A Minha Queda Será Por Você
20 Epidemia
Que manhã agitada foi aquela! A batalha contra o ser mucoso fora tão estressante que as meninas mais jovens pensaram ser já a hora do almoço. Eram ainda dez e meia da manhã, e Sailor Wind não as poupariam dos estudos por conta do incidente. Combinou de reunir-se com as garotas no ginásio para uma aula de Educação Física, e em seguida cálculo.
— Seria isso frustração? Falta de amor na vida de um ser humano? — Reiko criava hipóteses enquanto andava com as companheiras rumo ao local da classe.
— Pare de falar besteiras, não percebe que mais do que nunca precisamos estar em boa forma? Tóquio de Cristal não é mais pacífica! — Marine, a mais estudiosa e dedicada a repreendeu com o seu tom firme.
— Mas isso não explica a aula de cálculo! — A jovem dos cabelos negros insistiu.
— Ora, é para afiar as nossas mentes! Temos que manter corpo e cabeça sãos, somos guerreiras! — A loura persistiu no argumento de defesa.
— Ainda acho que ela é uma frustrada! Princesinha, não concorda comigo?
— Oi? — Depois de alguns segundos, Crystal percebeu ser chamada pela amiga.
— Nossa, que olheiras terríveis! — Reiko, espalhafatosa como era, esticou os olhos da menina com os dedos. — Olha só a vermelhidão! Você não dormiu nem um tantinho, não é mesmo?
— Não... — o raciocínio estava lento como uma engrenagem enferrujada.
— Você devia ir para o seu quarto e dormir, Crystal... — Hina a aconselhou.
— Crystal? Que intimidade é essa? — Marine perguntou, admirada.
— Eu pedi para que Hina me chamasse assim... Seria bom que vocês também o fizessem, me deixariam contente... — a fala parecia mecânica, era baixa e rouca. — Se eu for dormir, mamãe ficará brava com o príncipe Diamante, eu tenho que assistir aula...
— É verdade, Crystalzinha! — A guerreira da natureza aproveitou para apelidá-la afetuosamente, sem cerimônias — Diga para nós, vocês passaram a madrugada inteira juntos fazendo o quê?
— Nada de mais... — estava exausta até para inventar uma desculpa.
— Meninas, a Crystal está muito cansada, coitada! — a jovenzinha dos cabelos alaranjados resolveu ajudar, mesmo tão acanhada para se impor. O rubor esquentava-lhe as maçãs do rosto.
— É verdade, e se ficarem de firula nos atrasarão para as aulas! — A intelectual do grupo concordou. — Vamos logo! Princesa ou Crystal, como preferir, agilize esses passos! — Já que havia sido permitida a intimidade, Marine extrapolou. Apoiou as duas palmas das mãos nas costas de Crystal no intuito de impulsioná-la para que andasse mais rápido, acabou lançando a pobrezinha como um avião de papel e a fez cair de cara no piso de cristal. — Ai caramba, ela está um bagaço mesmo! — Correu e levantou a menina como se fosse uma boneca de pano.
...
— Meu irmão? — Saphiro bateu à porta três vezes, em seguida adentrou o quarto. A visão que teve foi de seu único parente sentado à cama. Olhar distante, turvo, lábios inertes em um risco de rancor, desbotado como um sepulcro abandonado. — Como você está? — O mais novo estava preocupado.
— Saphiro... — a voz soou baixa, os dedos das mãos entrelaçados se apertavam — Eu não sei até onde essa situação se sustentará.
— Parecemos viver em guerra fria com a rainha. — acomodou-se ao lado do outro, preparado para refletirem juntos.
— Não somos bem-vindos. — Diamante afirmou veemente.
— Não pela rainha.
— Não só por ela. Não vê como todos os outros nos tratam? Sempre seremos traidores, Saphiro. Estamos marcados, o passado é nosso fardo! — o tom era rasgado pela indignação.
— E o que pretende fazer quanto a isso? — perguntou apreensivo. — Você não vai querer...
— Não partiremos. — cortou-o — Ficaremos exatamente onde estamos.
— Sinto que essa sua vontade de ficar não é só pelo sonho de nossos antepassados. Estou errado, irmão?
