A Minha Queda Será Por Você
43 A queda
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 43 – A Queda
— Você tem ficado tanto tempo sozinho aí... Acho que Olho de Tigre deve estar com saudades de jogar cartas e bilhar com você. — Hotaru surgiu por trás do banco onde Olho de Águia estava sentado, no centro dos jardins.
— Que nada! — riu breve — Ele anda ocupado demais com a namoradinha dele, e Olho de Peixe está lá em Elysium quebrando a cabeça para treinar uma gatinha. Eu sobrei. Mas quer saber? —despojado, inclinou a cabeça para trás e apoiou-a nos braços. — Gosto de ficar aqui olhando para esse cenário. — fixou a vista nas copas alaranjadas das árvores, e, depois, no caminho dourado de folhas caídas sobre as pedras brancas.
— Ah sim! Valkyria gosta muito do outono também. — sentou-se ao lado dele — É a estação da renovação. E, aqui, acho que é ainda mais bonita. As árvores só secam no inverno, depois de cobertas pelos flocos de neve... É como um Conto de Fadas, não é?
— Posso fazer uma pergunta inconveniente?
— Bem, agora que você já se anunciou é melhor que faça. — fitou-o com as sobrancelhas arqueadas de curiosidade.
— Você e Valkyria... — pigarreou, sem graça — São como Mizumi e Sailor Wind?
Hotaru riu até chorar. O rapaz afastou-se a ponto de uma nádega desgrudar do banco, quase caiu do assento, balançou os braços na tentativa de manter o equilíbrio. Sailor Saturno puxou-o pelo pulso para ajudá-lo, não soube medir a força e acabou por aproximá-lo mais do que intentava.
— Você é uma piada! — recompôs-se e retomou distância — Eu e Valkyria temos um elo muito forte sim, mas não é nada disso que está pensando!
— Ainda bem! — aliviado, soltou sem pensar. Um rubor repentino esquentou-lhe a face e, em seguida, Águia cobriu a boca com as mãos. — Erh... — riu — Digo, ah tá! Entendi! — estufou o peito e jogou os cabelos para trás, ajeitando-os e recuperando a pose galante de outrora.
— Não está tentando jogar seu charme para cima de mim, está? — cruzou os braços, desconfiada e brincalhona ao mesmo tempo. — Bom, já que nesses últimos dias nos aproximamos, não vejo problema em contar para você... Valkyria é minha filha.
— Como é?! — exclamou, e dessa vez caiu mesmo do banco. O piso tremeu levemente.
— Sou viúva, Olho de Águia. — suspirou e sorriu nostálgica.
— Então, você já foi casada... — passou a mão pelos fios arrepiados, folhas secas caíram das mechas róseas. — Eu sinto muito por você, Hotaru, mesmo sem saber o que aconteceu...
— Um dia eu posso te contar. Quem sabe? — ficou de pé e estendeu a mão a ele. Cuidadoso, o guardião onírico segurou-se nela e ergueu-se também, ficaram de frente um para o outro — Que tal passearmos pelos jardins? Desde que as meninas começaram a estudar no colégio Juban tenho muito tempo livre... Pode me ajudar a matar esse tempo?
— E eu já não ajudei todos esses dias? — suspendeu o braço quase na altura do peito, oferecendo-o a ela. — Vamos!
— Engraçadinho, — mesmo se fazendo de contrariada deu o braço a ele, — Se não fosse por mim você ainda estaria chorando pelos cantos por causa da Mizumi!
— Tem razão. — abriu um sorriso tão cativante que a Marinheira do Silêncio corou — Obrigado por me ajudar a superá-la...
— Vamos logo, sim? — alguns fios negros cobriram-lhe a face quando a cabeça baixou encabulada. Era uma mulher adulta, mais velha do que a maioria das que residiam ali, e ainda assim, talvez por ter vivido tanto tempo sozinha, situações como aquela a desconcertavam.
De longe, no palácio, através de uma janela, uma sereia despedaçada observava-os até que sumissem nos tons de laranja, dourado e vermelho. Conformada, afastou-se do vidro e fechou as cortinas. Poderia não estar apaixonada pelo homem, mas lhe massacrava o orgulho vê-lo superá-la tão rápido, Ela, uma Sedutora Criatura Marinha. Eis sua punição: ser facilmente esquecida depois de tanto ter sido amada e não ter se dado por satisfeita e, pior, ser ignorada pela mulher amada todos os dias.
