Notas iniciais
Bom, pessoal. Estou de volta! Quem leu as notas do último capítulo que postei deve lembrar que contei sobre uma pessoa importante para mim estar prestes a falecer. Era minha avó, ela tem uma cardiopatia gravíssima e quase partiu, o médico não deu mais do que uma semana de vida para ela ao sair do hospital. Então, aproveitei a greve da minha faculdade e vim vê-la... Por sorte, a vontade de viver da minha avó superou a doença e ela ainda está aqui com a gente, melhorando a cada dia, daqui a pouco estará andando sem andador, e as semanas que ela tinha podem ter se tornado em alguns anos mais, assim espero. Como estou na casa dela, passo maior parte do tempo ao seu lado, saio poucas vezes, entro no computador menos ainda. Então, apesar de ainda estar em greve (pela segunda vez durante a graduação), não sei se conseguirei postar tão rápido como postava nos últimos tempos. Agradeço muito a todos os que se preocuparam e me desejaram o melhor, agradeço aos que comentaram, pois os comentários são motivo de alegria sempre! Aqui segue o capítulo 44, como prometi, o último da fase I. E que venha a fase II (e última)! Boa leitura!

A Minha Queda Será por Você
Capítulo 44 – Abra o seu coração.

Um vazio se apossou de tudo, Crystal sentiu o corpo planar em um ambiente oco e escuro, o seu limbo. Despida, solitária, dormente, sentia apenas o coração pulsar dolorido e enquanto isso via os sonhos despedaçarem-se como vidro, as lascas caíam como raios e cortavam-lhe a alma, nada escorria.

... E então, uma força a sugou para baixo, a princesa não resistiu à queda. Não havia, contudo, chão para que ela se espatifasse. O Nada permanecia puxando-a a lugar algum. Quem prestaria socorro? Ninguém. Crystal caía, profundamente, dentro de si mesma. Tão perto e tão longe de tudo, perdeu-se.

“Estou morta”? — perguntou-se conformada e selou as longas pestanas.

Jamais a deixarei cair — ele disse, certa vez, e a princesa acreditou. No entanto, ela estava sucumbindo...

Quis chorar, não houve lágrimas, não ali. E, assim, a pergunta anterior tornou-se desejo, quis morrer...

Não! — a voz de Serena ecoou, o corpo de Crystal pairou novamente, abraçado pela aura cálida da antepassada — Não pode se entregar! Você precisa ser forte, e você é!

— Eu perdi a minha esperança... — sussurrou — Eu me perdi... — abraçou a si mesma — Tudo foi uma grande mentira, vovó... e eu vivi em função disso! Ele me traiu, tentou me matar, voltará a tentar, e eu o amo com todas as minhas forças! Como isso dói! — tremeu por inteiro — Como o amor machuca! — encolheu-se em posição fetal. — Eu não quero mais isso! Não posso ser a guardiã do amor com o meu aos frangalhos! Não quero!

Você não vê? — os braços espectrais envolveram-na com mais firmeza, os dedos gentis afagaram-lhe o cabelo, em instantes a nova princesa tornou-se uma criança embalada nos braços da antiga, e ela prosseguiu — O amor é maior do que tudo isso. O amor não se resume ao que os namorados sentem um pelo outro, lembra? Você viveu a experiência de um amor sublime naquele treinamento, graças a você suas amigas despertaram os poderes... O que seria delas sem você? Todos esses dias, esses meses, indo à escola, vocês construíram memórias, vocês se aproximaram, elas se importam! Seus pais se importam, Damien se importa, e Diamante... — pausou — vocês certamente vão se encontrar de novo! Lembre-se, você não é uma menina qualquer, é a guardiã do reino, muitas pessoas dependem de você!

— Você morreu por amor uma vez, não foi?

Não desejo para você mesmo destino que o meu.

— Mas, se eu sou você, talvez não haja escolha... — lamentou.

Não pense na morte, há pessoas que precisam de você. Como acha que estão seus pais, como acha que está Damien?

— Antigamente, eu olhava para Sailor Wind e sentia muito por ela ser tão rígida, hoje invejo a rigidez dela... tão decidida, tão forte, nunca está triste, nunca se lamenta, apenas segue em frente e faz o que precisa ser feito. E eu, por mais que prometa que não vou mais chorar, que serei firme, acabo sempre me lamentando no final, sem conseguir controlar meus sentimentos e magoo as pessoas que me querem bem... Me sinto tão inútil, vovó! Eu queria conseguir passar por cima de tudo isso, e se não conseguisse superar a tristeza, que pelo menos conseguisse fingir que está tudo bem para não preocupar ninguém, mas não, sempre acabo me entregando às dúvidas e ao medo! Naquele dia do treinamento, não sinto como se tivesse sido eu, mas sim você, quem invocou os dois cristais e os fundiu...

