A Minha Queda Será Por Você
34 A polêmica holografia
Notas iniciais
A Minha Queda Será por Você
Capítulo 34 – A polêmica holografia
— Ele prometeu que não partiria, ele prometeu! — gritava incessantemente, gritava até que a garganta rasgasse e a voz falhasse.
—Damien, saia, por favor! Deixe-me às sós com ela! — Rini, aflita, pediu enquanto abraçava a filha que de tanto prantear chacoalhava-se toda.
O rapaz, mesmo inconformado, não teve escolha além de obedecer. Enfim, sozinhas no cômodo onde príncipe Diamante ficara hospedado nos últimos dias, a rainha segurou o rosto da filha firmemente e a obrigou a encará-la.
— Crystal, me escute! — a menina teimava a debulhar-se, estremecida. — Crystal, pare com isso, preciso que preste atenção!
— Me deixe em paz, você o mandou embora! Você fez isso! — mal raciocinava. — O que você não sabe é que ao mandar Diamante embora, mandou um pedaço de mim, o meu coração!
— Chega! — perdeu o controle e gritou ainda mais alto do que a menina. Ao perceber a crise de histeria, respirou fundo, passou a mão sobre a testa faiscante e, por fim, segurou firmemente as mãos da filha —Eu preciso que você me escute. — falou pausadamente — Pode fazer isso?
Os gritos da mãe sempre a intimidavam, não importava o como e o quando. Submissa, baixou a cabeça e o olhar inundado, os dedos fecharam-se cobertos pelos de Rini, entre eles a peça negra era apertada.
— Diamante não se foi permanentemente. — começou a explicar — Ele teve que partir porque alguns membros da Black Moon tomaram seu pai como refém. Para ter Helios de volta, o acordo era os príncipes da Lua Negra retornarem a Nemesis. Compreende, Crystal? — ao vê-la respirar menos ofegante, abraçou-a e acarinhou-lhe os cabelos de chocolate — Foi uma medida de emergência, minha filha... A atitude do príncipe foi nobre, ele partiu para salvar a vida do rei, seu pai, e para convencer os nemesianos de que todos podemos ser amigos!
— Não vão deixar ele voltar! — disse convicta. —Você está falando essas coisas só para tentar me acalmar!
— Ele é o príncipe, Crystal, não podem impedi-lo de voltar à Terra se assim ele quiser!
— Ele não vai voltar... — os olhos pesaram, exaustos, a voz soou sussurrada.
—Querida, seja positiva! — apoiou-a ao ombro e a ajudou a se levantar. —Vamos para o seu quarto.
Ela foi, não por querer, mas por não ter forças para resistir. Por mais que tenha notado na mãe uma postura diferente em relação a Diamante, não conseguira sentir-se aliviada, uma sombra cobriu novamente seu coração, e ela dizia:
"Algo de muito ruim vai acontecer" — horas depois, encolhida na cama a abraçar o brinco de cristal negro, insistia.
Do lado de fora, insistente, Rini batia à porta:
— Crystal, você precisa comer!
...
Topázio petrificou no ar, os cabelos flutuaram graciosamente devagar em sincronia à capa de couro. A espada de luz oscilou em raios e sua mão, contra a vontade, fê-la virar-se na direção do peitoral dourado. O fio luminoso tocou-lhe a armadura e, lentamente, iniciou a derretê-la. Ele não entendia o que estava acontecendo. Por que a sua própria mão tomara a iniciativa de apontar-lhe a espada?
— Mestre, não! — as gêmeas gritaram, ambas correram até o cavaleiro, seguraram-lhe o braço na tentativa de impedir que ele se matasse.
— O que é isso? — Jade, estupefata, deixou a lança escorregar por entre os dedos.
— Irmão, não faça isso! — Saphiro alertou, ele sabia muito bem o que estava acontecendo.
O olho na testa de Diamante reluzia intenso, assim como os orbes violetas tomados por brilho turquesa. Apenas as pontas dos pés tocavam o chão, o corpo flutuava envolvido por uma ventania sinistra. A imagem aterradora do príncipe refletia nos olhos arregalados de Onyx, o cientista sorria, não se saberia se era de nervosismo ou simplesmente por ser louco.
— Eu poderia, facilmente, fazê-lo tirar a própria vida. — Diamante, grave e firme, ergueu as mãos em direção a Topázio.
— Por favor, não faça isso, príncipe! — Aoi, aos prantos, jogou-se de joelhos a frente dele.
