A Minha Queda Será Por Você
14 Acaso ou destino?
Notas iniciais
— Que beleza, e eu estava tão empolgada para ir à cidade visitar lojas e estilistas... — Reiko suspirou, observando entediada a tempestade através da janela da grande biblioteca.
— Imagine eu! Mizumi ia me ajudar a mandar fazer um vestido perfeito para o meu corpo, assim eu teria a arma fatal para conquistar o mais novinho dos Black Moon... — Olho de Peixe falava como se o fim do mundo estivesse próximo, e para completar o tom teatral, jogou-se sobre grandes almofadas coloridas que ficavam no centro da sala de livros, forjando uma morte épica.
— Ai, vocês dois, parem com isso! — Marine fechou o livro que estava lendo e o colocou sobre a mesa — Olho de Peixe, desista! Saphiro não vai olhar para você, ele já me parece muito bem resolvido com a Hina, melhor esperar que apareça um cara com os mesmos, como posso dizer, “gostos” que você. — não conseguiu evitar um riso.
— Ei, sou mais bonito do que muitas mulheres que tem por aí! — disse abraçado a uma almofada.
— Podemos muito bem ir amanhã à cidade ver esses vestidos, ninguém morrerá por causa disso. — Marine pegou de volta o livro, o abriu na página em que estava e continuou a leitura.
— E aí, quem sabe, você não pode me ajudar a escolher um vestido que me torne irresistível aos olhos do Tigrinho, hum? — Reiko foi até Olho de Peixe e sentou-se ao lado dele em outra almofada. — Hina se arranjando com Saphiro, a princesa com certeza tem algo com o tal de Diamante, e eu aqui nessa solidão!
— Eu agradeceria muito! — Marine abriu um sorriso brincalhão, em seguida, voltou ao normal — Parece que não só eu reparei na princesa e no príncipe então... — disse pensativa.
— Qualquer um teria reparado! Viu como eles se olhavam? — Reiko, fã de uma boa fofoca, começou.
— Parem com isso vocês! — Olho de Peixe as interrompeu — É tudo imaginação, está mais do que na hora de as duas arrumarem um namorado para pararem de fazer mexericos sobre a vida dos outros! — falou alto, nervoso, uma palavra atropelava a outra.
— Fale baixo, estamos na biblioteca! — Marine advertiu.
— Peixinho, do jeito que fala, até parece que sabe de alguma coisa... — Reiko sorriu curiosa.
— É verdade! — Marine virou uma página do livro e jogou a mão por cima do papel, intimidando Peixe.
— E-estão enganadas, não sei de nada! — puxou uma das grandes almofadas e se cobriu com ela, como se pudesse se esconder dessa forma.
...
Sailor Saturno procurava por Crystal para mostrar-lhe o vestido separado para usar no baile. Nas andanças pelo palácio, foi até o cômodo onde o traje estava e se esbarrou com a grande amiga de infância, contemplando a bela peça de roupa.
— Majestade... — notou nos olhos de rubi um peso e se aproximou — O que há?
— Ah, Hotaru, que bom que está aqui — forjou um sorriso — Crystal ficará linda no dia da festa, não é mesmo? — passou a mão pelo tecido branco à sua frente. — Será que ficará feliz?
— Mas é claro que ficará! Será uma comemoração para ela, tenho certeza de que está muito animada! — falou alegre, na tentativa de contagiar a rainha.
— Sim... Quem sabe isso a aproxime de mim, não é mesmo?
— Por que está falando assim, Rini?
Ser chamada pelo primeiro nome a sensibilizou ainda mais. Enxugou os olhos, impedindo que gotículas de choro viessem abaixo, Hotaru percebeu a angústia da amiga e tocou seu ombro.
— O que houve no salão real? Vocês brigaram?
— Acho que magoei Crystal ao compará-la com minha mãe... As duas são tão parecidas, não só no aspecto, mas também no comportamento! Ás vezes é difícil diferenciar uma da outra... E se eu me sinto desse jeito, imagine o príncipe Diamante, Hotaru!
— Eu não o conheci no passado, mas sei de sua história com a rainha Serena. — a guerreira do silêncio passou a mão pelo queixo — Entendo sua preocupação como mãe, amiga Rini... Talvez com o tempo Crystal compreenda também, ela é muito jovem, ainda não aprendeu a ouvir a voz da razão.
