A Minha Queda Será Por Você
6 Enigmas, viagens e sonhos
Notas iniciais
A Minha Queda Será Por Você
Capítulo 6 — Enigmas, viagens e sonhos.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
O sol se punha alaranjado além do horizonte, nem parecia que no dia anterior houvera tão violento temporal. Não havia sequer uma nuvem escura, era o prenúncio de uma noite estrelada. Durante horas, a princesa não abandonou o quarto, passou um bom tempo emergida na enorme banheira redonda de seu banheiro particular, enquanto o resto dos habitantes daquele palácio movimentavam-se normalmente, exceto seus pais...
Helios caminhava até uma ala escondida, descia uma escada espiral que parecia interminável, depois de tanto descer, por fim alcançou um cômodo amplo, pouco iluminado, como um porão, uma câmara secreta. Foi em frente, até enxergar duas luzes, uma dourada e outra prateada. Eram pedras preciosas, cada uma em um altar, protegidas por suas próprias auras, era a pequena joalheria do palácio, mas a mais valiosa. Aproximou-se da luz de ouro, tocou-a e a pegou em mãos, era o cristal que fora encarregado de proteger: o cristal dourado.
Fechou os olhos, concentrado naquele brilho, quando os abriu estava naquele bosque onde por muitos anos vivera,o seu mundo, Ilusão. Não estava em sua forma humana, percebeu ao abrir as asas. Era como Olho de Peixe descrevera, vez ou outra os belos cristais espalhados por entre as árvores e pelo lago ficavam disformes, em seguida todo o cenário também, era temporário, mas preocupante. Em alguns momentos a paisagem se tornava escura, outros clara demais, era como se alternasse de sonhos bons para pesadelos. Analisando melhor, Helios andou até o centro do lago, suas patas de unicórnio flutuavam sobre a água transparente, fitava a imensidão do fundo até avistar um brilho negro mais ao centro. Mergulhou a cara na água sem pensar duas vezes, seus olhos dourados arregalaram-se, neles o objeto se refletiu: Uma gota de cristal negro, envolto por uma aura púrpura, através dele a imagem de uma menina de cabelos lilases e olhos azuis claros, quase brancos, se formou.
"Traga para mim aquele que merece o meu trono, aquele que governará em meu lugar... O único capaz de sentir tamanho ódio para vingar-se do povo da Terra por ter nos abandonado neste planeta frígido e remoto..."
Subitamente, Helios caiu sentado, estava de volta ao cômodo onde os cristais estavam guardados, o dourado ainda reluzia em suas mãos. Levantou-se, guardou o cristal em seu local de origem, respirou fundo tentando manter a calma de sempre, em passos regulados abandonou aquele porão.
- Como imaginei, não é uma bobagem... – pensou alto.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
Os dedos finos e delicados encerraram a melodia com um belo arranjo, a menina dos cabelos cor de fogo baixou o rosto que esbanjava um fino sorriso nos lábios, nada falou, apenas esperou algum comentário. Os olhos verdes, inseguros, fitavam as teclas dos sustenidos.
- Você tem talento. – em tom suave, ele disse enquanto desencostava da parede de vidro e ajeitava a farda.
- Obrigada... – falava baixo – Não estou acostumada a tocar para as pessoas.
- Por que não? – olhou para o lado, observando a natureza exuberante que os envolvia, as flores azuis, similares a que em especial apareceu em seu planeta certa vez – Pensei que músicos tocassem seus instrumentos para os outros, não para eles mesmos.
- Estou treinando para o baile... – fechou o piano, permaneceu sentada, passando a mão sobre a madeira nobre pintada de branco e verniz.
- Baile? – a curiosidade de Saphiro despertou, andou até a jovem, ficou parado ao seu lado, de pé – Que baile?
- Ah, parece que está chegando alguém importante no reino... Os reis tem esperado ansiosamente, também a princesa. Vai ser como uma festa de boas vindas.
- Um baile... Como será? – falou pensativo.
- Nunca esteve em um? – fitou-o de lado, surpresa.
- É claro que sim, mas nunca participei... Em meu reino, os bailes estavam sempre relacionados a negócios, poucos presentes, não era bem por lazer ou confraternização.