— Me dê uma boa razão para poupá-lo! — o toque da espada à armadura começara a provocar fumaça escura, Topázio tossiu sentindo-se sufocado, o orgulho o privou da voz.
— Topázio é o melhor soldado de Nemesis, príncipe. Foi bem treinado para uma guerra. — Jade, contrariada, teve de falar.
— Eu já falei que não haverá guerra! — irritado, bradou.
— Irmão, você precisa ver o que eu vi. — Saphiro tocou-lhe o ombro, e paciente, fê-lo baixar o braço tenso.
— Eu peço perdão em nome de meu mestre, por favor, príncipe, perdoe-o! Ou, castigue a mim, Aoi! — agarrou-se às pernas dele, roçou a face em seus sapatos lustrados.
— A sua sorte é ter alguém como ela. — fitou a jovem dos cabelos azuis e trajes de Lolita — Em nome da lealdade dessa menina, deixarei por menos, mas que fique claro, — soltou-o de uma vez ao chão, a armadura tilintou sobre o piso e a espada esfacelou-se em correntes elétricas — da próxima vez, se houver uma, você não escapará! — o terceiro olho fechou-se em Lua Negra. — O que você viu, Saphiro? — nele confiava mais do que em qualquer outra pessoa.
— Não cabe descrever, você precisa ver com seus próprios olhos... — suspirou entristecido.
— Você concorda em declarar guerra à Tóquio de Cristal, Saphiro? — olhou-o fixamente.
— Onyx, leve-nos à sala de holografias. — Saphiro chamou-o.
Enquanto os três teletransportaram-se juntos, Topázio arrastou os dedos sobre o piso escuro de cristal. Akai segurou-lhe os braços para tentar ajudá-lo a levantar, ele, bruto, desvencilhou-se da ajuda. Aoi correu até a mocinha alaranjada e a amparou antes que fosse ao chão, ambas observaram o homem a quem admiravam, furioso, ficar de pé e olhar para o nada. Dos lábios, um rugido grave e descontente escapou, dos olhos áureos as chamas da ira cintilaram.
— Você pode ser forte, mas enfim surgiu alguém que o supera. Contra ele, você não pode. — o prazer de Jade ao pronunciar cada vocábulo era notório.
— Cale-se! Você é o que é graças a mim, não ouse me menosprezar! — alertou-a.
— Graças a você meu passado é cheio de marcas, Topázio, não te devo nada! — amarga, retrucou — Pensa que não me lembro daquele tipo de tortura que você chamava de "treinamento"? Você é igualzinho ao seu pai!
— Parece que você sente falta das surras que levava, acaso gostaria de relembrá-las? —aproximou-se da amazona até quase os narizes se tocarem, e, antes que ela respondesse mais um desaforo, ele a agarrou pelo pescoço e tomou-lhe o ar. Tendo-a entre os fortes e metálicos dedos pressionou-a e fez gemer, involuntária — Fraca, como uma mulher. — sussurrou ao ouvido moreno — Mulher, afinal, — riu discreto e baixou o olhar dourado ao busto farto, adornado por uma armadura cravada em jade e ouro — é o que você é e sempre será, não importa o quão durona se faça.
Ela esbofeteou o braço dele com as duas mãos, a resposta veio na forma violenta como ele a atirou, fê-la dar de costas à parede e escorrer por ela como objeto inanimado.
— Ponha-se no seu lugar, escrava. —Topázio finalizou aos risos, ao menos a insubordinação de Jade o fizera resgatar o humor. Escoltado pelas duas seguidoras, afastou-se em marcha, a guerreira o acompanhou com os olhos cor de mel.
"Escrava" — ecoava no pensamento, obrigando-a a lembrar do que há muito fora.
...
— Aqui guardamos algumas gravações de comunicações, príncipe. — Onyx introduziu-os, embora para Saphiro o ambiente já fosse amargamente conhecido — Vê as prateleiras? — passou a mão enluvada pelos suportes negros onde diversas capsulas eram enfileiradas, parou em uma — Digamos que esses sejam os nossos documentos, e este aqui, — girou-a na mão — você vai adorar! — a ironia transbordou no tom e no sorriso. O polêmico cientista desfilou até o centro do salão, lá havia um altar lapidado em cristal negro, no centro um encaixe perfeito para a pequena capsula transparente. Calmo, Onyx acomodou a peça e assim que foi feito, ela refletiu uma luz azulada dali ao teto, e, em seguida, uma imagem fosca foi se formando: primeiro o cor-de-rosa extenso que se figurou em cabelos, depois o rubro-sangue em par — olhos indiferentes— e, até que enfim, o rosto familiar:
— A rainha! — Diamante exclamou ao vislumbrar Rini.
