A Minha Queda Será Por Você
37 As correntes de Jade
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 37 – As correntes de Jade
Logo após o jantar – no qual ela quase não triscara – Crystal decidiu recolher-se em seus aposentos. Antes de ir, o pai beijou-lhe a testa e abraçou-a, relembrando-a de como era acolhedor ter um colo paterno como abrigo. A mãe, ainda preocupada, mas doce, afagou-lhe os cabelos e lhe desejou boa noite, os outros compartilharam com a princesa seus olhares amigáveis, mesmo Sailor Wind, a indecifrável, mostrou-se serena.
Mais tarde, no grande quarto, Crystal atirou-se sobre o colchão macio. Vestia a camisola branca com detalhes em lilás, coincidentemente a mesma que usara no dia em que, pela janela, o Príncipe Branco visitou-a. Pesarosa, pregou os grandes olhos azuis à janela aberta, atentou-se às cortinas bailando em conjunto à terna brisa noturna e era como se, de repente, Ele fosse aparecer a sorrir, e então diria, brando, que tudo não passara de um pesadelo.
Não. Era real. Ele não estava ali. Diamante partira para longe, muito longe, e não visitaria seu quarto por um bom tempo, talvez para sempre.
Para sempre? Só de cogitar que seu príncipe poderia não regressar, o coração congelava dentro do peito. Crystal virou-se e, em posição fetal, apegou-se à sua pequena peça negra como se fosse tudo o que havia lhe sobrado. Beijou a extremidade pontiaguda e gélida, suspirou e entrelaçou as pernas. A noite estava quente, mas ela sentia um frio arrepiante. Como seria forte? Como passaria por tudo aquilo?
Lembrou-se do pequeno Tsukiko e de seus olhos admirados, inocentes e esperançosos.
Certamente existiam muitos "Tsukikos" que precisavam dela, estes eram parte de seu povo, de seu reino.
— Sou uma princesa... — constatou: — Meu coração precisa ser maior, meu amor precisa ser maior... — uma lágrima escorreu, fina, e caiu sobre o travesseiro branco — Não posso me dar o luxo de amar apenas uma pessoa. Não posso me encerrar em meu mundinho, como se ninguém mais precisasse de mim. — puxou o edredom bordado em luas e estrelas, cobriu-se até as orelhas, cerrou fortemente os olhos e mordeu o lábio inferior, tentava com tudo de si aliviar aquela dor, aquela agonia fantasma – o peito comprimia como se aos poucos se sufocasse pela falta, pela abstinência —"Quando isso vai passar? Como eu faço para aliviar essa dor?!" — soluçou — "Estou tão sozinha!" — afundou a face inundada no travesseiro, seus murmúrios chorosos, seus lamentos e desabafos todos foram abafados pelo algodão fofo, até que, exaurido, seu coração partido a permitiu adormecer. No entanto, antes de entregar-se ao sono conformado, pensou sobre os momentos com Damien, e de certo modo, confortou-a saber ter com quem contar, um novo amigo, alguém que se orgulhava dela — "Não, não estou sozinha". — os olhos fechados com violência, relaxaram, vislumbrando a família, os amigos e as pessoas que conhecera na cidade. — "Um dia, eu vou ser uma mulher forte. Por vocês, eu vou ser".
...
Topázio, entediado, sentou-se à cama. Depois que a princesa de Tóquio de Cristal retornou ao palácio com seu acompanhante não houve motivos para que o cavaleiro dourado e o gênio insano permanecessem no laboratório. Livrou-se das botas, Aoi, meiga, ajudou-o a tirar cada peça da armadura. As mãos pequeninas dobraram sua capa e guardaram-na no imenso closet. As peças lapidadas em pedra preciosa – que dava-lhe o nome – a fiel serva separou por partes e depositou-as em um manequim emoldurado à parede negra. Por fim, sorridente, a menina voltou aos pulos e parou diante ele. O belo dono dos cabelos e olhos d'ouro tirou a farda negra que vestia por baixo do traje de guerra e revelou seu abdome definido, alvo, sem uma cicatriz sequer. Esticou os braços, alongando-se, cada músculo de suas costas e de seus braços enrijeceu-se. Quando já estava confortável, Topázio, em um gesto convidativo, estendeu a mão a uma Aoi ansiosa à sua frente. A mocinha alegre segurou-a, e ele, firme e intenso, a puxou de modo que caísse sentada sobre sua coxa esquerda.
Encarou a sua bonequinha, saboreou a ansiedade estampada nos olhos azuis, ingênuos. Cativou o rosto delicado em uma mão, massageou a bochecha macia com o polegar como se nela desenhasse círculos, Aoi fechou os olhos e suspirou, entregue, contente.
— Gosta de ter as atenções só para você, não é? — roçou o nariz ao dela, mordeu-lhe o lábio inferior.
— Eu sinto saudades da Akai, mas... — ruborizou — gosto sim de ter o senhor Topázio só para mim! — ao fim da frase, acabou por deixar escapar um gemido. Os dentes de seu mestre agarraram-lhe a orelha, e a língua morna acariciou-a, sedenta.
— Dispa-se. — sussurrou galante, mesmo que não se permitisse sorrir e que sua respiração não se alterasse.
Aoi, tímida e destrambelhada, levantou-se. As articulações trêmulas contraíam-se, os dedos nervosos se atrapalharam ao desfazerem os nós do espartilho – a primeira peça a cair –, a seguir virou-se de costas, abaixou-se e abriu o fecho das botas, sacudiu as pernas para frente e fê-las voarem longe, uma em direção oposta à outra.
— Vire-se. — calmo, ordenou.