— Fico pensando em como minha mãe agiria em meu lugar... Ela era tão bondosa, compreensiva... Lembro-me de que ela purificou com o cristal de prata cada uma das quatro Irmãs da Maldade... Elas também eram membros do clã Black Moon. Redimiram-se e viveram na Terra como humanas... Será que eu teria sido tão boa quanto mamãe foi? Essa compaixão, amor pelo próximo sem importar quem seja, sinto isso no coração de Crystal... — sorriu orgulhosa — Parece mais uma prova de que dentro dela Sailor Moon vive. Foi por isso que, mesmo não confiando, permiti Diamante viver aqui. Porque de algum modo, parece ser o que minha mãe teria feito, e eu só quero ser tão boa rainha quanto ela foi.
— Você é uma Tsukino! — Hotaru tocou os ombros de Rini novamente — O amor e a justiça correm em suas veias, não subestime isso! — também sorriu — Não se martirize, fez o certo em deixar os irmãos ficarem. Pense que os integrantes do trio Amazonas também já foram vilões, mas no final tornaram-se aliados muito importantes e completamente leais a você e ao rei!
— É verdade. O problema é que Diamante foi apaixonado por minha mãe, e é possível que esteja interessado em Crystal, você sabe, justamente pelos traços em comum, e são tantos!
— Mas, Rini... Se Crystal carrega em si a alma de Serena, ela jamais terá olhos para outro homem que não seja aquele a quem amou em vidas passadas. Um elo milenar como esse não se rompe nunca! Por que se preocupa?
— Sailor Wind me disse que Crystal e Diamante trocam olhares e sorrisos... Eu deveria ter pedido para que o príncipe de Sedna viesse mais cedo, assim Diamante não teria chance alguma de se aproximar...
— Não importa quando esse príncipe de galáxias distantes chegue, sinto que no momento em que a princesa o vir, qualquer coisa que ela possa sentir pelo príncipe Black Moon sucumbirá imediatamente. Talvez Crystal alimente uma paixonite boba por Diamante, mas isso já aconteceu inclusive com sua mãe antes de a memória de princesa Serena despertar, não leu essa parte nos livros biográficos, majestade? — disse brincalhona.
— Opa... — Rini pôs uma mão sobre o rosto, sem jeito — Acho que meus estudos foram muito seletivos... — riu.
— Mas, que belo exemplo! E depois briga com a filha por ser relapsa com os estudos! — Hotaru gargalhou descontraída.
— Ah, mas eu sempre fui muito mais responsável do que minha mãe e Crystal! — cruzou os braços e empinou o nariz.
— Agora sim, essa é a Rini que eu conheço! — Saturno abraçou a amiga, que retribuiu imediatamente a demonstração de afeto. Juntas começaram a rir e enfim, o clima pesado se dissipou.
...
Embora os trovões ofuscassem a visão com sua intensa luz e o forte brado atordoasse a audição, não conseguiam intimidar aqueles que se refugiavam de baixo à grande árvore. As sensações eram tão intensas, assim como os batimentos cardíacos em ritmo de batuque. As mãos do príncipe subiram pelas costas da princesa, uma delas parou em sua nuca e a segurou, enquanto a outra deslizou pelo ombro da jovem, pela lateral do pescoço, e por fim voltou à cintura. Quis aproveitar ao máximo a sensação de beijá-la, degustou de seus lábios sugando o inferior, em seguida o superior. Ainda sentia a textura macia e o gosto adocicado. Provou enfim a maciez da língua com mais calma, passando o ápice da sua pelo dorso da que ansiara tanto. Crystal pôs-se na ponta dos pés e manteve o equilíbrio abraçando a nuca de seu querido nemesiano. Aquele calor esquisito que vinha em seus sonhos e surgiu mais cedo na estufa voltava — um forte arrepio pela espinha até a brecha entre as pernas. Tremeu, não mais pelo frio da tormenta, embora estivesse encharcada, mal sentia a água escorrer pelo corpo e grudar o tecido da roupa na pele.
Alguém havia de recuperar a sensatez, Diamante, em um enorme esforço, abriu os olhos e apartou-se do beijo para respirar. Ofegante, tornou a apoiar as mãos no tronco da árvore, as da princesa repousaram em seus ombros e neles fizeram tímidos afagos. O príncipe afastou do rosto dela alguns fios de cabelo, que molhados, ali se colaram. Passou a ponta dos dedos pelas maçãs quentes e rosadas e o indicador pelos lábios avermelhados de tantos beijos. Crystal, também quase sem ar, olhava-o ansiosa por continuidade, estava quase a pedir por isso.
—... O que fizemos? — ele falou baixo, como se fosse apenas para si mesmo. Baixou os olhos para a terra molhada e avistou os pés delicados de Crystal mergulhados na lama.
— Príncipe, por favor, não se arrependa! — Crystal suplicou, tomando de volta a atenção de os olhos dele aos seus — Por favor... — sussurrou e com uma mão, acariciou o rosto dele, frio, quase tão pálido quanto à lua.