— A sua insinuação está correta. Eu não vou para longe dela, não irei a lugar algum onde não possa vê-la ou senti-la. Ela é minha, Saphiro!
— Isso não me soa bem... — sussurrou.
— Como assim? Você me incentivou! Graças as suas palavras de ontem abandonei meus freios! — os traços de irritação ficavam cada vez mais visíveis.
— Ela gosta de você, quero vê-lo feliz. Contudo, vejo em você o mesmo comportamento obsessivo de muito tempo atrás. Se continuar dessa forma, tudo pode acabar em desgraça, como antes! — Saphiro via-se no papel de abrir os olhos de príncipe Diamante — Não é dessa forma que conquistará a confiança dos reis!
— Me pergunto se algum dia isso será possível... O que percebo é que, não importa o que eu faça, o coelho e seu marido jamais permitirão que sua filha tenha um compromisso comigo.
— Irmão, diga-me com sinceridade, sem titubear, você quer a princesa Crystal só pela semelhança com Sailor Moon? Como andam seus sentimentos em relação a isso?
— Confesso — É verdade or, – Diga para nós!que, muitas vezes, quando a olho, vejo nuances de Sailor Moon nela, todavia, não é apenas isso que me encanta. É bem verdade que no início as semelhanças eram o grande atrativo, só que a princesa demonstrou ser muito mais do que um espelho da avó. Ela me faz rir, me transmite sensações que me recordam a infância, a ingenuidade... A princesa me traz esperanças de que a vida pode ser mais do que mera sobrevivência. É engraçado porque ela me mostra isso através de coisas tão simples como um mero buquê de rosas pintadas de azul! — fitou as flores em um vaso na sua mesa de cabeceira e deixou escapar um breve riso — Veja só, parece besteira, mas é tão significativo a ponto de me estimular a levantar dessa cama todos os dias! Eu a quero por ser parecida com Sailor Moon? Talvez. Entretanto, a quero muito mais pelos sentimentos inusitados que me proporciona. Sinto que se a tiver ao meu lado, nunca me sentirei solitário, e é possível até que me esqueça do traidor que fui um dia, pois ela não me julga, nunca o fez! Olho nos olhos dela e vejo a mais doce receptividade...
Saphiro se calou. No exato instante em que Diamante começou a descrever o que sentia pela garotinha desajeitada o seu semblante mudou drasticamente. Recuperou o brilho no olhar, no sorriso, e mesmo a pele pálida pareceu adquirir uma tonalidade mais viva.
— Há alguém em Nemesis que deseja que retornemos — Diamante prosseguiu — Primeiro, em Ilusão, uma voz exigia vingança contra a Terra, depois surge essa criatura misteriosa, feita de uma pasta negra similar ao piche, e me diz coisas semelhantes. Isso me confunde... O que me mantém aqui nesse palácio é a princesa, Saphiro. O que enjaula a minha raiva e evita que eu cometa atrocidades é a ternura dessa menina. Sem ela estou perdido, e agora ela já deve saber disso. Não existe mais retorno, eu a avisei. Ela não poderá desistir, está feito e ela concordou. Eu não sucumbirei aos desejos de possíveis remanescentes nemesianos, meu lugar agora é aqui.
— Será que essa pessoa que se comunicou com você foi a mesma que nos trouxe de volta?
— Não me importa, eu não quero saber! — bradou, impaciente — Saphiro, estou muito cansado. Deixe-me a sós, não conseguirei relaxar com essa conversa.
— Mas não acha importante investigar?
— Não, eu já disse que não quero saber! — enfatizou.
— Os reis desejarão saber, e tenha certeza de que eles pesquisarão sobre isso, meu irmão! – Saphiro insistiu.
— Saphiro, saia! Não quero pensar sobre isso, não quero pensar em nada além de como manter contato com princesa Crystal sem que os pais dela descubram ou censurem! Vá! — apontou a porta. O outro desistiu do diálogo, embora magoado pelo tratamento ríspido e temeroso de esse episódio ser só o início de mais desavenças não falou mais nada, sequer se despediu, saiu e bateu a porta. — “O que está acontecendo comigo? Não era para estar me comportando desse jeito!” — Diamante passou as mãos pelo rosto e repreendeu a si mesmo.