O que ela poderia fazer além de obedecer? Tirou uma luva por vez, caíram feito plumas sobre o piso. Arfando, despiu-se da meia-calça preta, enfim sobrou o vestido. Aoi parou, ofegante, fitando-o insegura, era o seu jeitinho. Topázio, enigmático, não piscou uma vez. Os orbes dourados e intransigentes diziam por si só o que sua meiga Lolita deveria fazer. A saia curta possuía três camadas que lhe davam volume: a primeira era azul, a segunda roxa, e a última, parte do vestido, negra. A jovenzinha livrou-se de uma de cada vez, até que sobrou-lhe apenas o vestido negro e sem alças. Revelou os seios ao abaixar o decote ousado, assim que o tecido desceu abaixo do umbigo caiu feito cortina, revelando um corpo adolescente pouco mais desenvolvido do que o comum, era como se o conjunto de curvas redondas e bem desenhadas possuíssem não mais do que dezesseis anos. Em contraste, o porte de Topázio anunciava-se com mais de vinte e poucos, vivido e maduro.
A lingerie rendada em fios negros e lilases ele mesmo fez questão de tirar. Puxou-a pela cintura, beijou-lhe a barriga e arriou o último pedaço de pano que a cobria. E, perfeccionista como era, pôs as mãos sobre os ombros pequeninos e pressionou-a a abaixar-se, os cotovelos da menina apoiaram-se nas coxas cavaleirescas torneadas, ainda adornadas pela calça de veludo preto – conjunto da farda –, então, ele, novamente, teve a iniciativa de tirar o pequeno chapéu, preso em grampos nos cabelos azuis, e jogá-lo em uma direção qualquer. Assim que a induziu a ficar do jeito como veio ao mundo, tomou-lhe as mãos e a pôs de pé mais uma vez. Abraçou-a por uma coxa, alisou-lhe a pele intacta, contornou a dobra da nádega perfeitamente redonda e, agarrando-a pela perna, fê-la encaixar a dobra do joelho sobre o ombro largo de militar – o dele, obviamente. Arrastou as unhas no branco da pele, deixou um rastro vermelho da virilha até as proximidades do pequeno joelho, e a boca, voraz, caiu sobre o ventre dela, a língua desenhou traços aleatórios pela pele, até enfiar-se na passagem, cada pedacinho de Aoi tremeu, a menina curvou-se sobre o mentor e abraçou-se à sua cabeça, as mãos perderam-se nas largas ondas douradas, preciosas, tão brilhantes que iluminavam o cômodo escuro. Antes que os gemidos deliciados da serviçal se transformassem em gritos, bruto, Topázio a girou e jogou-a sobre a cama. Ele, que estava sentado, ágil deitou-se sobre o corpo extasiado da amante, as mãos bárbaras encaixaram-se perfeitamente nos seios macios e espremeram-nos, Aoi apertou os lençóis, desgrudou as costas da cama arqueando-se em resposta ao toque, suas pernas, sabidas do que viria a seguir, abriram-se como se recebessem um comando para fazê-lo.
— Pequenos... — o homem, tomado por luxúria, comentou e, comprovando o comentário que fez quase engoliu um dos montes. Podiam não ter um tamanho exuberante, todavia não era segredo o como Topázio os apreciava. Após o pequeno relevo escorregar de seus lábios, a mão dele, incontida, espalmou-se abaixo do ventre de Aoi, meticulosamente no encaixe. — Uma menina, só uma menina... — a outra, caminhou pelo rostinho inocente, até que o dedo indicador parasse sobre os lábios úmidos e os circundasse — Tão inocente... — pressionou o dedo sobre cada lábio, ela, em resposta, beijou-o como se a boca dele beijasse.
Impaciente e afoito por satisfazer-se, cessou o toque que a estimulava para livrar-se do cinto e abrir o zíper da calça. Aoi, conhecedora do procedimento, esticou os braços acima da cabeça e esperou o seu Dono fazer como sempre fazia: amarrar-lhe os punhos à cabeceira com o acessório, era de praxe. Com as calças e a roupa de baixo arriadas até o joelho, o membro rijo apontou seu alvo, com uma mão Topázio manteve-o ereto, firme à direção que almejava. Violento como ele era, intenso e cheio de vontades, forçou a entrada de uma só vez, rosnou como um leão no cio, os fios dourados caíram como raios solares sobre os ombros, com as mãos desgovernadas quase partiu os quadris de Aoi ao meio, a pobrezinha gritou de dor, ele não parou. Moveu-se dentro dela, frenético, abrindo caminho, expandindo as paredes apertadas e úmidas, avermelhando-as. O falo pulsante e faminto achatou-se ao fim do canal, não se importava em saber que não havia mais por onde passar, forçava a passagem da mesma forma.
— Mestre, mestre! — ela o chamou, tentando abrandá-lo. Os dedos dele apertaram-lhe o pescoço surrupiando-lhe o ar. Os olhos azuis, apavorados, arregalaram-se, as pupilas dilataram-se e a pobrezinha abriu a boca, a voz não saiu, abafada pelo aperto na garganta. Os dedos impetuosos marcaram-lhe a pele. As mãos atadas esforçavam-se, instintivas, para se soltarem.
Ele, irracional, prosseguiu. Os olhos devassos não enxergavam o sofrimento da menina. Ao invés das próprias mãos ele via uma coleira negra, no lugar do cinto, correntes. Conforme introduzia-se fundo, veloz, voraz e algoz, as imagens diante de si destoavam. No lugar do azul dos cabelos, passava a enxergar verde-escuro, no lugar de fios curtos, enxergava longos e cheios, a pele leitosa da vítima transmutava-se para morena, lustrosa, e os seios pequeninos preenchiam-se de carne. Assim, ele foi ao delírio, numa última estocada cruel, o homem dos olhos de Aoi, deleitado, insano, proferiu:
— Jade! — junto ao nome, o gozo espesso e abundante espirrou-se no interior da serva. Os dedos tensos, fechados no pescoço delicado, abriram-se como pétalas, um a um. Imediatamente a menina deu uma longa puxada de ar e tossiu. Topázio a desamarrou, repentinamente desinteressado rolou para o outro lado da cama, de costas para a garota.
