Notas iniciais
Vim no Nyah por último, porque ando achando as coisas paradas por aqui, me perdoem qualquer coisa. Espero que gostem do capítulo!

A Minha Queda Será por Você
Capítulo 47 – Doce Maldição

O olho dourado cintilou impetuoso, e naquele exato momento, Damien pôs a espada à frente do rosto e saltou na direção do inimigo. O cristal da lâmina brilhou espelhado em diferentes cores, como um prisma, nele se refletiu a luz dourada do ataque de Diamante. Pela primeira vez, o Príncipe Branco se viu a mercê de seu próprio ataque telecinético, ao invés de paralisar o corpo do adversário, o seu foi paralisado. Os orbes violetas arregalaram-se, tudo aconteceu tão rápido como se o tempo tivesse parado. O olho d’ouro fechou-se em Lua Negra, ferido. O rei de Tóquio de Cristal atacou-o com tudo de si.

Damien regozijou-se com o estalar das costelas se partindo ao toque de sua espada, e então, muito sangue, uma cascata batizou o mineral próprio de Sedna. Do canto do lábio de Diamante, um filete de sangue escorreu. E se a dor fora intensa quando a espada se enterrou em suas costelas, mais brutal se tornou quando o objeto foi violentamente retirado de sua carne. Mais sangue, um grito – de Diamante, um sorriso vencedor – de Damien.
O líder Black Moon, em processo de desmaio, caiu... Antes de se chocar com o chão foi amparado pelo irmão, a consciência esvaneceu. Tudo escureceu e silenciou.

...


Damien pairou sobre o piso rijo e fincou a espada ensanguentada nele. As guerreiras livraram-se das Medusas e correram até ele. Marine abriu os olhos e finalmente percebeu quem a impedira:

— Você?! — exclamou diante do irmão mais jovem do rei. Este, afoito por cumprimentar o irmão, liberou Sailor Acqua de seu peso e apressou-se a unir-se ao rei.

— Eu sabia que você conseguiria! — Doryan tocou os ombros de Damien — Deu-lhe uma lição, vencemos!

— Acalme-se, Doryan. — ofegante, ponderou — Não temos como saber se aquele homem está morto, e você não deveria ter saído do palácio. É perigoso! — recriminou-o.

— Mas você não viu a quantidade de sangue? Mesmo que ele sobreviva, estará limitado! Venceremos! Eu sabia que essa espada era a minha obra prima, eu precisava ver com meus próprios olhos!

— Do que ele está falando? — Sailor Acqua se chegou.

— Marine, quem lapidou essa minha espada foi meu irmão. — Damien sorriu.

— Sim, ela é feita de um mineral raro que existia apenas em nosso planeta, assim como a armadura de meu irmão.

— Diamante usaria seu ataque telecinético no rei — Sailor Wind, próxima, comentou —, mas seu poder foi refletido contra ele mesmo.

— Aposto que príncipe Diamante não esperava por isso. — Sailor Phantom disse, satisfeita. — Finalmente, temos um trunfo.

— Ganhamos tempo. — Damien afirmou ligeiramente aliviado — Agora temos que descobrir um meio de resgatar Crystal.

— Onde está Sailor Fire? — Sailor Nature questionou.

Todos olharam para os lados, não havia vestígios de Hina.

...


— Ande, Quartzy! — Saphiro, apavorado, exclamou — Prepare logo isso!

— Príncipe, acalme-se, ou a poção não dará certo! Continue estancando o sangue! — as mãos da moçoila emanavam a energia que se convertia no elixir curador.

O abdome de Diamante ainda não fora enfaixado, Saphiro continha o sangue com as mãos sobre uma atadura a esta altura já rubra. O príncipe mais velho não dava um sinal de que acordaria tão cedo, tampouco de que sobreviveria.

...


— Deixem-me sair! Deixem-me vê-lo! — Crystal esmurrava as portas até as mãos arderem, estava trancada no quarto, aos cuidados das gêmeas Agatha.

— Mas que irritante! Para de gritar! — Akai cobria as orelhas com as mãos.

— Rainha, rainha! — Aoi, a doce, tocou os ombros da prisioneira e a conteve — Por quê?

Crystal, arfante, parou e fitou a menina.

