A Minha Queda Será Por Você
32 Entre a responsabilidade e o desejo
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 32 – Entre a responsabilidade e o desejo
Ela estava tão serena e entregue... Num suspiro amargo, Diamante decidiu que o certo seria deixá-la descansar, assim o fez.
— Perdoe-me. — balbuciou, e com os poderes telepáticos do olho dourado na testa a fez adormecer dentro do sono. Por algum tempo, Crystal estaria completamente inconsciente.
O corpo do príncipe foi tragado por uma espécie de tornado colorido, novamente sentiu-se mergulhado em líquido morno até que ele próprio voltou ao seu estado sólido num ambiente não onírico: o quarto da princesa. O espelho dos sonhos ao colo dela resplandecia imaculado, assim como a lua dourada descoberta, um ameno sorriso enfeitava-lhe o rosto.
— Diamante, você conseguiu! — era a voz da rainha — Mas, por que ela não está acordada?
— Estão aqui há muito tempo? — ele, surpreso, deu um passo para trás. Estavam no cômodo a guerreira dos mares, o guardião andrógino dos sonhos e os reis.
— Insisti para Rini que viéssemos ver o que acontecia, não poderia imaginar que Sailor Ocean e Olho de Peixe tivessem maquinado um plano como esses. — Helios aproximou-se sorridente.
— Não estão furiosos? — Diamante piscou os olhos umas três ou quatro vezes.
— Confesso que a princípio fiquei preocupado, mas quando vi as feições de minha princesinha soube que fizeram o certo. — parou ao lado do príncipe, afagou a bochecha morna e rosada da filha.
— Desculpem-me, achei melhor que ela continuasse dormindo. — suspirou pesaroso — Tive medo de contar sobre a minha partida e magoá-la outra vez. Não quero mais magoar Crystal. —confessou. — Não se preocupem, ela está descansando e amanhã acordará bem, talvez um pouco fatigada e só.
— Diamante, — de supetão, Helios tocou-lhe o ombro — Muito obrigado. — soou humilde e emocionado. — Você tem a minha benção.
— O quê? — só não enrubesceu por ser muito pálido.
— Rini me contou sobre suas intenções. Estou dizendo que tem a minha benção. — alargou o sorriso, surpreendendo todos no quarto.
— Eu quero ser madrinha! — Olho de Peixe exclamou, agudo.
— Mas, peixinho, você é homem! — Mizumi afagou-lhe os cabelos cerúleos aos risos, inevitavelmente todos riram, mesmo Diamante que era tão discreto.
— Eu tenho todo o direito, oras! — rubro, manteve-se firme, empinou o nariz e apontou o indicador para si próprio — Fui eu quem acobertou os pombinhos desde o início, fui eu quem os incentivou! – falava enfatizando o pronome dêitico. — Eu, eu e euzinho lindo aqui!
— Então quer dizer que você sabia de tudo e escondeu de nós? Bonito, hein! — Rini simulou tom reprovativo.
— Eu? Ah, bem, quer dizer, não é bem isso... É que, hmm... — desconcertado, olhou para os lados procurando explicações até nas paredes.
— Está bem Olho de Peixe, já passou... — a rainha respirou fundo, afastou o orgulho e disse: — Já me resignei e aceitei o fato. — pôs as mãos na cintura. — Crystal e Diamante apaixonaram-se, é a vida! — não poderia perder o tom rabugento: — Fui vencida pela inconsequência de minha filha no fim das contas...
— Rini! — Helios a repreendeu.
— Acalme-se, querido! — sorriu singela — Diamante precisa aprender a levar as coisas mais na esportiva... E eu também. — ajeitou os odangos pontudos — Bem, confesso que ainda há alguns empecilhos para a união de vocês, príncipe. O povo de Tóquio de Cristal está convencido de que a família Black Moon permanece inimiga. É primordial que se prove o contrário, compreende?
— E meu casamento com Crystal não seria a prova perfeita?
— Para que possa se casar com Crystal, primeiro os habitantes do reino precisam aceitá-lo como amigo, Diamante.
— Não entendo! Se os reis abençoaram, como o povo pode ser um contratempo?
— Um reino não é feito apenas de reis, príncipe Diamante. — Helios interveio — É preciso levar os sentimentos e as opiniões dos habitantes em consideração. Reger é, antes de tudo, cuidar das pessoas, fazê-las sentirem segurança, confiança. Um rei e uma rainha não vivem para si, vivem pelo seu povo, precisam sempre estar de acordo. Não há espaço para o egoísmo, não podemos pôr nossos sentimentos acima das vontades e necessidades das pessoas a quem protegemos.