— Perguntou-me a quem vi quando a beijei na estufa, lembra-se? — recobrou a seriedade, mas não totalmente a compostura.
— Isso não importa mais! — afobou-se — Foi tão bom, eu só gostaria que se repetisse mais e mais! — como sempre, falou por impulso, inevitavelmente corou depois.
— Mas...
— Não faça isso, por favor, príncipe! — o interrompeu — Eu... Eu não quero mais saber se você ainda sente algo por minha avó, ou se é ela quem vê quando está comigo... Doeria demais se fosse assim, então prefiro acreditar que não é, e se você não disser, posso criar as minhas próprias expectativas... — a voz estremeceu, ainda que ela sorrisse.
— Princesa, eu não quero magoá-la, e acredito que não queira me magoar também. Devemos ser sinceros um com o outro. — segurou o rosto dela com firmeza, induzindo-a a encará-lo. Perdeu o ar ao se deparar com aqueles olhos azuis esboçando fragilidade e um mar de sentimentos — Você me confunde... Ainda não sei bem o que sinto. Entende?
— Não importa... — disse chorosa, porém, ainda sorria — Pelo menos sente alguma coisa por mim, não é? E se sentir, quem sabe com o tempo eu não consiga fazê-lo gostar de mim por quem sou?
— Princesa... — respirou fundo — Não creio que eu seja o homem certo para você, penso que logo aparecerá aquele por quem se apaixonará verdadeiramente. — era tão duro falar, mas era preciso.
— Como posso sentir por alguém o que sinto por você? — uma pitada de indignação se formou na voz — Eu tenho certeza de que é você! Desde que o vi pela primeira vez senti algo tão forte... Só pode ser você!
— Princesa, eu não acho que...
— Disseram-me uma vez que um dia eu conheceria alguém, e que quando o visse, bastaria olhar em seus olhos para saber que ele... — corou novamente, necessitou respirar fundo duas vezes para continuar — que ele seria a pessoa certa!
“Endymion.” — Diamante deu um passo atrás, virou o rosto para o lado e esbarrou os olhos em pequenas flores perdidas em meio à relva molhada. Passou uma mão pelos cabelos molhados, depois pela testa, cobrindo momentaneamente a insígnia. Não, ela não era dele. Ele queria que fosse, era diferente... Todavia, o detestável fantasma do homem que fora o seu rival tomaria a princesa dele em algum momento, as palavras de Crystal eram prova disso.
— Príncipe? — Crystal se reaproximou e tocou-lhe a mão. — Eu disse algo errado? — perguntou preocupada.
— Você é jovem demais para ter certeza de que gosta realmente de alguém. — embora árduo fosse, era seco, não transpassava emoção alguma.
— Eu sei muito bem o que sinto! — apertou a mão dele.
— Melhor voltarmos ao palácio antes que fique doente. — tentou cortar o assunto.
— A lua atendeu ao meu pedido... — abriu um pequeno sorriso, mesmo aflita — Pedi tanto para encontrar o meu alguém especial, e no dia seguinte, você surgiu como um milagre! — teimosa, persistiu em segurar a mão dele.
— Uma coincidência! — alterou o tom de voz e soltou subitamente a mão.
Crystal se calou, um nó se formou na glote, pensou que engasgaria. Imediatamente, os olhos que brilhavam de paixão adquiriram a luz melancólica do pranto, uma lágrima após outra rolou, cerrou-os com força tentando conter o choro, entretanto o fracasso a dilacerou tanto quanto a dor. Apoiou-se sobre o tronco da árvore onde até pouco tempo parecera viver um sonho e cobriu o rosto com uma mão. Diamante foi até ela, por mais que desejasse consolá-la e desculpar-se por ter sido áspero, não desejava iludir-se. Uma parte de si queria acreditar em tudo o que ela dissera, inclusive sentia-se eufórico por finalmente ser correspondido, mas o lado racional o alertava: — “Isso não acabará bem, você não foi feito para ela”. — Suspirou para manter a calma, a envolveu nos braços e em uma velocidade incrível, transportou-se com a princesa ao quarto dela. Mal Crystal abriu os olhos e se deparou com um cenário completamente diferente, caiu sentada sobre a cama.
