A Minha Queda Será Por Você
41 A verdadeira força
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 41 – A verdadeira força
Um grito de dor, agudo e prolongado escapou dos lábios de Sailor Love. Seu corpo pequenino foi arremessado longe, a névoa branca abraçou-o e ela inteira estremeceu. Um de seus olhos não se abria mais, roxo e inchado, dos lábios escorria um filete de sangue. Ela, doída dos pés à cabeça, levantou-se e esperou pelo próximo ataque de Sailor Wind. Mesmo a guerreira que estava vencendo ofegava e transpirava.
— Reaja! — ordenou e investiu em outro golpe.
Sailor Love abriu os braços, fechou os olhos e recebeu-o, certeiro.
Nos outros cenários, todas sofriam, Sailor Acqua perdera a empolgação e não via mais razão em continuar com aquela violência gratuita. Sailor Nature doía-se pela imparcialidade que Tigre assumia quando se encontravam no pântano, e por não querer feri-lo acabava por ferir-se.
— Anda, você sabe que aqui não somos um casal! — ele a alertava.
— Tô nem aí, não estou afim disso! — mantinha-se na defensiva, protegendo-se dos golpes.
E Sailor Fire corria ao redor do vulcão, fugindo de Olho de Águia, não queria que ele a encostasse, pois sabia que o queimaria. Sailor Saturno e Sailor Phantom, por sua vez, tornaram-se meras expectadoras das outras, ambas decifraram o mistério do treinamento, aproveitavam-se daqueles minutos para conversarem sobre o passado:
— Sinto falta dele. E você? — Hotaru perguntou.
— Prefiro não pensar nisso. Não gosto de lembrar. — os olhos de Valkyria perderam o brilho.
— A culpa não foi sua... — tocou-lhe o ombro.
— Não diga mentiras para me confortar, sabemos que ele se foi porque não consegui controlar os meus poderes! — num tapa, afastou a mão caridosa.
— Seu pai jamais a culparia por aquilo, precisa acreditar em mim! — suspirou — Ah, se você soubesse o quanto se parece comigo quando eu era mais nova...
— O treinamento do dia acabou. — levantou-se da tumba e afastou-se, como da outra vez todos os cenários se desfizeram, e quando as marinheiras atravessaram o espelho não tinham uma ferida sequer, apenas o cansaço.
O banho de sangue prosseguiu durante a semana, a rotina alternava-se entre lutar e estudar. Era tanto a fazer que, à noite, todas estavam exaustas demais para sonhar. Um mês se passou e Crystal viu apenas escuridão em suas fantasias. Para certificar-se de que não esqueceria o rosto do Príncipe Branco, sempre que estava solitária fitava a imagem guardada no coração dourado que jazia pendurado em seu pescoço, beijava-a, dava-lhe bom dia e boa noite, a princípio a esperança de que ele voltaria mantinha seu coração aquecido, porém, com a chegada do outono e ainda nenhuma notícia ou resposta do planeta distante, o pequeno trevo de quatro folhas murchava dentro dela, e o arco-íris perdia a vívida coloração. Restavam-lhe as lágrimas, libertadas apenas em momentos de solidão, cada vez mais escassas, talvez por não mais haver lubrificação nos olhos, e também pela frase certeira que Sailor Wind dissera-lhe certa vez: Lágrimas não servem de escudo contra o mundo. Não, suas lágrimas não seriam mais a sua proteção!
Luna e Artemis não poderiam se delongar em Tóquio de Cristal, tinham um reino para cuidar na Lua. Rini pedira demais de ambos, e eles, por todo esse tempo estiveram dia e noite desdobrando-se em tentativas de comunicações... Jamais uma resposta veio, tiveram de partir.
Na cidade, rumores sobre uma possível guerra percorriam cruéis, embora Crystal tentasse conversar com os cidadãos, não era ouvida, ou lhe atiravam coisas, ou lhe davam as costas. Toda a vez que subia no palanque e discursava, terminava frustrada, a encarar a imagem da avó no chafariz. Melancólica, discernia: era aquela mulher que respeitavam, a ela própria nada ofereciam. Damien, uma única vez, tentou falar por ela, mas era péssimo mentiroso. Não conseguiu ser convincente, e, no fim das contas, dois ou três indivíduos calaram-no quando disseram: "Sabemos que você também não confia neles". Fato, não confiava na Lua Negra e jamais confiaria. Crystal desistiu de fazê-lo ajudá-la nisso, percebeu que era um tipo de tortura para ele. Desistiu da ideia de pedir a nau emprestada, desistiu de compartilhar com o príncipe suas angústias. Não eram dele para se doer, ela não tinha o direito de afundar mais alguém em tristeza. Damien estava sempre lá, a postos, para agradá-la como pudesse, não era justo. Aos poucos, deixou-se levar, não poderia mentir para si mesma, a companhia do sedniano a distraia, e quando não falavam sobre Black Moon divertiam-se juntos. No entanto, era apenas isso para ela, uma descontração. Ele podia ser o mais bonitos dos homens, todavia, não despertava-lhe atração física. O que os aproximava era a sensação de que podiam confiar um no outro. Descobriram, com a convivência, que tinham mais em comum do que pensaram ter. Pareciam-se com pessoas ilustres do passado, mas tinham suas personalidades, divertiam-se com coisas bobas, riam por qualquer besteira... Não tardou para que começassem a inventar piadas um sobre o outro, implicavam-se mutua e inocentemente, e assim levavam aquele relacionamento confuso que tinham. Damien não sabia dizer se ela, aos poucos, lhe entregava o coração, Crystal sentia-se grata pela dedicação do príncipe e encontrara naquela relação uma razão para sorrir. Sem toques, sem beijos, sem paixão, apenas conversas e jogos, flores e doces. Ainda assim, Rini os observava, esperançosa. A filha já não falava tanto sobre Diamante, mal saberia a mãe que era para não preocupa-la. Ainda havia saudades, devoção e amor... estavam apenas escondidos.