Nemesianos e nemesianas, — a voz robótica e cheia de interferências iniciou — venho por meio desta holografia informá-los que atingimos o nosso limite. Não há como Terra e Nemesis serem aliados, este é o nosso rompimento oficial. O décimo planeta não é responsabilidade minha, muito já me é exigido em Tóquio de Cristal. Não aceitarei cobranças ou ameaças, se conseguiram sobreviver até hoje, darão um jeito de continuar sobrevivendo. Lembrem-se, o poderio bélico de vocês não foi o suficiente para nos destruir no passado e tampouco o será no presente. Lembrem-se também, o que lhes restou do Cristal Negro não é páreo para o Cristal de Prata. O aviso está dado, que essa seja a nossa última comunicação e também a última tentativa de coabitação. A Terra não é um bem de todos, ela pertence aos terráqueos e à família da Lua Branca. Espero que com essa mensagem tudo tenha se esclarecido. Boa sorte. — daí, um forte chiado ecoou, a imagem retorceu-se e apagou.
Um mórbido silêncio instaurou-se e impregnou o pequeno cômodo. Onyx desencaixou a capsula do altar circular e a guardou de volta na estante. Saphiro analisou a expressão do irmão mais velho: olhos sem brilho, lábios apáticos, Diamante era a representação de um profundo vazio.
— Topázio me contou que, depois das inúmeras tentativas da falecida princesa de comunicar-se, a rainha de Tóquio de Cristal enviou essa resposta em uma rápida conferência. Foram meses sem recebermos recursos, precisou que boa parte da população morresse de inanição para que a... Como é mesmo o nome? — passou os dedos pela testa fazendo esforço para lembrar-se.
— Rini. — Diamante disse entre dentes.
— Oh, é mesmo, Rini! — Onyx riu despreocupado — Então, precisou que muitos dos nossos morressem vítimas de fome e sede para que Rini respondesse aos chamados da senhorita Ametista. Ou seja, se não fosse a insistência de nossa líder, a rainha sequer teria a decência de explicar o porquê do abandono. Como vocês podem ver, ela lavou as mãos. Enquanto Serena reinou, mesmo que a convivência não tenha dado certo, ela e o marido nos enviavam suprimentos, tínhamos um meio de sobrevivência. No entanto, quando Rini subiu ao trono, ao longo dos anos fomos esquecidos... Primeiro passaram a enviar menos recursos, jamais deram uma explicação por isso, e depois, nada mais chegou. Para ela, somos um estorvo.
— Nemesis é um deserto sem recursos para sustentar os habitantes. — Saphiro concluiu.
— Os que permanecem vivos são alimentados pela energia do cristal negro, mas sabe-se que a qualquer momento nossos corpos podem entrar em colapso. Nossa essência é humana, príncipes, é o nosso fraco. Fomos adaptados a aspirar os ares malignos daqui, nosso organismo é mais resistente do que o de qualquer terráqueo, mas não é indestrutível. Ametista não pôde suportar o enorme poder que tinha, em breve, nós também podemos sucumbir ao cristal negro... Ou nos tornarmos parte dele! — o sorriso do gênio insano brilhou.
— Tornar-se parte do Cristal Negro significa perder completamente a humanidade, significa transformar-se em uma daquelas criaturas que você reproduz em laboratório! — Saphiro deu o alerta.
— As escolhas que temos são essas, meu caro. — Onyx ajeitou os óculos de lentes arredondadas — Isto é, se resolvermos deixar tudo como está. Nós aqui, "eles" lá.
— Eu não compreendo... — finalmente, Diamante se manifestou — Antes de eu vir para cá, rainha Rini depositou confiança em mim, ela... Pareceu me aceitar! Disse que se eu conseguisse resolver tudo por aqui, poderia voltar à Terra e casar-me com Crystal! Esse casamento poderia ser a chave para o fim do conflito, não entendem?
— Ainda insiste em não querer a guerra, príncipe? — o homem dos longos cabelos negros se mostrou surpreso.
— Não posso negar que estou furioso! Não seria a primeira vez que o Coelho nos trata como monstros, já a vi insinuar que não nos perdoou diversas vezes, claro que não tão evidentes como nessa holografia! — exclamou — Mas, por experiência própria, sei que as pessoas estão sujeitas à mudança! Se eu, radical como fui, mudei, por que ela não poderia ter mudado?!