— Por que quer vê-lo? — Aoi continuou — Por que parece tão preocupada com ele? — todos os traços da delicada Lolita entregavam sua confusão.

— Ela é louca! — Akai, a esquentada, adiantou a resposta.

— Vocês parecem tão novas... — Crystal observou — Não deveriam envolver meninas como vocês em um conflito como esse.

— Não se engane com nossa aparência, podemos ser letais! — Akai formou uma chama na palma da mão.

— Senhora, você não respondeu... — tímida, Aoi falou baixo — Por que chorou quando o príncipe foi atingido? Você se preocupa com ele?

— Muito! — nem respirou antes de falar. — Você não imagina o quanto... — encostou a testa na moldura da grande porta, os dedos escorregaram pela madeira negra.

O timbre ameno e sofrido da rainha despertou ainda mais a curiosidade de Aoi, por outro lado, sua irmã idêntica não pareceu dar muita importância. A ruivinha sentou-se à cama e balançou as pernas.

— Por favor... — Crystal, chorosa, sussurrou para Aoi — Eu preciso saber como ele está!

Comovida, a jovenzinha assentiu com o movimento de cabeça. Deixou que passassem alguns minutos e teletransportou-se à porta do quarto de Diamante, observou pela fresta Quartzy derramar sobre o tronco do lânguido príncipe sua poção curadora. Saphiro andava de um lado para o outro, mordia o lábio inferior e passava a mão pela face suada. O próprio notou a presença de Aoi, viu o olho piscante do outro lado da porta e adiantou-se a enxotá-la:

— Você não deveria estar tomando conta da rainha?! Saia logo daqui!

— Mas, eu...

— Saia! — exaltou-se.

— Príncipe Saphiro! — Quartzy intercedeu — Talvez ela tenha algo a dizer!

— E-eu... — encabulada, Aoi respirou fundo e soltou: — A rainha quer saber como o príncipe está! E-ela está preocupada!

— Preocupada, sei! — o príncipe azul debochou — Volte aos seus afazeres! — bateu a porta.

— Príncipe... — Quartzy suspirou pesarosa — Onde está a sua serenidade de costume? Tome cuidado para não ser injusto...

— Como posso ser sereno quando o único parente que tenho está nesse estado? É capaz de Topázio se aproveitar da situação e tomar o lugar de meu irmão nesse meio tempo! — ajoelhou-se ao lado da cama, segurou uma das mãos do regente inconsciente — Quartzy, me diga com toda a sinceridade, ele sobreviverá?

— As próximas horas serão críticas, príncipe Saphiro. O ferimento foi profundo, o coração dele foi atingido. Neste exato momento, a minha poção corre por dentro da ferida e tenta cicatrizá-la, mas ela não age sozinha. A força interior de seu irmão é crucial para que ele se recupere. Pode levar uma noite, ou até cem, não se sabe. Eu sinto muito... — baixou os olhos lilases, as pestanas se tocaram, úmidas — Prometo que farei o que estiver ao meu alcance por seu irmão, por você, e em nome da memória da Senhorita Ametista.

— Quartzy... — Saphiro tocou-lhe a mão firmemente — Muito obrigada por tudo, não só hoje, mas por todos os anos que passaram.

— Príncipe, eu... — as bochechas rosaram, ela abriu um pequeno sorriso — Faço o que for preciso para satisfazê-lo. Tudo o que almejo é a sua felicidade... — pausou, fitando-o, reparou em suas nuances o ar de surpresa e a falta de jeito — e a de seu irmão! — completou, e assim tranquilizou-o. No fundo, o que fizera foi disfarçar uma declaração apaixonada. Antes que ficasse evidente, Quartzy mudou de assunto: — O que me preocupa muito, além do bem estar do seu irmão, é a postura de Topázio. Mais do que nunca, o senhor deve marcar presença no salão e intervir nos planos de ataque — a palavra “ataque” soou desgostosa —, ou Topázio e Onyx dominarão a situação.

— Como posso deixar meu irmão, sair do lado dele, ele estando desse jeito?! — lamentou.