Aoi sentou-se ainda a tossir, passou a mão pela garganta cheia de hematomas e olhou-o enquanto chorava copiosamente. Era comum ele ser violento, mas não como fora dessa vez. Abraçando a si própria, desconsolada, fitava-o na expectativa de que ele ao menos se voltasse para olhá-la, pela demora considerou que ele não o faria. Calada, ainda a tremer, deitou-se e o abraçou pelas costas, acomodou a face às costas, entre um músculo e outro.
— Eu te amo, mestre Topázio. — a voz rasgou-se, dolorida, ainda sem ar.
O cavaleiro, distraído, sequer ouviu, a mente vagava por terras distantes, por memórias escondidas... de um tempo em que seu pai, o pomposo Aurum, chegou ao antigo lar com um presente para ele: uma menina acorrentada cujos olhos eram tão selvagens quanto os de uma fera.
...
— Aqui estamos. — do outro lado do planeta, a guerreira com quem Topázio fantasiara parou diante à montanha.
— Onde ficam as residências? — Diamante perguntou.
Jade apontou para o enorme monte de pedra, seu dedo veio de baixo até o topo, onde nuvens cinzentas cobriam-no como um manto, luzes verdes e estrondos alternavam-se, embora naquele instante raio algum caísse. De perto, era possível ver uma estrada estreita contornando a montanha, e também, pequenas grutas espalhadas pelos trechos onde havia bastante espaço entre uma rachadura e outra.
— Mas como as pessoas poderiam viver na própria montanha sem serem incineradas ou eletrocutadas? — surpreso, indagou.
— As pessoas descobriram formas de sobreviver. Quer dizer, ao menos as pessoas que não eram imunes a esses raios.
— Existe quem seja imune a eles? — aproximou-se, curioso.
Jade respondeu com um sorriso confiante.
— Você... — fitou-a admirado.
— Vamos, príncipe! Não devemos demorar ou Akai quebrará tudo dentro do óvni, aquela danada! — saltou, elegante, tão alto que pousou sobre uma rocha no início da grande ladeira. Lá de cima continuou: — Sugiro que nos teletransportemos para cada gruta, assim poupamos tempo. Não quero retornar ao palácio com um príncipe chamuscado!
— Você é audaciosa demais para o meu gosto. — embora a tenha repreendido em palavras, acabou por seguir a recomendação, teletransportou-se direto à primeira gruta.
Um buraco escuro e úmido – era a definição perfeita para o cubículo em que estavam. Diamante teve de se curvar para não bater a cabeça no teto, ouvia nitidamente o som de rajadas presas no interior de Viridis Abyss. Perguntava-se como alguém conseguiria viver ali dentro, não havia móveis, leito, nada, apenas correntes – rolos e mais rolos de correntes negras, grossas, pesadas – esparramadas pelo chão desnivelado e escorregadio. O príncipe tropeçou em algo, seus reflexos rápidos evitaram uma queda, apoiou-se às paredes estreitas, alarmado. Seu sexto sentido lhe advertia que, não importava o que fosse, o objeto no qual tropeçou não deveria ser nada agradável. Respirou fundo, baixou o olhar vagarosamente e deu-se por certo. Era um osso, precisamente um fêmur. Diamante passou as duas mãos pelo rosto, cobriu a boca com uma e apoiou a testa à parede à procura de ar e de serenidade.
— Como eu imaginava, não creio que as outras estarão diferentes dessa aqui — adiante, Jade encontrou um crânio perdido na penumbra, pegou-o em mãos e ficou encarando-o. — Venha, vamos continuar a jornada. — Segurou-lhe o braço como auxílio. Diamante recusou a ajuda e saiu dali por si próprio.
Do lado de fora, o irmão de Saphiro sentiu-se confortável para respirar. Seguiu a estrada para cima, estava ligeiramente tonto e por essa causa era complicado usar os poderes telecinéticos. Ligeiro, subiu o suficiente para se "agraciar" com a vista, mais ampla de cima. Negritude total, uma noite eterna. As fracas luzes do vilarejo em que esteve reluziam isoladas, de modo cruel alimentavam a fantasia de que havia vida onde só existia o rastro da fome. De resto, o planeta era uma imensidão fria repleta de nada. Diamante não acreditava que do outro lado da montanha seria muito diferente.
Parou bruscamente, agora diante de uma ossada perfeita caída à ladeira, um braço estava esticado como se, em algum momento, aquele humanoide pedira socorro. No pescoço, uma coleira de metal atada à uma corrente. O Príncipe Branco, mais pálido do que o de costume, elevou o olhar e em meio a névoa, descobriu uma fila de esqueletos como aquele jogados ao chão, abandonados, condenados. Todos ligados por correntes, como se fossem animais cativos, não só os pescoços, mas braços e pernas estavam presos. Um dia todas aquelas pessoas foram arrastadas, seus corpos tiveram de suportar o peso de bolas de aço, certamente atadas aos tornozelos para que elas não fugissem, e ainda assim, conseguiram chegar à metade da trilha da ladeira. O quão devastador não fora o desespero quando perceberam que todos seus esforços foram em vão?
Atentou-se à Jade que tomara a frente. De cócoras, a mulher analisava cada triste caveira. Algumas correntes ela partiu com a lâmina da lança, e se houvesse tempo liquidaria com todas, certamente.
— Agora todos são livres, pelo menos. — visivelmente, ela tentava se confortar.
— Então, eram todos escravos? — aproximou-se da amazona.