— Seria uma mudança muito conveniente, não acha? A rainha resolver aceitá-lo como amigo justo no momento em que o marido dela corria risco de vida... Não sei, isso me soa mais como conveniência, príncipe.
— Infelizmente, sou obrigado a concordar, irmão. — Saphiro soou conformado.
— E Crystal? — Diamante procurou por outro argumento — Crystal nada tem a ver com isso! Ela é diferente da mãe! Você sabe, Saphiro!
— Mesmo que seja verdade, o que garantiria que uma nova tentativa de convivência entre os dois povos não falharia como a primeira? — Onyx questionou.
— O meu casamento com a princesa, não vê?
— O seu casamento com a princesa pode ser a sua sentença, príncipe. Não me leve a mal, mas a sua vontade não pode sufocar a vontade do seu povo, inclusive a da senhorita Ametista que se sacrificou na esperança de que você cumprisse com o nosso desejo secular. Embora você seja príncipe por direito, você o é por nossa causa, você deve o título a todos que se curvam diante à sua imagem. A sua força depende do nosso apoio, percebe? — o cientista se expressou sorridente, todavia o discurso foi sério e cada palavra induziu Diamante a refletir.
Um rei e uma rainha não vivem para si, vivem pelo seu povo, precisam sempre estar de acordo. Não há espaço para o egoísmo, não podemos pôr nossos sentimentos acima das vontades e necessidades das pessoas a quem protegemos. — lembrou-se do discurso de Helios, o mais sábio que já ouvira. A língua torceu-se dentro da boca maquinando uma resposta que não veio. Diamante pousou a mão sobre o altar negro, viu-se refletido nele e quis esconder-se de si próprio. Um príncipe não vive para si mesmo, vive por uma razão maior: seus seguidores. O coração dele pedia insistentemente por Crystal, a razão torturava-o ao trazer a lembrança de Ametista, no leito de morte, clamando por vingança.
— Helios... — sussurrou — Rei Helios não pode estar de acordo com as atitudes da rainha... — o rei era sua esperança.
— Ele é cúmplice, não fez nada para reverter a situação. — Onyx respondeu de pronto.
— Preciso pensar... — Diamante, atordoado, foi à porta e recostou a cabeça nela.
— Como desejar, príncipe. — Onyx teletransportou-se para o lado de fora, Saphiro fez o mesmo.
Uma vez Helios disse confiar nele, Diamante lembrava. Helios também abençoou sua união com Crystal.
— O rei fez de tudo para que ficássemos lá... — disse para si — E, se tivéssemos ficado, jamais saberíamos o que se passava por aqui! — deu-se conta, as unhas ruíram pela porta. — "Fomos manipulados"! — não conseguia evitar pensar o pior.
O dia precisa da noite, o sol precisa da lua, eu preciso de você. — a ternura Dela pulsou no peito dele, o olhar amoroso, a voz devotada, cada nuance inocente, ingênua e apaixonada. Ela não, ela era incapaz de mentir! Ela era real, Crystal o amava, não o trairia. Ele, se declarasse guerra à Terra, seria o traidor.
— O que devo fazer? — cerrou olhos e punhos, completamente perdido.
...
— O que faz aqui? — Damien perguntou surpreso ao ver a jovem de cabelos dourados parada à frente da sua enorme embarcação espacial atracada no porto.
— Príncipe! — Marine deu um pulo — Me desculpe por ser tão inconveniente... — sem notar, o rosto todo adquiriu coloração avermelhada — É que eu estava curiosa para ver a sua nau...
— É mesmo... — caminhou até parar ao lado da guerreira aquática — Foram tantas confusões que me esqueci de trazê-la aqui. Eu que devo pedir desculpas! — sorriu, embora transparecesse melancolia.
— Sinto muito por tudo, príncipe Damien, você parece tão bom sujeito! — tentou conforta-lo à sua maneira firme de ser — Dê um tempo a ela, talvez as coisas mudem.
— Quando cheguei aqui, pensei ao menos que ela soubesse quem eu era. Foi o que entendi pela forma como a rainha falou comigo... — suspirou — A princesa não só não fazia ideia da minha existência como já estava interessada por esse príncipe Diamante. — focou o azul do olhar no azul do oceano — Senti raiva, muita raiva daquele homem... Depois senti raiva de mim por não conseguir evitar odiar Diamante, ele me roubou o que eu tinha de mais valioso...