— Tenho certeza de que Príncipe Diamante iria querer o irmão mais novo ativo, em seu lugar, enquanto ele não pode fazer nada. O senhor deve substituí-lo, por enquanto. E eu não sairei daqui, cuidarei do príncipe como cuidei da princesa. Confie em mim...

— Quartzy, você é a pessoa em quem mais confio. — mirou-a admirado — Sei que meu irmão está em boas mãos. — respirou fundo, encorajando-se — Tem razão, não posso deixar Topázio e Onyx soltos por aí, fazendo o que bem entendem. Serei o porta-voz de meu irmão enquanto ele não acorda. Tenho fé de que ele será forte e retornará para nós. — meigo, Saphiro lançou um último olhar ao mais velho, e então acenou um “até breve” para Quartzy e deixou o quarto. Em passos pesados e apressados, foi ao salão principal, deu-se com o trono vazio e a dupla tão comentada mirando Tóquio de Cristal através da holografia.

— Ora, ora, se não é o príncipe alquimista que dá as caras! — Onyx recebeu-o risonho — Seu irmão ainda respira?

— Em breve ele estará aqui para fazê-lo morder a língua. — aproximou-se — E então? Planejaram alguma coisa?

— Veja você mesmo. — Topázio, rígido, apontou o holograma. Droids marchavam pela cidade, dominavam cada construção abandonada. Alguns cidadãos tomavam coragem de sair das tocas e enfrentavam-nos. — Não sei quanto a vocês, mas sinto como se estivesse assistindo um filme sobre a guerra civil entre nemesianos e terráqueos ainda no reinado de Nova Rainha Serena.

— A História se repete, meu caro! — o cientista comentou.

— Se repete até ser encerrada. – Saphiro, pesaroso, complementou...

...

—... E é assim que o príncipe está. — Aoi contou para Crystal o que viu. — Eu lamento...

— Pois eu não! — Akai adiantou-se — Essa é a oportunidade que nosso mestre esperava!

— Akai! — Aoi cobriu os lábios da outra com as mãos.

— Como assim? — a rainha indagou enquanto enxugava os olhos — O que quer dizer com isso?! — aproximou-se da menina dos cabelos vermelhos.

— Akai só diz bobagens! — Aoi se antecipou — E o príncipe ficará bom, você vai ver!

— Eu hein! Por que ela desejaria a recuperação do príncipe?! — Akai cruzou os braços — Ei, rainha! Por acaso você é burra?

— Akai! — Aoi espalmou a própria testa, envergonhada.

— Está tudo bem... — Crystal afagou o ombro de Aoi — Vocês querem ouvir uma estória? — um sorriso nostálgico marcou-lhe o semblante.

As gêmeas sentaram-se à cama como duas crianças curiosas e ansiosas. Crystal respirou fundo e se concentrou bastante, assim seus pensamentos levaram-na de volta a uma época feliz.

— Tudo começou depois de uma tempestade, quando uma princesa encontrou um príncipe adormecido debaixo de uma grande árvore...

...

Enquanto as guerreiras se dividiram para combater os Droids que sitiavam a cidade, Damien usava toda sua força para tentar romper o campo de força que protegia o óvni principal. A espada poderia ser letal contra a pele, porém, contra a parede que envolvia a nave flutuante a arma era inútil. Assim mesmo, Damien era persistente, poderia rolar pelo chão quantas vezes fosse, o frio não o poupava do suor esforçado, e ele levantava e corria de encontro à barreira nefasta outra vez.

Hina, diferentemente das outras, caminhava sem rumo. Suas chamas apagaram qualquer oponente pelas ruelas escuras, e então, aleatoriamente, a tristonha Sailor Fire se viu de frente a um teatro perfurado por Cristais Negros pontiagudos. As portas já não existiam, o vidro das grandes janelas jazia estilhaçado ao redor da construção. As paredes, rachadas, desenhavam mosaicos.

