A Minha Queda Será Por Você
40 Damien, o anjo heroico
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 40 – Damien, o anjo heroico
Eis a resposta do príncipe ao seu perdão! — ecos apenas, ecos na mente dela, persistentes, latejantes e lascivos. Unido às palavras, um riso conhecido, o da pessoa que ela amava. A imagem se desenhava na escuridão, ebúrneo como a própria Pureza, nobre como a pedra que o nomeava, e, infernalmente distante, inatingível, intocável.
Você o perdeu. — uma voz disse, Crystal não sabia de onde vinha, poderia ser de seu inconsciente, deveria ser.
Gritos, sons de vidro se quebrando, passos ligeiros, as onomatopeias do pânico misturaram-se como se fossem uma salada aos ouvidos.
Explosões, choro, desespero...
— Tirem-nos daqui, rápido! — Aquela era a voz de Sailor Wind? Parecia...
Olhos azuis fitavam-na preocupados, não se despregavam dali, não piscavam. Azul, muito azul... e, de repente, negro. Escuridão total, um infinito vazio. Silêncio. Nada.
...
As pálpebras abriram-se devagar, o mundo inteiro ainda girava.
— Ela acordou! — ajoelhado ao lado da cama como certa vez ficara, Damien exclamou.
Do outro lado, a mãe estava sentada, afagando os fios castanhos, e de pé, a frente do leito, o pai ansioso a fitava.
— O quê? — sentou-se atordoada, Rini deu-lhe amparo — Como? — mostrou-se confusa pela mudança repentina de ambiente, tinha certeza de estar na cidade.
A memória refrescou-se, a princesa passou a mão pelo pescoço e estranhou a sua nudez. O colar, o pingente!
O maldito pingente...
— Por quê? — ela perguntou, desconsolada — Por quê?! — urrou, os ombros sacudiram-se descontrolados. Cobriu o rosto com os lençóis e os encharcou. Não sabia o que era mais doloroso: o fato de perder a única lembrança que tinha do príncipe, ou o fato de, através daquela lembrança, ela e a família terem sido atacados. Rini a abraçou forte, Helios deu a volta na cama e abraçou as duas. Crystal sentiu algo molhado nos ombros, eram as lágrimas da mãe. — Não pode ser verdade, ele não faria aquilo com a gente, mãe! Não é, pai? Alguma coisa está acontecendo! — tentou consolar a si própria e a eles, não obteve resposta. Os reis se entreolharam, depois fitaram-na pesarosos.
— Crystal... — Rini respirou fundo e secou os olhos — Você precisa descansar, e depois, se alimentar. Está bem? — forjou à face um sorriso.
— Descansar... — a menina notou que, além do vidro da janela, o céu estava escuro e estrelado. — Mas que horas são?
— Meia-noite. — Damien respondeu, surpreendendo-a.
— E vocês estiveram aqui esse tempo todo?! — comoveu-se.
— Nós aqui e os outros no corredor, — Helios, sereno, respondeu. — Damien, pode chamá-los, por favor?
O príncipe sorriu, abriu a porta e gesticulou para os habitantes do palácio. Em fila organizada, entraram um por um, mulheres e rapazes, todos se ajoelharam diante da cama, aflitos. Hina, a mais próxima, tocou a mão de Crystal com firmeza, as esmeraldas cintilavam cheias d'água.
— Pessoal... — engoliu o choro até que a garganta ardesse — Obrigada por se preocuparem comigo, eu vou ficar bem! — os dedos tremeram, cativos aos de Hina. A ruivinha os apertou mais, tentando contê-los.
— Você quase morreu, princesa. — Sailor Wind contou, séria.
— Eu... sei. — céus, era doloroso lembrar!
— Deixem-na respirar, por favor! — Rini notou o esforço da filha — Estaremos por perto, Crystal, não se esqueça. — outro sorriso dramatizado — Pedirei para alguém trazer algo para você comer.
Não tinha fome alguma, não aguentaria engolir um grão de arroz que fosse, sabia disso. No entanto, não teve forças para recusar, não se dava ao direito de preocupá-los mais do que já os preocupara naquele dia. Assim que o último de seus entes saiu pela porta e ela se viu a sós, o corpo inteiro se contorceu num pranto agonizante, os dedos cravaram-se na seda nobre e amassaram-na toda, a face afundou e modelou o colchão. Todo e qualquer grunhido foi abafado, ela tremia incessantemente.
