A Minha Queda Será Por Você
62 Confissões
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 62 – Confissões
Sailor Wind atacou Topázio com o machado que lhe restara, havia uma espécie de barreira protetora ao redor do cavaleiro que a repeliu, ele sequer se moveu, estava parado e de braços cruzados. Sailor Nature sofreu a mesma impulsão ao tentar acertá-lo com o chicote.
— Sailor Fire, alguém precisa alcançar rainha Crystal e ajudá-la! — Sailor Saturno orientou-a — Invoque seu dragão e vá!
— Certo! — assentiu e ergueu a mão aos céus — Luctus Cadenti! — Um redemoinho formou-se das nuvens e de lá a fera surgiu, Hina apontou o inimigo a ele, o dragão atirou-se de boca aberta sobre Topázio e pareceu engoli-lo. Uma vez mais a barreira se mostrou poderosa, a entidade de fogo foi atirada longe e quase caiu sobre as guerreiras.
— Sailor Fire, não há tempo a perder! Faça o que eu disse!
— Agora é minha vez. — Topázio cruzou as mãos sobre o peitoral negro e depois abriu os braços, com tal movimento reverberou turbilhões acinzentados na direção das adversárias, elas foram jogadas longe.
O dragão de Sailor Fire fechou as asas sobre ela e a protegeu, fagulhas saíram das escamas feitas de magma, a fera abriu a bocarra novamente e direcionou uma intensa labareda ao Black Moon tenebroso. A chama retornou e encurralou as marinheiras.
— Essa não! — Hina saiu debaixo da guarda de seu protetor e foi tentar ajudá-las, mas não sabia como cessar o fogo, só começá-lo.
— Drowning Waterfalls! — Sailor Acqua, ainda marcada por lágrimas de luto, surgiu pelas costas do inimigo e fez chover sobre o incêndio. Topázio sentiu-se empurrado para frente e foi tudo, o seu invólucro era resistente e nada o afetava. Ao menos o fogo transformou-se em fumaça.
Sailor Fire aproveitou que as companheiras de luta tinham reforço, montou seu dragão e voou ligeira adiante, avistou Crystal e Diamante medindo forças – Luz versus Trevas – e iria gritar, mas algo chamou-lhe a atenção: um vulto esverdeado a saltar sobre prédios. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e ela resolveu segui-lo.
...
— Príncipe Saphiro, me escuta! — Quartzy tentou soltar o braço — Há algo sobre Onyx que o príncipe Diamante precisa saber, podemos todos estar em perigo! Onyx iria contar a ele, mas... — cerrou os olhos lembrando-se das naves que se chocaram — Precisamos chegar até eles!
— Do que está falando Quartzy?! — manteve-a cativa — De qualquer modo, não é bom que você vá, você não tem habilidades de luta!
— E nem o senhor!
Uma sombra sobreveio do prédio em ruínas à frente, os olhos cintilaram esverdeados e depois retomaram o negrume. Ela saltou do segundo andar e aterrissou diante deles. A pele de bronze desbotado parecia esticada da garganta à vestimenta lapidada em cristal negro, assim era todo o corpo dela – perfeitas formas esculpidas de Cristal Negro. Os cabelos verdes, soltos, balançavam emaranhados, no topo da cabeça uma guirlanda de flores murchas.
— Jade... — Quartzy sussurrou desacreditada, iria caminhar até a amiga, no entanto Saphiro a conteve.
— Devemos sair daqui agora! — ele alertou e a puxou consigo.
— Mas, é a Jade!
A mão da amazona elevou-se a eles, na palma raios esverdeados formaram-se em esfera, como um canhão o braço tomou impulso e lançou a "bomba". Saphiro saltou com Quartzy nos braços e a parede que existia atrás deles se desfez em pó.
— Precisamos ir até eles, príncipe, por favor me ouça! Há algo que preciso falar, eles precisam saber!
— Quartzy, meu irmão não ouvirá nada agora!
— Não é só para o seu irmão!
— Como podemos fazer qualquer coisa enquanto ela nos ataca?! — disse aturdido, não conseguia compreender como Jade estava e não estava lá ao mesmo tempo.
A mulher saltou sobre eles enquanto fugiam, um de seus raios acertou Saphiro de raspão na perna e ele caiu estremecido, Quartzy estava a frente, voltou ao rapaz azulado e o segurou nos braços, protegendo-o da única forma que lhe cabia.
— Jade, por que está fazendo isso?! — uma luz azul celeste envolveu a ela e ao príncipe, era um campo de força. Quartzy possuía poderes de cura e proteção somente. Os raios atingiam o círculo, mas não causavam mal, estavam protegidos por enquanto — O que há com você?!
— Os príncipes devem morrer! — não era a voz dela e sim um chiado esquisito, sobre-humano, entre os seios uma luz avermelhada cintilou, Quartzy se perguntou o que seria.
— Você está fora de si! — tudo tremeu dentro da proteção que ela criara, Jade uniu as duas mãos e aumentou a potência das esferas de energia. A proteção de Quartzy não duraria muito.
— Golden Flames, Burn! — a chuva de fogo veio dos céus e incandesceu Jade fazendo-a cair desacordada e faiscando. — Subam! — Sailor Fire estendeu-lhes a mão para subirem no dragão. Saphiro e Quartzy encararam-na boquiabertos.
— Mas vamos nos queimar! — Quartzy abraçou-se a Saphiro amedrontada.
— Não se preocupem, Luctus só queima aqueles que querem me fazer mal. — sorriu timidamente e assim transmitiu confiança à jovem semelhante a ela.
Quartzy auxiliou Saphiro a se levantar, o príncipe azul tomou a mão da guardiã do fogo e sentou-se atrás dela na montaria. Depois, foi a vez de Quartzy subir e sentar-se atrás do rapaz. Saphiro abraçou-se a Hina e encaixou o queixo no ombro dela.
— Não pensei que a veria tão cedo... — sussurrou terno, mesmo o clima sendo tão hostil para todos.
— Sailor senshi, precisamos chegar ao príncipe Diamante e à rainha Crystal, depressa! — Quartzy, ligeiramente constrangida, apressou-a.
O dragão ruflou as asas graciosamente e voou alto pelos céus, desmanchando nuvens escuras e revelando as poucas estrelas que atreviam se mostrar, a neve tocava-lhe a pele flamejante e se desfazia em vapor. Hematita, camuflada na escuridão, os avistou e apontou-lhes as mãos, uma gaiola negra se constituiu ao redor dos viajantes dos ares.