Dúvidas sempre existirão, nem sempre é possível ter certeza de tudo, Crystal! A vida é uma questão de escolhas, o que você precisa é fazer a escolha certa e não a mais fácil. Seria cômodo para você encerrar a sua vida aqui, não é mesmo? Se você acordar, sabe que terá de arcar com responsabilidades duras, e também com mais escolhas difíceis... Então, que escolha vai fazer? Abandonar as pessoas que te amam no momento em que elas mais precisam de você, ou acordar e enfrentar a realidade e o futuro?

— Não posso ser egoísta... — envergonhou-se — Não mais... Damien, ele deve estar sofrendo muito! O irmão dele estava muito mal, e agora eles não têm mais nada... Diamante fez isso! — os olhos tremeluziram tristes — E Hina, ela já sabe? Coitada! Ela ama tanto o Saphiro! — esfregou-os com as mãos.

Eles precisam de você, precisam da sua força. Não se esqueça do real significado de força...

— Eu sei, vovó. Mas...

Ninguém nesse reino possui maior senso de justiça, compaixão e amor pelo próximo do que você. Não importa o que aconteça, você é e será o exemplo que eles têm. Acorde, Crystal.

—... Acordar?

Acorde! — os olhos oceânicos da guerreira lunar brilharam como se fossem estrelas, o corpo de Crystal impulsionou-se com toda a força, os pulmões, fechados, dilataram-se e ela puxou longa dose de ar, como se acabasse de sair de dentro d’água.

— Ela acordou! — Rini, sentada ao pé da cama, gritou aliviada — Ela acordou! — e os entes queridos começaram a entrar no quarto, um a um, menos Damien.

—... Quê? — piscou os olhos, atordoada. Estava em seu quarto, trajando a usual camisola, ao braço tinha atado um soro hospitalar vitaminado. — O que aconteceu?

— Você não se lembra, minha filha? — Helios, tocou-lhe a mão.

— Lembro que, depois de o irmão de Damien contar o que aconteceu em Sedna, eu desmaiei... — baixou o olhar e apertou os lençóis.

— Você apagou por cinco dias! — Marine contou — Tentamos trazê-la de volta de todos os jeitos, mas você não respondia. Quando chegamos ao palácio, seus olhos estavam abertos, mas sem expressão, você entrou em um tipo de transe muito esquisito... parecia uma morta-viva, ficamos muito assustados!

—... E Damien, cadê ele? — perguntou, tentando fugir do assunto.

— Damien está com Doryan, o irmão mais novo dele. — a rainha abraçou-a de lado — Nos últimos dias, nossos médicos tentaram trazê-lo de volta do coma, mas não sabem quando irá acordar, só nos resta esperar... Damien não sai de seu lado, afinal, Doryan é o único parente vivo que ele tem. — suspirou.

— Eu sinto muito! — Crystal cobriu o rosto com as mãos.

— Querida, você não tem culpa! — o rei a abraçou, do outro lado. Mãe, pai e filha apertaram-se.

— Insisti em acreditar nele, até o fim, e olhem só no que deu... como fui boba!

— O seu coração é bondoso, Crystal. Você confia nas pessoas... Não se culpe por isso. — Rini falou suave. — Como eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes! Mas, agora, temos que nos preparar... Você entende isso, não é?

— Não há outra opção? — murmurou, sem forças.

— Infelizmente, não. — a mãe sentenciou.

— O que tiver que ser, será. — respirou fundo e mordiscou os lábios — Podem me deixar um pouco sozinha? — pediu antes que todos presenciassem mais uma das infindáveis crises de choro. Os regentes concordaram, todos deixaram o cômodo, Sailor Fire seria a última a sair, porém Crystal a chamou — Hina! — ergueu-lhe a mão — Você não... por favor!

A jovem dos cabelos cor de fogo, quieta e abatida, caminhou até a cama, a mão da princesa persistiu, aberta e trêmula, direcionada a ela. Sentada ao lado da enferma, apertou-lhe os dedos, em seguida um soluço escapou-lhe, foi a deixa para que as duas se derramassem em pranto enquanto fitavam-se, desconsoladas. Por fim, as grandes amigas se abraçaram forte e não trocaram palavras, somente lágrimas. Naquele lar cristalizado, apenas uma poderia compreender a dor da outra.