...
— Em apenas três dias estarei chegando! — o tal viajante tão esperado pelos reis mandou uma mensagem holográfica, exibida no quarto dos reis, acima de um altar lapidado em cristal e ouro branco. — Estou ansioso para conhecê-los pessoalmente!
— E nós afoitos para que chegue logo! — Rini tocou as mãos na imagem.
— Minha rainha, parece preocupada. O que há de errado? — o rapaz de olhos azul-rei e cabelos negros que lhe cobriam os ombros mostrou-se preocupado.
— Estou apenas cansada! —sorriu, disfarçando — São muitos os afazeres de decoração para o grande baile, é trabalhoso enviar convites para além da Terra... Você entende, não é? Só queremos que chegue logo, Crystal está ansiosa também, tenho um bom pressentimento!
— Tudo o que mais desejo é agradar sua filha, majestade! Alimento esse desejo desde a infância, quando ouvi falar dela...
— Eu sei que ela também... Chegue logo! — quando encerrou a transmissão, viu o marido entrar no quarto.
— Rini, por que mentiu para ele? Disse que Crystal está ansiosa para conhecê-lo mesmo nossa filha desconhecendo a existência dele? Por que isso?
— Para que ele se apresse! Helios, estou desesperada! Diamante está cada vez mais próximo de Crystal, sabe-se lá o que já não pôs na cabeça da menina! E eu sou mãe, minha intuição não falha! Ele tem interesses malignos por nossa filha, sinto que ela está se rendendo a isso!
— Mas, Rini, nós prometemos que não forçaríamos uma situação para eles dois... Acalme-se! Se são almas gêmeas como tudo indica, o destino trabalhará nisso sozinho! Quando descobrimos a existência desse príncipe em Sedna e de sua semente estelar combinamos de apresentá-lo à nossa filha quando ela fosse madura para um relacionamento, ou seja, quando ela tivesse quinze anos. Não contamos a ela quem era o príncipe de propósito, para não influenciá-la, lembra-se? Cuidado com o que você está fazendo! Não o faça crer que Crystal já sabe quem ele é e que está apaixonada, isso pode atrapalhar ao invés de ajudar!
— Eu sei, eu sei, me perdoe, querido! Eu só não aguento mais ter que conviver com Diamante, acordo e durmo na defensiva todos os dias, às vezes tenho até pesadelos com ele ao pé da cama, apenas esperando que eu me distraia para me asfixiar com um travesseiro! Estou surtando! E agora, depois do surgimento de um possível inimigo ligado a ele, a situação só se agravou!
— Querida, seja mais racional... — a abraçou e afagou a sua nuca — Ele estando perto, podemos vigiá-lo melhor e descobrir os seus planos, se é que existe algum. Aqui ele não pode fazer nada, não tem um exército, não tem como se comunicar com os conterrâneos e planejar um possível ataque. Se é isso o que teme, o melhor lugar para ele estar é aqui!
— Aqui, próximo da nossa família, no lugar ideal para cravar as garras no coração de nossa menina e destruí-la?
— Ele a salvou, Rini! Você acha que alguém pronto para fazer o mal arriscaria a própria vida para poupar a de outra pessoa? Por favor, tente ver algo de positivo nesse homem!
— Eu o odeio, essa é a verdade. — passou as mãos pelo peito do marido e apertou-lhe a farda — Isso me faz uma pessoa horrível, mas a verdade é que eu o odeio.
— Não estou lhe reconhecendo, pequena dama! Sentir ódio pelo passado não fará bem algum! Tente se acalmar, por mim, por Crystal...
“Não adianta, esse ódio não vai passar...” — suspirou e repousou a cabeça no ombro de Helios, exausta emocionalmente.
...