— Essa não! — Sailor Fire subiu até a cabeça do animal e segurou-se nas grades — Crystal! — poderia gritar o quanto quisesse, porém não seria alto o suficiente para que a amiga, distante, a escutasse. Saphiro e Quartzy pensaram no teletransporte, contudo seus poderes estavam bloqueados.
...
Sailor Love estava tão focada que não percebeu o que se passava a alguns quilômetros dali, o mesmo se podia dizer sobre Diamante. A tiara da marinheira direcionara-se a ele diversas vezes, o príncipe esquivou-se com facilidade, ele não sabia dizer se a mira dela era ruim ou se não era seu desejo acertá-lo. O segundo palpite estava correto. A razão de Crystal dizia-lhe que depois das vidas perdidas aquele era o único jeito de terminar tudo, no entanto seu coração não desejava prosseguir lutando, a incerteza a enfraquecia e não permitia que conjurasse a magia do báculo. Tentava distraí-lo o quanto podia, voava alto e ele a seguia, vez ou outra ficava tonta e perdia velocidade, Diamante quase a alcançava, ela fugia. O príncipe, do mesmo modo, não se mostrava empenhado em atacá-la, apenas a perseguia e certas vezes tentava segurá-la.
Enquanto a guerreira da Lua Branca endereçava a tiara dourada a ele, feixes de memória passavam-se por trás do olhar púrpuro estafado – a menina dos cabelos castanhos que o encontrara sob a árvore sorrindo-lhe, trazendo-lhe amoras em uma cabana simplória, dormindo aconchegada em seu peito. Rememorou os tons de um arco-íris refletidos na jovenzinha abrigada em uma gruta, os dois perdidos na relva, sorridentes como se mal algum pudesse atingi-los, os beijos roubados entre pétalas azuis e tempestade, encontros secretos, passos de valsa nos céus noturnos, promessas de amor eterno, uma canção sobre almas que se completam sempre que se encontram. A saudade estremeceu-lhe o corpo e umidificou as mãos ansiosas. Ele olhou ao redor e perdeu-se na escuridão de um mundo que, antes de ele regressar, era colorido e ameno. Então, o remorso invadiu-o por todos os poros. Lamentou o desperdício de sua segunda chance como quem acabara de perder um ente muito querido.
A tiara passou longe, porém as lágrimas da mulher que ele amava acertaram-no como arpões e ele desejou estar morto, ainda que desviasse dos ataques falhos. Afinal, se ele não tivesse revivido, nada daquilo estaria acontecendo, talvez Crystal tivesse sido feliz com Damien no fim das contas... Ah, Damien! Jazido nos braços do irmão, pálido e marcado por um mórbido sorriso de derrota. Diamante acreditou que no dia em que a vida do rival desvanecesse em suas mãos a alegria seria desmedida, contudo o Black Moon sentia qualquer coisa menos satisfação por ter-lhe assassinado. O peso parecia tão grande que até respirar tornou-se um fardo, a costela incandescia, o sangue ainda escorria, consequência do ferimento de batalha. A exaustão fez dele menos paciente, estava cansado de desviar de ataques frustrados ou de ter que encarar as lágrimas dela, estava cansado a ponto de perder a capacidade de odiar.
Mentira, ele ainda odiava. Não os terráqueos, não a Terra, não os guerreiros da Lua Branca, ele odiava a si mesmo.
"Não está funcionando!" — desesperada, a senshi sacudiu o objeto místico em mãos — Moon Tiara Boomerang! — atirou o diadema mágico novamente, Diamante cativou-o finalmente e o esfarelou entre os dedos, o pó dourado de seus resquícios foi levado pelo zéfiro noturno. Crystal engoliu seco. Os ombros, os braços, as pernas, tudo tremeu, mirou o báculo ao alvo e elegante nemesiano repetitivamente, mordeu o lábio inferior, prendeu a respiração. Nada. O poder da pedra mística não se manifestou.
O orbe dourado na testa do príncipe ofuscou a visão de Sailor Love, quase a jovem rainha perdeu o controle sobre si, a força oscilou, ora baixava o cetro, ora o apontava novamente. Fechou os olhos e gritou, o objeto escorreu por seus dedos e desapareceu misteriosamente, ela baixou a cabeça.
— Eu não consigo! — soluçou e ajoelhou-se nos ares — Eu não posso fazer isso! — lamentou — Eu falhei! — cobriu o rosto com as mãos enquanto gemia.
Diamante chegou perto lentamente, o peito apertava-se diante da contemplação da mulher traída pelos próprios sentimentos. Ele tinha a espada na mão, mas não a ergueu à navegante. A mão livre, sim, esticou os dedos para tocá-la...
— Você não tem o direito! — Uma voz soou lá de baixo, era Doryan — É sua obrigação vingar meu irmão, se não o fizer, eu farei! — segurava o corpo de Damien e também sua espada.
...
Quartzy, de onde estava, arregalou os olhos lilases logo que avistou o príncipe sedniano.
— Sailor Fire, precisamos sair daqui! — alertou
— Estamos fazendo o máximo que podemos! — a guerreira disse enquanto a fera atracava os dentes afiados nas grades escuras — Não posso mandá-lo cuspir fogo aqui dentro, vocês não sobreviveriam!
— Eu preciso falar com ele! — Quartzy apontou Doryan lá embaixo.
— Você o conhece?! — Saphiro questionou surpreso.
...
Crystal retomou a postura, respirou fundo e desceu ao chão, Diamante veio atrás. Das mãos de Doryan ela cativou a espada cristalina e voltou-se ao príncipe branco.
— Isso não combina com você. — Diamante comentou entristecido e desfilou na direção dela vagarosamente.