No fim das contas, suas fiéis amantes eram as vagas salgadas. A ela pertencia uma alma oceânica, uma alma solitária.
...
Três dias depois os primeiros flocos de neve adornaram os parapeitos das janelas e o chão das sacadas anunciando a chegada do inverno.
— Neve! — Crystal, animada, correu até os jardins, toda encasacada. Rodopiou e aproveitou-se de cada sensação. O frio suave beijou-lhe o rosto, os cílios selados, os ombros e os cabelos, o tapete branco se fez na terra em poucos instantes somente para demonstrar a magnificência da Mãe Natureza.
— Vai pegar um resfriado! — uma bolinha de neve acertou a nuca da princesa, certeira. Marine, a responsável, riu.
— Marine? — emburrada, abaixou-se e catou boa quantidade de gelo branco, quando ergueu os braços para arremessá-lo, destrambelhada como era, fê-lo cair todo sobre ela própria. A lourinha adiante caiu na gargalhada.
— Também quero brincar! — Reiko, do outro lado, tentou acertar as duas.
— Cadê a Hina, hein? — Crystal, encharcada, finalmente perguntou.
— Ah, está no coreto tocando piano, como sempre! — Reiko comentou — Ultimamente ela tem se isolado que só... Opa! — surpreendeu-se quando sentiu um abraço caloroso suspendê-la, Olho de Tigre surgiu por suas costas.
— O que estão aprontando? — o Amazona beijou o canto do rosto da namorada. Riram juntos.
Crystal imaginou-se com Diamante vivenciando a mesma cena. O inverno, branco e frio, fazia-a rememorá-lo. Quando Tigre, Reiko e Marine começaram a jogar conversa fora, ela aproveitou e se afastou. Decidiu ir até o coreto para ver como sua amiga ruivinha estava e, conforme chegava perto do destino, o soar de uma melodia romântica tornava-se mais vibrante. Entrou no círculo de cristal e contemplou-a, imersa em cada nota, tocando-as como se fossem uma serenata para alguém.
— É lindo, Hina. — o comentário a fez parar de imediato.
— Crystal... — por segundos, pensou ver Saphiro à porta, mas era a confidente. — Obrigada...
— Por favor, não para de tocar. — sentou-se ao lado dela, dividiram o banco.
— Crystal, você acredita que eles vão voltar para nós? — pousou os longos dedos sobre as teclas brancas e negras, os orbes verdes transbordaram insegurança — Faz meses, mas sinto como se fossem séculos.
— Temos que ter esperança, Hina. Enquanto não me provarem o contrário, acreditarei que ele ainda me ama!
— Mas e se eles nunca voltarem? Até quando acha que aguenta esperar? — soluçou chorosa.
— Até quando você aguenta? — olhou-a, interrogativa.
Não houve resposta, não em palavras. Primeiro uma nota, depois outra, e então a música falou por Hina. Sobre as pautas da partitura, um pequeno refrão escrito, era o único trecho que possuía letra. Crystal o cantarolou:
Esperarei pelo seu amor eternamente
Faça de conta que só existimos nós dois
Me apego aos sussurros do seu amor
Tudo o que somos é um sonho antes do amanhecer.
...
— Está tudo pronto, irmão. — Saphiro anunciou.
— Perfeito. — Diamante levantou do trono e teletransportou-se para fora do palácio, acompanhado pelos súditos. Diante de seus olhos os óvnis negros se impuseram predatórios, magnânimos e invencíveis. O olhar se manteve inexpressivo, mas os lábios sorriram satisfeitos.
...
— Sailor Phantom? — o homem desfez-se do capuz para olhá-la melhor. Estava parada diante do palanque, quieta e pensativa. — O que faz aqui?
— Me pergunto quando ela se dará por vencida... — confessou.
— Sendo neta de quem é, pode ser que nunca. — estancou ao lado dela. Ambos pregaram as pupilas no microfone encaixado à haste metálica. — Mas, se tiver juízo, vai parar de fazer esses shows deprimentes.
— Você acha que ela é a reencarnação de Sailor Moon, Hakaru?
— Se ela quiser ser respeitada, é bom que seja. — deu de ombros, zombador — Essas pessoas alienadas só pensam em Rainha Serena e Rei Endymion de qualquer modo... Mal respeitam a atual rainha, imagine uma que defende nossos inimigos? Ela não tem chance!
— Você fala com tanta propriedade... Me faz pensar que está tramando alguma coisa, você e aquele seu grupinho de baderneiros. — pousou a mão ao cabo da espada embainhada na cintura.