— Mas, príncipe, como ele pode ter te roubado o que possui de mais valioso, se você sequer conhecia a princesa? — ela arregalou os olhos e cruzou os braços, todo o contexto lhe soava improvável.
— Você é uma pessoa muito racional, posso ver. — Damien riu brevemente — Para você, tudo isso deve soar como uma grande bobagem, eu sei. Talvez até seja... — puxou de dentro da armadura uma rosa lapidada em cristal, encaixou-a nas duas mãos e bastou olhá-la para que cada pétala se abrisse.
— Uau! — Marine exclamou encantada.
— Cresci olhando para ela... — quando a última pétala se abriu, a imagem da princesa se formou em holograma — Desde que meus pais a mostraram para mim todas as minhas preces, os meus pedidos e os meus sonhos destinaram-se aos grandes olhos oceânicos, ao sorriso em meia lua, aos abundantes fios cor de terra escura, enfim, a todo o conjunto que a faz dela o que é, e também quem é. Eu não a conhecia, não fazia ideia de como pensava ou agia, ainda assim... Esse sorriso, está vendo? Ele transparece a pureza, a inocência e a bondade. Não sei por que, mas toda vez que o olhava parecia ver através, e eu me perguntava: no que ela estaria pensando? O que estaria fazendo? Como ela reagiria quando me encontrasse? Conforme eu crescia, ela também amadurecia na imagem, tudo mudava, menos esse sorriso... Os dentes permaneciam a cintilar alegres e davam-me esperança. Quando desembarquei aqui, quando cheguei para o baile e a ouvi cantar, notei que tudo o que pensei sobre o que ela era não fora apenas um sonho. Vi a alegria, a doçura, a pureza, vi a menina das minhas fantasias e cada nota, cada verso da canção soou como se fossem para mim. Fiquei tão feliz... — fechou os olhos como se ainda pudesse sentir-se preenchido pelo contentamento do momento que narrava — E aí descobri que cheguei tarde, que tudo o que pensei que ela fosse, ela realmente era... Porém, não para mim... Para ele. Ele me tomou tudo o que eu tinha! E, sabe, o pior de tudo não foi ele tê-la tomado de mim, pois se ele sentisse pela princesa ao menos algo parecido com o que sinto eu me conformaria, ele a faria feliz ao menos. Não, aquele príncipe não sente nem metade do que eu sinto por ela! Ele surrupiou seus sorrisos, sua luz, ele não a ama por quem é, mas por quem ele gostaria que ela fosse. Isso me dói na alma! — fechou as mãos trêmulas, os cílios orvalharam, no entanto, nenhuma gotícula escapou — Me dói saber que eu poderia fazê-la feliz, se a mim o coração dela se inclinasse... Só que como poderá se inclinar para mim se roubado já foi?
Sailor Acqua manteve-se calada. Mesmo objetiva como era, ao ver os sentimentos de Damien transbordarem em gestos, em timbre e em seu espírito transparente como o cristal nas mãos, ela comoveu-se. Não haveria consolo para o infortúnio dele, qualquer frase amiga seria vã. A quietude era a escolha sábia. Parada, ali, ao lado, fechou os olhos e aproveitou-se da brisa, assim que passou ela disse em baixo tom:
— O que vai fazer?
— Pensei em partir, mas não sou de desistir fácil. — riu, tentando descontrair a ambos— Quero que ela me conheça, pelo menos.
— Excelente ideia! — enfim, ela sorriu também — Dê-lhe chocolates, é um bom começo. — riram juntos.
— Já que estamos aqui, que tal aproveitarmos? — estendeu-lhe a mão — Venha, vou te mostrar a minha nau.
— Obrigada! — empolgou-se.
...
— Rini, deixe Crystal, querida. — Helios massageou-lhe os ombros, ela estava sentada à beira da cama. — Você já foi diversas vezes oferecer comida, assim vai sufocá-la. Um dia sem comer não a matará, não se preocupe. Ela está triste, é natural que perca a fome...
— Diamante deu notícia? — ansiosa, perguntou enquanto batucava os dedos nos joelhos.
— Não, até agora não recebemos nenhuma transmissão...
— Tentaram comunicar-se com ele?
— Luna e Artemis tentaram diversas vezes, ele deve estar ocupado, deve ter muitos assuntos a resolver.