— Ele a fez rir outra vez, ele a fez voltar a se alimentar... — Rini, aliviada, comentou com Helios — Os olhos de Crystal estão diferentes, você vê?
— É verdade, ela está mais alegre, não a vejo chorando ou se lamentando... — abraçou-a.
— Será que ele é a cura, querido? — acomodou-se ao peito macio e fechou os olhos.
— Não só ele, mas todos nós, família e amigos... Assim acredito.
— Tem razão, ela tem tanto amor no coração... desde que tenha alguém com quem dividir isso, a vida dela se ilumina.
...
Mizumi caminhava pelos corredores do palácio, procurava um lugar para esconder-se de Olho de Águia. Parou de fronte a uma porta entreaberta, especificamente a do quarto de Yumi. Estranhou, estava sempre fechada e naquele instante, uma brecha. Não seria ela mesma se não a aproveitasse. Em rara vez, encontrou a elegante e pálida ventania trajada em um pijama de seda prata, descansando. Nas pontas dos pés, a sereia aproximou-se da cama. Sentou-se devagar e silenciosa ao lado da figura aparentemente exausta, mais alva do que o costume e com um risco de preocupação entre as sobrancelhas.
Ousou inclinar-se para frente, em seus olhos esverdeados e marejados a outra se refletiu, e era tudo o que ela via, nada mais. O coração pulou dentro do peito enquanto Sailor Ocean contornou a fina alça, caída pelo ombro pontiagudo, e desceu-a mais. Com a ponta dos dedos, afagou a face suave sem quase tocá-la. Provocou um suspiro frio, respondeu-o com um morno. Os cílios longos e cinzentos moveram-se, os finos e ressecados lábios entreabriram-se, o rosto virou para o lado onde Mizumi estava, quase deitada, narizes se chocaram. A filha dos mares corou sutilmente, a boca prestes a encaixar-se ao seu par estremeceu.
— Eu te amo, Yumi... — sussurrou. Os dedos longos e gentis passaram pelas mechas lisas e arrepiadas que cobriam um dos olhos gélidos. Estes abriram-se devagar, enquanto ela terminava: — Se você ao menos me notasse...
— Como não notá-la? — o tom, como sempre, monótono, neutro, tornava um mistério discernir a conotação das palavras.
Sorriu e buscou crer que aquilo fora uma espécie de declaração. Tomou coragem, os dedos que brincavam com os cabelos de vendaval desceram pelo pescoço pálido e repousaram à nuca. O ápice da língua rosada contornou o lábio superior da outra, umedecendo-o.
— Pare. — permaneceu imóvel.
— E se eu não parar? — o par de maremotos desafiou o par de furações — E se eu não a soltar nunca mais? — cuidadosa, enredou-a. — A conheço o suficiente para saber que você está triste, o que há com você, minha Sailor Wind? — tocou as testas.
As moedas de prata tremeluziram surpresas. Como ela pôde lê-la desse jeito? Sabia que não demonstrara nada, sabia que se mantivera impecável em sua comum pose de soldado. Apertou a mão que lhe cobria a nuca, as sobrancelhas arquearam-se, entregando-a. Mizumi colou a boca à dela. Não houve rejeição, e de início, nem retribuição. Yumi semicerrou os olhos, as articulações relaxaram, o perfume da outra mulher adentrou-lhe as narinas, violento, hipnótico, e num repente a sua própria mão encaixou-se a cintura delineada, os corpos ataram-se em perfeição... E voltou a si, virou o rosto, a boca de Mizumi escorregou para sua bochecha.
— Você acha que me conhece tanto... Eu a conheço melhor. — Sailor Wind murmurou — Isso não vale à pena. Nunca poderei dar a você o que quer, não sou um homem. Jamais se dará por satisfeita.