O líder da Lua Negra abriu os lábios, pronto para se pronunciar, no entanto pausou pensativo. Baixou o olhar e fitou a amada, depois fitou a si mesmo no reflexo do vidro da janela. Jamais vira na regência uma responsabilidade tão pesada. Em seu tempo de regente, fora impulsivo, egocêntrico e arrogante. Vidas foram sacrificadas em prol de sua vontade. Sentiu-se pesado, o coração comprimiu-se aflito. Deu-se conta de suas falhas e do custo que elas tiveram.
— Fui um péssimo líder... — pensou alto.
— Então faça diferente dessa vez. — Helios sugeriu ameno.
— Que tal deixarmos o príncipe a sós um pouco? Ele pode aproveitar e se despedir da princesa ao seu modo... — Mizumi deu a ideia.
— Perfeito, Ocean. — Rini assentiu. — Vamos, querido? — ergueu o braço ao marido. Antes de saírem do dormitório, a herdeira de Serena virou o rosto e, com o canto do olho mirou Diamante uma última vez. Nos orbes rubros um misto de preocupação e alívio cintilaram.
Enfim, a sós com a filha de Rini, Diamante deitou-se no pouco espaço da cama que Crystal deixara. Ali, de banda, admirando o perfil adormecido da menina, refletiu um pouco sobre a vida passada, a vida presente e tudo o que aprendera recentemente. A sua primeira professora fora Sailor Moon, assumia. E, após, Crystal mostrou-lhe o que havia de mais belo no mundo: a reciprocidade. Afagou-lhe o nariz com a ponta do dedo, os lábios cor-de-rosa e o queixo pequenino. Como se menino ainda fosse, recostou-se no ombro dela e aninhou-se lá. Tragou boa dose de ar e junto o perfume adocicado, cheirinho de botão de rosa – o que ela era, um botão ainda. Contemplou as ondas castanhas, entrelaçou os fios sedosos nos dedos e aspirou-os, brincou com eles brevemente.
— Adoro seus cabelos. — pensou alto, entristecido — Fazem de você quem é, em parte... — sorriu mesmo pesado — O que eu não daria para avisar a mim mesmo a vê-la como Crystal desde o princípio? — lamentou — A teria poupado de todo o sofrimento... Fui egoísta como regente, fui egoísta em relação aos seus sentimentos... Tenho muito ainda a aprender! — suspirou amargo, selou as pálpebras, buscou forças, e enfim a fitou novamente, então sua postura retomou a firmeza — Cumpra a promessa e seja forte, Crystal... — sussurrou ao pé do ouvido. — Espere-me. — beijou-lhe o canto da face.
Mantendo a compostura, sentou-se. Embora as sobrancelhas se curvassem, o semblante impunha-se sério e rígido. Tirou o brinco da orelha esquerda, depositou-o no criado mudo, era a sua lembrança. Aflito, saiu do quarto e estancou no corredor, Damien o encurralou ali.
— Você. — Diamante afirmou desgostoso. — Nem tente se aproveitar de minha ausência para...
— Não estou aqui para brigar, está claro para mim que ela sente algo forte por você. Se crê no sentimento dela não tem nada a temer. — fingindo-se calmo, alegou.
— Típico de você, o sujeito correto, sem impurezas! — debochou. — A mim não engana, Endymion.
— Damien, este é meu nome. Sou Damien, Crystal é Crystal, somos o que somos, sem antepassados, temos as nossas próprias almas. — alfinetou: — a rainha crê que você já se deu conta disso, mas eu duvido. — deu dois passos à frente, parou ao lado do príncipe. — A princesa é mais inteligente do que você imagina, um dia a ficha cairá. Até lá, não desistirei. — afastou-se lentamente —Afinal, vivi até hoje por isso, não desistirei dos meus sonhos. — foi-se.
De novo aquilo, as tensões se entrecruzaram no largo corredor, os ombros quase se esbarraram, e, em pensamentos, Diamante arrancou a cabeça de Damien com seus poderes telecinéticos. Quase esmigalhando os dedos nas palmas, rangendo os dentes de raiva, Diamante caminhou no bater de pés até o quarto. Naquela noite não deu um cochilo sequer, a ansiedade o manteve de pé a andar pelo cômodo, a analisar cada estrutura, cada figura e cada nuance sua no espelho. As rosas azuis cativaram sua atenção durante o nascer do sol, ele as pegou e afundou o nariz nas pétalas – aquela era a lembrança que levaria. Sua voz interior tentava acalmá-lo, dizia-lhe que a partida era temporária, todavia, algo mais profundo o fazia duvidar...