— Vai me matar? — destemido, virou-se para ela, abriu os braços e sorriu — Eu não tenho medo, você sabe.
Valkyria puxou a espada, o ar em volta uivou, as opalas nela cravadas cintilaram e, num piscar de olhos, a lâmina mortífera cutucou o queixo de seu alvo imóvel e sorridente. A senshi o fitou profunda, séria e grave. Desafiador, Hakaru levantou uma de suas sobrancelhas espessas em resposta.
— O seu olho bom, o que acharia de perdê-lo? — ameaçou-o.
— Você não vai me machucar.
— Quer apostar? — pressionou a lamínula contra a pele a um milímetro de cortá-la. — Se eu perfurá-lo com essa espada, sua alma ficará presa dentro dela.
— Ao menos estarei sempre perto de você. — fechou os olhos, tranquilo. Sailor Phantom guardou a arma de volta na bainha.
— Você esteve na rebelião contra os descendentes da Lua Negra. Estou errada?
— Eu fui o líder do movimento.
— Por quê?
Hakaru apontou com o dedo indicador a cicatriz sobre o olho cego e respondeu:
— Jamais confie em um Black Moon, aprenda essa lição.
...
— Vocês estão se evitando. — Marine declarou assim que avistou Damien passar ao seu lado no largo corredor — Por quê?
O príncipe parou, brusco, e riu baixinho. Quando se conheceram, a garota dos cabelos amarelados o tratava na maior das cerimônias, nem parecia a mesma que o abordara agora, firme e autoritária. Virou-se e encarou-a de frente, passou a mão pelo próprio queixo e, a seguir, coçou a têmpora.
— Eu vi que ela sentou longe de você no café da manhã. Hoje não tivemos aula, era dia de fazermos alguma coisa pela cidade e Crystal resolveu ficar em casa justamente na hora em que você iria propor algo, não é? E não me venha dizer que é impressão minha! Você está esquisito...
— Tem razão, não consigo esconder nada de você. — deu-se por vencido — Ontem aconteceu algo estranho, e desde então ela mudou comigo.
— Você é um molenga! — resmungou — Por que acha que ela gosta do outro? Ele tinha atitude, enquanto você faz pose de rapaz respeitador, bom moço, o que sabe esperar! — cruzou os braços rentes ao busto, as bochechas esquentaram.
— Marine?! — Damien gargalhou — Você fala como se tivesse tanto conhecimento das coisas, mas sobre isso você sabe que não tem. Nunca a vi com ninguém, aposto que nunca foi beijada! —brincou — É até estranho, porque você é uma garota bonita e interessante, qualquer um teria sorte de ser o primeiro a te beijar.
— Ora! — adquiriu o tom de uma maçã bem madura e suculenta, os músculos endureceram e ela, instintiva, estapeou o ombro do sedniano. — Vira homem e corre atrás dela, besta! — ralhou.
— Que mão pesada! — o corpo reagiu a pancada num bamboleio, Damien recostou a mão sobre o ombro atingido, risonho — Mas isso confirma a minha teoria, não é?
— Não ligo para assuntos românticos, primeiro quero me formar! — justificou de nariz empinado.
— Vou pensar no que você disse Marine. Obrigado. — arrepiou os fios dourados no topo da cabeça dela.
— Ei, ei! — primeiro reclamou, depois achou graça junto com ele. Então, Damien se foi e o par de águas-marinhas o acompanhou até que desaparecesse entre as paredes de cristal espelhado. O coração esquentou dentro do peito, com uma mão entre os seios o camuflou, a face persistia no tom avermelhado, e um sorriso bobo denunciava-a.
— Você gosta dele. — Olho de Tigre ecoou certeiro. De braços cruzados, sorridente, ele se encostara à parede e a observou.
— Cadê a Reiko? Até que enfim se desgrudaram! — irritada, mudou de assunto.
— Se eu fosse você, desistiria. — passou por ela — Não há chances.
— Ah, não vem! Isso é recalque porque eu não quis nada com você?! Além do mais, não me imagino com ele, se é nisso que está pensando! Eu quero mais é que príncipe Damien e princesa Crystal se acertem e sejam felizes! — soltou.
— Está enganada, Marine. Me importo com você e não quero que sofra, porque sei que você não merece. — encarou-a sereno e compassivo — Bonito da sua parte desejar a felicidade dele, não esperaria menos de você. — sorriu — Só não use a afirmação como desculpa para mascarar os seus sentimentos. — a voz da companheira soou esganiçada, de longe — Bem, sua amiga me chama! — animou-se — Pense no que eu disse. — deu início ao afastamento.