Sailor Love apertou fortemente o cabo da arma que pesava e balançava nas mãos, impulsionou-se por um grunhido e correu até ele, o Black Moon girou para o lado e ela ralou os joelhos no piso. Mesmo que as pernas tremessem infernalmente, Crystal se levantou e correu a ele. Sem dificuldades, apenas com giros dos pés, ele desviou como se dançasse. Os fios castanhos, carregados pelo vento impetuoso alcançaram o nariz do príncipe branco durante a valsa esquiva e o perfume doce provocou as assombrosas lembranças de uma época utópica novamente, tempo o qual ele acreditava nunca dever ter lhe pertencido. E, então, uma voz longínqua de mais uma daquelas recordações dolorosas ecoou na consciência – a voz que ele ouviu certa vez à frente da fonte nos jardins – dizendo-lhe que se ele amava Crystal, deveria prezar por sua felicidade. Como ele pudera esquecer? O braço ardeu, a espada passara de raspão por ele. Diamante não desviou do último ataque e surpreendeu Crystal. A marinheira poderia tê-lo acertado em cheio no peito se assim quisesse, mas, em um ato de desespero jogou-se para o lado, a espada tremelicava enquanto um traço fino e rubro escorria-lhe. Ela perdeu o controle sobre as pernas, adiante, de costas para ele, raspou os joelhos feridos no piso pela segunda vez e a espada escorregou de suas mãos. Ela falhou, e falharia de novo, falharia para sempre. Diamante suspirou ao constatar que ela jamais conseguiria ir adiante, e ao invés de se sentir aliviado, sentiu-se invadido por uma tristeza tão profunda a ponto de vencê-lo. Não era preciso ser morto para ser derrotado, percebeu.
— É assim que nossa estória termina? — ele perguntou lúgubre. Aquela tortura precisava se findar e Diamante sabia que Sailor Love não seria forte o suficiente para terminar com tudo como prometera fazer. Caberia a ele exercer o papel mais difícil...
— Nós somos uma maldição para esse mundo... — ela arrastou os dedos pelo chão, afagou a arma jazida ali, contornou-lhe as rachaduras — Se não tivéssemos nos conhecido, isso não estaria acontecendo... — fechou os olhos — estamos fadados a ser inimigos... — mais soluços — E eu só queria que todos pudessem ser felizes! — cativou o gládio novamente e num pulo ergueu-se — Acreditei até o fim que tudo era possível, que as coisas ficariam bem! — desajeitada, investiu golpes contra ele, insistindo no erro. Diamante facilmente defendeu-se com o sabre escuro por mero reflexo — Eu só queria ficar com você — urrou — e agora Mizumi, Jade, Aoi, Akai e Damien estão mortos!
— Ametista! — com a força da espada a empurrou para trás — Ametista está morta porque sua mãe descumpriu o trato com Nemesis e deixou o planeta morrer de fome! Tem razão, não há meios para que isso dê certo. — as armas chocaram-se, uma rachadura maior se abriu na espada de Diamante e a arma sedniana ficou presa nela, o líder da Lua Negra aproveitou-se da situação para tirar a posse da lâmina de Crystal. Em cada mão ele segurou uma espada, com a força da puxada, ela caiu sentada — Eu também queria que fôssemos felizes, Crystal... — aproximou-se — fiz o que pude para apaziguar a ira de nossas famílias, mas era mais forte do que eu e acabei me afogando nesse mar de ressentimento, fui egoísta, provei a todos e a mim mesmo que posso facilmente ser cego por minhas paixões e estamos todos afogados agora, não há como voltar atrás. Seu povo jamais me aceitará, mesmo eu tendo salvado a vida de sua avó a troco da minha. Sei que dificilmente vencerei essa guerra, olhe só para mim... — sorriu mórbido, o sangue escorria pelo rasgo da farda e pelo corte raso no braço — estou em minoria, além de exausto e sem perspectiva. Você era tudo o que eu queria... — abandonou a espada sedniana e ajoelhou-se diante dela, puxou-a pela cintura desmazeladamente e a abraçou — Eu tive a oportunidade de ser amado, de conhecer a reciprocidade, com você... e estraguei tudo. Nada disso faz sentido se eu não puder ter você... e mesmo que eu a tenha, nada faz sentido se eu não puder fazê-la feliz, e eu sei que não posso. Me perdoe, Crystal.— sussurrou grave, apertou-a contra si, beijou-a sem aviso e soltou-a do mesmo jeito. Sailor Love, atordoada, observou-o apontar a espada para si mesmo e fechar os olhos — Talvez um dia nos encontremos novamente, em um tempo diferente. Em um tempo em que nossas famílias não se odeiem e nossos povos tenham superado os rancores passados.
Um tempo para nós,
Um dia existirá
Quando correntes estarão rompidas
Pela coragem nascida de um amor que é livre
Uma época em que sonhos
Por tanto tempo negados
Possam florescer
Enquanto revelamos o amor
Que agora precisamos esconder
Estranhamente sereno, sorriu ao imaginar e finalizou:
— Se essa é a forma de acabar com isso e de corrigir meus erros, então ofereço a minha vida a você, como um dia fiz por sua avó... e assim essa guerra termina. Poupem meu irmão, poupem Quartzy, eu sou o responsável por tudo isso e vou pagar. — apertou o cabo, tocou o fio no abdome, algo se pôs entre a espada e ele, ela o abraçou novamente.
— Me leve com você! — atou-se firmemente a ele, fechou os olhos e afundou o nariz em seu ombro.
— Crystal... — Diamante estremeceu, a espada ia descer ao chão, mas ela a segurou e fê-lo apontar para suas costas.
Um tempo para nós
No fim das contas,
para contemplarmos
Uma vida que valha à pena
Para você e para mim
— O mundo não faz sentido sem você. — afagou o rosto de seu querido príncipe, sorriu e chorou ao mesmo tempo — Eu disse que morreria por você uma vez, faço isso de bom grado. — pousou o ouvido no peito dele e fechou os olhos, carecia de ouvir seu coração acelerado — Quero renascer nesse tempo que você diz, num mundo em que poderemos viver juntos, sem guerras, sem perdas...
E com o nosso amor
Através de lágrimas e espinhos
Nós prevaleceremos
Como passaremos seguramente
Por toda tempestade
Assim como as lembranças atormentavam-no, assolavam o coração dela. Se ele conheceu a reciprocidade graças à neta de Serena, ela descobriu a própria identidade ao lado dele. Um dera vida ao outro, e juntos deixaram de ser sombras. Os pecados de Diamante, por mais graves que fossem, não a fariam esquecer a áurea estação que viveram. Se ela conhecesse o futuro que a esperava, ainda assim, teria o acolhido do mesmo modo. Ele era parte dela, uma parte essencial da qual Crystal não poderia se separar jamais. Se fosse esse o momento da partida, que partissem juntos.
— Eu não posso fazer isso com você! — a voz nemesiana embargou, as mãos dela mantiveram-se firmes sobre as dele no cabo da negra espada.