...

— A guerra foi declarada. — no salão real, sentada ao ilustre trono, a rainha de Tóquio de Cristal decretou aos presentes. — Sabemos que, em algum momento, seremos atacados pela família Black Moon, portanto precisamos nos preparar para isso. Meu dom passou para minha filha, e o dom dela passou para cada uma de vocês. — contemplou as guerreiras a postos, todas, menos Sailor Fire. — Ajudem-me a criar abrigos para os cidadãos do reino. Dessa vez, vidas não deverão ser sacrificadas por causa de falta de cuidado. — amargurou-se ao recordar que da outra vez o reino sofreu tanto por ela ter roubado o Cristal Sagrado.

— Majestades, por que não os atacamos antes que cheguem à Terra? — Sailor Acqua indagou impulsiva.

— Não podemos, em hipótese alguma, deixar nosso reino vulnerável, Marine. — Rini respondeu — Agora eles possuem Nemesis e Sedna, não podemos abandonar nossos postos. A preocupação maior é nosso povo, as pessoas são alvos fáceis, precisamos protegê-las.

— O palanque foi desmontado, como ordenado. — Sailor Saturno notificou.

– Certo, não há mais razões para se discursar a favor de uma trégua...

...

Algumas horas depois, uma Crystal mais calma caminhou pelos vastos corredores. Era tarde da noite, todos já deveriam ter jantado, os pais não a chamaram por crer que precisava de mais tempo consigo mesma, acertaram no palpite. Ainda zonza por todos os últimos acontecimentos, não sabia bem aonde desejava ir, até que avistou Marine a carregar uma bandeja em mãos. Curiosa, Crystal a seguiu, notou-a adentrar uma enorme porta, do outro lado ouvia-se apitos leves de aparelhos, pela fechadura, viu Damien sentado em uma poltrona a frente uma cama, deitado no leito estava o rapaz que delatou o crime de Diamante. A mão cobriu a boca e abafou um gemido, os olhos espremeram-se e ela quase sufocou de tristeza.

— O que faz aqui? — Marine perguntou tão logo atravessou a porta.

— Nada! — afastou-se — Boa noite, Marine! — rasgou a face num sorriso mórbido e apressou-se a sumir.

— Crystal, espere, — a amiga foi atrás — vamos conversar. — e segurou-lhe o punho.

O olhar sério de Marine a convenceu depressa. Caminharam até uma saleta ali perto, a Marinheira das Águas teve o cuidado de fechar a porta.

— Pode dizer. — Crystal se acomodou em um banco.

— Não se sabe quando o irmão dele acordará. — começou — pode ser amanhã, pode ser semana que vem, ou daqui a anos. Sabe o que isso significa? Ele está sozinho nesse mundo.

— Por que está me falando essas coisas?

— Porque você é a única pessoa que pode dar alguma alegria a ele. — sentou-se a frente dela — Eu sei que você gostou muito daquele príncipe Diamante, sei que não deve ser fácil esquecer o que viveu com ele, mas... — tomou-lhe as mãos — Crystal, esse romance terminou. Você viu o que ele fez, você soube as coisas que ele disse, não pode amar um homem desses! — diante do silêncio da menina, Marine continuou — Damien, por outro lado, é gentil, confiável e prestativo. Ele jamais a machucaria, na verdade, ele a protegeria como já a protegeu. Damien, sim, é um homem em quem você pode confiar!

—... Mas você entende que as pessoas não mandam nos próprios sentimentos, não entende, Marine?

— Apenas abra o seu coração para ele — sorriu terna como dificilmente sorria —, sem pressa, sem obrigações. Não digo para que se force a algo, digo para que não se feche, é só... A vida é repleta de possibilidades, mas coisas boas só acontecem quando as pessoas se permitem vivê-las.

— Marine... — arregalou os olhos — Nunca te vi assim! Poxa, se eu não te conhecesse eu diria que está apaixonada!

— Não seja ridícula! — e a velha Marine voltou à tona, rubra e emburrada — Estou aqui fazendo o meu papel de amiga e você tira sarro de mim?! É sinal de que já está melhor então! — cruzou os braços e empinou o nariz — Escuta aqui, sua tapada! Acho bom que você pelo menos tenha a decência de ir até Damien para dizer um “oi” que seja! Ele também está sofrendo, e antes de qualquer coisa ele é seu amigo! Vá lá e mostre o valor de sua amizade! — para finalizar com estilo, deu-lhe um cascudo no topo da cabeça — Anda! Não quero ter que repetir! — apontou a porta.