— Você gosta dela de verdade? — de onde estava, perguntou amena.
— Muito! — respondeu empolgado e se foi.
— Que bom... — Marine sussurrou sensibilizada, não só por Tigre e Reiko terem se entendido tão bem, mas pelas coisas que ele disse a ela. O galante integrante do Trio Amazonas nunca lhe soara tão maduro e correto em suas ideias. Há algum tempo, a mocinha sentia algo mais do que amizade por Damien, no entanto, sempre disfarçara os sentimentos muito bem. Olho de Tigre foi o primeiro e o único a percebê-los, outras pessoas sequer desconfiavam. — "Que assim seja, é melhor". — pensou — "Ele nunca vai olhar para mim, não como mulher. Sendo assim, acho que vai ser difícil sair esse meu primeiro beijo." — resignou-se.
...
— Papai? — Crystal surpreendeu-se ao entrar na sala de comunicações e se ver diante de Helios sentado à frente das máquinas, apertando os botões. Acomodou-se ao lado dele e deu-se com mesma tela das outras vezes: "Sem Resposta" escrito sempre.
— Eu sei que você vem aqui com frequência, mais ainda depois que Luna e Artemis tiveram que ir embora. — o pai disse. — Portanto, combinei com sua mãe que enquanto ela estivesse tratando de assuntos do reino, eu ficaria por aqui persistindo no contato.
— Obrigada... — comovida, acomodou a cabeça ao ombro dele — Vocês têm feito tanto por mim, mamãe até me surpreendeu, admito! — fechou os olhos e respirou fundo — Só gostaria de poder retribuir tanto carinho...
— A sua felicidade é nosso objetivo comum, minha princesinha — apertou-lhe uma bochecha.
— Papai, se eu te contar uma coisa, promete que não vai brigar comigo? — entreabriu os oceanos conturbados.
— Hmmm... Por que será que não gostei da sonoridade da pergunta? — fez-se de pensativo.
— Promete? — forçou expressões pidonas no bico e no olhar.
— Está bem! — riu terno — E quantas vezes eu realmente briguei com você mesmo? — a filha riu em conjunto, claramente concordando. Quando os risos cessaram, ela iniciou:
— Tentei visitar Diamante nos sonhos dele. — a frase foi rápida, sem pausas, quase atropelada — Mas fui bloqueada! — apertou a manga ebúrnea da farda do pai, abraçada ao braço dele — Aquela menina dos cabelos roxos... ela me impediu! E aí, depois que concluí o treinamento e fiquei mais forte, eu a encontrei uma última vez... e ela desapareceu, como um fantasma se desfazendo em pó. Depois disso, toda vez que tento alcançar os sonhos dele, só vejo escuridão, nunca o encontro! As únicas vezes que consegui vê-lo, ele estava péssimo, abatido, nem parecia vivo... — estremeceu.
— Então, você conseguiu entrar nos sonhos dele, de alguma forma... até ser bloqueada pela menina... — acariciou as mãos tensas que lhe apertavam o traje. — Venha cá. — puxou-a para um abraço protetor — Estou orgulhoso de você, é tão poderosa que conseguiu perambular por sonhos distantes, sequer guardados em Elysium...
— Pensei que desse jeito conseguiria me comunicar com ele, já que por esses computadores nunca conseguimos!
— Foi inteligente, eu teria pensado no mesmo. Mas, e a menina? Você disse que ela desapareceu como um fantasma... Se estivesse em Elysium, Olho de Peixe e Diana teriam me contado — e de fato, quase contaram, o teriam feito se Ametista aparecesse uma vez mais diante deles, como a frágil criatura nunca mais marcou presença, decidiram não incomodar o rei.
— Ela não está lá, não está em lugar nenhum... era uma alma perdida, papai... — soluçou — Parecia sofrer tanto! — afundou a face nas medalhas douradas do peitoral — Gostaria de ter feito algo por ela... Olha só pra mim! — enxugou os olhos molhados — Não mudo nunca, prometi que não ia mais chorar!
— Princesinha, — conteve-lhe as mãos — Comigo não tem por que esconder suas lágrimas. Sabe que se precisar, até assuo o seu nariz! — apertou-o tão logo foi mencionado. — Amanhã, bem cedinho, vou a Elysium averiguar isso com Olho de Peixe e Diana!