— Só busco consolo com homens, porque não posso ter você. — ousada desceu ao pescoço e desenhou-o em ósculos tímidos — Yumi, se eu a tiver, não precisarei de homem algum. Não me importo com homens, jamais gostei de um de verdade, você sabe! — deitou a cabeça entre os seios modestos da amante, confortou-se ao ouvir o coração acelerado — Você se esforça tanto para se mostrar alguém sem sentimentos, mas eu sei que você é toda feita deles. Você é um tornado de sensações, um tornado quente... — ergueu o rosto e fitou-a intensamente. Delicada, cobriu-a com o próprio corpo. As ondas verde-água caíram como uma cortina oceânica, Sailor Wind afogou-se nelas. As mãos do vento, temerosas, cativaram algumas mechas, laçaram-nas, violentas. — Não se prive de seus sentimentos... — encaixou uma perna entre as dela — Faz tempo que um romance entre duas mulheres já não é um terrível escândalo. Eu a espero há tanto tempo... — sedutora, passou as mãos por debaixo da seda, subiu-as à altura do umbigo de Yumi e surrupiou-lhe um gemido rouco. Enfim, outra reação.
— Isso nunca vai parar, você não entende? Sabe que sou assim, distante, fria, toda vez que eu frustrá-la, irá procurar algum homem com quem se enroscar. Você está sempre fazendo isso, o seu corpo necessita disso, de deleite carnal, você é uma devassa. Não sucumbirei a você, não depois de tantos anos de disciplina. A minha frieza me faz forte, no dia em que eu me render a você perderei o que tão arduamente conquistei. Saia. Saia, ou terei que tirá-la a força, e garanto, isso vai doer! — praguejou entre dentes.
— Você não quer me machucar! — sorriu melancólica — Você não quer machucar ninguém! — tomou uma mão que tentava empurrá-la e beijou-a — Veja você, está triste porque se vê obrigada a surrar Crystal, faz por dever, mas detesta isso, assim como detesta fazer o papel de megera toda vez, no entanto ninguém conseguiria fazê-lo, por isso você o assume. Você é doce por dentro, Yumi, eu sei disso, mesmo sem ter provado. Permita-me provar... — o peso de seu corpo encurralou o que estava embaixo.
— E aquele canário histérico? Já se esqueceu dele? — questionou com dificuldade. Afastou alguns fios de cima dos olhos da Sirena, precisava analisá-los meticulosamente para ver se mentiriam.
— Faça amor comigo e eu nunca mais permitirei que ele toque em um fio de cabelo meu. — soou séria e decidida.
Olharam-se outra vez, verde e prata arregalados. O instinto que hibernara por tantos anos incendiou-se, em questão de segundos Yumi rolou sobre Mizumi e a encurralou entre os lençóis. E devorou-a, sem piedade, beijou-a como se o mundo fosse acabar. As pernas enroscaram-se, vento e mar despiram-se sem pudores. Aquilo se consolidaria em um ato desesperado e necessitado se ambas não ouvissem o ruído da porta se abrindo, e seguido disso um homem arrasado entrou, fitando-as em silêncio.
— Passarinho?! — Mizumi exclamou estarrecida.
Yumi, calma, cobriu-se em um lençol e saiu de cima da acompanhante. Sentou-se e encarou-o, seca, silente, alimentando certa expectativa. Águia, incoerente, riu. A gargalhada empesteou todo o quarto, insana. A mão nervosa cobriu a face, massageou a testa oleosa de suor frio.
— Eu ouvi tudo! — declarou em misto de fúria e decepção — Então é isso, eu sou um brinquedo para você? Quando você trepa comigo é nisso aí que você pensa? — apontou o zéfiro indiferente — Isso é ridículo! — caminhou pelo quarto, de um lado para o outro. O primeiro vaso de flores que encontrou, derrubou no chão com toda a força que tinha. Urrou, como uma fera.
— Eu sinto muito, Olho de Águia! — sentou-se também, não fez esforços para cobrir a nudez — Nunca o enganei, você sabe disso! Sinto muito se parti seu coração!
— Não fale bobagens, era só sexo! Acha que sou o quê, um namorado babão?! — foi ríspido — Mas você me enganou sim, poderia ter me dito desde o início "Oh, Passarinho, me desculpe, mas eu gosto de mulher" e eu nunca teria tocado em você, vadia! Você é um lixo!
— Passarinho... — sussurrou desacreditada. Quando deu por si, uma lágrima escorreu pelo canto do olho, as ofensas acertaram-lhe como farpas afiadas. Yumi não disse uma palavra.
— Nunca mais me chame assim! — soou grave, em cada feição a raiva gritava sua presença. Em passos pesados saiu do dormitório.
— Viu o que você fez? — Sailor Wind não teve piedade. — Você causa estrago por onde passa.
— Eu não queria... eu... — cobriu o rosto com as mãos, chorou como uma criança.
— Vista-se e vá, você precisa de um tempo para pensar.
—... pensar? — fitou-a aos prantos — Pensar sobre o quê?! Acho que tudo está mais claro do que água! Você não vê?!