“ Isso que é castigo, mamãe e Yumi fizeram de propósito!” — Crystal, apoiando a cabeça com as duas mãos para que ela não despencasse, resmungou em pensamentos enquanto Sailor Wind resolvia um cálculo enorme na lousa de vidro. Impossível evitar o óbvio, não tardou a cair no sono, babar sobre a mesa e ser acordada aos berros, vezes seguidas. Estava literalmente desmaiando de sono, só pensava em sua cama macia e quente. Horas depois, quando a tortura foi findada, a pobrezinha pôde realizar o seu desejo. Se jogou no leito com a roupa do corpo, fechou os olhos e apagou. Durante a parte do dia em que adormeceu, sonhou continuamente com Diamante, no mesmo cenário escuro, acariciando-a de maneiras irresistíveis, violentas, e quanto mais ele a tomava nos braços, mais desejava que aquilo não cessasse. A quentura entre as pernas retornou intensa, assim como uma sensação de molhado, ela não sabia decifrar, era estranho, porém bom, doloroso e confortante. Acordou ofegante, assustada, confusa. Olhou através das cortinas e notou o céu alaranjado, sintoma de crepúsculo. Esfregou os olhos, encorajou-se e levantou. Andou sofrida até a penteadeira, as pernas latejavam de cansaço, estava abatida, os olhos fundos...
— Estou acabada... — escovou os cabelos para ver se melhorava. Que nada, ainda estava completamente estragada. — “Só um banho salva!” — endereçou o andar ao banheiro e relaxou nas águas mornas da grande banheira redonda. Acabado o momento de higiene, vestiu um roupão de seda branco e voltou ao quarto. Quase desfaleceu de susto. — Príncipe? — estava sentado à cama dela, esperando-a.
— Surpresa? — Levantou e foi até ela, fixando os olhos púrpuros no traje que ela vestia.
— Sim, sou eu quem costuma invadir o seu quarto sem pedir licença... — riu e coçou a nuca, desajeitada.
— Não ultimamente. — ele, por sua vez, mantinha-se sério.
— O que faz aqui? — estava curiosa.
— Precisava vê-la. — manteve-se parado, diante ela — Não sei até quando poderei fazer isso.
— Por que fala assim? — estranhou o jeito dele.
— Não sei até quando sua mãe me aturará aqui, princesa. Eu só aguento essa situação por você. — desabafou.
— Eu sei que ela é meio complicada, mas é boa pessoa... — segurou as duas mãos dele e afagou-as com os polegares — Confie em mim, aos poucos ela aceitará o que sinto por você e perceberá que é inevitável...
— E se não acontecer?
— Eu sei que acontecerá. — sempre esperançosa, sorriu meiga.
— Quando poderemos nos revelar?
— Esperemos passar o baile, então eu converso com ela direito... Meu pai me ajudará, você vai ver...
“Nem seu pai me quer aqui.” — pensou, acompanhando-a ir até a penteadeira com o olhar. Observou-a passar a escova naquelas longas madeixas, fitou o corpo pueril de menina, pouco definido, mas delicado e perfeito da forma que era.
— Apesar de tudo, estou muito feliz! — recuperou a empolgação depois da soneca. — Você está aqui!
— Lembra-se da pergunta que me fez quando nos beijamos debaixo daquela árvore? — disse parado onde estava.
— Sim... Perguntei a quem viu quando me beijou... — suspirou — Mas por que falar disso? Não é mais necessário! — sorriu como se não se importasse.
— Você não quer saber?
— Eu não preciso. — virou-se para ele, sorrindo. Sequer notara que a seda do roupão que vestia era muito fina e marcava o corpo.
— Tão ingênua... — pensou alto, reparando cada nuance, relevo, cada traço. Andou até ela calmamente, passou- lhe a mão pelo rosto e pescoço. Crystal nem se movia, aceitava cada toque e permitia-o fazer o que bem entendesse. Era estranha a entrega tão cega da menina, não reclamava de nada, não o reprimia, apenas ruborizava quando era apertada. Por respeito à inocência, à pele nunca antes tocada, ele não avançou muito. Puxou-a pela cintura com cuidado, e quando o corpo dela estava unido ao dele, a beijou suavemente. Torturou-a fazendo com que esperasse o beijo ser aprofundado. Pensava que ele o faria e então os lábios se afastavam, até que ela, no calor do momento, puxou-o impulsivamente pela nuca e aprofundou por si mesma, sem jeito, envergonhada.
Sapatos de salto vibravam sobre o piso do corredor, cada vez mais próximos do quarto da menina. Era o momento de se despedir:
— Até mais tarde. — ele apartou abraço e beijo, imediatamente sumiu como uma miragem.