— Ai! — choramingou e passou a mão sobre o calombo recém-formado — Você não precisa me dizer isso, é claro que vou ver como ele está! — mostrou a língua e saiu de lá às pressas, antes que a outra resolvesse segui-la e presenteá-la com outro cascudo. Jurou ouvi-la gargalhar de longe, mas não se preocupou em tirar a prova, aos pulos retornou à porta de onde o espiou, empurrou-a devagar e, calada, entrou. Damien não a viu, porém, Crystal vislumbrou bem seu perfil tristonho, pálpebras adornadas por singelas olheiras e lábios curvos de preocupação. A bandeja que Marine trouxera jazia numa mesinha um pouco distante, intocada. — Damien... — chamou-o em baixo tom, o príncipe a olhou, surpreendeu-se, mas nada disse. Ela persistiu, aproximou-se da poltrona e parou de pé, à sua frente — Vim ver como você está. — ele respondeu com o silêncio novamente e tornou a fitar Doryan — Fala comigo... — a princesa pediu, os joelhos tocaram o piso, as mãos as pernas dele — Me desculpa... — com o canto do olho, viu o rapaz desacordado, pálido, com uma máscara de oxigênio auxiliando a respiração — Você estava certo e eu fui uma boba, insisti em acreditar nele, mesmo depois daquele ataque... e olha só o que aconteceu... é tudo minha culpa! – os dedos apertaram o tecido negro das calças principescas.

— Ninguém tinha como saber que ele faria uma coisa dessas, Crystal. — respondeu-a, enfim —Eu ainda avisei a meu pai que tomasse cuidado, mas vejo que não foi o suficiente... — as pestanas negras tocaram-se, a franja cobriu-lhe os olhos úmidos. — Sinto muito, disse que partiria, só que agora não tenho para onde ir. — olhou-a outra vez — Mas, se você quiser, eu deixo o palácio, só peço para que meu irmão fique, aqui está sendo bem cuidado.

— Não diga bobagens, você não vai a lugar algum! — exclamou — Seu lugar é aqui com a gente!

— Você... tem certeza disso? — estremeceu surpreso.

— Damien, eu gosto de você... Não do mesmo modo que você gosta de mim, é verdade. Mas gosto e me importo com você, nunca quis que você fosse embora, só que eu não queria te machucar mais do que já tinha machucado, então achei que você seria mais feliz longe de mim. Sentiria muita saudade se você partisse! — respirou fundo, contendo os ânimos.

— Princesa... — cativou-lhe as mãos trêmulas — Eu nunca seria feliz longe de você. Prefiro tê-la por perto, mesmo que não possa tocá-la ou tomá-la, do que estar a quilômetros de distância, sem poder ouvir sua voz e ver seus sorrisos de perto. Não sabe como é importante para mim você estar aqui agora, obrigado por se importar comigo, de qualquer forma. — um tênue risco formou-se ao rosto, era um sorriso meigo, com tão pouco ela o acalentara, e era o mínimo que poderia fazer. No entanto, o sorriso se desfez assim que Damien notou um coração dourado reluzir no pescoço de Crystal. Ele o segurou, cuidadoso, e o abriu, a foto no interior não foi surpresa — Mesmo depois de tudo, você... — engoliu seco.

— Eu sinto muito, não consegui tirar... Não posso tirar! — tocou a mão dele por cima da joia — Por favor, não me recrimine por isso!

— Quem sou eu para te recriminar? — suspirou — Só acho que guardar isso te fará sofrer mais... Não alimente falsas esperanças, Crystal.

— Não é uma esperança, é uma lembrança de uma época que se foi... — fechou o coração e desceu o olhar ao piso — e jamais voltará.

— Quantas lágrimas você controlou até agora só para não me preocupar? — Damien reteve-lhe o queixo e ergueu-o — Sabe que não precisa fazer isso quando estiver comigo...

— Que direito eu tenho de chorar? — sorriu melancólica — Você perdeu a sua família, o seu lar, tudo foi tirado de você! Isso... não tem perdão! — uma fraca náusea a abateu, teve de contê-la a cobrir os lábios com as mãos.

— Você — disse com a voz embargada — é tudo o que tenho agora. — Posso... te dar um abraço? — abriu os braços singelamente.