Sentia tanto... e não se sentia. No momento em que foi atacada pela peça que guardara com tanto carinho, algo dentro dela morreu, outro pedaço dela própria.
Damien, outra vez, fez questão de trazer-lhe a refeição numa bandeja prateada. Ela a segurou, fitou-a, desnorteada, não tocou em nada. O príncipe, preocupado, sentou-se a frente dela, tomou os talheres e tentou alimentá-la como se fosse uma criança. Crystal, chorosa, virou o rosto. O vazio era tão denso que a apunhalava como uma lâmina impetuosa. A pobrezinha espremeu a mão ao peito e encolheu-se.
— Isso está me matando! — desabafou soluçante.
Viu a bandeja ser empurrada para o lado e quase cair da cama, logo após um forte abraço a aconchegou, envolvente e caloroso. Ao ouvido, um sussurro amável:
— Chore. — os dedos dele afagaram as largas e desarrumadas ondas — Chore o quanto precisar — apertou-a — Eu estarei aqui. Sempre estarei.
Frágil, derreteu-se em lágrimas e infindáveis gemidos, o ar lhe faltou várias vezes. Ele passou horas ali, com ela nos braços, apenas para abrandá-la. Ouviu-a lamentar-se de saudades, ouviu-a declarar-se diversas vezes ao seu rival, ouviu-a protegê-lo ainda que fosse o evidente responsável pelo atentado no fim da tarde, ouviu-a inclusive dizer que o amaria para sempre. O coração dele também estava partido, mas diferentemente dela, Damien despedia-se de seus cacos no silêncio, suas lágrimas jaziam na alma, apenas, jamais nos olhos. A sua resposta se dava nos afagos gentis e nos braços rijos em torno da cintura. O peito quente e molhado, marcado pelo choro dela, também doía. Aquela era a noite dos desafortunados.
Muitas horas passaram, até que ambos exaustos, acabaram por adormecer um ao lado do outro. Felizmente, o sedniano não estava de armadura, ou a dormida teria sido bastante desconfortável.
Na manhã seguinte, Sailor Wind, o despertador do palácio, adentrou o quarto e se viu diante de um casal abraçado – Crystal acomodada ao peito de Damien –, enlaçado pelas cobertas. O que a guerreira do vento pensou ou deixou de pensar não concerniu a ninguém. Chamou-os. Os jovens, quando se deram conta do quadro, ruborizaram e saltaram, cada um caiu para um lado diferente, as pernas sacolejaram esticadas ao alto, se pudessem tocariam o teto.
— Princesa, escola. Lembra-se? — Yumi trazia no braço o uniforme.
Esquecera-se completamente desse detalhe. Estava sem forças, escola, naquele momento, seria a última coisa em que ela pensaria. Mas a ideia fora dela, então não havia escolha. Prometera ser forte, não é mesmo? Foi até a guerreira, roçou os olhos inchados e pegou o traje.
— Obrigada, Wind. — interpretou que o ato da guerreira fora, de certa forma, generoso.
Yumi, calada, não transpassou o estranhamento que sentiu ao vislumbrar a atitude da princesa. Seus olhos, como duas moedas de prata, acompanharam-na vagar até o banheiro e nele se trancar. Damien, recomposto, também se surpreendeu por Crystal não resmungar ou fazer alguma manha. Ainda assim, príncipe e guardiã escutaram fracos soluços de dentro do banheiro, o som da água preenchendo a banheira tratou de abafa-los depois.
...
— A peça foi quebrada e purificada. — Topázio comentou com Onyx, estavam reunidos na pequena sala de holografias. — Perdemos completamente a ponte para Tóquio de Cristal.
— Ah sim, é verdade! — despreocupado, o cientista sorria animado. — E falhamos na tentativa de matar a família real, que coisa! — brincou com o objeto arredondado que utilizava para criar as holografias quando Crystal tinha o pingente. Jogava-o para o alto e o capturava, como se fosse um malabarista. — Tsc, tsc, tsc...
— Não estou vendo preocupação nessa sua cara estúpida. — o Dourado cruzou os braços.