— Até... — inebriada, não saiu de onde estava.
Rini abriu a porta do quarto bruscamente e olhou para os lados como se procurasse alguma coisa. Deparou-se com a filha olhando o além, suspirando.
— Crystal? — a sacudiu para trazê-la de volta de onde quer que estivesse — Alguém esteve aqui?
— Mamãe? Não que eu saiba, acordei faz pouco tempo! O que houve? — a menina aparentou confusão.
— Acho que estou enlouquecendo... — disse para si mesma. — Venha lanchar, você não comeu nada hoje.
...
Saphiro, cabisbaixo após a conversa que tivera com o irmão, andava ao redor do piano que ficava no coreto. Passava os dedos sobre as teclas, cada uma que tocava, uma memória se avivava. O desmaio de Hina, para ele, fora como um ato de repulsa, sentia-se não correspondido. Era uma dor estranha, nunca antes conhecida pelo mais novo dos Black Moon. Percebeu um vulto na entrada, ergueu o rosto e a avistou, notavelmente constrangida.
— Já estou de saída. — não a olhou nos olhos, e quando ela entrou, ele se afastou, temendo fazê-la passar mal novamente.
— Saphiro, eu... — por que era tão difícil libertar o verbo? O ar faltava só de tentar.
— Até mais. — foi direto, não deu chance para que Hina começasse um discurso de desculpas esfarrapadas que abrandariam algo terrível: a rejeição. Abandonou o tão querido local às pressas e a deixou lá, a sós com seu piano. Mal sabia ele que a pobrezinha só queria desfazer o maldito mal entendido. Assim que Saphiro partiu, Hina sentou em frente ao piano e bateu a testa nas teclas, enfurecida e magoada consigo mesma, sons dissonantes brandiram enquanto ela molhava bemóis e sustenidos com suas lágrimas.
...
Olho de Tigre resolveu caminhar pelos jardins para espairecer, na verdade, sentia-se um pouco deslocado. No fundo sabia que estava com inveja de Olho de Águia por ter obtido sucesso tão rápido, enquanto ele continuava a ser destratado por Marine. Incompreensível para ele, que se achava tão mais belo que o companheiro. Bufou irritado, sequer percebeu o quão longe havia ido. Os jardins eram vastos como um labirinto, de passo a passo ele chegou a um campo aberto, relva alta e esverdeada, coberta por um sutil tom dourado causado pelo sol poente. Ouviu o trotar acelerado, sentiu-se em um cenário medieval. Virou-se curioso para ver quem seria o cavaleiro e se surpreendeu: Reiko parecia uma flecha montada em um cavalo marrom claro. Estava distraída, não o notou. Parecia tão selvagem quanto o cavalo em que montava.
— Uau... — arregalou os olhos, admirado.
— Tigrinho! — Finalmente o notou e fez o cavalo frear bruscamente. Saltou de cima do animal como se também fosse uma felina e correu até ele. — Não me diga que me aceitou como o seu par no baile?
— Na verdade cheguei aqui por acaso, mas... — toda a agitação da garota o desconcertava.
— Tudo bem, tudo bem! Quer dar um passeio comigo? — apontou o animal, parado à espera dela.
— Não sei não...
— Ah, está com medo? — disse em tom jocoso — Tigres não deveriam temer cavalos, não faz sentido!
— Meu medo é de você. — admitiu.
— Ah, por favor! O medo de cavalo seria mais compreensível! — riu, descontraída.
— Está bem! — era muito orgulhoso, embora ela o intimidasse estranhamente, não permitiria se passar por um bobalhão diante os olhos dela.
— Assim que se fala! — alegre, correu até o cavalo sem sela e sem rédeas, afagou-lhe a crina e então montou-o.
Olho de Tigre fez o mesmo, ficou atrás de Reiko, a princípio não se segurou nela, mas quando o cavalo partiu em disparada, inevitavelmente, agarrou a cintura da mocinha, que nem tremeu com o toque. Nunca conheceu alguém que agia tão naturalmente quando a guerreira protetora da mãe terra, não se acanhava com nada. Repentinamente, sentia algo pela garota diferente de antes, de alguma forma ela mexeu com ele. O que era repulsa transformou-se em certo tipo de curiosidade.