— Ah, Damien! — não resistiu, conteve corajosamente o pranto até então, mas o pedido humilde do amigo foi o golpe derradeiro, Crystal saltou e abraçou-o forte, ele, estremecido, apertou-a, os ombros largos sacudiram discretos, os dela e os dele molharam-se. Daquela vez, o sedniano não se controlou, ele próprio caiu no choro e não era para menos, ao lado dele o irmão repousava, a vida se sustentava por um fio. Diamante era o responsável pela extinção de sua raça, pelo sofrimento de seu povo, e pelo sofrimento de sua amada.

— Ele vai pagar... — sussurrou — Eu o farei pagar! — os dedos afundaram nas largas ondas castanhas — Enquanto eu viver, ele nunca mais nos fará sofrer! Mato aquele patife, eu juro! — grunhiu.

— Damien... — ele não sabia, mas as palavras ditas a feriram ainda mais. Antes que piorasse, ela apartou o abraço, foi até a bandeja, pegou-a e a pousou nas pernas do príncipe — Você precisa comer!

— Não estou com fome. — confessou desanimado enquanto vislumbrava uma fatia apetitosa de torta.

— Isso está com cara de estar uma delícia... — Crystal dramatizou entusiasmo e deu uma garfada — Hmmm! — cobriu o garfo com mais uma quantia e ofereceu a ele — Tome!

— Engraçado, onde eu já vi essa cena? — mais calmo, enxugou a face molhada e riu discreto.

— Vamos lá, só uma garfada, vai! Olha o aviãozinho! — quando deu por si, estava rindo.

“Perfeito”! — Marine os espiava pela fechadura há algum tempo, embora parte de si sofresse por Damien gostar tanto de Crystal, outra parte se contentava em vê-los se entendendo.

As esperanças eram altas, para Marine, e para Damien, visto que finalmente Crystal admitira que Diamante se tornou uma lembrança... Todavia, no coração dela, ela sabia por ser afirmado a cada instante:

“O que sinto por ele, não conseguirei sentir por outra pessoa, mas...” — dois dias se passaram, a princesa visitou o príncipe, levou-lhe almoço e jantar, e refletiu enquanto o observava esforçar-se para comer e agradá-la — “isso não significa que eu não possa sentir algo diferente... Como faço para abrir o meu coração?” — uma lágrima caiu sobre o coração de ouro que adornava-lhe o pescoço

Como Rini planejou, os refúgios começaram a ser construídos. Sailor Love, com o poder de sua pedra mística, diariamente concentrava-se, a aura branca a envolvia e então ela expandia as camadas de cristal pela cidade, as outras guardiãs a ajudavam como podiam, afinal, parte daquela energia pueril fora transmitida para elas. Todos os dias, a iminência de um ataque assolava os cidadãos, o clima de terror espalhou-se como doença. Quando os reis visitavam a cidade para transmitir mensagens ao povo, poucos tinham coragem de vir ouvi-los, um desses era Hakaru. O sujeito bronco, em rara vez, decidiu trabalhar junto com a realeza nas escavações de túneis e de abrigos subterrâneos. Nesse ritmo, meses foram se passando, um novo ano começou enquanto as Marinheiras Heroicas construíam a muralha do reino. O serviço gastava muito de suas energias, ainda bem, afinal, por causa disso conseguiam dormir à noite, exceto Crystal. Havia madrugadas em que ela tinha pesadelos horríveis e acordava aos gritos, revivia o dia em que o irmão de Damien chegara ao reino com a fatídica notícia, o pobrezinho permanecia em coma, sem sinal de retorno, Tóquio permanecia em estado de alerta, e o ataque não vinha. A princesa se pegava ansiosa para que o inevitável acontecesse logo, não poderia ser mais árduo do que a espera, e, no entanto, ficavam os burburinhos, as suspeitas e os olhares desconfiados de seus súditos voltados a ela. O boato de que Crystal e Diamante tiveram um caso amoroso espalhou-se, a consequência foi devastadora: mesmo Sailor Love dando seu sangue para criar uma barreira protetora, não era amada ou respeitada, apenas quando Damien surgia ao seu lado.

“Dê a eles o que querem, o que precisam” — pensava todos os dias, mesmo que fosse contra a sua vontade. E de que importava a sua vontade no fim das contas? Amava aquelas pessoas apesar de tudo, se ainda havia luz em seu coração era porque ela sabia que precisava protegê-los, e como sua avó disse, enquanto houvesse amor, vontade de proteger, ela seria forte. Tão logo completou dezesseis anos, o enorme muro de cristal ficou pronto, sem ninguém para aplaudi-lo, todos se acuavam em esconderijos. Aos dezessete, vendo que ainda não conquistara o respeito dos súditos, tomou uma decisão amarga: já que aquelas pessoas amavam tanto a sua antepassada e ainda guardavam esperanças de que ela fosse a reencarnação da lendária rainha, Crystal passou a vestir-se como a avó, os vestidos brancos com detalhes em ouro e pérolas alumiavam-lhe o corpo e disfarçavam a tristeza de sua alma.