— Com certeza eram. – ergueu-se, retomando a postura destemida. — Mesmo a senhorita Ametista tendo abolido a escravidão quando subiu ao trono... Eles devem ter sido os primeiros a morrer quando o planeta começou a ficar sem recursos. — observou.
— Você disse que essa é sua terra natal, então você...
— Sim, eu era uma escrava. — concluiu por ele, o rancor expunha-se no timbre grave. — E teria sido para o resto da vida, se senhorita Ametista não tivesse subido ao trono.
— Quando eu reinei isso não existia em Nemesis. — indignou-se.
— Mas você morreu, príncipe. E com você, muitas coisas se foram por aqui. — bateu a lâmina afiada da lança no piso com tamanha força que criou faísca —Vamos às grutas, já deu tempo o suficiente para você se recuperar do baque.
O importante era tentar, ao menos, encontrar um sobrevivente. Por esse motivo, Diamante seguiu Jade, a dupla usou-se do teletransporte vezes seguidas, averiguaram diversas grutas, deram a volta na montanha. Era como um interminável Déjà Vu, um desagradável e monstruoso Déjà Vu. Esqueletos sentados, deitados, despedaçados, aos montes, quanto mais alto chegavam, mais caveiras esquecidas pelo tempo encontravam. O cheiro de morte, mais uma vez, pairava pelo ar. Diamante, exausto de tamanha desgraça, jogou a capa para o lado e sentou-se sobre o chão. O cerco fechava-se à sua volta, a realidade era tão sórdida que, aos poucos, ele se esquecia de como era sonhar. A imagem da princesa por quem estava enamorado enevoava-se, um rancor antigo implorava por despertar. Temia que, se as descobertas persistissem em frustrá-lo, em poucos dias esquecer-se-ia do significado da felicidade, da plenitude e do amor. Temia que o ódio, mais uma vez, apossar-se-ia de seu âmago. Ele se punia nas divagações, convencia-se de que, por mais doloroso que fosse, não se permitiria cair nas mãos do ódio e da vingança como no passado... A menos que nada mais lhe restasse.
"Crystal, dê-me forças..." — rogou, refazendo os traços puros e delicados da amada deixada em outras terras. Por ela, sacrificaria tudo o que tinha, mas não se renderia às Trevas que espreitavam o seu coração. Enquanto tivesse o amor da princesa, longe ou perto, ele teria a si próprio.
— Se o senhor resolver se acomodar e se sentar toda a vez que pararmos em uma gruta, não teremos tempo para olhar todas. A não ser que queira passar a noite e metade do dia seguinte preso em uma delas, a espera de que os raios resolvam descansar. Temos pouco tempo! — Jade bufou, impaciente.
— Essas pessoas todas, assim como você, eram imunes aos raios? — falou com dificuldade, o ar parecia rarefeito. Estavam quase no ápice do grande abismo.
— Nem todas, eu já disse.
— Então, como viviam aqui?!
— Os raios não atingem o interior da montanha. Há um campo de energia invisível que nos protege, vou mostrar. — Jade saiu da gruta, parou em frente à entrada, girou a lança em mãos como se fosse uma hélice, quanto mais rápido o objeto girava, uma luz verde o contornava, e num repente, na ponta da lâmina um pequeno raio verde se formou. Assim que pronto e intensamente luminoso, Jade o lançou certeiro na direção de Diamante. Ele, rápido, ergueu-se e protegeu-se com os braços jurando que a puniria pela insolência, no entanto, o raio ficou preso em uma espécie de campo de energia transparente à entrada e ali se desfez. A guerreira, tranquila, deu de ombros. — Viu? — tornou ao local apertado e fúnebre. — De qualquer modo, para a nossa sorte, Onyx pode ser irritante, mas tem ideias boas. — tirou do cinturão da armadura uma pequena caixa, abriu-a por um botão e revelou o seu conteúdo: quadro pílulas amarelas. — Temos jantar e café da manhã, pelo menos.
— Como? — pegou uma das pílulas entre os dedos.
— Sim, isso mesmo. Cada uma vale por uma refeição. São melhores do que a ração que costumamos comer, pena que não haja muito recurso para se produzir mais delas. Sinta-se honrado, pois consumiremos ao longo dessa viagem a maioria das que existem. — guardou os alimentos de volta onde estavam. — Vamos?
— Não... — encostou-se à parede, as costas deslizaram até que ele caiu sentado ao chão, pálido e apático — Estou muito cansado, preciso recuperar as forças. — não exagerava, a visão a esse ponto enegrecia e as imagens ficavam turvas. Não se recuperara do dia anterior, por mais forte que o seu corpo fosse, era a mente que lhe pregava peças. Acostumara-se com o ameno reino de cristal, levaria um tempo para readaptar-se a Nemesis. — Não fará mal passarmos a noite aqui, Akai pode se virar... — os olhos reviraram, e antes que percebesse, ele caiu no sono.
Jade se encarregou de deitá-lo e deixá-lo o mais confortável que pudesse.
— Não é por você, é pela senhorita Ametista. — justificou enquanto o olhava, atenta a cada detalhe – os cabelos quase brancos, a pele ebúrnea sem mancha alguma, os trajes tão ou mais brancos ainda, tudo nele era claro, limpo, imaculado. Jade encostou-se à parede oposta, certificando-se de que dali não o sujaria com suas mãos impuras. — O que você, criado em uma redoma, mimado por todos a sua volta, conhece sobre as mazelas do mundo? — ao fim da interrogação ela riu, lembrando-se de ter feito a mesma pergunta para outra pessoa, em outras circunstâncias, há muitos anos atrás...
— O que você, criado em uma redoma, mimado por todos a sua volta, conhece sobre as mazelas do mundo? — a menina questionou aos brados, quando o seu dono, um moleque um ano mais velho do que ela, gabou-se por ganhar a sua primeira armadura.