Manhã, enfim. Pelo mesmo procedimento, Diamante partiu para a dimensão onde uma pequenina guardiã o aguardava. Artêmis e Luna tiveram de explicar tudo de novo, Sailor Chronus fez sua análise sobre Diamante, rodeou-o, cutucou-o com o báculo fazendo-o resmungar, mas no fim das contas o deixou passar na condição de que ele lhe desse uma das rosas azuis. Contrariado, ele cedeu, presenteou-a com uma, a garotinha arteira a pôs no coque esverdeado.
Foi-se. Adentrou o corredor escuro e se deixou guiar pelo vendaval e pela energia do cristal negro. Conforme andava, sua mente latejava: sentia-se culpado por partir sem se despedir de Crystal, e não só por isso, a culpa por considerar-se um egoísta e ter visto Crystal por quem realmente era na última hora o atormentava. O comentário de Damien na noite anterior o perturbou ainda mais, para completar. Precisou que Crystal sofresse tanto para as pessoas começarem a vê-la como um ser único, sem precedentes... E, talvez, mesmo assim ainda alimentassem a esperança de que, no âmago da princesa Sailor Moon vivesse.
Do outro lado, Jade o aguardava imponente como um soldado. Por mais firme que fosse, a amazona nemesiana tremeu nas bases ao avistá-lo, todo branco, aproximar-se.
— Príncipe! — exclamou, curvando-se — Até que enfim, venha, rápido! — gesticulou.
— Perdoe-me! — conturbado, disse mais uma vez, torcendo para que de algum modo Crystal o ouvisse, apertou em mãos o buquê de rosas. Inseguro, atravessou para o outro lado, ainda assim, não parava de pensar na injustiça que era Crystal ter sido comparada à Serena por tanto tempo.
...
— É uma honra conhecê-lo, finalmente! — Jade respirava fundo antes de cada palavra — A senhorita Ametista não pode esperar muito mais, portanto, precisamos ser rápidos! — virou-se, iniciou a caminhada. O silêncio a alarmou — Príncipe? — ele estava parado, vidrado em qualquer coisa que ela desconhecia. — O que há?
— Antes de ir a Nemesis, preciso fazer uma coisa! — se expressou numa súbita inspiração.
— Do que está falando? — a guerreira virou-se para ele, confusa. — A senhorita não tem muito tempo...
— Se tempo é a questão, não se preocupe, voltaremos para o minuto em que estamos. — olhou ao redor, vislumbrou cada corredor difuso naquela dimensão, o brinco de cristal negro reluziu em tons de púrpura, Diamante o tirou da orelha e, como um pêndulo, apontou-o para os corredores.
—... Príncipe?
— Há algo que preciso fazer, acompanhe-me se assim o desejar, mas não posso ir embora antes de fazê-lo. — decretou — Você, Jade, não é? Já viajou no tempo?
— Não! — exclamou — Nunca!
— Hoje será sua primeira vez, acompanhe-me ao século XX. — a pequena joia escura emitiu um feixe de luz em uma das direções, para lá o príncipe seguiu. Jade não teve escolha, teve de segui-lo.
...
— O sol está a pino hoje, quem diria, não? Um bom dia para ir à praia! — Reiko comentou enquanto esticava os braços para o alto.
— Só que você e eu sabemos que temos aula, senhorita Reiko! — Marine a repreendeu, as duas caminhavam em direção à sala de aula, Hina vinha atrás, Crystal não estava.
— Um dia lindo, mas tão triste... — a jovenzinha dos cachos alaranjados sussurrou. – "O sol não condiz com o frio em nossos corações".
Longe do percurso que as meninas faziam pelos jardins, num dos vastos corredores do palácio Mizumi caminhava até alcançar o seu objetivo: o salão de jogos onde o Trio Amazonas costumava se distrair. Assim que chegou, deu-se com Olho de Tigre e Olho de Águia jogando cartas, provavelmente pôquer, seu riso chamou a atenção dos dois.
Assim que a viu, Águia levantou-se bruscamente e derrubou todas as cartas que tinha em mãos, desacreditado e certamente assoberbado.
— Então resolveu me procurar? Sabia que não resistiria! — a exibição era mais para Tigre do que para a bela sereia.
— Podemos dar uma volta por aí? — perguntou tranquila.
— Não sei, deixe-me ver... Vou pensar. — cruzou o s braços, fazendo-se de difícil. Assim que ela deu as costas, toda a pompa dele se dissolveu: — Podemos, vamos! — correu atrás da mulher como um cão faria, Olho de Tigre, ainda sentado, cobriu o rosto com uma das mãos e respirou fundo.
— Olho de Peixe veio falar comigo sobre você. — Disse enquanto caminhavam lado a lado.