— Ah não, papai! Mamãe vai ficar brava! — temeu.
— Será rápido, só farei umas perguntinhas e darei uma volta por lá para ver como está. O grande perigo que correrei será voltar para Tóquio de Cristal com as orelhas quentes de ouvir reclamações de Olho de Peixe. — após o último comentário, riram novamente.
— Muito obrigada, de coração! — fortaleceu o abraço. Ficaram aninhados por alguns minutos, as mãos paternas afagaram os cabelos castanhos até que Crystal sentisse ligeira sonolência.
Um bom pressentimento se acendeu no coração da menina, até que na tarde seguinte o pai retornou do Mundo dos Sonhos com notícias desanimadoras: não encontrara nada, nenhum vestígio de Ametista. Olho de Peixe e Diana comentaram que nunca mais a assombração dera as caras, e que muito menos houve alguma distorção no cenário. Desaparecera como se nunca existira, sem deixar rastros... A única prova de seu engenho era a inacessibilidade de Crystal para adentrar as fantasias obscuras de Diamante. Ela não saberia que o selo não era a única barreira, mas também a incapacidade do príncipe de sonhar. O Ódio obteve sucesso em fazê-lo esquecer.
A semana passou e ela se controlou enquanto pôde, porém, quem lhe era próximo notou-a distante e mais distraída do que o comum. Quando o final de semana tão esperado chegou, antes que se rendesse a uma forte recaída na frente de todos, Crystal saiu do palácio discretamente, escondida debaixo da mesma capa que usava para dar escapadas antigamente. Teve a certeza errônea de que não fora seguida, culpa de seu atual estado desligado.
Apressada, tomou todas as conduções necessárias e alçou seu destino: a árvore, nessa estação seca e coberta pelo manto nevoado, assim como o chão onde há muito ela recordava verde e fértil. Não era uma árvore qualquer, era simplesmente aquela onde, próximo as raízes, jazera o príncipe da cor da época.
Baixou o capuz, desamarrou o laço em torno do colo e a capa voou longe, alguém a segurou sem ser notado. Os pés da princesa afundaram-se na neve, vapor escapou da boca aberta, ela só sossegou quando esteve perto o suficiente do tronco para tocá-lo entre dedos e testa. As unhas, se não estivessem protegidas por luvas violáceas, arrastar-se-iam pela madeira ressecada e escura, o corpo desmanchou-se e ela caiu de joelhos sobre o Branco, o choro atingia o queixo e quebrava-se em gelo. Da goela, gemidos doídos lançavam-se ao Nada. A coitada juntou neve o suficiente nas mãos para poder abraçar-se ao Frio e relembrar de toda a beleza que um dia conhecera. O coração dourado reluzia agitado na garganta. Tremeu de frio, e assim mesmo teimou em permanecer ali. Os flocos caíam impiedosos do céu, não tardariam a cobri-la, e tudo o que Crystal conseguia fazer era repetir:
— Onde você está?! Por que me deixou aqui, sozinha?!
— Você não está sozinha. — a armadura tremeluziu em sete cores, como um grande prisma.
— Damien... — suspirou desapontada.
— Sei que não era a mim que desejava ver, mas acho que terá que se contentar com o que tem a sua frente. — abriu-lhe os braços, acolhedor.
— Me deixe, por favor! — virou o rosto — Quero ficar sozinha...
— Eu sei, mas não posso deixá-la a mercê desse frio impiedoso. — ajoelhou-se à frente dela e cobriu-a com a capa, a mesma que a princesa largou ao relento.
— Eu gosto do frio... — murmurou soluçante.
— Dê uma chance ao calor... — passou os polegares ao redor dos olhos dela, enxugando-os. Enredou-a nos braços fortes, selou as bochechas — Me dê uma chance... — balbuciou a orelha gelada e rosada como estavam os narizes, e agora, as bochechas dela.
— Eu não posso... — pressionou-lhe as ombreiras firmes.
— Ele não vai voltar. — disse convicto e fitou-a diretamente nos olhos, azul sobre azul, intensos. — Enquanto isso, eu estou aqui, à sua disposição.
— Ele vai sim!
— Fala isso mais para se convencer do que porque realmente acredita. — afirmou veemente.
— Nunca vou amar alguém como amo Diamante! — bradou e esmurrou-lhe os ombros.