Onyx apertou os botões do objeto arredondado, a luz azul se proliferou da superfície do acessório até o teto. Nela, ilustrou-se o "Neo-Endymion" com Crystal nos braços, agarrada pela tênue cintura. Do jeito como estavam, os rostos quase se colavam, os olhos da princesa jaziam fechados. Era a cena de quando ela desmaiara e ele a amparou, mas congelada em um momento deveras conveniente à dupla de nemesianos conspiradores. Os orbes de ouro do cavaleiro brilharam, assim como seus dentes exibidos em um sorriso aterrador. Ao lado do casal erroneamente romântico, no piso, o brinco despedaçado.
— Se isso não for o suficiente, eu não sei o que será.
— Não por isso! — Onyx apertou os botões novamente, cada vez que os apertava, novas imagens se formavam: Crystal e Damien caminhando pelo reino como fizeram da outra vez, Damien segurando as mãos de Crystal em frente a sua nau, todos os abraços surrupiados, um espetáculo de fotografias em holograma, cruéis e mentirosas. — Criemos um contexto diferente, e, pronto! Está feito!
...
As meninas se reuniram à mesa de café da manhã, Crystal e Hina vestiam o uniforme do primeiro ano, o laço no peito era avermelhado, Marine e Reiko, por sua vez, vestiam o uniforme do colegial, os laçarotes assemelhavam-se à cor azul da gola e da saia, eram apenas um pouco mais escuros. Rini riu ao vislumbrá-las.
— Mal posso acreditar nisso, os uniformes ainda são os mesmos... Crystal, você está... — igualzinha à sua avó, diria, mas conteve-se — uma graça! — suspirou — Não é, querido? Não acha que nossa filha fará sucesso?
— Todas farão, inevitavelmente. — o rei respondeu, ambos tentavam descontraí-las.
— Pena não estarmos todas na mesma classe, até o momento sempre estudamos juntas! — Reiko cruzou os braços, emburrada.
— Reiko, temos dezesseis anos, quase dezessete! — Marine explicou — Crystal e Hina estão adiantadas por ter nos acompanhado... quer dizer, na teoria... — entortou as feições, fitando-as de soslaio— mas precisam conviver com jovens da idade delas!
— Ei! O que você quis dizer com "na teoria"? — Crystal espertou-se.
— Como se um ano fizesse tanta diferença assim! — Reiko bufou.
— Ainda nem foram para a escola e já estão em crise! — Mizumi riu-se — Prevejo muita diversão para essas garotas!
— Se irão se divertir, não sei, mas se não comerem um pouco mais rápido perderão a hora do metrô. — A guerreira do silêncio deu o alerta.
— Metrô?! — as quatro pularam em suas cadeiras.
— Vocês não queriam ser estudantes comuns? — Hotaru tratou de explicar: — Então, ao matriculá-las fiz questão de deixar bem claro que todas vocês, inclusive a princesa, deverão ser tratadas como garotas comuns, sem privilégios e sem formalidades. Para dar uma atmosfera ainda mais verossímil, conversei com rei Helios e rainha Rini e foi decidido que, como qualquer estudante, vocês deveriam utilizar a condução popular. — expandiu um imenso sorriso na face e o manteve mesmo quando as garotas caíram para trás em sequência.
— Para garantir que não se percam ou matem aula, eu as escoltarei. — Sailor Wind encerrou.
— Crystal, pra que você teve essa brilhante ideia de nos mandar para a escola? — Reiko indagou enquanto os olhos giravam como duas espirais.
Sem mais reclamações, ao fim da refeição matinal cada uma das meninas pegou seu devido material e, em grupo, caminharam pelos jardins e saíram portão a fora. Yumi as seguia logo atrás. A mulher esguia trajava uma camisa social branca, os primeiros botões abertos revelavam sua clavícula pálida. As longas pernas definiam-se por baixo do tecido da calça jeans, rente à pele. Os saltos das botas clicavam na calçada cristalina, o couro negro cobria-a até os joelhos. Reiko, a tagarela, comentava com as outras sobre o estilo da guardiã dos ventos, em seguida recebia um olhar reprovativo da guarda-costas. Marine, eufórica, ao entrar no metrô, atentou-se a cada detalhe do veículo, comentou sobre as barras de ferro, sobre os bancos, sobre como era estranho estar debaixo da terra, enquanto isso, Hina encolhia-se tímida para não esbarrar em nenhum outro passageiro. Crystal, por sua vez, esforçava-se para se animar, tentava não pensar no ocorrido do dia anterior. Forjava risos, forjava interesse nas conversas triviais, e repentinamente sentia-se vazia, oca por dentro, distanciava-se do mundo perdida em pensamentos até a voz esganiçada de Reiko ou algum comentário de Marine trazê-la de volta, a amiga ruivinha olhava-a silente, ela mesma também se via distante quando não se policiava. Yumi as observava.