— Ora, o que aquele maricas veio falar de mim? Aposto que foi por causa dele que você não me deu bola no baile! — resmungou vermelho de vergonha.
— Está errado. — sem encará-lo, permanecia a dar os passos — Olho de Peixe tentou te proteger de mim, Passarinho.
— E ele acha que eu sou o que para precisar me proteger de uma mulher? Ridículo! — cerrou os punhos com força, indignado e atrapalhado. Quase tropeçou no piso liso. — Foi por isso que você se afastou de mim depois de tudo o que fizemos juntos? — ela não respondeu — Ei, olha pra mim! — puxou-a pelos ombros e virou-a para si, Sailor Ocean sorria despreocupada — Se você me procurou é sinal de que não me descartou. Qual é? Fala alguma coisa!
— Você está apaixonado por mim. — não foi uma pergunta, foi uma afirmação.
— Eu? — arregalou os olhos — Que convencida! Não estou nem aí para você! — estufou o peito, orgulhoso — Eu, Olho de Águia, um belo partido, caído por uma mulher, não seja tola e... — as mãos dela seguraram-lhe um rosto, e a boca rosada não lhe deu tempo para terminar de se gabar. Calou-o com um caloroso beijo, tão intenso que o fez perder o equilíbrio e pender-se até colidir as costas a uma coluna de cristal. Ali, ela o prensou e persistiu a beijá-lo mesmo quando ambos já não possuíam ar. Guerreiro, demorou o quanto pôde a ceder, sequer conseguiu fechar os olhos. Ela parecia sugar-lhe a alma no ato espontâneo e estranho. Os ombros rijos foram apertados pelos dedos deslizantes, depois o peito. Uma perna dela encaixou-se entre as dele, a coxa roçou-o na rigidez. Num curto espaço de tempo em que os lábios descolaram-se, ele, entorpecido, sussurrou: — Mizumi... — e foi beijado outra vez, no mesmo estado de volúpia. Aí sim, cerrou os orbes e entregou-se, abraçou-a esmagador, puxou-lhe os cabelos da nuca, quando a arrastaria ao quarto para repetirem o feito de uma noite ela se apartou.
— Isso é tudo o que posso oferecer.
—... O quê? — não raciocinou direito.
— Meu corpo, você aceita? — abriu os braços — Meu corpo, e nada mais.
— Maluca. — deu de ombros — Vem aqui! — a puxou.
— Não vá dizer depois que iludi você... — tentou alertá-lo.
— Cala a boca! — não a levou a sério, foi a sua vez de interrompê-la com um beijo. Ansioso, ergueu-a, fê-la enlaçá-lo com as pernas e, carregando-a assim levou-a ao quarto, onde ele finalmente saciaria a fome e a sede que sentiu por ela todo o tempo em que não a teve para si. Por hora, o corpo dela era o suficiente.
...
— Bom-dia! — depois de bater três vezes à porta, Damien entrou no quarto da princesa. Ele carregava em mãos uma bandeja prateada, nela havia um prato de porcelana contendo uma fatia de bolo, ao lado uma xícara de chocolate quente.
Crystal, sentada à cama e enrolada em edredons, fitou-o. O sorriso dele cintilava nos lábios, embora o azul dos olhos tonificasse certa preocupação. A princesinha não esboçou reação, acolheu a bandeja, mas não triscou na gostosura.
— Sua mãe vinha trazendo esse bolo para você. Eu, inconveniente, pedi para trazer. — Sentou-se em frente a ela — Soube que gosta de doces mais do que de qualquer outra coisa! Isso está com cara de estar uma delícia... — deu uma garfada — Nossa, queria que em Sedna fizessem sobremesas como essa! — riu, tentando ser engraçado, todavia não obteve reação. — Tome! — ofereceu outra vez.
— Desculpe, não estou com fome... — voltou o olhar à janela.
— Você precisa se alimentar, princesa. — buscou seriedade — Ainda está fraca, e precisa se levantar da cama... Não fique assim! — procurou pela mão dela, quanto estava prestes a tocá-la se conteve, notou na palma a peça negra. — Você gosta tanto dele... Que inveja! —confessou.
— Desculpa... — exausta, recostou-se no travesseiro. — Você parece ser uma boa pessoa, príncipe Damien. Não se preocupe, eu vou ficar bem... Só preciso de um tempo. — levou o brinco de cristal negro ao peito e fechou os olhos. O sedniano notou as pálpebras fundas e a vermelhidão ao redor.