O vento dava pancadas nas janelas junto às fortes gotas de chuva, e esses eram os diálogos da natureza que falavam no lugar do casal. Os olhos púrpuras percorreram a silhueta fina e delicada da pobre menina, tão vulnerável. Vê-la à luz do luar que se formava, trêmula de frio e angústia, apertando os lençóis da cama, úmidos em contato ao seu corpo, acendia brevemente nele a sombra do homem que fora. No fundo desejava ignorar o possível retorno do rival, só que por mais que desejasse, não conseguiria ser o homem de antes sem sentir remorsos. Passou a mão pela cabeça de Crystal, enrolou os dedos nos cabelos encharcados pela chuva, e depois abandonou os fios para repousar sobre a bochecha dela, sua mão mais uma vez foi segurada pela da princesa.
— Não foi uma coincidência, eu sei disso. — fitou-o diretamente nos olhos.
O príncipe soltou a mão e fez questão de se afastar depressa, se continuasse ali por muito tempo acabaria cedendo ao que desejava fazer.
— Troque de roupa para não se resfriar... Depois nos falamos. — e assim ele se foi, sumiu como se fosse um fantasma, outra vez Crystal presenciou as suas habilidades de teletransporte.
No quarto que lhe fora reservado, Diamante finalmente sentiu-se livre para extravasar a agonia. Esmurrou a parede em frente à cama com tamanha força que nela provocou um pequeno rombo, de sua mão uma energia azul bem clara faiscou levemente. Andou de um lado para o outro, nunca tão ansioso para tomar uma taça de vinho como naquele instante.
— Eu a tive em meus braços, e poderia tê-la novamente se quisesse! — não havia perdido totalmente a identidade — Quem sabe essa não é a minha chance?
“Diamante, jamais terá o meu amor, muito menos usando esse truque sujo!” — Lembrou-se das palavras de Sailor Moon quando tentara beijá-la à força. Em seguida, outra vez a frase de Crystal — “Eu gosto de você!”.
O príncipe se sentou na cama, apoiou os braços sobre as pernas e com as mãos segurou a cabeça, que parecia dar voltas e latejar.
“Volte!” — é claro que para completar, a voz misteriosa mais uma vez vinha atormentá-lo. Rangeu os dentes para não liberar um grito e chamar a atenção de qualquer pessoa.
...
— Estamos ilhados. — Saphiro disse, enquanto olhava através do vidro do coreto a chuva caindo violentamente.
— Em algum momento ficarão preocupados conosco... — Hina disse acanhada.
— Eu poderia te levar rapidamente para o palácio, mas gostaria de ficar mais um tempo aqui com você... — ele falou, olhando a paisagem escurecida por nuvens negras e neblina.
Hina abaixou a cabeça, envergonhada. Os fios cor de fogo caíram por cima dos ombros e ela cruzou os dedos das mãos unidas sobre o colo. Saphiro se reaproximou, tomou a liberdade de sentar ao lado dela novamente naquele banco que mal cabia os quadris dos dois. De ombros colados, o Black Moon recordou nostálgico do abraço sutil que recebera numa tentativa de consolo da menina e também do dia que tornara à vida, concentrando-se na recordação era capaz de sentir o calor do colo de Hina. Sentia que podia confiar nela, fora tão leal contando a ele sobre seu irmão, jamais esqueceria a consideração que recebera.
— Estou muito feliz que meu irmão esteja aqui... — confessou — Mas, me preocupo muito com ele, sabe?
Era estranho tão de repente ouvir o rapaz puxar um assunto como aquele. Hina, cheia de cerimônias, nem mesmo sabia como responder, apenas acatou com a cabeça como se compreendesse.
— Acho que os sentimentos dele nos causarão problemas...
— Por quê? — sem olhá-lo ainda, perguntou.
— Meu irmão está interessado na princesa desse reino... Acredito que ele corra fortes apuros se deixar se levar por esse tipo de sentimento.
— Mas por que se ela também gosta dele? — soou automático, mal percebeu o que dissera.
— O quê? Como sabe disso? Ela contou algo a você? — em um pulo, Saphiro começou os questionamentos.
“Não vê, Hina? Estamos apaixonadas!” — inevitavelmente, lembrou-se das palavras animadas de Crystal. O coração subiu ao palato, imediatamente Hina tapou a boca com as duas mãos e encolheu-se.
— O que aconteceu, você está bem? — Saphiro arregalou os olhos, assustado. Tocou os ombros da menina tentando acalmá-la, só piorou tudo.
Hina se levantou em desespero, correu até a entrada do coreto, mas antes que escapasse e fosse pega pela chuva, Saphiro a segurou pelo braço e não permitiu que partisse.
— Espere! Explique agora o que falou, é muito importante para mim! — tratando-se de assunto sobre o irmão, o jovem Black Moon se transformava.
— É que... Isso é uma coisa da princesa que só eu sei... — disse insegura.
— Não é verdade, é um assunto do meu irmão também, logo, é de meu interesse!
—... Mas, é que não posso falar! — já estava quase gaguejando.