— Cale-se, escrava insolente! Você está aqui para me agradar e não para me questionar! — acertou-lhe uma bofetada tão forte que a derrubou sobre o piso, desnorteada — Eu, Topázio, serei o rei desse planeta, você verá! A minha família, por direito, é a mais próxima da linha de sucessão!
— Se houver justiça nesse mundo, você não será! — esfregou a mão pela boca, limpando o sangue que escorrera pelo canto.
— Levante-se! — ordenou, e ela, de birra, ficou onde estava. Em resposta, o menino a puxou pelos cabelos e a ergueu — Eu mandei levantar, escrava! Será que está na hora de pô-la na coleira?
— Vá à merda! — escarrou-lhe a face, destemida.
— Que tal uma mordaça? — a risada destoou da irritação costumeira em que ele se mostrava.
— Não tenho medo de você! — esmurrou-lhe os ombros, cravou as mãos nos cabelos dourados, ele retribuiu com socos e chutes. Assim eram os dias da infância de Jade, engalfinhando-se com o senhorio. Desde que chegara ao enorme palacete negro, propriedade de Aurum, a mão direita do general Garnet, a rotina era a mesma. Topázio a acordava na hora em que bem entendia, a puxava por uma coleira a seu bel prazer, montava em suas costas, arrancava-lhe os trapos que vestia, analisava-a como se fosse um animal, gabava-se ao contar quantas cicatrizes já lhe causara, e ela em retorno lembrava-o das surras que já lhe dera. Infelizmente para ela, a pele do menino mimado sarava bem mais rápido do que a dela, talvez por ser melhor alimentado e tratado.
Aos cinco anos de idade, de acordo com o que recordava, fora comprada na feira de Viridis Abyss pelo imponente Aurum. Fora uma época em que os escravos ficavam expostos em filas durante os poucos minutos em que o grande vulcão de raios dormia. Claro que, na maioria das vezes, boa parte dos condenados morria eletrocutada antes de conseguirem voltar a seus abrigos, as bolas de aço, pesadas como se fossem âncoras, amarradas aos tornozelos franzinos não permitiam que as pessoas corressem por suas vidas.
"Meu filho está precisando de um novo mimo" — esse fora o motivo para que Jade fosse transportada em uma jaula até o lar luxuoso de Topázio. À primeira vista, o menino parecia um anjo. As pedras amareladas cravadas na farda cor de marfim alumiavam-lhe o semblante misterioso. Os olhos dourados, assim que caíram sobre ela, não piscaram vez sequer, fitaram-na de cima a baixo, curiosos. Em silêncio, ele se aproximou, segurou o rosto de Jade com as duas mãos, desenhou-lhe o nariz arrebitado, os lábios carnudos e o queixo pequenino com os dedos. Apalpou o vestido imundo, e, por fim, tomou as madeixas esverdeadas nas mãos, puxou-as levemente, como se brincasse com fios de corda.
— Pequeno mestre, ela está imunda, não chegue tão perto! — uma mulher trajada em uniformes domésticos puxou-o, afastando-o de sua nova aquisição.
— Se derem banho nela, a sua pele continuará da mesma cor, não é? — perguntou ansioso.
— Querido, acho que essa coisinha que seu pai trouxe nasceu com esse defeito. — aquela governanta desprezou a pequena escrava assim que lhe pôs os olhos.
— Não, não é defeito. — insistiu em encarar seu presente, visivelmente animado — É uma linda selvagem. — sorriu perverso.
Desde então, os anos foram se passando como se cada um fosse um novo tipo de inferno, o menino era a imagem perfeita de um anjo caído. O físico bem talhado, o retrato da pureza, mas sua mente era maquiavélica. Como um ser que resplandecia como os raios de uma estrela poderia ser tão frio? Topázio deliciava-se com os gritos de Jade, possuía um chicote feito especialmente para golpeá-la, e não precisava de um motivo. Certos dias ele simplesmente a tirava da cela em que habitava, a despia e açoitava-lhe, atada por correntes à uma pilastra qualquer. Até que o sangue escorresse por cada canto e dobra do corpo feminino, ele não se saciava. Apenas com o vermelho a cobrir a miserável garota, o pequeno nobre parava e pregava os olhos nela em silêncio, e ela, mesmo degradada, jamais deixou de encará-lo raivosa. Sentia asco, raiva, ódio, sentia tudo, menos medo. Quando solitária na cela, ela juntava os cacos de sucatas, coisas que o pai do menino jogava no lixo, e com elas fez a sua primeira lança, também o seu primeiro brinquedo, aos dez anos de idade.
Aurum, observador, notou as habilidades de Jade para o combate. Intrigado, resolveu que seu filho, o perfeito militar, um prodígio de onze anos, treinasse com a menina, e ele, o patriarca, sentaria para assistir. É claro que Jade se animou, ela sempre quis mostrar o quão forte era, e a decisão do general acabou por alimentar na escravinha uma fantasia: fazer parte do exército,tornar-se um soldado, dar um jeito de libertar-se das amarras e afastar-se de Topázio.
No primeiro acampamento que fizeram, o seu dono fez questão de lhe surrupiar os sonhos ao bradar alto o suficiente para que todos ouvissem que ela era a sua escrava, e que o treinamento dela só acontecia porque isso o divertia. Naquele tempo, também, não havia espaço para mulheres no exército real. Nemesis ascendera como um mundo machista, afundado em injustiças sociais. Entretanto, num dia como outro qualquer, depois de dois anos de acampamento, enquanto treinavam, Jade nocauteou Topázio com um único soco, faíscas verdes, bem sutis, contornaram-lhe as mãos sem que percebesse. Depois de inúmeras surras e humilhações, finalmente ela descobrira a força que tinha. Aurum, em rara vez, levantou-se da cadeira onde ficava sentado assistindo ao espetáculo de sangue. Ela esperou receber congratulações, todavia, ao invés disso, recebeu um golpe certeiro na nuca, constatou que a bainha da espada do general poderia, sim, ser muito pesada, a ponto de apagá-la.