— Por favor... — sussurrou fracamente — Se você me ama, esse é um ato de misericórdia. — o peito dele se molhou de gotas salgadas fugidas dos olhos azuis — Me encontre quando acordarmos... num tempo para nós.
Vivera tanto tempo não por si mesma, mas pelo povo, pela família e pelos amigos. Seus sentimentos se guardaram dentro de um coração dourado junto com ela própria. Diamante fora egoísta, ela vivera a experiência inversa. Pensar em si mesma em primeiro plano e esquecer-se do resto nunca foi uma conduta presente em seus dias. Abriu mão de quem era para ser o que queriam que fosse, nunca uma mulher, mas uma rainha, um protótipo de Deusa da era passada. Essa era a primeira vez que ela mandava tudo para o diabo para fazer o que realmente queria – estar com ele – em vida ou em morte, só desejava com a intensidade de seu espírito ficar ao lado dele. Se os avós renasceram depois do Milênio de Prata, por que ela e Diamante não poderiam ter a mesma sorte? Crystal afundou o nariz na farda branca e sorveu o cheiro dele, a mão subiu e desceu pelo peito principesco ofegante, os dedos desenharam os bordados azuis, a luva manchou-se de sangue. Havia uma triste esperança naquele apelo. Havia doçura no singelo abraço que selou os corpos, ela o fitou a esbanjar um pequeno sorriso permanente por trás da torrente de pranto. Diamante admirou o azul dos orbes pela incontável vez, perdeu-se no sonho por trás do oceano, no afeto que transbordava juntamente à água salgada. Depois de tudo o que ele fez, ela ainda o via como ser humano. Aqueles olhos... dóceis, compassivos e enamorados, jamais hostis ou amargos, lapidados por sonhos, por sol, por lua e por chuva – não eram de Serena, eram de Crystal. Apaixonara-se por eles perdidamente, não mais por serem o mesmo tom de azul marinho, mas pela profunda carga carregada neles. Na bondade e na luz das esferas azuladas Diamante se perdeu, nas ondas perfumadas e achocolatadas, na suavidade da voz, no torpor da aura cálida da senshi, e ele percebia nela uma súplica, não poderia negar-lhe nada, a esperança de uma nova vida dividiu-se a dois, quando deu por si o fino sorriso esteve carimbado em seus próprios lábios, destoando da languidez no olhar.
— Num tempo... para nós. — ele cedeu ao desespero dela e de si mesmo, com um braço apertou-a e arrancou-lhe o ar, com o outro firmou a espada em mão, fechou os olhos, e ao senti-la enlaçar-lhe a nuca e esconder os dedos por baixo dos fios celestes teve certeza de que aquela era a coisa mais digna a se fazer.
— Me beije antes de partir... — num sussurro ela pediu. As bocas colaram-se de imediato e degustaram-se com o rigor de quem quer guardar todas as lembranças possíveis de sensações, texturas e sabores. A espada quase se desencostou das costas de Crystal, ela firmou a mão de Diamante no cabo novamente e apontou o fio às costas. — "Faça" — quis dizer com o gesto.
Um tempo para nós
Algum dia existirá
Um novo mundo
Um mundo de esperança reluzente
Para você e para mim
...
— Não, ele não pode fazer isso! — Sailor Fire se desesperou, Saphiro portou-se do mesmo modo, Quartzy fez força junto com o dragão para soltarem-se e a situação só piorou quando a marinheira revelou: — Ela espera uma criança dele!
—... O quê?! — nesse momento, Saphiro ficou tão transtornado que começou a atirar-se contra as grades da gaiola. Sailor Fire e Quartzy também esforçaram-se para tentarem, juntas, arrancar ao menos uma das barras de cristal negro, sem sucesso.
...
Diamante cessou o beijo, colou a Lua Negra à Lua Branca, prendeu a respiração e grunhiu aterrorizado enquanto sua rainha acarinhava-lhe as costas no derradeiro abraço, os protestos de Doryan não o incomodaram, ele estava pronto para atravessar Crystal e a si com a espada, até que a voz da mãe dela ecoou baixa a princípio:
— Diamante, pare! Você não pode fazer isso! — não foram essas frases que o fizeram largar a espada, mas a que veio a seguir: — Se machucar Crystal, estará ferindo o seu filho também! — Rini indicou a seu querido cavalo alado para que descesse dos ares, então ela pôs os pés no chão.
Os corpos dos amantes amoleceram, a espada quicou no piso enquanto eles encararam-se sem piscar, o ar pareceu rarefeito a ambos.
— Meu filho? — as violetas quase escapuliram das órbitas, ele fitou as próprias mãos, descrente de sua atitude, e lançou-se para longe de Crystal, fitando-a assustado — Crystal?! — ela estava apática — Você... você não me disse nada!
— Eu não sabia! — assombrada pela notícia, cobriu o ventre com as mãos e empalideceu ao pensar no que estavam prestes a fazer — Então foi por isso que Damien... — cobriu o rosto e o pranto verteu, os olhos arderam — E eu nem tive a oportunidade de explicar as coisas para ele! — Diamante tornou a ela e a abraçou, Rini parou à frente e tirou-lhe as mãos do rosto.
— Você precisa ser forte, é responsável por duas vidas agora! — os rubis cintilaram sérios. — E você também, Diamante! — Abraçou a filha e acabou por esbarrar nos braços do príncipe, quando deu por si abraçava os dois e não se afastou mesmo assim — Não acredito que você iria mesmo fazer isso! Não imaginei que seu sofrimento fosse tamanho, Crystal!
— O que vai ser dessa criança, mestiça de povos que se odeiam? Isso não muda nada! —Diamante afirmou amargurado, fixo em Doryan indignado adiante.
— Uma criança pode não mudar as coisas, mas o que eu tenho a dizer sim. — uma voz surgiu do nevoeiro, uma silhueta se desenhou através da neblina — um homem cujos cabelos negros cobriam parcialmente a face – caminhando moribundo.
— Onyx! — Quartzy inundou-se de pranto jubiloso. Finalmente o dragão conseguira espatifar uma das grades da gaiola, Saphiro notou que a partir de então seria possível o uso do teletransporte para fora dali.