Sentiu as costas tocarem a parede fria de vidro, Saphiro a segurou pelos ombros e a encurralou lá. Hina perdeu o fôlego, a vermelhidão desapareceu para dar espaço à palidez. Os olhos intensamente verdes abriram-se mais que o normal, os cílios longos piscaram duas vezes, e mesmo Saphiro, ao se dar conta da precipitação de sua atitude, perdeu o jeito, porém, não a soltou. Respirou fundo, e falou mais calmo:
— Por favor, me conte! Isso não poderá ser segredo para sempre, pela felicidade de meu irmão eu preciso saber. Ainda hoje ele a beijou e disse não ter havido resistência.
— Beijaram-se? — Hina abriu um sorriso repentino — Eu não acredito, princesa Crystal deve estar muito feliz! —... E outra vez, falou mais do que devia.
— Então ela gosta mesmo do meu irmão? — as mãos de Saphiro escorregaram dos ombros para os braços de Hina e ali ficaram repousadas.
— S-sim... Ela contou isso só para mim, é segredo! — Hina mirou os olhos nos próprios pés.
— Por que escolheu você para guardar o segredo? — o nemesiano a fitou curioso.
O corpo estremeceu, sentiu a boca secar só em pensar que seus sentimentos poderiam ser revelados a qualquer momento. Sabia que Crystal havia lhe confiado o segredo porque ambas dividiam a mesma situação, não gostaria que Saphiro sequer desconfiasse disso. Virou o rosto e notou que a chuva afinara, pensou em sair correndo, mas não teve força de vontade para livrar-se das mãos que a seguravam, no fundo apreciava a maciez e calor das luvas azuis, os dedos firmes, e por mais que sentisse vertigens intensas quando entrava em contato com Saphiro, não queria repeli-lo.
— Eu não sei... — disse trêmula.
Saphiro a soltou devagar, recompondo-se. Abriu um pequeno sorriso de gratidão, sentiu vontade de abraçá-la só para poder desfrutar da sensação de calor humano outra vez, contudo, mesmo não sendo tão tímido quanto Hina, tinha as suas próprias limitações.
— É melhor aproveitarmos para voltar ao palácio agora que a chuva deu uma trégua, não é mesmo? Desculpe-me pelo tom.
— Ah, tudo bem... Você se preocupa com seu irmão, n e? — sorriu.
Se Hina não mentira sobre o retorno de seu irmão, não devia estar mentindo sobre os sentimentos da princesa, assim Saphiro pensava. Estava feliz e ao mesmo tempo um pouco preocupado, enquanto andava ao lado de sua companhia favorita, refletia se devia conversar sobre isso com Diamante ou deixá-lo resolver o assunto sozinho.
...
Olho de Tigre e Águia jogavam bilhar em um salão de jogos do palácio preparado para eles. Tigre estava vários pontos à frente, enquanto faltavam apenas três bolas ímpares para mirar no buraco, Águia se via com cinco pares.
— O que há, Águia? Está muito distraído hoje, nem tem graça jogar com você! — o louro riu, apoiando o taco em um ombro.
— Azar no jogo, sorte no amor... — o outro sorriu, cheio de si.
— O que quer dizer com isso? — Tigre piscou os olhos e entortou os lábios.
— Meu caro Tigre, se eu te contar, promete que não ficará muito triste? — debochou, enquanto com as mãos espalhava as bolas pela mesa para poder se sentar sobre ela.
— Ei, que papo é esse? — o felino girou o taco na mão.
— Sailor Ocean simplesmente me convidou para passar a noite com ela, disse que deixará a porta do quarto aberta e ficará à minha espera — jogou os cabelos para trás, vaidoso.
— E você acreditou nesse convite? — Tigre gargalhou — Só pode ser uma cilada!
— É mesmo? E será que o beijo que ela me roubou outro dia foi uma pegadinha também? —Águia pôs o dedo indicador sob o queixo, fingindo estar confuso.
— Como é? — de orgulho ferido, Olho de Tigre acabou partindo o taco ao meio com as duas mãos — Está mentindo, eu não acredito!
— Ei, vocês dois, parem com isso! — Olho de Peixe entrou na sala de jogos a pentear os cabelos que no momento estavam soltos. — Olho de Tigre, vá lá fora, tem visita para você!
O belo e galante homem de cabelos dourados abriu um sorriso esperançoso, fitou Olho de Águia em ar de triunfo e andou até a porta. Abriu-a animado e em tom firme e sedutor começou:
— Eu sabia que era... — esperava a jovem temperamental por quem tanto se interessava, mas o desapontamento ficou estampado em seus olhos quando ao invés de enxergar cabelos claros, viu fios negros e olhos púrpuras à sua espera — Você?