— Vou deixar a bandeja aqui, tudo bem? — colocou-a sobre a mesa de cabeceira. Crystal assentiu num meneio de cabeça. — Depois venho ver como você está. — Se levantou, avistou a rosa de Seiya e pegou-a. — Muita gente se importa com você, — tornou até a jovem desconsolada, ajeitou a flor por trás de sua orelha — nunca se esqueça. — ajoelhou-se diante ela, surpreendendo-a beijou-lhe a insígnia lunar na testa. — Descanse o quanto quiser, qualquer coisa pode me chamar e eu venho correndo, não importa onde estiver. — piscou e se afastou, quando já estava à porta, tornou a contemplá-la, distante, abatida, porém levemente enrubescida.
...
— Príncipe, o que estamos fazendo aqui? — Jade questionou, irritada. Ambos estavam sobre um prédio comercial, dali avistavam a alta torre vermelha.
— Preciso que me espere aqui, procure não chamar a atenção. Entendeu? — ordenou e deu dois passos à frente.
— Se quer que eu obedeça, ao menos responda as minhas perguntas! — insubordinada exigiu numa cruzada de braços.
— Ora essa! — ele riu, desacreditado — É assim que se porta com a atual líder? — encarou-a por cima do ombro — Estou à procura de Serena Tsukino, depois de falar com ela parto com você para Nemesis do futuro. Satisfeita?
— Sinto muito, príncipe, fui precipitada. — no fundo não se via errada, no entanto precisou ponderar — O esperarei aqui. — sentou-se no chão, emburrada. — Está bom assim?
— Perfeito. — flutuou. — Para termos uma boa relação é necessário que aprenda a não me contestar, lembre-se disso. – enfim, teletransportou-se e sumiu da vista de Jade.
Era entardecer, o céu dividia-se em laranja e cor-de-rosa. A cidade era tal como ele se lembrava na época do ataque. Alguns outdoors haviam mudado, e, claramente tudo era pacato e cotidiano. Ele retornara alguns anos após a sua própria morte, em suas contas Serena deveria ter uns 16 anos de idade. Desceu ao chão, caminhou pelas ruas sem se importar com os olhares de estranhamento das pessoas para com seus trajes. Não se atinha aos cochichos, manteve-se focado. De teletransporte em teletransporte, foi a diferentes bairros, subiu andares de apartamentos, até que, numa nova caminhada deparou-se com uma casa qualquer e parou de frente a ela. Sentiu cheiro de panquecas, algo novo para ele e parecia delicioso. Comida o fazia lembrar-se de Crystal, inevitavelmente. Sem cerimônia, utilizou-se da telecinese e foi parar na cozinha, modesta aos olhos dele. Uma mulher de cabelos longos e azulados fazia os quitutes, nada parecia ter a ver com quem procurava, até que seus ouvidos atentaram-se ao barulho de porta abrindo e ao grito estridente:
— Cheguei!
De olhos fechados ele sabia a quem pertencia a voz, o coração sufocou no peito. Diamante ouviu os passos pesados sob os degraus, sem pensar materializou-se no quarto que só poderia ser dela: bagunçado e infantil, na porta aberta havia a placa cor-de-rosa com o desenho de um coelho, no centro um nome – Serena Tsukino.
Se a menina o visse de surpresa, provavelmente faria um escândalo, por isso o príncipe escondeu-se a flutuar, quase deitado no teto. A adolescente entrou no cômodo eufórica, já livrando-se das meias e da maleta do colégio. O uniforme dela mudara, era colegial... O broche dela mudara – era um coração dourado com asas, no anelar direito, um delicado anel. Ainda assim, ela era a mesma. Serena jogou-se sobre a cama, suspirando de exaustão e imediatamente o viu. Antes de poder berrar, pasma de susto, ele caiu sobre ela e tapou seus lábios com uma mão. Enquanto ela grunhia, ele a encarava vidrado. Esperou-a ceder para enfim falar:
— Não sou um fantasma, nem vim machucá-la. Vim de um futuro distante apenas para conversar com você, me escute, é tudo o que peço. A soltarei se você me prometer não gritar, você promete?
Serena balançou freneticamente a cabeça em afirmativa.
— Ótimo. — deslizou a palma até libertar a boca da adolescente, sentou-se à beira da cama, dando-lhe espaço. A menina, ofegante, sentou-se às pressas e encarou-o ainda desacreditada.
— Diamante, você está vivo mesmo?! — olhou-o enfim, pondo-se de pé.
— Sim, Sailor Moon... Ou melhor, Serena. — fitou-a sério. Ela, desconfiada, num ato espontâneo beliscou-lhe as bochechas.
— O que está fazendo? — arqueou uma sobrancelha e estreitou os olhos.
— É de verdade! — ela pulou para longe primeiro, parecendo temê-lo. Em seguida, um largo sorriso expressou-se na face — Você está vivo! — gritou e deu um pulo.