Antes que ele tivesse a ideia, a bailarina sumiu como fumaça, restou ao casal remanescente partirem juntos. Assim que Sailor Fire abandonou a jaula, invocou o dragão de volta ao broche. Quartzy, já sobre o piso, mostrou-se às vistas do cientista com um largo sorriso no rosto. Sem preocupações com as pessoas que estavam ao redor, ela correu a ele e o abraçou intensa. O homem gemeu e ela se afastou instintiva. Prestou atenção na figura, o braço mecânico estava despido, as mangas do jaleco e a da camisa chinesa se desfizeram com a explosão. Afastou os cabelos que cobriam o rosto desbotado do insano e percebeu que a maçã esquerda dele estava em carne viva, uma lente dos óculos se partira e uma das sobrancelhas tinha um corte profundo. Preparar-se-ia para cuidar dele, uniu as mãos em formato de concha, no entanto Onyx as conteve e prosseguiu:
— Essa guerra é uma farsa. E eu contribuí para isso. — contou provocando o silêncio de todos ali perto, a não ser Quartzy que tomou coragem e perguntou:
— Do que você está falando?!
O cientista esboçou um pequeno sorriso e afagou os cabelos róseos arrepiados.
— Você está feliz por eu estar vivo... Pena que isso não vai durar muito. — sussurrou.
— Onyx, o que você quer dizer com isso?! — ela insistiu.
Doryan, próximo, ouviu a voz de Quartzy e sentiu-se estranho, como se já a ouvira há algum tempo atrás.
Hematita abriu um enorme sorriso e sentou-se nos céus, alimentando certa expectativa.
— Prometi revelar a verdade, príncipe. — Onyx prosseguiu direcionando-se a Diamante — Prometi também lealdade à rainha, portanto, estou aqui para contar tudo o que sei, o que vi e do que participei. Coelho, — voltou-se à Rini — se seu povo quer encontrar culpados e puni-los, estou pronto para ser julgado.
— Do que ele está falando?! — Rini fitou Diamante, ambos encararam-se confusos.
— Eu fiz a holografia. — confessou.
— De que holografia ele está falando? — Helios perguntou confuso.
— A holografia que foi o estopim desse conflito... — de cabeça baixa, Onyx explicou e prosseguiu a confessar: — Além disso, eu, Topázio, e o pai dele destruímos todos os recursos enviados antes mesmo de chegarem ao planeta Nemesis. — Quartzy afastou-se devagar, a boca tapada pelas mãos — Nós queríamos que todos os nemesianos se convencessem de que precisavam conquistar a Terra, e a falta de recursos aceleraria o processo. Como não funcionou como pensávamos, me encarreguei de forjar a holografia em que rainha Rini nos abandonava às traças. Como pode ver, príncipe... eu menti, não só uma, mas várias vezes.
—... Vocês tiveram a coragem de matar uma população de fome?! — Diamante fechou os punhos e alterou o tom de voz.
— Não há meios de justificar o que fiz, eu sei disso. Portanto estou pronto para ser castigado e não lutarei contra isso, ainda assim, quero que saibam que estou verdadeiramente arrependido...
...
O pântano era frio, silencioso e escuro. Não havia alimento, sequer água. O jovem filho de cientista louco passou dias vagando a arrastar a carcaça de sua mãe até escolher um trecho aleatório para fixar um lar. Ele lembrava nitidamente de como seu pai ingeria a pedra negra e assim seu corpo mantinha-se forte ainda que na casa deles quase não houvesse mantimentos, então passou a imitá-lo com frequência. Aurum deixara com o rapazote quantidade considerável de pedra, e foi através de certa parcela dela que o menino sobreviveu. A princípio seu corpo teve reações adversas quando exposto a dose muito alta de energia sinistra e ele pensou que morreria, um lado seu desesperava-se pela vida, outro acreditava ser melhor libertar-se das amarras da mortalidade e entregar-se ao outro mundo, todavia os instintos selvagens de sobrevivência o mantinham firme e ele vidrava os olhos nos pedaços humanos que carregava consigo.
Naquele bioma macabro havia uma espécie de vegetação que, às pessoas comuns, seria venenosa. Para Onyx, protegido mela maleficência do cristal, as árvores e folhagens escuras e fétidas não representavam perigo algum. Foi a partir delas que seu primeiro casebre foi construído. No cômodo único ele montou uma espécie de banheira, derreteu o cristal negro e acomodou os pedaços maternos lá dentro. Em seu âmago doentio, uma esperança se acendia. Se ao menos ele possuísse mais cristais originais, talvez ele pudesse superar a genialidade do pai e realmente trazer uma pessoa inteira de volta à vida – isto é, quase inteira – pensou ao lembrar-se do peito oco da mãe, cujo coração fora arrancado pelas mãos de Amber.
— Que espelunca! — certo dia, um rapaz de idade similar à dele, poucos anos mais jovem, adentrou o barraco.
— Quem é você? — perguntou indiferente, alumiado apenas por uma centelha azulada acesa em um pequeno lampião.
— Não se lembra de mim? Me chamo Topázio, meu pai mandou que trouxesse isso. — jogou uma urna a frente de Onyx.
O lânguido morador do pântano aproximou-se do objeto, abriu-o com cuidado e as peças de cristal reluziram espelhadas em seus olhos âmbar. Um sorriso mórbido alargou-se nos lábios e ele pegou uma a uma, depois encarou o tanque que transbordava líquido negro.
— Ele disse que através da pedra você poderia criar tecnologias que nos seriam úteis. — o jovenzinho de cabelos de ouro prosseguiu.
— Lembrei de você, é o filho de general Amber. Nos vimos poucas vezes quando pequenos, você que ficou com minhas bonecas... — simulou birra no tom — O que ele quer de mim? — não se deu o trabalho de erguer a cabeça para fitá-lo, as pedras entretinham-no.
— Meu pai foi o responsável por resolver os conflitos de terra em Nemesis, ainda assim o povo optou por eleger General Garnet como líder e regente. — havia rancor no timbre — Desde então, Garnet e sua família estão vivendo no luxo do palácio, e minha família que possui sangue nobre tem que se contentar com tão pouco... mas isso não durará para sempre. Meu pai diz que Garnet é fraco, assim como sua esposa e filha. Afinal, se meu pai estivesse no trono, já estaríamos investindo em poderio bélico para atacar e dominar o planeta Terra.
— Por que se fala tanto desse tal planeta azul? — perguntou desmotivado.
— Imagine-se em terras férteis, imagine ter uma vida fácil e longeva, ser jovem para sempre.
— Isso é lenda. — riu.