— Será que podemos conversar um pouco? — Reiko sorriu, com as mãos para trás.
Desconfiado, Tigre assentiu, mas procurou manter distância enquanto começava a caminhar ao lado dela pelo corredor.
— O que você quer? — perguntou, enquanto colocava as mãos dentro do bolso da farda branca.
— Ah, só queria pedir desculpas por ter sido tão precipitada aquele dia... Imagino o que deve estar pensando de mim — deu uma risada — Mas sabe, foi meio irresistível... Você é muito atraente!
De ego massageado, Tigre coçou a nuca, um pouco sem jeito e ao mesmo tempo satisfeito. Reiko sorria descontraída, apreciava aquele modo despojado dele.
— Obrigado... — ele olhou melhor a garota, passou os olhos não só pelo rostinho bonito, mas pelo corpo que para idade tão prematura, até que não deixava nada a desejar. — Você também é bem bonitinha! — sempre gostou de garotas na faixa dos dezesseis anos de idade.
— Está sabendo que vai rolar um baile daqui a um pouco mais de uma semana, não é? —esticando bem as pernas antes de dar cada passo, ela começou.
— Ah sim, pois é... — ele olhou para frente, reparando a vastidão de portas e o quão longo era aquele corredor.
— Se por um acaso não conseguir convencer Marine de jeito nenhum a dançar uma valsa, pode dançar comigo, se quiser. — qualquer outra das mocinhas do palácio não teria sido tão direta quanto ela, Olho de Tigre quase deu um pulo.
— Poxa, achava que fazer esse tipo de convite fosse o papel de um homem! — estava perplexo.
— Ah! — Reiko esticou os braços para o alto e alongou cada um — Eu não vou perder o meu tempo esperando o príncipe encantado vir até mim, se eu o quero tanto, vou atrás dele! — deu uma piscadela e, em mais uma atitude sem vergonha, encostou a cabeça no ombro de Olho de Tigre.
— E-está bem, mas com uma condição! — ficou duro como uma estátua, temendo que em um triz a jovenzinha de cabelos noturnos se pendurasse nele como da outra vez — Não me agarre do nada!
— Está bem, mas com uma condição. — desapoiou a cabeça e a ergueu para poder olhá-lo diretamente — Você pode e deve me agarrar se quiser! — não conteve mais um de seus risinhos sapecas.
Olho de Tigre, embora desajeitado, também riu. Até que seria uma boa escolha investir em Reiko, ele pensou... E aí Marine surgiu em seus pensamentos com os cabelos de ouro ondulando conforme a brisa... Fez uma careta, insatisfeito. Reiko era interessante, mas queria mesmo a que o rejeitava.
“Olho de Tigre, você está mais para um Olho de Jumento...” — pensava enquanto via Reiko se afastar e acenar.
— Então estamos combinados assim, Tigrinho! — disse, já de longe, e com um último aceno o deixou sozinho.
...
Algumas horas se passaram e enfim as nuvens se afastaram para dar total espaço à lua quase cheia no céu, o seu brilho não era o suficiente para aquecer o coração da princesa essa noite. Crystal passara quase uma hora imersa na enorme banheira a pensar em tudo o que vivera em um só dia. Como poderia um sonho se realizar e desmanchar em tão pouco tempo? Foi até o quarto a pentear os longos cabelos ainda soltos, esparramados pelas costas e ombros. Viu aquela lua sádica, que parecia rir de sua tristeza, e fechou as cortinas. Jogou-se e mergulhou nos lençóis da cama, encolheu-se em posição fetal e passou os dedos pelos lábios, sentiu-os úmidos, aquecidos pelos beijos de momentos atrás. Buscava selecionar as lembranças para que pensasse apenas naquelas que a confortavam, mas não importava o quanto tentasse, a última coisa de que se lembrava sempre era a palavra preenchida por secura:
— Coincidência... — sussurrou — Como ele pode pensar assim? Como algo que mudou a minha vida poderia ter sido mera coincidência? Como um simples acaso faria meu coração palpitar desse jeito? — pôs a mão no peito, tentando contê-lo.
Sinos badalaram indicando que o jantar fora posto à mesa. No entanto, a princesa tão gulosa sequer desejava olhar para um prato de comida. Os moradores do palácio se prepararam para a refeição, aos poucos a enorme mesa retangular era rodeada por pessoas. Quando todos já estavam a postos, em seus lugares, com talheres de prata em mãos, se deram conta da ausência de Crystal. Príncipe Diamante era sagaz no disfarce, se sentia alguma angústia ou tristeza, as guardava para dar espaço à indiferença no olhar, que nessa noite era vazio, inexpressivo. Somente o irmão caçula, por conhecê-lo profundamente, notou que algo não estava bem.