“Ela tem cheiro de jasmim” — pensou ao ter o rosto tocado por finas mechas dos cabelos macios, balançando com a ventania. Porém, o momento de distração cessou quando o cavalo, repentinamente empinou, e consequentemente, derrubou o casal na relva alta e macia. Reiko caiu deitada por cima do integrante do trio, rindo, como se nada grave ocorrera, Tigre, por sua vez, estava estático e pálido de susto, por sorte não batera a cabeça.
— Eu deveria tê-lo amansado melhor, ele não está muito acostumado com estranhos... — disse, calma, observando com o canto dos olhos o animal selvagem partir.
— Obrigado por me avisar agora que já estou no chão, com os cabelos cobertos de folhas! — ele resmungou.
Ela riu outra vez, e sem pressa passou os dedos pelos cabelos de ouro, tirando pacientemente cada pedaço de grama. Encarava-o sem medo ou timidez, era a pessoa mais despojada que Tigre conhecera na vida, mais ainda que ele. Mas desde quando o fora? Sempre criou um personagem seguro e galante, seria ele isso mesmo? Pensando sobre si mesmo e fadado a olhar dentro daqueles olhos púrpuros e intensos sentiu o coração disparar e um repentino frio no estômago.
— Pronto. — Reiko se sentou, deixando o corpo de Tigre livre do seu. — Se quiser, sente-se e vire-se de costas para eu tirar o resto.
— Só isso? — surpreendeu-se — Pensei que fosse me agarrar!
— É isso o que quer? — arqueou uma sobrancelha e esbanjou um sorriso sapeca.
— Não foi o que eu quis dizer! — sentou subitamente.
— Combinamos que eu não faria isso, então não farei, a menos que você queira. — Reiko se dispôs a ajoelhar atrás dele e pentear seus cabelos com as mãos, assim tirava areia e grama das madeixas de ouro.
— Venha ao baile comigo. — ele disse num impulso, sem parecer saber o que estava fazendo.
— Sério? — o sorriso no rosto da jovem se expandiu, ficou eufórica — É claro que vou Tigrinho! Muito obrigada! — abraçou-o forte, apertando-o.
— Ei! Sem me agarrar, lembra-se? — advertiu, quase sufocando.
— Oh, perdão! — soltou-o e riu, descontraída, tão contagiante que o fez rir também.
Voltaram juntos ao palácio, lado a lado, conversando e rindo. Entretanto, Olho de Tigre ainda pensava em Marine, era inevitável.
...
Crystal comia vagarosamente, o que surpreendia Rini. Estavam somente as duas em um cômodo que parecia uma sala de chá.
— Está sem fome? — a mãe perguntou, preocupada.
— Um pouco... Estranho, ne?
— Parece até estar apaixonada. — fitou-a como se a analisasse.
— Mamãe, por favor, não comece...
— Está animada para o baile? — tentou puxar outro assunto.
— Claro...
— Crystal, por que está tão distante de mim? — Rini indagou — Somos mãe e filha e amigas também!
— Só estou cansada, mamãe... — sequer a olhava nos olhos, balançava as pernas como se estivesse ansiosa.
— Por favor, me conte o que aconteceu essa madrugada, minha filha... — segurou-lhe a mão — Conte-me o que houve na cidade, o que era aquilo que a atacou!
— Para quê? — a princesa se levantou e puxou bruscamente a mão — Para você julgar a mim e príncipe Diamante? Não importa o que eu conte, você sempre usará os fatos contra ele! Estou farta disso, farta de você me sondando, parecendo querer descobrir alguma coisa! Se quer me ver feliz, deixe o príncipe e o irmão dele em paz!
— Por que toda essa energia para protegê-lo? — Rini levantou-se ao mesmo tempo, vendo que a filha iria sair pela porta, foi à frente, fechou-a e a cercou. — Você pode enganar seu pai, mas não a mim!
— Deixe-me em paz, mamãe! Pare com isso! Deixe-me sair!
— Está apaixonada por ele, Crystal?
— Deixe-me ir!
— Está, não está? — insistiu.
— Deixe-me ir! — impaciente, a menina gritou.