— Saia! — rugiu como um leão. Sem forças, Mizumi vestiu-se às pressas e acatou desconsolada.
...
— Você tá maluco?! O que você pensa que tá fazendo?! — Olho de Tigre tentou conter a ira de Águia, mas foi empurrado com tamanha força que caiu sentado, as costas entraram em atrito com a parede da sala de jogos.
O amigo, descontrolado, quebrava todos os copos do balcão lançando-os à parede do bar, em uma das mãos segurava uma garrafa de vodka, bebia o líquido áspero no gargalo nos intervalos entre um arremesso de copo e outro. Insatisfeito em destruir coisas de vidro, encaminhou-se à mesa de bilhar, pegou os tacos e partiu-os ao meio, jogou os pedaços ao léu, arremessou as bolas sem direção certa, Tigre teve de se esquivar para não ser acertado por uma e tentou segurá-lo outra vez, através de um mata-leão. Olho de Águia debateu-se, os dois rolaram e uma luta entre ave de rapina e grande felino se deu início.
— Para de tentar me bater! — Tigre segurou-lhe os punhos fechados — Não desconta a sua raiva em mim, Olho de Galinha! — praguejou e empurrou-o. O moribundo e bêbado Amazona rolou pelo chão, de repente a raiva tornou-se choro gorjeado — Ei! — Olho de Tigre tentou se aproximar e tocar-lhe os ombros.
— Sai! Me deixa sozinho! — gritou e escondeu o rosto, envergonhado pela cena — Sai daqui!
Foi obedecido, ficou só, enfim. Disse não estar apaixonado, mentira. Era alucinado por Mizumi. Pela primeira vez, Olho de Águia confrontou a sensação de ser desprezado por uma mulher que amava, fora a primeira paixão verdadeira, e, também, o primeiro coração partido.
Passos sobre os cacos de vidro soaram, serenos.
— Sai daqui, Olho de Tigre! Me deixa em paz! — entre soluços, ordenou. Não olhou para trás.
Mãos suaves tocaram-lhe os ombros e acalmaram-lhe os espasmos. A voz feminina, conhecida, alcançou-lhe os ouvidos:
— Que tal desabafar comigo já que não se sente a vontade com Olho de Tigre?
— Sailor Saturno?! — surpreendeu-se e enxugou os olhos na mesma hora — O que está fazendo aqui?!
— Ouvi os estrondos, pensei que estivéssemos sendo atacados por algum inimigo, então encontrei Olho de Tigre no corredor e ele me contou... Imagino o que possa ter acontecido. — sentou-se ao lado dele no chão.
— Cuidado, você pode se cortar! — alertou-a. Ela não se importou.
— Mizumi, não é?
Só de ouvir o nome, não conseguiu controlar o choro. Encolheu-se todo, tremelicando. Os braços dela envolveram-no e, com uma das mãos, Hotaru fez-lhe cafuné como se o guardião onírico não fosse nada além de um menino assustado.
— Shh... Shh... vai passar... — pousou o queixo no topo da cabeça do rapaz. Ele, surpreso e nunca antes tão acalentado, tranquilizou-se aos poucos.
— Obrigado... — murmurou sonolento e abraçou-a de leve — Você é um anjo, Hotaru, um doce anjo... — ainda alterado pela bebida, aninhou-se no colo dela e adormeceu. A melhor amiga da Rainha corou levemente e sorriu satisfeita por vê-lo mais calmo e descansado.
— Olho de Tigre! — chamou — Pode entrar, vamos colocá-lo na cama!
...
No novo dia de treinamento, Sailor Wind parecia mais voraz do que das últimas vezes, com poucos golpes quase fez a princesa desmaiar.
— Reaja! Por que você não reage, sua idiota?! — bradou furiosa, os dedos cravaram-se nas palmas, quase rasgaram as luvas — Lute! — chutou-a, caída ao chão. — Lute! — havia emoção, era raiva, o sangue fervia.
— Por que você está tão triste? — abriu um dos olhos e fitou-a, compassiva.
Yumi caiu de joelhos e começou a esmurrar o chão arenoso. A névoa ao redor de si afastou-se como se a temesse. Ela gritou algumas palavras ininteligíveis. Crystal sentou-se de frente a ela e ficou a observá-la.
— O que está olhando? — questionou bruta — O que está olhando?! — derrubou-a novamente com um único tapa. — Se não revidar, juro que vou matá-la! — viu-a sorrir — Do que está rindo?!
— Você não quer isso... — disse com dificuldade. — Nenhuma de nós quer...