A guardiã dos ventos deixou as garotas dentro do colégio e encostou-se à grade do portão. Crystal despediu-se como uma criancinha obediente, as outras acharam graça. E então, o momento da separação chegou, a dupla composta por uma jovem loura e outra morena endereçou-se à sala de terceiro ano do Ensino Médio, o segundo duo se encaminhou à classe de primeiro ano, e assim se sucedeu. Em cada ambiente, as meninas foram apresentadas como garotas comuns e tratadas como tal, nada de "vossa majestade" e afins. Finalmente, a princesinha era uma menina como as outras, com cadeira marcada e tudo o que tinha direito.
As salas, assim como os cômodos do palácio, possuíam objetos lapidados em cristal transparente: as mesas, as cadeiras, até mesmo uma espécie de tablet que servia de caderno para os alunos. No lugar da lousa, popular no século XX, havia conectado à parede um tipo de máquina, era uma pequena mesa redonda com singelos botões coloridos em seu entorno, quando o professor apertava algum, hologramas surgiam e refletiam-se na parede, certas vezes até no teto, era um recurso comum em todas as disciplinas, desde História à Física. A princípio, aquilo cativou a atenção de Crystal, os olhos dela brilharam diante de tamanha tecnologia. Ironicamente, no palácio ela não tinha tanto contato com os avanços de sua época, na verdade, nunca procurara ter. O encanto, todavia, se transformou em desinteresse quando a primeira fórmula matemática se materializou e o corpo adolescente e preguiçoso tratou de lembrá-la que era cedo, muito cedo. As pestanas desceram e subiram várias vezes, ansiando por fecharem-se. Entediada, Crystal fitou a prancheta digital à sua frente, pegou a caneta metálica ao invés de usar os dedos e começou a desenhar nos cantos da tela. Não era uma exímia artista, tentou desenhar Diamante, mas a cara do coitado ficou tão redonda que ao invés de um rosto, parecia uma batata com fios de cabelo dispersos em uma de suas extremidades.
— Bonito, hein! — a voz grave e debochada do professor ecoou pela sala. O sujeito pegou o tablet em mãos, conectou-o à mesa que reproduzia as holografias, e feito mágica a "arte" de Crystal surgiu enorme à parede, em exposição — Vejam, turma, temos uma artista em nossa classe! Será que suas notas serão equivalentes a essa cara obra, Crystal Tsukino? — Plaft! O tablet foi recolocado à mesa.
A face pálida e abatida adquiriu coloração rósea ao som dos risos. Ela realmente não teria privilégios, nisso levaram seus pais bem a sério. Suspirou conformada.
Depois de alguns horários de aula, finalmente o intervalo. No terraço da escola, todas se reencontraram. Marine foi a primeira a narrar como fora a manhã até o momento, orgulhosa, contou que todos os professores a elogiaram muito porque resolvera várias questões em minutos e gabaritou tudo. Reiko, por sua vez, comentou que na sala delas havia garotos lindos, por conta da língua grande levou um cascudo da jovem dos cabelos dourados.
— Olha lá! Olho de Tigre não vai ficar feliz se souber disso, dona Reiko!
— Olhar não arranca pedaço! — resmungou. — Ei, Crystalzinha, Hina, como está sendo para vocês?
— Bem... — Hina enroscou os dedos pelas costas enquanto olhava Crystal emburrada — Digamos que não tão divertido. — ainda assim, soltou um risinho encabulado.
— Eu vi você rindo de mim! — fez bico.
Assim que todas souberam da peripécia de Crystal, caíram na gargalhada, depois abriram suas marmitas e fizeram as honras, menos a princesinha, pois continuava sem fome. Hina, preocupada, tentou convencê-la a comer o pouco que aguentasse, mas frustrou-se ao ver a amiga engolir meio bolinho dos seis que trouxera e logo dar-se por satisfeita.