— Nunca amar alguém como ele não significa que não amará mais ninguém em toda a sua vida. — cativou-lhe a face com as duas mãos, as maçãs aqueceram-se instantaneamente com o toque. — Me dê uma chance... — insistiu — Case comigo... — sibilou grave e discreto, era como uma confissão, mais do que como pedido.
— Quê? — os olhos arregalaram-se, os dedos apertaram os que pousavam sobre a face, não tiveram forças para tirá-los de lá.
— Case comigo. — falou mais alto, ainda que tremelicoso. — Ao menos pense nisso.
— Damien, somos amigos... — a voz falhou.
— Não posso mais me contentar em ser só um amigo. — as palmas pressionaram-se contra as faces. — Você se apaixonou pelo príncipe pela forma como ele a tratava, não é isso? Eu poderia assumir esse posto!
— Da... — não conseguiu terminar o Nome, pois dito aquilo o Sedniano a encurralou contra o tronco e, ajoelhado entre suas pernas, colou as bocas.
Os fios negros ataram-se aos de chocolate, a língua quente e orvalhada tomou a dela, decidida. Tentou empurrá-lo e suas costas foram pressionadas contra a tora oca e gigantesca atrás. As pálpebras cerraram com força, um amargor palpitou no estômago, os pés debateram-se e esparramaram neve para todos os lados. Dentro do beijo, ela grunhiu. Ele insistiu e experimentou-a até que o ar ficasse escasso e parar fosse uma exigência física. Ofegante, mirou-a, cheio de expectativas e, de certo, inebriado.
— Você... — arfante, Crystal passou a mão pela boca, suas expressões fundiam-se em surpresa e horror. Depois de um grito, um empurrão, e Damien rolou para o lado — Não repita isso, nunca mais! — bradou aterrada — Nunca mais, você me ouviu?! — e correu para longe, desejando ser perdida de vista. Falhou. Rápido como o vento Damien a alcançou, segurou-a pelo pulso e a girou como se praticassem passos de dança sobre o gelo, os corpos atritaram-se como antes — Damien, me solte! — exigiu.
— Olhe nos meus olhos e diga que quer que eu vá embora! Diga e eu vou, você nunca mais me verá! Mas, se não disser, eu não desistirei de você, não depois de ontem!
— Não aconteceu nada entre nós, você está delirando! — esquivou-se do toque, ele a segurou repetitivo.
— Então me mande embora! — vociferou irracional e estremecido.
— Vá embora! — também sem pensar, ditou.
— Está certo... — os punhos dela escorregaram do toque desesperado, num instante, o semblante do príncipe perdeu a garra e entregou-se a uma tristeza digna de pena. Errante, cruzou o caminho a lugar nenhum, sem mais um som escapar das pregas vocais.
— Damien, eu lamento... — de costas a ele, parada, manifestou-se pesarosa.
— Adeus, princesa. — partiu sem permiti-la vislumbrar o sofrimento fincado nos lumes da alma.
Por que tinha que ser assim? Não desejava o sofrimento de ninguém, tampouco o dele, um ente tão dedicado e gentil... Claro que sentiria a falta dele, não desejava a sua partida! Todavia, a saudade que sentiria seria amiga e não amorosa, não se compararia à dele. Era melhor que se fosse. Se partisse, ver-se-ia livre dos sentimentos em relação a ela, sentimentos sem futuro algum.
Horas depois, pálida de frio, Crystal voltou a casa, depois de muito pensar sobre o beijo roubado. Não sentiu nada, nenhum prazer, somente vazio e profunda dormência. Os lábios mornos e macios de Damien, em outra situação, eventualmente a teriam agradado, se seu coração não comportasse outro homem dentro. O beijo seria doce para qualquer outra garota, não obstante, para Crystal foi insípido, sem sensações transcendentais, sequer carnais. Nada. Atormentada pela frieza sua, não viu os pais afoitos esperando-a a fronte da colossal abertura do paço.
— Crystal, o que pensa que estava fazendo?! — Rini a enlaçou e esfregou as mãos nos braços, aquecendo-lhes — Quer ter uma hipotermia, menina?! O aquecedor do seu quarto já está ligado! Vamos, agora!
Cabisbaixa, obedeceu à mãe, na companhia dela encaminhou-se ao aposento. Rini tratou de secar-lhe os cabelos e, depois, ajudou-a a trocar de roupa. Somente quando já estava aquecida, a rainha fez questão de preparar o banho da filha por conta própria.
— Tome um banho e relaxe, vou pedir para alguém trazer o seu jantar no quarto. Está bem?