— Nossos desejos não tem nada a ver com isso! Sequer temos o direito de ter desejos, sequer temos vida própria! — pôs-se sobre a menina e contornou seu pescoço com as duas mãos — Você é uma mera reencarnação, portanto não tem uma alma só sua, e nós, as guerreiras, não passamos de sombras das antigas, fomos forjadas de suas sementes estelares, nunca tivemos família, nunca tivemos nada! Nós não passamos de poeira de estrelas, de cacos reunidos! Seres sem alma não podem sentir, não podem viver! Somos bonecas de barro, ocas, feitas para obedecer a comandos, é isso o que somos! Portanto, é o que faço! — viu-a sufocar, não desfez o aperto mortífero — Se a ordem que me foi dada foi lutar, então eu lutarei! Não importa se você revidará ou não, jamais deixarei de fazer a minha parte! — depois da amarga declaração, vislumbrou a expressão entristecida da garota a quem sempre protegeu, os olhos inundados, os lábios trêmulos, estava chorando. — Pare de chorar! — o grito ecoou por todo o cenário fictício — Chorona, sempre chorando pelos cantos, se lamentando! Onde está a sua dignidade?! — os espelhos dilataram-se à face, mãos gentis cativaram-na, a sua vítima sorria amistosamente, o sorriso era tão poderoso que a desarmou no exato instante em que se fez presente. Desfez o nó assassino no pescoço dela, viu-a sugar longa dose de ar e tossir. — Por quê? Por que me deixa fazer isso? Por que me deixa atacá-la? Por que não faz nada?
— Nenhuma de nós somos bonecas ocas, temos nossas almas sim! — buscou as mãos da guardiã, entrelaçou os dedos aos dela — Somos amigas... — uma cálida energia emergiu de seu interior, resplandeceu do broche e emancipou-se, atingindo o corpo que jazia sentado sobre o dela — Não importa o que aconteça, devemos sempre estar unidas, sempre! Você pode ser durona, Yumi, mas eu te amo. Eu te amo como amo Hina, Reiko, Marine, Mizumi, Hotaru, todas! E eu as amo como amo meu povo, minha casa, minha família! — o brilho intensificou, determinação transbordou dos olhos azuis, as lágrimas secaram e deram espaço a traços benévolos — Por isso, nunca as machucarei! — as duas começaram a flutuar, Yumi não conseguiu mais se mover — Temos uma missão em comum, Wind! Devemos nos unir e não nos espancar! Se queremos ser fortes, devemos ajudar umas as outras, devemos descobrir juntas como aprimorar nossos poderes! A nossa união é nossa verdadeira força! — abriu os braços, atrás de si o espectro de uma vida passada ressurgiu, abraçando-a, o Cristal de Prata adquiriu todas as cores de um arco-íris místico, o Cristal Dourado surgiu como uma estrela cadente e fundiu-se à outra pedra, e, por fim, grandes asas brancas brotaram nas costas de Sailor Love. A tiara desapareceu da testa, abriu espaço para a Lua Crescente, preciosamente dourada — Nós devemos ser inseparáveis! Se existe um destino, esse é o nosso! — ergueu a mão à sua agressora. Sailor Wind, estupefata, rendeu-se àquele poder e uniu-se a ela. Foi tomada em um caloroso abraço, repentinamente, a aura pueril a fortaleceu. O broche aqueceu-lhe o peito, brilhante. Cogitou que nos outros cenários de mentira, todas as meninas pudessem sentir aquela força superior. E estava certa. Cada uma delas foi envolvida pela luz ebúrnea de Crystal. Os broches resplandeceram suas respectivas cores. Mesmo o de Sailor Phantom, a loba solitária.
Neherenia sorriu satisfeita de onde estava.
— Finalmente conseguiram... — comentou.
Do broche de Sailor Acqua, um tridente talhado em água-marinha se materializou aos poucos, assim que o tocou, o corpo inteiro entrou em colapso e depois se recuperou, mais forte do que jamais fora. Do broche de Sailor Nature, uma nuvem de borboletas coloridas voou e transformou-se em um chicote trançado de cipós e todos os tipos de flores, o objeto adquiriria o tamanho que ela desejasse, e que os inimigos jamais se permitissem enganar pelas aparências, pois aquelas plantas não murchariam ou se despedaçariam, a vítima que se visse enroscada por aquela arma poderia perder membros facilmente. Sailor Ocean contemplou uma enorme concha feita de madrepérola materializar-se diante de si, dela os mais diversos sons emitiam-se, inclusive uma voz misteriosa que informou-lhe:
— Quando estiver próxima ao mar, me chame. Meu nome é Caríbdis.
Sailor Phantom, por sua vez, viu-se desarmada diante do homem que adquiriu forma a partir do espectro azul. Sailor Saturno caiu sobre os joelhos, atônita com a imagem do indivíduo que a tomara como esposa há muitos anos atrás. Os cabelos escuros, quase avermelhados, bailavam, os olhos verde-petróleo como os de Valkyria cintilavam, nas mãos dele uma robusta espada que de pé provavelmente teria quase a mesma estatura da guerreira. O cabo púrpuro possuía opalas coloridas cravadas em seu todo. A lâmina, transparecida, parecia feita do mesmo material que as pedras preciosas, raios formavam-se em sua ponta afiada.