O resto da manhã passou ligeiro, principalmente para Crystal que dormiu um bom pedaço das aulas. Houve uma nova pausa para o horário de almoço, em seguida os sinos badalaram chamando-as para as atividades extracurriculares, a parte mais divertida da história, para todas. Cada uma teria de escolher uma atividade que lhe apetecesse. Marine, obviamente, quis fazer natação, Reiko decidiu fazer parte do clube de botânica, Hina e Crystal, juntas, inscreveram-se no grupo musical do colégio, composto por instrumentistas e coral. Até às três da tarde estiveram atarefadas. Foi uma boa experiência, ao menos o suficiente para distraí-las. Enquanto aprendia letras de músicas, Crystal abstinha-se de pensar em qualquer coisa que a afligisse, através da música ela e Hina interagiam bem, ambas alegravam-se o pouco que podiam.
No fim das contas, quando foram liberadas, Yumi estava ao portão à espera. Não tão distante estava Olho de Tigre encostado em uma motocicleta. Reiko, animadíssima, correu até ele e pulou em seus braços, nem fez questão de perguntar onde ele conseguira o veículo. O galante felino, em resposta, girou-a ao alto e preparou-se para tascar-lhe um beijo, porém, um braço pôs-se entre o casal.
— Saídas após o colégio apenas nas sextas-feiras. — Yumi sentenciou como um general.
— Credo, Yumi! — Reiko praguejou, as três que a acompanhavam caíram no riso.
— Vocês quatro, já para casa, vamos! — a gélida guardiã gesticulou com as mãos — E você, — direcionou-se a Olho de Tigre — vá arrumar o que fazer!
— Nos vemos mais tarde, boneca! — ignorou o olhar ferino de Yumi e piscou para a sua delicada ninfa, depois subiu à moto e foi dar uma volta. Reiko suspirou, Crystal a invejou secretamente, Marine revirou os olhos entediada e Hina corou, como sempre.
...
Damien, sozinho nos aposentos que lhe foram destinados, sentado à cama, abriu as pétalas de sua rosa de cristal e apertou algumas como se redigisse um código, cada uma piscou em diferentes cores, e então, no centro da flor, uma luz piscou e dela se formou a imagem de um rei cuja barba negra alcançava o peito e a coroa dourada brilhava.
— Pai... — o príncipe sorriu saudoso.
Meu filho, até que enfim! Estávamos preocupados, você mal deu notícias!
— Aconteceram muitas coisas por aqui, em Tóquio de Cristal...
Você parece triste... — o homem de certa idade observou.
— Digamos que as coisas não saíram como o esperado...
Como assim?
— Não quero preocupá-lo. — baixou o olhar, estava visivelmente atribulado e triste, nenhum pai o deixaria passar despercebido.
Vamos, comece logo a contar! — disse despojado — Não tenho o dia todo!
O rapaz deu um longo e cansado suspiro. Como era árduo relatar tudo o que vivera em tão pouco tempo! No entanto, precisava muito conversar com alguém. E quem seria melhor ouvinte do que seu pai? Em meia-hora, seus lábios soltaram tudo o que ele sabia e o que pensava sobre os acontecimentos recentes, desde o baile até o famigerado discurso da tarde passada. Os orbes turquesa da figura paterna dilataram-se, a boca abriu-se atônita.
Pensei que o Clã Black Moon nem existisse mais! Pensei que tivessem sido dizimados no século passado!
— Não, as coisas não procederam assim, pai. Nesse momento, os príncipes estão em Nemesis, e nós, daqui, perdemos totalmente o contato com eles.
Você tem noção do tamanho perigo que está correndo, meu filho? Aliás, todos nós estamos!
—... Todos nós? — mostrou-se confuso.
Sedna é quase vizinho de Nemesis, Damien. Isso é razão para entrarmos em estado de alerta!
— Nesse caso, é melhor que eu volte imediatamente para casa! — levantou-se com a rosa em mãos.
De jeito nenhum, você é meu filho mais velho, futuro regente! Aí você está bem mais seguro! E, bem, nunca tivemos nenhum atrito com aquele planeta amaldiçoado! Nosso planeta peregrinou para perto dele há pouco tempo, é verdade, mas... Não creio que haja razão para muito alarde, só não custa nos precavermos. Fique aí!
— Arme os navios, pai, fiquem atentos e estejam preparados para qualquer coisa. Aquele príncipe me odeia... Se houver qualquer movimento estranho nos arredores você precisa me avisar. Diamante mandou atacarem a princesa, eu vi com meus próprios olhos! — soou amargo, os dentes rangeram — E ela, tão benevolente, ainda nutre sentimentos por ele...