Aos doze anos, depois do incidente, Jade foi mandada de volta à propriedade, Aurum decidiu torná-la em escrava doméstica. O maldito uniu o útil ao agradável, pois era uma época em que, até que enfim, Garnet conseguira reduzir as compras de escravos. Não se podia mais dar-se o luxo de possuir um escravo sem uma utilidade visível, como era o caso de Jade até então. Parecia que as surras seriam periódicas, ou seja, menos frequentes... Nada! Jade passou a apanhar por não saber cozinhar e fazer faxina, coisas as quais nunca aprendera por ter sido um brinquedinho a vida toda. Ao menos apanhava da governanta e não de Topázio, que estava distante, treinando para tornar-se um general como o pai, era tudo o que ela sabia. A paz – que não era bem paz – se findou antes de a pobre menina completar catorze anos de idade. A notícia do assassinato de Aurum proliferou-se como um vírus pelas redondezas, com ela Topázio, um rapaz alto e bem apessoado, forte, destemido, regressou ao palacete da família. Jade imaginava o quão raivoso ele deveria estar por Garnet ter sido eleito regente, e a morte prematura do pai seria o estopim. Recebeu-o preparada para o castigo. Ah, sim, esse dia era um dos mais frescos em suas lembranças.
Os metais das botas dele, arrastando-se pelo piso da entrada, provocaram-lhe arrepios. O ranger das enormes portas abrindo-se, a silhueta dele contra a luz artificial, proporcionaram sensações adversas na adolescente insegura. Ele, reluzindo em sua armadura, ela, inferiorizada pelo vestido cinzento, cheio de rasgos, e ainda assim, ele, a fitar-lhe o busto, reparou:
— Você cresceu. — o pai havia morrido, e ele parecia indiferente — Não vai me cumprimentar? — abriu os braços em um convite. Ela ficou onde estava, sem reação. Ele, impaciente, em passos fortes foi até a garota e a puxou abruptamente, prensando o corpo dela contra o dele, rijo. A respiração entrecortada de Topázio adentrou os ouvidos de Jade como um assovio — Senti a sua falta. — arrastou as luvas metálicas e frias pelas costas dela, pegou um bom punhado dos cabelos lisos, soltos em cascatas infindáveis, e cheirou-os. — É uma pena termos parado de treinar juntos, mas isso vai mudar — estava tudo quase agradável, até ele dizer: — minha escrava.
Ela mordeu o lábio inferior e travou ali, dura feito pedra, enquanto ele roçava a boca por sua bochecha quente, estremecido de uma forma que ela jamais presenciara. A governanta, pálida como um alabastro, retirou-se da sala. Naquele instante Topázio não avançou muito. Os acontecimentos inusitados vieram nos dias a seguir, quando os dois voltaram a treinar e a se engalfinhar como gato e rato. Era diferente da infância, ela notara. O rapaz ficava ofegante só de olhá-la com as roupas rasgadas e as vergonhas semiexpostas. Ela, por não conhecer muito das coisas, não compreendia bem. Via-o transpirar, descamisar-se, insistir em não usar armadura mesmo que isso acarretasse em ferir o corpo, pois a sua ferinha não era fácil, e, em segundos oportunos para ele, a imobilizava nos braços, mordia-lhe o pescoço e bochecha, enroscava as pernas nas dela e encaixava-se, por trás, roçando-se nos largos quadris da menina. O mais estranho dos fatos era: as atitudes esquisitas do carrasco proporcionavam-na certo tipo de prazer. Antes que pudesse se dar conta, Jade ansiava pelas horas que passaria com Topázio naquele joguinho sado masoquista, já não resistia ferozmente a ser levada aos aposentos do senhorio, arrastada por correntes. Sim, passaram a "treinar" no quarto do jovem cavaleiro. Não mais se retorciam a rolar no chão enquanto agrediam um ao outro. Brigavam sob os lençóis da cama, e em meio aos tapas, murros e chutes, acabavam por se tocar. Inevitável como certas coisas são, Topázio tomou coragem de realizar um desejo reprimido, e aproveitando-se de Jade acorrentada à cama, colou os lábios aos dela pela primeira vez. A surpresa foi tamanha que ela não reagiu, a apatia a consumiu e fê-la submeter-se ao beijo. A pobrezinha não sabia o que aquilo era, mas apreciou. O menino, trêmulo como um cão medroso, não fez nada a mais naquela ocasião, a soltou e mandou que voltasse para a jaula. Sem nada entender, pela primeira vez, obedeceu sem atacá-lo e ofendê-lo. Porém, à noite, enquanto dormia, viu-se surpreendida pelo peso dele sobre o seu no cárcere. Antes que pudesse gritar, a mão dele tapou-lhe a boca.
— Eu quero você, escrava. — confessou, arfando de ansiedade, estava completamente nu, o membro virgem latejava de vontade por de baixo da saia maltrapilha, esbarrava-se nas coxas roliças e as melava. Os olhos luxuriosos passeavam pelo corpo dela, contornado pela fraca iluminação. A mão deslizou da boca pelo pescoço, desceu até o decote e, desavergonhada, rasgou-lhe o vestido até que o corpo inteiro dela estivesse à mostra. Jade, por instinto, tentou empurrá-lo, antes que ela o afastasse Topázio atou os corpos, arrastou o peito delineado sobre os seios comprimidos, lambeu o canto da face morena e mordeu-lhe o queijo, depois o pescoço, e por último a orelha. Ela gemeu, pela primeira vez não de dor, mas de deleite: — Gosto quando você faz isso... — ele comentou, ainda mais excitado. Inexperiente, apressou-se em tentar invadi-la, ela resistiu, apertou a passagem. Ele insistiu, até rasgá-la e presenteá-la com um tipo de dor diferente, fazendo-a gritar e cravar as unhas nas costas dele. Sangue escorreu por entre as pernas da bela escrava e marcou a pele branca do senhor. As mordidas, os arranhões, os protestos não o fizeram parar, ele a possuiu animalesco, talvez mais do que ela conseguia ser quando brigavam. Os dedos bronzeados puxaram as madeixas douradas, o suor de um grudou-se ao do outro. Afim de calá-la, devorou-a num beijo e ela, para sua eterna vergonha, correspondeu.