— Você não sabe mentir! — segurou-a pelos ombros — Não permitirei que...
— Você não pode modelar o meu destino! Eu sou dona do meu coração e do que sinto! — atropelou o discurso de Rini e arrancou-lhe as mãos dos ombros — É assim que diz ser minha amiga?
— Majestade! — a voz de Hotaru soou do outro lado da porta, assim como batidas desesperadas — É urgente! Por favor, abra!
— Hotaru, agora não! — Rini gritou.
— Está havendo um surto de uma epidemia desconhecida na cidade! Em menos de uma hora mais de cem casos foram relatados!
— O quê? — mãe e filha questionaram em coro, ambas de olhos arregalados, aterrorizadas.
— Tememos que se continuar dessa forma, a doença alcançará o palácio! As guerreiras precisam investigar isso! Sailor Wind suspeita que seja obra da mesma pessoa que enviou aquele ser gosmento!
— Black Moon! — Rini rangeu os dentes — Mantenham Diamante e Saphiro cativos! — foi bruscamente empurrada para o lado — Ai! Crystal, volte aqui! — a menina abriu violentamente a porta e passou por Sailor Saturno como uma bala. — Vá atrás dela!
Crystal era veloz quando precisava, seguiu até o quarto, pegou o broche sobre a mesa de cabeceira e no mesmo embalo correu, deslizando os pés pelo piso de cristal.
— Não permitam que ela saia do palácio, vão atrás dela! — Rini gritou, chamando a atenção de todos no palácio, inclusive dos irmãos nemesianos.
— O que está havendo? — Diamante correu do quarto, avistando Crystal longe.
— O seu clã parece nos atacar novamente! E, claro, você não sabe de nada, não é mesmo? — A rainha incinerou-o com os olhos.
— Princesa, o que está fazendo? Volte aqui! — Marine a alcançou e puxou-a pelo braço.
— Solte-me! — estava próxima a enorme porta que a levaria aos jardins, e consequentemente, à cidade.
— Não posso! Você precisa voltar!
— Marine, não quero brigar com você, tampouco te machucar!
— O que pensa que está fazendo, princesa?
— Tentando salvar a minha terra e as pessoas que amo com o poder do cristal que me foi concedido! Agora, solte-me! — disse, desesperada.
— Está fazendo isso tudo por ele? Para que ele não seja mandado embora? — a loura questionou, apertando o braço de Crystal. A princesa não teve escolha, com toda a força que tinha no outro braço, empurrou Marine para longe, com tamanha força que a jogou sentada ao chão, deixou-a perplexa. Rapidamente, embrenhou-se entre as largas árvores dos jardins e entre elas sumiu. Seguiu pelo atalho que conhecia, em pouco tempo estaria na cidade. — Mas que droga! Agora quero ver quem a alcançará! — Marine praguejou.
— Marine, transforme-se! Precisamos ir atrás da princesa e descobrir o que está acontecendo! Ponha isso! — Sailor Wind deu-lhe uma máscara para cobrir o nariz e a boca. — Não podemos nos aventurar a contrair essa doença que se alastrou pela cidade!
— A princesa foi embora sem sequer usar uma dessas... — Marine ficou ainda mais preocupada e correu em direção do mesmo atalho que Crystal seguira.
— O que é todo esse estardalhaço? — Helios surgiu no salão, onde Rini estava com Diamante e o Trio Amazonas.
— Uma epidemia! E tudo indica que seja causada pela mesma pessoa que enviou aquele ser mucoso!
— Onde está seu irmão? — Helios fitou Diamante, escoltado pelo trio, sério e quieto.
— Nós já o procuramos, ele não está no palácio. — Olho de Águia adiantou-se.
— Saphiro deve ter ido investigar o ocorrido anterior. — Diamante adiantou-se. — Estou preocupado, inclusive. Peço que me deixem ir procurá-lo.
— Não. — Rini e Helios disseram juntos, firmes.
— Compreendo. — franziu a testa e as sobrancelhas, Rini, mais do que qualquer pessoa, notou a raiva nos olhos dele como duas chamas violetas aos poucos se erguendo.
— Nada acontecerá com seu irmão, príncipe Diamante. Sailor Saturno! — Helios chamou.