— Isso é real. — tirou do bolso algumas placas de vidro, depois uma esfera metálica. A pôs sobre o chão de terra áspera, apertou um botão pequenino e a esfera abriu-se como um aracnídeo. Topázio encaixou no dispositivo uma placa de cada vez, imagens se formaram do reinado de Nova Rainha Serena. Onyx vislumbrou as terras das quais Topázio falara, além de ouvir diferentes discursos pacíficos da antiga regente, da promessa de ajuda ao planeta Nemesis.
— Isso é mentira, ao menos em meu vilarejo já não recebíamos quase nada. — comentou amargurado, inevitavelmente rememorando o esmorecimento da mãe. Topázio gargalhou repentinamente.
— Em minha casa como muito bem. — cruzou os braços — Não me falta recursos. E não faltará a você, se nos ajudar.
— O que quer dizer com isso? — finalmente deu-se o trabalho de olhá-lo.
— Meu pai intercepta uma parte — contou — e destrói outra, deixa pouca coisa entrar.
— Seu pai quer matar o planeta? — riu desacreditado.
— Que diferença faz? — encarou-o — Você se importa com essas pessoas sem futuro? Esse povo não tem personalidade, não tem força de vontade para crescer, conforma-se em ser sustentado pelos restos enviados de outro planeta. O que faz do clã da Lua Branca mais merecedor da Terra do que o nosso? O que dá direito a essa gente de nos expulsar de lá como se fossemos vira-latas?!
— É... — Onyx não tinha empatia alguma pelos conterrâneos ou por qualquer pessoa, ainda mais depois da forma como foi tratado no dia em que seus pais faleceram. De fato, nunca fora bem recebido pelos moradores do vilarejo. Acidez ferrenha era o modo de tratamento que conhecia, além do deboche, do chiado dos burburinhos maledicentes. Ali, uma pessoa passava por cima da outra como se nada fossem, e mesmo assim eram hipócritas o suficiente para julgarem um menino de "parricida" e "matricida", como se eles não fossem capazes de tal monstruosidade. Ninguém se salvava. O pior, Onyx pensava, era ser acusado de assassinar a única pessoa a quem amava. Respirou fundo, levantou e pôs-se a altura do outro meninote — O que posso fazer para ajudar, e o que ganho além de comida? Já não necessito de recursos enviados da Terra. — puxou do bolso surrado uma seringa — Inventei isso para aliviar a minha fome. Como você disse, o mal das pessoas daqui é falta de ambição, então quero mais do que comida, quero patrocínio para o meu projeto, quero reconhecimento e terras também.
— Você terá. — afirmou seguramente. — Meu pai prometeu recompensas, não foi?
— O que preciso fazer?
Topázio acenou com a cabeça para que Onyx o seguisse até o lado de fora do casebre. Foram à parte da frente da casa e lá, além de uma nave de médio porte estacionada, havia dezenas de urnas como a que o aprendiz de cavaleiro trouxera para dentro da humilde morada.
— Se você é tão inteligente quanto seu pai, saberá o que fazer com isso. Precisamos de soldados, crie Droids para ajudar na destruição de recursos. Precisamos arrumar um meio de convencer essas pessoas de que a única solução de sobrevivência é declarar guerra à Terra.
— Certo. — começou a carregar as caixas para dentro.
— Um dia nós moraremos lá. — Topázio disse em tom de promessa.
— Sair desse pântano melequento é o suficiente para mim. — riu-se.
— E Onyx, — Topázio apontou — para todos os efeitos, você não me conhece, nem nunca ouviu falar no meu nome.
— Que seja. — não deu muita importância, estava animado em trabalhar com as pedras que recebera, não só por poder dar continuidade ao projeto de trazer a mãe de volta, mas como construir os seres que lhe foram requisitados.
E assim ele fez. Sem companhia e afazeres além da criação, o pequeno gênio passou a puberdade transformando pedra em líquido, em paredes, em máquinas e seres. Suspirou ao contemplar o primeiro Droid pronto, aquele seria o primogênito de um exército que espreitaria a densa atmosfera do planeta e devoraria os recursos recém-chegados. De tempos em tempos Topázio surgia com mais pedras, e também máquinas roubadas de dentro do palácio, tal como dispositivos de holografias, radares e coisas do tipo. Tudo servia de exemplo e aprendizado ao cientista em formação. Graças ao radar, Onyx descobriu a presença de uma pequena peça de cristal negro remanescente em Tóquio de Cristal, a mesma que Ametista detectaria mais tarde. A descoberta foi decisiva, pois a partir daquele instante o contato com a Terra tornou-se mais concreto, Onyx assistiu discursos de reis, coroação da nova rainha, e observou-lhe a conduta secretamente. Observador, percebeu na mulher uma oportunidade de ouro...
Tanto aconteceu naqueles tempos, além da coroação de Rini, um incidente misterioso com os generais aliados de Garnet foi responsável pela morte de Aurum, consequentemente a de Alexandrita, por dedicar seus últimos suspiros na ressurreição de três homens importantes. Em sincronia, o local de exílio do excêntrico Onyx foi descoberto por um grupo de nemesianos impulsivos.
— Parricida, matricida! Matem-no! — as pessoas protegidas por trajes especiais gritavam visceralmente, cegas pelo prazer caloroso que o ódio trazia a seus corações vazios. Atiravam tochas e pedras à morada redonda, talhada pelas mãos do adolescente.
Graças à matéria prima das estruturas, o fogo apagava-se ao entrar em contato, as pedras tornavam-se pó, os gritos zuniam, porém, causando fortes dores de cabeça em Onyx. Eles desistiam por uns dias, depois voltavam, o jovem dotado teve dificuldade de encontrar paz, até que no limite da raiva usou as medusas que construiu para dar cabo de toda aquela gente. Finalmente, ele se tornou o grande assassino contado nas estórias que circulavam pela boca do povo. Seu coração enegrecido era, mais sombrio ficou. Para nunca mais ser incomodado, submergiu seu lar no piche negro do pântano e dedicou-se com mais fervor a servir os propósitos de Topázio, não por acreditar que ele se tornaria um líder ideal, não por aspirar um cargo alto ao lado do dourado, mas simplesmente por querer mandar toda aquela gente para o espaço. Adquiriu prazer em imaginar pessoas sofrendo tudo ou pior do que ele sofreu, desejou que todas as crianças de Nemesis tivessem a infância roubada como ele teve. O mundo de Onyx resumia-se em deleitar-se com os gritos e as lágrimas de agonia de outrem, assim ele esquecia a dor própria e seu nome ficaria para a História.