"Não estou com fome..." — o fantasma da falta de apetite tornou a assolá-la.
...
Na ocasião em que a porta do quarto se abriu, Crystal jurou que seria Damien a trazer a sua bandeja, contudo, avistou uma mulher da criadagem, cerimoniosa, desejar-lhe boa noite e deixar a travessa sobre o criado-mudo. Não houve conversa, a comida vistosa ficou de acompanhante, e só. A princesa preparou-se para dormir, mas o sono não veio. A noite foi longa e perturbadora. Ao raiar enfraquecido do sol invernal, depois de um cochilo ou outro, a neta de Serena resolveu se levantar de vez. Antes de todos, sentou-se a mesa do café da manhã e ficou à espera. Um por um, os habitantes foram se chegando, todos surpresos com a presença precoce dela. A cadeira de Damien esteve vazia durante toda a refeição, um nó no peito sufocou-a. O horário de ir para a escola a impediu de encontrá-lo. Cumpriu com a rotina, ao soar do sino anunciante do fim das aulas, encontrou-se com as amigas e caminharam juntas até o portão de grade. Lá estava Yumi e Olho de Tigre, só. Nem sinal de Damien.
— Onde ele está? — assim que chegou a casa, perguntou, olhando para os lados. — Vocês o viram? — perguntou aos pais quando adentrou o salão real.
— Damien partiu, minha filha. — Helios contou.
— Não pode ser! — Marine estava por perto e ouviu, ela e as outras meninas entraram com Crystal.
— Crystal, não faz muito tempo! — Rini, no entanto, mostrou-se positiva — Se você for atrás dele agora, pode alcançá-lo!
— Não. — baixou o olhar — É melhor assim.
— Do que você está falando? — Marine intercedeu — Você sequer se despediu dele! Que tipo de consideração é essa que você tem pelas pessoas?!
— Você não entende! Eu não posso fazer isso, Marine!
— Covarde! — esbravejou — Se você não vai, eu vou! — despachou-se veloz.
A princesa estava decidida a não ir, mas os olhares recaíram sobre ela como juízes ali, mesmo os que não a julgavam ela interpretou como se o fizessem, provavelmente era a autoconsciência ordenando-lhe o que fazer. Brandiu a cabeça para os lados, fechou as mãos e aligeirou-se.
...
— Damien! — Marine apelou quando o rapaz subia a rampa para zarpar no navio espacial — Não vá, por favor! Não faça isso!
— Marine! — sorriu aturdido, embora ainda sentido. — Que bom ver você...
— Damien, volte... — aprumou-lhe os dedos esguios — Não vá embora!
— Não posso, Marine. Não dá. Desculpe. — apertou os corrimões e voltou-se à porta — Fico feliz em tê-la conhecido, manterei contato!
— Damien! — a voz de Crystal espalhou-se na brisa e vibrou em cada parte dele.
—... Crystal? — virou-se vagaroso.
Antes que uma palavra fosse expressa por qualquer um dos três, uma capsula espelhada e do tamanho de um casebre atravessou os céus, rasgou as nuvens e despencou no alto de um dos pálidos montes, no bosque que ficava ao entorno da cidade. A queda provocou um pequeno terremoto, os pássaros que moravam nas árvores próximas do desastre alçaram voo para longe.
— Mas o que foi isso? — Damien abriu a mão direita e nela se materializou o gládio lapidado em cristal.
As duas acompanhantes firmaram as mãos sobre seus respectivos broches e transformaram-se. Sailor Love quis aproveitar-se das asas e voar para chegar mais rápido ao local, porém, Sailor Acqua e o príncipe não permitiram. Foram juntos.
Ao passarem pela cidade, notaram a preocupação incrustada nas expressões dos cidadãos. E, mesmo assim, ninguém se pôs no caminho. Quando chegaram ao bosque, deram-se com Sailor Phantom e Hakaru tentando encontrar uma abertura na grande bola. Fumaça escapava por rachaduras. Damien, assim que próximo, notou o material de que era feito aquele objeto:
— Eu conheço isso! — exclamou — É do meu planeta! Afastem-se!
— Como?! — Sailor Phantom mirou-o desconfiada, entretanto, não coube a ela fazer perguntas, não houve tempo. O objeto esférico abriu-se como uma flor, e, dentro dele surgiu um homem seriamente ferido. Nas feições era muito parecido com Damien, exceto por um detalhe aqui e ali, e os cabelos escuros como o do príncipe, eram tão longos que esparramavam-se sobre pedaços de cristal espatifado. Vestia uma túnica esfarrapada, tecida em linho azul-rei.