— Sim, majestade! — a guerreira estava do outro lado da porta, apenas esperando ser chamada por um dos governantes.
— Vá à cidade junto com as outras, protejam Saphiro.
— Está certo! — Hotaru saiu do cômodo às pressas, chamou as guerreiras que restaram no palácio e todas foram à cidade, também com máscaras protegendo suas faces.
— E eu, o que faço? — Diamante perguntou.
— Você fique quieto e não tente nada. — Rini o advertiu.
...
— Como combinamos, senhorita Ametista, consegui implementar algumas gotas de cristal negro pelo reino, infelizmente não tão perto do palácio, afinal, esses pequenos cristais são poucos para confrontarem o cristal sagrado de prata. Entretanto, nas regiões onde os cristais negros foram colocados, pessoas estão adoecendo e sendo dominadas pela energia maligna, veja. — Onyx estava no quarto de Ametista, resguardada por Jade e Quartzy. Como da outra vez, segurava um pêndulo em uma das mãos, do chão fez surgir um holograma, através dele era possível ver a situação da região norte da cidade: pessoas pálidas cambaleavam e caíam pelos cantos enquanto uma nuvem negra no céu se formava.
— Isso é terrível... — Quartzy pôs uma mão sobre a boca, assustada. — O que acontecerá com essas pessoas?
— Terão toda a energia vital do corpo drenada e cairão secas, como fósseis, sobre os lindos pisos cristalizados de Tóquio de Cristal! — o gênio gargalhou alto, prazerosamente, como se jogasse algo muito divertido e excitante.
— Os terráqueos começam a pagar por nos terem injustiçado, enfim... — Jade repousou suas mãos nos ombros de Ametista.
— Sim... — a jovem e mórbida princesa esbanjou um meio sorriso — Eu só espero que isso chame a atenção do príncipe...
...
Sailor Love, a primeira a se deparar com o cenário tenebroso, sentiu um forte arrepio percorrer-lhe a espinha.
— O que é isso?! — Avistou pessoas arrastando as pernas para andar, pálidas, com as pupilas dilatadas, vagando pelas ruas como seres inconscientes. Elas gemiam, se apoiavam em lixeiras, e o mais estranho e assustador, pareciam tentar devorar a si mesmas. — Ai! — não conteve um grito quando uma dessas pessoas, jogada ao chão, agarrou seu tornozelo. — O que você está fazendo? Solte-me! — Era inútil, o indivíduo parecia irracional, abriu a boca que salivava e mordeu-lhe o tornozelo, a sorte de Crystal era que a borracha de sua bota era espessa, o moribundo não conseguiu atravessá-la com os dentes. — Pare! — Sacudiu a perna como pôde, o sujeito era persistente. Seus gritos chamaram a atenção de outros como ele, viraram se de frente para ela e caminharam em sua direção. Sailor Love empalideceu, pensou em usar a tiara, porém não poderia! Eram pessoas normais, jamais perdoaria a si mesma se as ferisse. – “Tem de haver um jeito de transformá-las de volta! E agora, o que eu faço?” —Desesperada, não encontrou opção — Sinto muito! — Desculpou-se antes de dar um pontapé na face daquele que segurava sua perna, nada muito brusco, apenas o tombou de lado e pulou por cima de seu corpo.
Correu o máximo que pôde, quando dobrou em uma esquina se deparou com trinta, talvez quarenta seres humanos como o que a agarrara, salivando, com os olhos esbranquiçados, pareciam mortos-vivos. Virou-se para o outro lado e os que a perseguiam desde antes a cercavam, olhou a sua volta e desesperou-se ao ver apenas muros altos, seria impossível escalá-los. Girou o corpo para todos os lados, não havia saída. Com o coração a saltar pela boca, ficou paralisada, a mente se tornou uma enorme névoa branca, vazia,
— Argh! — gritou ao ter um braço agarrado, depois o outro, e então as pernas. Logo, um mar de pessoas naquele estado a cobriu. Gritou em agonia, a saliva quente de cada um deles a cobria, com as mãos tentava afastar alguns segurando seus rostos distorcidos. Estava perdida. Sem demora provavelmente se tornaria em um deles, pensava.
Continua...
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