— É até bonito. — ela constatou antes de adentrar o assombroso recinto. Lá, uma lembrança se avivou na mente alaranjada: o dia em que ela ganhou seus poderes. Hina passou por cada cadeira vermelha e aveludada, todas cobertas pelo manto da poeira. As luvas brancas encardiram ao tocá-las, mais poeira subiu como névoa quando a marinheira subiu a escadaria de madeira e, finalmente, encontrou-se ao palco, nele, quem adivinharia? Um piano intacto. Devagar, ela se aproximou como se estivesse diante de alguém especial. Sentou-se à banqueta e as mãos fizeram as honras dos primeiros acordes, intensos, fúnebres, doídos. Em conjunto, lágrimas. Lembrar-se do nascimento de sua força induziu-a a pensar no homem que conduzira seus pensamentos todos esses anos. A música sofrida que Sailor Fire tocava era a maldita serenata composta para ele. Todos os dias, durante todos os longos anos passados, Hina isolara-se no coreto e tocou, e tocou, a tal composição feita para: — Saphiro! — uma pontada no coração, era chegado o refrão — Ah, Saphiro! — suspirou lamentosa, deitou a testa sobre as teclas e afundou-as. As cordas do instrumento vibraram, as botas vermelhas se enterraram nos pedais. Aquilo já não era uma sonata, era um réquiem.

Hina... — a voz pomposa a atentou, o calor a envolveu, alaranjado e brilhante — Liberte suas frustrações... — os olhos vermelhos preciosos cravaram-se na figura da tristeza — Dê-me um nome, o nome que vem à sua cabeça, o que você está sentindo... Faça o chamado.

Luctus... Candenti! — a voz do coração e não da razão criou o encanto da evocação do dragão. Chamado mais sincero não haveria.

Os olhos de pirita cintilaram cálidos e violentos, as asas flamejantes ruflaram e criaram um vendaval. Cadeiras voaram assim como partituras esquecidas. O lustre de cristal, todo quebrado, caiu ao piso e terminou de se espatifar. Era como no antigo cenário, só que não havia alguém para salvar. O camarote onde um dia Hina vira Saphiro encurralado por chamas estava vazio, e na memória recente o príncipe a fitava indiferente, como se fosse um inseto a ser pisado. Ela era descartável. Não, não poderia ser! Algo estava muito errado! Uma força surgiu dentro dela, como uma luz acalentando as profundezas do âmago. O dragão, sim, era seu guardião e despertou-a da comodidade do sofrimento.

— Sou uma guerreira. — levantou-se e fechou as mãos — E uma mulher que esperou pelo amor por todos os dias que já passaram! Não posso me dar por vencida! Crystal, sei que você também não se deu! — esboçou um pequeno sorriso — Saphiro, sei que ainda vamos nos encontrar! — caminhou calmamente, atrás de si o Réquiem de Fogo, seu dragão incandescente, voava altivo.


...


Aoi transpareceu encanto pela narrativa de Crystal, ao passo de que Akai adormeceu de tédio.

— E assim aconteceram as coisas, e agora estamos aqui, depois de tantos desencontros, como inimigos... — A rainha fitou o piso, comovida e saudosa.

— Ele sofreu tanto por você... Não convivi tanto com ele, mas sei disso, eu via... Príncipe Diamante se isolava no quarto e ficava a admirar uma imagem sua no holograma. Quando chegou em Nemesis só falava em casar com você. Até que um dia, de repente, por algum motivo, ele passou a odiá-la. Acho que foi porque você o trocou por seu marido, o rei. — as sobrancelhas azuis curvaram-se para baixo — Ele se sentiu traído... e fez tudo o que fez.

— Aoi, é seu nome, não é? Esperei Diamante por anos, anos! — enfatizou — Mas ele nunca deu um sinal de vida, e eu tinha que cumprir meus compromissos com meu povo! Damien foi gentil comigo... e as coisas acabaram se desenvolvendo nisso! — se justificou como pôde.

— O príncipe viajou por Nemesis para ver o estado do planeta, rainha. Por isso ele desapareceu. Durante meses, príncipe Diamante vagou por cada canto escuro, solitário e não encontrou um nemesiano vivo pelo caminho, todos tinham morrido de fome. — encolheu-se, pesarosa — E a senhora Ametista antes já dizia, que tudo o que acontecia em nosso planeta era culpa da rainha Rini, ela nos negou abrigo e recursos...

— Não, eu não acredito nisso! Minha mãe é dura, mas não é cruel, muito menos injusta!

— Eu não sei, majestade. Estou falando o que ouvi a vida inteira. — acuou-se.