— Isso a deixa feliz? — surpreendeu-se.
— Mas é claro! — sentou-se no chão, de frente para ele — Você merece outra chance, Diamante! Como foi que você voltou à vida?
— Essa é uma longa história, infelizmente não há tempo para contá-la. Estou aqui por outro motivo. — levantou-se e ergueu a mão a ela — Vim pedir algo a você, algo muito importante, Serena.
— Eu devo minha vida a você, é o mínimo que posso fazer! — deu-lhe a mão e ficou de pé à frente dele, sorridente — Me diz, o que é?
— Num futuro distante, você terá uma neta...
— Uma neta?! — o queixo de Serena quase caiu.
— Sim, mas você não estará lá para recebê-la. — respirou fundo — Ela será incrivelmente parecida com você, todos acreditarão que é sua reencarnação.
— Eu vou morrer?! — pôs as mãos na cabeça e começou a chorar como a grande criança que era.
— Você vai descansar, mas sua presença estranhamente continuará por lá, Serena, por isso estou aqui: para pedir que você tome a forma que precisar, seja um espectro, uma fumaça, uma voz no sonho de alguém, e impeça que Crystal se torne na visão de todos uma mera cópia sua, inclusive na minha...
— Espera, to confusa! — virou-se de costas para ele e pôs os dedos na boca, apreensiva.
— Quando eu tornar à vida e me encontrar com Crystal, eu peço, dê-me um sinal de que ela não é você, de que ela é autêntica e de que essa autenticidade é justamente o que me faz apaixonado por ela. — abraçou-a, recostou o queixo em seu ombro e disse cada palavra ao ouvido, sério e decidido. — Não me permita confundir Crystal com você... Não quero perder todo esse tempo. Não me deixe cegar pelos meus sentimentos passados... Você pode me prometer que me mostrará o caminho?
— Diamante, eu... — rosada e estremecida pela proximidade, encolheu-se — Eu...
— Você disse que me deve, então faça o que peço, proteja a identidade de Crystal... Olhe por ela.
— Eu não sei se isso é possível... — relutante, enrijeceu-se e libertou-se do abraço para virar-se de frente a ele e olhá-lo diretamente nos olhos — Mas farei tudo o que estiver ao meu alcance para cumprir essa promessa. Por você, por essa... bem, minha neta, né? Por todo mundo! — recompôs a postura perseverante da marinheira que era — Não se preocupe, Diamante!
— Obrigado, futura Nova Rainha Serena — tomou-lhe as mãos e beijou cada uma, esbanjando um sorriso tão terno quanto o que dera a ela antes de morrer — Antes que eu parta, peço mais uma coisa.
— Está bem, pode pedir! — disse na cotidiana animação.
— Não conte sobre esse encontro a ninguém, nem mesmo a seu amado Endymion. O que aconteceu aqui deve ser um segredo só nosso, entendeu?
— Um segredo, está combinado! — ergueu o dedo mindinho a ele. Diamante não compreendeu o gesto, Serena precisou pegar sua mão e fazê-lo entrelaçar o mindinho ao dela. — Pronto, nossa promessa está selada! — riu, divertida.
— Serena, as panquecas estão prontas! — Ikuko gritou das escadas.
— Já vou, mãe! — Serena gritou mais alto ainda, causando dores nos ouvidos de Diamante. — Quer panqueca? — ofereceu, espontânea.
— Não, obrigado. — o riso foi inevitável. Rini tinha razão, Crystal e Serena eram parecidíssimas no jeito desajeitado e espontâneo, e era a primeira vez que ele vivenciava esse lado de Serena. Por alguns segundos, encarou-a embasbacado por sua ingenuidade e cega confiança. Ela aceitou tudo rápido e em profunda alegria, para alguém como o príncipe Black Moon aquele tipo de atitude era, no mínimo, excêntrico.
— O que foi? — embaraçada, pôs as mãos na cintura e fez careta.
— Não foi nada. — ele sacudiu a cabeça e voltou ao normal. — Agora preciso ir, deseje-me sorte no futuro, quando eu regressar. — pediu enquanto posicionava-se à janela, pronto para saltar.
— Boa sorte, Diamante! — piscou, e se pudesse faria uma coreografia digna de líder de torcida.
— Adeus, Serena... — sussurrou nostálgico, e ao mesmo tempo leve como uma pluma. De fato, a superara. Impulsionou-se com os pés e saltou, a capa ruflou nos ares, os cabelos claros como céu diurno bagunçaram-se encantadoramente. Quem o visse ali, num flutuar pausado, poderia confundi-lo com um anjo... Se não fosse pela lua negra na testa. Antes de ser visto por alguém além da colegial que lhe sorria, transportou-se para onde Jade o esperava.