Eu sinto muito, meu filho... — as espessas sobrancelhas negras baixaram-se, compadecendo-se do sofrimento de Damien — Espero que essa menina enxergue o seu valor, não só pela aliança de nossos reinos, mas porque você merece.
— Obrigado... — sorriu terno.
— Chegaram! — a voz de uma das criadas chamou-lhe a atenção. Damien sabia que se tratava de Crystal e as amigas.
— Pai, agora me despeço. Mande lembranças a todos!
Até breve, meu filho.
— Não se esqueça, cuidado com os habitantes daquele planeta! — advertiu preocupado.
Não se preocupe com isso, estaremos sempre atentos. Não se pode confiar naquelas pessoas que foram exiladas por crimes hediondos. São todos criminosos!
— Não devemos esquecer disso, nunca. Eu, pelo menos, jamais esquecerei. — a garganta secou assim que a lembrança de Crystal sendo atacada pela partícula de cristal negro se reavivou no íntimo dele, e depois, o sofrimento da menina, o choro, a angústia, tudo por causa de: — Príncipe Diamante... — citou o nome — tem que pagar pelo que fez.
Se depender de nós, ele irá.
— Até pai, agora preciso ir.
Despediu-se, as pétalas da flor cristalina se fecharam outra vez, ele a repousou à mesa de cabeceira e partiu rumo ao salão real, a cena que assistiu foi, no mínimo, cômica: Crystal entregou aos pais um comunicado, uma espécie de advertência por ter desenhado e dormido durante a aula. Rini ralhou como sempre, a menina choramingou, Helios chamou a atenção da filha, mas não conseguiu se conter e acabou-se de rir, a esposa cruzou os braços e sacudiu a cabeça em negação, Crystal escondeu-se debaixo da capa paterna. Damien rapidamente sentiu-se aquecido e riu junto. A princesa ouviu sua voz grave em um divertido staccato, corou mais ainda, manteve-se escondida por trás da capa do pai.
Marine, diferentemente da relapsa companheira, mostrou-se confiante e gabou-se de sua jornada. Enquanto narrava seu sucesso, pelas costas Reiko a imitava fazendo gestos caricatos. Olho de Tigre, ao lado, morria de rir. A marinheira das águas logo percebeu e encrencou com o casal. O clima de descontração perdurou por um bom tempo, depois as meninas se reuniram na biblioteca para fazer os deveres de casa. De quem foi a brilhante ideia? De Marine, claro. Rini assinou em baixo. Crystal podia ouvir os ecos da voz da mãe: "Sua avó tinha que dar conta de estudar e combater os inimigos ao mesmo tempo, por que você não poderia?".
— Pra que eu fui ter essa ideia de gênio? — apoiou o queixo sobre as mãos, os cotovelos sobre a mesa, quase afundou-se na quantidade de livros que Marine jogou ali, para que pesquisassem as respostas das tarefas passadas pelos professores. No meio da montanha de conhecimento, Crystal reconheceu uma das enciclopédias, puxou-a e abriu na página certeira: a biografia Dele. Enquanto as outras adolescentes discutiam sobre um método de estudo conjunto, ela escondeu o livro sobre o colo, debaixo do tampo da mesa, e, discretamente, arrancou a página que continha alguns dados de seu príncipe e uma imagem que o ilustrava. Dobrou o papel e escondeu-o em uma das mãos.
Foi difícil e confuso, mas ao anoitecer, todas conseguiram terminar seus deveres, inclusive a filha dos reis, milagrosamente. Quando deu por si, o dia inteiro se passara. Afinal, ir à escola fora sim uma ótima ideia, matou o tempo, ela sofreu menos, tinha de admitir. Durante o jantar, o clima mantinha-se agradável ainda, ao longo daquele dia ela sorrira algumas vezes, rira em outras, por mais superficial que fosse, era algo que ela tinha a se apegar. Entretanto, a hora mais longa e dura do dia enfim chegara: a noite, tempo de dormir, tempo de ficar sozinha. Antes de tomar banho, tirou de baixo do cós da saia o papel que dobrara e escondera, abriu-o e contemplou a imagem do homem que amava. Não era idêntica a ele, mas era parecida o suficiente para lembrá-lo: a cor dos olhos, os cabelos, a lua negra invertida na testa, era ele, de alguma forma. Crystal afagou a face da imagem, pousou o dedo indicador na boca reta do personagem e falou-lhe, como se pudesse ouvi-la:
— Você disse que eu tinha que ser forte, estou dando tudo de mim para cumprir a promessa. Você disse que eu tinha que ser eu mesma, aqui estou eu, tentando ser... — mordiscou o lábio inferior, conteve a respiração afoita e prosseguiu: — Você disse que me amava... — fechou os olhos, espremeu os lábios, apertou o papel, sofreu, sentiu uma dor absurda, mas no fim das contas conteve o choro — Eu não acredito que tenha me atacado, eu sei que deve haver algum engano... Eu confio em você! — abraçou a folha como se o abraçasse. — Eu confio em você... — repetiu num sussurro, após se recompor guardou o papel debaixo de seu travesseiro, como se dali Diamante pudesse olhá-la, protegê-la, talvez abraçá-la, estar perto. Tomou o banho e deitou-se para dormir.