- Você pode ir ao nosso baile, acho que não terá problema, muitas pessoas vão... – o rosto dela ruborizou um pouco mais.
- Acredito que o rei, principalmente a rainha, não serão muito a favor de minha presença...
- Ah, que isso! Se permitiram que ficasse aqui, então não deve ter problema. – Hina sorriu, pela primeira vez teve coragem de fitá-lo diretamente, mas não por muito tempo.
- Você tocará durante todo o baile? – aproximou-se um pouco mais, assim podendo tocar a parte de cima do piano que estava entreaberta, permitindo a visão de suas cordas douradas por dentro.
- Ah, não, não! – sorriu desajeitada – Tocarei umas três músicas no máximo, a princesa cantará uma, Mizumi a está treinando! É uma pequena apresentação que estamos preparando...
- E você? – virou o rosto, assim seus olhos puderam encontrá-la.
- ... Eu? – piscou os olhos, confusa.
- Quem a treina?
- Ninguém, eu toco sozinha.
- Incrível... – arregalou os olhos, surpreso.
- Ah! – para não perder o costume, o rubor tomou conta de suas bochechas, mais uma vez a timidez a dominou, fazendo-a agir de forma atrapalhada – Está ficando tarde, daqui a pouco temos que jantar! – levantou-se a cambalear, quase tropeçou no banco mas antes que pudesse receber alguma ajuda do rapaz, desviou – Tudo bem, estou bem! – riu desconsertada – Até mais!
- Espere, vá com calma... – a avisaria de que as pedras ainda estavam molhadas no pequeno caminho lá fora, e que ela tropeçaria nos limos, todavia a menina caiu antes que pudesse ser acudida. – Você está bem? – andou até ficar ao lado dela, estava sentada no chão, com pequenos ralados nas mãos por ter se apoiado para não bater o rosto.
- Sim, está tudo bem! – ainda mais vermelha do que antes, virou o rosto para o lado oposto a ele.
- Tonta – disse sério, a puxou por um dos braços e a induziu a ficar de pé, ao seu lado – Qual é o seu problema?
- Desculpe... – cerrou os olhos e abaixou a cabeça.
- Olhe para mim – curvou levemente o corpo, baixando a cabeça, olhando-a mais de perto. Puxou a mão pequenina e passou o polegar levemente sobre o ralado – Precisa lavar isso, vá. – a soltou – Tome mais cuidado!
Em um pulo, ela se afastou. Deu uma pequena corrida até ficar um pouco afastada, parou, olhou-o, seu rosto ficou ainda mais vermelho e sentiu-se obrigada a virar-lhe as costas, não suportava aquele maldito rubor que não a deixava em paz.
- Não deixe de ir ao baile, viu? – falou rapidamente e partiu, deixando Saphiro lá, confuso.
Quando a jovenzinha finalmente sumiu, Saphiro ainda atônito sentou-se nos pequenos degraus do coreto, e de uma forma completamente sem nexo permitiu uma curta risada escapar de seus lábios. Não entendeu porque fez aquilo, muito menos porque sentia-se tão confortável, era estranho que as lembranças do passado não o deixassem triste, ao menos não enquanto estava com ela.
"O que meu irmão diria se me visse agora? O que será que aconteceu com ele?" – Divagava, sentado no mesmo degrau – "Gostaria que ele pudesse desfrutar dessa paisagem, era o nosso sonho viver nesse lugar..."
X---------------------------------------------------------------------------------------X
O jantar foi posto à mesa, foi quando Crystal resolveu mostrar-se, já de roupas limpas, para todos. Era constrangedora a forma como a olhavam, todos indagavam em pensamentos por onde a princesa andara, sabia disso. De olhar cabisbaixo, fitou o prato branco de porcelana com rosas cor de rosa pintadas em suas bordas juntamente a uma fina camada dourada, a falta de fome era raridade. Rini fitou a filha, em seguida voltou o olhar para o marido, cujo pequeno traço de preocupação em baixo dos olhos a angustiava, sabia que mais tarde teriam de conversar.
Por mais distraída que fosse, notou alguém novo naquela enorme mesa. Crystal passou os olhos por todos até esbarrar com o rapaz todo de azul ao lado de Hina. Deu um pulo na cadeira, assustando a todos.