— Não estou gostando disso! — Levantou-se abruptamente, andou pelo quarto no bater de pés. — Toda vez é assim, não entendo porque é tão difícil nos comunicarmos com aquele planeta! Sedna é tão longe quanto e não temos esse tipo de problema!
— Querida, — foi até a esposa e abraçou firmemente — Não quero ser pessimista, mas temos de estar preparados para qualquer coisa. Sugiro que reunamos as meninas e iniciemos mais um treinamento. — beijou-lhe o topo da cabeça.
— Entendo o que quer dizer. — fechou os olhos — Espero que isso não passe de uma medida de precaução.
— Vamos falar com Sailor Saturno, ela saberá o que fazer.
— Você, sempre tão calmo e sábio... — fitou-o, admirada com suas feições traçadas em serenidade. — É tão bom tê-lo de volta! Só eu sei o que passei quando o levaram embora... — apertou-lhe a farda.
— Aquela garota era muito triste, Rini...
— Garota, que garota? — piscou os olhos, confusa.
— Era uma garota de longos cabelos cor de ametista, a mesma que vi em Elysium. Enquanto estive cativo, pude ver o verdadeiro sonho dela...
— E qual era?
— Conhecer o cheiro da grama e o calor do sol. – sussurrou pesaroso.
O coração de Rini apertou-se no peito, a sombra da culpa escureceu-lhe o semblante.
— Amanhã, bem cedo, conversamos com Hotaru. Está bom assim? — Helios mudou de assunto.
— Sim... — fechou os olhos tentando manter a calma.
...
Os olhos de Quartzy estremeceram antes de abrirem-se confusos, por meio segundo a jovem acreditou que tudo não passava de um terrível pesadelo... Levantou-se desnorteada, aquele não era seu quarto. À porta, deu-se com o vasto e escuro corredor. Caminhou cambaleante até o quarto onde a antiga soberana repousava e o viu vazio, a cama sem cobertas. Solitário... Como estava o coração dela. Levou a mão ao peito numa tentativa frustrada de conter a angústia, o amargor na garganta não passava, pelo contrário, aos poucos tornava-se em uma náusea insuportável. Foi até a cama, jogou-se sobre o colchão desforrado e ficou a fitar a si própria refletida no teto. Não havia mais o que chorar, nem a quem salvar. As mãos, inutilizadas, fizeram-na abraçar a si própria e virar-se de lado.
— Quartzy acordou. — no grande salão onde todos estavam, exceto Diamante, Jade anunciou. — Passei pelo quarto e o vi sem ninguém.
— Onde ela estará? — Saphiro perguntou.
— Isso não é meio óbvio? — Onyx, como sempre, respondeu irônico — No quarto da idolatrada falecida!
— E o seu irmão, quando resolverá superar a crise? — Topázio dirigiu-se ao príncipe caçula.
— Inacreditável! — Jade riu, embora se doesse de raiva.
Passos ecoaram, da escuridão o príncipe branco surgiu. O brilho nos olhos e nos lábios era um mistério. Silente, foi ao trono e sentou-se, elegante, cruzou as pernas e esticou a coluna, fazendo-se respeitável e nobre. Os súditos, em resposta, ajoelharam-se diante dele. Analisou cada um em detalhes: Jade, por trás da carranca, demonstrava disciplina. Onyx era instável, jamais seria possível adivinhar o que se passava no campo das suas ideias. Topázio, orgulhoso, embora ajoelhado encarava-o sem distrações, no entanto, era inteligente o suficiente para não mais questioná-lo. As gêmeas, coitadas, eram como duas crianças, Akai era espevitada e Aoi dócil como um cãozinho. Quartzy não estava, mas Diamante lembrava-se de como ela fora atenciosa para com Ametista, e, a falta de sensibilidade que havia em todo o resto esbanjava-se em oposição na dona dos cabelos rosados... Rosados como o entardecer no reino de Cristal.
— Onde está a outra? — pensando em Quartzy, ele perguntou. Como a maioria no vasto salão, o príncipe era frio e distante.
— Chorando por algum canto. — Onyx respondeu — Não ligue para isso, em algum momento ela há de superar. — falou como se fosse trivial.