Perderam a virgindade juntos. Seria romântico... se fosse a história de qualquer outro casal.
Obviamente, Topázio não se contentaria só com aquilo. No dia seguinte e em outros muitos que vieram, ele a buscava na jaula, e com o tempo, mesmo que ela não oferecesse muita resistência, ainda assim a punha na coleira, a arrastava por correntes, amarrava-a a cama e a despia, apalpava-lhe os seios cada vez mais crescidos, as nádegas redondas, as pernas firmes e torneadas, degustava de cada milímetro daquela pele da cor do pecado, brilhosa, escorregadia, perfeita aos seus olhos, cada cicatriz era um detalhe impecável, ele mantinha o hábito de contá-las. Quando a mocinha se atrevia a olhá-lo, via estampada à face dele a loucura.
O que no início fora prazeroso tornou-se mais doloroso do que as surras, pois era o interior do corpo dela que se rasgava, houve momentos em que ela acreditou que fosse se partir, e ainda assim, os grandes lábios transbordavam os líquidos que a denunciavam, a grande dor de sua vida era descobrir que ela gostava de ser violada por ele, fosse atada à cama, amordaçada, fosse amarrada a uma mesa, atirada ao chão, ou mesmo de pé, Jade caiu na teia a qual tanto temera: tornou-se submissa às vontades dele e o teria sido para o resto da vida, se Ametista não tivesse decretado o fim da escravidão quando assumiu o poder. Se fizera diferença o decreto ou não, jamais se poderia dizer. Àquela altura, parte da população mais pobre – escravos incluídos – já passava fome e não tinha forças para trabalhar. Que lucro havia em comprar um escravo sem saúde?
— Veja só, agora você é livre, sabia disso, escrava? — irônico, bateu palmas — O que fará? Tem talento para ser prostituta. — a mão dela acertou-o em cheio, deixando-lhe uma marca avermelhada no lado esquerdo da face.
— Não sou mais obrigada a ouvir esse tipo de ofensa! — de peito estufado, impôs-se — Não se incomode, hoje mesmo partirei!
— Que tal uma despedida digna? — agarrou-a pelas costas, recebeu uma cotovelada em resposta. — Será que todos esses anos não foram o suficiente para domesticá-la? — indagou irritado.
— Você nunca mais tocará um dedo sequer em mim, nunca mais! — a liberdade ajudou-a a recuperar o orgulho.
— O que fará de sua vida? — talvez, apenas talvez, por um breve segundo, ele tenha se mostrado preocupado com o destino de sua posse perdida.
— Não é assunto seu. — virou-se de costas, não possuía bagagem, apenas a roupa do corpo.
— Você morrerá de fome como todo o resto.
— É melhor morrer de fome do que viver ao seu lado.
— Ingrata. Tivemos bons momentos. — encostou a testa à cabeça esverdeada dela, as mãos apertaram-lhe a cintura fina. — Ao menos isso você deveria admitir.
— Como posso dizer que tive bons momentos com um homem que, a vida toda, nunca me chamou pelo nome? Irônico, não? Foi chamado para fazer parte da tropa real, e sua primeira missão é resgatar os escravos que ainda estão presos na montanha dos condenados. — riu-se — Adeus, Topázio. — arrancou as mãos dele de si, olhou-o uma última vez e saiu pela porta, deixando-o sozinho em seu pequeno palácio, onde nem a governanta aguentara se manter.
Dali em diante, antes de completar 18 anos de idade, Jade conseguiu tornar-se um soldado baixo. A princípio, Topázio tinha razão, ela teve de se prostituir para conseguir comprar uma armadura decente e também uma lança, essa parte da vida ela apagara, jamais contara a alguém. Em seguida, depois de treinar sozinha, arduamente, em um deserto qualquer, e descobrir o seu poder – de nascença – adormecido, teve de se fingir de homem para ganhar o respeito dos colegas e subir de posto, não desejaria fazer parte do exército civil para sempre. O sonho de todos os que se alistavam era fazer parte da guarda real, a essa altura o seu antigo dono, por mérito e influência, já era general e exercia a sua autoridade. A amazona disfarçada de cavaleiro não poderia fingir ser o que não era para sempre, portanto desafiou o guerreiro mais forte de sua infantaria, o capitão da guarda civil, para um duelo. Nascida para a guerra, a vitória de Jade foi derradeira. Assim que o corpo de um homem de quase dois metros de altura tombou no chão da praça principal, ela tirou o capacete negro e revelou seus longos cabelos esverdeados presos em uma trança alta. Outros soldados quiseram desafiá-la, acabaram por formar uma fila de desmaiados em volta da robusta lutadora.
O talento era nato, e com a possibilidade de um plano de vingança contra a Terra, seriam necessárias para Nemesis as forças de Jade. Por este motivo, foi indicada à guarda real, e desse modo, acabou por reencontrar Topázio.
— Eu sempre soube que era forte, — ele admitiu — Parabéns por ascender e conseguir fazer parte do exército da cidade, mas aqui não há lugar para você. — o tom teatral do homem era de causar calafrios de tamanha raiva que proporcionava à amazona.