— Aoi, você precisa me levar até Diamante! Mais do que nunca, preciso conversar com ele, esclarecer tudo!

— Sinto muito, mas se eu fizer isso, serei castigada por meu mestre. Já levei bronca do príncipe Saphiro quando fui ver como estavam as coisas. Não posso deixá-la sair do quarto, alteza. — reverenciou-a para tentar amenizar o clima.

— Entendo... — Crystal conformou-se — Não quero causar problemas para você, você me parece ser uma boa pessoa. Até sua irmã, mesmo rabugenta. — riu de leve ao ouvir o ronco de Akai. — Bom... — sentou-se ao lado de Aoi — Já que vamos passar um longo tempo aqui, precisamos nos distrair. Contei a você sobre a minha história de amor, agora posso contar as peripécias da minha infância! — mesmo arrasada, tirou fôlego de sabe-se lá onde para mostrar algum tipo de entusiasmo, coisa que aprendeu no decorrer da adolescência para a fase adulta, tempo em que precisou se assumir líder e guiar o povo.

— Infância? — Aoi piscou os olhos, curiosa — O que é isso?

— Ué? Do jeito que fala, parece até que nunca foi criança! — brincou.

— Criança? — Aoi encarou-a confusa, depois olhou a própria irmã e concluiu: — Engraçado... — coçou o queixo — Não me lembro de nós assim, só como somos... — fitou as próprias mãos e apalpou a própria face — Nunca tinha parado para pensar nisso... — tocou o busto — Será que há algo de errado com a gente? — Rememorou o bizarro encontro com Onyx no laboratório — “Faltou pouco” — ele disse, referindo-se à perfeição das irmãs.

Antes que Crystal, pasma, pudesse tentar dizer algo para abrandar as dúvidas de Aoi, Jade invadiu o quarto sem cerimônia alguma.

— Tome! — largou a bandeja prateada adornada por um belo prato de massa no colo de Crystal — Em nome do príncipe, não posso deixá-la morrer de fome! — vislumbrou Aoi próxima da rainha — Que isso? Viraram amiguinhas agora?!

— Não sou inimiga de nenhum de vocês. — Crystal, amena, falou. — Não lhes desejo mal.

— Não seja ridícula! — Jade fez pouco caso, no entanto foi surpreendida quando a mão da prisioneira cativou seu braço.

— Por favor, me diga... Como ele está? Diga que ele não corre mais perigo... — murmurou.

A amazona poderia ter respondido um desaforo qualquer, entretanto o silêncio se apoderou de sua voz. A saliva desceu pela garganta travando os espaços, quase provocou um engasgamento. Os olhos azuis da rainha tremeluziam, lacrimejados. Tudo nela demonstrava pesar, e, acima de tudo, compaixão. A mão quente contagiou a pele bronzeada, Jade sentiu a candura cálida, e algo ainda mais inusitado – paz. Antes que as sensações inesperadas a dominassem, ela se livrou subitamente do toque e saiu pela porta.

— Hã, quê? — Akai despertou de supetão, sentou-se à cama, roçou os olhos e... caiu deitada, adormecida outra vez. Aoi bocejou, o sono logo a abateria.

Crystal sentiu-se repentinamente zonza, consequência do poder que o Cristal Negro exercia naquele lugar. Mas os pensamentos mantinham-se ativos e focados. Ela daria um jeito de chegar até Diamante.

...

— Notícias do príncipe? — Onyx perguntou despreocupado, encostado à porta.

— Não é permitida a entrada de alguém além do príncipe Saphiro. — Quartzy, sentada ao lado do leito, alegou — Saia, por favor.

— Nossa, quanto rigor! — ironizou — Só vim ver como está o nosso querido príncipe, mas pelo que vejo está na mesma... semimorto. — riu.

— Onyx, por favor, me dê um pouco de paz. — massageou as têmporas — Vá fazer algo de útil.

— Pobre Quartzy... Frustrada pela guerra, frustrada pela dor de cotovelo... — enrolou alguns fios negros nos dedos, penteando-os — Olha, por mais linda que a ruivinha seja, se eu fosse aquele engomadinho, escolheria você.

— Falando dos outros pelas costas, como sempre. — Saphiro surgiu das sombras.