- O que há, Crystal? – Rini perguntou, reparando quem a jovem olhara.
- Nada, não é nada! – olhava incessantemente para a lua na testa de Saphiro.
Ele passou a mão pelo rosto, depositando-a por baixo da franja, como se tentasse esconder a insígnia. A princesa tentou disfarçar ao pedir que servissem logo a refeição. Foi a primeira a terminar, sem cerimônia pediu licença e afastou-se de todos, em passos largos foi até a biblioteca, Sailor Wind a seguiu na surdina, esbelta e leve como era, fazia jus aos poderes que herdara, sua presença não foi percebida.
Rini foi a última a levantar-se da mesa, seus pensamentos a mantiveram ali, refletindo sobre tudo o que ocorrera em tão pouco tempo. Helios sentia-se em necessidade de ter uma conversa com sua esposa, mas ao vê-la tão perturbada, apenas passou a mão por seu ombro e depositou um beijo ali na tentativa de acalmá-la.
Sailor Saturno retornou à sala de jantar, aproximou-se de seus reis, reverenciando-os solenemente.
- Majestades...
- Hotaru – Rini, enfim, levantou-se – Não precisa ser tão cordial com sua velha amiga...
- Sinto muito, acabei me acostumando dessa forma – abriu um pequeno sorriso – É que andei pensando sobre algo que vi.
- O que viu? – Rini perguntou.
- A princesa estava na biblioteca ontem, estudando.
- Ora, mas que coisa boa! – Helios disse em tom alegre, tentando quebrar aquele clima frio e sério.
- Até o presente momento também achava positivo. O problema era sobre o que estava estudando.
- ... E o que era? – A rainha estreitou os olhos.
- A invasão de Nemesis – o semblante da guerreira do silêncio tornou-se sério – Lia sobre a família Black Moon.
Rini sentou outra vez, com uma das mãos sobre a testa, buscando manter a calma, Helios ainda de pé, ficou ao seu lado.
- Querida, o que está pensando?
- Será que eles a querem, Helios? Será que estão planejando fazer com ela o mesmo que fizeram comigo?
- Acha que esse rapaz que está no palácio tem más intenções, Rini? Que eu saiba, tanto ele quanto o irmão morreram redimidos com nossa família, arrependeram-se do que fizeram no passado. Esse rapaz, Saphiro, talvez só precise de uma nova chance, se o tratarmos gentilmente não acredito que fará algum mal.
- Hotaru também notou como Crystal olhou para ele, era como se já conhecesse aquela insígnia... – Rini baixou as mãos sobre a mesa – É estranho que tenha regressado do nada, quem garante que só ele está solto por aqui?
- Majestade, o que devemos fazer? Prendê-lo? – Sailor Saturno perguntou – É só dar a ordem.
- Não acho que seja apropriado, querida. Assim daríamos motivos para um conflito, acho que no momento devemos apenas observá-lo.
- E quanto a Crystal, o que ela tem a ver com isso? Algo me intriga em relação a esse assunto... – levantou-se devagar, recobrando a postura firme e imponente.
- Como você mandou, Sailor Wind cuidará de sua segurança, o que quer que esteja havendo, descobriremos e então decidiremos como agir. Sim? – o rei acariciou o rosto de sua esposa, passando o dedo entre o pequeno cacho que se formava nos cabelos sobre a orelha dela.
- Qualquer coisa, estarei aqui com as outras, majestades. Se me permitem sugerir, acho que já é tempo para começar o treinamento das meninas, só por precaução.
- Hotaru está certa, querida.
- É verdade, que amanhã se inicie então, Hotaru, a encarrego de entregar os broches. – a rainha de cabelos rosados fitou a amiga e abriu um pequeno sorriso.
- Como desejar, vossa alteza – a Sailor fez uma última reverência antes de permitir que os governantes ficassem a sós.