— Essa arma é sua, parte do meu espírito está nela e irá protegê-la. — o espectro explicou, em seguida direcionou o olhar à antiga amada e sorriu. — Cuide da Espada Ceifadora, escolha com cuidado quem cortará com essa lâmina, pois as almas das vítimas nela ficarão presas.
— Papai! — como gostaria de abraçá-lo, mas era nada além de uma aparição metafísica.
— Tenshi... — Sailor Saturno sussurrou. A figura flutuou até ela e tocou-lhe a foice. Uma aura azulada a envolveu, Hotaru sentiu-se aquecida.
— Você está em sua última forma, ainda assim, há um pouco de mim que pode passar para você e fortalecê-la. Poderá usar seu máximo poder, ao menos uma vez, sem arriscar sua vida.
— Espere, não vá! — tentou segurá-lo, porém, o fantasma desapareceu como fumaça e retomou a forma de um orbe azul que sobrevoava o ombro de Sailor Phantom. — Ele está em paz? — direcionou a pergunta ao fruto de seu amor perdido.
— Ele sempre esteve entre nós e sempre estará, ao menos enquanto eu existir. — afagou a luz índigo que a rodeava.
Sailor Fire pensou que o corpo fosse incinerar. Olho de Águia afastou-se com medo de queimar junto. Um fogaréu a consumiu, ela abraçou a si própria tentando controlá-lo. O broche ardia vermelho, em brasa, fumaça abandonava-o.
— O que é isso? — tremeu até em espírito, as chamas eram intensas e tomavam conta de tudo o que fazia parte dela.
Liberte-me! — ouviu — Deixe-me sair! — a voz era imponente, rosnada.
Hina abriu os braços, fechou os olhos e entregou-se, o fogo que a contornava subiu aos céus e assumiu o formato de um enorme dragão. Os olhos verdes contemplaram-no extasiados, aquele fogo materializado em criatura mitológica desejava sair de seu corpo há tempos, talvez por isso sentisse-se em chamas a todo instante. Ele era a Fênix em forma de um magnânimo réptil alado, e era dela. Era a manifestação de seu poder.
— Eu sou a sua força, — a criatura afirmou, os olhos de pirita rubra brilharam — eu sou você — as asas ruflaram, provocando ventania, o gigante de fogo parou diante dela e encarou-a, majestoso — Dê-me o nome que quiser, invente um comando, e eu virei. Eu sou a arma de que precisa.
Sailor Wind, por último, desfez-se do abraço quente e foi envolvida por um furação gelado e cinzento. Nuvens tempestuosas cercaram-na por todos os lados, os raios a atingiram, entretanto, nenhuma faísca causou-lhe dor ou feridas. Sailor Love observou atentamente dois objetos formarem-se diante da Mãe de Todos os Ventos: machados cujos cabos eram incrivelmente prateados, límpidos como espelhos, as lâminas perigosamente afiadas eram transparentes, por dentro ventos esbranquiçados formavam tormentas, bastava que a guardiã girasse as armas para provocar calamitosos furacões constituídos de vento, eletricidade e gelo, verdadeiros titãs.
— Wind, você é incrível!
— Eu não fiz nada, você fez. — fitou os machados que nasceram dela própria, a luz de Crystal os circulava, aliás, envolvia tudo. Não havia mais cenário nebuloso, pântano, vulcão ou cemitério. O branco cintilante contornou a todos, depois, pequenas rachaduras trincaram nas falsas paredes e elas se desfizeram como se fossem cacos de vidro. Para a princesa, assistir um cenário desmoronar tornara-se comum, não se assustou, na verdade, felicitou-se assim que todas as outras companheiras surgiram à sua volta, em ciranda, e ela no meio. O lume ainda as amparava, finalmente dividido nas cores dos elementos de cada uma. O Trio Amazonas e a rainha Neherenia , por fim, juntaram-se às poderosas marinheiras. O dragão de Sailor Fire retornou ao broche, assim como a concha de Sailor Ocean, o tridente de Sailor Acqua, o chicote de Sailor Nature, a espada nórdica de Sailor Phantom e os machados de Sailor Wind. No entanto, Crystal, por sua vez, assistiu se formar da pedra colorida em seu peito um grande báculo, o mesmo que surgira a sua frente em Elysium. Ela o abraçou e fechou os olhos.
Você conseguiu... — a voz que a ajudara certa vez, daquela mulher que era considerada uma Deusa Branca, ecoou nos ouvidos, na mente e no coração — Estou orgulhosa de você!
— Vovó, você me ajudou, não foi?
Estive ao seu lado o tempo todo, mas você foi a responsável por tudo isso. Você criou uma nova joia mística! Além de ser a única capaz de utilizar o máximo poder de purificação, você tem o dom da fantasia, de transformar pesadelos em sonhos, de trazer a esperança de volta. Apenas um coração repleto de amor poderia fazer algo assim. — um abraço, ela jurou senti-lo — Você é forte, e você é a força. Sem você, elas perecem.