— Veja só, o próprio! — o cientista gargalhou — Se eu fosse você não deixaria Topázio sozinho. Vai que ele resolve conspirar pelas suas costas?

— Vai conspirar com o vento, já que seu comparsa está aqui. Não é verdade? — retrucou a provocação e aproximou-se do irmão mais velho — Quartzy, descanse um pouco, deixe-me olhá-lo em seu lugar.

— Não há necessidade príncipe, cumpro essa função de bom grado. — reverenciou-o.

— Mas se você quiser compartilhar a cama comigo, não vou reclamar! — Onyx forjou um tom agudo de voz, como se falasse por Quartzy. Além do tom, gesticulou de modo feminino.

— Saia daqui! — Saphiro ralhou impaciente. O “insano” obedeceu de pronto, mas riu até sumir pelos corredores.

— Ele não tem jeito... — Quartzy, morta de vergonha, mediu a temperatura de Diamante com um toque no pescoço — Ele está estável.

— Isso significa?

— Significa que as coisas não mudaram, embora ele não tenha piorado, ainda corre riscos.

— Acho que Onyx tem uma queda por você. — comentou.

— Ah, que isso?! — cobriu o rosto com as duas mãos – Aquele... aquele... Não príncipe! Não, não e não!

— Não acho que seja correspondido. — assustou-se com a reação dela — Não precisamos falar sobre isso se não quiser.

— Por favor!


...


— O pequeno príncipe está no quarto, zelando pelo irmão. Jade ronda os aposentos da rainha. O que você está maquinando? — Onyx encontrou-se com Topázio na saleta de holografias guardadas.

— Saphiro é fraco, não é páreo para mim. — o Cavaleiro Dourado afirmou — Eu poderia destruí-lo, assim como poderia executar Diamante enquanto está inválido. — ao divagar, fixava os olhos na imagem do palácio de cristal.

— E por que não faz isso?

— Porque mais do que matá-los, quero humilhá-los.

— Sabe quantas pessoas já foram derrubadas por se permitirem dominar pelos próprios caprichos?

— Eu não sou uma pessoa qualquer, sou Topázio, filho do general Aurum! — bronqueou.

— Claro. — o cientista deu de ombros.

— Estou pensando aqui... o Palácio de Cristal é grande demais para abrigar reis destronados. Não acha?

— O que pretende? — o riso se fechou — Não vai me dizer que...

— Aquele palácio será meu, Onyx. Você verá.

— Finalmente, as irmãs Agatha mostrarão seu charme! — as lentes circulares brilharam como espelhos.

...



Horas se passaram, Crystal abriu os olhos devagar e reparou que adormecera entre as duas meninas. As três tiraram uma bela de uma pestana. Aoi e Akai ainda dormiam profundamente, as respirações soavam tranquilas, chiadas, eram como duas crianças aconchegadas.

“Fofas” — Crystal afagou o topo da cabeça de cada uma e, por segundos, sentiu-se uma mãe. Estranho, mas agradável. Não se envolveu demais, pois havia outra coisa que ela almejava, e a soneca das garotas era apropriada.

Levantou-se devagar, andou nas pontas dos pés, girou as maçanetas das portas e elas, misteriosamente, abriram-se. Crystal deparou-se com um corredor escuro e silencioso. Arrepiada de medo, prosseguiu tateando as paredes.

— É para lá. — uma voz rígida a assustou.

Virou-se e avistou os contornos Jade, ereta, com a lâmina da lança apontada para a esquerda.

— Não vai me impedir? — perguntou temerosa.

— Vá! — Jade virou o rosto como quem finge não estar vendo nada.

Crystal uniu as mãos ao colo e, encolhida, apressou-se. Adiante, via-se uma fraca luz escapar por debaixo da porta. Ousada, a rainha da Cidade de Cristal empurrou-a e ela se abriu. Era o quarto onde Diamante descansava. Sentada ao lado estava Quartzy, de guarda. A súdita imediatamente se levantou, mas não fez menção de expulsar a visitante, apenas a observou se aproximar.

— Diamante... — Crystal sentou-se à cama, no espaço que havia. Os dedos, trêmulos, roçaram-se à face alva e gélida, contornaram-lhe os olhos cerrados, o nariz empinado e a boca seca, afagaram as bandagens enroladas à testa, por fim, pentearam os fios celestes da franja. Carinho. Carinho pairava nas expressões da rainha, o coração dourado reluzia.