- Sei que gostaria de poupá-las, mas é o destino de cada uma, assim como o nosso, dedicar as vidas para proteger este belo paraíso... – o homem de cabelos e olhos claros abraçou a amada, permitindo-a repousar a cabeça em seu peito, enquanto afagava-lhe as costas.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
A única luz que adentrava aquele humilde lugar era a do céu estrelado que refletia em tons de azul em sua pele pálida e roupas brancas. Ajustou a capa em seu traje, fitava os livros que a princesa havia esquecido jazidos em seu colo, abria na página que lembrara ter parado, exatamente a que descrevia o baile onde a princesa da lua e o príncipe da Terra haviam se apaixonado. Seus olhos púrpuras pareceram opacos diante às narrações de belas promessas. Conforme o tempo passava, mais mergulhado naquelas histórias ele parecia, conseguira ler tanto a ponto de terminar a batalha de Sailor Moon contra rainha Metallia.
- Sempre que morrem, encontram-se novamente... – concluiu – Príncipe Endymion sempre retornou para ela... É esse o amor eterno o qual todos tanto desejam viver? – fechou o livro.
Levantou-se, foi até a janela, observou as estrelas reluzentes em torno da lua, mal sentia o vento tocar a pele e arrepiar seus cabelos.
"Se ela for realmente reencarnação de Sailor Moon, ele voltará para ela..." – sentiu um breve incômodo, e ao mesmo tempo uma pontada de confusão. Era bem verdade que nas últimas horas, lendo aquelas crônicas dos navegantes da Terra, Lua e diversos planetas, poucas vezes lembrou-se de cabelos dourados, em grande parte do tempo em que lia e imaginava, só via cabelos castanhos e ondulados na mulher que pensava. As imagens pareciam alternar em segundos, como um filme que passava rápido demais para serem nítidas as cenas.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
Antes de deitar para dormir, Crystal fitou a lua uma última vez, em poucos dias adquirira o hábito de ficar a admirá-la e fazer pedidos. Deitou a cabeça sobre o travesseiro e fechou os olhos lentamente, expressando um pequeno sorriso, puxou um travesseiro ao seu lado, o abraçou e virou o corpo de bruços. Desejava dormir depressa, para que o dia seguinte não tardasse a chegar, desejava sonhar... Com ele.
Um breve arrepio percorreu a nuca e o início das costas enquanto ela lembrava, com cada detalhe, os dois deitados em meio a flores e grama. Aquele sorriso, aqueles olhos, aquela lua negra que por segundos materializou-se em um olho dourado. Aqueles lábios finos, entreabertos, prontos para um beijo.
Um beijo... Só de pensar, tentar imaginar, sentia um estranho calor percorrer o corpo até a face rosada. Apertou o travesseiro que abraçava e mordeu levemente o lábio inferior. Suspirou, virou para o outro lado a afagar o objeto que abraçava como se fosse uma pessoa. Por uma pequena fresta aberta da porta, a guardiã dos ventos a observava, aqueles olhos prateados como espelhos buscavam compreender o que se passava com a princesa, porém, antes de iniciar cogitações, uma mão de dedos longos e finos alcançou-lhe o ombro, a voz terna foi sussurrada em seu ouvido:
- Está espiando? Que coisa feia...
- Sailor Ocean, fui encarregada de zelar pela princesa. – respondeu, seca, repelindo a mão da outra.
- Isso não é justo, sinto-me sozinha.- suspirou, encostando-se na porta, ao lado da outra.
- Vá procurar Olho de Águia, ele pode oferecer o que precisa.
- Está com ciúmes, Yumi? – disse em tom divertido, levou uma mão aos lábios enquanto ria discreta.
- Ocean, sabe que não tenho tempo para seus joguinhos, brinque com quem está apto a isso.
- Ai, Yumi, mas como você é sem graça! – encostou a cabeça no ombro que antes repousara a mão – Não percebe que é a sua companhia que desejo?
- Lamento, Sailor Ocean. – Deu um passo para o lado, tirando o apoio da outra – Deixe-me cumprir minha função.
- Aff, mas que coisa, só tem olhos para a família real! – alongou-se e afastou-se.
- É a minha missão protegê-los, por sinal, a sua também. – fitou-a de lado.
- Eu sei, mas não somos máquinas que existem apenas para trabalhar. Deveria se divertir de vez em quando, Yumi.
- Vá dormir, Mizumi. Se está solitária chame aquela ave de penas arrepiadas para fazer companhia, aposto que ele adorará.