...

— Por que está fazendo isso, Crystal? — Hina perguntou desapontada, frequentemente as duas se encontravam no coreto dos jardins. — Você não é sua avó, não aja como se fosse sombra dela! — aconselhou-a.

— Eu sei, Hina... Não se preocupe, tá bem? — tocou-lhe os ombros, sorriu doce — É por um bem maior.

...

— Você não deveria... — Damien também opinou quando ela surgiu nos tristes trajes a carregar uma bandeja de café da manhã. — Você é Crystal, não Serena. — tocou-lhe a face.


...


— Minha filha... — Rini suspirou, pesarosa — Você tem certeza de que quer se vestir assim? — acariciou o vestido saudoso — Você está linda, mas é isso o que quer?

— Nem tudo o que se quer é o que se pode ter, mamãe. — abraçou-a, — O importante é passar confiança a essas pessoas, elas precisam tanto de uma imagem, é isso o que darei a elas!

...

No fim do segundo ano, nenhum prenúncio de ataque. Rini se perguntava o significado da demora, se era uma espécie de tortura ou se um acidente acontecera ao clã da Lua Negra no meio do percurso.

Reiko e Marine formaram-se nos estudos, em casa, pois tão logo o anúncio da guerra se espalhou as escolas fecharam, o sonho de viverem como meninas normais durou pouco, afinal. A cerimônia foi no salão, fizeram um festejo simples, acabou sendo ótimo para todos, uma distração é sempre bem-vinda.

Àquele ponto, Crystal conquistara o mínimo de admiração possível, longe de ser o suficiente. Desfilava pelas ruas cristalizadas a arrastar a cauda branca do vestido pelo piso, visitava as passagens secretas e os abrigos, levava comida, bebida, remédios e brinquedos, naqueles gestos expunha todo o amor que restara em si, ouvia algumas acusações de rebeldes, no entanto não permitia que o sorriso escapasse de seu rosto. A máscara caía quando, à noite, ela se deitava para dormir e a última visão que tinha era a da foto guardada no pingente, aí a princesa chorava o quanto podia, e no dia seguinte disfarçava-se de garota alegre outra vez. Damien a observava atentamente, e secretamente lamentava.

...


— Você parece tão cansada... — comentou em outra visita, antes de dar um gole no suco que ela trouxe.

— Ah, dá trabalho tentar agradar essas pessoas... mas tudo bem, elas estão passando por momentos difíceis.

— Você tem se dedicado bastante, seus pais devem estar orgulhosos de você. — tentou encorajá-la com um sorriso.

— É meu dever, e é bom, ocupa meu tempo, sabe? — suspirou.

— Não seria tão trabalhoso se fosse um trabalho em conjunto. — massageou-lhe os ombros tensos.

— Mas as meninas me ajudam muito!

— Não é disso que estou falando. — interrompeu-a.

— Então? — suspendeu as sobrancelhas, confusa.

— A minha proposta ainda está de pé. — aproximou-se mais. — Sabe, meus sentimentos por você nunca mudaram... — confessou por crer que depois de dois anos ela cederia.

— Damien, não faz isso... — suplicou, mas estava cansada demais para resistir. Uma mão encaixou-se à nuca dela, outra à sua cintura. Os lábios mornos tomaram os seus inertes, os olhos não se fecharam. A princípio, os braços dela não se moveram, depois, a língua tímida tentou acompanhar a que a acariciava. Nem frio no estômago, nem frenesi cardíaco, nada.

— Pense nisso. — disse ao ouvido dela. — Você gosta da minha companhia, eu gosto da sua... não precisamos ser tão solitários...

— Eu vou pensar... — segurou as mãos dele e laçou os dedos — prometo! — “Abra seu coração, Crystal” — tentou se convencer quando saiu do cômodo, e permaneceu a tentar nos vários dias que se seguiram, até que, não seu coração apaixonado, mas seu coração partido cedesse...

...

— Ainda falta muito, mas temos feito um ótimo trabalho em conjunto, não acha? — Onyx ajeitou os óculos sobre os olhos crepusculares, nas lentes os droids enfileirados, aos montes, refletiram como soldados subservientes.