— A filha fraca de Garnet assumiu o trono. — Topázio ressurgiu no laboratório que enfim se escondia nas profundezas do lago de piche. Depois dos ataques, Onyx optou por manter-se o mais isolado o possível — Ela meteu na cabeça que tem que trazer os antigos príncipes de volta à vida — por trás de seu riso havia ranço, e nos olhos um lume triste, mas não pela notícia que ele trazia — e isso não é tão ruim para nós, se pararmos para pensar. Se ela tentar trazê-los, morrerá agonizando como a mãe. Só que, há algo a freando... parece que sua raiva não é o suficiente!
— Se essa filha de Garnet morrer, como você diz, o trono é seu por direito, não? — ajeitou os óculos sobre os olhos — O que falta para ela tentar reviver os sujeitos? — não deu muito crédito ao dom da soberana.
— Mesmo com a população faminta, Ametista não tem coragem de declarar guerra. Convenceu-se de que não temos poderio bélico e não podemos nos arriscar. A ideia brilhante é, se for apostar numa guerra, trazer os defuntos para que possam assumir o lugar dela. Tanto faz se ela vai conseguir revivê-los ou não, o fato é que precisamos de algo muito sério, de uma prova irrefutável de que a Terra não se importa e não quer saber de nada em relação a Nemesis para ela chegar ao extremo. Onyx, eu quero a Terra! — esbravejou irritadiço, olheiras desenhavam-se embaixo dos olhos, era sabido que a raiva já não tinha a ver com a morte do pai, outra coisa o deixava maluco, o cientista era louco, porém não o suficiente para perguntar o que era.
— Olhe só isso... — Onyx aproximou-se de um dispositivo de holografias no centro de uma mesa e o acionou. Topázio vislumbrou imagens da atual rainha de Tóquio de Cristal tentando, mesmo que raramente, se contatar com o planeta Nemesis. — Agora, olhe isso... — foi buscar uma caixa com outras placas envidraçadas, encaixou uma por uma e cada retângulo de vidro transformou-se em imagens doentias da rainha e do rei terrestres ensanguentados, aos berros, estrebuchando em desespero, o palácio de cristal transformado em cacos, o céu vermelho-sangue.
— Você fez isso? — os orbes dourados arregalados exibiram brilho diferenciado.
— Passo muito tempo sozinho aqui — disse naturalmente enquanto analisava as unhas da mão sem luva — e preciso arrumar o que fazer. Cansei de olhar para essas medusas e fingir que elas conversam comigo, então estudei um pouco sobre o funcionamento dos hologramas que intercepto o sinal, descobri como criar imagens e inventei isso aí. Claro que me tomou muito tempo, e confesso que estou enjoando... mas enfim, é saudável ter hobbies —congelou a imagem numa cena em que Rini estava decapitada —, não acha? — gargalhou incoerentemente.
— Acho que você não compreende o quanto essa sua habilidade pode ser decisiva para a nossa causa! — expandiu um sorriso macabro.
E então o plano se concluiu. Onyx uniu todas as imagens e áudios de discursos de Rini que ele conseguira captar durante os anos e fez diversas alterações. Ficou tão entretido na conspiração que durante alguns dias nem deitou para dormir. Queria ver o circo pegar fogo, só por ver. Um dia ele seria lembrado, talvez, e isso bastava. Sairia daquele pântano, Topázio prometera. O cavaleiro daria um jeito de trazer o rumor de sua inteligência aos ouvidos de Ametista e assim o fez. A holografia plantada por ele foi um dos maiores sucessos de sua carreira. Não o considerou o maior, porque dentro do tanque jazia o seu verdadeiro pote de ouro, o corpo que ele esperava ansiosamente se levantar qualquer dia, sorrir para ele e chamá-lo de "filho". As partes já estavam unidas e, embora demorassem, cicatrizavam. Às vezes os dedos tinham espasmos. Dentro do peito da mãe morta, um cristal negro puro pulsava avermelhado. E ele esperava, ansiosamente, dia e noite, poder voltar a ser a criança que ela protegia, e que o resto do mundo se explodisse, aquela fora a única pessoa que lhe fora gentil, antes de ele conhecer...
— Quartzy, — terminou de contar sobre as conspirações, não só sobre a holografia de Rini e a destruição de mantimentos, também sobre ter forjado o caso entre Damien e Crystal e as motivações para isso — este sou eu. — fechou os olhos e baixou a cabeça, um pequeno sorriso escapou-lhe, dessa vez entristecido.
Rini abraçou-se ao pégaso branco enquanto rolava os olhos rubros pelas figuras de Onyx, Diamante e de Crystal, assombrada com a confissão e em todos os desastres que ela acarretara. Diamante , furioso, deu um passo adiante, a Lua Negra converteu-se em olho outra vez, Crystal pôs o braço a frente. Os oceanos tremulavam, os lábios entreabertos não sabiam o que dizer. Todos caíram nos planos de Aurum, Topázio e Onyx. Todos foram levados por caminhos tortuosos até chegarem onde estavam. Tantos morreram por um mal entendido, nenhum deles nasceu para serem inimigos, as ocasiões os fizeram o antagonista um do outro. Ela estava tão cansada daquilo... Caminhou até o homem, tocou-lhe o ombro de carne e osso e sorriu.
— Obrigada por contar a verdade, apesar de tudo... Sinto muito pela vida de exílio que teve! — e surpreendeu o gênio com o gesto amistoso.
— Não! — Doryan vociferou — O meu planeta não tinha nada a ver com as rixas entre Terra e Nemesis, mesmo que vocês todos tenham sido vítimas de armações, o que ele fez com meu pai não tem perdão! — apontou o dedo a Diamante — O que ele fez com meu irmão não tem perdão!
— Príncipe, não seja assim! — Quartzy interveio, pôs-se entre ele e o príncipe Black Moon — O ódio não trará seus entes queridos de volta! O ódio não fez bem a ninguém aqui!
— Saia da minha frente, você é uma deles! — catou a espada de Damien do chão e apontou a ela — Não me importa se é mulher, posso não ter te visto no dia do massacre em Sedna, mas se é uma Black Moon é cúmplice daquela chacina!
— Quartzy! — Saphiro e Onyx chamaram por ela, a mocinha bateu o pé e continuou a frente de Doryan.
— Você está enganado, eu estava lá. — contou — Não foi só Onyx que traiu o clã, também sou uma traidora!