— Podemos? — ansiosa, levantou-se.
— Vamos. — retomou a seriedade. Dali, partiriam rumo ao planeta natal.
...
— Olho de Tigre, Olho de Peixe, onde está Olho de Águia? — Helios reuniu-se com os pupilos no santuário dos cristais. À sua pergunta, os dois rapazes deram de ombros como se não soubessem de nada — Tudo bem, depois vocês passam o recado a ele — respirou fundo e começou a andar pela saleta — Elysium voltou ao normal, como sabem... — parou de costas aos dois — No entanto, não sabemos como ficará a situação entre Terra e Nemesis. Luna e Artemis precisarão retornar à Lua, não podem deixar o reino vulnerável. Elysium também não pode ficar sem defesas...
— Entendi. — Olho de Peixe sorriu — Devemos voltar a nossos postos.
— Ah não! — impulsivo, Olho de Tigre resmungou, e como resposta recebeu uma cotovelada do companheiro.
— Não os forçarei a fazer nada, Olho de Tigre. Se não estiver disposto a voltar à Elysium, podemos dar um jeito nisso... — ameno, o rei respondeu.
— Mas, majestade, isso é infantilidade dele! Quer ficar na Terra para paquerar garotas!
— Ei, dedo-duro! Fica quieto! — o guardião dos cabelos d'ouro tapou a boca do delicado.
— Quantas pessoas são necessárias para cuidar de Elysium, majestade? — uma voz feminina surgiu da escada espiral.
— Diana, há quanto tempo está por aqui? — Helios acenou.
— Gato! — Olho de Peixe pulou no colo de Tigre.
— Olho de Águia não veio a reunião porque está com Sailor Ocean, presumo que ele também não vá querer retornar a Elysium pelo mesmo motivo de Olho de Tigre, os dois apaixonaram-se por mocinhas daqui! — sapeca, desceu cada degrau em pequenos saltos — Por isso, estou me voluntariando a ir. Sempre quis conhecer o famoso mundo dos sonhos!
— Como é que é? — Peixe agarrou-se ao pescoço de Tigre e quase o sufocou — Não fico sozinho com um gato em um mundo paralelo nem a pau!
— Não se preocupe, você parece ser do tipo de peixe que tem muita espinha, desses eu não como! — brincalhona, aproximou-se do rapaz.
— Taí! — o robusto tigrino largou o aquático no chão — Resolvido, majestade! Olho de Peixe vai com a gatinha! — direcionou uma piscadela à menina, não conseguia evitar o galanteio.
— Majestade, pelo amor da Deusa Selene, em imploro! — no ápice do desespero, agarrou-se às pernas do rei. — Não me deixe sozinho com um gato!
— Olho de Peixe, seu companheiro Tigre é um felino muito mais perigoso e a ele você não teme, não seja tão bobo! — Helios riu-se. — Acho que será um bom exercício de superação você ir acompanhado de Diana, e mais, você será responsável por treiná-la.
— Treiná-la?! — pálido, caiu para trás.
— Sim, você a transformará em uma guardiã de sonhos. Aceita o desafio?
— Sim... "Acho que não tenho escolha"! — constatou, conformado.
...
— Enfim, Nemesis... — as pupilas dilataram-se na escuridão gélida do décimo planeta. Diamante contemplou o enorme palácio, seu antigo lar. Se pudesse, caminharia calmamente por cada corredor para rememorar os caminhos daquele vasto labirinto, nigérrimo, tenebroso e solitário. Todavia, a amazona lapidada em verde erguia-lhe a mão, impaciente:
— Precisamos ir direto ao quarto da senhorita Ametista! — os dedos tensos, esticavam-se, chamando pelos dele.
Deram-se as mãos e juntos materializaram-se no grande cômodo. A primeira pessoa que o príncipe vislumbrou foi seu irmão, abatido e tenso. No centro, o grande leito, e nele, uma pálida e pequenina mulher que ele quase confundiu com uma criança. Ajoelhada diante da criatura franzina estava Quartzy, o rosto era coberto pela franja rósea e por lençóis, os ombros tremelicavam, a curandeira do clã não fez esforço para erguer-se e fitar o recém-chegado. Encostado à parede dos fundos estava Topázio, acompanhado de suas fiéis súditas que, ao avistarem Diamante, jogaram-se ao piso numa reverência hiperbólica. Onyx, por sua vez, acomodara-se na poltrona, e descontraído esticava e encolhia os dedos da mão coberta pela luva.