— As guerreiras da Lua Branca só serão invencíveis se você as guiá-las. — Neherenia fê-la abrir os orbes e sair do transe.
Ela desejava fazer muitas perguntas à criatura que aparecera à sua frente. Mas, viu-se diante de uma realidade que era mais importante: não estava sozinha, tinha amigas que dependiam dela, e de quem dependia. Um largo sorriso formou-se expondo os dentes, Crystal, impulsiva, jogou-se nos braços de todas. Elas se apertaram, riram juntas, orgulhosas e satisfeitas por finalmente entenderem do que aquele treinamento se tratava:
— As forças de vocês, não importa se da mente, ou do corpo, se superam pelo objetivo comum. Eu as testei, é verdade. Nem mesmo os reis conheciam o meu verdadeiro objetivo. Quis ver se vocês se deixariam levar pelos instintos, e até onde iriam para defender seus corpos. Algumas de vocês quase se deixaram levar pela raiva ou pela vaidade — fitou Sailor Nature, Sailor Aqcua e Sailor Ocean —, nos primeiros dias sentiram prazer ao atacar o oponente, eu vi e temi. Todavia, conforme o mês se passou, vocês começaram a perceber que havia algo de errado, Sailor Phantom e Sailor Saturno descobriram as minhas intenções desde o princípio... O foco era ela. — cravou as pupilas douradas no assunto: — A princesa. Os amigos ferindo uns aos outros era o incentivo para que o coração puro fosse invocado. Somente ela poderia destruir a realidade que criei, assim como sua avó. Por isso, a incentivei como pude, não foi à toa que escolhi Sailor Wind como sua adversária. Você está pronta, Sailor Love. — andou até a menina e tocou-lhe os ombros — E preparou suas amigas. Lembre-se, este é apenas o início. Agora que aprenderam que juntas têm a força, devem aprimorar seus poderes, nunca se sabe quando serão necessários. Algumas de vocês precisam aprender a controlar seus espíritos, suas novas armas nada mais são do que pedaços de suas almas, não se esqueçam.
— Como pode saber tanto, Neherenia? — Sailor Saturno não conteve a pergunta — Você sempre esteve longe, sequer convivia conosco...
— Há muitos anos atrás, Ela me procurou em sonhos, e disse-me algo que a princípio não entendi. — sorriu saudosa — Neherenia, — parafraseou-a — um dia, você será convidada a um baile, lá você conhecerá o Futuro representado em uma simples menina. Os olhos serão os meus, mas não se engane! Os cabelos serão da cor de um dos doces que eu mais gostava de comer, repare-os bem, — riu-se — pois, à dona dos cabelos de chocolate você deverá ensinar uma lição: força não se resume a ferocidade, força não é sinônimo de amargura ou de insensibilidade. A força jaz na determinação de proteger, de fazer o bem, de não se permitir corromper e cair. A força jaz no coração. — encerrou a mensagem com lágrimas nos olhos — Sailor Love, enquanto houver amor em você, você será forte. Minha missão está cumprida.
Pouco a pouco, como se pincelado pelo mais talentoso dos pintores, o salão real se formou ao redor deles. Helios, Rini e Damien aguardavam-nos ansiosos, tiveram de proteger as vistas quando as Sailors ressurgiram, seus uniformes cintilavam fortemente, assim como os diferentes cabelos e olhos. As pedras cravadas nas tiaras piscavam, as asas colossais de Sailor Love enredavam-nas, algumas penas planaram pelo cômodo, uma derramou-se à mão do príncipe de Sedna.
— Majestades, — os cabelos negros e fartos esparramaram-se pelo piso enquanto ela os reverenciava — Elas foram devidamente treinadas e estão prontas para o que vier. Cumpri o meu papel, agora me despeço de todos. Regressar às minhas terras é minha obrigação.
— Seremos eternamente gratos pelo bem que nos fez. — Helios declarou. Por baixo das madeixas noturnas um fino sorriso o respondeu.
— Será sempre bem-vinda em Tóquio de Cristal. — Rini finalizou.
Enquanto as formalidades continuaram, Crystal pensava sobre a última sessão. Um amor profundo abraçara-a desde então. Ela fitou cada uma das companheiras de batalha e se viu aquecida. Aquelas pessoas cresceram com ela, eram como suas irmãs. Sailor Wind, embora rígida, encarava-a sutilmente, nos orbes espelhados uma estranha serenidade se emanava, Sailor Love lhe sorriu.
"Por eles, por minhas amigas, por minha família, eu superarei qualquer coisa"! — e atentou-se aos pais — "Não tenho o direito de ficar triste se tenho tanto para me fazer feliz"... — e fitou Damien discretamente — "Tantas pessoas dão tudo de si para me fazer sorrir, eu devo agradecer por ter uma vida tão plena". — suspirou — "Só gostaria de poder retribuir, só gostaria que todos fossem felizes, que não existisse mais uma alma errante e sofrida nesse mundo" — lembrou-se da assombração de seus sonhos, a garganta secou drasticamente. — Eu preciso ajudá-la! —sussurrou decidida.