— Não entendo, senhor. — assim como ele, fingia-se cordial por questões de formalidade — Como você mesmo pode ver, tenho uma carta de indicação, por que não haveria lugar para mim se há planos de ataque à Terra? Qualquer colaboração deveria ser bem recebida.
— Lamento, mas não aceitamos mulheres na tropa. — cruzou os braços, encarando-a. Sorriu diante da expressão de descontentamento e indignação da guerreira.
— Meu gênero não me desqualifica, você sabe bem disso! — aumentou o tom de voz, não mais conseguindo fingir polidez.
— Seu gênero a torna fraca. — deu-lhe as costas.
— Fraca? Fui uma das únicas pessoas que conseguiram derrubar você! Pois bem, mostrarei quem é a fraca! — girou a lança em mãos, furiosa, os raios que se formaram no ápice da lâmina refletiram em seus olhos irados, antes que qualquer soldado pudesse tentar impedi-la, Topázio fê-los parar em um simples gesticular com as mãos, e calmo, virou-se de frente para ela, esperando por seu ataque. Para a surpresa de Jade, ele também desenvolvera poder, nas mãos fortes e cruéis uma espada de luz se formou, era como uma pequena amostra de um raio solar, de onde Jade estava podia sentir o calor emanar intenso. Não se permitiu intimidar e investiu contra o oponente. Para a surpresa de ambos, seus ataques se igualaram, não conseguiram atingir um ao outro, foram repelidos ao mesmo tempo assim que os raios verdes encontraram-se com o dourado ardente. Topázio caiu de joelhos em uma extremidade, Jade rolou para longe em outra. Os poucos soldados que serviam à princesa ficaram boquiabertos, observaram calados os dois levantarem-se. Ela, orgulhosa, frisou: — Eu quero fazer parte do exército real!
— Não irá. —Topázio insistiu — Não enquanto for uma mulher.
— Isso é um absurdo! Não ficará assim! — bateu a sua lança no chão, e no estado dantesco em que se encontrava, arrastou a lâmina pelo piso enquanto saía, deixando o seu rastro de destruição ao deixar a sala de guerra. Enquanto passava pelos corredores, ao invés de procurar a saída procurou pelo salão real às escondidas. Sagaz, encontrou o lugar onde Ametista se acomodava acompanhada de Quartzy e não pensou meia vez antes de adentrá-lo e expor sua situação. A soberana era exatamente como imaginara, justa e bondosa, a partir do momento em que teve o aval da princesa para tornar-se parte da guarda, prometeu a sua lealdade à ela tal qual um verdadeiro cavaleiro promete ao rei de sua estima. Topázio teve que engoli-la, no fim das contas. A reação do cavaleiro foi simples: fingiu jamais tê-la conhecido, e não tão depois de ela entrar para a guarda, sabe-se lá de onde ele arrumou as duas serviçais, as irmãs Agatha.
— Correntes... — ela pegou uma em mãos e apertou-a entre os dedos — Nunca mais. — sentiu a luminosidade lá fora, contemplou o espetáculo de raios cintilantes e estrondosos. Fitou o príncipe e impressionou-se por nem mesmo os fortes brados das luzes mortíferas despertarem-no. — Senhorita Ametista... — viu-a através dele e sorriu leve, livre — Você deve saber o que faz. — fechou os olhos e se permitiu descansar, sem incomodar-se com os restos mortais espalhados pela pequena caverna.
...
— Jade! — assim que as portas se fecharam com a partida rumo à liberdade, ele chamou por seu nome, mas ela não ouvira. Percebendo que ela se fora para nunca mais voltar, ele perdeu o governo sobre os próprios atos, quebrou todos os objetos de valor que encontrava pela frente, jogou todas as luminárias pelo chão, arrancou os lustres do teto, e acabou por provocar um incêndio na própria residência. O fogo rodeou-o como se desejasse afagá-lo, e então ele percebeu que tudo o que iluminava se atraía por ele, embora por dentro ele fosse feito somente de escuridão. Nas mãos, concentrou a matéria quente e assim, forjou a sua espada, ao menos isso ele poderia agradecer a ela, porque de resto, a amaldiçoara para sempre, por ter cuspido no prato que comera e na cama que dividira com ele, por tê-lo abandonado. Como vingança, ele fez questão de tomar frente da questão pós-escravatura, e pelas costas de Ametista, deixou que todos os ex-escravos definhassem presos à Viridis Abyss, embora tivesse prometido à soberana fazer o resgate. Ele, desprovido de piedade, assistiu os seres franzinos, fracos pela falta de alimento, tentarem sair da montanha e morrerem atingidos pelos raios. Os poucos que eram imunes à eletricidade, provavelmente os parentes de Jade, morreram de fome e sede e ele assistiu sem fazer nada para interceder. Em cada uma daquelas criaturas condenadas, a via, e quando um moribundo morria em sofrimento, era como se um pedaço de Jade ele destruísse. — Jade... — sussurrou alucinado antes de abandonar a montanha dos condenados à própria sorte. Quanto mais raiva sentia, mais quente a carne ficava, como se desde a partida dela seu corpo estivesse em chamas. Ah, sim, assim era! A vida dele era uma interminável fogueira da qual ele não poderia escapar.
— Senhor Topázio? — a voz meiga o despertou — O senhor está bem? — a mãozinha afagava-lhe o ombro.
— O que foi Aoi? — despertou e virou-se para ela confuso.
— O senhor estava gritando coisas estranhas enquanto dormia... — aninhou-se no peito dele, preocupada.
— Foi só um sonho ruim. — fixou o olhar no teto, distante dali, preso na lembrança de uma época doentia a qual ele chamava de "feliz" em seu íntimo, e que sentia falta.
Continua...
Fale com o autor