— Três anos se passaram, e o trabalho não acaba... — Saphiro enxugou a testa suada, exausto. — Talvez estivéssemos em maior vantagem se você não se enclausurasse tanto tempo naquele seu antigo laboratório! — praguejou.

— Tenho um outro projeto que será de grande ajuda nessa guerra, confie em mim! — riu-se.

— Onyx, confiar em você e em Topázio seria suicídio. E os óvnis, a quantas andam? — mudou de assunto para não dar oportunidade ao cientista louco de fazer piadas.

— Temos bastante auxílio dos Droids na construção, e eu fiz alguns aprimoramentos, então, não será difícil dizimar aquele reino... — ajeitou as madeixas negras presas no rabo-de-cavalo.

— Meu irmão caiu no erro de dar o aviso, portanto, não os subestime! Assim como temos nossos planos eles devem ter os deles.

— Ei, espera! O que é isso em seus olhos? — apontou — Está triste porque vamos atacar Tóquio de Cristal?

— Não diga bobagens! Eu estava lá tentando abrir os olhos de meu irmão quando vocês mostraram aquela holografia, lembra? A guerra é inevitável.

— Posso não ser a pessoa mais sã, sabe? — falava tranquilo enquanto ajeitava a luva branca na mão e movia as articulações, habilidoso — Mas tenho boa memória! — alargou o sorriso — Lembro de uma linda menina dos cabelos cor de fogo, olhos verdes e bochechas rosadas... Lembro também de como você a abraçou quando revelei aos integrantes da Lua Branca seu conhecimento sobre Nemesis... é uma pena, não é? Imagino que aquela criatura graciosa tenha valido cada momento que você passou na Terra... — viu-o ranger os dentes — Me pergunto se ela é tão doce na cama, ou se lá o verdadeiro fogo se acende...

O punho fechado de Saphiro acertou em cheio a face alva de Onyx e rasgou-lhe o canto da boca. O “insano” cambaleou até uma pilastra e escarrou sangue no piso, às gargalhadas.

— Não fale sobre ela nunca mais, não ouse! — Saphiro vociferou — Eu te mato, seu desgraçado! — arfante, num salto viu-se de frente para ele e, com as duas mãos o suspendera pela gola do jaleco.

— O que está acontecendo aqui?! Parem com isso! — Quartzy ouviu o barulho e entrou no laboratório — Príncipe, solte-o, não faça isso! — segurou-lhe os ombros e os puxou, mas não tinha forças para tirá-lo daquele estado.

— Quartzy, querida, saia logo daqui porque você não tem chances! Ele gosta mesmo é da guerreira de fogo de Tóquio de Cristal! — nada lhe tirava o riso da face.

— Príncipe Saphiro, não se incomode com isso! Está dando a Onyx exatamente o que ele quer! — insistiu — Não caia em suas provocações!

— Quartzy está certa... — soltou-o devagar — Você não vale a pena. — deu dois passos para trás, a amiga segurava-lhe carinhosamente o braço. — Vamos sair daqui.

— Sinto muito, príncipe... — ela disse quando caminhavam pelos corredores, distantes do laboratório e do humor ácido de Onyx.

— Por que está dizendo isso? — não a olhou, o sangue ainda borbulhava de raiva pelas palavras do outro.

— Sinto muito pela escolha difícil que teve que fazer... Por favor, não se ofenda, mas preciso perguntar... O que fará quando a vir outra vez? — o rapaz estancou os passos, a mocinha dos cabelos róseos desesperou-se — Perdão! Eu sabia que não deveria ter comentado sobre isso! Não foi a minha intenção, eu... — o rosto assumiu a cor dos cabelos.

— Quartzy, está tudo bem, acalme-se. — fitou-a inexpressivo — Você sabe, eu contei tudo sobre a minha estadia lá, inclusive sobre Hina... Então, a sua pergunta é coerente, e o fato é que até o momento evitei pensar nisso... mas, é necessário me preparar, então... — respirou fundo.

— Príncipe? — tocou-lhe as mãos nervosas.

— Hina é Sailor Fire, é fiel serva da família da Lua Branca, portanto, é minha inimiga. — afirmou.

— Ainda acho que as coisas não precisavam ser desse jeito...

— Não tenho o direito de sonhar com um futuro ao lado de Hina, não enquanto meu irmão sofre dia e noite por causa daquela maldita princesa! Se eu pudesse, a mataria com minhas próprias mãos!