À noite, tão logo deitou para dormir, concentrou-se. Nas mãos, acima do peito, abraçava o broche, a pedra furta-cor brilhou singela. De olhos fechados, deu tudo de si para alcançar os sonhos de Diamante, pois sabia que antes de encontrá-lo, a assombrada garota surgiria para impedi-la, e assim se sucedeu.
— Você, de novo! — Ametista deu o ar de sua graça. As duas se confrontaram em uma imensidão escura e vazia, debaixo de seus pés, como se pisassem em um espelho, os reflexos perfeitos imitaram seus gestos. A jovem pequenina dos cabelos lilases trajava o kimono de quando era soberana, Crystal, em contraste, estava na última forma de Sailor Love, algo similar à Eternal Sailor Moon, diferente pelas cores cor-de-rosa, púrpura e dourado dos detalhes.
— Eu quero te ajudar... — o tom amistoso da marinheira contrastou com o raivoso da Black Moon. — Eu quero te entender...
— Mentirosa! Você quer que eu abra caminho para que possa manipular os sonhos do príncipe! — rosnou.
— Não. — destemida, Sailor Love só parou de andar quando estava bem próxima de Ametista. — Dessa vez, eu vim por você.
Antes que pudesse esbravejar novamente, viu-se desarmada pelo olhar mais sincero e compassivo que confrontou.
—... Por mim? — lembrou-se de Quartzy, sua doce irmã de criação, só havia visto doçura similar naquela criatura. Quase cedeu, porém, o pequeno sorriso que se formou nos lábios fechou-se, uma gotícula escorreu dos olhos, quase impossível de se ver. — Não importa, mesmo que seja verdade. É tarde...
— Não diga isso! — tocou-lhe os ombros, uma aura ebúrnea as envolveu — Nunca é tarde!
— Para você é. — insistiu, o corpo transpareceu e começou a se desfazer em pontos de luz. Crystal percebeu o que ela era:
— Você não está mais viva... não é? — choramingou emocionada. A tristeza da outra alcançou seu coração. — Você está tão sozinha... Eu sinto muito! — abraçou-a antes que pudesse desaparecer.
— Não tenha pena de mim, eu não tive de você. — os olhos pesaram, no entanto mantiveram-se abertos por um triz, opacos — Posso ir para o inferno por isso, mas não me importo, eu o fiz.
— O que você fez? — de algum modo, o jeito como Ametista falou a congelou por dentro, algo horrível estava por vir da boca dela, sabia, e estava certa:
— Não importa que você tenha forjado essa pedra, — os dedos franzinos apertaram o broche enquanto ainda tinham tato — ou que seus poderes tenham ascendido, o seu coração pode ser o mais bondoso de todos, e ainda assim, você não me perdoará por isso. — sorriu — Você poderá caminhar por todos os vales oníricos, poderá acalentar a fantasia dentro de cada pessoa que você desejar, exceto os sonhos de príncipe Diamante, nesses você jamais pisará outra vez.
—... O quê? — os olhos perderam o brilho.
— Eu os selei, para todo o sempre! — desapareceu como se nunca houvesse existido. Afinal, a presença de uma Sailor Love fortalecida fora o suficiente para purificar o resquício de seu ser que teimava em existir para resolver assuntos inacabados.
Em Nemesis, acampado em um bosque sombrio de cristais negros, Diamante se retorcia em pesadelos. Durante trinta dias sonhara com gritos, sofrimento, fome, morte e escuridão. Não encontrara um sobrevivente, nada, todos morreram de fome, e em breve, se não fizesse algo, os residentes da morada real seriam os próximos, inclusive ele. Esforçava-se para se lembrar do calor do sol, do cheiro da terra molhada, no entanto, já quase duvidava que um dia os conhecera. Somente um pequeno trecho de seu coração não se rendeu à amargura, aquele onde a esperança do reencontro amoroso pulsava intensa. Jade enxugava seu suor todas as noites e tentava conter os espasmos do corpo, causados pelos sonhos perturbadores.
— Ele está enlouquecendo! — a escrava alforriada comentou apavorada.
— Crystal! — chamou o nome, sonâmbulo.
— De novo? — Akai, ajoelhada do outro lado, bufou entediada — É um chorão! Isso sim! Chama por ela toda vez que dorme!
— Daqui a poucos dias voltaremos para o palácio, e olhe para ele! Está aos cacos, pronto para ser devorado por Onyx e Topázio! Ele precisa encontrar forças, ou então, sucumbirá!
— Crystal! — outro grito obcecado, doentio, e ela não surgia, não podia ouvi-lo, não podia salvá-lo do que estava por vir...
Oh, como eu anseio por uma chuva reconfortante
Tudo o que desejo é sonhar novamente
Meu coração amoroso, perdido nas Trevas
Por Esperança eu daria tudo de mim...
Continua...
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