Tentou alcançá-lo nos sonhos outra vez, foi frustrada pela aparição do fantasma de Ametista. Em Elysium, Olho de Peixe e Diana viram-na vagar outra vez, a dupla, assustada, decidiu que se aquilo acontecesse novamente teriam de entrar em contato com o rei.
Um novo dia amanheceu, mais um dos muitos dias de escola que viriam. Como o anterior, passou rápido, repleto de momentos inusitados, algumas vezes divertidos, outras constrangedores, sobretudo para Crystal, que visivelmente era uma aluna desleixada. No intervalo daquele dia, no entanto, a menina que costumava ser distraída e não notar as coisas atentou-se a um grupo de garotas enérgicas falando alto, logo perto. Notou que no pescoço de uma delas havia um cordão dourado com um pingente de coração adornando-o. A jovenzinha, ruborizada, segurou o pequeno coração e apertou-o de uma forma que o abriu, em seu interior jazia a foto de um jovem bem apessoado, as outras meninas, quando presenciaram o objeto abrir-se, gritaram histéricas. Crystal, quando chegou a casa, não conseguiu parar de pensar naquela joia delicada. Correu ao quarto, pegou a folha que arrancara do livro de História e ficou um tempo a olhá-la, pensativa. O sorriso que se formou nos lábios destoou das olheiras saudosas.
...
— Crystal, está tarde para sair, e é quinta-feira, dia de semana! — Rini cortou-lhe as pernas ao proibi-la de concretizar seus planos.
— Mas mamãe, eu só queria comprar uma coisa, uma coisa boba! Você sabe, não fico te pedindo presentes!
— Não. Ponto! Você pode ir comprar isso qualquer outro dia! — cheque mate, nenhuma argumentação a faria mudar de ideia, manteve-se rígida e decidida. Crystal conformou-se.
— Desculpe-me parecer inconveniente, mas o que você tanto queria comprar, princesa? — Damien, sempre por perto, abordou-a.
— Ai, você ouviu tudo né? Que vergonha... — baixou o olhar — É besteira, não é nada tão urgente... é que, hoje, eu vi uma menina na escola, e ela tava usando um cordão tão bonitinho... Era um coração dourado que se abria, e dentro dele dava para guardar uma foto.
— Entendo... Bem, sua mãe está certa, daqui a pouco é hora de jantar, não dá para sair.
— Eu sei...
Não pôde ir, em outra circunstância teria fugido, todavia não estava com espírito para isso, e precisava descansar, dois dias passaram-se como uma brisa, no próximo retomaria o treinamento, deveria preparar-se psicologicamente para apanhar muito de Sailor Wind. Não importava o quanto doesse, não revidaria, não era disso.
Nessa noite de sono, ela quase alcançou o príncipe, viu-o ainda mais abatido do que da última vez, e pior, agora ele parecia fundir-se a uma montanha de caveiras quebradiças. A imagem fora tão forte que a despertou, e para dormir depois foi uma luta calorosa. Exausta, teve de ir para a aula e enfrentar a fúria dos professores quando ela se rendia a breves cochilos. Desmotivada, acabou não cantando direito no coral, foi liberada mais cedo. Quando saiu da escola, encontrou ao lado de Yumi, Damien sorridente, nas mãos dele uma pequena caixa cor-de-rosa.
— Que fique claro que vocês não poderão passear por aí. É sexta-feira, mas tem treinamento! — advertiu e fincou os olhos prateados nos dois.
— Não se preocupe, Sailor Wind. Só vim aqui para entregar isso a ela — aproximou-se da princesa e depositou a caixinha em suas mãos. — Espero que goste! — os dentes brilharam, perfeitos, dentro daquele sorriso que esbanjava doçura e proteção.