- É, não é má idéia, minha cara. – riu – Ele é uma graça de qualquer forma, pena que apenas o veja como diversão, bem que gostaria de me apaixonar por ele...
- Impossível, é incapaz de se apaixonar. – Wind bufou – Só ama a si mesma.
- Está enganada... – mirou o próprio reflexo no piso de vidro – Boa noite, Yumi. – afastou-se.
Sailor Wind a observou afastar-se com a mesma frieza no olhar que sempre carregava. Não demonstrava emoção alguma, talvez Mizumi estivesse certa, pensava, deveria ser uma máquina, todavia não se importava, se lhe tirassem a devoção à missão, nada mais restaria para motivá-la.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
- Príncipe, está tudo preparado, a nave já pode zarpar! – um velho homem dizia enquanto ajudava outros a desamarrarem as cordas de uma embarcação de luxo.
- Até que enfim estou preparado para ir de encontro ao meu destino! – Um homem, de cabelos lisos e negros que tocavam os ombros, olhos profundamente azuis, protegido por uma armadura preta com detalhes em prateado, adornada por uma capa vinho escura, descia de um cavalo tão negro quanto o seu metal, e em passos pesados, aproximava-se. – Anos de treinamento e espera, disseram-me que depois de completar 18 anos, estaria apto a sair em busca daquilo o que me falta.
- Os reis aliados o esperam, assim como sua filha... – Um outro homem, trajado em tecidos nobres, de cabelos grisalhos lisos que atingiam as costas, aproximou-se – Não esqueça de ser cordial e entregar-lhes presentes, meu filho.
- É claro, meu pai, não se preocupe! – após um último abraço familiar, o aventureiro príncipe partiu, o seu navio encantado espalhava pelas águas pétalas vermelhas de rosa e exalava o perfume nas águas e quando alcançava o horizonte, como em uma cena de contos de fadas, abandonava o mar para navegar em meio às nuvens com destino ao espaço onde as estrelas que o guiariam brilhavam incessantemente em tons de azul e branco.
"Adeus, Sedna..." – Ele pensava, já saudoso.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
Com o passar das horas, a noite tornava-se mais fria e escura, o brilho das estrelas era pouco para aquecer aquele reino, era como um presságio de inverno, ao menos as nuvens não esconderiam as luzes celestiais, não naquela noite. Pareciam observar os sonhos de alguém...
Estava escuro naquele lugar revestido de paredes de um cristal negro que reluzia leves tons de roxo e verde dependendo do ângulo que eram vistos, mesmo o teto era coberto por aqueles cristais pontiagudos, assim como o piso. A princesa, ao olhar seu próprio reflexo naqueles "espelhos" negros, notou o belo vestido branco de gala que usava, a lua em sua testa brilhava mais dourada do que o normal, seus cabelos ondulados e volumosos estavam presos em odangos, como os de sua avó, passou a mão por eles perguntando-se quem os teria prendido daquele jeito, se ela nunca gostou de usá-los assim.
Seus pensamentos foram cortados por uma voz serena, porém sombria, que vinha do canto daquele misterioso salão, de sua parte mais tenebrosamente escura.
- Princesa, até que enfim...
Virou o corpo para a direção que a voz parecia vir, estreitou seus grandes olhos azuis tentando enxergar melhor a quem pertencia a silhueta, e antes que o dono daquele timbre se mostrasse, conseguiu descobrir sua identidade graças à Lua negra e invertida que iluminava a sua testa.
- Príncipe Diamante. – afirmou, ao proferir o nome um singelo arrepio percorreu pela pele.
Em questão de segundos, ele já estava tão próximo a ponto de arrancar-lhe o fôlego. As mãos frias e pálidas seguravam-na pelos ombros, puxando-a de encontro à ele. Estática: foi como ficou. Os olhos pesaram ao fitar os lábios finos formando um quase sorriso perverso.
Embora a imagem daquele homem devesse lhe causar pavor, a sensação de perigo não parecia um mal, seu coração acelerava, mas não de medo, eram palpitadas incontidas, quase selvagens, seu corpo esquentava por dentro e, consequentemente, por fora.
- Um beijo – ele disse, repousando uma das mãos sobre o delicado queixo dela – Um beijo de lealdade.