— Doryan! — Damien tirou o homem de dentro da capsula e estapeou-lhe a face, buscando uma reação. Os olhos azul-celeste abriram-se devagar, as mãos pálidas cobriram o rosto de Damien.
— Eu estou vivo? — rouquejou.
— Sim, meu irmão! Em péssimo estado, mas está vivo!
— Quem são esses? — desorientado, rolou o olhar sobre todas as faces e parou na de Sailor Love, focado na insígnia lunar. — Oh! — arregalou os orbes. — É ela!
— Sim, Doryan, é a princesa. — Damien flagelou o tom. — Você veio e eu estou indo embora. Podemos aproveitar e regressar a Sedna juntos. O que acha?
— Sedna? — os olhos estreitaram-se e ele se tremeu todo — Sedna não existe mais! —declarou.
— O quê?! — todos exclamaram juntos, com exceção de Hakaru por não fazer ideia do que se tratava.
— Do que está falando, Doryan? Fomos atacados?! — Damien foi quem tremeu diante da afirmação.
— Ele... — gemeu de dor, estava ferido na altura do apêndice. Dificultoso, prosseguiu — Não poupou ninguém! Seus ouriços negros fincaram-se em nosso solo. Roubaram cada um de nossos grãos, vegetais e frutas, incendiaram o palácio, decapitaram nosso pai e profanaram o túmulo de nossa mãe! Marcaram nossas terras com símbolos de luas crescentes, secaram até o último dos ramos com aqueles enormes pedaços de pedra negra!
—... Pedra negra, lua crescente?! — Sailor Phantom engoliu seco, depois encarou Crystal, seus olhos falaram por mil palavras.
— Sim! Idêntica a dela, bem no meio da testa! — apontou em espasmos — Só que negra como a pedra e viradas de cabeça para baixo.
— Não, não! — Sailor Love ajoelhou-se ao lado de Damien e dirigiu-se a seu parente mais novo — Deve haver algum engano! O que mais? Quem fez tudo isso? Você sabe o nome?
—... Nome? — riu desgostoso — O diabo tem vários nomes, é o que dizem! Mas, eu juro, nunca vi um monstro tão parecido com um anjo antes! Quem o visse em outro contexto, jamais diria o que ele era de verdade, uma criatura sádica, escarninha, cruel! — rosnou.
—... Se não sabe o nome, então, por favor, diga... como ele era? — agarrou o pingente dourado e orou, com tudo de si para não ouvir o que imaginava que viria:
— Os cabelos pareciam fios tecidos em prata — contorceu-se de dor — as roupas brancas em contraste ao negrume me doeram nos olhos, mas o pior de tudo era aquele par de olhos púrpuros e impiedosos, não piscaram ou sossegaram até verem o último de nós perecer. Ele disse, prazeroso, que aquele era apenas o início... Que Sedna seria um exemplo do que viria a seguir acontecer com... Tóquio de Cristal! Como eu esqueceria o nome de um demônio como esse e... — tossiu outra vez, e consequentemente vomitou uma goma de sangue.
— O nome, por favor... Diga o nome! — Crystal esquálida, segurou-lhe os ombros. O coração, ela jurava que parara.
— Precioso, rígido e indestrutível... Príncipe Diamante. — declarou como uma sentença, e o era, de certa forma, a triste sentença de Sailor Love.
Depois de ouvir o nome, os orbes perderam o brilho como se de vidro fossem. Os ouvidos não captaram mais som algum, a mente, todavia, tornou-se uma sinfonia agonizante de memórias e o corpo, de sensações dolorosas.
Eu jamais a deixarei cair. — dentre todas as lembranças, a Frase foi enfatizada, os ecos da falácia se expandiram pelo cenário. Uma mão a amparou pela cintura, fora sua caridosa amiga Sailor Acqua, os lábios da menina aquática moveram-se persistentes, mas Sailor Love não ouviu os sons ou conseguiu lê-los. A vista enegreceu gradativamente conforme o coração sangrava, e, por fim, tomada pela dor lasciva e imensurável, perdeu os sentidos.
...
A minha queda será por você, o meu amor estará em você, se você for aquele que me ferir, então eu sangrarei eternamente... — "Que suas veias sequem!" — depois de tomar um generoso gole de vinho sedniano, Diamante elevou a taça e brindou sádico.
Continua...
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