— Não importa, deixem-na onde estiver. — piscou lentamente, depois focou-se no irmão. Este se mantinha em seriedade sóbria e quieta, nada tão diferente de como fora no passado. — Quero deixar claro que guerra não é a minha primeira solução. E, antes que contestem ou sintam-se ofendidos, quero dizer que isso não significa que eu a tenha descartado. Como príncipe, sou responsável pelo bem estar de todos nesse planeta, portanto, é meu dever encontrar uma maneira de dar conforto a cada um de vocês. Como estive afastado por muito tempo, não conheço o quadro em que Nemesis se encontra, portanto, creio que a minha primeira missão seja averiguar o que se passa e quais são as piores regiões para depois pensar em uma solução. Alguma pergunta?
— Majestade, pretende viajar pelo planeta, é isso? —Jade perguntou.
— Este planeta é pequeno, em poucos meses terei dado a volta nele todo. — respondeu em estado de calmaria. — Presumo que o cientista, alquimista, gênio e não sei mais o que possa me arrumar um veículo.
— Irá sozinho, irmão? — Saphiro se preocupou — Deixe-me ir com você!
— Não, você deve ficar. — foi autoritário — Caso algo me aconteça, é você quem deve tomar o meu lugar.
— Mas... — o mais novo deu um passo a frente.
— Não se preocupe, não sou louco de ir sozinho. — vidrou os olhos em cada indivíduo ali presente. — Você. — apontou Jade — Irá comigo. Está de acordo?
— Topázio conhece bem cada canto desse planeta, príncipe... — desgostosa, afirmou.
— Não sou idiota, sequer tonto de pedir para aquele homem me acompanhar depois de tudo... — riu-se— Mas, será que as acompanhantes dele não teriam um bom conhecimento do planeta?
— Mais ou menos... — Akai pensou alto.
— Ótimo, então venha você também. — Diamante decretou.
— O quê?! — a menina deu um salto e sacudiu os braços, feito criança malcriada — Mas aí eu vou deixar o mestre só para ela! Isso não é justo! — apontou Aoi e bateu os pés — Eu não vou!
— Você vai e fim de conversa. — Diamante levantou-se e cruzou os braços. Bastou arquear uma sobrancelha para que a garotinha baixasse a cabeça e fizesse um bico emburrado. — Acho bom não me contrariar!
— Akai, você vai. — indiferente, Topázio finalizou.
— Mas, mestre! — ela fechou os punhos, irritadiça.
— Não me faça repetir, Akai. — bastou que o cavaleiro dourado dissesse a temida frase e a zangadinha imediatamente se encolheu amedrontada. Nas pontas dos pés, em saltos infantis, a garotinha foi até Diamante e curvou-se, submissa a contragosto.
— Assim será. — o antigo e novo líder do clã levantou-se, jogou a capa para trás e calmamente se afastou — Reaverei meu antigo quarto — avisou — Há alguma garrafa de vinho no estoque?
— Duvido. — Onyx riu.
Diamante respirou fundo, buscando paciência em seu íntimo, jogou os cabelos celestiais para trás e abandonou o cômodo. A noite, madrugada, ou que hora do dia fosse seria longa.
— Onyx, vá arrumar o veículo. — Topázio ordenou.
— Irei junto. — Saphiro, desconfiado, prontificou-se. Não poderia confiar em qualquer um daqueles homens, suspeitava de que na primeira oportunidade eles atentariam contra a vida de seu irmão.
— Se quiser, podemos ir de braços dados. — o cientista jamais perderia a piada. — O que há? — insistiu ao ver Saphiro apertar o passo para longe — Como quer ir à frente se nem sabe onde estão as naves? — riu ao vê-lo estancar — É por aqui. — apontou o corredor à esquerda, enfim foram.
... E o tempo passou como sempre, sem luz a indicar um novo dia. Pelos ponteiros de um grande relógio em uma das torres do palácio, sabia-se que era, talvez, alguma hora matinal, ou seja, hora de acordar. Diamante despertou assustado, pois assim que abriu os olhos deparou-se com orbes-pêssego o encarando, vidrados. Antes que num impulso repelisse a criatura violentamente, deu por si que aqueles olhos grandes e cílios longos pertenciam à menina de curtos cabelos avermelhados.
— Está na hora! — ansiosa, se pronunciou.
— Saia do meu quarto. — respirou fundo —... Por favor. — completou.
Com os braços por trás das costas, a saltitar como se pulasse amarelinha, ela saiu. Quando ele menos esperava, a bonequinha de Topázio, sapeca, pôs o rosto para dentro do quarto novamente e mostrou-lhe a língua. A reação de Diamante foi uma risada espontânea, e a da garota foi a vermelhidão, só assim ela sumiu. Mal saberia que era sortuda, pois se o príncipe fosse o mesmo homem de um século atrás, a atitude de Akai não seria recebida como uma brincadeira.