— Príncipe, até que enfim! — Ametista, finalmente, viu a imagem ebúrnea quase esfumaçada, era ele aproximando-se. A mão pequenina e pálida esticou-se na direção do sonho vivo: — Príncipe Diamante, aproxime-se... — disse-lhe o nome em uma espécie de lamúria.
Ao ver-lhe o estado, não pôde negar. Sentou-se ao lado da pobrezinha, Quartzy desencostou a face dos lençóis e vislumbrou-o tomar a mão de Ametista. Foi quando deu-se conta de que era real, ele estava lá, e sua soberana, por sua vez, logo partiria...
— Então, foi você quem nos trouxe de volta. — apertou a mão gelada — Foi você quem falou comigo em Elysium, e também, foi você quem atacou Tóquio de Cristal aquelas vezes. — soou repreensivo, e o era.
— Eu tinha... — respirou entrecortada — tanto a falar! — curvou-se em agonia, o corpo todo transpirava embora gelado estivesse — Tanto!
— Senhorita, pare! — Quartzy advertiu e tomou-lhe a mão, desvencilhando-a da mão de Diamante. — Depois você poderá falar sobre tudo, tudo! Agora descanse!
— Acho que terei de passar o discurso... — trêmula, afagou a face sofrida da fiel súdita — Para você... — os olhos reviraram.
— Quartzy, a poção! — Jade anunciou-se.
— Já está nas veias dela... — respondeu e apontou o braço conectado ao soro.
— Vingue-nos, você nos deve... — a mão mórbida apertou a nobre farda do príncipe. Antes que ele desse uma resposta, as palavras sumiram dos lábios. A cena a seguir foi decadente: das narinas delicadas o líquido vermelho escorreu, a boca entreabriu-se golfando vermelho. Quartzy, rápida, a sentou. Os lençóis de veludo mancharam-se de escarlate enquanto o corpo pequenino partia-se em espasmos violentos, o peito inflava, até que a bomba-relógio finalmente explodisse: o coração doente. O último esforço foi um sorriso para a amiga tão querida. Ametista já não era capaz de falar, mas um pensamento derradeiro foi capaz de emitir, ainda que Quartzy não a pudesse ouvir: "Obrigada, minha irmã".
Os membros gélidos penderam, o último suspiro foi um fraco chiado. Ametista desfez-se como uma boneca de pano nos braços da jovem com traços de bailarina. O silêncio enegreceu ainda mais o triste dormitório. Nem um soluço, nada. De repente, somente passos: os de Topázio se retirando do quarto. Aoi e Akai ficaram estáticas onde estavam, a azulada escondeu-se por de trás da alaranjada. Onyx não emitiu reação, e Jade, dando-se por si, caiu de joelhos. Saphiro e Diamante não sabiam o que fazer ou o que dizer, olhavam-se confusos e apreensivos, o mais novo transparecia mais a aflição, principalmente ao deparar-se à Quartzy, abraçada à falecida em misteriosa mudez.
— Não... — Jade se pronunciou — Não! — a tristeza mostrava-se em revolta, indignação.
— Saiam. — Quartzy compôs forças para falar. — Saiam todos, por favor.
— Mas, Quartzy... — Jade questionaria.
— Saiam! — pela primeira vez em toda a vida, a suave Black Moon demonstrou aspereza.
Nem mesmo Diamante, o príncipe que nunca aceitou receber ordens, ousou discordar ou impor a sua presença. Saíram um de cada vez, silenciosos e respeitosos. Onyx, antes de passar pela porta, fitou Quartzy e seus olhos dourados, em rara vez, não transbordaram sarcasmo ou deboche, estavam quietos e misteriosos. Quando teve certeza de que estava sozinha, permitiu-se libertar em lágrimas. Cada respingo ocular trazia-lhe uma memória distinta, de uma infância sofrida, e de uma mão que a acolheu.
"Lembro como se fosse ontem... Você, me estendendo a mão naquela cruel escuridão onde eu me encontrava sozinha, sem familiares, pronta para morrer de frio ou inanição... E você me salvou, senhorita Ametista"...
No salão principal, Diamante deparou-se com seu antigo trono esverdeado.
— Não vai sentar? — Topázio provocou.
A exigência de Ametista não lhe saía dos pensamentos, ecoava na alma junto às palavras de rei Helios – um bom regente precisa se dedicar ao seu povo. Diamante, em passos temerosos, subiu ao trono, e ainda que tremesse o espírito, ao sentar-se demonstrou calma e imponência. Contemplou cada um de seus novos súditos encarando-o. Ele sabia que todos ali, inclusive o seu irmão mais novo, esperavam algo dele, os olhares refletiam anseios e buscavam por uma resposta simples e direta: Ele iria vingar seu povo?
Continua...
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