso nas profundezas do espelho dos sonhos dela. Cada pedaço de seu corpo ansiava por aquilo que somente Diamante poderia proporcionar. A Luz necessitava das Trevas, ainda, e para sempre. Pele, espírito e essência gritavam "você pertence a ele". O coração, por mais balançado que estivesse, no fim inclinava-se a mais resistente das gemas.
Eu amo você. — podia ouvir a voz dele — Você é minha. — de novo — Não há retorno. — e de novo .
Antes que escapasse, Damien a segurou pelo braço.
— Você pode e tem o direito de mudar de ideia quando bem entender, não se permita ser controlada por ele.
—... Controlada? Nunca fui controlada, eu quis desde o início!
— Ainda assim, você tem o direito de mudar de ideia, não importa o que ele tenha dito. Eu sei que você não está indiferente ao que aconteceu hoje à tarde, sei que você também sentiu algo maior do que nós ali, nos unindo. Estou mentindo?
— Não... — surpreendeu-se com a confissão e aterrorizou-se.
— Talvez estejamos destinados a governar esse reino juntos. Acredito que podemos completar um ao outro, e juntos seremos respeitados e amados, sempre! Talvez só nós dois possamos dar continuidade a uma era próspera, no lugar de seus avós.
— Mas, mas eu... Mas eu quero me casar com Diamante!
— E assim, sim, você seria deposta. — afirmou pesaroso.
— Não, tem que haver um jeito!
Ele a soltou e respirou fundo. Os olhos baixaram-se pessimistas, Crystal soube interpretá-los. De algum modo, a erva daninha plantou-se nas ideias dela, no fundo ela sabia, seu povo odiava a Lua Negra com todas as forças. Pensou tanto em amor e esqueceu-se da política... Sonhou em casar-se com o ícone da vilania para seus conterrâneos. Divagações sobre o assunto a atormentaram a noite inteira, e, de repente, a obrigação carimbada em seu sangue real nunca pareceu tão pesada.
Ela pertencia a ele... mas com que direito?
...
Quando príncipe Diamante confirmou presença no salão, todos o encararam ansiosos, alguns apreensivos, a maioria curiosa.
— Até quando teremos alimento nas reservas? — frio, se manifestou tão logo sentou ao trono.
— Um mês, talvez uma ou duas semanas a mais. — Jade afirmou.
— Quantos óvnis e Droids temos a nossa disposição? — o timbre desprovido de emoção era quase robótico. Saphiro sentiu fortes arrepios percorrem-lhe a espinha a cada palavra proferida pelo irmão mais velho.
— Depende. — Onyx respondeu — Para atacar a Terra? Insuficientes.
— E quanto tempo levaria para termos o suficiente? — questionou.
— Uma década, mas podemos reduzir isso para seis anos se príncipe Saphiro me ajudar. — o cientista explicou.
— Uma década?! Morreremos de fome até lá, tem que haver outro jeito! — Jade perdeu as estribeiras — Como pode continuar tão calmo?! Como não nos disse que precisava de tanto tempo antes, você enganou a senhorita Ametista, então!
— Poderíamos levar menos tempo, mas não teríamos certeza de que renderíamos o povo de Tóquio de Cristal. Como a antiga princesa tinha pouco tempo de vida, não nos restava muita opção.— permaneceu calmo.
— Então precisamos de recursos o mais rápido o possível. — Diamante diagnosticou — Para tal, não podemos contar com a Terra, pela distância e por motivos óbvios.
— Príncipe, — Topázio se aproximou e curvou-se diante ele, sabe-se lá porque — há um planeta próximo a Nemesis que pode nos prover esses recursos. Seu regente, assim como a de Tóquio, negou-se a nos oferecer ajuda há alguns anos atrás. Disse que não daria auxílio a criminosos exilados. Embora o poderio bélico dos habitantes de lá seja irrelevante, senhorita Ametista nunca entrou em conflito por crer que todos os nossos esforços deveriam se voltar à invasão da Terra. Mas, pelo rumo que as coisas tomaram e pelo estado em que nos encontramos, creio que saquear aquele planeta seja uma questão de urgência, a menos que você se oponha. Como general e conhecedor de guerra, afirmo que com a quantidade de óvnis e Droids que temos, os dizimaremos sem muita dificuldade.
— Que planeta é esse?
— Sedna. — as ondas e os olhos dourados tremeluziram, um riso, sutil, abafou-se.
Um brilho diferente tomou conta dos olhos púrpuros, até então apáticos. A boca quase se rasgou em uma gargalhada insana. Como o destino era irônico, pensava. Saphiro, conhecedor do que o planeta significava, deixou-se contagiar pelo rancor do irmão.
— Preparem os óvnis, preparem os Droids! — levantou-se e ditou — Sedna está com os dias contados! — enfim, algum prazer depois de tantos dias de sofrimento e perda dos sentidos — Esse é apenas o começo de nossa vitória!
Todos o saudaram, eufóricos, exceto o irmão caçula e Quartzy. Saphiro acreditava que não havia outro rumo para aquela história, no entanto não se deleitava com a futura chacina. Quartzy, despedaçada, despedia-se do sonho de viver pacificamente no planeta azul.
— E se alguém ainda tem alguma dúvida, que fique bem claro: — prosseguiu eloquente — o plano de vingança foi oficialmente retomado! Não haverá misericórdia! — o ódio estampou-se em cada som. O ponto de luz no coração desvaneceu e Diamante optou por entregar-se à sua natureza escura, dominadora e cruel.
Sem piedade, sem arrependimentos, somente ódio e desejo de fazê-la pagar por ter mostrado-lhe as coisas boas da vida para tomá-las depois eram sua bússola.
"Quando eu disse que não aceitaria que me renegasse, você deveria ter pensado nas consequências. Não descansarei até vê-la cair! A sua queda será o meu deleite"!
Continua...
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