Depois de se arrumar, Diamante encontrou Onyx, Jade e a arteira Akai no salão do trono. De lá, se permitiu guiar pelo cientista até se deparar com um óvni semelhante aos de sua época – um enorme ouriço lapidado em cristal negro.
— Achei que nesse o grande príncipe Diamante se sentiria em casa — num rodopio, Onyx o reverenciou — Além do mais, esse creio que saiba pilotar.
— Perfeitamente. — Diamante, destemido, encaminhou-se à nave alegórica. Jade o seguiu como se fosse sua guarda-costas.
Akai foi em saltos destrambelhados, antes que entrasse com os demais uma mão pesada segurou-lhe o queixo.
— Que bela criatura você é... — Onyx estreitou os olhos e sorriu malicioso — Cuide bem desse príncipe mimado. — sussurrou-lhe ao pé do ouvido — Tenho certeza de que seu mestre sabe dividir... —contornou a pequenina orelha com o ápice da língua.
— Você é doente! — impulsiva, socou-lhe a face. O asco foi maior ao vê-lo rir e lamber o filete de sangue que escorreu pelo canto da boca.
— Akai, você vai ficar para trás! — Jade gritou da entrada. Ninguém percebera a provocação de Onyx, ele a fizera em momento propício, a garotinha era infantil, mas nem tão inocente assim. Antes de impulsionar o corpo para em um salto entrar na nave, fitou o cientista mais uma vez e, com uma das mãos, fez-lhe um gesto obsceno ao apontar-lhe o dedo médio ereto. A resposta do dito cujo foi mandar-lhe uma piscadela.
Após mútuas provocações, finalmente, as portas do óvni se fecharam e o objeto levantou voo. A jornada do novo, ou melhor, antigo e verdadeiro soberano teria o seu início.
Calmo e distraído, Onyx passeou pelas pistas que faziam a volta ao redor do palácio, nos óculos a escuridão refletia sublime, os dentes brilhavam destoando da paisagem.
— Onyx. — o chamado o fez virar-se para dar de encontro com o dourado alumiando a penumbra.
— Topázio, tão cedo? — encaixou os óculos sobre a cabeça, e em uma das raras vezes, no movimento os fios negros abandonaram-lhe a face leitosa. Os aros em torno das lentes só não eram mais dourados do que os olhos e o peitoral chamuscado do soldado raivoso à frente. — Mande um abraço para o seu orgulho!
— Não é hora para isso, seu idiota. — aproximou-se, trazia em mãos aquele controle negro e arredondado, no centro uma luz piscava insistentemente.
— Ei, desde quando você... — ele apalpou por debaixo da manga do jaleco cinza, notou o vão — Espertinho! — arregalou os olhos.
— Está vendo essa luz piscar? — o outro perguntou.
—Sim, só não consigo entender... Como ela está piscando se todos os cacos de cristal negro foram destruídos?
— Não reparou nada no príncipe?
— Deixe-me ver... Depende do quê. Se é arrogante? Sim! Mimado? Ah, se é! Impulsivo? Nem me fale! Tolo? Fatalmente!
— Pare de brincadeiras, verme! — o cortou — Falo sério, não reparou nada em relação ao seu aspecto?
— Sem graça. — respondeu naturalmente — Parece um ancião.
—Nas orelhas. — especificou.
—... São grandes? — chutou.
— Imbecil! — bufou impaciente — Não, ele possui apenas um brinco!
Os dois, em consonância, fitaram o controle. Onyx o pegou em mãos, de uma das orelhas tirou o brinco e sobre o controle balançou a peça como um pêndulo.
— Meu pedaço de cristal negro deveria brilhar em contraste, mas não está acontecendo...
— Deve ser porque o brinco do príncipe ficou esquecido no palácio de cristal, com certeza é isso! — agitado, Topázio supôs — O palácio é protegido por um campo de força formado pela energia do Cristal de Prata, isso é o que ouvi falar.
— Então, como sugere que consigamos ter o controle desse mísero pedaço de cristal que, por ventura, o príncipe esqueceu na Terra?
— O gênio deveria ser você.
— Aff! — cruzou os braços — Está certo, pensarei em alguma coisa! Encontre-me no laboratório daqui a algumas horas, até lá já terei pensado em alguma coisa.
— Até lá. — ambos seguiram direções opostas.
Continua...
Fale com o autor