Crystal desfez o nó do laço lilás que adornava a embalagem, depois abriu o embrulho e, dentro da caixa encontrou o tal cordão com o coração dourado. Damien saíra durante a manhã e procurou em todas as joalherias, até achar o mais bonito de todos e o comprou para ela. Os grandes e arredondados olhos azuis elevaram-se, estremecidos e encontraram-se com os dele, serenos.
— Obrigada! — uniu a caixa ao peito, comovida — Não precisava ter feito isso...
— Você queria tanto... — ousou aproximar-se mais, atentou-se a cada relance dela e viu-se ainda mais inebriado. Esqueceu-se da presença de Yumi e, cuidadoso, enrolou um dos dedos no cacho castanho caído sobre a orelha. Percebeu-a desconfortável, retomou a distância — Fico feliz que tenha gostado.
— Eu adorei, muito obrigada! — o mínimo que poderia fazer era sorrir-lhe. Jamais cogitaria que um simples sorriso poderia cativá-lo tanto e, do mesmo modo, que tão pequeno gesto a ajudaria a sentir o coração aquecido.
"Quem sabe, um dia, a minha foto não esteja aí dentro?" — ele pensou esperançoso.
— Hora de ir! — Yumi avistou as outras se aproximando.
Quando tomavam um atalho diferente até a estação de metrô, Crystal viu-se diante do palanque onde outro dia ela subira e a tragédia aconteceu. O coração estancou, ela correu até lá. Viu diversas ofensas pichadas nas paredes e muros, todas direcionadas à Família da Lua Negra.
Tanto esforço para fazer seu povo aceitá-los, perdoá-los... e o tiro saiu pela culatra. Depois do triste evento ela não sabia como pedir a Damien que emprestasse a sua nau, aliás, ela sabia que com motivos de sobra ele não desejaria emprestar. Quem era ela para obrigá-lo?
— Não... — disse, fitando cada frase hostil escrita ao seu redor — Está errado! Está tudo errado!
— Crystal... — Hina chegou antes dos outros e tocou-lhe os ombros, ela também se horrorizou.
— Vocês precisam entender que nem todos eles são inimigos! — Crystal começou a gritar com as primeiras pessoas que cruzaram o seu caminho, não muito tempo depois uma multidão curiosa se formou diante dela. Antes que Damien conseguisse segurá-la, Crystal subiu no palanque e persistiu: — Aquele ataque não foi causado por ele, príncipe Diamante não faria aquilo! Vocês precisam acreditar em mim! — olhares zangados e debochados foram a resposta — Vocês precisam perdoar!
— Eles já tiveram várias chances de obter o nosso perdão, desperdiçaram todas! Depois do último atentado, não há mais volta! — uma voz gritou dentre a gente, o resto assentiu em gestos e comentários.
— Deem uma chance a eles, deixemos que vivam conosco! — ela insistiu.
— Nunca! — muitos gritaram, e, de repente, objetos começaram a ser arremessados na direção dela, alguns a atingiram e deixaram-na tonta — Sai daí! Você não merece o nosso respeito, traste! —vaiaram-na vezes seguidas. Damien meteu-se na frente, materializou sua espada à e despedaçou todo o resto de coisas que jogaram.
— Mais respeito com sua princesa, agora! — bradou, a aura branca que o envolveu intimidou a todos.
Um por um, cada indivíduo ali se ajoelhou perante ele em mudo respeito. Crystal, logo atrás, não esboçou reação. Enquanto ela era insegura e não tinha firmeza, o príncipe de Sedna conquistava facilmente a atenção e a admiração dos insubordinados. Depois de tudo se acalmar, ele segurou a mão dela e fê-la parar ao seu lado. Ela percebeu, para seu eterno desgosto, que a devoção dos cidadãos não era por ela, mas sim, por ele, e sabia bem o porquê: Damien fora o salvador no dia do ataque, quando destruiu o pedaço de cristal negro. Aquelas pessoas sequer a olhavam, focavam-se nele, o seguiriam para onde quer que fosse. Crystal não passava de uma figurante, precisava mudar aquilo, de alguma forma. Adiante, avistou algo que prendeu a sua atenção, uma construção, um chafariz, e nele estava lapidada a imagem de sua avó, a Deusa daquelas terras.
Continua...
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