— Você o ama. — Quartzy sentenciou sem perceber.

Crystal tocou a testa à dele e fechou os olhos. Quartzy levantou-se e saiu do quarto sem precisar que alguém lhe dissesse alguma coisa. Ficou do outro lado da porta, de vigia.

—“ Sempre o amei, e sempre amarei...” — a lágrima escorreu do olho e respingou na bochecha dele. Uma mão dela entrelaçou-se à dele e a aqueceu. — “Você é minha Doce Maldição.” – trouxe a mão dele à boca e a beijou. Diamante não deu sinal de vida. — “Meu amado vilão”.

— Quartzy, por que está aqui fora? — Saphiro chegou.

— Príncipe, por favor, não se exalte... — ela tocou-lhe os ombros com firmeza, como se tentasse freá-lo.

— Deixe-me entrar. — ordenou.

— Por favor, espere. Confie em mim! — os dedos cravaram-se entre as medalhas prateadas.

— Quartzy... — disse o nome em tom advertido.

— Espere... Ah! — foi levemente empurrada contra a porta, o braço de Saphiro encurralou-a. Estavam próximos, mas não do modo como ela desejaria. Ele girou a maçaneta, ela escorregou e quase caiu sentada no piso.

— Mas o quê? — o caçula deparou-se com a rainha inimiga ajoelhada ao lado da cama do irmão, segurando-lhe uma mão com as dela, de olhos fechados, como numa prece. Ele desejou protestar, arrancá-la de lá, o coração tremeu de ódio.

...Não fez nada, as expressões sofridas, as pálpebras avermelhadas de choro da neta de Serena o desarmaram. Quartzy, por trás, massageou-lhe os ombros e recostou a cabeça em suas costas.

— Eu sinto tanto por eles dois... — a dançarina disse suave. — Sinto por você, sinto por nós...

Saphiro fechou os olhos e respirou fundo, tomado de pesar. Sinceramente, já não sabia o que pensar sobre o que via, sobre o que passou, e sobre o que sentia. Embora não demonstrasse, não fora fácil para ele encarar Hina como se nada representasse. Uma pontada e depois outra no peito, por dentro, sem remédio. Seria o amor uma maldição? Apaixonar-se um erro irremediável? Se sim, se não, se talvez, de que importava? O veneno já corria pelas veias do príncipe branco, do príncipe azul, da rainha, da guerreira, e de uma certa curandeira... O rei, intoxicado, ainda lutava contra o gigante transparente, a barreira. A certeza, se é que havia, era única: Todos sofriam.


Doce é a maldição de corações
entrelaçados, mas perdidos
separados, mas ligados.
Tristes são seus destinos sem descanso
Cruel é a maldição do amor
Tão sedutora e, ainda assim, tão perigosa
Doce maldição, nosso inferno.


Continua...

Notas finais
E aí pessoal, o que acharam desse? Escrevi com gosto! É difícil frear a ansiedade, porque se aproxima o momento de revelação sobre alguns personagens, e acontecimentos! Para deixar claro, cada tópico do enredo sempre esteve pronto na minha cabeça, claro que algumas coisas sofrem mudanças ao longo do desenvolvimento do enredo, mas não as partes principais. Falta (relativamente) pouco para o início do fim! Continuem comigo, por favor! Agora, vamos às explicações dos termos, e do trecho de música que encerrou o capítulo: - "Luctus Candenti": do Latim (amo!), significa “Luto Incandescente”, não é bem o nome do dragão, digamos que seja um encantamento para chamá-lo. - O trecho de música exibido no final do capítulo é o refrão de “Sweet Curse”, uma composição de Floor Jansen, da banda ReVamp (pois é, além da danada ser a atual vocalista do Nightwish, ela ainda tem esse projeto dela. Poderosa!). Aconselho que ouçam, a letra é maravilhosa, e encaixa com a história de Crystal e Diamante de início ao fim. Faz parte da playlist dessa fanfic! O próximo capítulo já está em andamento, talvez até o final de semana que vem eu poste. Kissuuuuus!