— Do fundo do meu coração, eu gostaria que as coisas tivessem acontecido de maneira diferente... — baixou o olhar marejado, os indicadores de Saphiro enxugaram-lhe os cílios e as mãos enluvadas ergueram-lhe a face, olharam-se nos olhos.

— O seu jeito bondoso me faz lembrar dela... — ajeitou a franja rosada, quase a vislumbrou laranja. — Também gostaria que as coisas fossem diferentes, mas elas são o que são, Quartzy, e precisamos ser fortes para encará-las. Não fique triste por mim, me conformei com o meu destino — sorriu — E, se quer saber, a sua companhia me ajuda bastante, por isso, obrigado.

— Eu, eu só... — gaguejou embaraçada — não é nada, príncipe!

Pff! — Onyx os observava de longe, o lado do rosto acertado por Saphiro inchara e adquiriu tom arroxeado.

Nas profundezas do palácio, num quarto espaçoso e escuro, o outro príncipe estava sentado à beira do leito, diante do par de violetas uma holografia reluzia, os orbes encaravam-na num misto de paixão e raiva, a taça de cristal tremia na mão.
Um dia, naquele mesmo lugar, uma mulher de longos cabelos dourados, adornada em trajes brancos, tivera sua imagem venerada e desejada. No presente uma garota de vastos cabelos castanhos, contornada por uma cortina de rosas azuis sobre o vestido lilás tomava o posto.

— Crystal... — sibilava irritado, magoado e desejoso. — Era para você ser minha, você disse que era! — todos os dias, se torturava com tudo o que poderia ter sido e não foi — Se você apenas tivesse me rejeitado como sua avó fez... mas, não! — apertou a taça com tamanha força que o cristal trincou — Maldita! — atirou o receptáculo de sua bebida contra a imagem, fechou os olhos ao ouvir o material se espatifar no chão e estremeceu a frente da princesa, sem uma marca, sorridente, reluzente como o sol que não brilhava para ele. — “Você será a minha ruína, mas eu serei a sua também”.

...

— Vida longa ao rei Damien e à rainha Crystal! — o grupo de pessoas que se arriscou sair das tocas exclamou.

As coroas douradas brilharam, talhadas em joias raras, como auréolas no topo da cabeça de cada um. Ele, elegante nos trajes lavanda de rei Endymion, ela, angelical no vestido marfim da rainha Serena. As Sailors os rodeavam, Sailor Acqua sorria satisfeita, Sailor Fire continha as lágrimas, e o resto não sabia bem o que sentir e pensar sobre aquela união.

— Acha que ela será feliz? — Helios, inconsolável, perguntou à esposa.

— Torço, com todas as minhas forças, para que ela seja... mas esse sorriso nos lábios dela não me convence. — Rini buscou conforto nos braços de seu pégaso.

De mãos dadas, Crystal e Damien, sorridentes, acenavam para os reverentes à frente. Em um segundo ou outro, o novo rei fitava a mulher que há pouco completara dezoito anos e admirava sua ternura e serenidade. Os pequenos e delicados dedos apertavam os dele, pedindo por afago e Damien dava a ela o que era necessário. Crystal estava certa, a partir do momento em que eles estivessem juntos, o povo se sentiria mais seguro. Então, de qualquer modo, talvez estivessem destinados a formarem uma dupla...

— Eu vou cuidar de você... — sussurrou.

— O que seria de mim sem você, Damien? — respondeu comovida.

Ele, gentil e respeitoso, beijou-lhe a lua na testa, a recém-coroada rainha de Tóquio de Cristal baixou o olhar e vislumbrou a joia dourada, pendurada no pescoço, teimando em brilhar para lembrar-lhe de sua existência. Suspirou nostálgica, porém, conformara-se com a perda. No dedo anelar esquerdo, o ouro de uma aliança resplandecia.

“Quem sabe em outra vida... em outra época?”

“Abra o seu coração, Crystal” — a voz interior latejava enquanto ela era conduzida a suíte nupcial — “Abra o seu coração... Ame Damien!” — apertou o pingente sobre o peito, uma lágrima correu dos olhos ao queixo. Quando deu por si, estava deitada na grande cama com Damien sobre si. — “Aceite o seu destino!” — cerrou os olhos úmidos e mordeu o lábio inferior. — “Eu não sinto nada”! — constatou.

Todavia, era tarde para se arrepender...

Fim da Fase I
Continua...





Notas finais
Espero que tenham gostado! Qualquer erro de formatação ou qualquer trecho que tenha ficado nebuloso, por favor, notifiquem nos comentários. Kissuus e boas férias!