Era o momento que sua ancestral o repeliria, afinal, seu coração pertencia a outro homem. Mas... e o dela? O que o coração de Crystal desejava?
Ele. Incessantemente, desesperadamente ele. Em cada batida incontida, cada puxada de ar com esforço, cada milímetro de seu corpo. Um único toque daquela boca na sua e seu corpo desfaleceria naqueles braços, tamanho era o inquieto e luxurioso anseio de beijá-lo...
Seus lábios encontraram-se, e tal como pensou, seu corpo pendeu como se fosse uma boneca sem domínio de suas atitides, as mãos a seguraram firmemente como se sugassem suas energias, e ainda assim não queria apartar-se daquele abraço fatal, correspondia-o com tamanha volúpia comparável a dele. Não notara, mas a partir do momento em que cedera a aquele beijo de morte, a tonalidade de seus cabelos começara a modificar. As madeixas tornavam-se douradas e menos espessas. Somente percebeu a metamorfose quando aquele ato insano e passional se findou. O homem a soltou, ainda cambaleante, deu-se de frente ao seu reflexo. Passou as mãos pelos fios, angustiada.
-Essa não sou eu!
- Mas é claro que é. – ele disse, abraçando-a por trás e depositando um beijo em seu pescoço.
- Não, meu cabelo não é assim! Eu não sou essa, eu sou Crystal! – o tom de voz aumentava na medida em que seu desespero tornava-se evidente.
- Crystal? Não diga besteiras, querida. Você é a futura rainha Serena de Tóquio de Cristal, a minha Sailor Moon. Não vê? – tocou-lhe o queixo, forçando-a a encarar seu reflexo.
- Não... – balançou a cabeça negativa, puxou ar e coragem – Não! – gritou.
Sentou-se subitamente, ofegante. Seu corpo tremia, mas não pelo frio da noite, por motivos além do pesadelo, sentia um forte calor percorrendo todo o corpo por dentro, e leve dormência nas extremidades, mesmo assustada, a sensação não era ruim de todo. Passou o dedo indicador e médio pelos lábios, ainda molhados (talvez em consequência do desejo), como se pudesse sentir-se sendo beijada, e a sensação era deveras concreta. Respirou fundo, permitiu o corpo cair sobre o macio colchão real, um pouco ofegante, fitou o teto branco, com nuvens e anjos pintados em sua cúpula.
"Como queria ter estado no lugar de minha avó..." – prolongaria aquele pensamento se não fosse atormentada pela sua consciência que dizia ser ruim uma ideia daquela, era impuro sentir inveja, a futura guardiã do cristal de prata não poderia sentir algo do tipo.
Virou-se de bruços, afundou o rosto no travesseiro, envergonhada por, pela primeira vez em toda a vida, ter desejado ser realmente a sua avó, afinal, desde sempre prometera a si mesma jamais aceitar viver à sombra de alguém que já existiu, até o presente momento, sempre desejara nada além do que descobrir a própria identidade e simplesmente ser ela mesma.
"Será, então, que o primeiro traço de minha personalidade é ter me apaixonado por quem minha avó rejeitou?"
Ter se apaixonado... Acabara de admitir o fato, finalmente.
Estava delirando, ficando louca, só podia. Talvez não devesse ter lido aqueles páragrafos que narravam a paixão de Diamante por sua avó, mas agora estava feito, e ela simplesmente não conseguia parar de pensar nisso.
X---------------------------------------------------------------------------------------X
- Princesa Ametista – um homem de cabelos ondulados e dourados que caiam por sobre os ombros de sua farda negra, revestida por uma armadura lapidada em uma pedra preciosa de tom um pouco mais escuro que seu cabelo, pôs-se em reverência – encontrou os homens os quais trouxe de volta a vida?
A garota cujos fios de cabelo eram roxos bem claros, e olhos azuis esbranquiçados de pupilas turvas, estava sentada em um tatami de cor violeta, em um centro redondo daquele enorme salão revestido por cristais negros. Trajava um kimono tradicional branco, detalhado com alguns bordados em um tom mais escuro de roxo, e enfeitado com algumas pedras que lhe davam o nome. Uma aura azul a envolvia, mantinha-se em postura de meditação até ouvir a voz grave e imponente vinda da porta.