— Do que você está falando? — Saphiro arqueou uma sobrancelha enquanto indagava, Diamante apenas a observou.
— Sou uma traidora porque ajudei o irmão mais novo do príncipe detestado pelo meu soberano a escapar. — manteve-se firme.
— Não é possível... — Doryan perdeu o ar — Não, você está mentindo!
— Você precisa viver! — ela refez o discurso do dia em que Sedna foi devastado — Vivendo... assim, o senhor tira um peso das minhas costas!
...e o último dos sednianos quase caiu de joelhos perante a jovenzinha. Uma inimiga no fim das contas foi a sua heroína. Durante certo tempo ele acreditou que a ajuda no momento de fuga fosse uma ilusão, naquele instante tudo fez sentido. Mirou-a, focou-se nos cabelos claros, a memória assimilou a imagem dela à da pessoa que baixou o capuz e disse aquelas frases para ele.
—... Por quê? — sem forças para sequer sentir raiva, perguntou.
— Porque eu queria que você avisasse ao povo da Terra o que estava para acontecer! Porque eu não queria mais que ninguém sofresse! Porque eu sei o que é perder a pessoa mais importante na vida, sei como isso dói, eu tive uma irmã mais velha e muito querida! Ela morreu por conta dessa onda de ódio e sede de vingança, se tudo isso não tivesse acontecido, talvez ela estivesse viva, mas o rancor a levou embora, a separou de mim. O mesmo aconteceu com seu irmão e o mesmo acontecerá com você se não se libertar disso! — abaixou-se à altura dele — Supere o rancor! – tocou-lhe os ombros.
— Quartzy está certa! — Sailor Love adquiriu postura segura — Vejam o que estamos fazendo! — voltou-se a Diamante — Nós íamos nos matar! — emocionou-se — Aqui em Tóquio de Cristal todos admiram tanto os feitos de minha avó, dizem seguir seu exemplo, mas na prática olhem para si mesmos! Lua Branca, Lua Negra, nemesianos, sednianos, terrestres, o que ganhamos nos atacando?! O meu plano era voltar para vocês — fitou a mãe ainda catatônica com todas as revelações, o pai em forma de unicórnio, Sailor Fire e Doryan — e conversar sobre isso, nos apaziguar, nos incentivar a perdoarmos uns aos outros. Se o primeiro exílio do clã Black Moon não tivesse ocorrido ainda no tempo de meus avós, nunca existiria essa rixa! As pessoas precisam de novas chances! — aproximou-se de Diamante e afagou-lhe o rosto frio — Esse é o nosso tempo... — segurou uma de suas mãos e pousou-a no ventre que carregava uma pequena esperança em seu interior — Me perdi do caminho e agora me reencontrei!
— Diamante, — Rini recobrou a voz e fitou-o profundamente, sem piscar os rubis — imagino que não tenha sido difícil se convencer do que viu na holografia forjada, e em parte isso é culpa minha. Eu poderia ter sido mais branda, poderia ter elaborado boas iniciativas com o seu povo, mas sei que também fui negligente e peço desculpas por isso. Eu poderia ter insistido mais em manter contato, e me refiro ao tempo antes de você retornar à vida. Mas, no fundo, pelas memórias ruins de minha infância, fiquei em minha zona de conforto e me conformei com o sumiço de vocês, considerei que talvez fosse melhor assim, que vocês já não mais precisassem de ajuda da Terra. Fui egoísta, foquei em meus traumas de infância, em meus medos e não pensei nos traumas que vocês sofreram. Todos temos alguma culpa... — Helios, na forma equina, a abraçou com uma das asas — Mas não é tarde demais para todos nós, não pode ser...
— O povo dirá. — o príncipe afirmou ao notar que alguns civis estavam próximos, um deles era Hakaru fitando-o de modo enigmático, depois, ao encarar Doryan notou que, acima da comoção pela confissão de Quartzy, prevalecia o desprezo. Não seria possível ele ou qualquer civil se condicionar a perdoar tão rápido.
— Que gracinha... — Topázio surgiu furtivo e soturno — Aplausos! — bateu palmas estaladas e lentas.
— Você! — Diamante envolveu-se de energia púrpura — Você é o grande responsável por isso!
— Eu deveria saber que você pularia fora, — Topázio ignorou o líder do clã e voltou-se ao antigo aliado — você não tem colhões, Onyx. — riu soberbo — Agora pelo menos não preciso mais me submeter a falsos líderes, sequer preciso de você. — fechou o riso.
— Ele tem meu projeto em mãos! — Onyx contou — É uma bomba-relógio, príncipe! E foi por ela que me meti em tudo isso, repito, sei que não justifica, mas quero que saiba!
— Projeto, bomba-relógio? Não é mais simples me chamar de mamãe? — ela desceu magnânima da cortina de bruma celeste. Cabelos negros que não tinham fim, longo vestido da mesma cor cuja saia transparecia pela finura do tecido, as costuras do pescoço escondidas por uma preciosa gargantilha lapidada das pedras de seu nome, olhos grafite penetrantes. — Hematita. — apresentou-se — Então você é Diamante. — soltou um riso seco e breve — Garnet fez de você um messias, que tolice! Um homem que se deixa levar tão fácil por paixões... Você não é nada. — a voz engrossou de súbito, o grafite tornou-se rubro.
— Deixe ele para mim! — Topázio exigiu e ergueu a espada solar.
— Diamante... — Crystal segurou-lhe o braço, apreensiva.
— Não se preocupe, eu me garanto. — flutuou graciosamente.
— Você está ferido! — ela protestou.
— Topázio, espere. — Hematita, com as simples palavras, fê-lo baixar a espada e vir a seu lado — Ainda há um obstáculo para eles superarem — sorriu maliciosa.
As outras senshi chegaram exauridas onde os outros estavam. Então, a terra tremeu e o céu começou a se distorcer. A paisagem transformou-se em um cenário surrealista, um forte zunido ecoou nos ouvidos de todos e eles caíram de joelhos. Topázio e Hematita transpareceram até desaparecerem por completo.
As luzes dos prédios, dos postes, das casas, todas as lâmpadas do reino, exceto as do palácio protegido pelas forças do Trio Amazonas, piscaram incansavelmente até estourarem. Distante, num bosque conhecido, Sailor Phantom adormecida sobre a pedra expandiu os olhos de uma vez só, os espelhos de sua alma estavam completamente brancos.
Continua...
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