— Por que Crystal está demorando tanto a descer? — Rini olhou para os lados procurando a filha. — Alguém a viu? — ao mencionar “alguém” encarou Diamante sem cerimônias, o príncipe apenas retribuiu o olhar da mesma forma “amistosa” e nada respondeu.
— Verei se está no quarto dela, querida. — Helios se levantou calmo.
Saphiro olhava discretamente para o irmão, enquanto Olho de Peixe fazia o mesmo em total descaramento. Espremia os olhos, desconfiado, em uma tentativa frustrada de intimidar o príncipe. Era estranho que mais cedo Diamante e Crystal estivessem se beijando na estufa e agora a princesa não viesse à mesa comer, o que por sinal adorava fazer. Cruzou os braços, batucou os dedos neles, até que um cascudo de Olho de Tigre o fez parar com aquela cena.
— Pare com isso! Quer ser motivo de piada? — o louro sussurrou, envergonhado pela postura do companheiro.
...
Helios deu duas batidas na porta antes de abri-la devagar. Entrou no quarto e viu a filha jogada na cama como uma boneca de pano. Se aproximou, sentou ao lado de sua garotinha e passou a mão pela cabeça dela.
— O que aflige a minha princesinha? — terno como sempre, perguntou.
— Papai... — ergueu o olhar abatido à figura paterna e deitou a cabeça em seu colo — Desculpe, não sinto fome. Posso ficar aqui?
— Diga-me, o que tirou o seu apetite? — afagou os longos cabelos cor de chocolate, passou os dedos entre os fios penteando-os.
— Eu só estou cansada... — abriu um pequeno sorriso, tentando não parecer tão entristecida.
— Está magoada pelas coisas que sua mãe disse? — perguntou.
— Ah, não... Já passou! — aninhou-se um pouco mais naquele colinho.
— Tem certeza, minha filha? — estava preocupado.
— Sim... — Crystal sentou na cama e roçou os olhos com as mãos.
— Olhe para seu pai. — Helios segurou o queixo dela — Você é única, querida. Não há ninguém como você. — sorriu, transmitindo toda a serenidade e bondade que só ele possuía.
— Obrigada, papai... — ainda assim, não parecera o suficiente para animá-la.
— Escute, você pode ser muito parecida com a sua avó, mas esse coração aí dentro é só seu, e você manda nele, minha filha. E também, aqui. — Helios tocou a ponta do dedo indicador na testa de Crystal, em seguida depositou um beijo ali. — Não existe um ser humano igual a outro, todos somos únicos e insubstituíveis.
— Mas todos pensam que sou a vovó e gostam de mim por isso, inclusive a mamãe. — Crystal baixou o rosto.
— Não é verdade, sua mãe a ama muito! Jamais conseguirá medir o tamanho do amor que Rini nutre por você. Ela só é superprotetora demais e se preocupa muito com o que possa acontecer, afinal, você é a nossa joia mais preciosa, Crystal. — levantou o rosto da filha — Ei, olhe para mim, vamos! Saiba que, mesmo que carregue em si a alma de rainha Serena, nessa vida você é Crystal, e deve viver como Crystal! Quem sabe todos não somos a reencarnação de alguém que fomos em outra vida, mas de que importa? Ninguém vive de passado, minha princesinha, e eu tenho certeza de que logo surgirá alguém muito especial que colocará um lindo sorriso nesse rostinho!
— Papai, você e mamãe já me falaram algumas vezes que eu encontraria esse alguém especial... Como podem ter tanta certeza, vocês conhecem essa pessoa?
— Minha pequena, tudo a seu tempo! — o pai expandiu o sorriso — Agora, tem certeza de que não quer jantar? Tem algumas comidas que você adora, e a sobremesa nem se fala!
— Tsc... Hoje não, papai. Estou um pouco indisposta para comer, mas obrigada, sinto-me melhor com a nossa conversa — o abraçou. — Gostaria de dormir um pouco, amanhã será um dia longo de estudos e também, preparativos para o baile...
— Bem, se quer assim, respeitarei a sua decisão, pedirei para que guardem um pedaço do bolo de morango que você tanto gosta — afagou a filha nos braços e depois, se levantou — Boa noite, princesinha. — deu um último sorriso de despedida.