- Sei que estão perdidos naquele planeta cujos habitantes nós tanto desprezamos...
- E então? – Ele perguntou, fitando-a com seus olhos ambar.
- Em algum momento, retornarão para cá... O nosso grande soberano e seu irmão, para brindar-nos com uma nova chance de viver em um lugar digno, sem mais humilhações...
- Claro... – não disfarçara o tom pejorativo – Acha mesmo que aquele príncipe, que cometeu tantas gafes, é capaz de reger-nos?
- Topázio, sabe que minha saúde é fraca, não tenho descendentes... Sei que Príncipe Diamante pode ser auxiliado pelo seu sábio irmão, este trono é dele... E conhecendo os próprios erros, obviamente evitará cometê-los outra vez.
- ... Que seja. – O homem, que mais parecia um cavaleiro, balançou sua capa marrom e abandonou o cômodo.
Ametista conhecia bem a indignação de seu subordinado, assim como a sua vaidade e falta de responsabilidade, era egocêntrico e mesquinho demais para merecer o título de grande soberano. Fazer justiça, para a mulher de aparência pequena e infantil, divergia imensamente de criar caos e dor por prazer.
Fitou o circulo negro embaixo de seu tatami, tocou-o com o indicador, causando movimentos circulares nele semelhantes à água parada, quando tocada. Naqueles movimentos que tornavam-se espirais, um pequeno pingente, uma gota de cristal negro era refletida, não somente naquela imagem, mas em algum lugar na Terra, e também, numa terra distante de sonhos e ilusão.
- ... O que pode ser isso? – Um pégasus se perguntava, flutuando sobre um lago encantado, onde o mesmo cristal reluzia, junto à ele, um peixe, uma águia e um tigre pareciam fazer a mesma pergunta.
- Majestade, o que pretende fazer quanto a isso? – A águia que sobrevoava as águas límpidas, perguntou.
- ... Parece que Ilusão precisa de mim aqui. – Os olhos dourados do belo cavalo branco adquiriram um brilho de melancolia.
- Mas, majestade... E o baile que será daqui há alguns dias? – foi a vez do tigre se manifestar.
- Bem, é verdade... Ao menos até o baile, ficarei com minhas queridas esposa e filha, para a partida não ser tão dolorosa, e também para prepará-las. – suspirou – Esse mundo é minha responsabilidade, tenho que descobrir o que está acontecendo, e protegê-lo...
- Nós podemos protegê-lo! – o peixe disse
- É claro, amigos, mas parece que nesse momento cabe a mim essa função, peço a vocês que cuidem de minha família quando eu estiver fora.
- Sim, majestade! – os três disseram juntos.
- Bem, por enquanto devemos retornar ao palácio, elas precisam de nós já que ainda serão treinadas.
Por fim, os quatro retomaram suas formas humanas e voltaram ao imenso palácio, o rei pediu sigilo aos seus súditos. Em passos calmos, foi ao quarto, sentou-se na enorme cama onde a sua esposa, como a imagem de uma bela divindade, dormia à vontade, espaçosa, acomodara-se bem no meio da cama, a camisola branca, à luz da lua trasparecia e assim expunha as formas maduras e delineadas daquele corpo o qual a ele pertencia toda noite. Os cabelos rosados, soltos, espalhavam-se como uma enorme cortina sobre os lençois brancos, ela respirava pesadamente. Helios passou a mão por aquele rosto delicado com sutileza, afastou a franja dos belos olhos, deitou-se ao lado daquela beldade com toda a calma do mundo, não queria acordá-la, não desejava que aquela bela imagem, aquele momento mágico fosse interrompido. Quem dera durasse para sempre...
"Minha Rini, mais do que nunca, precisará ser forte..."
Fitando aquele rosto que conhecera quando ainda era o de uma criança, sorriu.
" Não, não precisará. Você é forte, muito forte... Uma mulher incrível!"
Respirou fundo, acomodou-se na cama, em seguida, envolveu a sua rainha nos braços, enfim, adormeceu.
O dia seguinte seria longo, e árduo para todos naquele castelo, portanto a presença do rei ainda era necessária naquele palácio.
Continua...
X---------------------------------------------------------------------------------------X
Fale com o autor