O rei unicórnio apagou a luz para a sua frágil joia e fechou a porta, deixando-a a cargo da proteção dos anjos pintados na cúpula do teto, acima da cama. Retornou à espaçosa sala de jantar e anunciou que a filha não desceria. Disse que estava cansada e queria dormir, Rini evitou fazer muitas perguntas à frente das pessoas, de certo modo sentia-se culpada, acreditava que Crystal estava cabisbaixa por causa da discussão que ocorrera mais cedo. Não suspeitou mais do envolvimento de Diamante já que o que lhe fora passado era a alegria que a princesa sentia diante a presença dele. O príncipe da Lua Negra também não tinha fome, mas para não deixar suspeitas comeu junto aos outros tanto janta quanto sobremesa. Quando a refeição se findou, pensou em ir até o quarto da menina de sua estima, foi à porta, de lá perdeu a coragem de entrar e deu meia volta, pensava ser melhor deixar as coisas como estavam, não exatamente, queria pensar que era melhor assim. Foi até os aposentos reservados a ele e sentou em frente à janela, tinha uma vista perfeita dos jardins e da lua.
“A lua atendeu ao meu pedido... Pedi tanto para encontrar o meu alguém especial, e no dia seguinte, você surgiu como um milagre!” – balançou a cabeça, confuso – “Não é uma coincidência, eu sei disso.” – cada frase surgia unida à imagem dos olhos de Crystal na mente de Diamante, as duas belas gotas azuis pareciam desenhadas naquela lua cruel que brilhava no céu. – “Gosto de você!” – não aguentava mais relembrar a declaração e também, o abraço tão espontâneo, depois os beijos que por tanto tempo quis com a alma... Fechou as cortinas do quarto com tanta força que quase as arrancou. Estava tão nervoso que sentia calor, dessa vez resolveu despir-se de qualquer tipo de camisa, dormiria apenas com os trajes de baixo. Quem sabe assim se sentiria mais leve?
...
Olho de Águia se perfumara, abrira os três primeiros botões de seu uniforme nobre e nada vestia por baixo da camisa, expunha o abdome definido de propósito, dessa vez decidira ser ele o sedutor. Dobrara as mangas compridas na altura dos cotovelos. A alguns passos do seu destino parou, respirou fundo, e passou as mãos pelos cabelos. Não poderia demonstrar nervosismo ou euforia, mostraria à Sailor Ocean a sua arte de fazer galanteios e de como se tratar uma mulher como ela.
“Dessa vez, quem dominará a situação será eu!”
Finalmente, motivado pelos anseios e pensamentos libidinosos, terminou a caminhada e parou de frente à porta entreaberta, como a mulher havia prometido. Era possível enxergar uma tênue iluminação vindo de dentro, o aroma afrodisíaco de incensos era forte. Águia deu leves tapas no rosto sentindo-o corar. Engoliu seco, ajeitou a camisa e empurrou a porta, junto com ela inclinava a cabeça e o corpo para dentro do aposento.
— Não seja tímido! — a ouviu falar, deitada na cama, de pernas cruzadas. — Aproxime-se.
Engoliu mais uma boa dose de saliva quando a viu, trajando uma camisola azul claro de tecido tão fino e transparente que talvez fosse melhor estar despida. Algumas mechas de cabelo se esparramavam sobre os seios, e eram elas que camuflavam os mamilos rosados, o sexo de Mizumi era escondido por um pano rendado e fino, quase uma fita, só em pensar no que havia por debaixo o corpo todo de Olho de Águia enrijeceu... Conforme o homem ia para perto, ela erguia o corpo e ajoelhava-se a beira do colchão da cama, à espera. Expandiu o sorriso ao observar o nervosismo do ex-artista circense, que tremia visivelmente.
— Passarinho... — ela sussurrou enquanto passava a mão pelo queixo dele. — Achou que eu estava de brincadeira?
Olho de Águia não respondeu, fez tanta autopropaganda para si mesmo, e no final, não conseguia ser nada daquilo que prometera. Revirou os olhos ao sentir unhas delicadas roçarem em seu peito e descer por sua barriga. Tremia, e repentinamente, algo entre suas pernas latejava.
— Vem aqui! — Mizumi ordenou e o puxou para si. Caíram deitados na cama, e então, cedendo aos instintos, Olho de Águia quase arrancou os lábios da guardiã dos mares em um beijo. Enquanto dividiam aquele abraço colante e beijo feroz, uma sombra à porta os observava. Apenas um olho prateado se mostrava, nele se refletia o casal emaranhado sobre os lençóis.
— Obsceno... — a mulher sussurrou, sem transmitir emoção alguma. Fechou os olhos e se afastou, mas não foi rápida o suficiente para que Mizumi não a visse.
Enquanto Olho de Águia a amassava nos braços e lhe devorava o pescoço e colo, Mizumi olhava para a porta e sorria satisfeita.
Continua...
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